18 de junho de 2014

Julgamento Parcial e Os Extremistas Radicais

A história mostra que os extremistas radicais nunca foram do bem. Qualquer tipo de radicalismo é perigoso. A Igreja Católica é radical, assim como Hitler foi, e também as ditaduras militares, sem esquecer dos evangélicos e racistas. A lista vai longe!

E de que forma todos eles julgam ou julgaram? De forma parcial ou imparcial?

De que forma uma pessoa que se diz de esquerda, anarquista e ateísta deveria julgar?

Os gays, que sofrem terríveis preconceitos durante toda a vida, são exemplos de pessoas que a todo instante sofrem julgamentos parciais, sofrem acusações pesadas sem serem ao menos ouvidos!

A mesma coisa acontece com quem é pobre e negro. Quantas histórias de julgamentos parciais o preconceito não gerou? Algumas delas até se transformaram em livros, filmes, seriados, novelas, poesias, etc.

Pode uma pessoa que diz não ter preconceito julgar parcialmente? E uma pessoa que se diz de esquerda, pode?

Deveria, alguém que sofre preconceito, julgar de forma parcial?

A maioria das pessoas fala uma coisa, mas age de forma oposta. Se diz de esquerda, mas no fundo é de extrema direita. Não conheço radical do bem.

Quem alimenta a indústria do tabaco, toma cerveja da Ambev, que tem Iphone e é dependente de carro pra tudo, pode se dizer contra o sistema? Pode se dizer de esquerda? Essa pessoa tem base pra sair na rua gritando “morte ao sistema” ou pedindo justiça? É fácil ser esquerda caviar...

Fazer julgamento parcial é ato de quem diz se importar com o próximo ou que pensa de forma coletiva? Que se diz maduro(a) e se preocupa em fazer um futuro melhor? Julgamento parcial é ato de quem diz estar ao lado das minorias?

O mundo está de ponta cabeça, os valores estão invertidos e a preguiça está formando pessoas cada vez mais ignorantes. Quanto mais acesso ao conhecimento, mais ignorantes somos. Dessa forma, infelizmente, passa a ser normal vermos o que já falei, pessoas dizendo uma coisa, e agindo de forma oposta.

Crescer e evoluir, essas deveriam ser as preocupações do ser humano. Porém o barato é pensar na noitada do próximo final de semana, certo?

Julgamentos parciais são sempre feitos por coxinhas de direita.

Pense nisso meu amigo, minha amiga...




10 de junho de 2014

Série O Resgate da Memória: 39 - Gang 90 & Absurdettes por Júlio Barroso

Júlio
morreu em junho
logo
junho é mês de Júlio!

Aqui vai mais uma homenagem ao marginal conservador...

(Texto extraído do livro A Vida Sexual do Selvagem, Edições Siciliano, 1991, página 140)


Gang 90 & Absurdettes, criação espontânea de uma noite de inverno de 1980 em Nova York, no quarto 818 do Hotel Earle, chamado o hotel das baratinas, “cokroach motel”, apelido aferido pela rapaziada do B-52’s, que no começo de carreira se hospedava nesse pequeno new wave do Village.

Bebendo Bourbon, o delicioso Jack Daniels do Kentucky, ouvindo o som da fúria do rock na rádio de Manhattan, eu e Okky criamos a Gang.

De volta ao Brasil (eu residia há um ano em Nova York, após uma temporada no Caribe) continuamos a incrementar a ideia. De noite em São Paulo, junto a minha irmã Denise, com May, Gigante, David Barroso, Tavinho Paes, Reinaldo Cotia, uma época de conversas, ideias, simplicidade criativa, futurismo e nevascas: “É melhor morrer de vodca do que de tédio”, já dizia Maiakovski.

Uma tarde, boiando nas águas de Ipanema, com Tavinho e Guilherme Arantes, consegui passar o entusiasmo da ideia para nosso grande baladista e tecladista super. De volta a Paulicéia, começamos a ensinar no estúdio de Guilherme, já com Lee Marcucci e Wanderley Taffo, da banda da Rita, e o Celsão do Made. Rolaram os primeiros ensaios e entraram as duas Absurdettes que faltavam, a Luiza Maria, minha colega de noite, e Alice Pink Pank, que acabava de chegar da Europa, onde havia gravado vocais para o disco de estreia da banda irlandesa U2, o LP Boy.

Nossa primeira apresentação foi no Paulicéia Desvairada, já cantando com Nelsinho Motta e Leonardo Netto que começavam a formar seu novo label.

