29 de janeiro de 2014

Diferente = Normal

Aí a pessoa resolve que quer ser diferente. Então pergunto: o que é ser diferente? Pra muita gente ser diferente é fazer uma louca tatuagem, um piercing malandrinho no nariz, língua ou umbigo, ou qualquer outra intervenção no corpo.

Também tem gente que acha que ser diferente é conhecer Londres, Paris e Nova York. É viajar de mochila nas costas, é se mostrar independente,  se mostrar inteligente (mesmo não sendo), só falar de assuntos legais (mas o que são assuntos legais???).

Fico me perguntando o que faz uma pessoa se achar diferente por causa de uma roupa, de uma viagem, de uma tatuagem descolada, ou até mesmo por conta do trabalho que faz.

Eu mesmo, que trabalho em televisão e vídeo, percebo uma porção de profissionais iguais a mim que se consideram a última bolacha do pacote. Mas por quê?

Cargas d'água! Será que ninguém percebe que ser diferente não significa mudar a embalagem? Ninguém se torna diferente. A pessoa nasce diferente! Não adianta encher o braço esquerdo com 237 tatuagens, a língua com 78 piercings ou tatuar o branco dos olhos. Se você não é diferente, não é isso que o tornará diferente.

Mas a pergunta permanece: O que é ser diferente? E não existe uma resposta exata. Pensando em ídolos da música, quem poderia ser considerado diferente? Joey Ramone? Elvis Presley? Keith Moon? Jimi Hendrix? Jim Morrison? Janis Joplin?

Mas por que eram diferentes? Quem os considerava diferentes? Há quem os achassem chatos. Johnny Ramone achava Joey chato e vice versa. O pessoal do Who se cansava das brincadeiras de Keith Moon e havia quem não aguentasse segurar a onda doida de Hendrix, Joplin e Morrison.

Pra mim ser diferente é ter personalidade própria (não confundir com personalidade forte!). Por exemplo, tenho um monte de amigos que nos anos 1990 fizeram tatuagem com símbolos tribais, o que foi moda na época. Tenho um monte de amigos que colocaram piercings ou fizeram outras intervenções no corpo, mas só o fizeram agora, quando tudo isso é moda. Não conheço ninguém que tenha posto piercing em 1991 ou que fez uma tribal em 1984.

Automaticamente tendo uma personalidade própria você será uma pessoa diferente. E o que é ter personalidade própria? É não seguir moda, é não ser “maria vai com as outras”. E quantas pessoas são assim?

Lembro que no ano passado, no inverno, eu costumava, dentro do busão, brincar de contar quantas mulheres eu via vestidas com calça jeans e bota de cano longo por cima da calça (geralmente jeans). Tinha vez que, de 50 mulheres, 40 estavam iguais... e todas querendo ser diferentes!

Tem muita gente que vemos na televisão, nas revistas, nos shows, gente que admiramos, que achamos ser diferentes, imaginamos ter algo a mais, mas que no fundo são pessoas tão normais quanto qualquer outra. Pessoas chatas que falam demais, que tem suas manias, que precisam ir ao banco pagar suas contas, que vão ao almoço de família, que são egocêntricas, que não leem sequer um livro por ano, que reclamam das mesmas coisas que nós e que, por fim, não tem nada de especial ou diferente, além do visual ou do fato de ser famosa.

Essas pessoas que gostam de se achar assim diferenciadas, são as pessoas mais normais que as ditas normais. As pessoas que de fato são diferentes, não saem por aí se dizendo ou se portando como se fossem diferentes, e nem fazem nada para que isso se torne algo aparente. Quem é diferente nem sabe que é diferente, até porque pra essa pessoa, ser diferente é normal.

Sobre esse assunto eu poderia ficar aqui filosofando por mais mil parágrafos, mas a intenção é apenas mostrar que ser diferente na embalagem não quer dizer que você será automaticamente uma pessoa diferente na essência. São coisa absolutamente diferentes!

PS: E aí garota, você já fez sua tatuagem na coxa da perna?

