29 de julho de 2010

Série Anos 1990 SP: 2 - Aeroanta


O Largo da Batata fica no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Lá dezenas de linhas de ônibus  se cruzam. Linhas que trazem os trabalhadores das periferias para o centro e é no Largo da Batata que esses trabalhadores fazem a baldiação. Lá também é onde tem muito boteco, e lojas que vendem roupas de baciada para a camada menos favorecida. Lojas que vendem camisetas a 4 reais, calça jeans a 20 reais, 12 pares de meia por 5 reais. Tem também diversas lojas de atacado com todos os tipos de guloseimas. Muito camelô nas calçadas vendendo de roupas e eletrônicos até ervas medicinais e celulares. É um ‘anda pra cá e anda pra lá’ que não para, calçadas apertadas, todo mundo com pressa, com sacolas na mão.

Área de shows e pista de dança
Durante o dia era (e ainda é) essa correria, mas a noite tudo fica mais calmo. Na época em que o Aeroanta surgiu, em torno dele eram ruas pequenas, quarteirões desiguais, só casas, sem prédios. Ainda era fácil parar o carro na rua, e por mais que estivesse cheio, você não estacionava mais que um ou dois quarteirões de distância. Nem tinha flanelinha (que logo surgiram, claro).

Bem em frente ao Aeroanta tinha um calçadão e dois botecos, um ao lado do outro. Colado ao Aeroanta também tinha o Bar do Milton, o boteco mais freqüentado. Eles serviam de ‘esquenta’ para o Aeroanta e, antes de pagar para entrar, usávamos todos os contatos possíveis para a entrada ser na faixa.

Bem na frente, onde ficava a bilheteria, tinha um tanque com carpas e sua mureta tinha uma tábua de madeira envernizada que nos permitia sentar. Já nos anos 1990, bem no início, surgiu o tiozinho do cachorro quente (esqueci o nome dele) que tinha uma Brasília vermelha escura.

Flyer com programação
Fato é que se alguém quiser falar pra você sobre as noites dos anos 1990 de São Paulo e não citar o Aeroanta, esqueça, é história furada. É como falar da São Paulo dos 1980 sem mencionar Madame Satã.

Só que pra falar de Aeroanta é necessário voltar para a segunda metade dos 1980, mais precisamente 1987, pra acertar no alvo digo fevereiro de 1987.

Okotô
Eu estava lá na noite de inauguração, fui levado pela minha prima Denise e seu marido na época, Paulo Checoli, mais conhecido como Binga, ex-tecladista da Skowa & A Máfia. Caí de pára-quedas, pois estava literalmente chegando em São Paulo. Não me lembro do que rolou, mas tinha muita gente, e muita gente transada e importante.

Logo de cara o Aeroanta virou referência, e era um período de transição, a chegada de uma nova geração. Ainda tinha Madame Satã, Rose Bom Bom, Ácido Plástico e surgiram Aeroanta, Dama Xoc e Nation, anunciando novos tempos.

Novas bandas tentavam um lugar ao sol, como Nau, Gueto, Violeta de Outono, Musak, Lagoa 66, Fábrica Fagus, Picassos Falsos, Hojerizah, Kongo, Conexão Japeri entre outras.

O dono era o Roberto Pandiani, ou melhor, Beto Pandiani, e para os mais íntimos Betão. Ele teve diversas casas noturnas, foi barman nos anos 1980, e no final dos 1990 abandonou tudo para se dedicar ao esporte. Seu negócio é velejar. Beto é craque, já ganhou prêmios, fez navegações históricas, lançou livros e faz muita palestra. Não, eu não era amigo do Beto, mas sempre nos víamos lá, rolava apenas um cumprimento formal.

A proposta na época era diferente. Pouca gente se lembra, mas bem no começo, o Aeroanta abria cedo, tipo 19h ou 20h para as pessoas irem jantar. A casa era dividida em duas: o bar e restaurante; a pista e o palco. Até certa hora da noite um grande portão de ferro ficava fechado, separando os dois ambientes. A partir de determinada hora (22h talvez), esse portão se abria e se tornava um ambiente único. Nesse início a pista de dança também era um ponto forte, e apesar de rolar, digamos, coisas menos alternativas, o pessoal dançava.

