14 de janeiro de 2008

Entrevista com Roger Moreira (Ultraje à Rigor)



Essa é mais uma entrevista da série que fiz quando trabalhava no site tantofaz.net


Era 2000, primeiro semestre, e o Ultraje à Rigor estava num hiato, sem lançar e sem gravadora. No ano anterior a banda tinha lançado o disco 18 Anos Sem Tirar com atraso de vários anos...


Quando cheguei ao tantofaz.net para ser editor de música a primeira coisa foi não ceder aos apelos de gravadora e segui fazendo o que bem queria. Eu nem havia formado uma equipe ainda. Bem, fato é que fui procurar artistas que estavam um tanto sumidos da mídia como Edgard Scandurra, Roger, Fê Lemos entre outros (Capital ainda estava engatinhando com a volta).


Sem gravadora, como poderia eu chegar ao Roger? Recorri ao grande amigo Mingau (e grande baixista!). Não lembro agora se Bacalhau já estava no Ultraje, fato é que consegui o telefone da casa de Roger e liguei na cara e coragem. Atendeu secretária eletrônica, deixei recado com zilhões de referencias, citando amigos em comum, essas coisas. Dois minutos depois de eu ter desligado, Roger retornou a ligação e topou fazer a entrevista, mas na casa dele e sem fotógrafo.


Cheguei lá a tarde, numa bela casa no Morumbi, e assim que entrei Roger pediu: “podemos fazer a entrevista depois da sessão da tarde? É que vai passar De Volta Para o Futuro 3 e eu adoro esse filme”. Topei na hora até porque também sou fanático pela série De Volta Para o Futuro. Nos afundamos no sofazão, eu ele e a mulher dele e assistimos o filme quietos até o fim como se estivéssemos no cinema.


Terminado o filmaço, demos início a entrevista. Cheguei em sua casa as 16h00 e saí de lá umas 20h00.

Paulo Marchetti – Em junho fará um ano de lançamento do “18 Anos Sem Tirar”. O que mudou de lá pra cá?


Roger – Não mudou muito, nós já vínhamos fazendo shows todo esse tempo… as pessoas vinham e falavam “vocês sumiram, pararam…” mas, na verdade, estávamos fazendo shows. A parte ao vivo do disco, foi gravada em 96, que foi quando decidi gravar pra, depois, decidir o que fazer. Na verdade o projeto do disco ao vivo era pra 92. Começou a muito tempo atrás… porque aconteceu o senguinte: lançamos o “Vamos Invadir Sua Praia” em 85 e saimos em turnê e, como só eu que componho, lançamos o “Sexo” só em 87. Eu não consiguo compor enquanto estou viajando… preciso parar e pensar. Meu processo é meio demorado. Daí o próximo disco só saiu em 89, foi um disco de covers chamado “Porque Ultraje `a Rigor”, pra mostrar nossas influências e porque também fazia parte de um plano meu de juntar mais os lançamentos porque, num disco de covers, não é preciso compor, então fomos gravando-o até mesmo durante as gravações do “Crescendo”. Então a idéia era lançar esse de covers, mais um inédito em 91, um ao vivo em 92 e mais um inédito em 93. Mas não sei o que realmente aconteceu, onde foi que… eu sei que, em 90, a diretoria da Warner mudou e, não sei se por isso ou por algum outro motivo, os nossos discos estavam vendendo bem, não teve uma queda de vendagem significativa pra justificar um desinteresse pelo Ultraje. Quer dizer, o “Porque Ultraje `a Rigor” não ganhou disco de ouro, mas também ninguém esperava isso de um disco de covers, mas chegou a vender entre cinquenta e sessenta mil cópias. Aí em 91, falamos pra gravadora que queríamos lançar algo novo e a gravadora falou: “agora não está numa epoca boa…” e em 92 foi a mesma coisa, mas eles resolveram lançar uma coletânea. Aí eu reclamei e falei que estava querendo lançar um disco ao vivo…
Nesse tempo todo, aconteceu um monte de coisas, a formação da banda mudou. O Maurício saiu e começou um período de entra e sai gente na banda e as coisas na gravadora não estavam legais… Em 93 eu fui lá e pus os caras na parede e eles me falaram de critérios e questionei esses tais critérios. Porque os outros artistas estavam gravando tipo Kid Abelha, Titãs, Barão… vi que o negócio era pessoal, então pedi pra me liberarem. Eles chegaram a conclusão de que seria melhor, mas eu ainda gravei o “Ó”, mas esse disco foi gravado na correria, com a banda ainda se entrosando, foi feito de qualquer jeito, foi mal divulgado e, segundo consta, não só não divulgaram, como também boicotaram, mas isso eu não posso afirmar com certeza. O que aconteceu na sequência é que continuamos a fazer shows, mas não tínhamos disco. Eu tentava vender a idéia do disco ao vivo, mas ninguém queria. O tempo foi passando, em 96 gravamos e, em 97, eu já tinha duas músicas prontas, “Nada a Declarar” e “Mostro de Duas Cabeças”. Eu levava nas gravadoras, todo mundo achava o máximo, mas ninguém comprava a idéia.
Eu não queria gravar um disco ao vivo qualquer. Eu queria qualidade e conseguimos isso. Gastamos sessenta mil reais e até chegamos a pensar em lança-lo como o Lobão fez, através de editora, vendendo nas bancas…
Até que o Rafael (Baba Cósmica e Quiz MTV), filho do João Augusto, viu uma entrevista minha na qual eu falava sobre disco e ele acabou falando com o pai que acabou comprando a idéia. Então fomos contratados da Deck Discos, de propriedade dele, mas logo em seguida ele foi para a Abril Music e acabou nos levando.

Paulo Marchetti – E agora como está?
Roger
– Os nossos discos antigos não estão em catálogo, o que eu acho um ABSURDO! Muitos fãs novos apareceram, os shows estão bem cheios e a preferência é pelas músicas antigas. O disco era pra ser “15 Anos Sem Tirar”, mas não rolou. Quando o disco saiu já estávamos na metade do dezenove (risos).
Hoje em dia está tudo diferente. Antigamente, quando ouvíamos um banda, tínhamos que ir atrás, as informações eram poucas, os discos não eram lançados aqui… Hoje, se as coisas não caem no colo, o jovem não sabe o tem por aí. Isso porque temos a facilidade da internet e globalização... Há uma falta de cultura e de interesse.

Paulo Marchetti – Vocês chegaram a tocar em lugares que ainda não tinham ido?
Roger
– Não. Até porque, desde 86 eu não ando de avião, desenvolvi um medo dentro de mim. Em 95 eu fiz um grande esforço e fomos tocar nos Estados Unidos. Sempre recebemos convites para ir ao Japão, Argentina, Europa… mas não vamos por minha causa, pelo meu medo de avião. Até fiz algumas exigências que não costumo fazer mas, mesmo assim toparam e eu tive que ir (risos).

Paulo Marchetti – Como você faz pra ir tocar no nordeste?
Roger
– Nesse disco não fomos. No começo, chegamos a fazer uma turnê de 45 dias entre norte e nordeste, de ônibus. Foi uma coisa bem estressante, no final nós já olhávamos um pro outro de mau humor, não aguentávamos mais.

Paulo Marchetti – Então vocês só tocam pelo Sul…
Roger
– Brasília pra baixo. Temos muitos pedidos do nordeste e de for a do país mas, infelizmente…

Paulo Marchetti – Nem tomando um calmante pra dormir…
Roger
– Pior é isso, também não tomo remédio.

Paulo Marchetti – Então você teve Síndrome do Pânico…
Roger
– Eu tive Síndrome do Pânico em 83, mas, na época, ninguém sabia o que era e não havia isso diagnosticado como doença. Eu ia em todos os médicos e todos eles falavam que eu não tinha nada. Ninguém sabia o que era. Durante muito tempo eu tomei Lexotan, andava com ele no bolso… até que me curei na marra. Quando dava uma crise, eu falava comigo “calma, você já teve isso, daqui uns dez minutos passa” e fui me curando. Foram vários sintomas juntos: eu não ia em lugar que não tivesse hospital por perto, cidades muito pequenas, multidão… Fui me livrando dessas coisas, mas sobrou o medo do avião.

Paulo Marchetti – Sua primeira banda foi o Ultraje?
Roger
– Eu tocava flauta e, tive umas bandinhas meio jazz. Mas a primeira banda que eu levei a sério foi o Ultraje. Teve uma única vez que foi um guitarrista fazer um teste para entrar no Ultraje, e ele me falou que tinha uma banda e me convidou pra ser vocalista, mas eu fiz ensaio e nunca mais. Meu negócio mesmo era fazer o Ultraje `a Rigor.

Paulo Marchetti – Quando o Ultraje lançará o próximo disco?
Roger
– Estou num processo penoso de compor. Porque, pra compor, tem que haver um motivo. Não consigo compor por compor. Tem que haver vontade e eu fico me esforçando ao máximo, prestando atenção em tudo o que acontece. Mas mudou muito… os meus temas iniciais, o ambiente que eu vivia, a minha idade. Certas coisas não combina comigo então esse processo de composição é demorado. Agora eu tô no meio dele e a idéia é lançar um disco novo e de músicas inéditas no segundo semestre.

Paulo Marchetti – O Scandurra me falou que também tem tido dificuldade em escrever coisas legais…
Roger
– Eu entendo isso. Nós somos muito idealistas, mas não é só isso. Já fizemos muita coisa, já passamos pelo processo do ímpeto inicial, de precisar se expressar e ter muito o que falar e fazer. Depois você acaba perdendo a inocência. Hoje temos 40 anos, dividimos o espaço com bandas mais novas e acho que o direito é todo dessas bandas tipo Raimundos, Skank… Eu acho que temos que fazer coisas de acordo com a nossa idade e, como tocamos Rock’n’Roll, que é coisa de adolescente, acabamos tendo um certa ‘crise’ do que falar. Se fôssemos mais mercenários, faríamos coisas que o mercado está pedindo e pronto. Mas tem gente como eu, o Edgard, o Lobão que fazemos músicas porque gostamos e não porque queremos vender e ficar na moda. Se eu tinha alguma coisa pra provar, eu já provei e agora estou relax. Eu me considero mais do que bem sucedido no que me propus a fazer, que era apenas de ter uma banda e poder tocar nos finais de semana. Pra tocar e fazer shows, o tesão continua o mesmo mas, pra compor…

Paulo Marchetti – Você falou que os primeiros discos do Ultraje estão fora de catálogo e têm muitos outros…
Roger
– Não só de Rock. O ‘Acabou Chorare’ dos Novos Baianos você não encontra. É a falta de cultura do povo, eu acho. Falta pedirem esses discos, falta procura e assim não há discos. É aquilo que falei de que, se não cair no colo, ninguém vai atrás. Não da pra culpar um só lado, é claro que a gravadora tem mais culpa, porque ela tem o material, sabe que existe, ela pode por pra vender, mas prefere lançar coletânea, que é mais fácil de vender, sei lá. Isso é uma mutilação do seu trabalho

Paulo Marchetti – Você já tentou brigar pelas matrizes do Ultraje?
Roger
– Já. O Maurício (ex-baixista) tentou lá de Miami, porque ele tem uma distribuidora de CDs. Foi lá falar com o pessoal da Warner, mas não deixaram. Eu ainda pretendo ver isso aí… Podia ser até uma coisa de oportunismo, aproveita que lançamos um disco, que estamos fazendo divulgação e lançam o resto. Eu acho isso uma sacanagem, porque não custa nada manter nossos primeiros discos nas prateleiras.

Paulo Marchetti – Você já recebeu convite pra produzir discos?
Roger
– Eu já produzi um disco do Korzus e um do Garotos Podres. Mas não produzi a ponto de mudar a música deles, era mais uma ajuda de quem era mais experiente. Não ganhei nada pra fazer isso. Pra mim dá mais trabalho… até pode ser futuramente, mas aí seria pra produzir seriamente.

