24 de novembro de 2011

Vinil, CD, MP3, Partículas de Ar

Meu pai era agrônomo (e eu um agrônomo frustrado...rsrs). Ele tinha alguns hobbies: foto, vídeo e som. Em 1971 ele ganhou uma bolsa de estudos para seu Doutorado e a família morou nos EUA (Columbus, Ohio) até 1973. Lá comprou aparelhos de som de última geração como gravador de rolo, equalizador, duas picks ups, dois decks, caixas.

Sempre que havia novidade meu pai ia atrás. Cresci vendo-o cuidar de seus vinis, gravando coletâneas de 6 horas em fitas de rolo (depois dava festas só para tocá-las), mexendo nos botões do equalizador. À medida que cresci também passei a fazer minhas gravações, coletâneas onde podia usar os dois toca-discos com o equalizador.

Escutar e gravar música eram um ritual. Ligar o som, tirar o vinil da capa e colocá-lo na vitrola, trocar o lado, play-rec, levanta agulha, abaixa agulha, vira o lado da fita, pega capa, anota as músicas, lê ficha técnica, limpa agulha, limpa vinil, calcula o final da fita, lado A, lado B, faz fade out pra música não ser cortada repentinamente, muda o lado, repete ou não a música que foi cortada. Tudo isso uma delícia.

Como já escrevi aqui algumas vezes, por eu ter discos importados, vivia fazendo gravações, mas ao contrário de meu pai, eu não usava o gravador de rolo, apenas fita cassete. Mas além dos discos, a aparelhagem também contava e, por isso, eu me dava bem, porque sempre apareciam outros discos importados e raros em casa para serem gravados. Eu podia gravar duas fitas de uma vez. Como era em tempo real, então se sentava com a capa na mão, a conversa rolava e o tempo passava.

Havia todo um cuidado com o vinil, de não colocar o dedo, guardá-lo de forma correta, não deixar no sol, não deixar deitado. Era caro e delicado, podia riscar, empenar e quebrar. Não era objeto para sair de casa, para emprestar ou deixar qualquer um pegar, principalmente os importados. Uma vez danificado, já era, babau, dificilmente você teria outro.

Lembro-me de quando estava no Guarujá passando um final de semana, acho que era início de 1987, encontrei um amigo de infância do prédio onde tinha apartamento. Muito rico, sempre tinha as últimas novidades. Ele me levou até seu carro e me mostrou seu CD player (CD player, que diabo é isso?). Lembro perfeitamente de pegar o CD na mão e ele dizer que não quebrava, não riscava e que, inacreditavelmente, tinha um único lado. Era o fim do lado A, lado B. Aquilo foi um baque muito grande pra mim. Eu até insisti para que ele colocasse o CD do lado inverso, mas ele me disse que não entraria e não tocaria. Fiquei chocado. O primeiro CD que peguei na mão e escutei foi o Concert, do The Cure. Bom começo, não?

Era tudo importado. Mesmo sendo 1987, tudo isso ainda era coisa que víamos nas revistas e reportagens na televisão. Eu tive sorte de encontrar esse amigo podre de rico que me mostrou a grande novidade. Tinha adorado a ideia de um pequeno disco que você poderia levar para qualquer lugar, e mais leve que uma fita cassete!

Eu fui um que demorei a ter um aparelho de CD, mas lembro bem da revolução que causou no mercado, nas lojas de discos, no espaço físico. Não acreditava muito que o CD iria pegar, não que eu fosse um defensor do vinil, blá blá blá. Mas só parei de comprar vinil quando os lançamentos passaram a ser só em CD. Me entreguei, mas como muitos, não abandonei de vez minha aparelhagem de som. Entrei de cabeça no universo do CD apenas em 1995.

Já não era mais o mesmo apego que se tinha com o vinil. Era até chato ter que comprar novamente o que você já tinha, e constatar a diferença na arte gráfica, a perda do visual. Tudo ficou pequeno. Tudo mini. Esquisito. A geração vinil teve que ter um tempo para a adaptação. Mudança de comportamento.

