27 de dezembro de 2016

George Michael na Música Pop

Algumas vezes chega a ser engraçado ver o a carente mídia de entretenimento tentar elevar a importância de certos artistas, quando de suas mortes. Engraçado mesmo! Agora é a vez de George Michael, e a tentativa de jornalistas em fazer dele um ícone. Porém a história mostra que ele está longe disso. Bem longe. Li texto que inclusive o coloca ao lado de Michael Jackson, Madonna e Prince. Loucura!

George Michael fez parte do Wham! nos anos 80, uma dupla absolutamente insossa e insignificante. A dupla fez um sucesso, único, no caso “Wake Me Up Before You Go-Go”, que tocou em todas as rádios do planeta e que levou a dupla para a China. Wham! lançou 3 discos também insignificantes, que não causaram nem cócegas no universo da música pop. E quantas histórias de "sucesso de uma música só" existem? E elas fazem loucuras com o artista! Por isso, não se pode fazer disso genialidade, afinal vender milhões de discos de forma efêmera por conta de uma única boa música pop, não significa nada.

Em sua carreira solo, lançada em 1987, George lançou 6 discos e fez 3 únicos hits, sendo um deles regravação dele mesmo (“Freedom” do Wham!). Estou sendo absolutamente realista, curto e grosso. Os 3 hits são: “Faith”, “I Want Your Sex” e “Freedom 90”. Ponto. “Jesus to a Child” nem foi tão hit assim.

George Michael não influenciou ninguém diretamente e loucamente. Não há nenhum grande artista que diga “minha influencia principal é George Michael”, “o que seria de mim sem George Michael”, etc e tal. Suas composições não são nada revolucionárias, nem músicas e nem letras.

Ele está longe, mas muuuuito longe, anos luz distante de grandes nomes da música pop. GM pertence ao patamar de um artista pop ok que compôs alguns hits e fez um relativo sucesso, era bem relacionado, compôs com Elton John e cantou com o Queen (por sinal, muito bem). Esses seus sucessos, efêmeros ou não, irão tocar sempre nas rádios - nos programas de flashback, e continuarão a fazer parte das centenas de coletâneas do tipo "Top Hits", "Hits Wonder", "Party Hits". 

Me irrita ver essa necessidade da mídia querer criar um ícone, só pelo fato dele ter morrido. Ok, ele era um grande doador para entidades beneficentes, mas isso nada tem a ver com a música dele e com sua importância ou não no universo musical. E é disso que falo aqui.

Não há nenhuma composição incrível, não há nada de especial em seus clipes; seus discos, linguagem visual, etc nada tem de interessante; seus shows não eram algo fantástico, suas fotos são sempre iguais, não há sequer uma grande entrevista ou algo grandioso para se lembrar. George Michael lançou aproximadamente 92 músicas, sendo apenas 5 delas hits, e desses hits, apenas 2 são graaandes hits: “Wake Me Up...” e “Freedom 90”. Mesmo assim, se a música pop não tivesse esses hits, ela seria a mesma.

Não estou aqui xingando George Michael, ou querendo diminuí-lo. Nada tenho contra ele. Sendo um artista pop, cumpriu seu papel. Aqui só quero colocá-lo em seu devido lugar, como falei, sendo realista, curto e grosso.

13 de outubro de 2016

Série O Resgate da Memória: 48 - Anarquia em RJ (Pipoca Moderna, 1983)

Ando em falta com o meu querido Sete Doses de Cachaça, mas ele jamais morrerá! Depois de praticamente 3 meses....


Até o início dos anos 1990 era difícil obter informação sobre nossos ídolos musicais. Já escrevi sobre isso aqui no Sete Doses. Era praticamente impossível ter notícias quentinhas e montes de imagens pra ver. Se o próprio disco era difícil de ter....

Por isso, uma notícia novidade durava muito, durava meses. Informações mais precisas e detalhes eram ainda mais impossíveis, mesmo para jornalistas. Uma banda mudava a formação e só íamos saber meses depois, isso se a banda fosse já um tanto conhecida.

Essa reportagem assinada pelo antropólogo, pesquisador e escritor Hermano Vianna (irmão de Herbert, do Paralamas) e com fotos de Maurício Valladares é uma daquelas históricas do início dos anos 1980, e que marcou a curta vida da revista Pipoca Moderna (contando junto a Mixtura Moderna).

É um texto típico daquele período de ditadura militar, de tédio juvenil, um pouco ranzinza e rebelde; de querer ser do contra. Fala mal do Rio, da própria Globo – onde hoje trabalha (nada contra!), e questiona até mesmo o punk fora da Inglaterra.

Nesse texto bastante emblemático pelas gírias e sua forma (“...fichas telefônicas para transar badges...”, “...o ultrapassado heavy metal”...), Hermano dá detalhes do que foi o início do movimento punk carioca, que nunca teve a mesma força dos movimentos de São Paulo e Brasília, por exemplo.

Há outras reportagens que transcrevi e que fazem parte dessa Série O Resgate da Memória que também mostram textos que são o retrato do período, tanto dos anos 1980, quanto dos anos 1960 e de 1970. A linguagem, as palavras e gírias, as colocações pessoais, isso tudo é muito interessante, que marca um período. Fazendo um paralelo, é como escutar uma gravação dos anos 1960, outra dos anos 1970 e outra dos anos 1980.

Escolhi tirar do baú essa reportagem sobre o (praticamente não falado) punk carioca exatamente para lembrar que Clemente, o Tadeu Nascimento (Inocentes e Plebe Rude) acaba de lançar, juntamente com Marcelo Rubens Paiva, o livro chamado ‘Meninos em Fúria’, que fala da efervescente cena paulistana de 1982.




Pipoca Moderna Nº 3 – Janeiro 1983

Texto: Hermano Jr.
Fotos: Maurício Valladares

Anarquia em RJ
A estranha saga dos punks cariocas

Desculpem-me os cariocas fanáticos, mas o Rio é uma cidade decadente. Para comprovar, basta abrir as páginas “culturais” dos cada vez mais tediosos jornais da cidade. Não faltam novidades, falta vitalidade. Parece que a Rede Globo sugou todas as energias que por aqui um dia circularam. E deu no que deu. Tudo se resume a um certo clima neo-hippie, tipo sol de Ipanema.

E não adianta mudar o ponto de praia, não adianta deixar de ir ao Baixo Leblon. Bairrismos a parte, muito melhor é ir passar o fim de semana em São Paulo. Há muito tempo é na Paulicéia Desvairada que as coisas estão acontecendo. Não quero atiçar a briguinha já tradicional entre as duas megalópoles brasileiras. Para bom entendedor duas palavras bastam. Os fatos (David Byrne que me conteste) estão mais claros do que nunca. Perdemos até nosso status de plateia privilegiada. Antes (que pretensão!) qualquer artista que quisesse ser famoso nacionalmente tinha que passar pelo nosso veredito. Depois daquela famosa noite da vaia ao Arrigo Barnabé no Noites Cariocas, a “legitimidade” de nossos julgamentos corre grandes riscos de não ser mais levada a sério. Que bom! 

Talvez assim possamos perder um pouco daquela acadêmica responsabilidade, aquele ar deja vu, aquela ridícula ironia. Restam-nos poucas esperanças. A decadência (vide Berlim) pode nos anunciar um momento de rara (e perversa) criatividade. Pode gerar uma nova sensibilidade. Para início de conversa, gostaria de fazer uma proposta: recuperamos a capacidade de sermos surpreendidos. Esse seria um bom caminho para redescobrir a cidade. Surpresas, garanto, existem. Basta mudar a estação.

Narro agora um fato surpreendente, que, até alguns meses atrás, me era totalmente desconhecido. Tem até uma estorinha. Tudo começou com o telefonema de uma grande amiga minha, que também anda de saco cheio com a cidade maravilhosa. Sua voz não podia esconder uma certa emoção, algo assim como um grito de “terra a vista” ou, se preferirem, “nem tudo nesta cidade foi dominado pelo padrão de qualidade global”. 