Paulo Marchetti – Você ainda tem contato com o pessoal da primeira formação do Ultraje?
Roger
– Tenho. Em 96 o Maurício esteve no Brasil e tocamos juntos num bar no Itaim. O Carlinhos é produtor de disco e até começou a fazer o “18 Anos…”, mas depois saiu… e o Leospa está aqui em São Paulo, ele tem um estúdio de ensaio.

Paulo Marchetti – Tinha umas histórias de que ele não conseguia tocar bateria nos discos…
Roger
– Isso era frustante. Pô, a formação era da banda era genial, mas tinha essa coisa. Tiveram outros micos: uma vez fomos gravar uma música pra uma trilha sonora e ele não conseguia tocar… ou porque bebia ou sei lá. Os produtores sempre falavam pra chamar outro baterista. O “Crescendo” ele gravou inteiro, porque eu dei um toque nele e ele criou vergonha na cara. Nem tudo são flores, né? Mas faz tempo que eu não falo com ele.

Paulo Marchetti – Como foi a experiência de posar nu?
Roger
– O engraçado é que, quando começou a sair esse tipo de publicação, eu já havia pensado no assunto. Eu já frequentei praias naturistas e, na verdade, quando compus “Pelado”, a filosofia era essa de não ter frescuras e, por isso, eu cheguei a me perguntar se um dia faria. Mas nunca pensei que alguém fosse me chamar, afinal estou com 43 anos e não faço ginástica, nem nada (risos).
Um dia o Júnior, nosso empresário (irmão do Nasi – Ira!) me ligou dando risada e dizendo que eu tinha recebido o convite. Mas eu fiz exigências: que tivesse pouca gente na equipe, que fosse só mulher e dei meu preço, que eles acharam alto, mas toparam.

Paulo Marchetti – Por que só mulher na equipe?
Roger
– Porque acho que o homem tem mais vergonha de ficar nu na frente de outro homem.
Na hora de posar eu também pensei na barreira que estava quebrando. Eu fui primeiro roqueiro a posar nu… tinham algumas coisas que me fizeram posar e o dinheiro também foi bom.

Paulo Marchetti – Como é que você fez pra ficar de pau duro?
Roger
– Essa foi a parte mais difícil. Eu achei que não fosse, mas acabou sendo foda. Eu tive que ir até o camarim e ficar de pau duro, pra depois voltar ao set e fotografar. Não foi fácil, eu demorei um pouco (risos).

Paulo Marchetti – Elas deram revistas pra te ajudar?
Roger
– Eu ouvi dizer de algumas pessoas da revista que é normal o contrangimento. Eles me ofereceram algumas revistas, mas eu não quis. É difícil, porque ao mesmo tempo que você está tentando se exitar, você sabe que tem pessoas esperando por você, então ficou aquele negócio… ele levantava e, na hora de sair, começava a murchar (risos). Ficou uma situação engraçada. Até minha mulher foi comigo mas, mesmo assim foi foda, porque além de tudo, você sabe que aquelas pessoas que estão te esperando pra fotografar, irão julgar seu pau (risos).

Paulo Marchetti – Você teve alguma crise depois de ser fotografado?
Roger
– Não, foi tudo tranquilo. Até hoje tem mulheres que levam a revista no show pra eu autografar. Nem teve muita tiração de sarro! É claro que meus amigos ficavam falando coisas do tipo “tirou foto pra revista de gay”, mas qual é o problema? Na minha cabeça estava tudo muito resolvido, então não tinha como ficarem tirando muito sarro de mim. Eu até tentei negociar pra não ter que tirar fotos com o pau ereto, mas essa era uma exigência da revista. Fiquei até orgulhoso. Acho que até tem a ver com o Ultraje. Sei de muita gente mais nova que eu, que foi concidada e não teve coragem de aceitar.

Paulo Marchetti – Seu irmão Trovão ainda trabalha no Ultraje?
Roger
– Trabalha.

Paulo Marchetti – O público ainda o confunde com você?
Roger
– Não tanto, porque ele continua cabeludo. Mas ainda confundem, ainda mais quando vamos `a uma cidade pequena, que a muito tempo não íamos. Ele costuma chegar primeiro nos lugares, pra montar o palco e passar o som, então as pessoas vão falar com ele. Tem uma história engraçada: uma vez, depois que acabou um show, estávamos indo embora e tinha um carro atrás do nosso ônibus, fazendo sinal pra nós pararmos e aí o pessoal subiu no ônibus pra pegar autógrafo e me procuraram. As pessoas entraram no ônibus, passaram por mim e foram direto pro Trovão. O pessoal ficou avisando os fãs de que aquele não era o Roger, mas eles não acreditaram, pegaram o autógrafo dele, passaram por mim e desceram (risos). Ele também já deu entrevista no meu lugar. Foi numa corrida de moto, os organizadores o viram e pediram pra ele dar a entrevista, mas ele falava que não era o Roger e a galera não acreditava, pensava que EU estava de frescura. Saiu até foto dele na revista (risos).

Paulo Marchetti – Como o Miguau foi parar no Ultraje?
Roger
– O Minguau caiu do céu. É um grande baixista. Apesar de ser mais moço que eu, somos da mesma geração e começamos juntos (Minguau fez parte da primeira formação do Ratos de Porão e depois passou por várias bandas, inclusive chegou a fazer testes para a Legião Urbana). Era engraçado porque sempre nos cruzávamos por aí, em shows ou outra coisa, `as vezes até tocávamos juntos. Sempre falávamos de fazer um som, mas nunca rolava, nunca dava certo. Nosso ex-baixista Serginho, saiu da banda pra estudar química, mais ou menos na época que começamos a gravar o disco ao vivo. Então tive a idéia de chamar o Minguau. Liguei pra ele e rolou. Era pra ter acontecido e, apesar de eu sempre pensar nele em primeiro lugar, algumas pessoas me falavam que ele estava com alguns problemas… então antes de ligar pra ele, eu liguei pro pessoal do Rumbora, que me indicaram o Zé Ovo (ex-Little Quail). Eu cheguei a ligar pro Zé, ele ficou de ir até minha casa e nunca foi. Aí liguei pro Minguau e ele topou. A entrada do Minguau deu muito ânimo pra banda, combinou em tudo. O engraçado é que, essa história de tocarmos juntos, era um desejo dele e meu.

Paulo Marchetti – Vocês já tem músicas novas?
Roger
– Não, só pedaços de idéias.

Entrevista com Fê Lemos

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Saída de Dinho do Capital Inicial, entrada de Murilo Lima e os discos gravados com ele, ostracismo, Brasília, Renato Russo, Capital sem perspectiva, agenda vazia, falta de grana, Yves na banda em 96, volta de Dinho, saída de Murilo, incerteza de Flávio, a volta por cima, os planos para o Acústico, Bozo Barretti...
Em 2000 (acho eu), encontrei Fê no antigo apê dele e trocamos uma idéia bem legal, bem sincera e cheias de detalhes de uma época em que ninguém sabia onde estava o Capital Inicial. A certa altura Flávio apareceu por lá e participou em algumas perguntas.
Bastante longa, essa entrevista, ao lado da que eu fiz com Scandurra, é uma de minhas preferidas.
Quer ver todas as entrevistas postadas aqui é só clicar no arquivo de janeiro 2008


Paulo Marchetti - Quando o Dinho saiu da banda?
Fê Lemos
- Em fevereiro de 93, depois das férias, voltamos a ensaiar. Nessa época conseguimos um estúdio dentro de uma produtora de comerciais. Montamos nosso equipamento, mas sem o equipamento de voz. Então começamos a ensaiar sem o Dinho, pra sentir o estúdio e fazer algumas bases. Por volta de abril, mudamos de estúdio e fomos pra um que dava pra todos ensaiarem, com equipamento de voz e tudo. Quando mudamos, as coisas começaram a ficar estranhas, porque as músicas que tínhamos feito com Dinho, no final de 92, que ele mesmo tinha apresentado pra gente, ele não mostrou mais. Então começamos a tocar outras coisas, com letras que eu tinha feito e músicas do Flávio e do Loro. Ficamos lá ensaiando até o final de abril, quando o Dinho parou de ir aos ensaios. Nesse mesmo período, saiu uma nota no Jornal do Brasil, com foto do Dinho, dizendo que ele iria gravar um disco solo e nem a gravadora sabia disso. Juntei "A" com "B" e me toquei que aquelas músicas que ele tinha apresentado em 92, iria gravar em seu disco. A gente não queria esperá-lo gravar o disco dele pra depois gravarmos o nosso, então falamos que iríamos gravar sem ele.

Paulo Marchetti - Vocês estavam ensaiando pra que disco?
Fê Lemos
- Era pro segundo disco pela BMG, após o Eletricidade, que foi lançado em 91 e, em 92, saiu o Bozo. Isso nos obrigou a fazermos ensaios para adaptarmos as músicas sem o teclado e, nesses ensaios, surgiram algumas músicas do Dinho e também chegamos a ensaiar coisas que acabaríamos gravando no “Rua 47”.

Paulo Marchetti - Como foi a saída dele?
Fê Lemos
- Foi chata, por causa daquela nota no jornal. Eu, Flávio e Loro conversamos e decidimos falar com ele. Nós queríamos gravar o disco, tínhamos esse objetivo e soubemos que ele não queria grava-lo. Aí o comunicamos que iríamos fazer o disco sem ele.
A decisão final rolou depois de um show, realizado em maio de 93, no Circo Voador. Nesse show ouve uma discussão no camarim por causa de uma música que incluímos no set list e que Dinho não queria cantar. A música era “I Wanna Be Your Dog” e ele não queria cantar porque não lembrava da letra, mas acabamos tocando e, depois do show, rolou um quebra pau no camarim. Isso foi uma coisa chata.
O clima estava ruim e, não sei se foi nesse show ou no outro show, mas fui no quarto do Dinho e perguntei: “E aí Dinho, você vai fazer o disco com a gente ou não?” e ele falou que não ia. Na mesma noite eu informei o Flávio e Loro da decisão do Dinho.
Como havia uma agenda a cumprir até junho, continuamos tocando e já de olho em um novo vocalista. Logo depois tivemos um problema com nossa empresária e resolvemos não trabalhar mais com ela. Avisamos o Dinho de nossa decisão, mas ainda haviam uns 4 shows e ele falou que, se ela não fosse, ele também não iria. Nisso já tínhamos achado o Murilo.
No dia seguinte da saída dele, fomos até a 89 FM para uma entrevista e lá bolamos a promoção “Quer ser o cantor do Capital Inicial”, isso foi coisa do Loro. Choveu cartas e teve gente que mandou fotos vestindo apenas sunga (risos). Os shows com Dinho continuaram, mas já estávamos fazendo audição com algumas pessoas e, nesse processo, o Pipo, que hoje é o empresário do Charlie Brown Jr., nos apresentou o Murilo, que tinha uma banda chamada Rúcula e também já tinha cantado no U2 Cover.
Ele foi a um ensaio, falou que sabia tocar violão e perguntamos se ele sabia alguma música do Capital. Acabamos tocando “Kamikaze” e vimos que daria certo logo no primeiro momento.

Paulo Marchetti - E o que aconteceu?
Fê Lemos
- Mesmo sem vocalista, já estávamos ensaiando para o disco “Rua 47”. Foi nessa mesma época que tivemos o problema com a empresária e com Dinho. Isso foi na véspera de pegar um ônibus para fazermos os dois últimos shows e ligamos pro Murilo, em Santos, e ele veio pra São Paulo no mesmo instante. Ele pegou as músicas dentro do ônibus.

Paulo Marchetti - O que você acha dos dois discos gravados com Murilo?
Fê Lemos
- O “Rua 47” é de 94 e o “Ao Vivo” é de 96. O “Rua 47” eu acho fantástico, um disco brilhante. Foi muito esforço, nós quatro que bancamos, pagamos tudo. Eu tinha uma editora em sociedade com a Inês, que hoje é minha ex-mulher, e a transformamos em uma gravadora. Eu e Loro passamos a tomar conta do negócio, mas quem tomava conta mesmo era a Ines e a Fabiana (ex-mulher do Loro).
É um disco pesado. Depois de anos com problemas de guitarras não aparecendo, muito teclado e produtores mandando, finalmente podíamos gravar do jeito que queríamos. Então gravamos um disco pesado, com guitarras pesadas e letras pesadas. Tudo isso retratou o momento que estávamos passando, um momento tenso e um disco tenso. A música “Rua 47” fala de um cara que vai comprar droga na rua e o avião dele some com a grana, aí ele vai atrás e leva um tiro. O Loro mandou muito bem na guitarra e, até hoje, quando o ouvimos, ficamos impressionados.

