24 de junho de 2012

Série O Resgate da Memória: 29 - Titãs & Cabeça Dinossauro


(Folha de São Paulo – 25/jun/1986 – Caderno Ilustrada – Acervo Digital)


Este ano o Titãs fez shows para comemorar os 30 anos de carreira e a badna escolheu o disco Cabeça Dinossauro, de 1986, o mais importante da discografia, e um dos principais discos da geração 1980, para refazê-lo na íntegra e ao vivo. Logo sairá DVD e também uma edição especial em CD, com a demo que originou o disco.
Nessa última semana de junho, Cabeça Dinossauro completa 26 anos, então transcrevi, para publicar aqui no Sete Doses de Cachaça, a primeira reportagem que saiu sobre esse clássico atemporal.
Cabeça de Mamute!!!

PS: Ao final da reportagem, aproveitei o momento para republicar aqui o texto que Sérgio Britto fez, a meu pedido, sobre o Cabeça Dinossauro. Texto que foi publicado na Rolling Stone nº 2 em uma matéria que fiz a respeito dos grandes clássicos de 1986. Aqui no blog republiquei tudo na série Clássicos de 1986.





Dinossauro na Cabeça
Com “Cabeça Dinossauro” os Titãs lançam disco que une e confronta barbárie e civilização

Por Marcos Augusto Gonçanves

A tribo tem oito guerreiros e está em pé de festa e de guerra. Batucam e gritam. Os dinossauros descem dos viadutos e se escondem nos edifícios. Os ex-Titãs do Iê Iê – que circulavam pelos porões e palcos do underground paulistano – os atuais Titãs que ficaram conhecidos nacionalmente por músicas como “Sonífera Ilha” e “Televisão”, lançam esta semana “Cabeça Dinossauro”, terceiro LP do grupo.
Inspirada num canto do Xingu, a pulsação primitiva e tribal da faixa título abre o disco e mostra o pau. Depois de “Cabeça Dinossauro” não haverá trégua. Ao contrário dos dois primeiros LPs, não se ouvirá refrescos do tipo “Insensível” – que tentou puxar o último disco – ou mesmo “Sonífera”, o primeiro sucesso. Prevaleceu a linha de “Massacre” e de “Pavimentação”, músicas de pulso forte que não chegaram as rádios, mas encheram de energia titânia o LP “Televisão”.

Grande Desafio – “Nós não passamos ainda o clima e a força das apresentações ao vivo”, diz Arnaldo Antunes, 25, compositor e um dos vocalistas do grupo. “Mas dessa vez conseguimos um resultado que nos satisfez”, emenda Sérgio Britto, 26, igualmente cantor e compositor. Conseguir unir os oito em torno de um produto final que não ficasse distante do espírito e da força das apresentações em show foi o grande desafio, desde que a insatisfação com o resultado de “Televisão” – que consideram mal mixado e aquém do projeto inicial – colocou em risco a própria permanência dos Titãs.
Não é um acidente, portanto, que “Cabeça Dinossauro” manifeste uma atitude guerreira, tribal, original. Para usar um lugar comum, os Titãs tiveram uma forte preocupação com uma selvagem volta às origens. As músicas são cantadas em volume alto, são gritadas mesmo, um pouco à maneira punk, um pouco a maneira funk. E o próprio repertório reencontrou canções muito antigas, compostas quando os oito amigos ainda não pensavam em gravar um LP.
É o caso, por exemplo, de “Bichos Escrotos”, de Paulo Miklos, Arnaldo e Nando. “Ela foi composta no intervalo de uma gravação de uma fita”, lembra Paulo. Foi um sucesso curtido como um “cult” pelas primeiras miniplateias dos Titãs, há cinco anos atrás. “Nós nos reidentificamos com ela”, diz Nando. “Bichos Escrotos” ficou fora de outros discos porque, segundo Nando, havia um trauma quanto a melhor forma de arranjá-la pra ser apresentada”. O trauma ficou ultrapassado por um arranjo que os oito consideram “perfeito”.