É claro que não acreditei, principalmente porque a estória que vinha a seguir não era das mais confiáveis. Afinal, não é todo dia que você descobre que em Campo Grande tem uma pista de skate e que é neste território que aparecem os primeiros sinais do movimento punk carioca. Numa conversa com o fotógrafo Maurício Valladares, comentei o assunto e ele me disse que já tinha ouvido falar em algo parecido. Acho que nem é preciso dizer que no primeiro sábado que pintou, eu já tinha combinado tudo para fazer minha primeira viagem pelos “perigosos” caminhos do punk nacional. Por que num fim de semana? Mais uma surpresa. O movimento punk carioca, como seu similar paulista, não é, nem poderia ser, um movimento de jovens de classe média. Ele nasce como uma reação dos jovens suburbanos à falta de perspectiva, ou melhor, à violência cotidiana a que estão submetidos. E esses punks são obrigados a bater ponto de segunda à sexta.

Antes de contar o que vi lá, devo tornar explícitos alguns preconceitos que, desejáveis ou não, levava comigo. É claro que eu tinha a maior curiosidade em relação ao punk nacional, mas não entendia direito as razões de seu aparecimento, hoje, no Brasil. O punk, pra mim, tinha sido um movimento importantíssimo. Mas em 76 e na Inglaterra. Eu não conseguia pensar o punk fora daquela terrível crise econômica, específica do Império Inglês, a não ser como uma moda de butique. É até engraçado ver uma publicação como o Interview brasileiro dando a maior força a gente como Nina Hagen ou The Clash, ou ver um badge do Exploited ser vendido a Cr$800,00 (oitocentos cruzeiros) na butique Yes Brazil.

Eu não estou aqui para dar lições de moral. Mas tudo tem seu limite. Que Vivien Westwood possa mostrar, em Paris, a última coleção de roupas da famosa World’s End, de Malcolm Mclaren, tudo bem. Que Salomé (líder do conjunto Os Animais Tarados de Berlim, que era suporte de Nina Hagen na Alemanha) esteja expondo suas pinturas na importantíssima Documenta de Kassel, melhor ainda. Os tempos mudaram. O jogo é este. 

Eu só achava que o punk tinha perdido o gás. O que era contestação tinha se transformado num artigo a mais no totalitário supermercado da cultura de massas. Mas, como já disse, isso era um preconceito. O punk parece se fortalecer com todas essas ambiguidades. Tanto que hoje é um movimento internacional, explodindo em cidades tão diferentes como São Paulo, Varsóvia (a banda TZN Xenna), Paris (Lucrate Milk, Guernica, France Profonde), Los Angeles (Black Flag, Circle Jerks) e uma série de novos grupos em Londres.

Mas também não é pra se ignorar que o período pós-punk, que estamos vivendo, é fértil em criação de modismos que quase se atropelam, devido a sua curtíssima duração. São milhares de bandas e grupos de adolescentes que se intitulam neo-isso, pós-aquilo ou anti-qualquer coisa. Cada um destes movimentos (já que não temos outra palavra para designá-los), cria tanto roupas, penteados, danças; enfim, toda uma postura política diversa. Com toda essa movimentação, o punk seria uma fórmula ultrapassada?

Quando cheguei a Campo Grande, estava tomado pelas mais variadas expectativas. Não sabia como seria recebido, não tinha a mínima ideia sobre o que era o punk para aquelas pessoas. Tudo foi mais fácil do que eu esperava, principalmente por estar acompanhado pela Jô, aquela amiga que me dera o primeiro toque sobre o nascente punk carioca, que já era membro honorário daquele grupelho (desculpem-me a observação mas decodifiquem esta palavra via Felix Guattari).

Não resisti a fazer a primeira pergunta: mas, com mil diabos, o que é que punk tem a ver com skate? Intrometido, comecei a falar que, para mim, skate é coisa de “geração dourada”, uma imagem ligada ao surf, comida natural e “curtição da natureza”; um estilo que entreva em sérias contradições com o punk. 

De início, já dava pra sacar as grandes diferenças que separavam os dois estilos. As pessoas chegavam lá vestidas na mais séria tradição punk: casaco de couro, mil badges, camisetas estampadas com logotipos dos mais arrasadores grupos punks da atualidade (tipo Discharge, Uk-Subs e Cólera), calças no meio da canela, alfinetes, pulseiras com rebites, tênis furadíssimo e o tradicional cabelo espetado. Mas logo, para entrar na pista, sofriam a mais completa transformação. Apareciam metidos em capacetes, braceleiras, joelheiras, luvas e calções especiais. A única coisa que lembrava a anterior imagem punk eram alguns símbolos do movimento anarquista, e de grupos hard core, espelhados pelas camisetas. 

A pista também está completamente pichada com nomes de grupos de rock, dos estilos mais variados. Você pode encontrar desde os inevitáveis Sex Pistols, passar pelo ultrapassado heavy metal de um AC/DC, até chegar a uma discografia de Bob Marley. As respostas foram aparecendo aos poucos. O punk pintou através do skate e só por causa dele. Me perguntaram logo se eu não sabia que alguns membros do Black Flag, e vários outros punks de Los Angeles, também andam de skate. Não sabia, mas comecei a ficar impressionado e curioso em saber como eles obtêm essas informações.

A pista de skate de Campo Grande já tem 4 anos. Muita coisa já aconteceu, neste tempo todo. Vou fazer um resumo do que consegui escutar sobre estes acontecimentos. No início, a pista era dominada pelo pessoal da ZS (o nome dado pelos skatistas ao pessoal que mora na Zona Sul do Rio, em oposição aos pessoal da ZN, Zona Norte). Mas logo os iniciantes da ZN adquiriram habilidade suficiente para disputar os primeiros lugares nos campeonatos de skate locais. A partir daí a história fica confusa. Só consegui o testemunho do pessoal da ZN e mil outras versões devem ser possíveis. O lance é que começaram a pintar ciúmes e disputas acirradas entre as facções ZS e ZN.

Contaram-me que era completamente impossível andar um ZN e um ZS na mesma pista e, o mais interessante, começaram até a aparecer camisetas com logotipos tanto da ZS quanto da ZN. Os grupos foram ficando cada vez mais fechados e é nesse momento de disputa que aparece o punk no grupo da Zona Norte. Na mesma época, o punk também aparece entre os skatistas em São Paulo, mas os dois processos se desenvolveram de forma independente. O contato entre os punks skatistas do Rio com os paulistas só vai se dar num segundo momento.

Diz a lenda que foi o Tatu**, hoje vocalista do grupo Coquetel Molotov e o mais provável candidato ao título de intelectual orgânico dos punks cariocas, quem começou a trazer as primeiras ideias punk para a pista. Todos já tinham uma formação roqueira, muito heavy-metal na cabeça – e até já curtiam o Sex Pistols, mas ninguém se aventurava a “virar punk”. Tudo começou com alguns discos, hoje renegados, de grupos como Devo ou B-52.

Como as primeiras viagens a São Paulo e o contato com o pessoal da Punk Rock Discos, a barra começa a ficar pesada. New Wave passa a ser palavrão; o Clash, traidor do movimento: virou funk (claro que não contei para eles que, atualmente, um dos meus músicos preferidos é o Grand Master Flash). Agora só dá Anti-Pasti, Exploited, Cockney Rejects, Crass, Uk-Subs e companhia. O punk acirra ainda mais a disputa entre ZS e ZN. 

Os primeiros punks foram tachados de palhaços pelo pessoal da Zona Sul. Mas logo os punks conseguiram a hegemonia na turma da ZN e a ZS vai, pouco a pouco, deixando de frequentar a pista de Campo Grande. Ainda existem skatistas nesta pista que não são punks, mas todos estão acostumados tanto ao visual quanto à violência das músicas punks. Sempre alguém leva um gravador para a pista e mostra as últimas novidades punks, conseguidas através de São Paulo.

A dependência em relação ao punk paulista é total. Todos sabem de cor as letras do Grito Suburbano e do disco do Lixomania. Um número do SP Punk ou do Fator Zero é sempre disputado por todos e sempre acaba rolando de mão em mão para ser xerocado. Mas esta dependência já começa a ser criticada. Afinal, além de ninguém ter dinheiro para ir sempre a São Paulo, eles tão a fim de criar seus próprios jornais, roupas e som.

O punk carioca é um movimento que mal começa a nascer. Eu até fiquei grilado quando a Ana Maria Bahiana me chamou para escrever esta matéria, de fazer alarde em cima de uma coisa que mal existe. Os próprios punks, quando eu contei que estava escrevendo um artigo sobre eles, fizeram questão de deixar claras as deficiências de seu movimento. O número 00 do Manifesto Punk, o primeiro fanzine lançado pelos punks do Rio (o mesmo formato do SP Punk), logo no recado da primeira página, lá vai: “todos sabemos que o movimento punk não vai nada bem aqui no Rio”.