Mas como o CD tinha mais que o dobro de espaço de um vinil, então era gostoso comprar os importados que vinham com encartes mais ricos e cheios de extras. Teve um lado ruim pelo fato de muita banda gravar mais músicas para tentar preencher o espaço do CD e assim, ao invés de um lançamento ter em média 10/12 músicas, passou a ter 15/18 músicas. Por isso tinha muito lançamento com mais músicas ruins que o normal.

Falei de espaço físico nesse tempo de adaptação, porque teve uma época que tanto as lojas como a casa das pessoas, passaram a ter, além do espaço ocupado pelo vinil, um espaço também para os CDs. Eu mesmo passei a ter problema com isso, já que em pouco tempo fiz uma coleção de 200 CDs. Comprei duas torres de 100 que, óbvio, ocupavam espaço. Até que um dia um amigo me mostrou seus CDs colocados em pastas, apenas o CD a capa e contracapa. A caixinha de plástico ele tirava e jogava fora. Isso foi no final dos anos 1990 e a partir de então passei a guardar meus CDs da mesma forma. Não tenho caixinhas de plástico.

Já que com o CD não havia mais o ritual do vinil, da relação com capa e encarte, da troca de lado, da vitrola, agulha, então abandonei as caixinhas em favor de espaço. Nessa era do CD escutar música já virou uma coisa mais fria, a relação não era tão próxima como era com o vinil.

Pra azedar de vez o ritual de escutar música, surgiu o mp3 (alguém aí já pegou um mp3?). A música deixou de ser algo físico, ficou solta, fundiu-se com partículas de ar e hoje toma várias formas e corre entre os cabos da rede mundial, vai e volta para satélites. CD hoje é só back up.

O bom é que, por isso, a música ficou mais acessível. Hoje se vê na rua, de criança a pessoas da 3ª idade com fone no ouvido. Parei de comprar CD há anos. Muito raro fazê-lo. Ou seja, eu que ficava lá em casa gravando vinil, fazendo mixagem de fita pra fita, usando equalizador, limpando agulha, tendo todo cuidado especial em cada fita gravada, hoje ouço os lançamentos que quero, na hora que quiser e onde quiser. Não vejo capa, não vejo encarte, não vejo ficha técnica. Vejo, mas pela internet e não necessariamente na hora em que estou escutando música.

Nunca antes tivemos acesso tão fácil a música, mas também nunca a relação com ela foi tão fria.

Não sou saudosista, achando que o vinil deve voltar junto com todo aquele ritual. Já foi. Quem viveu aquilo, viveu. Quem não viveu, ok, vive seu tempo... e temos que viver conforme o tempo. Haverá um dia em que teremos um chip na cabeça e, para escutar música, bastará apenas pensar no artista que a música tocará, porque de fato ela estará misturada nas partículas de ar. Será?

17 de novembro de 2011

JP e Seu Cabelo de Maconha

Aperta o Play Produções Esdrúxulas Apresenta:


JP e Seu Cabelo de Maconha*

Desde as 4 da manhã JP tentava se livrar de mais um grupo de ninjas. Dessa vez eram só 3 (no início eram 11). A perseguição começou ainda dentro da Universidade de Roundup (RU), em meio à plantação de milho do departamento de agronomia, e se estendeu para a estrada ao fundo da Universidade, e chegou a 20 quilômetros longe de lá. JP é dono de uma resistência fora do comum, mas isso não impedia de despistar os ninjas, que surgiam do nada a cada instante.

JP chegou a uma vila operária abandonada onde havia várias casas vazias, escolheu uma delas e entrou para se esconder. Entrou e começou a procurar alguma coisa que nem ele mesmo sabia o que era: comida, roupa, arma, qualquer coisa. Acabou achando um cobertor velho e furado, material de limpeza, espetos de churrasco, jornais e revistas velhas. Aproveitou para usar o banheiro e tomou um banho frio, com a escassa água que saía da torneira.