Hoje. Onde está o Aeroanta?
O palco era ótimo e a estrutura oferecida para os artistas era acima da média. O primeiro camarim foi o de cima, que também ficava na parte de trás do palco à direita, subindo uma escada. Era um camarim grande, mas anos depois ele se tornou um mezanino incorporado ao ambiente do restaurante, e que passou a servir de área vip nas festas. Depois disso o novo camarim, tamb[ém atrás do palco, passou a ser o de baixo, que também era ótimo.

Desde o início sempre estive envolvido nos bastidores de shows do Aeroanta, sempre acompanhando amigos ou por causa de Binga, a quem eu acompanhava e também trabalhava como roadie (em 1987 eu não conhecia ninguém em São Paulo). Quem cuidava dessa parte artística era Geraldo D’arbily, Biba Fonseca e Deyse (que depois se tornou empresária do Raimundos). O camarim (de cima) tinha banheiro, um ambiente com espelho, sofá, cadeiras e outro que ficava a geladeira, pia e mesa com comes e bebes. Era costume de Geraldo receber as bandas com a geladeira repleta de água, refrigerante e cerveja, uma garrafa fechada de Red Label, além de uma mesa com pães, frios, patês e frutas. Isso era para qualquer artista, independente de sua fama. Frequentei aquele camarim muito. Até arrisco em dizer que um dos últimos artistas a usar o camarim de cima foi Os Mulheres Negras.

Ratos de Porão
Quando Geraldo saiu do Aeroanta, 95% dessas regalias acabou. Também com o tempo, um maior número de bandas passou a tocar lá, e não havia condições de mimar todas elas. No show de lançamento do 1ª CD do Raimundos, em 1994, não havia nada no camarim, que eu me lembre, apenas água.

Mas esse começo era assim, você automaticamente ganhava respeito de todos ao tocar no Aeroanta. Não era para qualquer um. O palco era espaçoso, porém, não muito grande; o equipamento de som era de primeira, inclusive a monitoração de palco. Era um ambiente intimista.

Também aconteciam festas fechadas, e elas eram boas. Numa dessas eu vi show do Paralamas. Também lembro de uma festa a fantasia, onde estava Caetano Veloso. Eu estava com amigos e ele ficou interessado em uma das garotas que estavam junto comigo. Por coincidência saímos para ir embora ao mesmo tempo e Caetano foi conversando com ela até chegarmos aos carros, que estavam estacionados na mesma direção. Dei boa noite e apertei a mão dele. Nada aconteceu entre ele e minha amiga. Só ficou na paquera rsrs.

Público no show do Rip Monsters. 1993.
Pra entrar sem pagar era preciso chegar mais cedo, procurar os contatos, ficar no Bar do Milton tomando uma e de olho na movimentação. Sempre aparecia alguém com ingressos na mão, ou chamando dois ou três pra colocar pra dentro. No show do Jello Biafra foi assim. Só me arrependo de não estar com minha câmera naquele dia. Daria pra filmar numa boa, apesar do lugar parecer uma verdadeira lata de sardinha. Foi o bicho.

O show do Live também estava abarrotado, mas eu fiquei no Milton tomando cerveja, quando resolveram abrir os portões para o ar circular. Todo mundo que estava na rua pôde ver o show. A banda estava em plena evidência.

Sempre rolavam pequenos festivais que o Aeroanta fazia. Neles tocavam quatro ou cinco bandas, cada uma cinco músicas, e o lugar ficava abarrotado. Houve época em que os domingos eram reservados às bandas que estavam começando. A programação sempre mudava, mas era assim; ao mesmo tempo que tinha Cazuza ou Cássia Eller, tinha o festival A Barulheira com Pin Ups, Killing Chainsaw e Garage Fuzz.

Filhos de Mengele. Último show do Aeroanta. abril/1996
Nas festas fechadas também aconteciam apresentações e jams antológicas - as famosas Aerojams. Nem dá pra listar tudo o que vi naquele palco. De 1987 até 1995 vi ao menos 70% dos shows que aconteceram lá. Naquele palco tocou de tudo. Cada festa tinha seus artistas convidados. Acredito inclusive que estava na noite de lançamento da coletânea Não São Paulo 2. No final acabava tudo em Jam. Inclusive o Aeroanta foi pioneiro em fazer shows temáticos, que depois se espalharam com as bandas covers. As noites de black music marcaram época e eram bem disputadas.

