25 de janeiro de 2011

Histórias da MTV: Artistas e Aeroportos

escrevi aqui dizendo que o primeiro projeto de verão da MTV foi a Casa da Praia, no verão de 1993/94. Depois disso a MTV passou a fazer projetos especiais itinerantes que percorriam diversas praias brasileiras desde o Ceará até Rio Grande do Sul. Muita viagem. Muito vai e vem.

Tirando essa temporada de verão – que eram viagens semanais durante dois meses – era normal acontecer viagens ao longo do ano, por causa de algum show ou festival, eventos ou uma simples ponte aérea bate volta SP-RJ para alguma reunião.

Era comum encontrar artistas nessas viagens, principalmente durante o verão, porque a MTV ia exatamente às capitais que também recebiam muitos shows na temporada. Encontrei Skank no corredor de desembarque de algum aeroporto, não sei ao certo a conversa (não fiquei de ouvido ligado), pois só passei por eles, mas vi que estavam falando bem de Jota Quest. Anos depois fiquei sabendo que foi Samuel Rosa quem levou a fita do JQ para a Sony.

Vindo de algum lugar do Nordeste (Fortaleza, Recife ou Salvador), sentei ao lado de Rita Lee (separados pelo corredor). Sentado ao lado dela estava Roberto de Carvalho. Não sei se Beto já tocava com ela. Devia ser 1997. Logo que subiu o avião Rita envolveu algumas pessoas que estavam sentadas perto dela, claro que eu também, pedindo ajuda para lembrar os 7 pecados capitais, seguidos de bons exemplos. Disse que queria escrever uma música sobre o tema. Foi uma viagem divertidíssima, porque cada pecado lembrado gerava uma história, uma piada, comentários.

A lista com os nomes de artistas já encontrados em viagem de trabalho vai longe: Vinny, Spin Doctors, Smashing Pumpkings, Lenine, Capital Inicial, Ana Paula Arósio, Oswaldo Montenegro, Rosana (cantora), Cássia Eller, cantoras de axé, grupos de pagode e muito mais. Mas, pra mim, inesquecível mesmo foi a viagem para Curitiba.

Eu fiz o roteiro e coordenei a transmissão da final do Festival Skol Rock, realizado na Pedreira Paulo Leminski. Depois das bandas concorrentes, teve show de Raimundos, Heloween e Iron Maiden (com Blaze Bayley). No dia seguinte, todo mundo se encontrou novamente no aeroporto. Tomei um café com Fred (Raimundos) que não entendia o motivo de não ter fliperama em nenhum aeroporto. Ele ia seguir turnê e eu voltar para São Paulo. Horários diferentes. Ele ainda ia tomar um chá de cadeira. Às vezes você é obrigado a sair do hotel ao meio dia (tem vez que dá pra dar uma esticada), e o voo é apenas as três da tarde. Inevitável a interminável espera.

Passei na banca, comprei Veja e Showbizz. Sentei em uma cadeira da sala de embarque que estava vazia, nem a equipe da MTV estava lá, peguei a Showbizz e comecei a ler. Chegaram outras pessoas e eu continuei lendo quando percebi vários flashes repentinos espocando em minha direção e quando levantei a cabeça, vi que Steve Harris, baixista e fundador do Iron Maiden, estava sentado ao meu lado.

Com o Fúria eu entrevistei Iron Maiden todas as vezes que a banda tocou aqui, e também quando só vinha para divulgação, mas encontrar Steve Harris naquela situação era diferente. Fiquei nervoso. Muito nervoso. Daí percebi que não estava só ao lado dele. Eu estava sentado entre toda a banda, com David Murray do outro lado. Nicko McBrain no mesmo banco. Era muito nervosismo. Tinha gente da equipe da MTV que ficava rindo da minha situação. Foi demais. Acho que por eu ser loiro e branquelo, quem tirou foto achou que eu pudesse ser um gringo da equipe da banda. Logo tive que levantar para embarcar, mas antes disso ofereci a Showbizz para Steve Harris, porque a capa era Iron Maiden, que pegou a revista, ficou surpreso e agradeceu.