Ele precisava despistar os ninjas e ter certeza de não ter ninguém de olho nele. Por isso, propositalmente corria na direção oposta de onde queria ir. Logo que achou os arquivos no departamento de geografia, teve a ideia de esconder documentos, roupas e dinheiro em um buraco no meio do deserto, 10 quilômetros de distância de Roundup. Agora era preciso usar seus pertences escondidos. Sabendo que todos iriam procurá-lo no Brasil, foi para New Jersey, para casa de um velho amigo dos tempos da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Ali na casa abandonada, entrou em um armário embutido e lá ficou quieto. Não queria sair durante o dia, pois estava muito quente. Então resolveu tirar um cochilo ali mesmo, para sair a noite, quando seria mais seguro. JP saiu da ducha e se enxugou com o cobertor velho e sujo. Quando terminou de se trocar, escutou barulho fora da casa. Olhou pela janela e viu os 3 ninjas procurando-o pelas casas. JP só tinha mais uma cápsula de fumaça, resolveu então pegar um pedaço de seu dreadlock seu e colocar fogo nele. Cortou um pedaço com o canivete, colocou-o no chão no meio do banheiro e pôs fogo nele.

Saiu do banheiro agachado e entrou no armário embutido do quarto onde estava. A fumaça intensa e forte chamou a atenção dos ninjas. Assim que entraram no banheiro, já ficaram tontos com a fumaceira e logo em seguida JP surgiu pegando-os de surpresa e já jogando a cápsula de fumaça no chão que estourou e deixou os ninjas mais doidões ainda. Com três golpes fatais, um em cada ninja, conseguiu escapar de mais essa. Rapidamente ele saiu da casa e entrou em outra. Dessa vez mais nenhum ninja apareceu e quando anoiteceu JP colocou seu plano em prática e foi para New Jersey, onde ficaria por ao menos 2 meses. Ele precisava falar com Simone, mas não podia.
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Roundup é uma minúscula e discreta cidade do estado de Montana, nos Estados Unidos. A população é de pouco mais de 2 mil pessoas. A 20 km de lá fica a Universidade de Roundup, direcionada apenas a pessoas superdotadas, ou melhor, as superdotadas das superdotadas. Ela foi criada em 1923 por um grupo de 5 amigos, também superdotados, que viram a necessidade de se fazer uma universidade especial para pessoas com inteligência fora do comum, e que necessitam de uma atenção especial, diferenciada.

Já como agente da IBE (Inteligência Brasileira de Espionagem) JP foi para a RU. Ela era enorme e, como Brasília, era plana e setorizada. Há as moradias dos alunos, dos professores, dos pesquisadores, dos funcionários. Todos com prédios e casas. Há as áreas onde ficam os departamentos (tecnologia, agronomia, biologia, geografia, medicina, direito...). Quadras esportivas, piscinas, parques, lojas de conveniência, mercado... a RU é como um condomínio residencial desses modernos, de certa forma auto suficientes, onde se mora, trabalha e se diverte.

JP foi para estudar e trabalhar no departamento de sistemas e engenharia da computação. Ele queria mais, mas a princípio seria isso. Ele foi recebido por Simone, uma brasileira paulistana que estava lá há pouco mais de um ano e estudava e trabalhava no Departamento de Biologia. Em toda história da RU apenas 5 brasileiros passaram por lá, incluindo Romero, JP e Simone.

Passados 10 meses de RU, JP já estava bem adaptado ao local e aos novos amigos. No início teve um affaire com Simone, mas agora eram ótimos amigos. Ele havia criado uma festa mensal só com música brasileira e muita caipirinha que, apesar da relutância inicial, acabou se tornando uma tradição, principalmente entre os alunos.

A essa altura também, ele já havia contado seu segredo para Simone, que também já tinha feito testes escondidos com seus dreadlocks, e constatado que eles têm um teor de THC de 34%, bastante superior ao skunk (17,5%). E foi Simone que também ajudou JP a desenvolver as cápsulas de fumaça que tinham um teor ainda maior.

Mas pouco mais de um mês depois de lá chegar e começar a trabalhar, JP desenvolveu um novo sistema de integração da rede de computadores da Universidade. Era algo menos complexo e mais seguro. Mais alguns meses foram precisos para que a direção da RU autorizasse a implementação do novo sistema. Para fazê-lo JP assinou um termo de sigilo de informações e também se comprometeu a não vasculhar o sistema (o que seria bem difícil).