Paulo Marchetti - Vocês queriam alguém parecido com Dinho?
Fê Lemos
- Não! Queríamos alguém que cantasse e nos convencesse.
Dando um pulo de quatro anos a frente, chegou um momento em que o Loro falou, que se o Capital não voltasse com a formação original, a banda iria acabar e que o principal problema era que os fãs sempre faziam comparações. Falou que na época da entrada do Murilo, tínhamos que ter mudado o nome da banda e começado do zero. Isso poderia ter dado certo, mas não há como saber.

Paulo Marchetti - A banda deu uma bela sumida...
Fê Lemos
- Com a saída do Dinho oficializada, a BMG rompeu o contrato. Aí preferimos gravar um disco primeiro, pra depois procurar gravadora. No final de 93 começaram as gravações e lançamos o disco em 94. Fizemos um acordo com uma distribuidora de discos e, a partir disso, começamos a trabalhar intensamente. Voltamos a tocar pelo Brasil inteiro, fizemos uma festa de lançamento, mandamos todo o material pra imprensa e cumprimos todo o ritual de uma gravadora pequena. A gente achava que teríamos um acesso a mídia, mas as portas se fecharam. Sentimos o poder da grana, íamos as rádios e tinha que ter jabá, mas não tínhamos dinheiro. Fizemos um videoclipe de “Lei da Metralhadora”, mas o clipe passou um mês, não teve muitos pedidos e perdeu sua força. Tem até uma história de uma fã que viu o clipe e começou a chorar, porque não era mais aquela banda que ela gostava. Todos esses anos com o Murilo, tivemos que lidar com isso, pois os fãs queriam o Capital como ele era.

Paulo Marchetti - Como era a agenda da banda? Vocês conseguiram dinheiro?
Fê Lemos
- Sim! Tocávamos todo final de semana, mantivemos a nossa média de shows, que era de dois por semana. Éramos bem recebidos nos lugares, fazíamos entrevistas e divulgação dos shows. O Murilo era uma coisa nova e, apesar da cobrança, as pessoas gostavam dele. Sempre perguntavam do Dinho, mas pra gente aquela era uma situação definitiva.

Paulo Marchetti - Vocês foram tocar no Acre...
Fê Lemos
- Foi uma loucura! Quando chegamos, vimos o local do show e não tinha a mínima condição de se tocar, o palco era precário, a iluminação eram quatro lâmpadas penduradas e o lugar estava cheio. No meio do show, um engraçadinho falou uma besteira qualquer, eu sai da bateria e fui atrás dele. Estávamos com os nervos a flor da pele. Estávamos sob uma pressão maldita. As pessoas compravam nosso show esperando aquela imagem dos primeiros discos e não era nada daquilo. Apesar disso nos divertimos muito.

Paulo Marchetti - Vocês chegaram a tocar em algum outro país da América do Sul?
Fê Lemos
- Tocamos no Paraguai, numa cidade de fronteira. Tocamos em muitos lugares que nunca tínhamos ido. Aceitávamos shows em lugares distantes, tínhamos que trabalhar. Essa época estava ruim até pras outras bandas. Tocamos muito pelo Sul.

Paulo Marchetti - Em algum momento vocês pensaram em desistir?
Fê Lemos
- Não! Inclusive nosso show estava redondo, tocávamos “Podres Poderes”, do Caetano Veloso. É engraçado, porque o Dinho tem o maior bode de Caetano e, de repente, estávamos tocando Caetano. Isso foi uma coisa que o Murilo trouxe pra banda, pois ele gosta de MPB.
Como o show estava muito bom, decidimos gravar um disco ao vivo com músicas do começo e algumas do “Rua 47”. Também entraram duas músicas de estúdio inéditas. Esse disco foi gravado em uma só noite, num show em Santos.
Nesse dia caiu um temporal em Santos. A água quase invadiu o local do show, faltaram dois dedos pra ela subir. Foi um desespero, porque eram oito da noite e o som não tinha chegado, a mesa de som chegou as nove e passamos o som as onze e meia, com gente esperando na porta. Foi muita correria e foi um grande show. Também gosto muito desse disco. Ele foi lançado em 96 e 97 foi um ano muito ruim pra gente.

Paulo Marchetti - Por quê?
Fê Lemos
- Em 95 a sociedade com Ines se desfaz e meu casamento termina. A Fabiana continua sozinha e mantivemos o escritório funcionando, mas no final de 96, ela e o Loro se separaram. Entramos em 97 com Loro dizendo que seria o empresário do Capital (risos). Fizemos dois shows no primeiro semestre de 97 e ficou todo mundo sem grana. No meio de 97, fizemos um show em Brasília e o Loro resolveu ficar por lá.

Paulo Marchetti - Como vocês sobreviveram com apenas dois shows?
Fê Lemos
- Eu tinha um estúdio, que tinha montado em 96. Nesse estúdio o Capital ensaiava e guardava o equipamento. Eu ganhava uma grana com ele e com o aluguel de um apartamento meu.
O Flávio fez uns bicos, o Loro eu não sei e o Murilo tinha o apoio da família.
Em 97 o Loro começou a falar que só daríamos certo se voltássemos com o Dinho, pois não tínhamos conseguido se firmar do jeito que estávamos. Eu achei um absurdo e o Flávio foi totalmente contra. Porra, não podíamos fazer uma coisa dessas com Murilo, que tinha vestido a camisa e feito muito pelo Capital inicial.

Paulo Marchetti - O Loro chegou a sair da banda?
Fê Lemos
- Não, ele deu um tempo porque queria voltar a tocar com o Dinho e pôs na nossa mão a decisão de continuar o Capital sem ele. Chegamos a fazer uns três shows com outros guitarristas. Foram dois shows com o Yves Passarel (ex-Viper) e um show com o Luís Carlini (ex-Tutti Frutti) e foram ótimos. O Yves fez vários ensaios com a gente e foi muito bom. Com o Carlini, foi uma honra tocar com um monstro sagrado do Rock brasileiro, mas o Carlini não estava com cabeça de aprender 18 músicas e não foi como se ele estivesse na banda.

Paulo Marchetti - Quem chamou o Yves?
Fê Lemos
- Ele já tinha gravado um solo de guitarra no disco “Rua 47” e saíamos à noite. Sempre nos encontrávamos.

Paulo Marchetti - Então o Loro não saiu?
Fê Lemos
- Não, ele estava dando um tempo. Até porque ele estava com o filho, morando na casa de um amigo...

Paulo Marchetti - Você acha que a morte do Fejão* mexeu com a cabeça dele?
Fê Lemos
- Mexeu, pois Fejão era como um irmão para o Loro. A morte dele foi uma porrada pra todos nós. Ele trabalhou um ano de roadie com a gente, ele era uma figura maravilhosa. Tudo isso bagunçou a cabeça do Loro.
* Fejão foi guitarrista da banda Escola de Escândalo, vizinho do Loro e era amigo do Capital desde o início da década de 80. Tinha um grande talento para guitarra e morreu em 96.

Paulo Marchetti - Vocês percebiam essa queda do Capital?
Fê Lemos
- Sim! Apesar de em 94, 95 e 96 estarmos fora da mídia, os shows continuaram, então tínhamos a perspectiva de crescer novamente. Mas não foi isso que aconteceu, pois nossas cabeças não estavam boas. Só o fato do empresário ser minha mulher... tipo o dono do hotel liga pro escritório pra falar que a banda fez muita farra...

Paulo Marchetti - E essas farras realmente aconteciam?
Fê Lemos
- Não era uma regra, mas acontecia. Chegou uma hora que tudo explodiu.
Na verdade, parecia que estava tudo meio planejado...

Paulo Marchetti - Você acompanhou a carreira do Dinho? Ouviu os discos dele?
Fê Lemos
- Não acompanhei e não ouvi os discos. Eu parei de falar com Dinho...

Paulo Marchetti - Pois é, vocês ficaram cinco anos sem se falar...
Fê Lemos
- O Dinho saiu em 93 e acabou. Não troquei uma palavra com ele em 93, 94, 95 e 96. Em 97 o Loro começou a dizer... ele é perspicaz, vê as coisas antes dos outros, embora pareça maluco. Ele sentia a pressão dos fãs e começou um buchicho de que gravadoras estariam interessadas na volta do Capital e o Loro foi o primeiro a falar dessa idéia. A princípio eu e Flávio ficamos chocados, mas com o tempo comecei a refletir essa idéia. Muita coisa passou pela minha cabeça, até mesmo mudar o nome da banda e começar de novo. Mas eu pensei que, se fosse pra isso acontecer, tínhamos que ter feito na entrada do Murilo. Pensei no Loro e no Dinho tocando juntos e eu e Flávio tocando no Capital. Não faria sentido fazer isso. E o nosso legado? Todos esses anos jogados pela janela, ainda mais num país que faz um desserviço a memória do Rock nacional.
Nesses anos todos o Loro e o Dinho não perderam o contato. Eu percebi que esse negócio de não falar com o Dinho era pura besteira e quem deu um empurrão pra eu falar com o Dinho, foi o Robério (ex-Camisa de Vênus). Estávamos numa festa no BASE, ele chegou e me perguntou se era verdade que eu não falava com Dinho. Eu disse que era e ele me perguntou se eu não achava isso uma bobagem? Eu disse que achava. Aí eu fui até o Dinho, o cutuquei, ele me olhou e falei pra ele que não havia nenhuma mágoa e isso quebrou o gelo entre nós mas, pra mim, a idéia dele voltar pra banda ainda era absurda. Passei a ligar pra ele e um dia perguntei sobre os boatos da volta e ele me falou que realmente haviam algumas pessoas interessadas. Ao mesmo tempo em que esses boatos cresciam, víamos que o Capital, do jeito que estava, não iria chegar a lugar algum. Estávamos sentindo, cada vez mais, a pressão pra uma volta.
No fim de 97, já começamos a pensar nessa possibilidade até porque, em 98 o Capital faria 15 anos, pois contamos desde quando Dinho entrou, em 83. Também em 98, o Punk Rock brasiliense completaria 20 anos, pois em 78 surgiu o Aborto Elétrico, e esses ganchos todos nos animaram pra uma volta, pra uma turnê comemorativa.
O Flávio foi o último a topar e, a partir disso, tínhamos que comunicar o Murilo de nossa decisão. O Flávio ficou incumbido de falar com ele e foi uma coisa super chata. É claro que o Murilo ficou tristíssimo.

Paulo Marchetti - O Murilo sabia dessas conversas e negociações?
Fê Lemos
- Sabia. Teve uma vez que eu liguei pro Dinho na frente do Murilo, lá no meu estúdio. Quando desliguei, expliquei tudo que estava acontecendo, mas que não havia nada de concreto. O fator decisivo foi o dia em nós quatro resolvemos nos encontrar.

Paulo Marchetti - Quando foi isso?
Fê Lemos
- Foi em 98, logo após o carnaval. O Murilo ficou super sentido e ficamos uns seis meses sem se falar, mas depois tudo passou e voltamos a ter contato. O Murilo percebeu que essa era a única saída, viu que era o caminho natural e, finalmente, ele encontrou o caminho dele. Hoje em dia está com uma banda e um show muito bom. Ele está atrás de uma gravadora e talvez lance um CD que será vendido em bancas, como o do Lobão. Somos amigos novamente, já vi show dele e ele viu nossos shows, inclusive o Acústico.