A comparação com o movimento paulista é inevitável. Mas isso não impede que eles estejam nas ruas, tentando, de qualquer forma, fortalecer o movimento. Às vezes conseguem ser bastante criativos. Um deles, o Airton Cavalo, que mora em Niterói, faz jaquetas e pulseiras com rebites. A improvisação é o que não falta, servem até fichas de telefone para transar os badges

Já aconteceram três festas punks, aqui no Rio. A primeira foi na Tijuca, na casa do Lucio Punk Flávio (quem foi ao Circo Voador na noite em que tocaram. The Way e o Sangue da Cidade, teve o prazer de conhecê-lo, anunciando os futuros shows da banda Coquetel Molotov, da qual é disrítmico baterista). A segunda foi em Santa Teresa, mas foi prejudicada “pela presença de uns hippies”. A terceira foi em Rocha Miranda. Dizem que essa foi legal, pois apareceram vários punks novos. Cheguei a ir a Rocha Miranda, mas ninguém conhecia o tal endereço. Se eu tivesse a fim de ir a um pagode, era o que não faltava, mas festa punk?!! A resposta era sempre a mesma. Não sei o que é isso não.

A reação da população à visão dos punks é das mais curiosas. Não faltam estórias pitorescas. Os adjetivos a eles endereçados não são muito carinhosos. Os punks estão cansados de serem chamados de anormais, palhaços e até mesmo de bichas. Ninguém suporta um cabelo verde ou um corte moicano. Parece que o traje também afasta as namoradas.

Vampiro, o primeiro punk carioca a raspar a cabeça como um moicano e também vocalista, dono de uma voz alucinada, dervixe possuído, anda assustando o subúrbio carioca. A agressão visual é procurada conscientemente, é uma postura política. O famoso estereótipo do punk violento, que quer dar porrada em todo mundo, cai por terra no primeiro contato com estes orgulhosos suburbanos. 

A agressão para eles só está na música e no visual. A agressão física parte sempre dos outros e, para um punk, é uma questão de honra se defender. Eu inclusive presenciei, no trem voltando de Campo Grande, um tapa que alguém deu em um deles, pela janela, ao parar numa estação. As letras de suas músicas, muitas das quais nunca foram sequer tocadas, são respostas diretas a este estado das coisas. Numa música do Coquetel Molotov, por enquanto o único grupo com uma formação estável (além de Tatu e Lucio Flávio, tem o Omar no baixo e o César, na guitarra), nos diz que “o fascismo só existe/onde há capitalismo/de maneira mais nojenta sufocante e fraudulenta.

Por detrás desta gravata/existe muita treta”. Mas ao mesmo que cantam estas músicas, lêem Bakunin ou fazem campanha pro PT, eles se negam a marcar a próxima festa para o dia de Natal, dizendo “sou punk, mas ainda gosto da minha família”. Dou palavra ao Manifesto Punk: “Para agredir a sociedade, você não precisa ficar sem tomar banho. Ser punk é politizar-se, entender o seu próprio sofrimento, lutar por uma sociedade sem explorados e exploradores, não ficar submisso a ninguém e principalmente, ser você mesmo”.

** Tatu (Jorge Luiz de Souza) faleceu em dezembro de 2005. Ele era jornalista e skatista, foi o 1º campeão brasileiro de skate vertical. Na época ganhou homenagem dos amigos na pista de Campo Grande e, em 2012, um skatepark carioca recebeu seu nome. Assim como o Coquetel Molotov foi a 1ª banda de punk skate, Tatu foi o 1º punk skatista do Brasil.





12 de julho de 2016

Motorista = Nazista

Antes de iniciar esse longo texto, faço três colocações: duas afirmações e uma questão. Então:

1) Algumas coisas ditas aqui já foram escritas, de forma parecida, em outros textos.
2) Pedestre também erra, tem suas falhas.
3) Por que, ao chegar em uma esquina no momento em que um carro atravessa, você freia e aguarda? Por que, nessa mesma situação, se ao invés de um carro atravessando seja um pedestre atravessando na faixa (ou não), você não freia e aguarda? Por que sendo um pedestre você continua acelerando e o faz correr para não ser atropelado? Quem é seu par: o carro ao lado ou o ser humano ao lado?

Isso posto...

Na história da humanidade, é sempre o mais fraco, o mais humilde, o mais oprimido, o mais inocente quem paga. Como dizem “a corda arrebenta do lado mais fraco”. No universo da mobilidade urbana, quem sempre paga é o pedestre...

Como já disse outras vezes quando escrevo sobre esse assunto, falo do ponto de vista de quem mora em São Paulo, capital (que em 2013 registrou a morte de 514 pedestres para cada 100 mil habitantes!!!).

Não, o título não é exagero.
Esse texto é direto para você que se transforma em nazist... ops, motorista algumas vezes no dia.
Motorista se acha raça superior
Motorista é egocêntrico
Motorista não respeita ninguém, nem a seus iguais
Motorista é criação do demo
Motorista acha que tudo gira ao seu redor
Motorista não respeita leis
Motorista é mimado e reclama de barriga cheia
Motorista não se importa com o que acontece ao seu lado
Motorista nunca sabe o que acontece ao seu lado
Motorista acha que só ele está com pressa
Motorista vive em um universo umbigo
Motorista transforma seu carro em arma
Motorista mata

O que acontece no trânsito é o reflexo, o espelho de nossa sociedade.

São todos nazistas egocêntricos que só pensam em maldade quando estão com as mãos no volante. Se transformam em Hitler, em diabo ao entrarem no automóvel. Motoristas e seus carros são o câncer da humanidade.

Perceba na foto o espaço destinado para o pedestre
Pense nisso quando entrar em um carro. Escrevo isso, mesmo pensando nos amigos, nos parentes. Mas é verdade. Apenas estou sendo sincero, curto e grosso. Estupidamente grosso, porque a paciência já acabou faz tempo. Só de caminhar até a esquina e voltar, você pode perceber o quanto está ricícula a situação, a má educação.

Carros estacionam em local proibido (vagas para pessoas especiais e idosos), param na esquina mesmo sendo local onde ônibus faz a curva, param em cima da faixa de pedestre e não a respeitam (ainda hoje!!!), não usam pisca pisca, não dão passagem a ninguém.

Quem falou que o farol amarelo significa “acelere como um filho da puta e foda-se o resto contando que você passe o cruzamento antes do vermelho!”? Onde está escrito isso?

Ao estacionar na calçada, mesmo sendo uma rua calma, ou por alguns minutos, lembre-se que ali pode passar a qualquer instante uma senhora com seu carrinho de feira, uma jovem mãe com seu bebê no colo ou no carrinho, um deficiente visual, um cadeirante, um entregador com carrinho de compras, alguém com cachorro, enfim, não é para parar na calçada nunca. Onde está a dificuldade em entender isso?

Se você está de carro – que é o meio de transporte mais rápido e cômodo – e está com pressa, imagine então quem está a pé ou de transporte público, e está com a mesma pressa!!!! Então, cargas d’água por que não parar por 10 segundos para alguém atravessar? Se é chato pra você parar, mesmo estando de carro, imagine pra alguém que está a pé ter que parar para esperar um santo lhe dar passagem! Por vezes ficamos minutos até conseguirmos atravessar duas faixas.

Hoje mesmo, dia em que escrevo esse texto, um homem acenou com a mão como dizendo “pode atravessar”, isso porque eu estava em uma esquina e na faixa de pedestre! Aí fui atravessar, mas o sujeito apenas diminuiu, não parou, resultado foi uma fina que tirou de mim, mesmo eu estando na faixa e “tendo a permissão” dele. Vocês motoristas com seu egoísmo são o demônio!

Entenda que pra você, estando de carro, andar um quarteirão significa 10 segundos ou menos, mas para quem está a pé é, no mínimo, um minuto! Dá pra perceber sua vantagem ou quer que desenhe? Motorista é coisa ruim!

Motorista é maldoso, não quer parar por nada, uma vez que sai pra rua. É como se o mundo tivesse que parar para ele andar.

Motorista, você não é melhor do que ninguém. Pelo contrário. Você é a doença. Você é o mal. Você é o câncer.