Tudo começou pelo Departamento de Geografia e 80% do trabalho se concentrava no período noturno para exatamente não atrapalhar o expediente normal de aulas e pesquisas. Um mês depois, durante uma madrugada trabalhando na sala principal da Geografia, viu aberta uma porta que sempre ficava fechada. Não havia ninguém no departamento e ele resolveu entrar pra ver o que tinha. Era um pequeno depósito, um almoxarifado, com muita coisa de escritório e equipamento de pesquisa de campo. Ali achou três HDs externos e resolveu pegá-los para ver o que era. Eles estavam encostados em um canto, atrás de umas folhas de cartolina, como se estivessem escondidos para ninguém ver. JP costumava ficar trabalhando até no máximo duas da manhã, mas nesse dia foi até quatro. Em um dos HDs encontrou fotos e imagens em vídeo e de satélites de várias áreas da Floresta Amazônica. Achou tudo aquilo bem estranho, já que falava de algumas bases secretas. Não entendeu muito na hora, mas acabou fazendo um back up de tudo o que viu.

Quase dois meses depois de ter achado os HDs (que foram postos no mesmo lugar), um dia, em um final de semana, voltando pra casa depois de uma corrida pela Universidade, viu que sua casa tinha sido invadida, fato inédito na história da RU. Tudo foi revirado, mas nada foi roubado. Ficou com a pulga atrás da orelha.

Uma semana depois, dessa vez voltando de bicicleta de uma festa, eram 4 da manhã quando um grupo de 11 ninjas surgiu na sua frente e uma longa perseguição se iniciou.
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João Pedro nasceu no início dos anos 1980 em uma fazenda secular no interior de Pernambuco. Até final dos anos 1950 era uma grande plantação de cana de açúcar, uma das maiores do estado. Mas com o passar dos anos a riqueza da família foi se perdendo por maus investimentos dos sucessivos herdeiros. Assim, no final dos anos 1960, início dos 1970, a fazenda passou a investir na plantação de maconha. Governo, polícia e exército faziam vista grossa. Família de muita influência. Os trabalhadores moravam em uma vila de 12 casas dentro da fazenda.

A casa principal da fazenda era uma casa antiga do século 19, com 8 quartos, e se transformou em uma espécie de depósito de objetos de toda família: móveis, roupas, obras de arte, fotografias, objetos de decoração, discos, livros (além da biblioteca com 3.500 títulos), instrumentos musicais, equipamentos de áudio, vídeo e foto. Foi com 3 anos que JP lembra de mexer nas caixas espalhadas por toda casa. Desde então ele adorava tudo aquilo.

De forma autodidata, nessa idade já sabia ler e escrever. Desde que nasceu já se mostrava diferente. Começou a andar e falar mais cedo que outras crianças. Seu desenvolvimento era mais rápido em todos os sentidos.

Na capoeira sempre foi um fenômeno, assim como Pelé no futebol. Apesar de também ajudar no trabalho, sobrava muito tempo para brincar. Gostava também de correr de 10 a 20 quilômetros por dia, sua resistência também era diferente. Suava, mas não mostrava cansaço. Podia fazer uma maratona por dia tranquilamente. Corria por entre a plantação com as palmas das cannabis batendo pelo seu corpo suado, dos pés a cabeça. Vivia descalço e só de short.

Gostava de ler. Na casa, além dos livros em caixa, havia uma biblioteca com 3.500 títulos. Lia uma média de um livro por semana. Eram livros em português, inglês, francês, alemão, espanhol, línguas que dominava naturalmente.

Um dia quando tinha 12 anos conheceu um dos donos da fazenda, de uns 35 anos, que ficou impressionado com a inteligência dele. Com seus contatos conseguiu levá-lo para a UFPE como ouvinte, mas a experiência durou apenas uma semana, já que ele batia de frente com praticamente todos os professores. Os anos se passaram com JP deixando dreadlocks na cabeça, dando aulas para todos da fazenda, correndo pela plantação e desde os 12 se engraçando com as menininhas. Com 14 já era o galãzinho do baile da cidade. Mesmo com tudo isso, JP não era convencido, pelo contrário, era solícito e humilde. E foi também com 14 que experimentou maconha pela primeira vez, já que via aquilo como trabalho. Não sentiu nada. Tentou outras vezes, mas nunca ficava doidão.