15 de janeiro de 2014

Série O Resgate da Memória: 34 - Eduardo Dusek & João Penca (Pipoca Moderna - 1982)



O Hilário Encontro de Eduardo Dusek com João Penca & Miquinhos Amestrados

O que um rapaz DISTINTO como este está fazendo com um bando de DELINQUENTES JUVENIS?

Por Ana Maria Bahiana

O olhar é um pouco vago, um pouco triste até, fugindo da luz com a fobia dos claros, lacrimejante, um pouco perdido. Do outro lado do pequeno quarto improvisado em estúdio, o fotógrafo espera, o dedo no gatilho. “Agora Eduardo”. O olhar se acende, se entorta, melífluo, diabólico, iluminando todo o longo rosto como uma auto ironia cruel. O fotógrafo dispara, sorridente – é uma grande foto. Eduardo Dusek relaxa, o olhar vago outra vez. Beberica uma cerveja: ai, como cansa esse carisma!

A guerrilha no festival foi ensaiada exaustivamente por três meses e degustada com medo e prazer na hora H. “Pensavam que eu ia entrar no esquema deles de novo, aqui, ó.”


Eduardo Dusek é um camaleão. Toda sua breve biografia de 28 anos foi consumida na refinada arte de auto-mutação, com seus dois pólos essenciais: construção, destruição. “Sol em capricórnio, ascendente aquário, lua em escorpião”, ele diagnostica versado nas ciências do invisível que é. “Quer dizer, o auge da loucura e o auge da caretice. Agora eu posso? Nem eu seguro uma barra dessas.”

Sua profissão – artista – pressupõe a busca do sucesso como meta. No entanto, aos 15 anos empregados maciçamente nesta complicada carreira, apenas os três últimos podem ser considerados de algum tipo de fama e remuneração. Dusek sabe disso, às vezes liga, às vezes não liga. O sucesso, para ele, é uma discussão interior, uma luta íntima. Quando sacudiu o sonolento festival MPB 80 de fraque, calção, longos cabelos e a saga de fim do mundo com a canção “Nostradamus”, ele teve um breve e assustador flerte com a idéia do sucesso absoluto: “Pra mim foi uma crise fudida. Eu entrei por entrar, para dar um realce, para sacudir um pouco meu trabalho e também por que era o espaço que tinha. Mas, de repente, eu percebi o que estava rolando em volta de mim. Como estava se armando um esquema para me aprisionar numa imagem, o maluquinho bonzinho, de carinha angelical, meio doidão, mas direitinho, o filho de todo mundo, o bom rapaz maluquete, foi foda. A bajulação, a falsidade, eu quase caí nesse esquema aí. É tão fácil cair, se achar poderoso quando na verdade, minha amiga, todos nós sobre essa terra estamos no mesmo barco”.

Dusek toma mais um gole da cerveja, encarapitado desconfortavelmente, com suas longas pernas, no banquinho do estúdio. “Aí, minha filha, me deu uma agonia. Saquei que minha cara estava velha, meu cabelo estava velho, minha música estava velha. Cortei o cabelo e a barba e resolvi cair de boca no rock, que foi uma coisa que eu sempre curti, mas que tinha deixado um pouco de lado. Cansei. Eu sempre quis chegar na frente dos outros e é por isso que eu fazia marchinha, frevo, samba canção, numa época em que ninguém ligava pra isso. Agora, quantas marchinhas o Moraes Moreira já fez? E frevo? Samba canção, nem se fale. Aí fui pro rock que é geral mesmo e está sempre na frente”.

No processo de se roquirizar Dusek comprou roupas novas, um estoque de óculos rayban num camelô da Praça Quinze e um Bel Air 58, imponente, hidramático, bebedor de gasolina e confortável que viu parado, como uma premonição, numa esquina de Ipanema. Mais importante de tudo: colidiu, numa bela noite de verão, com o improvável João Penca & Miquinhos Amestrados, no lato do morro da Urca e decidiu, num transe acoólico, que ali estava a sonoridade que queria para seu próximo disco, seus próximos shows, sua próxima vida.

