25 de março de 2011

Ney Matogrosso

(O autor adverte: esta é uma postagem baba ovo)

Se alguém me perguntar qual é o artista mais completo da música brasileira eu falaria sem pensar e nem pestanejar: Ney Matogrosso.

Agora ele está em divulgação do DVD do disco Beijo Bandido e estou me deliciando com as mil entrevistas que tem saído em revistas, jornais, internet e televisão.

Ney Matogrosso é, no mínimo, o nosso David Bowie. Ney Matogrosso mata a cobra e mostra o pau (ops!). Qualquer coisa que tenha o nome Ney Matogrosso é sinônimo de qualidade. Sim, até porque ele não faz nada por fazer. Tudo na arte dele é bem pensado e bem executado.

Não é exagero dizer que a MPB até Ney aparecer era uma e depois dele se tornou outra. Suas interpretações e suas atuações são referência até para quem tem mais tempo de carreira do que ele.

Em 1992 foi lançada uma biografia chamada Um Cara Meio Estranho, escrita por Denise Pires Vaz (Rio Fundo Editora). O livro é maravilhoso. Boa narrativa, boas histórias, bem editado, ótimo título e ainda adoro a capa (está fora de catálogo, mas é encontrado em sites como o http://www.estantevirtual.com.br/).

Estou com ele em minhas mãos, folheando, vendo as fotos e tentando achar bons causos. Um deles (não achei, mas me lembro) é do período em que Ney vivia na rua como um hippie que vendia seu artesanato e a noite dormia na praia. Ele tinha vários amigos e um deles costumava recebê-lo para jantar (por vezes sua única refeição do dia) e um desses dias, após a refeição, seu amigo disse que ia a uma cartomante e convidou Ney para acompanhá-lo. Depois de ler as cartas do amigo, a cartomante perguntou se Ney Matogrosso também não queria tirá-las. Mesmo descrente tirou as cartas e em determinado momento ela lhe disse que sua vida iria mudar completamente depois dos 30 anos. Claro que ele riu daquilo, afinal tinha 29 anos e dormia na rua, então como isso poderia acontecer? Dito e feito. Com 31 anos Ney Matogrosso estava em São Paulo já como vocalista do Secos & Molhados.

A banda de João Ricardo virou a banda de Ney Matogrosso, tanto que, por mais que tentasse ressuscitar, o Secos & Molhados verdadeiramente acabou com a saída de Ney (e de Gerson Conrad) em agosto de 1974, dias antes do lançamento do 2º álbum. Essa saída aconteceu porque João Ricardo queria que Ney e Gerson assinassem um documento se dizendo funcionários da marca Secos & Molhados.

(Tem até a história de um show da banda onde tiveram que fazer por três vezes o bis de “Rosa de Hiroshima”, o que deixou João irritadíssimo a ponto de quebrar o camarim, apenas porque a música não era dele)

Ney revolucionou a MPB nos anos 1970 e até inspirou o Kiss com suas maquiagens. Seu rebolado e suas provocações sempre foram inteligentes e deixaram de cabelo em pé o Brasil conservador dos militares. Ele pensa no todo: repertório, cenário, direção, roteiro, iluminação, concepção visual do disco e DVD (Ney antes da fama também trabalhou em teatro como ator e iluminador).

Ney Matogrosso é rocker. Começou como vocalista de uma banda de rock. Revolucionou até mesmo o show business do rock brasileiro dos anos 1980 ao dirigir o show de RPM. Foi ele que mostrou para essa geração 80 a importância de se ter uma boa aparelhagem de som, uma boa iluminação, figurino e postura de palco. Depois que RPM fez o que ele criou, a era das danceterias acabou e tudo mudou. Ney Matogrosso colocou o rock brasileiro para tocar em teatros e a história conta o resto. Antes do RPM deu enorme força ao João Penca (“Telma Eu Não Sou Gay”) e ao Barão Vermelho. Ele foi um dos primeiros a ver o talento de Cazuza.

O show da turnê do disco Vivo (1999) foi incrível. Com quase 60 anos parecia o Ney do Secos & Molhados. Hoje prestes há completar 70 anos parece ter 40 e está mais lúcido do que a maioria dos artistas da velha guarda ou da nova geração. Ele é um cara discreto, apesar de toda a revolução que já causou. Não fica aí aparecendo em revistas de fofocas, ninguém sabe de sua vida pessoal, não mama nas tetas do governo com projetos de incentivo, não se encosta em ninguém para se dar bem, não entra numas de gravar axé porque a onda é axé ou gravar bolero porque a onda é bolero. Ney Matogrosso é independente em todos os sentidos. Não se repete. É um artista seguro, que tem equilíbrio, conteúdo, sabedoria e elegância.

Escrevi esta postagem sem pesquisa, mais de coração, como um fã. Como falei, Ney não se repete, por isso mesmo é difícil indicar discos específicos, mas vale, no mínimo, conhecer sua discografia do 1º solo de 1975 até ao menos o Pescador de Pérolas, de 1987. Há também uma ótima coletânea dupla lançada em 1996 chamada Vinte e Cinco.

Longa vida ao Ney!

18 de março de 2011

Divulgação e os Direitos Autorais

Este é um assunto delicado, eu sei. Também não sou nenhum expert deste tema, mas convivo com isso. Assunto que mexe com o bolso, mas não me preocupa o bolso dos intermediários e sim o do autor da obra. Essa é uma área cheia de contradições e que eu não consigo entendê-la 100%.

É sabido (e óbvio) que existem mídias diferentes: rádio, televisão, internet, celular. Para cada uma delas há um tratamento diferenciado. Mas uma das coisas que me deixam embasbacado é o fato de você não poder usar um videoclipe sem autorização e dependendo para o que for, a autorização não é dada.

Na minha cabeça isso não é cabível, uma vez que a função do videoclipe é a divulgação. Assim como para um filme há o trailer, o álbum de músicas tem o videoclipe. Se é um produto feito para divulgação, então porque cobrar ou proibir seu uso? (a mesma colocação serve para as tais fotos de divulgação).

Deveria haver uma política diferenciada para a chamada música de trabalho, porque as gravadoras que pagam jabaculê para executá-las, deveriam ser obrigadas de alguma forma a liberá-las. É engraçado a gravadora preparar um produto, escolher algumas músicas que ajudarão nas vendas, pagar para as mídias trabalharem tanto a música, quanto o álbum e o artista, mas jogar a responsabilidade de pagar pela sua execução ao veículo em questão. Oras! Se já paga uma verdadeira fortuna para a música ser tocada, então porque não pagar a sua execução? Pior ainda se não há dinheiro na negociação e sim troca de favores.


Nós profissionais da área de entretenimento sofremos com esse tipo de burocracia que não faz o menor sentido. É estranho o fato de eu não poder usar a imagem da capa de um álbum cujo próprio artista cita-o numa entrevista. É estranho não poder usar a imagem de um clipe, uma foto ou qualquer outra imagem de arquivo que possa servir de ilustração para uma entrevista. Se eu entrevisto o Paralamas e a banda fala de Selvagem? é tão burocrático para colocar a capa para ilustrar esse momento que os envolvidos acabam desistindo de tentar sua liberação sem ao menos tentar. É preciso da autorização de todos os envolvidos na realização da capa. Complicado... mas por que se a gravadora pagou para ela ser feita? Portanto a capa não é da gravadora e da banda? Pra quê então pegar autorização de todos os envolvidos? Não entendo...