Essa semana em meia hora de caminhada, aqui pelo meu bairro, vi diversos nazi-ego-erros. Destaco alguns:
- Parou em cima da faixa de pedestre (sempre)
- Atravessou farol vermelho (sempre)
- Estacionou em vaga de deficiente em um supermercado e, além de não ser deficiente, também não era cliente do supermercado.
- E o mais inusitado: um carro parado em cima da faixa de pedestre e o motorista teclando no smartphone. Ele rente a calçada obstruindo totalmente a passagem e a faixa. Ele olhou pra mim e andou com o carro pra frente, assim que parou falou pra mim com ironia “pode passar majestade”. O nazista, ops, motorista achava que estava certo e eu errado, é isso? O fato de eu querer atravessar na faixa de pedestre significa que sou folgado como um rei, é isso? E o motorista na situação dele não é rei? É nazista, né!?

Voltando a pé de um recente e maravilhoso show de Arrigo Barnabé, em um domingo por volta das 21h30, estava eu parado esperando o farol fechar, e assim que aconteceu, caminhei para atravessar na faixa. Eis que de repente um carro dá uma lenta acelerada para poder ver a esquina com a intenção de atravessar no farol vermelho (domingo a noite, pouco movimento, sabe como é, assim pode atravessar no vermelho, está na lei, né?).

Por causa disso tive que dar uma brusca parada, pois me pegou de surpresa (não só a mim, mas uma mãe junto com a filha adolescente). A pessoa me olhou e não falou nada. Diante de sua total falta de noção, fiz um sinal de positivo com meu polegar, de forma irônica, ela então de mau humor me pediu desculpas, quando olho melhor para o carro há uma criança de uns 4 anos sentada no banco da frente e eu falei: “belo exemplo”. Já no final da faixa escuto aos berros “já pedi desculpas, caralho!”. Isso com a pessoa estando ao lado da criança. Tinha mais carro e mais gente na rua. Nem olhei pra trás. Belo exemplo... não à toa só há motorista barbeiro e egoísta na rua.

Motorista, além de nazista, não sabe dirigir.

Entendo que há muita gente que precisa do carro, são ‘n’ os fatores, mas fato é que há muita gente que não precisa de carro, que poderia muito bem ‘armar’ uma carona, ir de ônibus, metrô, bicicleta.

Nossas autoridades praticamente não existem – nem sei por que raios inventaram uma lei sobre as calçadas em SP e que nada adianta. As calçadas são tortas, cheias de buracos, desníveis ilegais e falhas das mais diversas. Além dessas dificuldades os pedestres disputam espaço com postes, árvores, canteiros de flores e plantas ilegais, lixeiras ilegais, bueiros.

Já há uma série de obstáculos que o pedestre enfrenta, e ainda tem que enfrentar você motorista que é um monstro, maldoso, egoísta, nazista. E, se para um pedestre normal, já é ultra difícil enfrentar as ruas, imagine para os pedestres especiais e pessoas com dificuldade de locomoção (idosos, por exemplo).

Mesmo chovendo você é obrigado a ficar parado por minutos, mesmo estando na faixa, até que o fluxo de carros diminua. Na maioria das vezes esse fluxo menor dura pouco tempo, obrigando o pedestre a andar acelerado ou até mesmo correr, mesmo na chuva, mesmo com mochila, mesmo com guarda chuva, mesmo se molhando, mesmo carregando objetos. Mesmo nessa situação não há um FDP de um motorista que pare, que respeite.

Não podemos a todo instante estar em uma faixa de pedestre ou passarela. Podem ficar longe e dependendo da situação pode se levar bem mais de 10 minutos para acessá-lo. Imagine você tendo dois caminhos: um que é mais reto e sem obstáculos, mas que vai demorar 20 minutos pra você chegar; e outro que é tem mais curvas e esquinas, mas que você chegará em 5 minutos. Qual você escolhe? Então porque raios o pedestre não pode fazer sua escolha.

Entenda que uma passarela ou uma faixa, por vezes, estão longe de onde o pedestre está, que leva tempo até acessá-la e não te custa nada motorista egoísta, desacelerar / diminuir, para que um pedestre atravesse a rua com segurança, mesmo estando fora da faixa.

Mas pra quem é egoísta e tem instinto assassino é difícil fazer isso, né motorista?

Pontos de ônibus, passarelas, o tempo dos faróis, nada que é voltado para o pedestre é feito por quem sabe o que é ser pedestre. No mínimo, é feito sem qualquer tipo de pesquisa com o próprio pedestre para saber o que é melhor.

Compreenda motorista que, mesmo as coisas que são feitas para o pedestre, são mal feitas, mal elaboradas... além de ninguém respeitá-la. Do que adianta andar 7 minutos para se chegar a uma faixa de pedestre se quem tem que respeitá-la não o faz?

A faixa de pedestre não tira do pedestre o perigo da morte por atropelamento, pelo contrário, por conta falsa impressão de segurança. Ser motorista é ser cruel!

Nós pedestres não temos voz. Nada. Nem as “autoridades competentes” conseguem pensar no pedestre. Imagine a Av. Paulista ou qualquer outro centro nervoso de qualquer capital, na hora do almoço, um bando de gente pelas calçadas, atravessando rua, entrando e saindo dos escritórios e restaurantes. Você acha que alguém pensa em aumentar o tempo do farol vermelho para beneficiar o pedestre ao menos no horário das 12h as 14h? Que nada. Mesmo tendo muita gente na rua quem manda é o carro. Quem manda é seu condutor maldoso e egoísta.

A indústria do automóvel é estúpida e manipuladora. Ministério Público deveria investigar a relação das montadoras com os políticos. Não se deve incentivar o consumo de automóvel. Deve-se sim, incentivar a melhora e o aumento do transporte público. Mais metrô, mais ônibus, mais espaço pra ele para o pedestre.

E você que se transforma em nazist... ops, motorista algumas vezes ao dia, pense muito sobre o que escrevi aqui. Lei e releia esse texto toda semana. Repasse para seus amigos. Principalmente para aqueles conhecidos que nada fazem sem carro e ainda reclamam das faixas especiais para ônibus, das ciclofaixas e pasmem, reclama do trânsito! Parece piada, mas motorista reclama do trânsito hahaha. O cúmulo do egoísmo!

Motorista já tem o conforto do carro. Som, ar condicionado (ou não), estofado confortável (do busão que é, né?!?). Todo esse privilégio e a agilidade (mesmo com trânsito).

Motorista não pensa que aquele pedestre pode estar andando por muito tempo, que pode já ter passado por trem, ônibus, andado por uma hora ou mais e agora caminha em direção a uma estação de metrô, pra depois ainda pegar outro ônibus, caminhar por mais uns 20 minutos para daí sim chegar em sua casa.

Em todo esse tempo gasto pelo pedestre, o motorista chegou em casa, beijou a esposa e os filhos, tomou banho e já está sentado para a janta. Custa para esse motorista, no caminho de casa, parar 3 ou 4 vezes para dar passagem aos pedestres, mesmo não sendo sua obrigação?

É muita maldade e muito egoísmo no coração. Como Hitler que pensava ser de uma raça superior, melhor que os outros. “Eu sou o melhor, então o resto que se foda. Passo por cima mesmo”. Raça que se achava dona de privilégios. Nazistas eram o câncer e se achavam deuses. Motoristas são iguais.

Veja bem: você pode ser uma pessoa incrível, muito agradável, super legal, engraçada, bonita, interessante, inteligente, e ter energia boa e positiva. Como meus familiares e amigos que são incríveis, uns amores. Assim como meus ídolos e muita gente da melhor qualidade, sei lá, falo até para aqueles que são exemplo de vida pra humanidade. Porém um ódio, uma superioridade, um egoísmo profundos invadem o coração de todas essas pessoas que se transformam em motoristas e ficam cegas para qualquer outra coisa que não seja seu objetivo.

A coisa é grave, muito grave!

Motorista que tal ficar contente com o que você já tem, e que não é pouco, e parar de cometer seus nazi-egos-erros de uma vez por todas?

Escrevi esse texto de forma agressiva porque percebo uma piora a cada dia. As agressões às leis de transito são cada vez maiores. As agressões aos pedestres são cada vez maiores.

Se você acha que exagero, então esqueça seu carro por um mês. Tem coragem?


PS1: Não, o pedestre não é isento de erros. Ele também é imprudente, mas é tão desumano o que o motorista faz que essas imprudências são fichinhas que nem dá pra comparar. Até porque nem espaço para imprudência o pedestre tem...