22 de janeiro de 2011

Série Anos 1990 SP: 11 – Bandas e vídeos [4 de 4]

GARAGE FUZZ
Garage Fuzz é de Santos e começou como um trio em 1991 e é um dos maiores nomes do hardcore brasileiro. Algum tempo e várias formações depois, o GF ficou até hoje com Alexandre Farofa (vocal), Fernando (gui) e Wagner (gui), Fabricio (bx) e Daniel (bt). Garage Fuzz também faz parte do primeiro time dessa cena underground, e assim como o Muzzarelas, também tem um certo reconhecimento internacional, tocou em todos os lugares e festivais possíveis e tem ao menos dois clássicos em sua discografia: Relax in Your Favorite Chair (1993) e Turn the Page...The Season is Changing (1998). Tem em sua formação um dos melhores bateristas dessa geração.




HAPPY COW
Happy Cow também é de Piracicaba e como o Killing Chainsaw fazia um bom barulho. Apesar de conhecê-los, minha memória falha ao querer lembrar a formação da banda (que foi mais de uma). Era presença constante no circuito da capital e interior. Falta informação na rede!




I.M.L. (INTENSE MANNER OF LIVING)
Intense Manner of Living era das boas e outra que eu gostava muito. Hardcore paulistano muito bom. Cláudio (bx), Xan (gui), Flávio (bt) e Paulo (vocal). Essa é outra banda que surgiu ainda nos 1980, exatamente em 1989. Tocou no Juntatribo, em todos os palcos da capital e ainda hoje tem muitos fãs. Os shows eram bons e descompromissados. Achava meu chará engraçado e ótimo vocalista. A banda terminou em 1995, ano em que abriu para o Shelter. Não chegou a gravar álbum, mas lançou duas demos (tem para download) e participou da coletânea Fun, Milk & Destroy (Devil, 1994). Lembro de dois bons shows da banda: no Juntatribo e outro no Aeroanta (acho que em 1994).




LINGUACHULA
Linguachula é outro nome importante de Campinas. É uma das poucas dessa geração que sempre cantou em português. Em 1995 a banda lançou um álbum pela Banguela Records. Essa é outra banda que não tem praticamente nada na rede.

21 de janeiro de 2011

Série Anos 1990 SP: 11 – Bandas e vídeos [3 de 4]

LITTLE QUAIL AND MAD BIRDS
Little Quail and Mad Birds é outra de Brasília que foi para em SP. Junto com o Raimundos e Maskavo Roots, o Little Quail também assinou com a Banguela Records e fez o todo o circuito underground de SP, inclusive os festivais. Sou fã e suspeito. Gabriel, Zé Ovo e Bacalhau tem uma química absurda e o clima que envolvia os shows da banda era o mesmo do Muzzarelas. Pura diversão. Apesar de não ter registrado nada, fiz plantão no Be Bop durante as gravações de Little Quail e Raimundos.
Surgiu em 1988 e ao longo dos 1990 lançou dois álbuns e um EP. Acabou em 1996 depois que Zé Ovo se atrasou para o show no Close Up Festival, o que acarretou no cancelamento da apresentação da banda.
Hoje a banda está de volta, mas apenas para shows esporádicos.




PUS
PUS é outra banda de metal de Brasília. Foi formada em 1987, quando a Simone (Syang) ainda tocava no Detrito Federal. Chegou a SP no início dos 1990. Lançou três álbuns, mas foi se perdendo com o tempo. Começou como trash metal de primeira (e eram todos bem radicais) e acabou como eletrônico industrial cantado em português. Se perdeu....
Syang fez participação no Samba Esquema Noise, primeiro do mundo livre s/a. O PUS acabou em 1997.




VIPER
Viper é dos anos 1980. Coloquei-a aqui nessa lista, pois a banda estava bastante presente nesse período de 1990 a 1996. Começou em 1985 como metal melódico, quase como um Iron Maiden cover. Tinha André Mattos no vocal e chegou a fazer um certo sucesso no Japão com os álbuns lançados com ele. Depois que André saiu, o Viper mudou seu som para um metal mais hard e muito menos melódico, o que fez a banda perder público no Japão. Passou a focar sua carreira aqui no Brasil mesmo cantando em inglês e por fim a banda acabou se rendendo ao português, mas já era tarde.
Lembro que eles eram todos “caretas” e na época do New York/Sampa, passaram a, digamos, ser mais liberais. Por um bom tempo Felipe namorou Carla do Volkana.Todos eles moravam na Rua Dr. Veiga Filho, num prédio vizinho ao que minha vó morava até morrer poucos anos atrás. Por causa desse circuito underground, da MTV, do Capital Inicial e de outros fatores, fiquei bastante amigo de Yves, Pit e Felipe. Tutti buona gente!