Paulo Marchetti - Ele conhece o Dinho?
Fê Lemos
- Conhece, mas o Dinho ainda tem uma resistência...
Quando falamos sobre convidados pro Acústico, o Murilo foi a primeira pessoa que eu quis chamar. Se o Capital está aí até hoje, é graças a ele. Eu ainda penso em convida-lo pra alguma coisa e tocar algumas músicas do “Rua 47”, que é um disco maravilhoso e que não pode ficar esquecido.

Paulo Marchetti - Desde que Dinho voltou vocês não tocaram nada desse disco?
Fê Lemos
- Não.

Paulo Marchetti - O Dinho não quis?
Fê Lemos
- Logo na primeira reunião da volta, a gente pensou: se fossemos mexer no passado, cada um ia querer cobrar o que o outro tinha feito de errado, todos os podres. Cada um tem sua culpa, seus erros... então se fossemos ficar lavando roupa suja, não iríamos andar pra frente. Resolvemos olhar só pra frente.

Paulo Marchetti - E como está sendo?
Fê Lemos
- Estão todos calmos e felizes. Estamos tendo uma segunda chance e não podemos desperdiça-la. Estamos tratando esse momento com o máximo de respeito e consideração. Ninguém mais tenta impor nada pra ninguém, o que importa é a direção coletiva. O Dinho deixou claro que quer nos ver falando e que não seja só ele e, embora ele seja um tagarela (muitos risos), isso está acontecendo.

Paulo Marchetti - Qual está sendo o papel de cada um?
Fê Lemos
- Eu cuido da parte de internet. O Dinho encontrou uma parceria com o Alvin L. (ex-Sex Beatles). O Flávio teve problemas pessoais e também se separou da mulher e agora está morando comigo...
O engraçado é que, em 98, tivemos que fazer um disco relâmpago. Pegamos as idéias que todos tinham na gaveta, fizemos o disco e caímos na estrada. Na verdade ninguém tem um papel definido, somos realmente uma banda. Houve um amadurecimento.

Paulo Marchetti - Há uma característica nas bandas de Brasília dos anos 80, que é a preocupação com as letras. Vocês já falaram sobre tudo?
Fê Lemos - Não, ainda temos muito o que falar. É claro que não iremos mais fazer músicas como “Autoridades” e “Veraneio Vascaína”, já demos nosso recado.

Paulo Marchetti - Porque vocês optaram por gravar o Acústico?
Fê Lemos
- Era a hora certa para fazermos isso. Nunca tínhamos gravado, ao vivo, essas músicas com o Dinho. Temos um ao vivo com Murilo, mas é um retrato daquela época.
No início não pensávamos em fazer o Acústico, mas começamos a pensar na razão de um disco ao vivo. A idéia do Acústico veio pelo fato de parecer um desafio e o Capital sempre teve um lado canção, pois já tocávamos músicas românticas ainda na época de Brasília, no início dos anos 80, sempre tivemos as baladas com violão como “Belos e Malditos”...

Nesse momento, Flávio apareceu e aproveitei para fazer algumas perguntas:Paulo Marchetti - O Fê me falou que em 97 foi um ano ruim pro Capital e que tiveram poucos shows. O que você fazia pra arrumar dinheiro?
Flávio - Em 97 eu comecei...
Fê Lemos - Em 97 foi quando fizemos dois shows no primeiro semestre e que o Loro voltou pra Brasília... lembrou de sua profissão alternativa?
Flávio - Mas isso foi em 98...
Fê Lemos - 97, Flávio...
Flávio - Não, 98...
Fê Lemos - 98 a gente voltou a tocar com o Dinho...
Flávio - Mas eu arrumei emprego... Bom, 97 foi complicado, não tinha dinheiro, não tinha nada. Eu comecei a investir em fotografia, porque era uma coisa que eu sabia fazer, mas isso era um investimento a longo prazo e, ainda hoje ainda não consegui dinheiro com isso. Já fiz uma exposição, ainda faço alguma coisa. Em 98 eu precisei arrumar um emprego e acabei sendo motorista bilíngue. Eu trabalhava para algumas multinacionais, pegava os gringos no aeroporto e os levava pro hotel ou outro lugar...
Fê Lemos - Isso não foi em 97?
Flávio - Não, em 98. Comecei em janeiro e... quando começamos a ensaiar com o Dinho?
Fê Lemos - Começamos em abril...
Flávio - Pois é... trabalhei esses meses, mas quando voltamos a ensaiar, eu tive que parar com isso, senão não pararia. Começamos a ensaiar todos os dias e eu tive que ligar e dizer que não dava mais. O ritmo era pesado, trabalhava até 16 horas por dia, porque eu ganhava de acordo com que eu rodasse, então eu não recusava nada. Ao mesmo tempo, eu fazia traduções e cheguei a virar duas noites.

Paulo Marchetti - Você foi o último a topar a volta do Dinho. Por quê?
Flávio - Primeiro porque eu não acreditava que pudesse acontecer alguma coisa a mais, o Murilo era muito meu amigo e continua sendo, apesar de toda a chateação de sua saída. Ele foi o último a saber de tudo, eu que liguei pra ele...
Fê Lemos - Você não se lembra daquele telefone no estúdio? Que eu falei com Dinho e estavam você e o Murilo... ele já sabia de alguma coisa.
Flávio - Ele sabia e até falou que se fosse pra voltar com Dinho, por ele tudo bem. O problema é que a coisa toda foi armada sem que ele soubesse, enfim, não foi claro pra ele.
Eu liguei pra ele e falei que faríamos uma reunião com Dinho e que, talvez, pudesse rolar alguma coisa. Até aquele momento, vejo hoje que eu estava enganado, achava que se fosse ter algum interesse pelo Capital, porque não seria com o Murilo? Ele tinha qualidade... hoje eu consigo ver como as pessoas enxergavam o Capital sem o Dinho, que não era Capital. Talvez se tivéssemos outro nome, poderia até acontecer alguma coisa. O Capital é aquilo, é a voz do Dinho.

Paulo Marchetti - Você ficou em contato com ele?
Flávio
- Não. Eu acho que o lado bom é que voltamos na hora certa. Talvez se tivéssemos voltado antes, teríamos diminuído esse tempo de sofrimento que passamos... ou não, porque também não basta voltar.

Paulo Marchetti - Então você viu que estava errado?
Flávio - Sim, eu vi que a banda era essa que está aí. Eu tinha uma amizade muito grande com o Murilo e ele também tinha batalhado muito pela banda e acho que a gente, simplesmente, não podia fazer isso... mas agora que passou, o Murilo está com a carreira dele, que é a cara dele e que tem uma qualidade absurda, o som dele eu acho impressionante e acho que ele vai se dar bem. Foi melhor assim. Acho que a banda é uma entidade...
Fê Lemos - É maior que a soma dos quatro...
Flávio - Todos são importantes. O mercado estava querendo isso. Nós ficamos anos sem empresário, porque ninguém via potencial em nós. As pessoas não se davam o trabalho de nos ouvir, porque achavam que o Capital sem o Dinho não era. Rolava um preconceito e o fato é que, quando voltamos com Dinho, surgiram propostas de todos os lados e todos os tipos.
Acho que é isso.

Paulo Marchetti - Voltando a nossa conversa, estávamos falando sobre a opção pelo Acústico...
Fê Lemos
- Nossos quatro primeiros discos estão fora de catálogo e isso foi um dos principais motivos. A Polygram, atual Universal, nos faz o desserviço de não lança-los. Então, pras pessoas que estão descobrindo o Capital agora, não tem como ouvirem as músicas ou comprarem nossos discos. Essa era a oportunidade, o momento de regravar algumas coisas daquela época e mostrar que temos uma história. Porque a gravadora não lança os discos, pois ela é dona das matrizes. Teríamos que ter uma batalha judicial e não é isso que queremos. Pudemos gravar coisas que ninguém mais tinha e que não estavam mais disponíveis.

Paulo Marchetti - O que você acha da cena atual de Brasília?
Fê Lemos
- É engraçado porque já tem uma tradição de bandas que já existe a 3 décadas e a cidade ainda é nova. Ela não tem um lado histórico como Rio, São Paulo e Salvador. Brasília não tinha tradição, era um quadro branco e as bandas brasilienses estão criando uma tradição de música jovem e moderna. Eu não tenho ouvido nada de novo pra poder indicar, mas só o fato de ter o Festival Porão do Rock, mostra que existe uma efervescência.

Paulo Marchetti - O que você acha do fato de as gravadoras não lançarem em CD as bandas que elas deixam fora de catálogo?
Fê Lemos - É uma tremenda sacanagem! Elas mostram o pouco caso com a cultura brasileira e fica claro que elas só pensam no marketing, na grana, na venda de discos e não algo em nome da cultura, da informação e da memória. As gravadoras estão aqui pra fazer dinheiro e manda-lo para suas matrizes. Se não vão lançar, então libera, né? Mas eles não lançam e não liberam! Nós temos que relançar nossos discos, mas não queremos brigar, queremos um acordo.
Tem muitas bandas que também sofrem com isso, tem muita coisa fora de catálogo. Eu não consigo entender... é um desserviço ao Rock nacional.
Na época em que lançamos o “Rua 47”, a Polygram foi e lançou “O Melhor de Capital Inicial”, então foi assim: estávamos com disco novo, mas era a coletânea da Polygram que vendia. Quando fomos lançar o “Atrás dos Olhos”, a Polygram lançou a série “Milenium”. É coincidência ou é sacanagem?
Eu gostaria de ter, em todos os shows, uma banquinha que vendesse todo nosso catálogo. Como reflexo disso, o que acontece? Os sites que tem mp3, estão crescendo e os fãs estão pondo todo o catálogo do Capital disponível. Tem uma fã que me falou de um cara que terá tudo do Capital, inclusive o Acústico. Tem até Aborto Elétrico!

Paulo Marchetti - Você tem tido contato com Bozo Barretti (ex-tecladista do Capital Inicial)?
Fê Lemos
- Nenhum contato.

Paulo Marchetti - Como foi a saída dele?
Fê Lemos - A saída do Bozo foi brigada. É engraçada a história do Bozo, porque... o Bozo e o Dinho formaram um time. Pra mim, eles formaram uma entidade dentro do Capital Inicial. Todo mundo falava que tínhamos que tirar o Bozo da banda e eu achava loucura. Só que estávamos naquela trajetória descendente... a entrada do Bozo deu aquele desequilíbrio de quatro Punks de Brasília tendo que lidar com um cara que é maestro e isso trouxe um conflito. A história interessante é que ele entrou no segundo disco, que foi uma mistura de coisas novas e velhas; aí o terceiro é um mergulho fundo no Technopop e até ocorre uma divisão na banda. O Dinho se trancou na casa do Bozo e depois eles chegaram com umas músicas pra tocarmos. Ouvimos aquilo e falamos que não sabíamos tocar e eles falaram: “mas é isso aí, a Dance Music está vindo e agora tem que ter ‘beat’”.
O quarto disco já vem com um pouco mais de guitarra pesada. No quinto os teclados já saem bastante de cena e o Bozo passa a tocar violão também. Nesse momento já havia um pouco mais de equilíbrio na banda, só que, pessoalmente, as coisas não iam bem. A pressão pelo fato de estarmos vendendo menos discos, da mudança de gravadora e ainda a BMG mandou uma música de encomenda que nós não aceitamos. Daí ela retirou todo o apoio de daria pra gente, tanto que os clipes que a gente faz, “Kamikaze” e “Passageiro”, são clipes que saíram dos nossos bolsos. Nos shows já havia insatisfação e eu não via isso! O Dinho já estava insatisfeito. Pra minha surpresa, ele queria voltar a ser Rock’n’Roll.
Em 92 teve um show em São Paulo, no Vale do Anhangabaú, pra 50 mil pessoas, era uma série de shows que estavam acontecendo por lá. Ficamos no camarim, bebendo e o show começou com Dinho e Loro bêbados. Eu estava irritado e toquei o show inteiro de cabeça baixa e, quando olhava o Bozo, via fumaça saindo da cabeça dele. Saímos do show e tudo explodiu, o Bozo falou que tinha vergonha de nós, porque chamava seus amigos pra verem o show e nós o deixávamos envergonhado e encerrou falando que estava fora “dessa porra”. Falou isso na frente dos quatro e foi embora. No dia seguinte nós quatro nos reunimos e decidimos pela saída dele. Ficamos espantados porque até o Dinho, que defendia aquela coisa toda, não aguentava mais tocar com ele. Mas tudo que sei de música eletrônica, eu devo ao Bozo.
Diz a lenda que, nessa volta do Capital, o Bozo chegou a ligar para o Dinho, mas ele falou que era uma coisa entre os quatro ex-Punks de Brasília. Tem muita gente que conheceu a banda só a partir dos primeiros discos, imaginava que o Capital sempre tivesse sido um quinteto.
Eu até cogitei chamar o Bozo, mas o Dinho e o Loro falaram que tinha que ser só os quatro, pra recuperar toda nossa história.