Uma vez, durante uma festa no meio do mato, brincando com um graveto de uma fogueira, deixou-o queimar um pedacinho de seu cabelo. Na hora sentiu um forte cheiro de maconha, mas um pouco diferente, adocicado. Não teve dúvida, queimou o cabelo de novo e viu que o cheiro vinha dali. Cortou um pedaço e na primeira oportunidade na festa, pediu maconha a alguém e enrolou um baseado com seu cabelo junto.

Não deu outra: todo mundo ficou mais doidão que o normal e muito mais tempo. Todos queriam saber de onde era a maconha de gosto diferente, mas JP se limitou a dizer que apenas enrolou, e nem tinha fumado. Aquilo o deixou com uma pulga atrás da orelha e a única coisa que veio a sua cabeça depois de passar uma noite inteira pensando, foi a lembrança de correr entre a plantação desde que começou a andar, o contato de seu corpo suado com as folhas de cannabis.

Com 17 JP chegou na UFPE, mas por apenas 6 meses, pois em seguida foi para RU. Nesses anos, continuou correndo por entre a plantação, dava aulas particulares de várias matérias para quem quisesse, também dava aulas de capoeira e cada vez mais se enrolava com a mulherada (também, com sua resistência...). Nas festas da rapaziada, vez ou outra aparecia o baseado especial e todo mundo ficava louco com seu efeito e com o mistério de sua origem.


* Em 2001 fui editor de música do site tantofaz.net e, pra dar um respiro da minha área, me arriscava em escrever algumas histórias ficcionais, mas com tom de veracidade.
A primeira que escrevi foi essa do JP, agora modificada. Gostei desse personagem e passei a escrever uma espécie de novela com ele... ideia há tempos abandonada. Esta publicação é uma mistura editada de alguns dos textos já escritos sobre o personagem. É uma história, claro, puramente ficcional.

10 de novembro de 2011

Rock Brasileiro: 1 - Reflexões {1}



O Terço
Preconceito. Ainda hoje há preconceito com o rock brasileiro, mas atualmente há motivo. Foi isso que pautou a década de 1980, quando o rock chegou ao mainstream.

Preconceito porque era mal gravado, mal produzido, mal tratado. Foi na onda. Era o que dava um bom dinheiro na época, assim como o sertanejo universitário hoje, e o pagode de outros tempos. “Tem uma música boa? Então gravaí, e solta pra vender. Se pegar, legal. Se não pegar chuta fora”. As gravadoras tinham seus genéricos. Todas elas procuravam a sua Legião Urbana, o seu Paralamas, o seu Titãs ou o seu Barão Vermelho. Assim não tinha jeito: era um festival de coisa ruim na televisão e no rádio. Eram 700 nomes para ter 3 bons. Mas o preconceito também era alimentado por jornalistas arrogantes, mas esse é assunto para outro post.

As honestas foram poucas, e também sofriam para gravar seus discos. O 1º do Titãs, do Barão, da Legião, do Paralamas, do Kid Abelha, Camisa de Vênus, Capital Inicial, Engenheiros. Todos sofríveis e todos com suas histórias de luta. Apesar de clássicos, tudo ruim, gravado na raça, que no final das contas não agradou banda, produtor e gravadora. Essa má qualidade gera preconceito. O sonzin chinfrim, radinho de pilha, manja? A culpa não era das bandas, mas o sonzin chinfrim ficou.

Ultraje à Rigor
Algumas conseguiram tirar um bom som, ou por milagre, sorte, algo diferente aconteceu. Por exemplo, gosto demais do 1º disco do João Penca, “Os Maiores Sucessos...”, lançado pela Continental. Ainda hoje o acho bem gravado. Sei que não foi nada fácil, até mesmo trabalhar esse disco numa gravadora diferente, e ainda em 1982. Tem Ira!, Plebe Rude, Gueto, Ultraje, Blitz e outros poucos exemplos de 1º discos bem gravados, ou ao menos com qualidade acima da média na época.