Censura – Mas a censura não achou muita graça na escatologia e proibiu a divulgação em rádio e TV.
Outra letra que ficou ameaçada, mas acabou sendo liberada foi a de “Igreja”, do próprio Nando. Afinada com o clima forte do disco, a letra fala de uma profunda recusa às mitologias do catolicismo: “Eu não gosto de padre / eu não gosto de madre / eu não gosto de frei / eu não gosto de bispo / eu não gosto de Cristo / eu não digo amém”.
Mas os Titãs não ficaram por aí. Além da vetusta Igreja, outras instituições da Ordem são bombardeadas pela cabeça do dinossauro: a família e a polícia, título de duas músicas. Em “Família”, de Arnaldo Antunes e Toni Bellotto, a paranóia da vida caseira é ironizada: “A mãe morre de medo de barata / o pai vive com medo de ladrão / jogaram inseticida pela casa / botaram um cadeado no portão”. Em “Polícia”, de Bellotto, a mesma intenção demolidora.
As letras, como se vê, são fortes. E muito valorizadas pelo grupo como parte orgânica da composição: “O português continua tendo uma grande importância para o nosso som, a letra é fundamental”, diz Branco Mello.
As músicas e os arranjos não ficam muito atrás. Auxiliados por Liminha, produtor de nove entre dez LPs bem sucedidos na área de rock, os Titãs conseguiram produzir uma convincente massa sonora, que passeia pelo rock, pelo funk e pelo reggae sem, no entanto, perder o vigor. “Ao contrário de muitos grupos, não fazemos caricatura de reggae ou caricatura de funk. Há uma originalidade, uma veracidade”, diz Arnaldo.
Mais ainda, os Titãs acreditam que estão levando para o público um trabalho original, ao contrário da média das bandas brasileiras, que não conseguem dissimular suas relações com as matizes europeias e norte-americanas. O próprio fato de apresentarem um canto gritado é valorizado: “Isso é uma coisa que não é forte na tradição das bandas de rock e da própria música popular brasileira”, diz Britto.
Aparentemente fazem um canto anti-João Gilberto. Para usar uma expressão do crítico e professor de literatura Paulo Miguel Wisnick, rasgam a retícula da voz. Mas Arnaldo e Britto embora reconheçam a radical diferença com o clima “cool” de João, descobrem uma afinidade: o cantar gritado dos Titãs – que não tem nada a ver com o canto “expressionista” – estabelece com as canções e com as letras uma intimidade semelhante com a que João obtém em seu banquinho e violão. “João Gilberto usa a fala, nós usamos o grito, mas nos dois casos há uma relação forte com o coloquial”, diz Britto.

Selvageria – Mas indiscutivelmente, a marca do disco é a tentativa de trabalhar com a barbárie contemporânea, sugerindo relações com a selvageria ancestral. Além de “Cabeça Dinossauro”, “AA UU” – que já toca no rádio – é faixa mais que o grupo considera mais tamente afinada com a idéia do disco. (NOTA: o erro de edição e digitação está na matéria original).
“As duas são dois comentários sobre a animalização do homem civilizado, mas aliadas a uma certa sofisticação”, diz Britto. A própria capa do disco – duas gravuras de Leonardo da Vinci – expressa os pólos em jogo: barbárie e civilização, cabeça e dinossauro. “É uma dualidade que degrada e redime”, resume Britto.




Texto escrito por Sérgio Britto a respeito de Cabeça Dinossauro:

"Embora possa parecer, Cabeça Dinossauro não foi propriamente uma mudança de rumo, uma “guinada radical” na nossa maneira de pensar e fazer música.

Foi, isso sim, fruto de algo que já vinha acontecendo há algum tempo. Por exemplo : “Bichos Escrotos” é anterior à gravação do nosso primeiro disco (Titãs, 1984), que só não gravamos naquela ocasião por que a censura não permitiu. No disco que antecede o “Cabeça” (Televisão, 1985) a faixa título, “Massacre”, “Pavimentação” e “Autonomia” já apontavam também para essa direção. “Babi índio” e “Pule “, do primeiro disco, se tivessem sido gravadas com um pouco mais de qualidade, também poderiam ser vistas desse modo.
Fazer um disco com uma sonoridade e um repertório mais pesado era um desejo antigo de alguns de nós que aos poucos contaminou todo mundo. A prisão do Arnaldo e do Tony (NR: por porte de heroína) e, conseqüentemente, o relativo fracasso de Televisão são fatores extra-musical que naquele momento talvez também tenham contribuído para essa virada.