Aos poucos a separação de ambientes deixou de existir, inclusive o portão que era usado para separar os ambientes foi substituído por uma permanente passagem aberta. A pista de dança foi perdendo sua força. Havia o som ambiente, as luzes, o clima, e quem quisesse podia dançar, mas o interesse maior era o bar e os shows.

É completamente cabível um livro sobre o Aeroanta. Foram muitos shows, muitas baladas. Ora inicio de noite, ora fim de noite. A estréia do Angra aqui no Brasil, com uma fila que virava o quarteirão, a muvuca constante nos botecos, o trânsito que ficava na frente, os pais deixando as filhas (e depois pegando no mesmo ponto). O movimento era constante, até porque o Aeroanta fazia parte do rolé noturno, todo mundo passava de carro por ali, diminuía a velocidade, observava a movimentação, as vezes parava, as vezes não. Tinham dias caídos, e dias maravilhosos.

Beto Pandiani
Aos poucos, o Aeroanta foi tomando um ar de abandono. Lembro do show do Buzzcocks, não por estar completamente vazio, mas percebi que o bar não era o mesmo, o tratamento não era igual. Isso foi em 1995. No show do Exploited o clima já era esse. Não era a mesma casa e eu tenho PhD para afirmar isso.

Desde que consegui formar minha primeira banda em São Paulo, passei de 1988 até 1991 tentando tocar no Aeroanta e nunca consegui. Mas, por ironia, em 1996 fiz um show lá com o Filhos de Mengele (por enquanto no Youtube). Era uma reunião decidida de última hora para comemorar 10 anos da formação clássica. Aconteceu em 23 de abril de 1996. Esse foi o último show do Aeroanta, que no dia seguinte literalmente fechou as portas. O corpo de bombeiros foi lá e lacrou tudo.

Eu estava lá no começo e eu estava lá no fim.


Lagoa 66


Fábrica Fagus


Joe Satriani


Camisa de Vênus


Maria Angélica Não Mora Mais Aqui


Patife Band


Cazuza (entrevista no balcão do bar do Aeroanta)


Vzyadoq Moe


RDP


Raimundos


Violeta de Outono


Mundo Livre s/a


Killing Chainsaw (material no Aeroanta)

22 de julho de 2010

Série Anos 1990 SP: 1 - Geral

Dias atrás comecei a escrever um texto sobre a São Paulo dos anos 1990, sua cena underground, e não conseguia mais parar. Era muita coisa. Tanta coisa que vi a possibilidade de abrir uma nova série. Para começar darei uma geral rápida e aos poucos escreverei sobre as bandas, as principais casas de shows e todo o universo envolvido nessa década, mais precisamente de 1990 a 1995, sua primeira metade.

Era um momento atípico no rock brasileiro, com a maioria das bandas cantando em inglês, renegando o passado, com vergonha da geração 1980 e fazendo pose de gringo. O grunge ajudou a fortalecer tudo isso: as letras em inglês, a vergonha e a pose. Todo mundo era grunge. Apesar disso foram anos bem divertidos.

Tinham casas como Aeroanta, Dama Xoc, Espaço Retrô, Cais, Der Temple, Woodstock, Dynamo, Black Jack, Britânia e Garage. O circuito quente era Aeroanta, Espaço Retrô, Cais, Der Temple e Garage. E de todos esses o Aeroanta era a meta. Sempre.

O Aeroanta e o Dama Xoc ficavam poucos quarteirões de distância entre eles, era comum uma caminhada entre um e outro. O Dama Xoc era mais casa de show e no Aeroanta tinha show, pista de dança, bar e comida. O Aeroanta veio primeiro, no início de 1987, e eu estava na inauguração.

Todos esses bares – com exceção do Garage – tinham ao lado ou muito perto, botecos que serviam para começar a noite. Eles ficavam cheios até perto da hora do show que aconteceria. Além dessas casas de shows também tinham alguns bares que eram freqüentados pelo mesmo pessoal: Jungle, New York, Sampa e o Sushiban (ou Sushibar? Não lembro).