Dificuldade pior foi a década de 1970, com o rock completamente no ralo, feito na unha, com amor, mas absolutamente de canto, apesar dos festivais, dos shows, dos discos lançados, e até filmes, como o Geração Bendita. A ditadura proibia festivais em SP, RJ e onde podia. Apesar disso, as coisas aconteciam, e há discos ótimos que marcaram, como Secos & Molhados, Os Novos Baianos, O Terço, Joelho de Porco, Os Mutantes, Bixo da Seda, Casa das Máquinas. Como nos 1980, tinham que se virar com ou sem gravadora. No caso dessa década de 1970, engraçado que os discos, mesmo os mal gravados, não soam tão ruim como os dos 1980, talvez por não ter o som de tecladinho new wave efêmero. Os timbres também contam muito, e como os próprios músicos faziam tudo (até mesmo o estúdio – quando havia!), então o som tinha um cuidado melhor. Ah! Muitos dos casos também não havia a pressão de fazer para vender zilhões. Não era por isso que os discos eram gravados.

Raimundos
Com o tempo, alguns dos músicos que faziam rock nos 1960, 1970, 1980, passaram a trabalhar nos bastidores, muitos como produtores, donos de estúdio, executivos, e aos poucos foram se equipando para gravar de jingle e MPB, até rock e pop. Isso ficou mais aparente a partir da segunda metade dos 1980.

Outro grande problema do rock brasileiro feito nos 1980 era a forte influência dos EUA e Reino Unido. Poucas eram as bandas que conseguiam escrever em português tendo essas influências gringas. Cantar em português é difícil. Não eram todas as bandas que tinham um bom texto com uma boa composição entre letra e música. Mas fundamental de tudo isso era ter personalidade. Nem preciso listar aqui as que tinham.

É nesse negócio de influência que a geração 1990 se assemelha a geração 1970. A brasilidade, o choro, o forró, a MPB, o folclore – e nos 2000 a bossa nova incorporada.

Agora acontece o contrário, muitos artistas da nova MPB incorporaram o rock, voltou-se a fazer rock / MPB / bossa / psicodelismo. Atualmente se vê uma ultra mega influência de Tropicalismo e da MPB-1970.

Nevilton
O forrócore do Raimundos e o mangue beat de Recife pautaram a década 1990. Também passada a era xixi-coco Collor, aconteceu à estabilidade da moeda e as gravadoras investiram novamente no rock, mas dessa vez com bons estúdios, bom equipamento, produtores e executivos que ao menos já entendiam melhor do negócio. A maioria dos discos feitos a partir de 1994 tem ótima qualidade de produção e gravação, alguns podem derrapar na mixagem e masterização, mas não todos, e isso não acontece mais hoje.

Apesar de a música brasileira estar bastante presente no rock brasileiro, e ele não ser mais uma mera cópia do que é feito nos EUA e Reino Unido, ainda há resistência até mesmo do jornalismo especializado – já falei desse assunto aqui. Jornalistas gostam de reclamar da falta de novidade e quando aparece um raro nome bom, ele também é posto no mesmo saco das coisas ruins.

Vemos festas como a do Multishow, da MTV e outras, e é a mesma coisa, os mesmos artistas, as mesmas apresentações ao vivo, o mesmo formato, as mesmas homenagens. Porque a Tulipa não fez uma apresentação solo? Por que não chamaram o Nevilton pra fazer um som? Há espaço. Porque nenhuma revista faz uma boa entrevista com esses novos nomes em destaque? Não faz uma matéria de 4 páginas, contando tudo, depoimentos, mostrando o perfil e depois pode até se gabar de dizer que foi a primeira, coisa e tal. Porque não se dá capa para esses artistas? Põe todos juntos! Custa uma só capa? Uma só boa matéria?

Barão Vermelho
Pode ser Pop, Pipoca Moderna, Som Três, Roll, Bizz, Revista da MTV, Rolling Stone, Billboard e muitas outras que não citei. Pegue todas elas e me mostre uma que tenha colocado uma aposta na capa ou dado um relevante destaque para algum nome. Tudo isso é uma pena.