Essa discussão é esquisita, mas acredito que isso deveria estar bem claro nos contratos assinados entre artistas e gravadoras. O que não pode é deixar de pagar o AUTOR pelo uso de sua obra, e também prejudicar o consumidor. Esse assunto deveria ser discutido entre artistas, gravadoras, editoras e órgãos como ECAD, até por respeito ao consumidor. Ou então que se esclareça tanto para profissionais, quanto para o público, o que pode e o que não pode. 

Sei que como é, esta errado. Pior é que o consumidor, o público nem sabe que sai perdendo com isso...

14 de março de 2011

Série O Resgate da Memória: 18 - Debate Bizz Rock Brasileiro (6 de 6)

Revista Bizz - fevereiro/1988
Debate Rock Brasileiro - Parte 6
Que barulho é esse?


Herbert - Hip hop não é divulgado no Brasil, nenhuma gravadora lança, e tem pelo menos um milhão de pessoas que dançam hip hop no Rio, todo fim de semana. ("Aqui também: emenda algum paulistano).
Renato - Eu só quero dizer uma coisa, pelo menos no que acontece em relação à gente: a única coisa que nós queremos é voltar a tocar para público pequeno. E a gente já sabe que não vai poder fazer isso, porque senão a garotada vai se machucar... Não dá para tocar para mil, mil e quinhentos jovens, senão eles se machucam. Em Belém aconteceu isso, ficaram seis mil do lado de fora, tinha dezesseis mil... Na Quinta da Boa Vista, no Rio, que é enorme, o pessoal não deixou... Eles disseram: "Uma coisa é a orquestra do Isaak Karabitchevisky tocando lá com papai, mamãe, mas se o Legião for,lá, gente vai se machucar".
Lemos - Se você quer fazer isso, usa outro nome, como os Pistols (ou os Stranglers, que de vez em quando dão shows em clubes minúsculos, na Europa, sob nome falso).
Scowa - A gente só está repisando coisas que a gente já sabe. A gente já sabe como funcionam as gravadoras, a gente já sabe o que cada um passou.
Gutje - É, a gente está se repetindo. Agora, a maneira de sair disso, ninguém acha...
Scowa - (gritando, no meio da confusão que se instala). Mas é aí que está. Estamos aqui para conversar sobre as possibilidades...
Gutje - Eu acho que se for para achar uma saída, a coisa não vai ficar em uma, duas horas de conversa. Então, se alguém está a fim de fazer alguma coisa séria...
Scowa - Eu proponho que a gente vire a Grécia... (balbúrdia).
Hermano - Alguém aí sabe qual é o problema, para encontrar a saída? (nova gritaria).
Nasi - Eu acho que essa conversa está parecendo a conversa do primo rico com o primo pobre (risos).
Lemos - Eu não acredito em movimento de artistas (discussão).
Charles - (bocejando). Eu também não.
Nasi - Mas existem interesses comuns que podem ser trabalhados...
Lemos - Para mim, 87 foi o ano mais importante para o rock nacionaL Foi o primeiro ano que teve discos bem produzidos com som de peso, tá evoluindo pra c.!
Paulo Ricardo - É que contrastando com 86 ele fIcou esquisito, mas a gente não percebe que é o primeiro ano de uma nova ordem!
Lemos - Esqueça as vendagens, olhe o som!


Sônia - Eu queria passar o microfone de mão em mão, e ver qual é o ataque final de cada um...
Paulo Ricardo - Em fevereiro agora a gente vai laçar o fotomix com a música "Quatro Coiotes".
Lemos - O que é fotomix?
Paulo Ricardo - É um picture disco.
Thomas - É a história do disco gravado em inglês, citado na revista (americana) Billboard?
Paulo Ricardo - Essa história é a seguinte: nós, na nossa ávida conquista do sucesso, fomos a Nova York encher o saco da CBS, que a gente queria lançar um disco em inglês de qualquer jeito, e eles marcaram para setembro. Mas aí, quando a gente acabou, ficou tudo tumultuado. Essa entrevista para o cara da Billboard eu dei antes...
Thomas - Você acha que o disco ia vender?
Paulo Ricardo - Eu acho que ia vender pra c., porra!
Scowa - Vocês sentiram firmeza? (risos)
Paulo Ricardo - ...Depois,lá pelo dia 20 de março, vamos lançar o LP, e lá para abril a gente vai para a estrada, a via saem...
Lemos - Quando a BIZZ sair com este debate, a gente já vai estar na estrada desde 9 de janeiro, com palco novo, e fazendo o terceiro LP, pra nosso querido Alex não falar que é lixo... (risos).
Charles - A gente, aqui, se bateu, não debateu. Eu vou me restringir a falar do mercado. Eu acho que as bandas têm também que pensar no fator da economia, que tá fodida, e levar isso em consideração. Então, a qualidade do show talvez possa cair com isso, cenografia, luz e som. A gente pensa nisso porque nosso show é supercaro. Inclusive uma coisa que atrapalha é essa coisa de todo mundo aqui ficar se espelhando no que acontece fora do Brasil. "Na Inglaterra é assim".
Scowa - Eu, quero convidar todos aqui para verem meu show. Cabe só duzentas pessoas, mas se apertar cabem 250... Acho que se o Butantã estivesse aqui, bicho, ia ter muito soro aí pra fazer... (o microfone é passado para Carlos Maltz. dos Engenheiros).
Scowa - Ele não falou nada ainda (todo mundo em coro:Fala!! O que você,caladão aí, achou de toda essa história.?
Carlos - Eu me sinto constrangido porque a gente tem muito pouca coisa a acrescentar, a gente não veio do circuito underground - mas respeito pra caramba quem batalhou alí. Somos três garotos classe média que não tinham nada pra fazer... Até tenho pouca vontade de ser sincero aqui com vocês. Prefiro ser sincero no trabalho... Pega a biografia do Dylan: 90 por cento é fantasia, e é o que interessa. Os outros dez por cento são números de vendas... Tirante a fantasia e os número de vendas, sobra pouca coisa. Passou cinco anos; quem é que vai se lembrar? Eu só acho que não dá para abrir mão das tuas canções... Aí, ó: ser virgem nas canções, na composição. Na divulgação, sou uma putana.
Paulo Ricardo - (gritando) Muito bem! Exatamente! Definiu, definiu...
Carlos - Na real: todo mundo tá cada um na sua, esse sindicato aí eu estou fora. Acho que é cada um por si, e é até divertido esse lance. De repente, a gente é tão pequeno na jogada... A Volkswagen acabou com o Fusca, que era muito mais histórico do que todo mundo aqui junto. Na maior. (risos, cortina rápida).

13 de março de 2011

Série O Resgate da Memória: 18 - Debate Bizz Rock Brasileiro (5 de 6)

Revista Bizz - fevereiro/1988
Debate Rock Brasileiro - Parte 5
Que barulho é esse?