Esse era basicamente o circuito noturno desse período. Era divertido, todo mundo encontrava com todo mundo, dávamos boas risadas, todos viram bons shows, e rolaram momentos antológicos como o show do Yo Ho Delic no Phoenix, casa noturna na Barra Funda que durou pouco e era do mesmo dono do Retrô (esse show eu tenho em vídeo). Também rolou a noite em que Kurt Cobain foi ao Der Temple (eu não estava), o show de Jello Biafra no Aeroanta, Raimundos e Planet Hemp também no Aeroanta, Ramones no Dama Xoc, De Falla no Retrô e Der Temple (na mesma noite).

Rolavam pequenos festivais que não vou lembrar os nomes, mas o Aeroanta e o Garage os faziam de vez em quando. Foi também quando aconteceu o Juntatribo em Campinas. Aliás, o interior tinha ótimas bandas: Concreteness, Linguachula, Killing Chainsaw, Happy Cow, Muzzarellas, No Class.

A MTV Brasil foi de suma importância nessa época, e também veio a Tinitus (de Pena Schmidt), o Banguela (Titãs/Warner), o Chaos (Sony), e a facilidade em produzir o próprio CD. Tudo isso alimentava o underground.

Não era sempre que a noite começava e acabava no mesmo lugar. Se você estivesse perdido era só ir, por exemplo, para o bar do Milton ao lado do Aeroanta, um lugar bom para se obter informações. Estou falando de 15, 20 anos atrás, o trânsito era outro, tinha lugar para estacionar e era fácil ir de um lugar ao outro até achar a melhor opção. Era difícil não ter shows, principalmente 5ª, 6ª, sábado e domingo.

As rádios 89 FM e a Brasil 2000 também davam uma força para as bandas do underground, tocando-as em programas especiais, divulgando shows, produzindo coletâneas e shows especiais.

Era uma turma grande, mas não uma turma unida. Todos eram amigos, algumas bandas tinham mais afinidades com outras e assim surgiam shows em conjunto, a troca de informações era constante, mas no fundo era cada um por si e Deus por todos.
Ao contrário das casas paulistanas dos anos 1980, em que a maioria tinha música ao vivo e também pista de dança, essas dos anos 1990 eram mais focadas na música ao vivo. O Aeroanta tinha uma boa pista no começo, mas aos poucos ela foi perdendo a força. Pra dançar rock, bom mesmo era o Der Temple.

Pior é que dessa época não sobrou nada. De todas as bandas que existiam não sobrou quase nenhuma. As casas de shows todas sumiram. Dos bares nada mais restou. Banguela, Tinitus e Chaos... puf! Nem as revistas e rádios existem mais.

Hoje passo pelo Largo da Batata quase todo dia e não consigo achar o local onde era o Aeroanta (por causa do Metrô e da expansão da Faria Lima todas as referências sumiram). Foram bons tempos e uma pequena parte deles eu tive sorte de registrar com minha velha câmera VHS (que na época era moderna).

PS: A foto do toldo é o Juntratribo

15 de julho de 2010

1980: American Pop, Urgh! A Music War e Liquid Sky

A partir do punk, todo mundo percebeu que poderia tocar, pintar, escrever, fotografar e criar, independente de ser um estudioso. Bastava criatividade. Do it yourself. O punk mexeu com todas as formas de arte.

A partir de 1975 começaram a surgir novidades atrás de novidades e assim foi até 1990. Foram 15 anos que mais pareceram 200. Dois terços deles se passaram nos anos 1980 com uma intensidade absurda de acontecimentos, principalmente na primeira metade da década.
São zilhares de coisas que marcaram os 80s, mas pra mim dá pra resumir tudo em dois filmes e um documentário: o filme animação American Pop de 1981, o documentário musical Urgh! A Music War também de 1981 e o filme Liquid Sky lançado em 1982.

Todos eles eu assisti entre 1983 e 1984 – esse atraso era comum na época – e todos eles me deixaram de boca aberta. O American Pop não só pela história maravilhosa, mas pelo traço da animação, bastante incomum para a época. Foi ali, ainda moleque, que aprendi mais sobre a história da música e soube que o punk rock que eu gostava estava ligado ao blues. Foi uma luz. Era 1983 e eu tinha 13 anos.

Quando eu vi o filme, foi uma única vez, numa apresentação especial e era uma sala pequena, acho que na Cultura Inglesa de Brasília. Depois só fui achar esse filme novamente nos anos 1990 em uma locadora. Depois de assisti-lo 400 mil vezes ainda continuo babando no traço, no roteiro, na estética. American Pop é atemporal.