Paulo Marchetti - A morte do Renato Russo ajudou, de alguma forma, para essa volta?
Fê Lemos
- Ela ajudou a pensarmos em tudo que tinha acontecido, o que tínhamos feito e no que estávamos fazendo. Ela mexeu com nossa cabeça. Mas o que mais me marcou foi que não tive oportunidade de conversar com ele, de vê-lo novamente. Eu nem sabia que ele estava doente! Quando me falaram que tinha uma enfermeira na casa dele, pensei que fosse por causa de suas crises de depressão, que eram fortes.

Paulo Marchetti - Teve aquela discussão entre Renato e Capital...
Fê Lemos - O Renato foi meu padrinho de casamento, não tinha motivo pra brigar com ele. Fomos muitos amigos nos primeiros anos de Brasília, mas quando houve nossa “profissionalização”, a Legião foi pro Rio e nós pra São Paulo. A partir daí nos vimos muito pouco, uma vez por ano e, as vezes, nem isso. Eu cheguei a telefonar pra ele algumas vezes, mas sempre caía na secretária eletrônica. Ele nunca atendia telefone, ouvia o recado e atendia se quisesse. Nos encontramos uma vez em Brasília e uma no Rio.
Em 91, a BMG queria que gravássemos, de qualquer jeito, uma música do Renato, então eu e Loro fomos pedir `a ele e acabou rolando essa história de que Renato falou que não éramos mais uma banda... mas não ficou nenhum clima.
Ele detestava São Paulo e ficava aqui o mínimo possível.

Paulo Marchetti - Onde você estava quando ele morreu?
Fê Lemos
- Eu estava em Porto Alegre e, na madrugada de sexta pra sábado, quando ele morreu, peguei um ônibus para Blumenau. No dia seguinte, no hotel, eu estava lá deitado e a Ines me ligou e disse que Renato havia morrido. Eu fiquei chocado. Uma semana antes eu tinha ligado pra ele e deixado recado, dizendo que precisávamos nos ver, pois queria entregar o caderno dele (com letras do Aborto), pois sabia que ele o queria. Esse caderno ficou comigo porque o Renato esqueceu de pega-lo, pois quando ele foi embora de Brasília, pegou de volta todas as coisas que tinha emprestado para os amigos: posters, discos, fitas, mas o caderno ele não pegou e ficou comigo. Quando me mudei pra São Paulo, pus o caderno no fundo de um baú e me esqueci dele.
Quando soube que ele estava atrás desse caderno, o botei a disposição, mas queria ter entregado em mãos. Aí, uma semana antes dele morrer, liguei pra ele e disse na secretária, que gostaria de vê-lo novamente, voltar a ter contato...

Paulo Marchetti - Quais os planos, a longo prazo, do Capital Inicial?
Fê Lemos - Bom, acabamos de gravar o Acústico e eu fiquei muito feliz com ele. Agora sairemos em turnê e posso dizer, seguramente, que esse é um dos melhores discos que fiz em minha carreira. Eu ouço algumas coisas e fico emocionado, ele é um disco simples, é a nossa cara. Até hoje somos Punks e até hoje estamos aprendendo a tocar (risos) e gostamos de tocar o que sabemos. Outro disco só em 2002.

13 de janeiro de 2008

Entrevista com Danny (Metrô)

Essa entrevista faz parte da série que fiz para uma matéria especial sobre os anos 1980 publicada na Revista da MTV. É claro que na publicação tudo foi editado, cortado, degolado. Acho que essa é mais uma entrevista que não chegou a ser pblicada. Ela foi feita por e-mail, e não corrigi quase nada (me desculpe Danny!). O que vale é o documento! Acho eu que ela tenha sido feita em 2002 ou 2003. Essa entrevista com Danny (ex-baterista do Metrô que atualmente trabalha como produtor e DJ) é muito boa, pois ele vai além de Metrô e mostra detalhes da carreira da banda. Danny também trabalhou como ator e nos anos 80 ficou também famoso pelos comerciais da US Top e pelo bordão “bonita camisa Fernandinho”. Até hoje, muita gente acha que seu nome é Fernando.
Curisidade: No final dos 80 eu fazia muita figuração para filmes publicitários. Uma vez fui figurante de um comercial, acho que da Brastemp, que era uma festa num apartamento. Nessa festa eu ficava dançando colado com uma garota e essa garota era a Virginie... hehe. Fizemos uma pequena amizade, pois nos encontramos em outras diversas filmagens, inclusive o Zaviê, também, do Metrô.
Ah! Nessa conversa não há as perguntas, apenas as respostas. Não faço a mínima idéia de onde foram parar as perguntas, mas elas são de menos...

Continuo apanhando do Word...



Muita gente ficou decepcionada mesmo pois "A Gota (Suspensa)" já tinha 1 certo publico em São Paulo. Fizemos muitos shows em Sampa sempre em Teatros (coisa rara hoje) lotados só no boca a boca (Tuca, Faap, Mackenzie etc... e o primeiro show do maravilhoso Carbono 14 e só depois nas danceterias Rose bombom etc..etc.....) e no Rio também pois Voyage tocava direto na programação da radio Fluminense.
Mas já estávamos cansados de nossos experimentos Progressivos e Instrumentais e chamamos a Virginie pra cantar no disco da Gota (ela já tinha sido cantora da banda em 1979 e nessa época nosso estilo era +"Novos Baianos" não perdíamos 1 show deles e ate viajávamos pra ver eles tocar e jogar futebol tocávamos baião , sambarock e "vivíamos" em Ajuda, Trancoso, Mauá etc...) tínhamos cabelos compridos e usávamos batas indianas e sandálias da Bahia.) A Gota teve 1 centena de formações...
Bem... voltando ! ... 1 amigo nosso guitarrista voltou de Londres e mostrou seu disco
Lembro que enlouqueci ...nós todos... e pensamos "é isso q queremos fazer".
Era 1 mistura de Television, Blondie, Talking Heads etc... mas bem inglês.
Eu gostava muito de Cólera (e lógico Sex Pistols) vi vários shows deles mas nunca fui Punk.(Estudei com Ze Eduardo Nazário ( baterista de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti) então minha formação era mais Maracatu, Jazz por causa do Zé e claro Rock sessenta e setenta etc....)
Fizemos as musicas "pop" do disco da Gota em 2 dias e ficamos muito felizes de voltar a tocar musicas simples.
Foi uma Libertação! tudo isso graça ao Punk! ....
Não posso esquecer tambem que fomos muito influenciados por nosso baixista na época
O Deus Tavinho Fialho (na época era também baixista de Arrigo Barnabé e depois da Gang 90 e ainda Legião Urbana e Caetano Velloso e que infelizmente faleceu em 1 acidente de carro deixando Cássia Eller grávida de 1 menino) .
Ele sempre queria que tocássemos coisas mais "pop" e era o único que vivía de musica o que era incrível pra nós que éramos tão garotos ( nem tanto ...eu 20 e os outros 18...) e era raro bandas de Rock gravarem (existia os Independentes no Lira Paulistana mas não era Rock) pois naquela epoca só existia espaço pra cantores lembra ? (quantos anos vc tem ?). Nosso 1 disco foi Independente....

O que tem que ficar claro é que nos não mudamos da Gota pro Metrô pra ter sucesso, mas pra MUDAR (no melhor sentido da palavra), não tem sentido ficar preso ao 1 estilo único a vida toda...ainda mais pra 4 garotos fazendo musica com tudo pra aprender, música é pra libertar e não pra aprisionar...o mundo muda a cada segundo...( só João Gilberto pode, mas ele nunca é o mesmo pois a cada dia que passa ainda fica melhor, um DEUS !!!!)
Uma coisa tem que ficar clara de 1 vez por todas...
Não gravamos “Beat Acelerado” pra obter sucesso, muito pelo contrário, tivemos que lutar, e bota ralação nisso, muito pra que “Beat Acelerado” fosse 1 sucesso nacional (1 Bossa Nova (!!!!) escancarada no meio daquela New Wave toda)

Era Hilário, os Jornalistas metiam o pau mesmo, mas eram mais o Pepe Escobar e o Miguel de Almeida, então na Ilustrada. Mas foi bom porque virou assunto... Não tinha espaço na mídia pra "rock" só nas especializadas que eram lançadas e depois desapareciam depois de 1 ou algumas edições tipo Rock a História & a Gloria com Ezequiel Neves, Ana Maria Bahiana , Okky, Tarik etc....Tenho até hoje a coleção completa em algum lugar... Éramos carentes de informação sobre Música, equipamentos etc.
Eu estudei Jornalismo na PUC (tranquei quando fui gravar o disco da GOTA pra desespero de meu pai) e já na época do Metrô muitos amigos, como Fernando Naporano trabalhavam na Folha então era engraçado pois o mundinho era muito pequeno e nos encontrávamos sempre nas noites de São Paulo (que ainda não era essa loucura...a noite). no Rose, Napalm, e outros

Antes 1 pequeno porém, quando mostramos “Beat Acelerado” foi 1 batalha conseguir gravá-la...Ninguém queria ... Ainda o Rock Brasil não tinha espaço. Só Rita Lee tinha este espaço.... e a Blitz (que de fato impulsionou todo mercado) começando ....

Quando lançamos o CD desculpe LP do Metrô Sândalo (lado B de “Beat Acelerado” surpreendentemente estourou nas rádios) depois veio “Tudo Pode Mudar”, “Olhar”...) estávamos fazendo show em Manaus qdo soubéssemos que Tia Rita (DEUSA absoluta da minha infância e adolescência ...eu morava no Parque das Hortências e os Mutantes eram meus vizinhos!!!!! eu brincava no Buggy USA deles e era louco pra roubar a boina do Serginho Dias q ele sempre esquecia na garagem.. ) queria que gravássemos “Ti Ti Ti”. Voltamos na mesma noite depois do Show e fomos direto pro estúdio fizemos o arranjo gravamos, mixamos e a novela estreou 2 dias depois ...foi 1 loucura !!!!!
Nossa vida virou 1 loucura ...foi isso que acabou com o Metrô...
Fazíamos Shows de Terça a Domingo só em Ginásios e Estádios de Futebol, (Uma MERDA !!!) sendo que sábado seja onde estivéssemos voltávamos pro Rio pra gravar o programa do Chacrinha.

O que nos REUNIU quando eu tinha 15 anos de idade (e Alec então com 13) Foi a MÚSICA, o TRABALHO ("só o trabalho dignifica o homem"; éramos workaholics e ainda somos ...) E Não o SUCESSO e FAMA...

Ficávamos muito frustrados quando não conseguíamos fazer o show como queríamos porque o som, a luz ....éramos uns pentelhos e ...músicos no pior significado da palavra...ficávamos frustrados.. não existia tecnologia pra tocar em lugares tão grandes (só os internacionais que dispunham quando vinham. por incrível que pareça....)
Implodimos...
Fomos radicais (poderíamos ter admnistrado e diminuído o ritmo), mas pra desespero da Sony e do Poladian, resolvemos PARAR no auge.
O SUCESSO DO METRÔ FOI RÁPIDO PORQUE NÓS O ABORTAMOS...
Estávamos pela primeiríssima vez da vida ganhando dinheiro com nosso trabalho e bota trabalho nisso e, PIOR AINDA , Ironia do destino, pela 1ª vez na vida não tínhamos TESÃO em fazer o q + amávamos fazer ....NOSSO SONHO........Desde que me lembro por gente nunca tive outra vontade de fazer senão Música...Sempre foi isso que quis fazer desde de muito moleque...
Éramos Jovens, eu tinha 23 e lembro bem que pensei não quero passar a vida toda sendo Metrô.... não assim desse jeito.
Alec foi pra Jamaica, fui pro Peru e os outros pra Europa... quando nos reencontramos alguns meses depois e “Johnny Love” estourado nas rádios não tinha mais clima e nossas relações estavam bem tensas.
Foi muito traumatizante, tive uma depressão terrível, daquelas de ficar prostrado ...