NO CLASS
A cena em Campinas era agitada nessa década com várias boas bandas. Muzzarelas, Loop B, Linguachula, Lucrezia Borgia e No Class são bons exemplos. Apesar de ter conhecido todos eles, não tenho muitas informações do No Class que já fazia, naquela época, um punk rock mais pop com vocal feminino. Estavam sempre em SP e na MTV. Fica aí a sugestão para alguém da banda ou ligado a ela colocar uma biografia na internet, mesmo que pequena.




RATOS DE PORÃO
Ratos de Porão. Falar o quê? Por que está aqui? Porque, apesar de ser dos anos 1980, era presença assídua no circuito. Com o crescimento do mercado underground independente no Brasil nos anos 1990, o RDP acabou finalmente conquistando aqui o respeito que já tinha na Europa, ainda mais com a ajuda dos amigos do Sepultura.
Aqui posto um clipe feito na MTV, na época do lançamento do Feijoada Acidente?, captado pelo amigo Cacá Marcondes, e editado e finalizado por mim.

20 de janeiro de 2011

Série Anos 1990 SP: 11 – Bandas e vídeos [2 de 4]

PIN UPS
Pin Ups foi a primeira dessa geração e surgiu ainda em 1988. A banda começou com Zé Antônio (gui) e Luís Gustavo (vocal), depois entrou Marquinhos (bt) e depois do primeiro lançamento entrou Alê Briganti (bx). O primeiro álbum Time Will Burn é de 1990 e teve a força de Tomas Pappon (Fellini) para a banda chegar até a gravadora Stilleto. Não teve palco ou festival dessa época que Pin Ups não tenha tocado. Pin Ups teve diversas formações ao longo de sua carreira que durou até 2001. Lançou vários álbuns, entre eles a trilogia de atores Jodi Foster (1995), Lee Marvin (1997) e Bruce Lee (1999). Certamente Pin Ups foi a principal banda dessa geração underground independente dos anos 1990.




MICKEY JUNKIES
Mickey Junkies ficou marcado pelo vozeirão de Rodrigo Carneiro e pelo som denso, bastante influenciado pelo hard rock dos anos 1970. Foi formado em Osasco e estreou em 27 de novembro de 1991 (aniversário de Hendrix). Mickey Junkies também foi presença certa em todos os principais palcos de São Paulo. Lembro de três bons shows da banda: no Der Temple, no Retrô e no Juntatribo. Lançou Stoned em 1995 e dois anos depois, em 1997, acabou. Depois de fazer alguns shows esporádicos nos últimos anos, voltou a ativa de vez.




RIP MONSTERS
Rip Monsters começou com Zique (ex-Nau) e Gastão (ex-MTV). Zique dava aulas de guitarra para Gastão e morava ao lado da MTV. Eles chamaram o baterista Caito (hoje dono da Chilli Beans), que por sua vez chamou o baixista Johnny Monster. O repertório inicial era um grunge que misturava Soundgarden com Pearl Jam. A banda teve mil formações, lançou três álbuns e participou de uma coletânea (A Vez do Brasil, da 89FM). Essa formação inicial era matadora e os shows memoráveis. Depois, com as mudanças de formação, mudou-se a sonoridade. A banda passou a compor em português, se viu influenciada por Pink Floyd e Secos & Molhados e teve até o ator Eriberto Leão como vocalista. Lançaram até álbum e clipe ("Disincaine", quando era Hip Monsters), mas nessa época Gastão não estava mais na banda. Há também um clipe da fase em inglês, mas não disponível na internet ("Nothing To Do With Me").
Neste clipe postado, já numa fase em português, e na quarta formação, estou eu com meu trombone de pisto.