João - Mas uma coisa que eu sempre quis saber é o que vocês entendem por rock, aqui no Brasil. O que é rock para vocês?
Jean-Yves - O rock é um estado de espírito...(alguém vaia).
Lemos - Rock, hoje em dia, é uma palavra que não significa mais nada. Nem rebeldia nem nada. Rock vende sabonete na televisão, vende vodka na televisão...
Scowa - ... E a atitude... (discussão generalizada).
Herbert - Que atitude, Scowa? É música, as pessoas fazem música, e quem quer música usa os meios para vender, quem não quer...
João - ... Mas não dão espaço para as pessoas, cara. Pra você vender um disco você tem que tirar a distorção da guitarra e cantar "Ai meu Deus do céu, porque a vida..!´
Herbert - Não senhor. A Legião tirou a distorção da guitarra? Não tirou.
Sandra - Sem espaço nas rádios, não dá pra ser independente...
João - Ratos de Porão nunca vai tocar na rádio, cara, nunca.
Herbert - (irônico) Que bom, heim?
Paulo Ricardo - Vocês preferem morrer do que tocar para um monte de gente, eu acho isso absurdo. Vocês são cheios de preconceitos com o público, pô.
Renato - ...Não sei, eu não entendo dessas coisas, porque eu nunca fui proletário nem nada, mas quando os Pistols bateram, bateram pra caramba... A gente tocava pesadíssimos, entendeu? Agora, a gente tinha uma formação e classe média, tinha mais acesso a outras coisas...
João - A gente também quer que mais gente conheça nosso som, mas as pessoas não dão esse espaço...(balbúrdia. Frase entreouvida: "Eles não querem é tocar no Chacrinha")
Lemos - O problema não é tocar no Chacrinha. Se o Chacrinha fosse o culpado de tudo... (balbúrdia. " A gente matava o Chacrinha", alguém completa).
Herbert - E os Inocentes? O que você acha dos Inocentes?
João - Não acho nada, cara.
Paulo Ricardo - Você acha que eles perderam a inocência?
João - Perderam a inocência e viraram cafrengas, pronto (risos).
Herbert - Que é isso, cara? As guitarras de "Pátria Amada" são as mais pesadas e mais bem gravadas que eu já ouvi...
João - Não é, cara, a gente conseguiu reunir dois públicos, o punk e o heavy. Público heavy é na maioria molecada, que tem 12, 13 anos: Eles compraram nosso disco, e a gente está conseguindo misturar isso. Tanto que no nosso show tem de tudo, careta, cabeludo...A gente não tem preconceito.
Paulo Ricardo - Tem sim. Se você for ao Chacrinha vai ter uma porrada de gente que não tem acesso a São Paulo, aos Porões de São Paulo... (começa uma discusSão aberta entre João Gordo e Paulo Ricardo, com todo mundo dando palpites).


Charles - Deixa eu falar uma coisa... Vocês estão pensando em termos de mercado como uma coisa só, e não é. Supondo que isso fosse um bolo, existem fatias grandes, fatias pequenas... Eu me identifico tanto com o trabalho dos Ratos de Porão quanto com o dos Paralamas, que são duas coisas completamente distintas... O nosso disco anterior, o Cabeça Dinossauro não tocou no rádio. Quando levaram na Jovem Pan, o cara falou: "Não vou tocar essa merda". Foi tocar no rádio muito depois, e na Jovem Pan nunca tocou. Nunca, verdade. (discussão com Paulo Ricardo: "Tocou, não tocou? Ou você acredita na minha palavra ou não. Não tocou, mas vendeu! Depois de seis meses, quando chegou a um número de vendas, aí a gente se perguntava: "Mas não toca na rádio, como é que a gente pode vender?" Com o terceiro disco, nós fomos simplesmente excluídos do rádio. E descobrimos um mercado que estava à parte, que pensa fora dos meios de comunicação. A gente, por uma sorte, atingiu esse mercado que comprou nosso disco. Eu acredito que de a ser em torno de cem mil... Existem cem mil consumidores no Brasil que pensam com coerência...
Lemos - Está acontecendo a mesma coisa com a gente. Estamos chegando a cem mil discos vendidos e não tocou, tocou pouco...
Scowa - Dizem que "Tique-Tique Nervoso" (sucesso de Kid Vinil), que tocou tanto que ninguém agüentava mais ouvir, vendeu só vinte mil cópias. Quer dizer, tocar no rádio também não garante...
Charles - Então, existem mercados... mercados que se comportam... Deixa eu concluir... Então quando a gente pensa em cifras maiores... (Paulo Ricardo faz piadinhas e atrapalha o raciocínio do titã).
Charles - Cê tá foda, Paulo Ricardo!
Lemos - Está precisando de palco (risos, confusão. "É, você está precisando de uma mordaça", diz alguém).
João - Tá precisando de... (faz um gesto obsceno).
Lemos - Cem mil é perto da circulação da BIZZ, e chegam centenas de cartas por mês de gente que não é nem um pouco burra. Gente que, se você escreve o nome de alguém errado, manda pelo menos vinte cartas. Eu fiz uma crítica do segundo LP da Legião, teve um cara que escreveu uma carta me xingando, tirou trinta xerox da carta e mandou as trinta, todo dia chegava uma (risos), quer dizer, tem que respeitar esse pessoal O rádio não faz a cabeça deles. Só que eles são ignorados. Eles são a base - já existe um público crítico e inteligente. Cem no mínimo.
Alex - Esse público interessado existe, sabe? No Paraná, com o Akira S, a gente viveu uma experiência genial. A gente foi pra lá junto com o... como é que chamava aquele grupo?... Uns caras que estavam tocando na rádio. Era um desses grupos que imitavam o Police. Chuta aí. (Duas ou três pessoas respondem: "Os Paralamas!" risos).
Alex - Não, não era esse (risos). Os caras convidaram a gente para abrir o show deles, por acaso, porque outra banda não topou. E os caras já eram mais ou menos conhecidos, tinham um hit no rádio, e ficaram putos da vida, porque em Londrina, no Paraná, a gente acabou aparecendo para a midia como banda excêntrica, inovadora, não sei o que... E as pessoas andavam atrás da gente na rua, a imprensa local nos procurou, não procurou a outra banda... Os caras (era o grupo Degradée) depois queriam expulsar a gente do ônibus... Então existe, eu estou clamando aqui pelo reconhecimento desse público e pela abertura desses canais, porque a partir disso as bandas que têm alguma coisa a dizer encontram seu nível, adequam os seus preconceitos aos pré-conceitos da sua platéia e foda-se! É essa a diferença, porque existe dentro dessa sala gente que quer chegar à massa, aos milhões, tem nego aqui que já é chegou, e tem nego que nem pretenda isso.

12 de março de 2011

Série O Resgate da Memória: 18 - Debate Bizz Rock Brasileiro (4 de 6)

Revista Bizz - fevereiro/1988
Debate Rock Brasileiro - Parte 4
Que barulho é esse?


