
(O autor adverte: esta é uma postagem
baba ovo)
Se alguém me
perguntar qual é o artista mais completo da música brasileira eu falaria sem pensar e nem pestanejar:
Ney Matogrosso.
Agora ele está em divulgação do DVD do disco
Beijo Bandido e estou me deliciando com as mil entrevistas que tem saído em revistas, jornais,
internet e televisão.
Ney Matogrosso é, no mínimo, o nosso
David Bowie. Ney Matogrosso mata a cobra e mostra o pau (ops!). Qualquer coisa que tenha o nome Ney Matogrosso é sinônimo de
qualidade. Sim, até porque ele não faz nada por fazer.
Tudo na arte dele é bem pensado e bem executado.

Não é exagero dizer que a
MPB até Ney aparecer era uma e depois dele se tornou outra. Suas interpretações e suas atuações são referência até para quem tem mais tempo de
carreira do que ele.
Em 1992 foi lançada uma biografia chamada
Um Cara Meio Estranho, escrita por Denise Pires Vaz (Rio Fundo Editora). O livro é
maravilhoso. Boa narrativa, boas histórias, bem editado, ótimo título e ainda adoro a capa (está fora de catálogo, mas é encontrado em sites como o
http://www.estantevirtual.com.br/).
Estou com ele em minhas mãos, folheando, vendo as fotos e tentando achar bons causos. Um deles (não achei, mas me lembro) é do período em que Ney vivia na rua como um
hippie que vendia seu artesanato e a noite dormia na praia. Ele tinha vários amigos e um deles costumava recebê-lo para
jantar (por vezes sua única refeição do dia) e um desses dias, após a refeição, seu amigo disse que ia a uma
cartomante e convidou Ney para acompanhá-lo. Depois de ler as cartas do
amigo, a cartomante perguntou se Ney Matogrosso também não queria tirá-las. Mesmo descrente tirou as cartas e em determinado momento ela lhe disse que sua vida iria
mudar completamente depois dos
30 anos. Claro que ele riu daquilo, afinal tinha 29 anos e dormia na
rua, então como isso poderia acontecer? Dito e feito. Com 31 anos Ney Matogrosso estava em São Paulo já como vocalista do
Secos & Molhados.

A banda de
João Ricardo virou a banda de Ney Matogrosso, tanto que, por mais que tentasse
ressuscitar, o Secos & Molhados verdadeiramente acabou com a saída de Ney (e de Gerson Conrad) em agosto de 1974, dias antes do
lançamento do 2º álbum. Essa saída aconteceu porque João Ricardo queria que Ney e Gerson
assinassem um documento se dizendo funcionários da
marca Secos & Molhados.
(Tem até a história de um show da banda onde tiveram que fazer por três vezes o bis de “Rosa de Hiroshima”, o que deixou João irritadíssimo a ponto de quebrar o camarim, apenas porque a música não era dele)
Ney
revolucionou a MPB nos anos 1970 e até inspirou o Kiss com suas maquiagens. Seu rebolado e suas provocações sempre foram inteligentes e deixaram de cabelo em pé o
Brasil conservador dos militares. Ele pensa no todo:
repertório, cenário, direção, roteiro, iluminação, concepção visual do disco e DVD (Ney antes da fama também trabalhou em teatro como ator e
iluminador).

Ney Matogrosso é
rocker. Começou como vocalista de uma banda de rock. Revolucionou até mesmo o show business do rock brasileiro dos anos 1980 ao dirigir o show de
RPM. Foi ele quem mostrou para essa geração 80 a importância de se ter uma boa
aparelhagem de som, uma boa iluminação, figurino e postura de palco. Depois que RPM fez o que ele
criou, a era das danceterias acabou e tudo mudou. Ney Matogrosso
colocou o rock brasileiro para tocar em teatros e a história conta o resto. Antes do RPM deu enorme força ao
João Penca (“Telma Eu Não Sou Gay”) e ao Barão Vermelho. Ele foi um dos primeiros a ver o talento de
Cazuza.
O show da turnê do disco
Vivo (1999) foi incrível. Com quase 60 anos parecia o Ney do Secos & Molhados. Hoje prestes há completar 70 anos parece ter 40 e está mais
lúcido do que a maioria dos artistas da velha guarda ou da nova
geração. Ele é um cara discreto, apesar de toda a revolução que já causou. Não fica aí aparecendo em revistas de
fofocas, ninguém sabe de sua vida pessoal, não mama nas tetas do governo com projetos de
incentivo, não se encosta em ninguém para se dar bem, não entra numas de gravar axé porque a onda é axé ou gravar bolero porque a onda é
bolero. Ney Matogrosso é independente em todos os sentidos. Não se repete. É um artista seguro, que tem
equilíbrio, conteúdo, sabedoria e elegância.
Escrevi esta postagem sem pesquisa, mais de
coração, como um fã. Como falei, Ney não se repete, por isso mesmo é difícil
indicar discos específicos, mas vale, no mínimo, conhecer sua discografia do 1º solo de 1975 até ao menos o
Pescador de Pérolas, de 1987. Há também uma ótima coletânea dupla lançada em 1996 chamada
Vinte e Cinco.
Longa vida ao Ney!
5 comentários:
Boa Paulão! Ney é gênio!!!!
Pizzaaaaaaa! Precisamos colocar a conversa em diaaaaaaaaaahhhhhhhh...
Ney é Ney!
Oi Paulo,
Como sempre, faço umas visitas por aqui e todas as vezes me deparo com bons textos.
puxa-saquismo de lado, eu não sabia que a maquiagem do Ney tinha inspirado o Kiss, lá do outro lado, eu pensava que era uma tendência, até porquê tinha o Alice Cooper e o time do joelho de porco, que vagamente e eu acho, que tb fazia uso de maquiagem... talvez o Taffo, bom, sei lá!
mas, é o máximo saber da força que os nossos bons representantes exercem sobre terras longínquas!
aproveito para deixar um abraço de aniversário e desejar tudo de bom para você e sua família.
Dag
Olá Dag! É sempre uma honra tê-la por aqui! Sim, nessa época a maquiagem fazia parte da moda glam, mas a que Ney fazia era diferente. No glam era um toque aqui outro ali e não com o exagero (no bom sentido) que Secos e Molhados fazia.
bjs!
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