MUZZARELAS
Muzzarelas é de Campinas. Hardcore de primeira. Stênio (gui), Alex Video (vocal), Flávio (gui), Daniel E.T (bx) e Victor (bt). O primeiro ensaio da banda aconteceu em março de 1991 e o combustível dela sempre foi a cerveja. A banda tinha (e tem) essa característica de ser brincalhona, escrachada e de fazer de seus shows uma grande diversão. Tudo isso me lembrava muito da cena hardcore da Brasília dos anos 1990. A banda também tocou nos principais palcos da capital e do interior, dividiu palco com deus e o mundo, e participou de todos os festivais possíveis. Muzzarelas é internacional e conhecido em alguns países da Europa e no Japão. Entre os clássicos da banda tem Jumentor (1995), Roça Hits (1998) e Gorgonzzulah! (1999). Também recomendo (e muito) o álbum Maledetos, de 2005, onde Muzzarelas homenageia a cena underground, principalmente do interior, gravando músicas das bandas do underground caipira.




VOLKANA
Volkana é metal de Brasília, minha outra terrinha querida. Começou em 1987 com Marielle que veio do Arte no escuro, Débora e Mila do Detrito Federal e Carla do Falange do Medo. Largaram tudo na capital e foram se arriscar em SP. Débora acabou voltando para BsB e em seu lugar entrou Sérgio Facci que também tocava no Vodu. A banda era muito boa e assim como as outras bandas de metal, visava o mercado internacional. Lançou First em 1991, Volkana Live (no Dama Xoc) em 1992 e Mindtrips em 1994. Volkana acabou em 1996 quando Marielle já não estava mais na formação.

19 de janeiro de 2011

Série Anos 1990 SP: 11 – Bandas e vídeos [1 de 4]

Nos próximos quatro dias publicarei, em quatro partes, a postagem Bandas e Videos. Bem provável que esta seja a penúltima postagem desta série que comecei a escrever em julho/2010.

Mas não quero deixar nada fechado. É como aquela banda que termina sem anunciar o fim. Se lembrar de algo relevante que tenha passado despercebido, voltarei com um novo post. Mas creio que isso não deverá acontecer, pois muito do que aconteceu nos 1990 também está presente em textos como os que escrevo sobre minhas memórias da MTV e outros que ainda virão (tem a série Ingressos e Crachás).

Bem, dividi 19 vídeos em quatro postagens. Trata-se de vídeos dos principais nomes da cena underground paulista dessa década de 1990. Infelizmente não achei vídeos de todas as bandas que eu gostaria de mostrar. Algumas delas eu até tenho filmagens que fiz (como Pit Bulls on Crack e Loop B), mas está em material bruto recém digitalizado. Um dia irei dar um trato nessas imagens e postá-las aqui.

Com os vídeos segue uma pequena biografia de cada banda, com textos bem quadrados mesmo, basicamente informativos. Mas a intenção não é dar dados completos, mas uma passada rápida na história. Nem todas têm informações na internet, a maioria sim. Em blogs especializados dá para encontrar download de muitos dos álbuns citados nos textos, é só jogar no Google. Também vale ver mais vídeos no You Tube.


CONCRETENESS
Concreteness era a banda doida de Santa Bárbara D’Oeste, terra boa, vizinha a minha Piracicaba. Surgiu em 1992. Muito antes de Kings of Leon, Hanson ou Jonas Brothers, Concreteness já tinha os três irmãos Maluf em sua formação: César, Marco e Marcelo. Junto deles o baixista Véio. Industrial, punk rock, hardcore. A banda gravou um álbum, mas ficou muito abaixo do que se fazia no palco. Os irmãos Maluf também eram donos do Bar Hitchcock, que ficava na garagem da casa deles e fazia parte do circuito do interior. Concreteness era bom demais e parece que está na ativa novamente.




YO HO DELIC
Yo Ho Delic era funk rock cheio de riffs de guitarra. Era Jimi Hendrix e Hillel Slovak com Parliament/Funkadelic e Sly & Family Stone. Kuaker (gui), Dino (bt), Marinho (bx) e Patossauro (vocal, flauta e sax). Surgiu em outubro de 1990. Em 1992 lançaram um álbum pela Tinitus e em 1994 a banda terminou. Creio que foi em 1993 que Kuaker saiu e Munari (ex-Lagoa 66) entrou em seu lugar. Só vi show bom. Banda de respeito que sempre estava nas listas da revista Bizz e, que me lembre, "Brazil, Banana, Samba" chegou ao Top 20 da MTV Brasil. Tenho um show que gravei no Phoenix, que acho que foi o último com o Kuaker. Vi que desde 2009 a bnada tem feito shows esporádicos, mas com outro vocalista.