O disco já existe e se chama Cantando no Banheiro – muito rock tipo anos 50, um deliberado minimalismo pop inspirado em grande parte pelos Miquinhos; e algumas das obsessões de Dusek, ainda, por climas carnavalescos d’antanho, como o frevo “Quero te beber no gargalo” (pra convencer os Miquinhos a cantarem isso eu tive que vir com aquele papo que rock é um estado de espírito, etc etc” (Dusek confessa às gargalhadas).

Os shows estão vindo, mas a mais notável aparição deste novo time foi mesmo numa das eliminatórias do tri-bodeante MPB 82. Inscritos oficialmente para defender uma velha canção de Dusek, “Valdirene, a Paranormal”, a macacada entrou em cena, no teatro Fênix, cheia de convicção e cantando “Barrados no Baile”, do novo repertório. Foi um deliberado golpe de guerrilha, ensaiado ao longo de três meses e que lhes valeu a gloriosa desclassificação, após minutos de corre corre e caos global. Dusek se lembra com gozo da tremedeira de pânico que lhe deu nos joelhos na hora H, do terrora da equipe de produção, das semanas de ensaio falso de “Valdirene” para burlar os globais. “Tavam pensando que eu ia cair no esquema deles de novo. Aqui, ó”.

Eduardo Gabor Dusek – o nome da família de sua mãe não consta do registro, mas ele adora, “somos parentes da Zsa Zsa Gabor” – é o terceiro de quatro irmãos de uma híbrida família classe média do Rio. A acreditar na sua versão da árvore genealógica, a família da mãe é nobre, húngara e decadente, “fudidos pelo comunismo mas sem perder a pose”, emigrada para o Rio nos anos 40; a do pai é tcheca, plebéia e rural, “era tudo lavrador lá, minha avó era linda, chegou aqui, abriu logo cabaré no Lido, mas não aguentou a barra e morreu logo depois”. O pai, artista plástico frustrado, trabalhava na embaixada americana. Os irmãos, com uma única exceção, “caretas e repressores”. Eduardo cresceu solitário, inseguro, afiando suas duas mais fortes defesas – o talento artístico, que percebeu assim que foi sentado a um piano, com 6 anos, e em breve dominava o instrumento e compunha, e o humor, que o fazia assinar suas composições como se fossem de autoria de algum enlouquecido Mozart redivivo.

Com 13 anos, o duplo escudo estava completo – o talento o defendia, com o humor, atacava. A família se mudou para Brasília, no rumo da embaixada, e Eduardo ficou, sob os protestos unânimes de pai e mãe – estava no ginásio, fazendo um curso técnico de desenho e tocando piano em grupos escolares; trabalhava num escritório como um misto de boy e aprendiz de projetista; e morava num local onde voltaria muitas vezes – o complexo de apartamentos em que se dividia uma velha prioridade da família, no Alto da Tijuca.

Dois anos depois, o exibicionismo espontâneo em que sua segurança se camuflara tinha vicejado numa notável flamboyance. Através de amigos comuns, soube que um descabelado grupo de teatro experimentalista precisava de músico. O grupo era liberado pelo professor de teatro Luis Antonio de Cássio, o Cássio Ferrer, e por seu amigo Luiz Fernando Guimarães, futuro Asdrúbal Trouxe o Trombone – a peça proibidíssima, caótica, e erótica chamava-se Lá Vem Nossa Comida Pulando, “um ensaio meio doido em antropofagia tropical”, Dusek recorda – e estava sendo encenada, of all places, no clube Higino, de Teresópolis.

Dusek se vestiu uma estola de peles, “bem popstar”, armou-se com o dinheiro da passagem e uma bolsa de comida, “porque sabia que dinheiro não iria ter” e subiu a serra. Era o início de uma longa e forte amizade.

Em pouco tempo Eduardo estava morando com Cássio, Luiz Fernando e mais “um batalhão de gente” num apartamento de cobertura de Botafogo, transformado num misto de comunidade, estúdio de ensaios e mini-teatro para o recém-formado grupo de teatro Resolução, “porque todo tinha tomado a resolução de sair de casa”. De dia, trabalhava no escritório de arquitetura. De noite estudava teatro, música e dança sob a eclética direção de Cássio – Nijinsky – Dalva de Oliveira e Carmem Miranda eram tópicos de igual importância nos laboratórios. Estudava na Escola Nacional de Música, também – ao longo de cinco anos acumulou os diplomas de teoria, composição, arranjo e regência. As sextas o apartamento se transformava: era noite de espetáculo com Luiz Fernando de protagonista, Dusek de diretor musical/músico/ator, Cássio de diretor. Uma vez Gilberto Gil foi ver: “foi aquele rebuliço. Achei que era o tal do sucesso”.

