23 de setembro de 2012

Série Coisa Fina: 15 - Boys & Girls (Alabama Shakes)

Como já afirmei aqui no blog, não sou daquelas pessoas desesperadas que buscam novidades a cada segundo. Em junho fui apresentado ao Alabama Shakes por Anne Minvielle da Groupie Cultural, que falou bem da banda e disse que eu poderia gostar. Em uma madrugada cheguei em casa, liguei o computador e baixei o disco Boys & Girls, o primeiro da banda, lançado em abril.


Ao mesmo tempo em que baixava, abri o You Tube e assisti ao vídeo de “Hold On”. Chapei! Meu Deus, o que era aquilo? O que era aquela garota cantando muito e mandando ver uma guitarra base nervosa em uma SG? O que eram aqueles caras tocando com ela?

Coloquei o disco pra ouvir e chapei mais ainda. Rock, soul e blues. Na hora me veio pub rock na cabeça. Puro pub rock feito nos EUA e em 2012! A simplicidade, a sonoridade crua, limpa, vi ali o tesão deles (principalmente da ultra mega power talentosa Brittany Howard, que em outubro completará 25 anos) em fazer o que se estão fazendo.

Não há nada de diferente no som do Alabama e por ser simples assim, e direto, é que faz ele ser diferente de tudo que escutei nesses últimos anos.

O Alabama Shakes tem personalidade exatamente por fazer um som simples e sincero, ainda mais hoje quando todo mundo quer fazer caras e bocas, bandas com 9 pessoas, 2 vocais, 3 guitarras, DJ; ou artistas que gravam um disco com 4 produtores diferentes, figurino, maquiagem, postura ensaiada, o culto a celebridade. São caipiras vindos de uma cidade pequena, sem o desespero de tocar para milhões de pessoas. Brittany cita Elvis e Bon Scott... só coisa fina...

Até no visual a banda é simples. Ninguém tem cabelo ou penteado diferentes, ou usa roupa descolada, nada disso. Nesse aspecto não chamam atenção alguma, pelo contrário, nem parece que fazem o som fazem, e nem que são músicos. São caipiras típicos. Athens é uma cidade que tem média de 22 mil habitantes (mais ou menos a população de Palmital – SP), com pouco mais de 7 mil famílias, ou seja, uma cidade minúscula. A própria banda diz que nem há lugares para se tocar por lá.

O impacto que Boys & Girls causou em mim, foi o mesmo ao escutar Let Love Rule, de Lenny Kravitz, em 1989, lançado em um momento em que o cenário rock estava em baixa, enquanto grupos de música eletrônica invadiam as pistas. Em um momento meio confuso surgiu algo simples e sincero. Da mesma forma acontece agora com Alabama Shakes.

Alguns amigos escutaram e não acharam nada de mais, e pode não ser mesmo, mas eu vi sim algo a mais no grupo. Acho difícil ele não fazer outros bons trabalhos, mas se não fizer, não tem problema. Boys & Girls já é um grande disco!













13 de setembro de 2012

Série Coisa Fina: 14 – Shooting Rubberbands At The Stars (Edie Brickell & New Bohemians)




Em dois períodos de minha vida fiquei muito sozinho. Isso aconteceu entre 1989 e 1992. No início de 1989 perdi meu pai e minha vida mudou bastante, tive que me preocupar comigo mesmo. Tinha minhas amigas, mas não estava bem para ter um relacionamento. Sabendo disso fiquei só. Viajava sozinho, saia sozinho, ia ao cinema sozinho, passava final de semana sozinho. Entre 1990 e 1991, tive um namoro de uns 10 meses com uma paixão de infância, intenso.

Depois desse namoro (que não estava nos planos e nem nos sonhos) passei por um novo processo de solidão e, mais uma vez, optei por ficar só, na minha, 100% introspectivo. Esses quase quatro anos ficaram marcados também pela trilha sonora, pelo que eu escutava. Quando o namoro acabou, resolvi fazer uma faculdade e entrei em um cursinho. Fiz um ano de história na PUC, no prédio velho, curso noturno, pouca gente, salas antigas. Além de estudar história também li alguns livros de Sócrates e Platão. Foi uma fase de solidão, mas muito bem aproveitada. Usava isso a meu favor e realmente era bom demais fazer as coisas sem precisar dar satisfação a ninguém. Valorizava esses momentos. É você e você.

Nesse período trabalhava com fotografia e publicidade, então ficava sabendo de festas e eventos ligadas ao trabalho e que nada tinham com meus amigos. Eu ia sozinho mesmo conhecendo uma ou duas pessoas e mais ninguém. Eram as melhores noites, porque eu não fazia a menor ideia de como iria acabar. No carro, no ônibus ou a pé, eu sempre estava ouvindo música.

Em 1989, com a vida tumultuada, minha irmã  mais velha voltou de uma viagem que fez para Londres com alguns bons discos, e recém lançados. Entre eles estavam Doolittle do Pixies, The Stone Roses do próprio e Shooting Rubberbands At The Stars de Edie Brickell & New Bohemians. Além deles eu também escutava muito Desintegration do The Cure,  Mother’s Milk e Blood Sugar... do Red Hot Chili Peppers, e toda a discografia do Black Sabbath com Ozzy.

Um melhor que o outro. Era tudo vinil, então eu tinha as fitas cassetes com eles gravados e escutava no walkman e no carro.

Deles todos, o disco mais calmo e romântico, sem guitarras distorcidas e porrada nos instrumentos, era o Shooting Rubberbands at the Stars, de Edie Brickell and New Bohemians.