Fizemos o disco num tempo relativamente curto: um mês para gravar e mixar. Em duas semanas já estava quase tudo pronto. As canções, os arranjos e até mesmo o formato das músicas já estavam definidos muito antes de entrarmos em estúdio. A primeira faixa a ser gravada foi “AAUU”: já tocávamos a música em shows e o arranjo estava muito bem resolvido. A última foi “O Que” e foi também a que mais deu trabalho. O arranjo mudou totalmente e o Liminha teve participação decisiva: programou a bateria eletrônica, sugeriu a linha de baixo, tocou guitarra e deixou a gente fazendo uma “Jam” interminavel durante dois dias até a chegarmos ao resultado final. Aquilo abriu um novo horizonte para nós e nos colocou em contato com elementos que iríamos explorar bastante nos anos seguintes.

Este disco, com certeza, se não é o melhor, é um dos melhores que fizemos. Só comparável a Õ Blésq Blom e Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas.

Apesar disso não me atrevo a apontar nenhuma banda que pareça ter sido diretamente influenciada por ele. Em contrapartida, Õ Blésq Blom, se não influenciou, ao menos antecipou toda a onda do Mangue Beat e a mistura de MPB e música nordestina com elemetos de rock e programações eletrônicas.

Algumas curiosidades
- Os acetatos com os esboços do Leonardo da Vinci que estão na capa e na contra capa do disco vieram diretamente do museu Louvre, trazidos por um amigo de meu pai. Antes disso, o que tínhamos eram reproduções pequenas e sem qualidade suficiente para viabilizar o projeto gráfico. As primeiras 30 mil cópias do disco foram feitas em um papel fosco e poroso muito mais caro que o normal. Generosidade doAndré Midani, então presidente da Warner, que nos deu total apoio antes, durante e depois da gravação atendendo a tudo o que pedíamos.

- A percussão na faixa “Cabeça Dinossauro” foi Liminha que tocou. Depois de várias tentativas mais elaboradas, ele começou a improvisar - tocando nas paredes, no chão e nas colunas do estúdio - numa espécie de transe. Assim que ele acabou, todo mundo disse imediatamente: “é isso aí, do caralho!!”.

- Gravei a voz solo de “Polícia” no primeiro take, enquanto Liminha conversava sobre pesca submarina com Evandro Mesquita (talvez isso tenha me ajudado a ficar mais puto ainda). Quando fomos ouvir o resultado, eu queria regravar a voz a qualquer custo (tinha sido muito fácil), mas todos acabaram me convencendo de queestava bom.

- A voz de “A Face do Destruidor” foi gravada em cima da base tocada de trás pra frente. Quando gravamos tínhamos que pensar que aquilo ia ser ouvido dessa maneira.

- O Tony fez todos os solos importantes do disco usando uma técnica no mínimo curiosa: revezava um anel grande que ele tinha na mão direita com a palheta para tocar e, ao mesmo tempo, tirar efeitos percussivos da guitarra. Isso funcionava também como uma espécie de ‘bottle neck’ e acabou dando uma cara diferentepara os solos que ele fez."


19 de junho de 2012

Ganância e Ruína

Esta semana encontrei um amigo que frequenta o mesmo centro espírita que eu. Um pouco mais novo que eu, acabou de ter o segundo filho que veio especial, com uma rara doença onde 90% desses casos não vivem mais do que um ano. Conversamos por meia hora, e mesmo já casado, pai de família, um cara tranquilo, consciente, viu em seu filho o quanto damos valor a coisas fúteis, que não nos levam a nada. O quanto nos preocupamos com nada.

O que é a Rio +20? Jogo de cena, claro. Fico me perguntando, por exemplo, quantos carros foram vendidos no mundo durante os dias de encontro. Fala-se em melhorar o mundo, mas continuam a valorizar o petróleo, enquanto o mundo todo sabe que já há inúmeros combustíveis alternativos. O aquecedor central do senado americano funciona com carvão. Quem são os donos das minas de carvão? Os senadores...

Nós brasileiros costumamos dizer: “o brasileiro deixa tudo para última hora”. Na verdade é o ser humano que deixa tudo para última hora. O exemplo está aí, com o Planeta Terra em coma e o ser humano decidindo se vai dar remédio ou deixar sofrer e morrer. Pô!

Diz que em 2050 o Planeta terá 9 bilhões de habitantes e isso acarretará algo em torno de 25% a mais de consumo de alimento. Isso sem falar da água. Aliás, não vai demorar muito para que sejamos proibidos de tomar um banho por dia. Já imaginou? Então é melhor começar a imaginar...