Qual o quê. Em 75 um convite inesperado: participar da série Mostragem, do teatro Opinião, apresentado por Gil em pessoa. Cabelos curtíssimos, rosto pálido, sobrancelhas raspadas, Dusek, dirigido por Cássio, tentava emular Nijinsky, mas acabava parecido com David Bowie – o humor era fino e louco, os tempos estavam mudos, foi um fracasso.

Por dois anos Dusek ainda seria cúmplice de Cássio em concêntricos vôo experimentais – enquanto ganhava mais alguma grana tocando piano na montagem de Desgraças de Uma Criança, de Antonio Pedro. Até que, em 76, alguma coisa clicou em sua cabeça: fazia um show chamado Arame Farpado que era exatamente isso, arame pelo chão e luzes apagadas para provocar a platéia. “Achei que era o fim. Não queria coisas pesadas mais. Tirei escondido minhas coisas do apartamento de Botafogo, comprei uma passagem de trem e fugi para São Paulo”.

Em São Paulo, depois de sobreviver dando aulas de canto alguns anos, recomeçou a montar shows: leves, divertidos, ferinos shows cheios de bom humor que, hoje, é sua assinatura. A crítica adorou, Dusek adorou. Voltou ao Rio, em 78, de novo para o Alto da Tijuca até que uma “louca paixão tipo um amor e uma cabana” o arrastou para o Recreio dos Bandeirantes. Fez sucesso no verão de 79 com o show Folia no Matagal. Conheceu um parceiro novo, Luis Carlos Góes, com o mesmo tipo de humor cortante que o seu. Em 80, estava no festival. Em 81, em crise. Em janeirode 82 viu João Penca e Seus Miquinhos Amestrados no Morro da Urca, “o resto”, ele suspira, “é história”.

João Penca e Seus Miquinhos Amestrados é uma rara história de amadorismo que deu certo. Sua biografia é extremamente improvável: começa nos idos de 72/73, quando todo prédio do Rio de Janeiro tinha um conjuntinho, e o edifício Jacumã, na fronteira do Alto com o Baixo Leblon, não era exceção. Lá liderados pelos irmãos Marcelo e Cláudio Knudsen – respectivamente Bob Carlo e Nebuloso Cláudio, The Killer – e pelo improvisado guitarrista Leandro Verdeal, um bando de pré-adolescentes vidrados em Beatles, Stones, Elvis, Gene Vincent, Buddy Holly e Chuck Berry ensaiava tardes a fio sem nenhuma outra perspectiva que ensaiar tardes a fio. Guilherme Ricardo, o Hullygully, Maurício Rosa Fernandes, o Del Rosa, Sérgio Abreu, o Selvagem Big Abreu e Luis Carlos Avelar, o Avelar Love, eram uns dos mais constantes ensaiadores dessa agremiação que chegou a se chamar Zôo e Anos 60 até que, numa célebre gravação caseira repleta de sacanagens, alguém que ninguém lembra mais quem foi que proferiu a frase histórica: “João Penca e Seus Miquinhos Amestrados!”.

O nome ficou, o grupo sumiu: o vestibular e uma doentia tendência para tocar jazz e progressivo assassinaram as brilhantes perspectivas da banda. “A gente era ruim demais para tocar jazz, só podia ser viadagem do Leandro, mesmo, que tava querendo curtir uma de músico”, confessa Abreu.

São quatro anos de dormência dos Miquinhos, enquanto Leandro “tentava ser popstar” e os outros abriam caminho faculdade adentro. Até que, em 79, Leandro conhece um personagem fundamental: Léo Jaime, goiano criado entre São Paulo e Brasília, ex-músico de baile de carimbós sertão adentro, ex-bailarino e ator da montagem brasiliense de Os Saltimbancos, então tentando a sorte no Rio e estudando dança com Klaus Vianna.