Era uma porrada atrás da outra e assim foi com Liquid Sky, o filme mais doido que eu já vi na minha vida. Sim, sem a menor dúvida ele foi o mais estranho de todos (e olha que ano passado eu vi um filme sueco de vampiro!). Esse filme eu vi duas vezes em 1984, um dia seguido do outro. Nas duas vezes fiquei de boca aberta. Nunca mais o vi, mas para escrever esse texto pesquisei e descobri que ele foi lançado em DVD em 2008, inclusive no Brasil. É uma história doida que se passa em Manhattan nos anos 1980. A protagonista é uma modelo bissexual que tem amigos uns mais estranhos que os outros. Vive na balada. É uma ficção científica com muita droga pesada (liquid sky é apelido para heroína). A modelo transa com seus parceiros e na hora que gozam evaporam, pois há um alienígena escondido na casa da moça doida, e ele precisa de uma substância que é liberada só no momento do orgasmo. Ela transa, a pessoa goza e some. Que maravilha!

A estética é uma mistura de Joy Division, gótico, pós-punk, psicodélico e new wave. Uma mistura doida que, na verdade, também era um retrato da época. Nem sei qual seria minha reação ao vê-lo novamente agora, mas Liquid Sky foi também importante na minha formação. É inspirador. E muito.

Outra boa porrada na boca do estômago é o Urgh! A Music War, um documentário musical produzido por Miles Copeland, irmão de Stewart Copeland, baterista do Police. Esse documentário, não só pra mim, foi um guia. É o fiel retrato musical do que foi o período 1979-1983 (período que até hoje gera consequências). É uma salada musical. Foi dirigido por Derek Burbidge, que já trabalhou com Joe Jackson, AC/DC, Devo, Stray Cats, Queen, Bruce Springsteen, Police e mais um monte de gente.

Urgh! nada mais é do que uma coletânea de apresentações ao vivo que ocorreram em 1980 entre Los Angeles e New York (USA); Londres e Portsmouth (Inglaterra) e Fréjus, na França. O que eu assisti foi exatamente o que saiu no DVD de novembro de 2009. São 34 apresentações, uma música para cada artista, com exceção de Police que tem duas. Devo, Go Go’s, Dead Kennedys, Pere Ubu, 999, XTC, Cramps, Gary Numan, Gang of Four, X, Steel Pulse, Echo and the Bunnymen e Klaus Nomi são alguns dos nomes que estão no Urgh! Além das músicas, há algumas poucas imagens das fachadas dos locais onde ocorreram os shows onde mostram algumas pessoas do público, o lado descolado dos anos 1980.

Assim como o American Pop e o Liquid Sky, o Urgh! A Music War também assisti umas três vezes para só revê-lo no final dos anos 1990. Só que agora dá para vê-lo no You Tube.
Urgh! A Music War é legal por também ser o retrato de uma época altamente politizada por conta da guerra fria, do governo Reagan e de Margareth Thatcher. Era uma sensação de que o botão da bomba atômica poderia ser apertado a qualquer momento (e poderia mesmo!), e era quando todos ainda acreditavam que os comunistas comiam criancinhas. A cortina de ferro, o muro de Berlim. Tudo isso deu uma aura especial ao Urgh!, que apesar de não ter ido bem nos cinemas americanos, se tornou uma referência obrigatória.

Aqui no Brasil nunca houve uma exibição oficial seja no cinema ou na televisão. Nos EUA chegou a passar algumas vezes na VH1. Seu lançamento só aconteceu agora em 2009 por problemas nos direitos autorais. Como são muitos artistas e cada um sendo de uma gravadora e editoras diferentes, a burocracia foi muito grande e penosamente demorada. Resultado disso é, por exemplo, o lançamento do DVD sem remasterização de som ou de imagem. Há também um CD, mas alguns artistas que estão no DVD não estão no CD (a tal da burocracia).

Dizem que para cada artista o diretor gravou três músicas, e ainda há muitos nomes que não saíram no documentário, somando algo em torno de 100 músicas registradas. Tudo isso ainda poderá ser lançado dependendo da burocracia que ainda há em torno desse material.