A gravação do primeiro compacto aconteceu imediatamente após os primeiros encontros. De um lado Perdidos na Selva, um rock na tradição da jovem guarda, com uma narrativa de estórias em quadrinhos, uma “heavy iê iê iê”: um desastre aéreo com um “happy end” “na veia”. Zen-comix, composto em 1979 em homenagem a Rita Lee. Dois personagens perdidos na selva luxuriante, aves revoam, um pôr-de-sol apenas entrevisto, para na estrada da noite urros de animais selvagens se mixarem a sussurros de prazer, em contraponto ao brilho maroto da lua e ao sururu da luz de galáxias estelares. Enfim um cenário de produção chanchadesca, citando/homenageando ainda nosso teatro de revista. Paródia da paródia, uma nova estética do deboche.

O lado dois, Lili Lamê, é uma versão da canção Cristine de Siouxie Sioux e John Severin, do grupo Banshees, um dos primeiros da onda de modernidade que assolou saudavelmente a Inglaterra em 1976. A letra de Lili Lamê foi escrita por mim em parceria com Antônio Carlos Miguel e Katy. É a história de Cristine, a garota deslumbrada com o brilho da noite (blábláblá), enfim um “thriller” em ritmo “noir” sobre a garota desfrutável, linda, que como um delicioso sorvete se derrete em meio ao saboroso e cruel turbilhão de emoções da juventude. Mais uma história de sexo, drogas e rock’n’roll. Lili era o nome de uma divina musa do poeta Maiakovski.

O primeiro compacto da Gang foi gravado no nosso estúdio, com direção de estúdio de Marcos Vinicius; direção musical, arranjos e teclados de Guilherme Arantes; Lee Marcucci, baixo; Wanderley Taffo, guitarras; Gigante Brazil, bateria.

O vocal solo de Perdidos na Selva é meu; backing vocals: Guilherme, Nicolor Fornoglia e Mielsen Notte; supervocals das Absurdettes.

O solo vocal de Lili Lamê é de Lolita Renaux; as harmonias de Alice Pink Pank e back vocals das Absurdettes.

O desenho da capa foi idealizado por May East e eu, e a caligrafia por Alice. A realização da arte foi de Fernando Casal.

A serigrafia de Gang 90 é um design meu com arte de Lygia Lara, letras de Alice.

Todos os designs envolvidos na Gang são criações e produções ilimitadas.

Júlio Barroso
São Paulo, julho de 1981




2 de junho de 2014

Série O Resgate da Memória: 38 - Júlio Barroso + Gang 90 + Rosas & Tigres


A Gang 90 é uma banda recorrente em meu tocador de mp3. Não me canso de ouvir Essa Tal... e Rosas & Tigres. Sou muito fã de Júlio Barroso e de tudo o que ele fez em tão pouco tempo.

Você pode falar em Raul Seixas, Renato Russo ou Cazuza, mas o lance de Júlio é que ele não teve tempo de fazer tudo o que queria. Foi uma morte prematura e, de fato, muito sentida. Ele acabou não deixando tanto material quanto os três que citei. Mesmo assim, o que deixou marcou profundamente. 

Aí chegou dia 6 de junho de 1984 e todo o universo da cultura pop brasileira parou por conta da morte inesperada de Júlio Barroso. Foi uma desgraceira total. Perda irreparável.

A Gang 90 estava cheia de planos e fazendo shows pelo Brasil por conta do sucesso que fazia com as músicas “Perdidos na Selva”, “Nosso Louco Amor” e “Telefone”. As três tocaram muito nas rádios e a segunda foi tema de abertura da novela 'Louco Amor'.

Apesar disso a Gang 90 não era uma banda comercial. Tem essas três músicas, mas o resto do repertório não é assim. A Gang não era banda pra tocar em rádio. “Românticos a Go-Go”, “Convite ao Prazer”, “Dada Globe Orixás”, “Mayacongo”, “Jack Keruac”; e outras como “Qualquer Gesto”, “Ela”, “Marginal Conservador”, "Vida Animal" deixam claro o perfil anti comercial da Gang. Júlio era um poeta marginal, que gostava dos beatnicks, da poesia concreta, que interpretava a vida urbana intensamente, com ideias livres.

Na época de sua morte Júlio estava compondo como louco, escrevendo, produzindo e, como sempre, cheio de ideias para colocar em prática. Uma delas era de reformular a banda, dar mais atenção a parte musical. Arranjos e ensaios do novo repertório estavam acontecendo e até uma demo com a música "Do Fundo do Coração" foi gravada.