Léo é uma espécie de Dusek mais moço, mais baixo e mais moreno – tem o mesmo humor determinado, a mesma casca dura de quem está há muito tempo na estrada (Dusek sabe disso: Assim como eu peguei coisas do Gil e do Caetano e fui em frente, o Léo vai prosseguir, daqui em diante”). Ele percebe no grupo de que Leandro fala sem muito entusiasmo um potencial insuspeitado. Começa a compor especialmente para os Miquinhos, que por enquanto voltam timidamente à cena em festivais de colégio, retomando às origens rock’n’roll. São rocks sacanas, em parceria com Leandro, com Arnaldo Baptista – de quem foi muito próximo no tempo em que o Mutante Mor morou no Rio – Com o amigo Tavinho Paes, investindo furiosamente contra assagradas instituições da classe média que tinham sido – e ainda são – o habitat natural do Miquinhos: casamento, prosperidade, segurança, castidade pré-marital, masturbação reprimida, poluições noturnas, heterossexualidade, monogamia.

Em 81, finalmente, Léo não resiste e se torna um Miquinho himself, arrastando Leandro de volta. Juntos, Léo, Leandro e Abreu elaboraram a nova etapa da banda, a gomalina, as calças arregaçadas, o estudado ar de perigosos delinqüentes juvenis. Era janeiro de 82, acabam de tocar no morro da Urca quando um Dusek trêbado e tresloucado invade o camarim e lhes promete fama, fortuna e um show em comum. Dias depois Léo liga, mas Dusek, sóbrio, não se lembra de nada. Léo insiste, puto da vida, e a luz se faz.

O encontro de Dusek com os Miquinhos é uma encruzilhada na vida de ambos. Para Dusek, é o confronto com o futuro, com a geração seguinte, a necessidade de dirigir e não ser dirigido, o exercício da tolerância, da negociação – foram atribuladas as gravações de Cantando no Banheiro, a Polygram pressionando por uma limpeza técnica que os Miquinhos não podiam ter, Dusek negociando a integridade do projeto e sua própria sobrevivência enquanto disco. Para os Miquinhos, é o desafio de um profissionalismo que nunca sonharam ter: fora Léo e Leandro, todos tem suas carreiras, como Abreu, que é estagiário de arquitetura, e Cláudio, tenente da Aeronáutica (“ele vai para os ensaios de farda e tudo!”) e médico. “Agora é que a gente vai ter que enfrentar isso”, Léo diz com calma.

Há mais coisa sem comum entre eles além do rock’n’roll e das biografias assemelhadas de Dusek e Léo – há, principalmente, uma espécie de crueldade, uma visão do mundo aguda e implacável disfarçada sob a cumplicidade do humor. Para os Miquinhos, é ainda crueldade dos adolescentes, de baderna. Para Dusek, que já foi abandonado, humilhado – “nessa profissão da gente você escuta cada coisa inacreditável” – que já passou três anos na geladeira da gravadora RCA – contratado, impedido de buscar outra saída profissional, mas sem nunca entrar em estúdio – essa agudeza cruel é uma espécie de tai-chi existencial, uma luta branda contra o mundo.

“Eu não perdôo mesmo”, ele me diz altas horas da noite concluindo entre goles d’água a entrevista que começamos uma semana antes regada a cerveja. “Esse mundo que está aí é mau, é ridículo, o homem parece que só sabe viver na intolerância, na ignorância, só sabe matar, ferir, humilhar, perseguir. É tudo materialismo, ganância, maldade”.

A fase do amor e da cabana terminou – “no fim tinha só uma cabana e um puta aluguel pra pagar”: Dusek voltou para Tijuca, morando com a avó, enquanto seu “bangalô”, nos fundos do terreno, não fica pronto. Evita beber perto de shows – “perco a voz num instante”, trata-se por homeopatia e estuda, como sempre, ciências ocultas, esoterismo e astrologia. Ama a idéia do amor – só a visão concreta do amor pode romper uma brecha em sua bem construída armadura de sarcasmo: “Se eu vejo um casal bonito se beijando na rua, realmente apaixonado, sincero, eu me comovo de verdade. Fico com os olhos cheios d’água. Disfarço, mas fico. Para o amor tem sempre perdão. Tudo é permitido”.