Paradoxo, né? O mundo está acabando e o petróleo reina. O mundo está sem água e a ser humano lava calçada. O ser humano vai se complicando cada vez mais. Vai chegar o momento em que vai dar um tilt no Planeta. Bug geral. Estamos cada vez mais escravos da tecnologia. Já pensou se, de um dia para o outro, a internet deixar de existir?

A culpa é de todo mundo. Porque infelizmente não adianta falar disso tudo para pessoas que deixam as fezes de seus cachorros na calçada. Mas como conscientizar pessoas que não veem a hora de poder comprar ou mudar de carro, de comprar o melhor celular, ou mais um tênis para sua coleção que já tem 100 pares? O ser humano transformou o mundo em uma bomba relógio. O tempo passa e ficam discutindo quando irão discutir quem vai desarmar a bomba. E o tempo passa...

Vejo gente reclamando que hoje todo mundo sabe onde você está, que não há mais privacidade, câmera pra tudo quanto é lado. Mas fica o dia inteiro conectado no twitter, no Facebook, não fica longe da internet e muito menos do celular. É estranho, bem estranho...

Vamos ser sinceros: O que você quer de seu futuro? Você consegue pensar nos outros? Pra que comprar o mega ultra celular se o super celular já é ótimo? Você tem mesmo personalidade própria? Suas conquistas são metas para seu crescimento pessoal ou para se mostrar para os outros? Você se preocupa com o que os outros vão pensar e falar? Você de fato precisa de tudo o que você almeja ou tem muito supérfluo nessa lista?

O mundo pensa em um modo de vida mais simples, mas se complica cada vez mais. O Brasil é um grande exemplo da falsidade humana, com toda a corrupção, desonestidade, leis que protegem ladrões de gravata, onde o mais fraco fica cada vez mais fraco, o poder fica preso na mão de meia dúzia, onde partidos políticos são verdadeiras máfias organizadas e legalizadas.


O mundo é assim, o poder é de poucos, a decisão sempre está na não de quem não tem interesse em tomar decisões. Tudo é conhecimento, elevação.

Se você acha que a solução de todos os problemas estão em bens materiais, na aparência falsa, o carro do ano, na roupa nova, na viagem para a Europa ou no vinho de 800 reais, então não tem muito o que fazer. O mundo vai acabar? Claro que não! Vai se renovar...

 Se a mudança não vier por bem, virá por mal (causado por quem???). Depois não ponha a culpa em Deus...

12 de junho de 2012

Legião Urbana, Seus Discos e o Registro da Memória

Eu ali no Espaço das Américas, vendo o tributo a Legião Urbana ao vivo, na emoção da apresentação (a energia no local era fora do comum, indescritível), não tinha como não rolar um flashback a cada música. Como muitos saí de lá e resgatei músicas e discos que não escutava há tempos (Dois e O Descobrimento nunca deixei de escutar). Aí fiquei pensando sobre a época de cada lançamento da Legião...

 Lembro que as primeiras coisas que escutei do rock da Colina foram “Pressão Social” da Plebe Rude (não sei que gravação era aquela) e a hoje famosa fita de Renato Russo no quarto gravando repertório do Trovador Solitário (lançada oficialmente em 2008). Isso devia ser 1982. Depois ouvi os primeiros ensaios de Capital com Dinho no vocal. Também tinha uma ótima fita de um ensaio do XXX, com “Dá Problema” e mais um monte de skazinho vagabundo bom pra caramba, com as geniais letras de Bernardo Mueller. Houve um período fértil de gravações de fitas demo, isso entre 1983 e 1985.

Fitas demos eram caras de se gravar e, em Brasília, nesse período, só havia, que eu me lembre, apenas dois estúdios. Muita banda se virava para gravar sem precisar pagar estúdio: preparava o quarto, a garagem, uma sala de aula, sala comercial e fazia-se uma demo praticamente ao vivo. Todo mundo queria ouvir as músicas das bandas da Turma e como não dava pra gravar o repertório inteiro em demo, era costume gravar os ensaios e os shows. Era raro um ensaio que não fosse gravado. Por isso as bandas da Turma da Colina ainda hoje tem material inédito à beça. Eu mesmo devo ter uns 3 ou 4 shows da Legião, tinha dois do Capital (que Loro afanou na cara dura!) e da Plebe também tenho gravações com e sem as Plebetes. Todo esse material ainda hoje existe e não só eu, mas muita gente da Turma ainda tem.