A verdade é que além de ser um retrato de uma geração, é também uma aula de performances ao vivo. Não era em qualquer lugar que você podia ver tranquilamente Go Go’s ao lado de Dead Kennedys. Urgh! A Music War consegue isso.

Liquid Sky (FULL)


Gang of Four


XTC (tocando “Respectable Street” anunciando-a como música nova)


Devo


Dead Kennedys


Police


Echo and The Bunnymen


The Cramps

8 de julho de 2010

Rock sem preconceiro. Viva o roque!

13 de julho é o dia mundial do rock, esse gênero que é uma mãe para todos. Desde que surgiu, até hoje incomoda muita gente. Não existe outro tipo de música que seja tão altruísta quanto o rock. Mistura-se a todos numa boa. O que seria de nós sem o bom e velho roque?


Nos anos 1950 as televisões não filmavam Elvis Presley da cintura para baixo por causa de seu rebolado que deixava as menininhas maluquinhas. Apesar de seu grande sucesso ele sofria muito, até seu topete era mal visto, e tudo isso culminou em seu alistamento no exército americano. Com cabelo mais curto e papéis de bom moço, acabou por conquistar a todos, até seus detratores.

Com os cabelinhos ‘tijelinha’ muitos diziam que os Beatles eram uma indecência por serem cabeludos.

Se essas pessoas disseram isso do Beatles em 1963, imagine então o que elas falaram quando viram Jimi Hendrix ou Led Zeppelin. Os tradicionalistas faziam de tudo para proibir o rock, inclusive aqui no Brasil. Na década de 1960 políticos brasileiros também chegaram a proibir o rock em rádios, bailes e locais públicos. No Brasil dos anos 1970 era comum ter polícia infiltrada em shows, festivais e aglomerações de jovens. Artistas como Raul Seixas, Novos Baianos e Rita Lee sofriam marcação cerrada da polícia e do governo.

Artistas do mundo inteiro sofriam com drogas plantadas em suas casas, no camarim, no hotel, no ônibus de turnê. Um ótimo exemplo é John Lennon que não só era literalmente perseguido por agentes da Cia nas ruas de Nova Iorque (como vemos nos filmes, aquele homens de terno preto, óculos pretos e chapéu preto), ele também teve seus telefones grampeados.

Black Sabbath, Led Zeppelin, The Doors, Alie Cooper, David Bowie, todos os grandes nomes, os médios e pequenos também, todo mundo tem suas histórias de preconceito.
Até aqui só citei o preconceito com roqueiros brancos, imagine então o que era no final dos anos 1940 e os anos 1950, com todos aqueles americanos altamente racistas tendo que engolir nomes como Fats Domino, Little Richard e Chuck Berry. Era o começo do fim do mundo.

Esse era o preconceito social que o rock sofreu até pelo menos a segunda metade dos anos 1980, quando as grandes corporações passaram a ganhar dinheiro com ele. Quantos não disseram que o rock’n’roll era uma moda passageira?

Bem, esse era um, mas havia outro tipo de preconceito sofrido, e que o rock também passou por cima: outros gêneros musicais passaram a olhar torto para o rock. No entanto ele respondeu com as mais diversas fusões de gêneros. De bobo o rock não tem nada e sempre soube aproveitar (no bom sentido) as melhores coisas que estavam em sua volta. Beatles, por exemplo, foi a primeira banda a incorporar a arte e literatura em seu leque de influências. Red Hot Chili Peppers continuou com isso nos anos 1980 quando afirmava que bastava um quadro de Picasso para se ter uma boa inspiração musical.

Assim foi com o jazz, soul, música clássica, eletrônica, country, blues (claro!). Aqui no Brasil, além dessas misturas, também tinha fusão com bossa nova, caipira / regional, samba, chorinho, maracatu, forró.

O contrário não acontecia tão fácil como acontecia com o rock. No rock tudo é bem vindo. Os roqueiros brasileiros jamais pensariam em fazer uma ridícula passeata contra o violão. Obviamente hoje os que eram contra a guitarra na MPB, têm vergonha de lembrar isso, e muitos deixaram de assumir esse preconceito quando viram que não tinha nada de mal em trabalhos como o de Raul Seixas, Novos Baianos, A Cor do Som, Mutantes e todos os tropicalistas. Pelo contrário, que isso era saudável e não só para o rock. A própria MPB dos anos 1970, mesmo com Chico Buarque ou Maria Bethânia, tinha sua pitada de rock.