Porém, mesmo com Júlio vivo, a Gang estava com problemas para arrumar gravadora. Criador de confusões, tinha executivo que queria distância dele. Mesmo assim planos eram feitos. Até a Som Livre chegou a desligar o telefone na cara dele – a mesma que um ano depois lançou o disco Rosas & Tigres - que já estava sendo trabalhado por Júlio e a Gang.

Este segundo disco teve a força da ajuda de dois nomes: Cazuza e Ezequiel Neves, que levaram a banda para a Som Livre. Ezequiel também produziu o disco (ele e Júlio eram amigos dos anos 70). Houve problemas durante a produção como, por exemplo, a não participação no processo de mixagem, e o pouco tempo de estúdio para a gravação (apenas duas semanas).

Apesar dos problemas – escutando o disco é nítida a precariedade da produção – a força das canções é indiscutível. Júlio Barroso só não está no disco em estado sólido, porque todas as suas ideias estão ali, claramente. Como disse antes, esse repertório já estava sendo ensaiado na época de sua morte. Das 11 músicas gravadas, 9 tem a assinatura dele.


É difícil apontar uma única música de destaque. Tem "Rosas e Tigres", "Meu Amor, Meu Playboy", "Ela", "Vida Animal", "Marginal Conservador", "Depois Eu Conto"... e ainda a belíssima e estonteante "Do Fundo do Coração" (fragmento de uma poesia maior de Júlio). A mais fraca é "Novamente Aconteceu", a única que não tem a assinatura de Júlio (mas nada contra Firmino, pelo contrário!).

Rosas & Tigres é um clássico perdido dos anos 80. Clássico mesmo! Um disco maravilhoso, com canções incríveis, conteúdo, ideias... foi feito na raça.

Para lembrar dos 30 anos da morte de Júlio Barroso, e também os 30 anos de lançamento de Rosas & Tigres (em junho 1985), publico aqui duas matérias antigas: uma da Roll, de 1984, onde relata a festa que aconteceu em homenagem a Júlio, um mês depois de sua morte. A outra é da Folha de São Paulo a respeito do lançamento do Rosas & Tigres. Essa foi uma das únicas reportagens de divulgação desse grande disco.

Aqui no Sete Doses de Cachaça há publicações sobre os outros dois discos EssaTal de Gang 90 & Absurdettes e Pedra 90.

Semana que vem publicarei texto do próprio Júlio sobre a Gang 90 & Absurdettes.

Viva a Gang! Viva Júlio Barroso!

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Homenagem a Júlio Barroso
Revista Roll, Ano 1, Nº 10, julho-1984

Para alguns a sexta-feira treze é um dia de sorte, para a maioria é um dia de azar, mas pra quem foi ao Noites Cariocas naquele dia treze de julho de 1984 assistir a homenagem a Júlio Barroso feita pela reformulada (e surpreendente) nova Gang 90 a mais os convidados Lobão & Ronaldos, As Absurdettes e A Banda dos Poetas, só teve alegria e boas vibrações, pois pra se homenagear a falta de uma pessoa querida e que só nos dava coisas belas, nada como muita energia e animação. 

E que se dane, se a noite estava fria e fechada, se havia chovido horas antes e se um segurança que não teve infância estivesse proibindo as pessoas de dançarem um pouco mais empolgadas. A festa rolou com todos perdidos na selva, rolando de tudo naquele covil de piratas pirados. Aquela onda de amor não houve quem cortasse (nem mesmo os caretas que marcavam sobre pressão).

Ao chegar-se lá em cima e sair do bondinho, havia uma mostra visual de fotos, textos e matérias que contavam um pouco da vida de Júlio e a gang. Conexão Caribe-New York-São Paulo. Música para o planeta terra. No salão de vídeos, uma coletânea de aparições da Gang nos programas de Tv, algumas cenas solos de Júlio em vídeo-arte performática, e a casa marcou por não exibir naquela noite vídeos de Kid Creole & Coconuts e Blondie, grupos que tinham uma forte ligação inspiradora com a Gang & Absurdettes. 

Mesmo a programação musical da noite poderia ser outra, ao menos uma noite do ano para ficarmos livres daquele listão de rádio que toca lá, se bem que agora eles resolveram tocar uns discos que estavam lá mofando há mais de três anos, como por exemplo os do B-52’s. É a tal new wave.

E o show não é pra se comentar como um show qualquer. Foi uma celebração em que estiveram presentes na plateia e no palco todos aqueles que conviviam ou admiravam a obra de Júlio Barroso, que se fosse um cantor inglês, a essas horas já teria virado culto, com camisetas e discos seus vendendo de montão. 