Apesar de gostar de nomes brasileiros que estão no mainstream (citei alguns aqui), não são todos que aceito. Gosto muito, como já escrevi, dessa cena pós-punk brasileira; do punk rock do Cólera, RDP, Olho Seco, Inocentes, Lixomania. É muito bom poder escutar, por exemplo, um Cadê as Armas?, um Tente Mudar o Amanhã, um Corredor Polonês, um Panis Et Circences, um Acabou Chorare ou um São Paulo 1554 / Hoje.

Com a situação atual (O Rock Está Morto!...) é impossível saber se ainda teremos uma cena brasileira como foi em 1980 e 1990. Com tamanha falta de apoio, está cada vez mais "cada um por si e Deus por todos".







3 de novembro de 2011

Série Coisa Fina: 8 - Husker Du


Antes de tudo quero aproveitar o momento para esclarecer de uma vez por todas que o que existe é punk rock e hardcore. Todo mundo no mundo todo cria, sei lá o motivo, termos como punk pop, hardcore melódico e já li até mesmo o absurdo poppy punk.

O que todos querem dizer com punk pop? Que tem melodia, harmonia? O punk rock tem isso a começar pelo Ramones. O punk é pop por natureza. Riffs, refrões, harmonia, melodia, tra la la, sha la la, La ra ra, tchubiruba, uouououyeh, tudo isso está na música do Ramones, Clash, Sex Pistols, Generation X, Damned, Buzzcocks, Jam, Stiff Little Fingers, Television, Richard Hell e mais um monte de nomes da 1ª e 2ª geração do punk rock. Cada um com suas influencias, uma mais aparentes que outras. É só escutar com mais atenção os discos dessas bandas que citei e outras. Ter guitarras sujas, vocais gritados e ser barulhento não significa ausência de melodia e harmonia.

Hardcore é outra coisa (como alguns segmentos do metal). É mais radical porque tem guitarras sujas e vocais gritados, mas quase melodia nenhuma. Digo quase, porque no fim das contas o hardcore também tem refrões e melodia (mesmo que mínima em algumas músicas). Exploited, GHB, Discharge (do início), Riistetyt, Rattus, Anti Pasti e outras da primeira leva. Dead Kennedys e Fred Banana Combo são casos a parte, porque transitam nos dois lados muito bem.

Quer nominar essa geração punk / hardcore dos 1990 pra cá,então é só falar punk rock dos aos 1990. Pronto. Hardcore dos anos 2000. Pronto.

Dito isso, vamos ao hardcore e punk rock do Husker Du.

Digo hardcore e punk rock porque HD teve essas duas fases. O hardcore é do início, de 1979 até 1984, com Zen Arcade. Aí veio a fase punk rock que começou em 1985 com New Day Rising. Nesse mesmo ano saiu o 5º disco Flip Your Wig. Todos eles independentes. Depois o Husker Du assinou com a Warner e veio Candy Apple Grey (1986) e Warehouse: Songs and Stories (1987). Em dezembro de 1987 a banda acabou.

O rock independente / alternativo deve tudo a R.E.M. e Husker Du. A diferença entre ela, além do som (claro), é que uma chegou ao mainstream e a outra não.

Husker Du influenciou meio mundo, de forma direta ou não. Você escuta a banda em Pixies, Jane’s Addiction, Jesus and Mary Chain, Dinossaur Jr., Mudhoney, Nirvana, Weezer, Pavement e mais uma penca.

Aqui no Brasil quase não se fala de Husker Du. Algumas pessoas gostam, mas sempre foi difícil pra mim achar alguém que conhecesse bem. Teve um momento na fase grunge, mas mesmo assim nunca foi assunto nas rodas de conversa. Com influência direta tem o Killing Chainsaw e Garage Fuzz.

Os dois últimos discos do HD foram lançados pela Warner aqui no Brasil. Mas mesmo sendo mais comerciais, com mais violões, baladas, eles não venderam. Warehouse inclusive era duplo.