Parte de todo esse material inicial das bandas que ficaram famosas acabou sendo gravado por elas ao longo da carreira. Nos dois primeiros discos a Plebe Rude acabou registrando material antigo (para a Turma) e anos mais tarde “Pressão Social” e “Vote em Branco”, por exemplo. Mas nunca gravou “Dança do Semáforo”, e até mesmo uma boa instrumental que tinha. Tinha demo de “Censura”, “Minha Renda”, “Até Quando”, “Dança do Semáforo”, “48 Horas”, “Pressão Social”. Capital não gravou algumas das primeiras composições, e coisas importantes como “Rótulo é Pra Remédio” (eu já pedi várias vezes). Lembro das demos de “Descendo Rio Nilo”, “Leve Desepero”, “Prova”.

A Legião não gravou “77” (que no Dois se tornou “Tempo Perdido”) e a primeira versão de “Fábrica” (tocada pelo Detrito Federal nos anos 1990). Legião inclusive tem demo pacas. Tem uma demo com uma versão psicodélica de “Ainda é Cedo”, com “Geração Coca-Cola” hardcore (mais para Aborto do que para Legião); “Teorema”, “Petróleo do Futuro”, “A Dança”, “O Reggae”.

Eu também faço parte do time que não gosta do primeiro disco da Legião Urbana. Quem já conhecia a banda, seja em Brasília, Rio ou São Paulo, com certeza se decepcionou. A EMI deixou de registrar um baita disco de rock como deveria ter sido. Mal produzido, mal captado, mal tudo. Uma pena. O primeiro disco do Capital Inicial também é muito ruim, por problemas bem parecidos com os da Legião: mal produzido, mal gravado, mal entendido pela gravadora. Quando o escutei foi outra decepção. O primeiro disco que se salva dessa geração é O Concreto Já Rachou, da Plebe. Maravilhoso apesar de eu não gostar do som da bateria. Herbert Vianna caprichou.

O primeiro da Legião chegou em Brasília antes de ser lançado, pois havia as cópias piloto que eram cópias com capas brancas. Elas rodavam pelas mãos do pessoal da Turma e uma delas passou alguns dias comigo.

Confesso que fiquei surpreso com o sucesso do disco em 1985, mesmo mal gravado. A grande surpresa para boa parte da Turma foi “Por Enquanto”, música que não existia no velho repertório. O Dois foi pura especulação entre o pessoal em Brasília. Ninguém sabia nada a respeito, apenas que seria recheado de músicas novas. Músicas novas? Como assim? E o velho repertório! Fiquei bravo mesmo antes de ouvir o disco. Legião traindo seu próprio repertório!?! E “Conexão Amazônica”, “Tédio”, “Sexo Verbal” (depois “Eu Sei”), “Química”? Aí veio a notícia de que era meio folk, com bastante violão... Xiiiii! Mudou tudo!

Quando o disco saiu, lembro de algumas pessoas na casa de uma amiga escutando e com o queixo caído. Era briga para ver o encarte, as letras e a ficha técnica. Quando escutei “Tempo Perdido” e “Fábrica” não entendi nada. E “77”? E a velha “Fábrica”? Nessa época já havia o sentimento de perda. A Turma de amigos que ficaram em Brasília viu que Legião, Plebe e Capital já não eram mais só de Brasília. Apesar de tudo adorei o disco na primeira audição.

O Que País é Este? eu já estava em São Paulo e as notícias que me chegavam me deixavam feliz, ao saber que estava sendo devidamente resgatado todo o resto do velho repertório, incluindo até “Depois do Começo”, pasmém. Lembro que fiquei encucado quando me falaram que a Legião estava gravando “Faroeste Caboclo”. Mas como? Genial, mas 10 minutos de três acordes no violão será que vão aguentar?