Por favor, não vamos comercializá-lo. Vamos apenas guardar na lembrança a pessoa que ele foi.


Ave Julius!

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O NOVO ESTILO DA GANG 90

Folha de São Paulo – Ilustrada – 19/julho/1985 – Página 45

Evidencia-se a presença do poeta e compositor Júlio Barroso, falecido em junho do qno passado, em todas as canções de “Rosas e Tigres”, segundo LP da Gang 90, selo Som Livre. Não é à toa. Ao detonador dos últimos modismos brasileiros, como a new-wave e suas variações, é dedicado o disco. Nove, das onze faixas, trazem seu nome e seu estilo em letras e músicas. Como celebração dessa nova fase do grupo no cenário do rock brasileiro, a Gang 90 se apresenta hoje e amanhã no Latitude 3001. Depois aterrorizam o Rio, nos dias 2 e 3, nas Noites Cariocas.

Com nova formação, a banda estava pronta para estrear no dia 8 de junho de 1984. Tudo certo: arranjos concluídos, canções ensaiadas. No dia anterior, porém, Júlio Barroso despencara de seu apartamento, deixando atrás de si muitos sonhos e uma incrível capacidade de agitação cultural. A semelhança de um adágio profético, deixara grafado em “Qualquer Gesto”, que está no disco novo: “No reino da emoção / passa um rio de concreto / em frente a janela do ap / debruçado em você na vidraça / quebrada ao corpo todo iluminado”. Em “Rosas e Flores”, o final de um outro louco amor, que era sua vida: “E na velocidade / que a gente vive na cidade / o nome disso é saudade”.

São histórias lembradas, também, pelos integrantes da Gang 90 – Roberto Firmino, 25, vocal e teclados; Taciana Barros, 20, vocal; Gilvan Gomes, 25, guitarra; Paulo Le Petit, 26, baixo; e Gigante Brazil, 33, bateria. Depois da morte de Júlio, uma parada tática, de reabastecimento musical e de emoções. Em setembro do ano passado, retornaram aos palcos, em várias apresentações, mas com uma ideia na cabeça: gravar um disco e seguir em frente. Estavam sem gravadora e sem recursos, e foi Eduardo Dusek, com quem Júlio Barroso entrou pela última vez em estúdio, que conseguiu uma maneira de o grupo colocar em uma fita as novas canções. Por ela se interessou o garotão Ezequiel Neves, da Som Livre, ao lado de Jorge Guimarães, os produtores de “Rosas e Tigres”.

Agora a next-wave

O LP foi gravado em quinze dias, em São Paulo, “uma verdadeira maratona dentro do estúdio”, dizem os integrantes da banda. Em apenas três dias, conseguiram colocar as bases, um recorde – Rita Lee e Roberto de Carvalho ficam quase três meses para concluir um disco. Mas o grupo saiu satisfeito com o trabalho. “Antes era a new-wave”, diz o baterista sorridente Gigante Brazil. “Agora é a next-wave”. É que as faixas trazem uma variedade de ritmos, de tendências, ao contrário do primeiro LP, com foco apenas na new-wave. “Estamos preocupados agora com o lado musical e não só o estético, como acontecia anteriormente”, diz Roberto Firmino, vocalista e tecladista.

Se o disco anterior marcou – e detonou – a nova onda roqueira do Brasil, os integrantes da Gang 90 esperamque “Rosas e Tigres”, provoque identico efeito. Ou reação. Agora, com uma diferença. “Cada um de nós”, conta Gilvan Gomes, guitarrista, “tem suas preferências musicais, seus caminhos. No disco, então, aconteceu uma mistura. Não uma mistura tipo farinha do Nordeste. Porém, uma mistura que gerou uma síntese”. 

Gigante Brazil emenda: “O trabalho está bem desenvolvido. A Gang 90 está madura. Era o ponto a que queríamos chegar, quando fizemos o primeiro disco. Queríamos essa diversidade de ritmos”. Paulo Le Petit que, como Gigante Brazyl, trabalhou com Itamar Assumpção, prossegue: “se antes havia a 'wavidade', agora existe a diversidade. Aliás, são várias tendências. É só o pessoal escolher e segui-las”, ironiza de quebra.

Nos espetáculos em São Paulo e Rio, a Gang 90 mostrará que a banda fez opção radical pelo lado musical, abandonando o excesso visual da fase anterior. No roteiro, músicas de “Rosas e Tigres”, outras inéditas e dois sucessos engatilhados da formação anterior: “Telefone” e “Perdidos na Selva”.