E fui tocar com o NAU (Vange Leonel, Zique, Birger) fiz alguns shows e ADOREI ...Voltei pra vida com eles....

Um dia (uns seis meses depois, os meninos vieram me convidar pra tocar com Pedro D´Orey, cantor português do Mler IF Dada produzido por Paulo Junqueiro (vale a pena ouvir).
Tocamos e foi ótimo...passamos 6 meses numa casa alugada em frente ao estádio do Pacaembu improvisando e gravando centenas de horas de material...recebíamos muitas visitas ...Os Mulheres negras ...e outros....rolavam altas JAMS, virávamos noites e noites...
Tínhamos voltado pra música.......e a Sony topou lançar o material gravado em alguns dias tudo LIVE, como Metro ( na verdade já tínhamos outro nome Vide dicionário do rock brasileiro TRISTES TIGRES.
Fizemos alguns shows legais em teatros no Sergio Cardoso, Caetano de Campos ....lembro que fizemos um show onde convidamos um grupo de pagode (de raiz) e tocamos todo A MÃO DE MAO, em ritmo de Samba, nessa época começamos a flertar com a música Africana e incorporamos 2 percussionistas na Banda.
Carneiro, hoje morando em Paris e no mundo tocando com o famoso e Maravilhoso Saint Germain e Girley Miranda.(Maravilhosa !!!!!)
Quase lançamos um disco chamado AXÉ (que bom que não fizemos !!!!!) era antes da onda Axé na Bahia, mas tinha + a ver com a música Africana e Cubana ....Pedro sumiu, não aparecia nos Shows e levávamos um tape gravado pelo Artista Plástico Fernando Zarif com falas, ruídos, teatro... que soltávamos durante as músicas.... Hamilton Moreno dos Heartbreakers vinha dar canjas...e quem quizesse no show podia subir e cantar....(!!!!)..
Não houve um fim marcado, foi acabando aos poucos............

Enquanto isso Virginie fez um disco com o Fruto Proibido e depois foi trabalhar com Arrigo Barnabé, gravaram um disco LINDO na França só de Bossa Nova (INÉDITO !!!!!) e ainda com Itamar Assumpção, Carlos Careqa....

Depois Yann foi tocar com Rita Lee, e depois de uma Tour Européia, casou e ficou por lá (Ficou 8 anos !!!!) etc...
Zaviê e eu nos reunimos com André Fonseca (na época ex-guitarra da Patife Band) e Cherry Taketani no "OKOTÔ" (música punk eletrônica com instrumentos típicos japoneses) ...
Alec foi pra França com a mulher e voltou depois de um tempo.
Um tempo depois eu e Zav nos encontramos com Yann em Bruxelas (fugidos do Collor ) onde passei 2 anos. Formamos uma banda com um guitarrista Africano e um cantor e guitarrista Búlgaro e gravamos um CD : "The Passengers" , fizemos muitos Shows pela Bélgica
e França no circuito Underground ...Abrimos o La Muerte (TRASH METAL) em Paris
Tocamos com Zap Mama e também com Plastic Bertrand ("Ça plane pour moi" mega hit dos anos 80 em toda Europa).
Mas tudo era complicado quando não brigávamos eram nossas mulheres que saíam no pau literalmente!... Voltei pro Brasil por um convite de Bia Lessa, com quem já tinha trabalhado em "Orlando" , pra fazer "Viagem ao Centro da Terra" no Rio , voltei correndo!!.
8. Voltamos a trabalhar em Janeiro na minha casa em Santa Teresa (da janela vê-se o Corcovado, o redentor que lindo!) Estávamos ensaiando trabalhar juntos já havia + de um ano. Mas nunca dava.. cada um morando em um lugar diferente e com a vida já engatilhada...
Em Outubro do ano passado (NOTA: talvez 2001???) nos encontramos em São Paulo a convite de Maluly (Produtor de "Beat", “Olhar " e "A Mão de Mão”) Maluly havia falado com Virginie e ela topou vir ao Brasil gravar {ela esta de mudança da França pra Moçambique depois de alguns anos na Namibia}.
Em vez de tocar, ficamos 2 dias em São Paulo (Yann, Zavie , Alec e eu) conversando e botando a vida em dia.(o que foi otimo!!!). O assunto morreu, um dia encontrei Alec no show do Aphex Twin e ele me disse que não tinha a menor vontade de tocar conosco...Ficou por isso...
Até que em Janeiro Yann me ligou, falei pra ele vir ao Rio.
Começamos a trabalhar não como Metrô, mas pensando em músicas que tinham nos marcado, músicas de nossa infância e adolescência , {Caetano, Egberto, Gainsbourg...) começamos por aí (na verdade esse era um antigo projeto e sonho da Bia (Lessa) para um show de Maria Bethânia e Hanna Shygulla juntas) e que foi realizado na Sala São Paulo há 2 meses ...
Em 1 mês gravamos 20 músicas, mandamos pra Virginie na França, ela adorou veio em Abril, passou uma semana aqui em casa com as filhas gravando de tudo.
Foi maravilhoso!!!!. Foi como se nunca havíamos parar de trabalhar um minuto juntos nesses últimos 17 anos , tudo fácil, gravamos com nossas crianças (um bando!!!) brincando em torno de "noís" cachorro latindo, uma zona!!!! Foi o EXTASE, todo mundo de calção e bíquini voltando da praia, sem produção, nos divertimos pra valer!!!! Acho que isso fica bem claro na gravação.
Estamos muito felizes, gravamos umas 50 músicas... e convidamos vários amigos músicos ou não ...e DJS pra gravar conosco. (Kassim, Lucas Santana, Cibelle, Bruno LT ....) estamos Mixando aqui em casa mesmo
E pretendemos lança-lo até Novembro. E fazer Shows também quando a Ginie vier, quando ela não estiver vamos fazer uns Lives PAs, com samples da voz da Ginie.

Revival tem sempre, nos anos 80 o revival era dos 50. Confesso que acho cedo pra um revival dos anos 80 não deu nem pra dar saudade .....só da Debbie Harry..e do John Lyndon também , mas o resto.......Não tenho nostalgia dos anos 80...na verdade nem dos 70..60..
Gosto do presente, por isso acho que nosso CD, não tem a cara do Metrô (aliás qual é a cara do Metrô? Beat...ou a Mão de Mao?......... Talvez vamos continuar decepcionado muita gente...mas é inevitável...não temos compromisso com nada...
Também não sinto Metrô como representante dos anos 80... fizemos 2 discos apenas e um relativo sucesso durante 2 anos (pouco pra uma década você não acha?) .
Anos 80 pra mim é Legião Urbana, Cazuza, Titãs.....Tenho saudade da alegria do Ultraje
Inútil é um CLÁSSICO !!!!!!
Adoro a cena atual...os DJS...o Rap. o Hip Hop em Sampa o Funk Carioca...a música no Nordeste: .Mangue Beat..Otto...Carlinhos Brown.etc...os anos 90 foram RÍQUISSIMOS
Acho o Brasil Incrível ...Tem um talento a cada esquina...
Pena que as gravadoras não entendam....É uma riqueza cultural!!!!! Não existe em nenhum outro país tanta diversidade.
Não entendo nada de mercado nem quero entender....acho que as gravadoras também não entendem NADA ....pois se olhassem um pouco pro nosso Brasil eles iam investir em TUDO em não em só um estilo.....é de uma burrice que não tem tamanho... Brasileiro gosta de tudo !!!! e isso é uma QUALIDADE nossa .
Eu adoro Carnaval e Sepultura também....Isso é que faz o Brasil GENIAL...enfim.........

Acho que posso dizer que nunca parei de pensar em Música.
Pois eu tocava Bateria 10 horas por dia e hoje não toco esta carga nem em um ano........
Hoje eu passo 18 horas por dia no Pro-Tools, fazendo música ...gravando, editando e mixando..
(o mundo mudou pra muito melhor amigo!!! não precisa + de parafernália... estúdio, técnicos, assistente do técnico, assistente do assistente...)
só um G4 e um pouco de imaginação......
O único senão foi com o maravilhoso Goodnight Varsóvia (Moreno Velloso, Cassim, Domenico, Pedro Sá, etc.) com quem fiz vários Shows em noites inesquecíveis aqui no Rio.
Toco e canto todo os dias com Clara, minha filha que aos 3 já sabe todo repertório da Bjork e dos Beatles...
Estou lutando pra acabar meu segundo filme "Maria" (o primeiro foi Crede-mi que também fiz com minha companheira nota 1000 Bia Lessa).
Já está todo filmado, foram 3 anos de viagens pelo Brasil, e estamos editando todo material na esperança de mostrá-lo no próximo Festival de Berlim em Fevereiro pois já fomos convidados por Peter Shummam.
Tenho feito várias trilhas sonoras pra teatro, desfiles, etc...(adoro !!) (Copacabana também último filme de Carla Camurati) enfim...
Atuei muito no Teatro esses anos, mas já faz uns 3 que estou longe dos palcos.....
Mas o que mais amo mesmo DE LONGE é de ficar com minha filha pequena brincando lendo historinhas... ouvindo música e vendo velhos filmes do Beatles.

Artigo Assinado por Dinho Ouro Preto

Para comprar a 2ª edição do livro O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília clique aqui.

Em 2000 fiz uma big entrevista com Fê Lemos e participação de seu irmão Flávio, ambos do Capital Inicial. Publiquei-a no site TantoFaz.net
Para completar esse entrevista/matéria, pedi à Dinho que escrevesse sobre seu período fora do Capital Inicial. Eis aqui o que ele escreveu:

"Frequentemente se compara o convívio de uma banda com um casamento. Acho que é adequado. Todas as irritações, impaciências e disputas que caracterizam um casamento depois de alguns anos também acontecem dentro de um grupo. De um modo geral acho que foi isso que me levou um dia a decidir que eu queria o divórcio do Capital. Eu tinha 29 anos e nunca tinha tocado com outros músicos e achava que, ou era então ou nunca. O que eu estava jogando para o alto era algo a se levar em consideração. Dez árduos anos. O Capital era uma banda que nós carinhosamente chamávamos de proletária. Não fazíamos parte da elite do Rock brasileiro. Para nos mantermos em pé éramos obrigados a suar a camisa. Turnes intermináveis em condições longe de ideais. Enfim, suponho que estou reclamando de barriga cheia: essa deve ser a situação ( ou muito pior ) da maioria dos músicos brasileiros. Só estou fazendo o relato para frizar que durante dez anos nos sacrificamos em nome do grupo, para um belo dia eu resolver que não valia mais a pena. Reconheço que sou um tanto impulsivo. Se fosse um pouco mais ponderado provavelmente teria reconsiderado. No começo eu não me continha de entusiasmo. Era o recomeço. Oba! O que poderia ser melhor? Juntei uma banda com excelentes músicos. Kuaker na guitarra, Mingau no Baixo e um baterista meio "poser" que, depois veio a ser substituido pelo Alja. A pricípio as dificuldades pareciam ser até estimalantes. Afinal era um desafio e tanto. No entanto, logo os mesmos problemas que existiam no Capital começaram a surgir também no Vertigo. Brigas, rivalidades e discordâncias. A grande e obvia conclusão é que isso faz parte de qualquer trabalho em grupo. Não é nada demais. Pelo contrário é justamente a virtude de um trabalho em conjunto: a soma de idéias. Ás vezes antagônicas. Mas essa sabedoria não fazia parte do meu repertôrio naquela época. Então lá fui eu tentar de novo. Dessa vez sozinho. Foi uma grande experiência. Por varios motivos. Primeiro porque para um músico de banda é um desafio ter que assinar uma obra sozinho. Embora o trabalho em equipe tenha vantagens a responsabilidade final acaba diluida entre seus membros. É muito bom saber que você é capaz de fazê-lo só. O segundo motivo foi ter tido o privilégio de ter trabalhado com o Suba. Ao longo de minha carreira , que hoje tem 17 anos, nunca trabalhei com alguém como ele. Além de grande amigo, ele me ajudou muito a me livrar de vícios e maneirismos que caracterizavam meu jeito de cantar. O disco que fizêmos juntos eu ainda considero a melhor coisa que já fiz. Infelizmente no final do ano passado Suba faleceu num trágico acidente. Uma perda irreperável. Mesmo com a sensação que muito de bom saiu dessa experiência ( a saída da banda) , hoje acho que foi um engano. Por um motivo simples: eu poderia ter feito tudo isso sem largar o Capital. E , mal ou bem, O Capital é minha maior realização musical. O que minha geração construiu, e sua contribuição para a música popular brasileira não é algo a ser descartado. Pelo contrário, é motivo de orgulho. Como num casamento, as vezes só se percebe o valor de um relacionamento quando ele se vai. Muito raramente há clima para uma reconciliação. Acho que é preciso sobretudo uma imensa dose de humildade e também uma conficção grande de que o que se deixou para traz tinha valor e merece ser resgatado. Acho que é o caso do Capital. Como diria o Renato, defintivamente não foi tempo perdido".