Em 1979 os três começaram tocando no porão da casa do baixista Greg Norton, e ainda tinha um tecladista que durou até o primeiro show. Não rolou química. Husker Du, assim como a grande maioria das bandas punks, começou tocando Ramones.

A banda tinha um diferencial: tanto Bob Mould, quando Grant Hart, os dois compunham e cantavam. Não era nada comum uma banda de hardcore com o baterista cantando. O hardcore do começo não era chinfrin, era porrada, mal gravado, sujo. Não é para os fracos... rsrs.

A banda é de Minneapolis e todos eles se conheceram em uma loja de discos onde Bob Mould trabalhava. Husker Du é o nome de um jogo dinamarquês dos anos 1950 e significa “você se lembra?”.

O primeiro disco, Land Speed Record, foi gravado ao vivo (mais barato), é uma sujeira tosca, tem 17 músicas em 27 minutos. Podreira da boa. Tudo bem, é o pior da banda, mas vale o registro. Fã é fã... e enxerga o lado bom até nas coisas ruins...

O clássico Zen Arcade tem 23 músicas e foi gravado em três dias, praticamente no take one. Apesar de também ser uma porrada só, ele já flertava – em uma faixa ou outra – com a musicalidade futura da banda, mais punk rock e menos hardcore. Zen Arcade quebrou paradigmas sendo, apesar de hardcore, um disco conceitual. Além do fato de ter sido duplo (não era qualquer banda que lançava disco duplo, ainda mais independente). Este foi um disco adorado por crítica e fãs.

Aliás, do primeiro ao último disco a diferença sonora é enorme, mas há unidade. Tudo faz sentido. A discografia do Husker Du comparo, de certa maneira, com a discografia do Clash que, depois de dois discos punks, mais crus, lançou três discos completamente diferentes e com outra direção (London Calling, Sandinista! e Combat Rock). Apesar de diferentes, eles têm unidade. Essa evolução também se vê na discografia de HD.

Mas o legal do Husker Du não é só o som. As letras do Bob Mould e do Grant Hart são muito boas. São existenciais, falam sobre relacionamento, amizade, traição, angustias, mentiras, algumas são cínicas, recados diretos.

A guitarra Flying V de Bob Mould, o bigodâo de Greg Norton e o vocal de Grant Hart eram demais. Como os ídolos Ramones, eles usavam os instrumentos no joelho. Os timbres de guitarra, baixo e da bateria de Hart são bastante característicos. Você reconhece de longe.

Apesar de bastante cultuado no underground, pelos artistas alternativos e outros até grandes, o Husker Du nunca conseguiu sair desse mercado alternativo, vendas baixas, shows pequenos, ralação absoluta. Aí começou um envolvimento de Mould e Hart com drogas pesadas, principalmente bebida. Quando Mould pulou fora dessa Hart, ao contrário, foi para a heroína. Também tinha o lance de uma rivalidade, no começo velada, pra ver quem compunha melhor.

Até por isso a banda era bastante produtiva, tanto é que em 1985 lançou dois discos (29 músicas): New Day Rising e Flip Your Wig, que chegaram a aparecer discretamente em algumas paradas. Boas críticas saíram em revistas mais conhecidas. A crítica sempre falou bem do Husker Du.

Ela foi a primeira banda alternativa dos 1980 a assinar com uma gravadora multinacional. Foi justamente nessa boa fase da Warner que a relação de Mould e Hart não estava nada legal. Pra completar, em 1987 o empresário David Savoy cometeu suicídio pulando de uma ponte, justamente um dia antes da turnê de Warehouse começar. Mesmo assim a turnê foi feita aos trancos e barrancos. Obviamente com o fim da turnê a banda acabou.

Apesar de tudo os três sobreviveram. Bob Mould e Grant Hart continuaram tocando e lançando discos. Greg Norton abandonou a música e abriu um (bom) restaurante na cidade Red Wing. Ele é chef de cozinha dos bons.

É difícil apontar o melhor disco do Husker Du. Mas se você não quer muita podreira, então escute de New Day Rising até Warehouse. Também tem o excelente The Living End que é um ao vivo oficial lançado em 1994 com 24 músicas da melhor qualidade. Esse vale muito a pena.