Paulo Ricardo - A gente; com o perdão da palavra se fudeu. Porque nós somos péssimos empresários. Você tem que ter um saco, um carinho pela parte numérica da coisa. No que realmente eu não tenho o menor interesse. E a gente esbarrou com o Plano Cruzado II, ninguém tinha um puto, todas as pequenas empresas que abriram em 86 faliram, e a gente já tinha colocado todo nosso cacife até aquele momento, e aí não tinha mais. A hora em que o disco estava pronto, ai tinha que começar um puta trabalho, de ter um cara para levar o grupo a radio, tudo que é AM e FM, encher o saco, marcar um monte de entrevistas, ter um cara de imprensa para ir lá na BIZZ, bota lá a foto dos neguinhos, ficar ligando...
Gutje - E vocês chegaram a ficar com discos encalhados?
Paulo Ricardo - Ta lá, tem milhares de discos, quem quiser pedir pelo reembolso postal...(risos).
Scowa - Dê repente você produziu um disco como o do Cabine C esperando conseguir as mesmas coisas que você conseguia como contratado de uma grande gravadora... Se fosse assim, não existiria nem o pessoal do heavy em Belo Horizonte (o Cogumelo Discos), não sobreviveria nem a Baratos Afins, em São Paulo. O grande problema á fazer alguma coisa pensando no padrão das bandas bem sucedidas...
Gutje - Dar o passo maior que a perna...
Herbert - Mas Scowa, tem que ser competitivo, não tem mercado. Ou compete ou sai fora.
Lemos - Eu acompanhei, de certa forma, o trabalho do Baratos e Afins e da Wop Bop (outro selo independente paulista). Até gravar o disco, tudo bem. O problema é a distribuição, tinha que haver algo como o Cartel na Europa ( a distribuidora que reúne vários Selo independentes, que no exterior já comportaram sucessos como o dos Smiths - só recentemente capturados por uma grande gravadora - e New Order). Divulgação é bobagem...
Herbert - O que é isso, cara?!
Lemos - É bobagem. O pessoal das gravadoras raciocina sempre do mesmo jeito: fazer um release, uma festa, um avião com uma faixa mas no fundo essas coisas nem sempre influenciam muito. Eu sinto que no público de rock a coisa é muito mais boca-a-boca...
Paulo Ricardo - Música tem que tocar no rádio, pra todo mundo ouvir...
Lemos -...se o Violeta de Outono for ao Chacrinha, por exemplo, eles vão perder o público deles, vão se queimar ... Isso aconteceu com o Muzak que era uma banda exclusivamente underground. No momento que eles foram no mainstream, o público deles os abandonou e eles não conquistaram público novo. Isso acontece, sei que o Violeta não vai ao Chacrinha não porque eles achem o Chacrinha o Anticristo, mas porque eles sabem que correm o risco de perder o público deles e não ganhar ninguém (discussão generalizada).
João - (se sobressaindo do berreiro) Ninguém dá atenção pra mim só porque eu sou independente (risos)! É o seguinte; cara, todo mundo falou, falou, falou, um monte de coisas de gravadora, não sei de que; milhões, receber isso, aquilo, todo mundo empapuçado de tocar, tédio, muitos meu Deus! A gente está completamente por fora disso. É o seguinte, a gente tem anos, a gente viu Plebe no Napalm, Legião no Napalm, deu risada do RPM no Madame Satã (casas noturnas paulistanas, se apresentam as bandas em início de carreira). Paralamas abriu uma vez para os punks no morro da Urca, no Rio, e recusou a borboletinha de segurar os pratos bateria, emprestada, por nós... (risos).
Herbert - Só uma aparte. Foi porque a gente tinha feito o mesmo um mês antes de irem, e o pessoal roubou um monte de pedais que a gente tinha suado para comprar.
João - Não, isso é antigo, só estou falando isso porque eu presenciei tudo, cara. Eu acho que o nosso destino é ser underground para sempre. A gente não se interessa por esse monte de coisas que vocês estão discutindo aqui.


Paulo Ricardo - O Lemos disse que se o Violeta de Outono for ao Chacrinha eles te queimam. Se vocês forem ao Chacrinha vocês acham que se queimam?
João - Cruz credo, cara. Eu prefiro morrer do que ir ao Chacrinha.
Lemos -Mas ao mesmo tempo, João, o país é grande, tinha que ter um sistema de distribuição. Tem gente no Pará que de repente ia adorar os Ratos de Porão. Essas pessoas tem que receber esse disco...
Sandra - Para ele ir ao Pará, tem que ir ao Chacrinha.
João - Eu prefiro "pará" do que ir ao Chacrinha...(risos)
Sandra - Não, é verdade. Para você show no Nordeste; você tem que a umas três vezes no ChaCrinha, Senão alguém te leva.
Paulo Ricardo - (para João) Posso um cigarro dos seus? (espantado). Pô, ele é o único independente do mundo que fuma Gauleses (uma marca de cigarros francesa)! O Brasil é o país dos contrastes! (risos. Alguém parodia: "Que cigarro é esse?´?
João - ... Outra coisa, o Renato falou contato com o PÚblico. Eu acho que bandas que estio aqui a que tem maistato com o público é a gente. Ontem mesmo, no show, a platéia subiu em cima palco e ficou. Fazer o que? Tirar os na porrada?
Nasi - Mas eu acho que há várias formas de se fazer isso. Ninguém sobe no nosso palco, mas depois do show a gente sai, entra no meio das pessoas.
João - Prefiro morrer a tirar a distorção da guitarra, cara.
Herbert - É bonito, isso...
João - A gente está aí há seis anos, vocês com dois, três, já estão com o rabo cheio de dinheiro. E a gente continua insistindo no nosso radicalismo, no peso, gritaria, barulho, falando mal de todo mundo...
Thomas - Eu posso falar um pouco disso porque a banda em que eu toco, Fellini, está na mesma condição que os Ratos de Porão, mas fazendo um som bem diferente deles. Temos uma postura intermediária - gente tem interesse no que acontece nas gravadoras grandes, mesmo porque acho que a nossa sobrevivência depende disso, da gente descolar uma gravadora agora.
João - Vocês iriam no Chacrinha?
Thomas - Não, não iríamos. Mas concordo com o Lemos, eu acho que tem coisas que você pode abrir mão numa boa, para conseguir uma certa divulgação, alternativa. Mas não sou pessimista... toda essa trajetória da feitura do disco ao consumidor tem que ser feita selecionadamente. Não adianta você querer enfiar o disco do Fellini no atacadista, mesmo que você tenha uma empresa de distribuição que possa fazer isso. O atacadista não conhece, não vai comprar. Você tem que levar direto às lojas - todos os centros urbanos têm lojas especializadas em discos independentes. Tem Câmbio Negro em Belo Horizonte, tem Wop Bop, a Baratos Afins, a Bossa Nova em São Paulo, tem não sei o que em Porto Alegre... Mas vocês, Ratos, têm público, fazem show e tal... Se vocês não tiverem essa preocupação com gravadora, vai acontecer com vocês o que está acontecendo com gente, vocês vão terminar. Vocês vão ficar de saco cheio... (discussão generalizada)
Scowa - Eu sou músico há quatorze anos, bicho, acho que eu sou músico há mais tempo que qualquer um aqui, já passei por tudo que vocês podem imaginar, morei fora , do Brasil... Não concordo com esse negócio que você está dizendo, de que os Ratos vão morrer por ter ou não ter gravadora. De jeito nenhum! Se você fizer o disco independente se você tem um público, você sobrevive com ele, sem precisar tocar em rádio, sem nada...
Herbert - As pessoas estão falando aqui em alternativas... Eu acho que as bandas que estão aqui, as que fizeram sucesso, mudaram o rádio brasileiro, numa época em que não se tocava rock. Lembro das discussões da Odeon,quando a Legião estava gravando o primeiro disco: "Não, isso não vai tocar no rádio", e tocou! Então essa é a história do diferente, de manter a radicalidade...