Entrevista com Léo Jaime

Essa entrevista faz parte da série que fiz para uma matéria especial sobre os anos 1980 publicada na Revista da MTV. É claro que na publicação tudo foi editado, cortado, degolado. Não me lembro se essaentrevista chegou a ser publicada, talvez uma ou duas perguntas. A entrevista foi por e-mail, e nessa e nas outras postagens não corrigi nenhum erro de digitação. O que vale é o documento! Acho eu que ela tenha sido feita em 2002 ou 2003.
Continuo apanhando do Word...


Paulo Marchetti - Até 1990 sua atividade principal foi sua carreira musical,
a partir daí vc passou a exercer outras profissões como jornalista, roteirista, ator...
O que vc acha que aconteceu com o pop/rock dos 80 no final dessa
década, quando vários artistas deram uma sumida? Rolou uma crise
com vc?

Léo:Aconteceu uma crise no país com a entrada do primeiro presidente eleito
em muitos anos que inaugurou o período democrático surrupiando
dinheiro de todo mundo. Um caos. Sentíamos que tinhamos pulado da
frigideira para o fogo, uma descrença geral. O final dos 80 foi marcado
também, no que diz respeito ao pessoal da minha geração, pela
instituição daquilo que veio a se chamar mercado segmentado.
Ao invés de ter um alcance geral, falar com todo mundo,
"unir a zona norte e a zona sul", tínhamos que começar a fazer músicas para
determinados grupos de consumidores. E o que delimita um segmento de
outro éo clichê. Coisas de um mercado industrial. Se isso era limitador por um
lado, os números precisavam ser expressivos, o que apertava ainda mais a
torneira. Além disso estávamos todos chegando aos 30, cansados daquele
arroubo juvenil, daquela adrenalina e de administrar uma carreira em um país
que tinha sofrido muitas alterações, em geral para pior, em poucos anos.
Além disso ainda era difícil comprar equipamentos, e a cobrança era grande
nos padrões estéticos e industriais. Ou seja: ficou caro, chato lá fora e
todo mundo andava meio que revisando sua trajetória e fazendo novos planos
de vôo. Eu fui colocado na geladeira por uma gravadora. Fiquei 5 anos sem
gravar e sem ser liberado para procurar trabalho. Tive que me virar. Se bem
que, na verdade, comecei a procurar essas outras vias de expressão em 88,
quando comecei a trabalhar na TV Globo e no Jornal. Antecipei um pouco o
negócio quando percdbi que a crítica especializada estava louca para
destruir o mundinho pop/rock brasileiro. Eles queriam implantar uma ditadura
Nick Cave no Brasil, e conseguiram acabar com a alegria de todo mundo,
escrevendo nos jornais e na revista Bizz, a responsável pelo fim daquele
movimento. A MTV chegou exatamente nessa hora, e fui um dos primeiros
contactados para trabalhar lá. Astrid fontenelle, eu, Rogério Gallo, Tadeu
Jungle, era uma turma....pena não ter dado certo, talvez as coisas tivessem
sido mais fáceis se eu assinasse com a MTV logo no início. Engraçado, nunca
vi um clipe meu lá...

Paulo Marchetti - Vc chegou a ter problemas por exercer a função de
jornalista e chegou até a trabalhar no Flamengo, seu time do
coração! Fale um pouco desse período... qual era sua função
no Flamengo? Vc chegou a deixar a música de lado?

Léo: Nunca deixei a música de lado. Quer dizer, uma vez até anunciei que ia
pendurar as chuteiras. Nessa época trabalhava no Flamengo e tinha decicido
que não ia mais querer lançar projetos, shows, sem nenhum apoio de mídia e
para públicos cada vez menores. Mas em seguida apareceu um convite para
fazer um disco como os do Lobão, vendidos em banca de revistas, e me
entusiasmei com a história. Gosto de fazer shows e de cantar; no teatro
musical posso cantar com imenso prazer. No Flamengo fui trabalhar na área
social, de eventos, tentando criar atividades culturais que incluissem o
Flamengo no circuito cultural e turístico da cidade. 99% dos torcedores do
flamengo não frequentam estádios, logo a torcida do Fla é um fenômeno
cultural. Fiquei um ano lá e consegui fazer poucas coisas. Não é para o meu
bico, muita política. mas aceitaria om prazer se fosse convidado para
trabalhar com marketing cultural em alguma empresa. A esta altura da vida,
com a experiência que tenho em televisãoi, jornal, revista, teatro, cinema,
além da carreira musical, posso ser muito útil. Tenho tido sucesso em tudo,
e a única coisa que sinto não ter alcançado é a estabilidade. Quero ter uma
família, mas não sou irresponsável. Preciso de estabilidade profissional.

Paulo Marchetti - O que vc acha desse revival dos anos 80? Vc tem visto uma
nova oportunidade aí? Esta sendo cobrado por velhos fãs?

Léo:3 vezes por dia sou questionado sobre quando irei lançar algo novo.
Há anos.
Acho que deixei muitas portas abertas e nunca fiz lambança. Tenho o carinho
do público mas se ele não me vê na mídia acha que eu parei. Não adianta
dizer que estou no teatro, no jornal. Querem me ver cantando ou como ator na
televisão. E seria ótimo agradar essas pessoas que ainda me tem carinho,
quem sabe em breve, agora que estou contratado pela Abril Music? Devo
lançarum disco novo em breve. A questão dos anos 80 é simples:
são músicas boas,
juvenis e urbanas, e que falam de sentimentos, coisa que o pessoal que tem
"atitude"não tem coragem de fazer. "Atitude "é ter medo de falar de amor?

Paulo Marchetti - Esta havendo alguns relançamentos do pop/rock brasileiro em cd?
E seus trabalhos irão sair nesse formato?

Léo:Isso eu não sei. Acho que não. Nunca sou lembrado em homenagens,
pesquisas,relançamentos etc. Não sou convidado nem para inauguração
de açougue. Sou fundador da categoria NIP (not important person) e agora fui
graduado para uma categoria superior:os VUPs (very unimportant person).
E acho ótimo serassim. Adoro fazer feira e sou popularíssimo. Arroz com
ovo e banana, esse tipo de coisa.

Paulo Marchetti - O que voce estah planejando para agora?
Léo
:Trabalhar e ganhar algum dinheiro com isso. Há um disco sendo planejado,mas até que ele seja lançado devo fazer algumas outras coisas: escrever
para sites, escrever para o teatro, fazer a direção musical de uma peça. Por
enquanto é só o que está na minha agenda...bom, estou com uma peça que
escrevi em cartaz no Rio e uma outra, a Cócegas, faz o maior sucesso e tem
uma música minha. Talvez apareça alguma coisa para eu fazer como ator
antesdo lançamento do disco, que ainda vai demorar ums meses.
O teatro é muitogratificante, em todos os sentidos. Se você se entrega ele
sempre te recompensa.

Paulo Marchetti - Vc ainda tem contato com o pessoal do Joao Penca? Bob
Gallo, Big Abreu e Avellar Love?
Léo
:Tenho feito muitas músicas com o Leandro, meu velho parceiro que foi
quem me levou para os Miquinhos. Tenho falado pouco com eles mas quero que
eles façam parte do meu próximo disco, seja lá como for.

Entrevista Fred Arantes (Dr. Silvana & Cia)

Essa entrevista faz parte da série que fiz para uma matéria especial sobre os anos 1980 publicada na Revista da MTV. É claro que na publicação tudo foi editado, cortado, degolado. No caso dessa entrevista, ela sequer foi publicada. A entrevista foi por e-mail, mas infelizmente perdi acho que duas perguntas finais. Acho eu que ela tenha sido feita em 2002 ou 2003. Fred Arantes tocava no Dr. Silvana e hoje é produtor musical no RJ.Continuo apanhando do Word...


Paulo Marchetti - Os discos do Dr. Silvana tem um espaço de tempo muito grande
entre eles (85, 89, 93 e o Solidariedade). Por que quase
quatro anos entre eles?
Fred
: Foram feitos todos nos seus devidos tempos pois nós mesmos faziamos e produsiamos

Paulo Marchetti - Em um dos discos da banda há uma espécie de desabafo na
contra capa (que eu me lembre no ...Ataca Outra Vez). Dizendo
que a banda trabalha com sinceridade, para os fãs e que não
liga para o que dizem dela. Por que esse desabafo?

Fred:Pois por nossa irreverência éramos muito criticados por grande
parte da mídia.

Paulo Marchetti - Durante um periodo a banda deu uma pausa. O que os
componentes fizeram nesse periodo? Por onde andam atualmente
os originais da banda?

Fred:Sofremos um acidente de carro em 96 e ficamos um tempo
afastados dos shows, mas sempre trabalhamos com a musica
Muitos ex integrantes da banda estão com estúdios aqui no Rio.

Paulo Marchetti - O que era pra vcs aparecerem no Chacrinha?
Fred
:Era muito importante pois era a maior vitrine do momento

Paulo Marchetti - Quando o Dr. Silvana voltou às atividades? De quando é o
disco Solidariedade? E o que a banda esta preparando
atualmente?

Fred: 2001 estamos com a agenda de shows bem cheia graças a deus e provavelmente sairá um acústico.

Paulo Marchetti - Como é e era a relação do Dr. Silvana com outras bandas do
pop/rock brasileiro?

Fred: Muito boa tínhamos muitos amigos e éramos muito queridos por todos

Paulo Marchetti –
Por que vc acha que tantas bandas da geração de 80 sumiram
no final da década?

Fred: Por questão de modismo o rock saiu de moda as bandas sumiram.

Entrevista com Alec (Metrô)

Essa entrevista faz parte da série que fiz para uma matéria especial sobre os anos 1980 publicada na Revista da MTV. É claro que na publicação tudo foi editado, cortado, degolado. A entrevista foi por e-mail e segue na íntegra. Acho eu que ela tenha sido feita em 2002 ou 2003. Alec é o ex-tecladista do Metrô.Sei lá por quê, mas o texto está todo picotado. Tentei arrumar mas o word deu de 25 a 0 em mim...