Quando comprei o disco e fui pra casa escutar, a primeira que ouvi foi exatamente “Faroeste Caboclo” e achei incrível o arranjo. Eu já sabia a letra de cor. Adorei o disco: cru, seco, porrada, como deveria ter sido o primeiro. Chapei com “Mais do Mesmo”. Esse disco saiu bem no Verão da Lata. Caiu como uma luva (principalmente o trecho de “Faroeste” em que Renato cantava “tem bagulho bom aí!”, que nos shows era cantado por todo mundo, mas gritando muito). Legião sempre lançava os discos entre novembro e dezembro para aproveitar as vendas de Natal. Esse verão passei em Camburi, litoral norte paulista, no meio de muitas latas! Os discos dessa temporada foram Que País é Este? e Caetano (que tem “Fera Ferida”). Da lata foi minha iniciação...

As Quatro Estações foi um disco absurdamente aguardado, até mesmo pelos grandes nomes da música brasileira. Capa prateada, encarte prateado. Era chique. Bonito pacas. Coisa de banda importante. Já começava com “Parece cocaína / mas é só tristeza”. Falei, vixi, aí vem coisa. Escutava cada faixa com muita atenção, de olho no encarte. Achei muito estranho e sombrio “Feedback Song For a Dying Friend”. A cada música o queixo ia caindo mais ainda. Já era sabido por todos que seria um disco sobre o amor, completamente diferente da Legião Urbana rock’n’roll, rebelde, provocadora. Mas mesmo assim causou surpresa.

Claro que, quando chegou “Meninos e Meninas” o choque foi absoluto, de ouvir de novo, tentar entender se era aquilo mesmo. "Ih, vai dar o que falar!". As que mais me chamaram a atenção logo de cara foram “Pais e Filhos”, “Feedback” (independente da letra), “Eu Era Um Lobisomem Juvenil” e “1965 (Duas Tribos)”. Primeiro fui atrás da Legião pesada, rock, depois fui entender melhor o resto como “Monte Castelo” e “Se Fiquei Esperando...” (que a princípio não gostei). Foi um disco que precisou de várias audições para entendê-lo, e eu gosto de discos assim.

Eu vi o último show da Legião quarteto, rock’n’roll. Foi um show fechado que aconteceu no Projeto SP, aniversário da Revista Bizz. Esse show aconteceu um mês depois do fatídico show do Mané Garrincha, em Brasília. Fui até o hotel, no quarto de Renato, para ir junto ao show e ele ainda estava triste (a repercussão foi longa), e também estava decorando as letras do show no Projeto, que seria só de covers: Doors, Led Zep, Neil Young, Stones, Beatles. Lembro de já ali ele dizer que as coisas iam mudar, mas essa decisão vinha de tempos atrás. Renato já estava muito de saco cheio de viagens, hotéis, shows. O que aconteceu no Mané garrincha foi a gota d’água.

O clima no país não estava nada bom quando o V foi lançado em 1991. Crise absoluta. O clima do disco retratava bem o clima no país. Dois lados completamente diferentes, com músicas pesadas, coisas incríveis como “A Montanha Mágica”. Foi minha irmã Fernanda que apareceu com esse disco em casa, presente de um namoradinho. Ficou pra mim, me dei bem. Na hora que vi a capa me lembrei de King Crimson (Larks' Tongues in Aspic). Pirei em “Metal Contra as Nuvens”, e também nas coisas simples como "Sereníssima".

Queria ver a Legião ao vivo trio, no máximo, com um baixista a mais, mas nessa época a Legião ao vivo eu já não achava interessante. Preferia ficar no disco. Aliás, pelo Renato ele faria como o Beatles, que desistiu dos shows para só gravar. Era o que ele queria fazer. "Metal Contra as Nuvens" e "A Montanha Mágica" foram o choque. Bom demais!

Em 1993 O Descobrimento do Brasil saiu no auge do grunge, rock brasileiro em baixa. Foi a primeira e única vez que a Legião Urbana fez um clipe decente. Ninguém entendeu nada. Alguns velhos fãs haviam abandonado a banda, e o pior é que O Descobrimento é um dos melhores da discografia da banda. Incrivelmente lindo e perfeito na produção, sonoridade, edição e conteúdo. Foi o último disco de vinil da Legião Urbana que comprei, e na época eu tinha um ótimo sistema de som. Como a Legião aconselhava nos discos, escutei bem alto.

Poucas semanas antes de Renato morrer alguém na MTV havia me dito que ele estava muito mal, quase nas últimas. Mesmo assim, naquele fatídico dia, foi triste chegar ao trabalho e receber a notícia de sua morte. Como ela aconteceu poucas semanas após o lançamento de A Tempestade, eu já havia preparado um programa chamado Arquivo, com Legião como tema.