PS2: Para atravessar a rua temos que olhar os dois lados, fazer o motorista nos notar, observar se não vem motos ou bicicletas entre os carros, se tem ciclofaixa, ver se não vem uma bicicleta... ajuda, vai!?!


Outros textos sobre o mesmo assunto:






Preste bastante atenção nesse vídeo. É forte, mostra uma série de acidentes causados por impridências. Ok, tem imprudência de pedestre também, mas como disse é incomparável, e mesmo nesses casos perceba a velocidade dos carros... é forte!



Exemplo de “Sou motorista nazista. Posso tudo!”. Gente folgada...



Perceba a arrogância de sempre se achar o correto, o bom, o superior



Motorista pode tudo. Motorista é raça superior! Aqui fala-se do egoísmo...

16 de junho de 2016

Clássicos de junho

Vou escrever em ordem cronológica, por décadas. E este mês não há nenhum clássico da jovem guarda, mas sim da pré-jovem guarda, e são dois.

Maravilhoso poder voltar ao final da década de 1950, porque foi nesse período que o rock brasileiro começou a dar seus primeiros passos. Ele começou lento, desconfiado, medroso, andando sorrateiramente e olhando para os lados. A primeira gravação (em inglês) aconteceu em 1955. Em 1957 Cauby Peixoto gravou o 1º rock cantando em português, a maravilhosa “Rock’n’Roll em Copacabana” (uma música pesada pra época e que nunca ninguém teve o interesse de regravá-la).

Nora Ney e Cauby Peixoto estavam bem longe do rock, mas gravaram os primeiros rocks por outros motivos: Nora por falar muito bem o inglês e Cauby por ser o cantor mais conhecido daquela época (nada melhor prar divulgar o novo ritmo).

A partir da gravação de Cauby as coisas começaram a ficar mais intensas para o rock (os dois lançamentos, em 1955 e 57, foram bem sucedidos) e assim começaram a surgir novos nomes, dedicados 100% ao rock. Foi o caso dos irmãos Campello, Tony e Celly. Em 1958 eles lançaram o 78rpm com “Forgive Me” e “Handsome Boy”. Um dos primeiros nomes do rock brasileiro era uma mulher, ou melhor, uma garota de 16 anos, Celly Campello! Certamente ela também foi uma das primeiras roqueiras do mundo!!!!! Mas e daí, né?! Afinal estamos no Brasil.... Lançamento histórico. Cada lado para um irmão, Celly cantou “Handsome Boy”.

Ainda da 1ª geração, tem o compacto lançado por Ronnie Cord, em 1964, com o clássico “Biquini de Bolinha Amarelinha” e no lado B “Veludo Azul”. As duas músicas são versões - nessa época o rock autoral dividia espaço com versões e covers. “Biquini” fez grande sucesso na época do lançamento e voltou a ser tocada em 1976 por conta da trilha sonora da novela ‘Estúpido Cupido’.

A medida em que os anos passavam, as coisas foram ficando intensas para o lado do rock. A jovem guarda explodiu, dezenas de artistas eram lançados, programas de rádios e tvs, capas de revistas. Mas depois da onda da JG, tudo ficou mais nebuloso e todos se perguntavam o que aconteceria?! Dessa turma, sendo curto e grosso, só sobrou Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Veio a Tropicália e sacudiu tudo. Na década de 1970 teve os que aproveitaram dessa mistura de experimentalismo, rock, bossa e mpb, e teve os que ignoraram. Em 1973, uma das maiores bandas de rock do Brasil, e filha direta do Tropicalismo, lançou um dos clássicos de sua discografia (são tantos!). Falo de Novos Baianos e do disco ‘Novos Baianos Futebol Clube’, que tem “Sorrir e Cantar Como Bahia”, “O Samba da Minha Terra”, “Cosme Damião”, “Os ‘Pingo’ da Chuva”... afff são todas! Coisa fina, coisa linda!

Em 1974 Rita Lee, finalmente 100% livre do Os Mutantes, lançou seu primeiro disco com o Tutti Frutti, ‘Atrás do Porto Tem Uma Cidade’. Recebeu críticas negativas, li algumas delas, e não fazem sentido. O disco é bom, cheio de clássicos, a banda fez um monte de shows, e foi se afinando cada vez mais. Só pra manter a rixa rsrs prefiro o ‘Atrás do Porto...’ ao ‘Tudo Foi Feito Pelo Sol’, que Os Mutantes lançou também em 74 (um dos mais vendidos da década).

(Todo esse material antigo que falo aqui, incluindo Cauby, Nora Ney... é só procurar no You Tube que tem tudo lá).

Não me pergunte o motivo, mas posso te garantir não ser coincidência, mas um ano depois do primeiro lançamento, também em junho, Rita Lee & Tutti Frutti lançou o grande clássico da discografia: ‘Fruto Proibido’, que só prova o quanto tocaram nesse período, porque a química é nítida no disco, a banda voando baixo! Dizer o quê de ‘Fruto Proibido’? Clássico do começo ao fim. Não tem uma que escapa. Disco que atravessa gerações.

Nesse mês de junho foi a geração 80 que mais lançou discos. São vários os clássicos. O primeiro dessa década foi um compacto lançado em 1981, que não fez grande sucesso, mas é de suma importância para o rock brasileiro. A Gang 90 & Absurdettes lançou o 1º compacto pelo selo independente HOT, de Nelson Motta. Com distribuição acanhada, não teve uma alta vendagem, mas fez estrago, porque mudou o rumo do rock brasileiro pra sempre. As músicas gravadas foram “Perdidos na Selva” e “Lilik Lamé” (versão de “Christine”, de Siouxsie and The Banshees). A Gang participou do Festival Shell na Globo, chamou a atenção e, como dizem, o resto é história.

Você querendo ou não, outro responsável por dar uma força ao rock, é Lulu Santos (e tem novamente as mãos de Nelson Motta). Já velho conhecido da cena rock desde os 70, ele lançou em 1982 o primeiro disco 'Tempos Modernos', que fez um mega sucesso e deixou pra sempre canções como “De Repente Califórnia”, “Areias Escaldantes” e “De Leve” (versão de Get Back).

Amigos de Lulu eram (e são) Herbert, Bi e Barone do Os Paralamas do Sucesso que, em 1983, lançou o 1º compacto com “Vital e Sua Moto” e “Patrulha Noturna”. O compacto vendeu 10 mil cópias, uma coisa estupenda pra época. Se hoje “Vital...” ainda toca nas rádios, imagine nessa época!!!

As ligações continuam, agora com Lulu Santos, que foi produtor do maravilhoso ‘Televisão’, 2º do Titãs, lançado em 1985. Beeeeem diferente do 1º disco, ‘Televisão’ já previa o que viria pela frente com músicas como “Pavimentação”, “Massacre”, “Não Vou Me Adaptar” e “Autonomia”. Lembro que “Televisão” tocou muito nas rádios, a banda ia em todos os programas possíveis de tv e foi aos poucos caindo no gosto da galera.

A postura da banda já era outra, um pouco mais agressiva. Lembro até de ver um dos últimos shows desse 2º disco, onde tocaram uma música que se chamava “O Grito”, e que depois virou “AA UU”. E aí está outra coincidência de data. Foi também em junho, mas de 1986, que Titãs lançou o grande disco de sua carreira... qual? Qual? Quaaaaal? 'Cabeça Dinossauro'! Aí o bicho pegou e a banda finalmente se consolidou no mercado e caiu de vez no gosto da galera. “Polícia”, “Bichos Escrotos” (censurada), “Família”, “Igreja”... Falar o quê???

1986 foi ano de muitos clássicos (vários deles com postagem no Sete Doses, descritos pelos protagonistas). Muitos desses clássicos tocaram a rodo nas rádios e na tv, fazendo inclusive parte de trilha de novela e tals. Porém há dois desses diversos clássicos que não chegaram à grande mídia, até porque foram lançados por bandas punks. Inocentes lançou o ‘Pânico em SP’ (produção de Branco Mello do Titãs) e o Cólera lançou o ‘Pela Paz em Todo Mundo’. Nem vou citar as músicas clássicas desses discos porque são todas. Dois discos fodásticos e necessários. Eu punk velho nem tenho o que dizer, de tão grandiosos esses lançamentos.