11 de março de 2011

Série O Resgate da Memória: 18 - Debate Bizz Rock Brasileiro (3 de 6)

Revista Bizz - fevereiro/1988
Debate Rock Brasileiro - Parte 3
Que barulho é esse?


Lemos - Parece que não há nenhuma instituição confiável. Por que é que não existe nem uma parada de discos confiável?
Jean-Yves - O Ira! teve um hit, "Flores em Você" que abriu uma novela (O Outro) durante meses e meses. Vocês receberam o retorno do disco?
Nasi - Quem recebe o retomo é o Edgard, é o autor da música. O que a gente recebe é insignificante...
Paulo Ricardo - Mas a Globo não te paga todo dia uma carinha?
Nasi - Não, a gente recebe o referente ao que foi vendido do disco da Som Livre, com a trilha... (começam várias discussões paralelas sobre direitos autorais).
Herbert - Eu vejo que nem todo mundo é bem informado. Vamos segurar a barra dessa discussão para não descambar em problema genérico...
Renato - Vamos falar mais de música...
Paulo Ricardo - Vamos fazer um som, porra! (balbúrdia, Alguém comenta que há bateria na sala ao lado. Depois de alguns minutos o debate reinicia).
Nasi - Eu quero dizer o seguinte: a juventude tem muito poucos canais de contato o artista. E o grande canal ainda é o que na minha opinião é um programa extremamente fascista. É um programa que os jovens que vêem, mesmo bodeando do programa, só pra ver certos artistas, no final acabam embaçando tudo na cabeça. O Chacrinha não vaí te dar espaço para você falar, quando muito é um beijinho nele ou coisa assim. E você saiu, acabou de tocar uma música, aparece uma placa: "Sarney, valeu, mais cinco anos", ou "Brizola, quero que você se f*"...
Jean-Yves - Eu vi os Titãs no Chacrinha sábado, e o Chacrinha no final da música começou a cantar exatamente o contrário da letra, um desrespeito.
Nasi - Eu não falo só em Chacrinha porque eu não acho esse o único ponto. Tem o lance das rádios livres... Acho que as rádios estão muito caretas e, queira ou não, a gente toca nessas rádios...
Herbert - Acho que é necessário compreender essa coisa das rádios, de que tanto se fala hoje. É que com o acesso à tecnologia, o cara que escutava AM lá na puta-que-o-pariu, agora tem um rádio FM. Então não é que tenha mudado. É que simplesmente entrou para a faixa de ouvinte de FM um público que não ouvia quando a rádio Cidade começou no Rio de Janeiro, e tinha um formato superlegal, ou quando a Fluminense chegou a estar em segundo lugar de audiência...
Nasi - A 97, aqui em São Paulo, também chegou a ,ficar em segundo.
Herbert - Pois é. Mas é uma coisa recente - esse público teve acesso a esse material, e é um público que participa mais da rádio do que a garotada classe média que era o Nosso público, que fez das bandas que estão aqui os manda-chuva da música brasileira... Hoje em dia não é assim, porque aquele cara que ouve o José Augusto se emociona com aquela música do sábado, ele liga pra rádio, ele chora... Então não é que tenha se transformado, simplesmente diluiu. A gente tem que entender que nosso público não desapareceu. Pô, outro. dia a gente tocou no Ibirapuera (parque em São Paulo), e tinha treze mil pessoaS lá. Aí o Tutinha (diretor da rádio Joven Pan) estava lá, e falou: "Pô, eu me sinto super culpado, essas pessoas não ouvem a minha rádio, eu estou desprezando esse público..."


Renato - No nosso caso eu sinto falta, por mais qUe tenha público, de uma outra coisa totalmente diferente de ter um canal para conversar com a garotada. Pô, de que adianta a gente falar das coisas em que acredita, Titãs falarem, Ira! falar, se não tem resposta? Parece que é uma coisa de verniz, de consumo brabo mesmo..O público não está agilizando, nem um pouco. Eles ficam cantando, cantando, cantando mas depois vão lá, sabe, bater em preto... A gente está cantando certas coisas, entra por um ouvido e saí pelo outro. Teve aquele incidente de São João Del Rey, com os músicos do Lobão, e de repente você fica se perguntando: "Pô, esse é que é o nosso público?". E de repente é um descrédito, uma falta de esperança.
Paulo Ricardo - Pô, a gente não pode anular, em dois anos de hit parade, vinte anos de...
Renato - Não (gritando), mas pera aí, poxa, o pessoal tá ouvindo as coisas que você fala, ou eles acreditam ou não! Eu acho que talvez seja esse o problema do rock no Brasil: estão ouvindo rock como quem ouve pop! Porque a garotada que foi ver o Cure lá no Maracanãzinho foi, acabou, não ficou nada.
Paulo Ricardo - Eu acho que você está cobrando muito do público, esse pessoal é muito novo.
Gutje - Não, cara, o pessoal que tem 13 anos hoje em dia não é a mesma cabeça do pessoal que tinha 13 anos há dez anos atrás... O pessoal já vai para a cama.
Paulo Ricardo - Mas, pô, você tem que demonstrar, não adianta ficar falando faça isso, faça aquilo. Aí já política.
Nasi - Eu acho que existe a comunicação não só através das palavras, mas da tua atitude; teu comprometimento. Eu acho que essa onda de música romântica de que vocês falaram é um puta papo furado, não existe momento menos romântico no pais, no Terceiro Mundo, do que agora. Nesse momento é que o rock, que a música jovem tem uma importância maior, e tem de servir como porta voz de uma geração que está completamente... não digo desenganada, porque eu acho que o jovem sempre tem uma esperança, mas que está completamente confusa quanto à sua expressão.
Alex - Eu acho que aí há um ponto de contato entre as duas discussões que aparentemente rolaram separadas, a do problema de mercado, de tratamento de gravadora e mídia, e essa segunda, que é a do acesso da juventude a uma música própria. No período pelo qual gente passou, as bandas que estouraram foram simplesmente vampirizadas pela mídia e pela indústria, deixando o Russo, por exemplo, um dia, em cima de um palco, se perguntando: "O que eu estou fazendo aqui?" Eu acho que a reversão dessa situação, encontrar esses canais, esta muito menos na mensagem da sua música, mas nas formas de aprocimação com o publico. E aí eu acho que a gente tem, forçosamente, que tocar nessas questões numéricas e burocráticas, de quem vende, de quem faz, como é que você chega nos caras. Em princípio eu tinha achado importante quando o RPM, usando todo o cacife adquirido dentro do mercado, aplicou essas fichas em um selo independente.

10 de março de 2011

Série O Resgate da Memória: 18 - Debate Bizz Rock Brasileiro (2 de 6)

Revista Bizz - fevereiro/1988
Debate Rock Brasileiro - Parte 2
Que barulho é esse?


Lemos - Fico um emaranhado, a gente não sabe bem por onde puxar o fio. Há muito coisa para se resolver - por exemplo, direitos autorais. Tem uma mamata - muito grande aí que é a seguinte: as editoras musicais(que fazem o registro das composições, e cobram os direitos de execução e venda) selo das gravadoras. Então, não tem controle possível lá fora, nos Estados Unidos, na Europa, isso é impensável. As editoras cobram das gravadoras...