OKOTÔ
Okotô apareceu ainda nos anos 1980, quando André saiu da Patife Band. Ele e Cherry formaram a banda que em 1989 lançou um álbum dessa fase de duo onde a sonoridade era outra, baseada no instrumento Koto, oriental com eletrônica, mas experimental, longe do rock que a banda passou a fazer já no início dos anos 1990.
André Fonseca (gui), Cherry (vocal e gui), Andrei (bx) e Miguel (bt) foi a formação clássica que gravou o maravilhoso álbum Monstro lançado em 1993, e sem dúvida um dos grandes clássicos dessa cena underground paulistana dos 1990.
Quer uma curiosidade da banda? Danny e Zaviê, ex-integrantes do Metrô, chegaram a tocar no Okotô nessa primeira fase experimental.




LOOP B
Loop B era outro doido. No bom sentido, claro. Mistura performance, efeitos sonoros, música eletrônica e instrumentos inusitados. Ele toca desde os anos 1970, mas foi nos 1990 que gravou seu primeiro álbum e passou a freqüentar todo o circuito de casas na capital e no interior.
Gente boníssima. Vi diversos shows, incluindo no Juntatribo e outro histórico no Der Temple, quando abriu para o Rip Monsters e ninguém o conhecia. Furadeira, carro velho, marreta e máquina de lavar louças são alguns de seus instrumentos. Nos anos 1990 lançou álbuns em 1992, 95 e 97.




KILLING CHAINSAW
Killing Chainsaw... vou falar o quê da banda que inclusive dediquei um post inteiro?!? Foi formada em Piracicaba, minha terra natal, em 1989. Foi uma das primeiras dessa geração underground dos 1990. Rodrigo César (gui e vocal), Rodrigo Gozo (gui), Gerson (bx) e Pedro (bt). Lançou dois álbuns, o primeiro em 1992 e o segundo chamado Slim Fast Formula em 1994 (outro clássico dessa geração). A banda acabou em 1997. Fazia os melhores shows e compunha as melhores músicas. Você acha que sou fã de carteirinha?

13 de janeiro de 2011

Dois Filmes Medidas Iguais

Logo no primeiro dia de 2011 assisti a dois filmes que há tempos queria ver. Um deles, Gainsbourg, Vie Héroïque, eu estava apenas esperando seu lançamento em DVD, já que não fui ao cinema. O outro, Sex, Drugs and Rock’n’Roll, não sabia que veria tão cedo, até porque a possibilidade de ser lançado no Brasil é quase nula (filme inglês independente sobre um ídolo que não fez sucesso no Brasil).

Não lembro se foi em 2004 ou 2005 que ganhei a biografia de Serge Gainsbourg chamada Por Um Punhado de Gitanes. Mesmo irregular, foi uma leitura muito boa. Ouço Gainsbourg desde que nasci, porque meus pais adoravam escutar música francesa, principalmente Serge e Edith Piaff.

Mulherengo, fumante inveterado, de humor fino, doidão de carteirinha, Serge Gainsbourg tinha o dom do verbo e mesmo feião conquistou mulheres maravilhosas, como Brigitte Bardot e Jane Birkin. Era uma espécie de Raul Seixas francês.

Adorei o filme do começo ao fim. Os objetos de cena, direção de arte, as cores e fotografia são impecáveis, o casting igualmente. Eric Elmosnino está perfeito no papel de Gainsbourg.

Uma delícia assistir a um filme tão bom, incluindo aí os momentos lúdicos e ficcionais que o diretor Joann Sfar criou. As cenas em que Gainsbourg contracena com um boneco de sua caricatura que é seu amigo imaginário, seu alter-ego, são muito boas. Inclusive o boneco foi desenhado por Joann que, na verdade, é um dos quadrinistas mais talentosos de sua geração e já ganhou todos os principais prêmios dessa área. Arriscou-se no cinema e se deu bem. É filme que dá gosto de ver. Único ponto ruim, mas que não estraga nada, foi a falta de ver em certos momentos o Serge Gainsgourg mais escrachado.
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Outro que dá gosto de ver é o filme sobre Ian Dury, Sex, Drugs and Rock’n’Roll. O título do filme é o mesmo de seu maior hit, lançado em 1977. Tem uma ótima fotografia, ótimo casting - Andy Serkis está perfeito como Ian Dury (Andy fez Gollun na saga O Senhor dos Anéis). Perfeita caracterização. Como em Gainsbourg, esse filme não tem longos momentos musicais. Ele é mais voltado para o lado pessoal de Ian Dury, sua relação com a família, o filho e os amigos. O filme mostra que Ian era um cara difícil, complicado, de humor corrosivo, além de já ter a típica arrogância inglesa.