Um ano depois de vender mais discos do que qualquer outro artista de sua geração, com o ao vivo ‘Rádio Pirata’, e vindo de uma ascensão de 3 anos, o RPM em 1987 estava tentando sobreviver, porque o sucesso estrondoso e a exposição excessiva na mídia, fez os egos explodirem e a banda ruir. Nessa tentativa de sobrevida, Milton Nascimento juntou a banda em um momento de separação e gravou um single com as músicas “Feitos Nós” e “Homo Sapiens”. Em formato de vinil cheio, mais uma vez a gravadora mamou nas tetas do consumidor e, apesar de apenas duas músicas, era vendido como disco normal. Milton até conseguiu dar essa sobrevida ao RPM, mas a banda nunca mais voltou a fazer o sucesso que fez.

E pra fechar, o único lançamento dos 90 do mês de junho, mas não menos clássico que outros citados aqui: o 1º disco do Maskavo Roots, um clássico belíssimo dessa década que foi recheada de lançamentos de peso. Ok, esse disco não é tão conhecido como os primeiros de CSNZ, Raimundos, mundo livre s/a, Planet Hemp... mas não deixa de ser um disco e tanto! Na fila para entrar no estúdio e gravar, a banda estava em SP pronta para gravá-lo, mas o cronograma do Banguela atrasou, e o Maskavo ficou na capital paulista no aguardo e, enquanto isso, passou a ensaiar o disco. O resultado dessa espera e de todos esses ensaios é nítido nesse disco que tem a produção de Miranda e de Nando Reis. Uma pérola que ouço sempre!

Desse cardápio todo qual será o primeiro que você irá escutar? J

24 de maio de 2016

Raimundos

Em 14 de maio tive o prazer de assistir a pré estreia do documentário ‘Time Will Burn’, que conta a história do underground do início dos 90, as bandas brasileiras que cantavam em inglês. Já no final, com os entrevistados filosofando a respeito do fim dessa geração (incluindo esse que vos escreve), a minha querida amiga Alê Briganti, do Pin Ups cita o Raimundos, e essa citação me incomodou, e me fez escrever esse texto. Falarei dessa citação mais ao final do texto...

A Raimundêra quebrou em 19 de junho de 2001. Sei a data porque também é a data de lançamento de O Diário Da Turma 1976-1986. Nesse dia a banda/gravadora informou oficialmente a saída do vocalista Rodolfo, coisa que todo mundo já sabia há algumas semanas.

No auge da carreira, vendendo horrores, tocando nas rádios; aparecendo em programas de tv, jornais e revistas, a banda quebra. A sequência ‘Só no Forévis’ e o ‘Ao Vivo’ foi matadora em termos de mercado. Cachê gordo, agenda lotada, lançamento atrás de lançamento, boa relação com gravadora e tudo bem administrado.

Com essa segurança de presente e futuro garantidos, os integrantes da banda e da fiel equipe que trabalhava com ela, como qualquer ser humano, fizeram seus investimentos pessoais, comprando casa própria, negócios de família sendo criados, essas coisas normais, mas que necessitam de médio a alto investimento, de capital inicial, etc.

Com a repentina saída de Rodolfo, intransigente em nem ao menos terminar a turnê do Ao Vivo (o que ao menos faria todos os envolvidos a planejarem o futuro), todo mundo ficou perdido e, sem saber o que fazer de imediato, a banda anunciou seu fim (que era incerto).

Isso tudo que falo, não vem de quem sabe tudo dos bastidores. Nada disso. São algumas coisas que vi, li e conversei com os próprios. Em 2003 também tive uma longa conversa com Rodolfo, porque fiz o making of da gravação do 2º do Rodox, e ficamos no mesmo hotel e convivendo juntos por um mês. Em uma noite ele me contou tudo o que se passou pela cabeça dele e o real motivo da saída dele, que hoje todo mundo sabe: que ele estava doente e de repente se viu fazendo evangelho no lar... Ouvi, porém questionei, e quis saber por que ao menos não foi até o fim da turnê já que estavam todos contando com aqueles shows, e ele simplesmente disse que não tinha mais forças para continuar, não estava se sentindo bem naquele papel, e estava se tornando um sofrimento. Compreendi apesar de também compreender Canisso, Digão e Fred. Claro!

Isso desmoronou a banda, e todo mundo ficou perdido. Nesses meses em que a banda ficou parada, muita coisa foi especulada, inclusive de ter Telo como vocalista da banda, o que quase aconteceu.

Fato é que a banda quebrou. A equipe foi desfeita, foi cada um para seu lado cuidar da vida e dos investimentos que agora não tinham mais o capital necessário. Planos foram refeitos, mudanças foram feitas e todo mundo se acomodou a nova realidade.

Em 2001 mesmo o Raimundos voltou, mas teve que começar do zero. Recomeçar. E recomeçar com o baque que havia tido – e o tombo foi feio – não seria nada fácil. Rodolfo, Canisso, Digão e Fred tinham uma química. Tinham história. Do auge absoluto de volta para a garagem underground.

A adaptação de Digão como vocalista demorou. Não basta saber cantar.

Mas essa volta não foi só flores. Muitas coisas ainda estavam mal resolvidas entre Fred, Digão e Canisso. Marquinhos entrou. Foi lançado Kavookavala. Fracasso total. Aí depois fase conturbada, lançamento virtual fracassado, entra e sai de integrantes e futuro incerto.

E é aí que quero chegar. Na raça, na fé, no trabalho e na concentração Digão e Canisso reergueram o Raimundos.

Foi firmada uma nova formação com Digão, Canisso, Marquinhos e Caio, os shows continuaram, apesar de bem menores dos da época de sucesso, assim como o cachê que caiu drasticamente. Não foi fácil, porque os shows eram em menor número e com cachê baixo, ou seja, o trabalho era maior e a banda viajava com estrutura mínima, e sem poder fazer muitas exigências.

Era muita ralação. Digão e Canisso tem suas famílias e seus compromissos como eu e você. Passaram momentos difíceis, pois tiveram que se readaptar a um novo padrão de vida.

Diversos amigos meus, músicos profissionais, dizem que é bem difícil sair de casa, deixar a família e os filhos para cair na estrada. Mas o trabalho é esse. Foi a vida que escolheram. Com Digão e Canisso não foi diferente.

Vida de artista, principalmente no Brasil, não é nada fácil ou glamorosa. Não só músico, mas atores/atrizes, pintores, artistas plásticos, escritores... O Raimundos nunca vi parar. Mesmo no auge, a banda não parava. Era lançamento e shows, lançamento e shows. Sempre trabalhando duro.

Digão não deixou a história acabar. Pegou a bola e falou “deixa que o pênalti eu bato”. Trabalhou duro, e nesses anos todos o lado pessoal e familiar também mudou. Se tornou líder, vocalista, compositor, empresário, produtor executivo e ele, Canisso, Marquinhos e Caio seguiram tocando e amadurecendo o som e a química entre eles.

O resultado é o sucesso de ‘Cantigas de Roda’. Muita gente reclamou por ser um disco pago pelos fãs. Mas o trabalho foi sério, e pra todos valeu a pena. E outra: vivemos em um país livre, e cada um faz o que quiser com seu dinheiro.

Tiro o chapéu para meus cumpádi Canisso e Digão. Canisso, o pescador contador de história, é um irmão querido que conheço desde 1982, e Digão é outro irmão e tocamos juntos no Filhos de Mengele. Um cara super talentoso, com um ouvido que poucos têm. É um puta baterista e um puta guitarrista. Eles não deixaram de acreditar, passaram o maior perrengue, não tiveram vergonha de enfrentar o que enfrentaram, e finalmente voltaram ao lugar merecido, pelo talento e pelo trabalho árduo.

Me atrevo em dizer que se não fosse eu, nada dessa história de Raimundos teria acontecido, mesmo! rsrs Afinal Digão e Telo foram indicações minhas e deu no que deu. Digão nem deve se lembrar, mas foi pra mim que ele, escondido, mostrou os primeiros acordes que conseguiu fazer no violão (alguma música do Ramones). Não, não sou nenhum visionário. Isso foi apenas as circunstâncias naturais da vida, uma coisa levou a outra e deu no que deu.

Quanto a declaração que a querida Alê Briganti, amiga de tantos carnavais (e ex-colega de trabalho na MTV), deu ao ‘Time Will Burn’, foi um super engano dela, pois fala que o Raimundos estava moldado para o sucesso quando assinou e lançou o 1º disco. Ultra mega engano porque, como de costume, a banda já trabalhava arduamente, visto que ela fez o 1º show em 31 de dezembro de 1987 e lançou o 1º disco em 2 de abril de 1994. Foram precisos 6 anos e 4 meses para conseguir lançar o 1º disco, ou seja, uma ralação bem maior que a do próprio Pin Ups, com todo respeito claaaro, mas para mostrar que a declaração foi um erro J

E a Raimundêra taí firme e forte, ajudando, inclusive, Rodolfo a pagar suas contas rsrs.