Paulo Marchetti - Muita gente criticou o Metrô no inicio de carreira, talvez
pelo fato da Gota Suspensa ter sido um trabalho bem
diferente, digamos menos comercial que o Metrô. Como vcs
lidavam quando alguem falava que vcs tinham se vendido?
Alec
- QUANDO FIZEMOS O METRO A PROPOSTA ERA OUTRA
ERA JUSTAMENTE FAZER UM SOM MAIS DEMOCRATICO
TEM GENTE QUE NAO GOSTOU:PACIENCIA POIS NAO ERA PARA AGRADAR TODO MUNDO MESMO. SÓ PARA ILUSTRAR :QUANDO TOCAMOS NO RIO RECEBEMOS FLORES DO JOAO GILBERTO!!
NO CARTÃO ELE ELOGIA MUITO O JEITO DA VIRGINIE CANTAR
BAIXINHO SUSURADO TIPO BOSSA NOVA O CARA É FODA, POIS ESSA MUSICA(BEAT ACALERADO) ERA UMA
BOSSA NOVA ORIGINALMENTE

Paulo Marchetti - Nessa década de 80, a maioria das bandas tinham birras com
jornalistas. Como era a relação da banda com eles?

Alec - A MAIORIA NAO CRITICAVA NOSSA MUSICA PARECIA QUE NAO
TINHA OUVIDO O DISCO FAZIAM COMENTARIOS INFANTIS TIPO "O METRÔ DEVIA MESMO
E ANDAR DE ÔNIBUS" QUALQUER NOTANA EPOCA DA MÃO DE MAO FICAMOS AMIGOS
DE VARIOS CARASCOS
E AI OS CARAS CHAPARAM NO SOM MESMO NA EPOCA DO METRÔ C/ VIRGINIE,ERA SÓ O CARA
VER O SHOW PARA MUDAR O JULGAMENTOS
AO VIVO A GENTE ERA UMA BANDA QUE SURPREENDIA PELA
DESENVOLTURA DA VIRGINIE,FORÇA DOS ARANJOS
E PERFORMANCE SUPER ENTROSADA (TINHAMOS 5 ANOS DE BANDA QUANDO ESTOURAMOS)

Paulo Marchetti - O auge da banda foi com Ti Ti Ti, na abertura da novela da
Globo. Por favor, fale um pouco sobre isso.
Alec
- PARA FALAR A VERDADE NAO SEI QUANDO FOI O AUGE POR
QUE TUDO FOI MUITO RAPIDO. EM TODO CASO FOI UMA
HONRA GRAVAR A RITA LEE, ADMIRO MUITO ESSA MULHER

Paulo Marchetti - O que realmente aconteceu na saída da Virginie? Vcs realmente
a mandaram embora?
Alec
- HOUVE UMA DIVERGÊNCIA DE VONTADES, ASPIRAÇÕES EM RELAÇÃO A DIREÇÃO DO SOM DA BANDA E AI RACHOU ACHO
QUE HOUVE IMATURIDADE E INABILIDADE NA FORMA DA SEPARAÇÃO EM TODO CASO NOS DESCULPAMOS E SEGUE TUDO
BEM.

Paulo Marchetti - Por que vc acha que o sucesso do Metrô foi rápido?
Alec
- ESTOURAMOS 7 MUSICAS NUM LP QUERÍAMOS EVOLUIR AS
COMPOSIÇÕES PARA UM LADO MAIS INTIMISTA OPOSTO DO
SOM EXTROVERTIDO DO PRIMEIRO METRÔ EU ACHO SUPER NORMAL MUDANÇAS DE ESTADO
E DE VONTADES QUANDO VOCE MEXE COM CRIAÇÃO E
PERFORMANCE PESSOALMENTE PRECISO DE MUDANÇAS
COMO ESTIMULO DE VIDA

Paulo Marchetti - Por que optaram por fazer um segundo disco (A Mão de Mao)
menos pop e mais experimental? Isso prejudicou a carreira da
banda?

Alec - COMO JÁ DISSSE, POR NECESSIDADE E VONTADE TENHO
MUITO ORGULHO DESSE DISCO, SÓ ACHO QUE A PRODUÇÃO
PODERIA SER DIFERENTE, MAS TAMBÉM NAO SEI SE FICARIA
MELHOR. MUITA GENTE GOSTA POR QUE ELE É SUJO E VICERAL
NAO TEM POLIMENTO E NEM POLIDEZ. RENATO RUSSO
LIGOU PRO YANN DIZENDO QUE TINHA PIRADO NO DISCO
E QUE DEPOIS DA MÃO DE MAO IA SER DIFÍCIL FAZER O SEU
PRÓXIMO DISCO

Paulo Marchetti - Como foi o fim da banda? Logo depois o que vcs fizeram?
Alec - DEPOIS DA MÃO DE MAO,AINDA C/ O PEDRO ESTAVAMOS DE CABEÇA
NA FUSÃO AFRICA/BRASIL+ ROCK. MUITO LEGAL ESSE SOM PENA QUE NAO TEVE REGISTRO
QUANDO OUÇO CHICO E NAÇÃO ZUMBI LEMBRO MUITO DA "VIBE" DO
SOM DAQUELA EPOCA ACHO QUE ELES ATINGIRÃO A PERFEIÇÃO DESSA FUSÃO
SÃO IMBATIVEIS E ABSOLUTOS!!!!!
TOQUEI COM O KIKO ZAMBIANCHI (COM QUEM GRAVEI O OTIMO
ÚLTIMO CD E ESTOU EM TURNÊ)
FIZ UMA NOVA BANDA COM O PEDRO (MÃO DE MAO) CHAMADA "PULAU PISCINA" QUE QUER DIZER ILHA DA PISCINA
TOQUEI COM CABINE C DO CIRO PESSOA FIZ A BANDA "PAUS"(PROJETO PARA SER LANÇADO NA
EUROPA)
COM ÂNTONIO PINTO(CENTRAL DO BRASIL/ABRIL DESPEDAÇA
TALENTO ABSURDO,JAMES MULLER/PEDRO VICENT/XAVIER
SONZEIRA TIPO EM INGLÊS (GOSTO ATÉ HOJE)A SONY QUERIA MUITO PORÉM QUERIA TRADUZIDO E NÃO FICOU BOM
COMECEI AS JAMS DE SÃO PAULO JUNTO COM O BID (FCLG)
TOQUEI 4 ANOS NAS JAMS MAIS ABSURDAS (HOJE ME CANSA, MAS JÁ FOI MUITO ANIMAL)

Paulo Marchetti - Como surgiu o convite de Otto para vc participar do Condom
Black?

Alec - FOI PELAS JAMS AS JAMS COMEÇARAM NA MINHA CASA, QUANDO MINHA CASA FICOU
PEQUENA, FOMOS PARA O "GLITTER"
NAS PRIMEIRAS GIGS O OTTO ERA SEMPRE UM DOS PRIMEIROS COM
AS TUMBAS DEBAIXO DO BRAÇO
(AINDA NÃO HAVIA SAMBA PRA BURRO) FIQUEI MUITO LISONJEADO.

Paulo Marchetti - Vi no site do Metro que vcs voltaram a gravar nesse ano,
inclusive com a Virginie. Quais são os planos futuros?

Alec - INFELIZMENTE EU NÃO VOLTEI. ESTOU COM UM PROJETO DE MUSICAS PRÓPRIAS EM
PARCERIA COM "MARIA DO CÉU" MINHA PARCEIRA ESSÊNCIAL (PARAFRASEANDO A MESMA)
ESTOU COM O KIKO E FAÇO MÚSICA ELETRONICA ACÚSTICA NO MEU ESTÚDIO UMA DE MINHAS MÚSICAS ENTROU NO CD DO INVASOR
OBS:NO FILME VOCÊ PODE TER UMA IDÉIA DE QUAL ERA A ONDA DA ÚLTIMA JAM!!

Paulo Marchetti –
Como vc vê esse revival dos anos 80. Por acaso tem a ver como amadurecimento do mercado? Quero dizer que no começo era tudo meio amador, mais na garra e agora a tecnologia é outra...

Alec - NÃO SEI ...
EU PREFIRO OLHAR PRA FRENTE

Entrevista com Vange Leonel

Essa entrevista faz parte da série que fiz para uma matéria especial sobre os anos 1980 publicada na Revista da MTV. É claro que na publicação tudo foi editado, cortado, degolado. A entrevista foi por e-mail e segue na íntegra. Acho eu que ela tenha sido feita em 2002 ou 2003. Para quem não sabe Vange Leonel foi vocalista da banda Nau, que lançou um disco na segunda metade dos 80 e após o fim da banda ela saiu em carreira solo e chegou a fazer um sucesso com a música "Noite Preta" abertura da novela Vamp. Hoje Vange é colunista de revistase jornais, escreveu livros e peças de teatro e ela é prima de Nando Reis, com quem já teve uma banda...

PS: Quando eu era diretor do programa Teleguiado, da MTV, lembro uma vez, quando Cazé saiu de férias, de chamarmos artistas para cobrir seus dias de folga. A Vange participou, mandou muito bem e acabou sendo um dos melhores convidados.


Paulo Marchetti - Por que o Nau não chegou ao segundo trabalho?
Vange - Nós tínhamos gravado uma demo com o repertório do segundo disco mas agravadora não gostou. O NAU não vendeu muito, acho que foram tipo umas 15 mil cópias, o que não nos deu lastro suficiente para seguir em frente. Mas como nós, da banda, acreditávamos naquele repertório, resolvemos nos desligar da então CBS e procurar outra companhia. Mas, a essa altura do campeonato, o "milagre" mercadológico do rock brasileiro já dava os primeiros sinais de enfraquecimento e nenhuma outra companhia quis investir numa banda de rock pesado que já tinha feito um disco que não tinha vendido muito.

Paulo Marchetti - Como você enfrentou, ainda trabalhando com música, a crise que rolou no país no final dos 80 e inicio dos 90?
Vange - Vou dizer uma coisa para você: eu não me lembro de nenhum período da minha vida (e eu tenho 39) que este país não estivesse em crise. Então, acho que brasileiro já nasce com um gene específico para driblar crises, ou pelo menos para conviver com elas. Parece que a crise é regra, e às vezes conseguimos escapar dela, não por uma contingência global-nacional, mas quando acontecem lances de sorte e, individualmente, conseguimos superar um momento de vacas magras. Isso aconteceu comigo em 1991, quando a minha música Noite Preta estourou nas rádios de todo o país e consegui fazer um pézinho de meia bem modesto mas que me segurou por um bom tempo.

Paulo Marchetti - Você chegou a lançar dois discos solos e depois passou a trabalhar como escritora e colunista. Desistiu da música?
Vange - Eu não desisti da música. Ainda faço, tipo, um show por ano, acústico, aqui em São Paulo. Odeio sair em turnês e isso prejudicou muito a minha carreira de cantora. Adoro cantar, adoro música, meus colegas tentam me incentivar, existem até alguns críticos caridosos que me querem de volta, os fãs reclamam, mas o cotidiano de pop star me irrita até a alma! Sou o tipo de pessoa que não compra essa mística do pop star e cheguei à conclusão que me dou melhor com a mística do escritor: gosto de trabalhar em isolamento, odeio ficar me expondo o tempo todo e prefiro me mostrar através deste biombo chamado papel. Por outro lado, adoraria gravar um CD a cada 3 ou 4 anos. Adoro o trabalho em estúdio mas duvido que alguma gravadora tope contratar uma cantora/compositora que não se apresenta em público.

Paulo Marchetti - Por favor, fale um pouco de seu período na banda Os Camarões.
Vange - Os Camarões era uma banda de reggae na qual ingressei em 1979, quando tinha 16 anos. O Nando Reis, meu primo, tocava na banda e me convidou para entrar depois que ouviu uma música minha e se entusiasmou. Além do Nando, estavam na banda, entre outros, o Jay Mahal (hoje DJ), o Cao Hamburger (que depois tornou-se o criador do Castelo Rá-Tim-Bum), o Paulo Monteiro (artista plástico, da ex-Casa 7), e a Teca Berlink (hoje artista plástica). Nós nos apresentávamos em festivais de colégio mas o auge foi uma apresentação no Festival da Vila Madalena, evento que acabou revelando o Itamar Assunção. Deste Festival saiu um LP, raríssimo, que contém duas músicas dos Camarões, uma das quais "Cheiro de Beterraba", música minha que me fez entrar na banda.