Sex, Drugs and Rock’n’Roll mostra os momentos mais importantes da carreira de Ian. A abertura do filme é muito boa e a animação que entra em algumas passagens também. Não é um filme fiel a todos os acontecimentos, tim tim por tim tim. É preciso entender que Ian Dury foi e é muito conhecido na Inglaterra e claramente o filme deixou de explicar alguns acontecimentos, talvez por achar desnecessário. Ele não mostra claramente  nos anos 1980 quando a carreira musical de Ian decaiu e ele se arriscou fazendo trabalhos como ator e compositor de trilhas, assim como não mostra seu início de carreira profissional, nem nas artes e nem na música - o filme começa quando o Kilburn and The High-Roads já está no fim, por volta de 1974/75. Os flashbacks se concentram mais em sua relação com o pai, a poliomielite e o período em que ficou em um internato.

O roteiro não vai até sua morte. Não encena os anos 1990, a volta de Ian aos estúdios e seu último lançamento em 1998 quando gravou com The Blockheads depois de quase 20 anos separados (o incrível e m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o Mr. Love Pants). Mas apesar dessas faltas, não deixa de ser um grande filme.

A forma como ele é narrado também é muito legal: o próprio Ian Dury (Andy Serkis) aparece em alguns momentos num palco de um teatro no meio de um show onde ele conta passagens que amarram o roteiro. Muito bom.

Os dois filmes são bons nos mesmos quesitos. Nenhum deles tem uma linguagem linear careta, como se fosse uma grande reportagem. Tanto para Serge Gainsbourg quanto para Ian Dury, daria para produzir várias cinebiografias de maneiras diferentes, já que as duas histórias são ricas em acontecimentos pessoais e profissionais. O que aumenta o valor desses dois filmes é exatamente o fato de terem acertado em cheio na maneira como foram roteirizados e produzidos.

É diversão até pra quem não conhece bem as biografias. Um presentão para quem gosta da mistura cinema, música e cultura pop.


Mais sobre Ian Dury no Sete Doses:
http://setedoses.blogspot.com/2010/05/ian-dury.html
http://setedoses.blogspot.com/2010/12/pub-rock.html



8 de janeiro de 2011

Mais do Mesmo 5 (Falta Conhecimento)

Nesses dias de folga li uma matéria com Fresno. Não é que eu goste de falar mal dos outros ou coisa assim. Não, não gosto. Com certeza não gosto. Mas tem coisas que não dá para deixar passar batido, até porque se trata de algo que já falei, já mostrei, e volta e meia acontece de alguém me dar provas cabais sobre o que escrevo nessas postagens intituladas ‘Mais do Mesmo’. Uma pequena declaração me inspirou a mais esse texto.

Eu disse aqui que o que faz essa nova geração de bandas de rock ser bem fraquinha é o fato de não ter o mínimo de conhecimento no assunto e, por isso, trata-se de uma geração que jamais terá respeito, jamais será levada a sério. O que todas essas bandas passam é a vontade de ser famosas, de se tornar celebridade e a música fica em 2º, 3º e até 4º plano.

Axl Rose
Logo no início da reportagem, Tavares (gui) diz que hoje os jovens “sonham em ser Justin Bieber, em vez de sonhar em ser Axl [Rose]”. Não sei quantas pessoas perceberam aí a limitada influência explícita na frase. A frase correta deveria ser “sonham em ser Justin Bieber e Axl Rose, em vez de sonhar em ser Angus Young ou Paul McCartney”.