Abraço aos cumpádi véi!


8 de maio de 2016

O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília



Lancei a 2ª edição do O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília pelo selo Pedra na Mão, que pertence a editora e livraria Briquet de Lemos, em Brasília.

Nessa nova edição há reprodução de duas reportagens sobre o rock de Brasília, ambas de 1983. Uma do Correio Braziliense, que também é a primeira entrevista de Renato Russo; e a outra é do Jornal do Brasil, assinada pelo grande Jamari França.

A editora faz agora uma mega promoção de diversos títulos, incluindo O Diário que, de R$ 39,00 caiu para R$19,00!!! (valor atual - fev/2017)

O livro só é vendido pelo site da editora, de forma segura e confortável. Para comprar é só clicar aqui.

Segue trechos de alguns capítulos para degustação. 

E para acompanhar a leitura indico:
The Jam - In the City
The Stranglers - Rattus Norvegicus
PIL - First Issue
Buzzcocks - Another Music in a Different Kitchen
The Cure - Japanese Whispers
J


COLINA
Gutje - Rolou um boato de que tinham chegado à cidade duas meninas punks de Nova York. Por isso, ficou todo mundo curioso pra saber quem eram, então eu e Loro descemos na rodoviária e fomos andando até o final da Asa Sul e voltamos, procurando as meninas. Ficamos lá andando entre as quadras. Aí, voltando, passamos embaixo de um bloco e ouvimos um punk rock saindo de uma janela, paramos em baixo e começamos a gritar nome de bandas punks, pois não sabíamos os nomes das meninas.
Ana Rezende - Fui morar no Canadá, passei seis meses lá e voltei para Brasília, a Helena (Rezende) ficou mais tempo fora, em Nova York. Eu voltei em meados de 1979 e a Helena uns seis meses depois. Eu conheci o pessoal da Turma antes. Quando fui viajar, não conhecia ninguém, só a Bebel e o Dado, que eu conheço desde pequena, pois também morei na 104 Sul. Mas nessa época não tinha a Turma, éramos muito pequenos. Quando me mudei para a 106 Sul, conheci a Chris Brenner, ela morava no mesmo bloco que eu. A Helena mandava uns discos e umas roupas de Nova York. Eu e Chris escutávamos esses discos na maior altura. Tem até uma história de alguém que estava passando embaixo do bloco e escutou a música, subiu e conheceu a Chris, deu um toque de uma festa que ia rolar e eu fui. Cheguei à festa e estava tocando o Gutje e o Flávio, era um revezamento, eles deviam estar tocando covers. Foi nessa festa que eu e a Chris conhecemos o pessoal e a partir daí começamos a sair com eles.

PLAYBOYS
André Mueller - O Jarrão era outro cara que queria bater em todos os punks, então nós morríamos de medo dele. Teve um réveillon que o Philippe empurrou o irmão desse cara na piscina, e tinha caco de vidro nela. O cara levou uns pontos. Tinha uma brincadeira da Turma que era chegar a um desconhecido na rua e começar a falar com ele como se fosse um grande conhecido. Por azar, o Philippe foi fazer essa brincadeira justo com o cara que ele tinha empurrado, o cara o reconheceu e falou com o Jarrão que falou pra todo mundo ficar em fila que ele ia bater em todos, aí o Renato falou que ele tinha que brigar com o sistema, na mesma hora o Jarrão falou: "Teu nome é Sistema!" e deu uma bordoada no Renato.

CAUBÓIS
C.C - Essa época skinhead, foi uma época foda, saíamos pra dar porrada mesmo. Éramos muito radicais, tinha umas pessoas que não gostavam de ficar com a gente, foi uma época que nós só ouvíamos Dead Kennedys. Adotamos uma postura meio racista, o próprio Negrete era um cara muito racista, talvez um dos mais racistas. Por várias vezes nós pegávamos o carro de alguém e íamos lá em cima, no Setor Hoteleiro, e descíamos andando, passávamos ao lado de um travesti e dávamos porrada, tipo o filme “Laranja Mecânica”. Escolhíamos bem nossa vítima e, às vezes, até eu ficava impressionado, parava e via que não sobrava nada. Me lembro uma vez que nós demos tanta porrada num travesti que ele ficava no ar tomando as bordoadas e chutes. Alguém veio por trás do cara e deu uma porrada na cabeça, de coturno e ele começou a cair no chão, mas antes de cair outro veio e deu dois chutes no cara que ele subiu e mais alguém meteu-lhe um sopapo com um cinto cheio de prego, aí o travesti caiu no chão, isso estava acontecendo embaixo de um poste. A porrada na cabeça do travesti foi cena de cinema. Na época do Radicaos, em 1984, eu saia pra brigar, essa foi uma época muito radical.

APARTAMENTO
Pedro Ribeiro - Moramos eu, Dinho, Dado e Tavo na 213 Sul, aí quando acabou o contrato, não quiseram renová-lo porque éramos muito bagunceiros. Lá rolava de tudo. Moravam quatro caras e tinham três quartos e outro nós fizemos na sala, para o Dado, e o chamávamos de Inferno Azul, porque era feito com divisória de madeira, pintada de azul. Tinha de tudo, qualquer pessoa que quisesse cheirar ia pra casa, Renato virou várias noites lá, muita gente virou noite lá. Virou uma espécie de point. Íamos dormir e ficavam os caras lá, era tipo uma reunião permanente. Voltava da escola tinha gente, ia pra escola encontrava gente na sala ou na cozinha, virado. Nunca tiveram festas, mas era essa zona sempre. O pessoal não tinha o que fazer então ia pra lá. Depois disso, nos mudamos para a 410 Norte. Aí morava eu e Dinho num prédio e no prédio ao lado, Dado e Tavo. No final de 1984 eu saí de lá e fui para o Rio para trabalhar com o Paralamas e o Dinho foi para São Paulo com o Capital Inicial.
Dinho - Meu pai é casado com a mãe do Dado e, em 1983, eles foram embora de Brasília e eu, Dado, Tavo e Pedro fomos morar juntos na 213 Sul. Nessa época eu ensaiava de manhã, trabalhava a tarde e estudava a noite. Nossos pais davam pouca grana pra nos ajudar, então tínhamos que nos virar pra pagar o aluguel.
     Ficamos morando lá durante um ano. Foi nessa época que começamos a cheirar cocaína, muita cocaína. Isso não era legal, pois éramos moleques e ficávamos muito loucos. A quantidade era muita. Nunca mais vi tanta cocaína como naquela época.
     Depois disso fomos morar em outra quadra e em apartamentos diferentes. Esse não foi um período muito bom pra nós, ali eu não era muito feliz. Éramos moleques, não sabíamos o que queríamos de nossas vidas e estávamos sozinhos na cidade, foi barra!

ROCKONHA
Loro Jones - A primeira Rockonha foi legal, mas a segunda foi aquela roubada. Antes da festa, a polícia já estava pronta para invadi-la. Quando fomos, passamos por uma blitz, logo no início da estrada. Estava todo mundo, eu, Helena, Gutje, Fê, Geruza, o carro estava lotado, tinha gente até no porta malas. Estávamos todos bebendo dentro do carro, a maioria era menor de idade, mas mesmo assim passamos pela barreira policial e nem desconfiamos de armação, algumas pessoas acharam esquisito o fato deles não nos pararem, mas fomos em frente. Chegando perto, já não dava pra fugir porque a polícia estava na porta mandando entrar e estacionar. Já saímos do carro com a mão na cabeça. O sinal para a invasão policial eram aqueles fogos sinalizadores, o pessoal da festa viu aquilo e achou legal pensando que fazia parte, de repente, tinha guarda gritando: "Mão na cabeça" e foi aquele negócio de liberar as coisas ali mesmo no chão. Foi todo mundo de ônibus para o batalhão de choque de Sobradinho, no caminho ainda tinha gente dispensando coisa pela janela. Chegando lá, ficou todo mundo em fileira no pátio do batalhão e os menores foram para um auditório. Eu saí porque sou filho de militar. Teve um cara que voltou ao local da festa, no dia seguinte, e achou até narguilé (uma espécie de cachimbo) no chão.