Desde os anos 1990 a luta que outros gêneros travavam com o rock não existe mais. Bons exemplos disso são Raimundos com forró e Chico Science & Nação Zumbi com maracatu, que foram prontamente aceitos no mercado.
Preconceito social há até hoje e sempre haverá. Se um dia ninguém mais falar que “roqueiro é tudo drogado” é porque há algo de errado.

Viva o roque!

 Leia também:
http://setedoses.blogspot.com/2010/06/rock-e-rock-o-resto-e-resto.html










1 de julho de 2010

O rock é extraterrestre

Pra mim é louco quem acha que estamos sozinhos no universo. Nós somos tão pequenos e limitados que não conseguimos compreender o que é o infinito, mesmo se pararmos para pensar. Nós reles mortais não sabemos o que é o eterno. Só sabemos de coisas pequenas que tem começo, meio e fim.

O óbvio está na nossa cara: há zilhões de planetas com habitantes. Uns iguais a nós, outros mais atrasados ou mais adiantados.

Imagine o universo como sendo o planeta Terra. Há diversas vilas, cidades, estados, países e continentes. Há várias línguas, costumes e sabedoria diferentes, aspectos físicos diferentes, geografia e clima também diferentes. Enfim, cada um vivendo na sua, levando a vida, mas um dependendo do outro. A fumaça produzida na China prejudica a Irlanda, o degelo na Antártica é ruim para o Brasil, o tsunami na Índia se reflete no México, o desmatamento da Amazônia é ruim para a Ásia.

No universo é igual: cada planeta, cada galáxia, um depende do outro. Assim como a Terra depende do Sol. A morte de um planeta gera um desequilíbrio, e um efeito dominó.

O planeta Terra é um dos mais atrasados de sua galáxia e das galáxias vizinhas. Porém, é de suma importância para a vida de tantos outros planetas. O motivo são vários: desde a qualidade do ar e atmosfera, até a vida animal, vegetal e mineral. Nós babamos em cima do ouro ou do diamante, mas para muitos planetas o que interessa são outras coisas, às vezes mais simples, como uma planta, grama ou uma pedra no fundo de um lago. Civilizações extraterrestres podem extrair materiais que desconhecemos, mesmo sendo de uma samambaia. Há muita coisa que desconhecemos na Floresta Amazônica.

Desde pouco antes da revolução industrial, ocorrida na Inglaterra no século 17, passamos a ser objeto de preocupação para muitos planetas vizinhos. Observando nossa movimentação e os avanços tecnológicos ocorridos no século 16, uma organização criada pelos planetas mais avançados dessa galáxia, uma espécie de ONU interplanetária, tomou a decisão de enviar ao planeta Terra, alguns seres de civilizações avançadas para ajudar na evolução do planeta.

Decisão tomada por volta de 1613, seres do planeta Catena foram designados para a missão na Terra. Não por acaso foram escolhidas duas cidades: Bucksport e Scarborough.

Bucksport fica no estado de Maine, nos Estados Unidos da América. É uma cidade histórica e lá arqueólogos acharam traços de uma cultura pré-histórica vivida em 5 mil anos antes de Cristo. Junto às ossadas desse povo pré-histórico foram achadas ferramentas de pesca avançadas para a época. Isso é resultado de uma primeira visita extraterrestre naquela região. Apesar da riqueza histórica, Bucksport é pequena e sua população não passa de 6 mil habitantes.

Scarborough é uma cidade que fica na Costa do Mar Norte, no estado de Yorkshire, na Inglaterra. Assim como Bucksport, ela é uma cidade muito antiga, surgida em 966 depois de Cristo e com uma riqueza histórica incrível. Por ficar no litoral, é uma cidade turística, e era um ponto comercial importante na Idade Média. Mais que a cidade americana, Scarborough aproveitou bem o conhecimento avançado dos irmãos extraterrestres para se tornar uma cidade moderna. Sua população tambérm não é grande, gira em torno de 50 mil habitantes.
Não à toa que a música "Scarborough Fair", de autoria desconhecida, ganhou zilhões de regravações, a mais famosa delas com Simon & Garfunkel.