Certa vez, pouco mais de um ano, viu um disco voador. Sempre quis ver e nunca conseguiu, mas nessa noite, dirigindo sozinho de volta ao Recreio dos Bandeirantes, não estava preparado. Ele ainda treme um pouco quando conta sua visão: uma bola dourada de luz do lado esquerdo da estrada, ele acelerando, a bola sumindo para reaparecer novamente no final da estrada, na linha do horizonte, e aí se dividir, fulgurantemente, em duas. Afreiada súbita, o coração disparado, a luz sumindo pra reaparecer exatamente em cima de seu carro, “uns dois mil metros de altura”!, enorme e bel, com um longo apêndice vermelho descendo céu abaixo.


“A coisa toda durou uns vinte minutos”, Dusek diz pensativo e sério, olhando o fundo do copo d’água. “Acho que nunca mais fui o mesmo depois disso”.

6 de janeiro de 2014

Faroeste Caboclo e a Maconha Da Lata

Só pra situar, antes de tudo, e lembrar (mais uma vez) que o contexto era outro: fita cassete, vídeo cassete, disco de vinil, walkman, sem celular, sem internet, sem produtos importados, sem tv a cabo.

1987 foi o ano que me mudei para São Paulo. O Governo Sarney e seus planos econômicos esdrúxulos estavam em franca decadência, o Brasil se afundava em inflação e o futuro era completamente incerto. Era o fim da censura, todo mundo estava feliz da vida com o fim da ditadura, mas tudo na lama. Apesar disso, era o que sempre foi com o brasileiro: tudo era festa.

Alguns discos que foram lançados: Engenheiros do Hawaii A Revolta dos Dandis, Lobão Vida Bandida, U2 The Joshua Tree, Michael Jackson Bad, Guns’n’Roses Appetite for Destruction e Anthrax Among the Living.

Alguns filmes que foram lançados: Barfly, Coração Satânico, O Império do Sol, Atração Fatal, Bom Dia Vietnã, Predador, Robocop, Os Intocáveis e Wall Street.

Pra mim, apesar da mudança brusca de Brasília para São Paulo, e toda a carga emocional e sofrimento que passei por conta disso, não posso reclamar de 1987. Pô comecei o ano assistindo a dois shows do Ramones no Palace (Joey, Johnny, Dee Dee e Ritchie). Nesse ano estagiei em uma agência de publicidade e comecei a trabalhar em uma produtora de filmes publicitários. Fazia bico e ganhava um troco, junto com um grande amigo de Piracicaba, fazendo jingles e cantando em alguns deles, e ainda ganhava mais outro troco sendo roadie desse amigo, que era tecladista. Passei o ano indo muito à Piracicaba. Até mais ou menos 1990 as coisas ainda eram muito intensas por lá, bares, festas, viagens.

Aí chegou dezembro de 1987 e o bicho estava pegando. Em setembro o navio Solana Star jogou as famosas latas de maconha no litoral. Todo mundo tinha uma lata! Uôba! Em outubro Caetano Veloso lançou disco onde regravou "Fera Ferida"; em novembro Marina lançou o disco Virgem, e “Uma Noite e Meia” foi febre nas rádios e acabou sendo a música do verão 1987/88; em dezembro Legião Urbana lançou Que País é Este?

Fui passar o verão em Camburi, litoral norte de SP, quando essa praia ainda ficava no mato (hoje há condomínios e hotéis de luxo). Eu e mais 5 pessoas de Piracicaba alugamos uma casinha humilde de pescador que também ficava no meio do mato. Nessa época o trânsito de São Paulo já era pesadelo, mas não como hoje, claro. Para ir ao litoral norte ou sul levava-se o tempo normal. Chegamos logo após o natal e acredito que ficamos até dia 20 de janeiro. Realmente não me recordo, só sei que ficamos muito tempo. Inclusive muita gente aparecia na casa e acabava dormindo um ou dois dias, fazíamos almoços, som alto, casa isolada. Tudo de bom.