É difícil de escutar A Tempestade, é um disco muito triste. Gosto das músicas, mas é duro. As coisas mais pesadas são muito boas. Mas o recebi com receio, como que sentindo que algo estava errado. Cheguei um dia na MTV e o CD estava em cima da minha mesa. De cara me amarrei em "Música Ambiente" e "Soul Parsifal". Lembro d'eu sozinho no departamento de produção da MTV com fone de ouvido, ao lado do som, e escutando atentamente cada canção.  Uma Outra Estação apesar de ser músicas gravadas no mesmo período de A Tempestade, tem um outro clima, é bem menos melancólico. Dá pra ver bem a marca de Tom Capone nele. O disco saiu bem na época em que decidi fazer O Diário da Turma que, no fundo, foi minha homenagem a Renato Russo.











4 de junho de 2012

Série O Resgate da Memória: 28 – Novos Baianos & Acabou Chorare

Neste ano, em novembro, comemora-se 40 anos de um dos grandes clássicos da música brasileira: Acabou Chorare, segundo disco dos Novos Baianos, que começou a ser gravado ainda no final de junho de 1972. Foi um disco que não obteve muita repercussão em seu lançamento e é desses casos de obras que vão adquirindo importância com o passar do tempo. É o retrato de um período vivido por todos em um sítio em Jacarepaguá. A criação era intensa e constante, tanto é que logo no início de 1973 a banda lançou Novos Baianos FC, outro clássico da discografia.
Estão aqui então, já registrando essa importante efeméride, duas reportagens da época: uma da Folha que antecede as gravações e outra da Veja, já sendo resenha de lançamento. Infelizmente outros veículos de comunicação ainda não dispõem de acervo digital...




Folha de São Paulo – 22/06/1972 (Ilustrada)





Espetáculo dos Novos Baianos estreia hoje

Paulinho, Moraes, Galvão e Baby Consuelo, os Novos Baianos estão de volta a São Paulo. Aqui eles começaram sua carreira profissional e gravaram o primeiro disco “Ferro na Boneca”. No Rio, eles fizeram sucesso e se transformaram em assunto de conversa em IpanemaEm seguida, sumiram do cenário artístico e formaram uma comunidade em um sítio de Jacarepaguá.


“Nós estamos muito tranquilos”, disse Paulinho. Vivemos como um time de futebol. Quando a bola chega ao pé do jogador, ele não pode pensar muito. Tem que chutar, driblar ou passar para um companheiro. Só não pode ficar marcando tempo". Este é o pensamento dos Novos Baianos hoje: o dia da estreia de seu show no Teatro São Pedro.

O Show

O espetáculo dos Novos Baianos apresentará diversas composições inéditas. Mas a novidade é na forma como ele foi montado. Cada integrante do grupo mostrará o seu trabalho quase como um elemento independente.

Dentro do espetáculo há quatro shows diferentes, explicou Galvão. “Isso faz com que ele seja muito movimentado. O conjunto A Cor do Som deixou de ser apenas um grupo que nos acompanhava para ser um elemento tão importante quanto Baby, Moraes ou Paulinho.”


Os Novos Baianos acham difícil rotular sua música. Moraes disse que no show há guitarras, sambas baianos e bongós. “Brasil Pandeiro” de Assis Valente (a única música do programa que não foi composta pelo grupo) abre o espetáculo que é encerrado com um forró. Na última música o conjunto deixa as guitarras para tocar cavaquinho, viola e violão.

Novo Disco

O espetáculo dos Novos Baianos ficará em São Paulo apenas até domingo. Terça-feira, eles começam a gravar no Rio de Janeiro. Baby Consuelo contou entusiasmada: “O nosso disco será uma continuação do trabalho desenvolvido no primeiro LP. Há uma música, “Acabou Chorare”, que Moraes compôs especialmente para João Gilberto, um grande amigo da gente. A filhinha de  João caiu e quando ele foi consolar, ela se levantou depressa e disse: “acabou chorare”. A partir dessa frase Moraes compôs uma melodia bem suave mas forte, como as coisas de João Gilberto.