FESTAS
Fê Lemos - Depois da festa que dei na minha casa, acordei de manhã, na beira do lago, com o sol nascendo. Foi uma festa estranha porque estava todo mundo disperso, tinha fogueira, rolava Joy Division. Quando olho pra piscina, vejo a mesa da sala e as cadeiras, montadas lá dentro. Eu não fiquei puto, mas tive que tirá-las de lá e eram pesadas, nem lembro como fiz.
      Eu cheguei a fazer uma cópia da chave do carro do meu pai, uma Variant, pra roubá-la e ir procurar festas. Ia eu, Gutje, Loro, Renato, Flávio e empurrávamos o carro pra fora da Colina, pra não fazer barulho e só depois eu dava partida. Quando me mudei pro Lago Norte, era obrigado a passar por quase toda a cidade pra poder chegar em casa e, por isso, eu dava carona pra todo mundo. Meu carro sempre tinha, no mínimo, dez pessoas.
      Durante um tempo, todas as fitas que levávamos pras festas, eram gravadas dos meus discos.

RENATO RUSSO
Adriane - O Renato tinha uma mania esquisita de gravar as conversas com as pessoas que iam à casa dele. Uma vez eu fui lá com o Eduardo e mais alguém e o Renato começou a fazer algumas perguntas filosóficas, parecia que ele estava manipulando a conversa. Eram poucas pessoas que sabiam disso e, pra elas, ele mostrava algumas das gravações. O dia em que eu o flagrei gravando nossa conversa, ele se explicou, pediu desculpas e desgravou à fita na minha frente. Eu fiquei sem reação porque estávamos conversando sobre coisas íntimas, infância, problemas e outras coisas desse tipo. Foi aí que percebi que ele manipulava as conversas.

Babú - Tente perceber uma coisa nas letras do Renato: ele fala o que as pessoas querem escutar e, pra ter essa percepção, tem que ter informação de outras pessoas em sua volta, então eu acho, que ele fazia uma espécie de laboratório com essas gravações.



Capa da 1ª edição lançada em 2001 (fora de catálogo)

24 de abril de 2016

Lembranças Musicais (Bobagens pessoais.......)

Deixa eu explicar como sou. Dois momentos: um dia troquei Erasmo Carlos (Carlos, Erasmo) por Dead Kennedys (Demos, 1978). Também já troquei Itamar Assumpção (Beleléu Leléu Eu) por The Hives (The Black and White Album).

Certamente já troquei Clash por Caetano, Exploited por Arnaldo Baptista. Claro que um dia fui radical, mais exatamente até meus 15 anos quando, em uma época totalmente submergido no universo hardcore, descobri The Durutti Column e o King Crimson da trilogia (Discipline, Beat e Three of Perfect Pair). Mas só fui me jogar mesmo em outros sons fora do punk rock apenas aos 17 anos.

A MPB já estava no sangue, até porque em casa era normal escutar música brasileira. Então, apesar de escutar Exploited, GBH, Discharge, Rattus, Anti-Pasti, Riistetyt, eu também escutava Chico e Bethânia ao vivo no Canecão, Elis Regina, Caetano e Gil, Chico Buarque, e muita música caipira com Rolando Boldrin, Renato Teixeira, Tonico e Tinoco, Inezita Barroso, Alvarenga e Ranchinho... Meu pai, agrônomo formado em Piracicaba, ouvia a música caipira da roça dos anos 70 e início dos 80.

Além disso, escutávamos música italiana e francesa (principalmente Edit Piaf, Serge Gainsbourg e Charles Aznavour).

E misturado a tudo isso ainda tinha o rock hippie e a folk music do final dos 60 e início dos anos 70. Meu pai ganhou uma bolsa para doutorado e toda família foi para Columbus, em Ohio (EUA) e lá ficamos de 1971 a 1973. Nesse período as novidades eram Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, The Mamas & The Papas, Simon & Garfunkel, Carpenters, Fleetwood Mac, America, Joan Baez, Buffalo Springfield, Grateful Dead e também muita soul music de primeira qualidade.

Em 1980, quando eu tinha 10 anos, minha irmã mais velha apareceu em casa com uma fita que tinha Ramones, Sex Pistols, Siouxsie and The Banshees e alguma outra que não lembro (talvez Generation X). Era uma fita de 60 minutos, e tinha 15 minutos de cada banda. Ela escutava muito com os amigos, e quando eu ouvia de rebarba também gostava. Nessa na mesma época começaram os shows no Food’s, lanchonete que ficava ao lado de casa, e lá tocavam bandas que anos depois viriam a ser Plebe Rude, Capital Inicial e Legião Urbana.

Eu parava com minha bicicleta nesses shows, que eram sempre de sábado ou domingo a tarde, e ficava vendo tudo. Me chocava mais ver o pessoal do que as bandas. Claro que era ultra mega legal poder ver de perto instrumentos que víamos em poucas fotos de nossos ídolos, mas ver os cabelos coloridos, as calças rasgadas, os bottons, as camisetas de bandas, estampas feitas a mão, tênis e roupas sujas. Era exatamente eu, moleque que vivia na rua, todo ralado e todo sujo, mas em versão maior (eu tinha 10-11, o pessoal tinha da Turma tinha 15-18).

A partir desse momento, minha vida mudou e abracei o punk rock. Com 12 anos já queria ter minha banda rsrs.

Aí então radicalizei e passei a escutar apenas punk rock, e o que eu mais gostava era: Ramones, Sex Pistols, Clash, Jam, Stranglers, Generation X, Buzzcocks e Dead Kennedys. Mas também já escutava o pós punk e o gótico. PIL, Siouxsie, XTC, Gang of Four, Talking Heads, Joy Division, Cure, Bauhaus, Ruts. Disso tudo para o hardcore foi um pulo. Tinha época que eu dormia ouvindo Exploited e coletâneas de hardcore finlandês! O bicho pegou por dois anos entre os 14 e 15 rsrs.

Esse radicalismo foi ruim. Depois, chegando em SP, aos 17, abri geral: era Led Zeppelin, Black Sabbath, Beatles, Arnaldo Baptista, Itamar Assumpção, Metallica (que já escutava de leve em BsB por causa dos amigos beangers).

São Paulo também me possibilitou conseguir, milagrosamente, dois discos do Red Hot Chili Peppers: Freak Styley e The Upflit Mofo Party Plant. Adorava a banda, mas só conhecia “Mommy Where’s Daddy” e “Jungleman”. Lá em Brasília era “a banda que Andy Gill, do Gang of Four, produziu”.

Nesse período entre 1987 e 1990, o comportamento no meio musical mudou. Até então quem gostava de X não podia gostar de Y.

Antes dessa mudança de comportamento, não dava pra sair falando por aí que eu gostava de Gilberto Gil e Van Halen. Eu podia ser morto!

Foi ótimo esse radicalismo cair por terra. Foi um alívio não só pra mim, mas pra todo mundo, até mesmo pra artistas já consagrados, que abriram novos horizontes ao incorporar influencias fora do rock. Os maravilhosos Psicoacústica do Ira! e Bora Bora do Paralamas são bons exemplos. Do Paralamas ainda tem o Selvagem? de 1986, disco que muito jornalista chegou a dizer que seria o derradeiro da banda. 

E mesmo tendo poucas fontes de pesquisa, íamos atrás de informações além do encarte rsrs, e também atrás de suas influencias. Graças ao punk inglês conheci e fui atrás de The Who e Kinks. E outras bandas punks dos 70 me levaram a surf music.e soul. Queríamos saber: quem eram as influências dos nossos ídolos? E, se desse, por que não a influencia da influencia?

Eram poucas informações que chegavam até nós, e muitas vezes vinham distorcidas e atrasadas. Poucas fotos e imagens também.

Porém, apesar de fã da MPB não engulo a bossa nova. Gosto de muita música que tem 100% de influencia da bossa, até músicas de Tom Jobim, mas não consigo gostar da bossa. Acredite ou não, e digo sem precisar pensar, que um dos melhores shows que vi na minha vida foi de Oscar Castro Neves, no Free Jazz, acho que de 1988. (assisti a muito mais shows de MPB do que muita gente que se diz fã de carteirinha de MPB)

Sem radicalismo (cortei isso da minha vida). Às vezes, na rua, até brinco comigo mesmo: “quantos seres humanos nesse momento estão com o botton do Dead Kennedys e escutando Clara Crocodilo?”