19 de março de 2014

Pelo Fim do Mundo Já!

Eu abro revistas, jornais, internet. Ligo a TV, vejo a aberta, a assinada. Fico embasbacado com o tanto de propaganda de carro, cerveja e celular que surgem. Parecem monstros saindo da escuridão.

Parece que não existe mais nada na vida pra se preocupar. A ideia que eu tenho vendo isso é de que, se você não tem carro, você não é ninguém, como em uma propaganda em que a pessoa vai sumindo por não ter o carro certo.

As ruas estão entupidas de carros, não vai demorar muito para entrarmos em colapso por conta da falta de espaço (especialistas dizem que em SP isso acontecerá em 2018), e ainda assim o governo arruma incentivos para que se vendam mais e mais carros. O ser humano não sabe pensar (não vou dizer burro... coitado do bicho!).

O pior é ver que a população cai nessa, vai na concessionária e compra a droga do carro para, no segundo seguinte, sem ao menos entrar nele, o ter já desvalorizado. O mundo não precisa de carros!

Até pouco tempo atrás era, e ainda é, comum ver motoristas reclamando de motoristas que se distraem por causa do smartphone. Volante e celular juntos matam. Mesmo assim o ser humano (que não sabe pensar) continua usando o diabo do aparelho enquanto dirige.

(Aliás, com tanta campanha, e com todo mundo já sabendo do perigo, quantas pessoas morreram nesse carnaval por conta da mistura de álcool e volante?)

Agora o chato é que não é mais só o motorista que atrapalha o outro motorista por conta do smartphone. Agora andar na rua ficou também insuportável exatamente pelo número de pessoas que andam lentamente e com a cabeça baixa olhando para seu aparelho, vendo facebook, twitter e o diabo a quatro.

Por vezes você está andando junto com uma multidão, hora do rush, no terminal, e dentro daquela célula nervosa, com um movimento gigante, um monte de coisas acontecendo ao redor, e você se vê obrigado a aguentar o fulano na frente andando como uma tartaruga porque está enviando um coraçãozinho para a namorada. Essa coisa de ficar só olhando para o próprio umbigo é que está acabando com o mundo!

A pessoa sai do escritório, onde ficou o dia inteiro sentada em frente ao computador com todas as redes sociais abertas, e continua conectada, por conta de seu aparelho, dentro do carro, no ônibus, no trem, metrô, nas mesmas redes sociais... e agora também caminhando. O ser humano, além de não saber pensar, está cada vez mais bitolado. Já não basta ir a um restaurante, lanchonete, bar, café e ver pessoas sentadas na mesa caladas e olhando cada uma para seu aparelho, agora isso acontece também na rua, em uma simples caminhada para a padaria.

Muito triste. Você sai com uma pessoa para conversar, conhecer, beijar, transar e durante todo esse processo a pessoa não larga o aparelho. Acaba de dar uma boa trepada e pega o telefone pra olhar as redes sociais. Parece até que a pessoa fica se sentindo fora da turma se não estiver conectada. Brochante. 

As pessoas passaram a pautar suas vidas de acordo com o que acontece no universo virtual. Pautam de acordo com os bens materiais, com o Iphone, com o carro, a marca da roupa, de acordo com quantas viagens faz para Europa e EUA. “Ah, porque em Nova York...”. Cala boca, porra! Dane-se Nova York, Paris ou Londres!!! Oras, então faça as malas e vá embora.

Está tudo errado. Os valores estão errados. Eu não posso ser legal só por conta do carro que tenho, ou do apartamento em que moro. Cansado de tudo isso. Cansado de estar conversando com uma pessoa que a todo instante olha para o Iphone, cansado de ver propagandas de carro e cerveja. Estou extremamente cansado de ver o quanto o ser humano se desvaloriza, o quanto ele faz questão de ser escravo dessas coisas fúteis que pautam esses dias atuais, o quanto ele destrói o mundo e ainda sai na rua pra fazer manifestação. Cansado de ver tanta ignorância mostrada por pessoas que tem alcance a informações e estudos.

Estou bastante cansado de ouvir amigos dizer que são contra o sistema, sem se tocar de que são eles mesmos que alimentam o sistema, com seus Iphones, seus automóveis movidos a gasolina, consumindo a cervejinha que patrocina o futebol, o cigarro que compram, enfim, se alimentando exatamente do que o sistema oferece. Dando dinheiro à empresas que fazem lobby, pagam propina, incentivam a corrupção, o trabalho escravo.

O ser humano tem preguiça de pensar, usar a cabeça, se informar. Tenho vergonha de ser ser humano. E eu nem falei de racismo, homofobia e outras idiotices que nós insistimos em ainda alimentar.

Enquanto precisamos pensar, com urgência, de forma coletiva (como deveria ser desde sempre), o ser humano se torna cada vez mais individual. É tudo "eu, eu, eu, eu e eu".

Todo mundo sabe o que é certo ou errado. Mesmo assim prefere o errado. Estamos nos empurrando para o fim. O estrago total. Tilt geral. Se todo mundo levar o cachorro pra cagar na rua e ninguém limpar, vai chegar um momento em que as ruas estarão tomadas de bosta. Estão jogando bosta no mundo e não há ninguém limpando.

É necessário começar tudo de novo. Do zero. Destruir para reconstruir. Por favor, que venha o mais rápido possível o fim do mundo.