Gutje - É, o artista que vende cem mil cópias nos Estados Unidos está quase rico.
Renato - Eu acho que no Brasil a coisa mais interessante é que as bandas principais, são todas muito, mas muito boas. Às vezes a gente não percebe isso. Então, o Bruce Springsteen, ou o Michael Jackson, com quatro hit singles (sucessos lançados em compacto), vendem 35 milhões de cópias. No Brasil, quatro sucessos, é o mínimo para se vender cem mil cópias de um LP! Todas as bandas aqui, até o Ira!, os Titãs, a gente, é sempre assim: quatro, cinco sucessos e você trabalha em um formato só, nós não podemos lidar com o single, porque isso não existe, aqui você só lança álbum, não há definição de mercado... A imprensa vem te entrevistar citando toda a história do rock´n´roll, mas a parte da estrutura é dos anos 50! A garotada está muito mais evoluída do que isso. É como se tivesse desde a coisa mais primitiva até a mais evoluída, ao mesmo tempo, no país. De repente você tem os compact discs e toda uma estrutura louca de consumismo, você pega a TV no horário nobre e vê aquelas propagandas que ganham prêmios no exterior. Ao mesmo tempo o povo está passando fome, e você é obrigado a conviver com um esquema de rock´n´roll que é totalmente estapafúrdio.
Lemos - Eu acho que o Brasil se ressente da falta de um mercado mesmo, de ter sucessos como o de um George Michael. Esse mercado de base não existe. Porque não existe um mercado de compacto no Brasil?
Renato - É estranho, porque nós somos o quinto mercado mundial, vende-se para caramba no país. Isso é um paradoxo.
Charles - Eu posso falar alguma coisa sobre isso. Quando a gente ia lançar o Jesus Não Tem Dentes..., a gente tinha um excedente de material, que não daria para fazer um álbum duplo. Tivemos uma reunião com a gravadora,e nossa proposta foi lançar um single, e que no lado B desse single tivesse duas músicas inéditas, como se faz em todo o mundo. E é um produto simples, porque como a gravadora tem que fazer algo parecido, um disco para entregar para todas as rádios, chamado promo (um disco com uma, duas, três ou quatro faixas, em formato de LP e 45 rotações, com as "músicas de trabalho" - as que devem tocar no rádio - de um ou mais artistas), a gente achou que seria super viável. O que a gravadora disse é que o mercado do Brasil não está acostumado com single. Que um disco como o que o RPM fez, com duas faixas com o Milton Nascimento, deveria ser vendido a um preço mais baixo, mas os lojistas vendiam a preço de LP. O lojista se recusa a vender single. Ele tem a noção de que aquele compacto, não importa o número de faixas. que tenha, deve ser vendido a preço de LP,porque tem o mesmo tamanho...


Thomas - É picaretagem mesmo, porque eles compram mais barato no atacadista.
Charles - Eles compram. Foi o que disse. E a gravadora respondeu: você vende para o lojista mais barato, e ele pode cobrar mais barato do consumidor. Mas o lojista diz que não, que não adianta vender mais barato porque as pessoas não compram! O próprio consumidor tem um, preconceito porque não conhece isso. Então o lojista iguala ao preço do LP, e as pessoas não vão comprar do mesmo jeito... Foi essa a justificativa da gravadora. Batemos o pé, mas projeto foi vetado. Tem duas músicas nossas inéditas por essa razão.
Lemos - Não daria para imprimir o preço na capa, como se faz lá fora?
Charles - A gente pensou nisso. Quando eles vieram com essa coisa de que o preço sempre sobe, a inflação, dissemos: "Muito simples. Não precisa imprimir, usa uma etiqueta". Aí eles disseram que single não faz parte do repertório industrial da empresa, e ponto.
Gutje - A respeito de preço, acontece mesma coisa com a numeração (há países, como a Itália, em que cada cópia de um disco é numerada, para evitar que os artistas sejam lesados em sua participação nas vendas, caso a gravadora anuncie uma venda inferior à real). Não se consegue fazer isso, por quê? O cara da gravadora diz: "Não dá para numerar o disco, vai ter que mudar maquinário. Isso é papo furado. Não tem que mudar porra nenhuma. Se a censura pode pegar um disco e riscar um por um, por que não dá para escrever um numerozinho ali? É o tipo de coisa que não dá para entender. O disco da Legião. Vieram me falar: "Pô, o disco da Legião tá 700 cruzados (isso em dezembro; em março mais de 1.000,00). Tudo bem, o encarte tá super bem feito e tal, mas, pô, 700 cruzados, porquê?"
Lemos - Aquelas coisas de "série luxo"...
Gutje - O pessoal das gravadoras está se, dando mal, e não está percebendo. E aí acaba revertendo isso para a gente também, que não está vendendo disco. Acho que o que tem que acontecer é o que os Eurythmics, por exemplo, fizeram: eles tomam conta de tudo, tem, sua própria editora, sua produtora de vídeo, têm o controle de tudo.
Paulo Ricardo - Mas no Brasil isso é inviável...
Lemos - Você pode começar de uma maneira mais simples. A gente abriu uma editora. O Capital Inicial tem sua própria editora. Você só precisa ter uma pessoa em quem você possa confiar e usar para começar a ter um controle maior sobre sua obra. Eu, por exemplo, nunca recebi dinheiro do ECAD (entidade que monopoliza a arrecadação de direitos autorais). Recebo 30 cruzados por um show em que foram duas ou três mil pessoas - um show que rende um milhão, era, para dividir cem mil entre os artistas, que dez por cento para o ECAD -, e você recebe mil cruzados ou menos. O ECAD te paga como se tivessem sido 200, 300 pagantes...
Paulo Ricardo - Eu recebo tudo.
Lemos - Mas vocês foram à luta para isso, cara. Ninguém te deu isso de mão beijada...
Paulo Ricardo - Eu não sei. Eu nem penso em negócios (discussão generalizada)...
Herbert - Mas tem um monte de gente para pensar para ti, cara!
Renato - Eu acho isso chato "porque a gente começa pensando em música, sabe, e, depois tem que ir para esse lado, isso desanima pra caramba...(discussão generalizada)

9 de março de 2011

Série O Resgate da Memória: 18 - Debate Bizz Rock Brasileiro (1 de 6)

DEBATE ROCK BRASILEIRO
Revista Bizz - fev/1988


Que barulho é esse?
(NOTA: Dividi este debate histórico da revista Bizz em seis partes. Postarei uma por dia nos próximos seis dias. O texto é copiado do original e inclui possíveis erros gramaticais.)