Sabendo da adoração do ser humano por música, foi através dela que os catenenses ajudaram na evolução tecnológica dos humanos. A intenção também é trabalhar a evolução moral, mas aí sabesse que é mais difícil por causa do livre arbítrio. Assim como Catena, as outras civilizações que chegaram também são especializadas em música e em trabalhos que exigem criatividade.

Com modificações genéticas imperceptíveis para os cientistas humanos, os catenenses agem diretamente na parte cerebral onde fica nossa área criativa tornando-a mais aguçada e tendendo-a para a música. Entre os primeiros humanos a mostrarem um talento especial estão os músicos do período barroco e clássico como Johann Sebastian Bach, Mozart, Beethoven, Chopin e Brahms. É através de pesquisas e investigações que se chega aos humanos habilitados para receberem as modificações genéticas.

Apesar de esse início ter tido 100% de sucesso, os catenenses não viam a hora da Terra evoluir para logo chegarem numa música mais moderna. Queriam logo trabalhar o que mais gostavam: o rock e o pop.


Com os planos indo bem, ao longo dos anos chegaram mais duas civilizações extraterrestres, vindas dos planetas Agrólia e Tinéten. Vieram para ajudar os catenenses, que iriam trabalhar mais o segmento que conheciam, enquanto os agrolianos e tinetenses trabalhariam outros segmentos como música infantil, jazz, soul, entre outras. Cada planeta desses tem, no máximo, de 10 a 12 representantes na Terra, vivendo normalmente, como um ser humano qualquer, trabalhador e pagador de impostos, porém com essa atividade paralela que ocorre por todo o planeta e fora dos olhos dos humanos. O deslocamento deles é tão rápido que parece um teletransporte.

A idéia inicial de Catena era chegar ao rock / pop ainda na primeira metade do século 19, ou seja, mais ou menos em 1830, mas o lento avanço moral dos seres humanos atrasou os planos em mais de 100 anos.

A expectativa de poder trabalhar esses gêneros musicais contemporâneos era fruto de outras experiências, parecidas ou iguais, em outros planetas, e era sabido que soul, blues, rock e pop eram segmentos que atingiam mais fácil os objetivos. O barroco e o clássico, por não ter letra, trabalham mais os sentimentos, e com as músicas mais curtas, com letras e refrão, a meta é formar opinião e passar mensagens.

Quando você houve a 9ª de Beethoven, a sensação não é a de que essa música sempre existiu? Isso acontece também com “Love Me Tender” de Elvis Presley; “Strawberry Fields Forever” de Beatles; “Smoke on the Water” do Deep Purple; a batida de “Sunday Bloody Sunday” do U2; “Smells Like Teen Spirit” do Nivana; “Carinhoso” de Pixinguinha e João de Barro; “Águas de Março” de Tom Jobim; “Você Não oube Me Amar” da Blitz. Essas e outras tantas músicas e até cenas musicais como o flower power, o punk, a disco, o rap ou o emo já estavam prontas esperando o momento certo de surgir na Terra. Além disso fica claro que o próprio Beatles, Michael Jackson, os irmãos Van Halen e até mesmo o Ramones, todos eram especiais. Por que você acha que Joey Ramone, Dee Dee Ramone e Johnny Ramone, os três homens de frente da banda morreram poucos anos depois do fim da banda e quase na sequência (respectivamente 2001, 2002, 2004).

Sempre houve e sempre haverá músicas que darão essa sensação de já ter sido ouvida antes. Elas já existem em outros planetas e nós, através de existências reencarnatórias, quando estamos mortos na Terra, mas vivos em outro lugar, continuamos a ouvir os riffs que já conhecemos.

É só com nossa evolução moral que vamos conhecendo novos estilos, que aqui na Terra não existe e demorará a chegar.

Enquanto isso, nesse exato momento em que você lê este texto, catenenses, agrolianos e tinetenses continuam trabalhando firme, apesar da crise pela qual passamos hoje, pois mais uma vez o ser humano estacionou moralmente e não merecemos ainda nada melhor que grunge e britpop. O emo, o eletro rock e a bossa nova misturada com o eletrônico foi o próprio ser humano que fez tentando ser "criativo". As cópias, o segundo escalão e a música de mau gosto, são coisas feitas exclusivemente por humanos. Catena, Agrólia e Tinéten só nos dão os originais.

Tenhamos paciência.