Outra novidade do disco será uma faixa exclusivamente instrumental. Ela foi composta do Pepeu e Jorginho, ambos do conjunto “A Cor do Som”, e chama-se “Um Bilhete para Didi” (Didi é o irmão mais moço de Jorginho). Nessa música Jorginho e Pepeu tentaram expressar sua formação musical: os forrós nordestinos, os trios elétricos, Jacob do Bandolim e outras influencias.

Algumas composições do novo LP lembram o estilo de Dorival Caymmi que, segundo o grupo, conseguiu criar um samba tipicamente baiano. Na entanto, esta preocupação dos Novos baianos não está ligada a “arte regionalista” mas o desejo de criar uma música o mais próximo possível dos dados de cada compositor. Como eles são baianos, o repertório evidentemente terá coisas de sua terra.

No novo disco há, ainda, uma composição cuja a letra é um “manifesto”, no sentido mais amplo, sobre o trabalho atual do grupo. Seu nome é “O Mistério do Planeta”  e seu refrão diz o seguinte: “Vou mostrando como sou e sendo como posso, jogando meu corpo no mundo e andando por todos os cantos.”

Esta é a posição atual dos Novos Baianos, um conjunto que veio a São Paulo viver de música. Fez sucesso no Rio e, finalmente, resolveu compor e viver em paz em uma comunidade em Jacarepaguá.


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Veja – Edição 222– pág. 106 (Música) – 07/12/1972



Dignos do Nome

Há três anos eles vivem e compõem em conjunto. Por isso, mais que o LP de um grupo, ACABOU CHORARE (Som Livre), o segundo da carreira dos Novos Baianos (ex-Novos Bahianos), é uma espécie de trilha sonora da rotina de uma comunidade. Reunidos inicialmente numa cobertura de Botafogo, hoje num sítio em Jacarépagua, a 50 quilômetros do centro do Rio, o “time” como o chama um deles, canta o que vive. “Besta é Tu” (“Ela se derrete toda / só porque eu sou baiano”), uma das faixas, por exemplo, “é um papo para todos os baianos que moram no Rio”. “Menina Dança” (“No canto do cisne / no canto do olho / a menina dança”), homenageia Baby Consuelo, misto de crooner e musa do conjunto. E a letra do título (“Acabou Chorare / ficou tudo lindo / de manhã cedinho”), baseia-se numa frase de Isabelzinha, filha de João Gilberto, enquanto a música e o estilo de cantar retratam o pai: João Gilberto foi um dos convidados da comunidade, no ano passado, e segundo Galvão ensinou “pequenos segredinhos e outras coisinhas” ao grupo. “Olha, vocês estão legais”, disse João na época. “Mas podem melhorar muito.”

Maioridade – Foi quase uma profecia. A rigor, os Novos Baianos, lançados no último festival da TV Record de São Paulo em 1969 com a classificada “De Vera”, seguiam com excessiva aplicação a trilha dos baianos mais velhos, Caetano Veloso e Gilberto Gil. De novo, apenas um hábito, entre concreto e trocadilhesco, de acentuar certas sílabas (“Na santa luta / virgem idade”), além de uma voluntariosa fluência melódica. Como explicam hoje, no entanto, morando em hotéis de segunda e vinculados à televisão, eles não tinham ambiente ou possibilidades técnicas de preparar seus discos. E, apesar de apresentar progressos em dois compactos seguintes, passariam ainda por uma experiência não muito produtiva numa segunda gravadora, a Philips, onde gravaram muitas fitas sem lançar qualquer disco. Hoje, unidos ao grupo A Cor do Som, “numa interpenetração de ideais e musicalidade” como diz Galvão, os oito Novos Baianos, antes apenas quatro, colecionam formações comflitantes, como as de Paulinho Boca de Cantor (Paulo Roberto Figueiredo de Oliveira), ex-crooner de orquestra do interior baiano; Baby Consuelo (Bernadette Dinorah de Carvalho Cidade), niteroiense de família tradicional; e Luís Dias Galvão, ex-engenheiro agronômo, fanático por futebol, como comprovam suas letras. N o LP, elas não foram exatamente filtradas. Por isso convivem harmoniosamente guitarras , pandeiro, cavaquinho, baiões, rocks, música pop e samba.

E, baseando-se na técnica de João Gilberto (“Tinindo Trincando” segundo Galvão segue a tática antiliterária de “Bim Bom”) ou valenso-se de uma abertura criada pelo tropicalismo, os Novos Baianos começam a parecer dignos do próprio nome