Do Rock in Rio ao Hollywood Rock, do desbravamento do desconhecido rock nacional até o momento atual, em que as bandas brasileiras enfrentam as estrangeiras em pé de igualdade - e até se saem melhor, em vários casos! - os nossos músicos já se acostumaram a enfrentrar as condições mais adversas. Pobreza de recursos, estreiteza de visão, os vícios da mídia e a prepotência da indústria: há como superar isso tudo, fazer simplesmente música, e se fazer ouvir? Convidamos os representantes de bandas de sucesso, de bandas de muito sucesso, de bandas velhas de guerra, de bandas fora do esquema para trocarem opiniões e alfinetas... Pela ordem de entrada: Renato Russo (Legião Urbana), Herbert Vianna (Paralamas), Fê (Capital Inicial), Gutje (Plebe Rude), Charles (Titãs), Nasi (Ira!), Paulo Ricardo (RPM), Scowa (Máfia), João (Ratos ele Porão), Sanelra (Mercenárias), Carlos Maltz (Engenheiros do Hawaii) e o musicólogo Hermano Vianna foram os nossos convidados presentes (Lobão, Cazuza,Paula Toler, Marcelo Nova, Guilherme, Isnard e Roger não puderam - ou não quiseram - aparecer). Pela BIZZ, José Augusto Lemos, Jean-Yve de Neufville, Thomas Pappon (que também falou de sua experiência como guitarrista do Fellini), Alex Antunes (que, sob a alcunha ele Pereira Antunes, era vocalista elo Akira S) e Sônia Maia compareceram. As conclusões? Várias (se você for leitor atento)... ou nenhuma, para quem esperava algum tipo ele acordo dentro desse saco de gatos!

Lemos - Até o Rock in Rio, o rock brasileiro era uma coisa subterrânea... O Hollywood Rock não é um Rock in Rio II, muita coisa aconteceu - as gravadoras e grandes editoras puderam investir nisso. Mas a tendência óbvia da mídia é ir em cima do Hollywood Rock, e então pensamos em promover um debate que contribuísse para a música brasileira, e ao mesmo tempo não tivesse nada a ver com o Hollywood Rock. É mais para compartilhar as experiências de cada um aqui... Acho que os temas mídia e mercado são os que podem render mais, tanto para os leitores de BIZZ como para quem está montando banda agora. Quem quiser ser o primeiro... (silêncio geral)
Lemos - Se ninguém quer começar, então vou passar a bola para o Renato. (risos)
Russo - Eu sabia. Sempre sobra para mim.
Lemos - É, você mesmo. Isso porque você tomou uma atitude considerada esquizofrênica, ano passado. Quando a Legião estava ocupando o trono máximo, resolveu sair de cena...
Russo - A gente parou... Isso foi porque estávamos desintegrando - aconteceu tudo muito rápido, não tivemos aqueles cinco anos até começar a desintegrar por causa da estrada. A gente deixou de ser uma banda hiper-underground para ser uma das bandas de Brasília favoritas aqui em São Paulo - e houve o ano da descoberta. Com o primeiro disco era tudo novidade: ficar num hotel de duas estrelas, oba!, super legal, as viagens...Mas aí agente teve as gravações do segundo disco e veio tudo como um baque- a gravadora começou a sentir os pedidos dos lojistas, e eles viram que estava acontecendo alguma coisa ali... Então foi uma questão com a gravadora - para, a gente terminar logo o disco. Eu pessoalmente fiquei muito tempo trancado fazendo as músicas. Eu percebi que estava rolando algo a nível de massas em torno da banda, interferindo no nosso relacionamento com a gravadora, e no da gente com o público, mas a gente não parou para pensar nisso. E depois tem que dar entrevistas, tem que ter avião, aquelas coisas todas que vêm junto com o lançamento, e a gente não teve tempo de assimilar aquele disco. Entramos de coração mesmo, e o que acontecia é que, nos shows, a música que estávamos tocando era uma surpresa para nós mesmos lá, ao vivo... Isso foi uma coisa que foi juntando, juntando, juntando, a gente foi pego de sopetão. Foi quando começaram a aparecer as primeiras mudanças ruins na economia brasileira. Então,para mim foi um baque muito forte, porque primeiro era entusiasmo total, casa cheia. Depois,era apatia total... casa cheia! Isso me assustou: a gente passeando pelo Brasil inteiro, chegava em um lugar e tinha vinte mil pessoas olhando... Eu me lembro que teve o caso Mônica, por exemplo (um caso de ataque sexual e assassinato, ocorrido em 85 no Rio de Janeiro), e aí eu falei disso na introdução da "Dança", que é uma música que, fala sobre sexismo, essas coisas, e a garota, da lá, parada... Depois do show eu pensava: "Pô, o que está acontecendo com esses caras?" E depois descambou para a violência total, que culminou em Brasília, quando morreu uma garota no show da gente. Você cantando certas músicas e, de repente, o negócio descambando pra violência total. Não tinha nada a ver! Hoje em dia sei que não é só você dar o melhor si que vai puxar o melhor da platéia. Hoje em dia eu sei que você simplesmente vai puxar energia - se vai ser energia positiva ou negativa, vai depender do caráter pessoa que está lá. Isso foi um baque grande, porque eu achava que se esta cantando "Brigar pra que se é sem querer" ia todo mundo ficar numa boa, ao que só se eu fizesse uma coisa super violenta é que o pessoal iria reagir violentamente não... Como foi tudo muito rápido, a gente não teve tempo de assimilar de jeito nenhum viramos o que o povo falava da gente eu não era mais eu, era o Renato Russo. Isso também foi numa época em que o som da banda estava casando, montando casa, e juntou com aqueles problemas com a gravadora... E a gente decidiu, "olha, vamos parar aqui, senão a banda acaba". O que... eu não gostaria de mencionar isso, mas sinto que foi o que aconteceu com o RPM. Muito show,muita saturação, sabe, você tu se perdendo... Olha, nada vale isso, nada vale. Lá fora aconteceu com os Stones, depois de vinte anos; Beatles, depois de seis... e a gente foi no segundo disco. Depois veio o negócio dos Titãs, quando eles "foram presos, teve o negócio do Lobão... E a gente falou, "não, vamos ficar em casa mesmo". Estávamos expostos, não tínhamos armas, não tínhamos limusines, nada. A gente ganhou tudo, mas não tinha estrutura nenhuma para segurar... E foi bom ter parado, porque agora a gente pode voltar...