** Pesquisa virtual da comunidade Avaaz sobre as prioridades mundiais. Ela ainda está sendo feita e você pode participar. Esse resultado parcial é de 18-03-2014:


O jeito que somos...

11 de março de 2014

Série Anos 1990 SP: 12 – Importância Exagerada

Depois de 3 anos volto a postar algo da Série Anos 1990. Antes de tudo, preciso avisar a dezenas de amigos que tinham banda nos anos 90 (assim como eu), que o que quero registrar nesse texto não diz respeito à qualidade das composições ou dos integrantes como instrumentistas.

Quem me conhece sabe que não sou chegado a bandas brasileiras que cantam em inglês. A única que é exceção, claro, é Sepultura, que almejou o mercado estrangeiro desde o início e tudo que fez aqui no começo foi pensando na gringa. Na primeira oportunidade, Max foi para os EUA. Na 2ª oportunidade a banda toda já estava lá ralando.

A maioria esmagadora das bandas que cantavam em inglês, ao contrário do Sepultura, se acomodou por aqui mesmo. Algumas ainda tiveram o vergonhoso sonho de que algum produtor gringo fosse olhar para o Brasil por conta do Sepultura. Ridículo.

A virada dos 1980 para os 1990 foi o pior momento para as artes no Brasil. Se já estava ultra difícil para artistas consagrados que cantavam em português, imagine então para bandas que cantavam em inglês!?!

Vejo dois os motivos principais pela opção do inglês: a má qualidade de produção e gravação da geração 1980, que dava certa vergonha em escutar, e o período sócio-político-econômico que estávamos passando, quando não havia futuro para artista nenhum.

Era um paradoxo, porque tinham muitas casas noturnas com espaço para música ao vivo, mas não havia uma nova cena musical para ocupá-las. Tinham as bandas covers, que foram as grandes beneficiadas nesse período de vacas magras.

Nesses dois últimos meses eu resgatei alguns livros que tenho sobre rock brasileiro (alguns são tcc, edições limitadas), revistas especiais, matérias, etc. Percebi que há muita gente que gosta de enaltecer essa cena de bandas brasileiras que cantavam em inglês, dando uma importância exagerada, falando de legado, do pioneirismo, do quão essas bandas foram importantes, etc.

Pô, não tem nada disso! Eu posso listar trocentas dessas bandas, os nomes já estão documentados nesta série, entre eles há grandes bandas e ótimas composições, mas essa cena não teve importância para a história do rock brasileiro. De forma alguma. Nenhuma banda lançou um grande clássico por uma grande gravadora, fez grande sucesso, deixou ao menos um grande hit. Nada disso. Foi uma cena que ficou no underground. Foi uma brincadeira bastante divertida e de qualidade. Ponto.

Eu mesmo, quem acompanha o blog sabe, adoro tudo do Killing Chainsaw, acho os discos clássicos, e os shows todos incríveis e carregados de histórias. Também gosto demais de Garage Fuzz e OKotô, que deixavam muitas bandas gringas no chulé. Mas daí a achar que elas mudaram alguma coisa na história do rock brasileiro, é realmente exagero.

Tinham bandas dessa cena que estavam apenas se divertindo, o que era bem legal, mas tinha banda que levava muito a sério, não só sua música, mas a pose. Era de doer. Vergonha alheia hahaha. Se para as bandas americanas e inglesas o mercado era cruel, imagine então para as bandas brasileiras cantando em inglês... 

Imagine você o quanto eu e outros, que trabalhavam na MTV, aguentávamos de puxa saquismo e poses de certas bandas. Elas achavam que o fato de passar o videoclipe delas na programação iria levá-las ao estrelato mundial. Triste acomodação.

Posso até citar Wry e Holly Tree, que tiveram coragem de tentar alguma coisa lá fora, mas aí vou esbarrar no fator qualidade.

Muitas dessas bandas resolveram abandonar o inglês e passaram a cantar em português. Mas isso pelo desespero de querer fazer sucesso a qualquer preço. Essa transformação não acontecia de forma natural, ela veio só depois do sucesso das bandas que cantavam em português. 

Foi um momento lamentável, porque tinham bandas que já estavam batalhando há anos, aí na chegada do Real, e com o novo aquecimento do mercado, as gravadoras passaram a contratar, e acabaram contratando bandas que nem faziam parte dessa forte cena underground de São Paulo (que tinha bandas do Brasil inteiro).

Skank, Raimundos, Planet Hemp, Pato Fú, Chico Science & NZ, O Rappa já estavam tocando na virada da década, mas estavam fora da casinha, porque cantavam em português. Aí elas foram contratadas e estouraram. Então muitas bandas que cantavam em inglês se desesperaram e passaram a procurar influencias brasileiras. Parecia uma corrida de cegos, como se mudar para o português fosse levar, automaticamente, a banda à um contrato com uma major. Vou ter que repetir porque não há outra palavra: ridículo.

Essas bandas brasileiras que cantavam em inglês, mesmo algumas sendo bem legais, não deixaram legado e nem foram influência para outras mais novas. Fizeram, sim, shows divertidíssimos e históricos. Foram, sim, ultra importantes. Mas para quem viveu esse período. Para quem frequentava as casas noturnas, assistia aos shows, e estava nos botecos.

Os anos 1990 foram intensos e não se deve transformá-los em história de pescador!