Camburi não tinha opções de bares... Era apenas um... e mais um ou dois botecos. Tudo perto. Não havia asfalto. E o clima era daquele que chegava alguém de violão e o boteco inteiro ficava cantando. Virava uma grande roda. Lembro que eu jogava muito gamão nesses dias de praia. Aquela praia a noite.........................

Camburi era praticamente uma praia de moçada e surfistas. Nada de família e terceira idade. O réveillon na areia foi tranquilo. Fizemos um belo jantar, preparamos a casa, outros amigos de Pira apareceram e a noite foi longa. Lembro de sentar na areia da praia com uma amiga e ficar observando uma chuva de raios bem longe ao mar. Pouco tempo depois da meia noite, estava eu com um amigo já bêbado perto de uma vela acesa na areia, e ele quis parar para acender seu baseado na vela. Era a maconha da lata e eu ainda não fumava. Quando agachamos para perto da vela, meu amigo acendeu o baseado e começou a colocar um monte de maconha ao lado da vela e oferecendo-a para uma porção de santos. Eu o fiz parar e peguei toda maconha de volta rsrs. Nesse momento ele disse que eu deveria fumar aquela maconha porque era especial e limitada. Peguei o baseado e fumei. Nessa noite fumei maconha o tempo inteiro kkkk.

A maconha da lata era muito mais forte que as outras maconhas. Seu efeito durava muito mais. Era cheirosa e com ótimo sabor. Comprávamos a maconha direto da lata. Íamos à casa do barão, ele abria a geladeira, pegava a lata e uma colher, que usava pra tirar a maconha. Essa maconha era curtida no mel, então no fim da lata ficava um resto de maconha banhada em mel que não dava pra fumar. Por causa do mel ela era mais melada. Peguei a lata fechada, com a maconha até a boca, na metade, no final. Tive esse prazer e privilégio. Era uma lata um tanto grande, bem maior que uma lata de Nescau. A polícia ficou doida e não pode fazer muita coisa.

Para Camburi levei uma porção de fitas com as mais variadas bandas estrangeiras e brasileiras. No fim, o que mais tocava era Caetano Veloso e Legião Urbana. Lembro até de uma noite de violão no boteco em que rolou “Eu Sei” e todo mundo cantou. Isso um mês depois do disco da Legião ter saído. Não deu uma semana na praia e todo mundo já sabia a letra inteira de “Faroeste Caboclo”. Com certeza o disco de Caetano virou um clássico pra nós: “José”, “Eu Sou Neguinha”, “Noite de Hotel”, uma pérola atrás da outra. Mas de fato o que pegou mesmo foi “Faroeste Caboclo”. Lembro, lá na casa, de gente que escutava a música pela primeira vez e pirava na história (o disco foi lançado na 2ª semana de dezembro). Todo mundo fumava o da lata e gritava na hora que Renato cantava “tem bagulho bom aê!!!”. Esse trecho caia muito bem naquele contexto e todo mundo podia estar fazendo o que for que parava só pra berrar “tem bagulho bom aê!!!”.

Lembro de uma vez quando fui dormir muito chapado, meu corpo ficou formigando inteiro, entrei numa viagem e acordei otimamente bem no dia seguinte kkkk.

Agora história mesmo eu tenho uma boa, que vou ter que resumir: eu tinha uma amiga que a irmã morava no Rio de Janeiro e nesse verão estava no litoral fluminense. Ela comprou uma lata inteira na cidade onde estava e resolveu enterrá-la para poder usá-la quando não houvesse mais lata alguma. Ela enterrou a lata sozinha, porém semanas depois ela morreu em um acidente de moto. Até hoje há uma lata do Solana Star fechada e cheia de maconha nessa cidade do litoral do RJ.

Certo é que esse verão foi incrível. Dias intensos em Camburi que, pra mim, acabou gerando mudança de comportamento J.

PS: "Faroeste Caboclo" e o fumo da lata ainda duraram por todo ano de 1988.