Lemos - Herbert...
Herbert - Faz uma pergunta então.
Lemos - Eu queria a sua visão pessoal. Os Paralamas desfrutaram de popularidade antes da Legião, vocês participaram do Rock in Rio... Então, vocês têm mais tempo de estrada para analisar.
Herbert - Não sei, esse ano todo de 87 praticamente todo, a gente fez pouca coisa aqui, estivemos muito tempo fora, viajando, e foi porque é como você estar tocando pela primeira vez... Talvez o que mais aflija o Renato é que, com o passar do tempo você vai se tornando um escravo do que já fez, tem que superar seus próprios recordes... e a coisa já não é mais fazer música, é superar ou pelo menos manter algo que você já fez, e os números, e todas as pressões... Às vezes dá vontade de parar. Mas no caso da minha banda, a gente tem uma coisa musical muito forte, uma perspectiva musical muito grande, de elementos que a gente ainda quer usar... Então, fazemos música por isso, para ver onde é que vai dar, enquanto não precisarmos trabalhar em outra coisa, pudermos ser músicos full time e ter um suporte financeiro, e toda a tecnologia e as facilidades do nosso lado. Mas certamente o país mudou, o show business está completamente diferente, não tem mais shows surpreendentes, fica tudo muito previsível... A gente já conseguiu muita coisa. Uma vez na Argentina, em um estádio de futebol lotado, abrindo para a banda mais popular do país, meia hora depois do final do nosso show ainda tinha nego em pé batendo palmas.Essas coisas valem. Mas a coisa de mercado, de gravadora, de ir em rádio, de dar entrevista... Eu não tinha vontade de vir aqui, sabia? (risos). Não tenho nada para falar. Sério. Vou até passar o Fê...
Lemos - Vai você primeiro (para Gutje), que eu ainda estou me ambientando.
Gutje - Acho que o principal problema aqui no Brasil é que todo mundo é superligado nos meios de comunicação de massa. O que todo mundo escuta nas rádios, os discos que se compram nas lojas, os filmes, tudo vem em cima da propaganda que se faz disso. O Hollywood Rock tá aí, vêm um bocado de grupos estrangeiros tocar, são bandas que já estão aí a muito tempo vêm atrasadas, e muita banda brasileira vai tocar também. Então o que acontece? Essas bandas vão estar tocando direto na rádio. As bandas que estão de fora do Hollywood Rock vão ficar fora no mercado, das rádios. Então a gente é diretamente ligado a essa coisa da mídia, e acontece isso que o Herbertdisse: desestimula a criação do artista. Se acontece um grande evento, esse evento fecha o espaço para você! Porque no Brasil não existe rádio independente, rádio alternativo, selo independente... Quero dizer, o pessoal que não está no auge do acontecimento acaba ficando meio frustrado, desestimulado a fazer um trabalho. A gente vai passar agora para o terceiro disco. Vai começar da estaca zero. Porque o que fizemos em Nunca Fomos Tão Brasileiros foi mais ou menos o que o Legião fez nesse disco novo: pegar tudo o que estava dentro do baú e soltar. Então você fica super preocupado com o que vai acontecer a partir de agora. Será que vai tocar na rádio? Será que o pessoal não vai cobrar: ´´Ah, não é a mesma coisa que você fazia antes, não é ´Até Quando Esperar´, mudou então não vou mais tocar seu disco". Tem que acontecer alguma coisa pala acabar com essa dependência do público em geral dos meios de comunicação de massa. Porque se o pessoal ficar dependendo de televisão, do que toca no rádio para consumir, para comprar disco, então vai ser um inferno... acho que as coisas só tendem a piorar...
Herbert - Vão melhorar, Gutje...
Gutje - Não, tudo bem, acho ótimo você ser otimista. Mas eu não acho que vá melhorar, cara. Acho que a iniciativa tem que partir do próprio pessoal que faz música, como o legião. Ah, é show pra caralho? Vamos parar, vamos dar um tempo. Se o lance agora é brega, então deixa o brega rolar, o brega vai rolando, rolando... Hoje eu encontrei no avião com um cara da rádio Transamérica, e ele disseque há treze pesquisadores do Ibope aqui em São Paulo, que tem uma população que deve ser de mais ou menos treze milhões. Quer dizer, é um pesquisador para cada milhão de habitantes, e é esse cara que faz a rádio X estar num Ibope assim ou assado, faz a programação assim ou assado, de brega, ou de rock, ou seja lá o que for... Que país é esse? Onde é que a gente está? Como é que a coisa vai para frente?

2 de março de 2011

John Lennon X Paul McCartney

Na virada de 2009 para 2010 comecei a ler a biografia de John Lennon escrita por Philip Norman chamada John Lennon – A Vida. O livro tem 814 páginas e interrompi a leitura por um tempo por conta de muito trabalho, a retomei em junho de 2010 e terminei dois meses depois, em agosto.

Quando ganhei o livro a minha curiosidade era em ver como Norman havia escrito um livro sobre Lennon com 814 páginas. Me perguntei: será que ele se debruçou em Beatles? Claro, seria impossível escrever uma bio de Lennon desse tamanho sem abusar da fase Beatles, afinal, boa parte da vida dele pós-Beatles é quase um nada.

Mas minha única crítica negativa é essa, eu queria ler uma biografia de John Lennon em que focasse de fato apenas nele, até porque existem zilhares de biografia de Beatles e praticamente tudo que ele fala da banda, das músicas, de todas as fases, já há aos montes inclusive na internet. Porém é uma biografia que traça muito bem o perfil de John Lennon sem que o autor se comprometa. Os fatos falam por si. Muito bom.

Lennon se achava o dono da banda. Ok, ele começou tudo com The Quarrymen, mas, a meu ver, isso não o credencia a se achar líder do Beatles. Quem trouxe George Harrison para a banda foi Paul McCartney, assim como a entrada de Ringo não foi uma decisão única de John Lennon e imposta por ele. A sonoridade da banda vem da química entre os quatro e não uma coisa que parte só de John ou de Paul. É bom lembrar também da genialidade de George Martin.

Cada fã tem sua visão e seu ponto de vista. Esse é o meu. Sempre achei John Lennon um chato e com essa biografia descobri que ele também era inseguro, maldoso e mimado. Em certo momento da carreira, John Lennon passa a ver Paul McCartney como um rival. Pra mim pura inveja.

Os dois eram geniais. Juntos eram imbatíveis! Os dois eram donos de idéias incríveis e revolucionárias, mas o tempo mostrou (pelo menos pra mim) quem era o mais criativo: Paul McCartney. John Lennon tinha muitos problemas pessoais: a relação com a mãe, com o pai, com a namorada e primeira esposa Cynthia, a rejeição a Julian Lennon, os boatos com Brian Epstein, o casamento idiota com Yoko Ono, etc. O cara tinha montes de problemas, não fazia questão de ao menos tentar resolvê-los, e ainda arrumava outros.

Pode falar que Lennon era mais rocker que McCartney, o que acho besteira, porque isso não o credencia a ser mais (ou menos) genial que seu parceiro de Beatles.

Aquela coisa dele ficar fazendo careta nas fotos, ficar imitando retardado mental. Brincadeiras bobas de quem quer ao máximo chamar a atenção, mesmo que for de forma negativa (manja a criança que faz uma cagada de propósito só para ter atenção?). Por que tirar uma foto parodiando Paul McCartney e colocá-la no encarte de seu disco? Por que escrever músicas como “How Do You Sleep”? Inveja e insegurança.

Qual o problema de Paul McCartney querer viver uma vida tranqüila, popularmente conhecida como careta? Quem disse que ser descolado é ser mais esperto? Qual o problema dele gostar de fazer uma música mais, digamos, melodiosa?

Lennon escrevia sobre a paz, falava sobre a humanidade viver em igualdade, mas dava as costas para o primeiro filho e não media palavras para atacar a quem não gostava dele. Tinha sérios problemas relacionados ao casamento de seus pais,  mas em seu primeiro casamento chegou a fazer pior com sua mulher e seu filho. Dá pra entender? Teve a chance de construir algo que não teve e a jogou fora.

John Lennon era um cara estranho, mas não por ser genial. Paul McCartney quietinho, com Linda McCartney e sua família, foi seguindo sua carreira tranqüilo, sem se preocupar com os outros, lançando discos bons, médios e ruins, como qualquer outro artista. Em vida John Lennon lançou algo em torno de doze discos solos (com Yoko ou não). Nesse mesmo período Paul McCartney lançou o mesmo número de discos (com Wings ou não).

Não quero também dizer que Paul McCartney é perfeito, um anjo, de forma alguma. Mas, pra mim, com essa biografia de John Lennon ficou claro que ele era mesmo um chato, e se sozinho era assim, com Yoko Ono então...