Sonhar em ser Axl Rose é um erro brutal, afinal quem é Axl Rose senão um poser mimado e egocêntrico? Antes do loiro poser há um mar de rockers que são anos luz mais significativos, citando alguns poucos: John Lennon, Ozzy Osbourne, Chuck Berry, Jello Biafra, Michael Stipe, Jimmy Page, The Edge, Elvis Presley, Little Richards, Robert Fripp, Eric Clapton, Jerry Garcia, Jimi Hendrix, Ray Manzarek, Dee Dee Ramone, David Bowie, Iggy Pop, Lou Reed, Bob Mould, Eddie Van Halen, Ray Davies, David Byrne, Peter Gabriel, Roger Waters, Andy Partridge, John Lydon, Brian Eno, Jerry Lee Lewis.......
Rolling Stones
A matéria que li é estranha, porque forçadamente a banda quis passar um ar de rebelde, de amadurecimento, algo do tipo “não somos emos, não fazemos apenas canções de amor choramingadas”, e não colou, até porque ao escutar Quarto dos Livros seguido de Revanche, não se percebe evolução na composição e no texto. Continua tudo igual. A banda continua mudando a acentuação das palavras para encaixá-las em uma melodia fraca. As letras continuam rasas e falando de amor e com rimas pobres. A impressão que fica é que de 2003 para 2010 a banda não escutou nada de novo, não leu nenhum livro.

Se os integrantes querem fugir desse estigma de bandinha de rock emo, então deve arriscar. Mas o próprio grupo assume o medo quando diz que chegou com um álbum e mudou de idéia quando Bonadio disse que o público não iria gostar dele. E daí? Arrisca, chuta o balde, experimenta, erra, se fode, aprende, erra de novo, estuda, encara. Não vejo porrada sendo a tônica do álbum como um deles afirma. E nem vi nada de diferente, a não ser duas ou três composições bem parecidas com Foo Fighters.
Gang of Four

Não me venha falar em mudar a imagem da banda, de tatuagens, problemas de adolescentes, fazer cara de mal, se o que é mais importante não muda, não sustenta essa imagem. Logo a primeira faixa de Revanche há um trecho da letra que diz “trancafiado nesse quarto escuro / ainda sim me sinto mais seguro”, quer algo mais emo que isso?

Disse e repito: essas bandas não me incomodam, pois são focadas em um público infanto-juvenil, incomodam sim quando pedem para ser levadas a sério, e roubam espaço de quem merece mais atenção. Escutando Revanche e lendo entrevistas e reportagens, dá pra ver que a banda ainda está 10 mil abismos de merecer ser levada a sério. E o início para isso é conhecimento.

Estou agora lendo a biografia de Keith Richards que acabou de sair (logo escrevo sobre ela) e você vê o prazer dele em falar de seus ídolos, os detalhes que descobre apenas ouvindo-os, do conhecimento musical que tem.

REM
O conhecimento que falo não é o forçado, mas sim o prazeroso, aquele que é conseqüência de algo que você gosta muito. Moleque eu adorava Sex Pistols e a banda me levou a nomes como The Who e Eddie Cochran, que me levaram a outros e que me levaram a outros e assim fui aprendendo e conhecendo com gosto e naturalidade.

Não dá para acreditar ao ver essas bandas que já estão aí por no mínimo cinco anos não apresentarem evolução musical. Isso você vê em qualquer outra banda de respeito: Beatles, Led Zeppelin, U2, Metallica, Rolling Stones. Artistas que viviam buscando o novo, experimentando, arriscando e disso sair coisas ótimas e outras nem tanto. E vai conversar com esses caras pra ver o banho de conhecimento musical que você vai tomar. Mais que isso, vai ver o conhecimento literário, artístico, político, social que todos eles têm.

7 de janeiro de 2011

Little Quail faz homenagem ao Filhos de Mengele

Foi muito legal receber homenagem dos amigos Reco-Reco, Bolão, Azeitona e Esfolânio (Little Quail + Evandro (Quebraqueixo)) durante o show da banda no Festival Rolla Pedra (ser chamar os Mengele tão lá!).

Já havia falado ao Gabriel algumas vezes que sempre achei "A Pista (Vai Manchar)" a cara do Little Quail. Muito bom vê-los tocar esse som.

O Repertório clássico do Filhos de Mengele foi gravado (18 músicas) e atualmente está sendo mixado. Se der tudo certo em 2011 será lançado.

Valeu!