Considero um disco genial. Daqueles que são únicos. Gosto de tudo nele e, é difícil dar apenas um ou outro destaque. É a química entre as belas linhas de baixo, os violões, guitarra, bateria, percussão e voz. Tudo muito iluminado. Não há virtuosismo, pelo contrário, cada integrante soube tirar o necessário de seu instrumento. Há unidade sonora, boa direção e produção. Os timbres são ótimos. O disco até foi lançado aqui no Brasil, mas só “What I Am” fez um relativo sucesso. Nos EUA vendeu dois milhões e cópias (duplo platina). Os integrantes são feios, se vestem mal, não têm cara de descolados, mas fazem uma sonzêra de respeito.

Edie Brickell tem personalidade, era (e é) bonita e tem uma voz doce e suave. A raiz do som é folk, mas o pop e o rock estão ali presentes, às vezes mais, às vezes menos. De referência dá pra citar Willie Nelson, Neil Young, Talking Heads e Blondie.

Shooting Rubberbands At The Stars é um disco belo, sutil e de letras filosóficas, sobre relacionamentos, erros e acertos.

O resgatei nesses últimos tempos... por que será?















9 de setembro de 2012

Pedestres e Carros (Um Manual Para os Motoristas Ególatras)


Em uma média aproximada, as dimensões de um carro devem ser 4m de comprimento e 1m70 de largura. Ou seja, se pensarmos em 10 carros com apenas uma pessoa dentro (coisa absolutamente comum), 40 metros de rua são ocupados para acomodar apenas 10 pessoas... e elas ainda têm a ousadia de brigar e reclamar por espaço... parece piada...



1 – Motorista, nunca chame o pedestre de folgado, porque o folgado é você. Sempre.

2 – Motorista, nunca esqueça que, independente de qualquer coisa, você sempre estará em vantagem comparado a um pedestre. Acredite, mas mesmo sem pisar no acelerador seu automóvel andará mais rápido que uma pessoa a pé. Motorista que reclama de tempo e espaço é como um rico de barriga cheia reclamando da vida.

(Aproveito para registrar aqui comentário que meu saudoso pai fazia quando ouvia uma buzina apressada: “por que está com pressa se já está de carro?!?”)

3 – Muitas vezes o carro está a 100 metros de distância de alguém que já atravessa a rua, mas como a velocidade é maior, o carro chega perto mesmo antes de a pessoa terminar de atravessar. Motorista, não obrigue ninguém a correr no meio da rua, diminua, não dói nada. A pessoa já estava atravessando quando você chegou até o local da pista onde ela estava, então respeite, já que chegou depois. É um tanto ridículo uma pessoa ter que correr para não ser atropelada.

(Andando a pé um quarteirão de ponta a ponta leva-se uma média de um minuto e meio. Em quando tempo um carro faz esse trajeto estando ele a 40, 50 por hora? 3 segundos?)

4 – Motorista, assim como é chato para você parar em um semáforo vermelho, também é chato para os pedestres terem que parar a cada esquina, a cada semáforo. Por isso, respeite a faixa, respeite o semáforo e, na ausência dos dois, quando possível, seja gentil. Se para você, motorista egoísta, parar atrasa a vida, imagine então pra quem está a pé!!! 

5 – Motorista, quero também lembrar-lhe que pisca pisca não é item opcional. Uma vez na rua de carro, é preciso respeitar a leis e também dizer a todos o que você irá fazer: virar, parar, sair, dar ré, estacionar. O pisca pisca ajuda, e muito, ao pedestre saber para onde o carro vai. Assim, ele não correrá o risco de ser atropelado. Quantas vezes, você motorista, não xingou pedestre que atravessava em cima da faixa e, na verdade, você é que deixou de avisar que iria virar.  Motorista, além de egoísta você também quer ser barbeiro?

6 – Motorista, uma vez na rua, você deve pensar de forma coletiva, ter uma visão de 360º. Não fume, não fale ao telefone, não coma, não olhe para trás (só pelos retrovisores). Depois que atropelar alguém, não vá dizer que a pessoa apareceu de repente, do nada. Tente, dentro de seu ego-universo chamado automóvel, pensar nos outros e se concentrar no que faz. A linha entre a vida e a morte é tênue, e uma distração boba pode envolver crianças, idosos e mulheres grávidas em acidentes fatais.

7 – Resumo do item 6: quando estiver na rua dirigindo, seja menos egoísta, se isso for possível.

8 – Motorista, certamente atravessar pela faixa / passarela é bem mais seguro, mas não totalmente. Todo e qualquer pedestre, mesmo que analfabeto ou ignorante, tem como primeira opção atravessar na faixa / passarela, pois assim nos sentimos mais seguros. Porém há muitos casos em que sair do ponto onde está para andar até a faixa / passarela, significa perder até 10 minutos. Pode acreditar! Enquanto que atravessar fora da faixa / passarela por entre os carros se leva 30 segundos. Não é certo, claro, mas custa ajudar já que o perigo para ele aumenta?
Motorista, pense comigo, dentro dessa situação, só que com seu carrão e num trânsito animal, qual seria sua opção: pegar o caminho que vai levar 10 minutos ou o atalho imediato de 30 segundos?

9 – Motorista, deixe de ser folgado ao cubo e pare de reclamar do pedestre.

10 – Andar a pé nem sempre é opção. Muitas pessoas andam por longos percursos, é chato, cansativo, com ladeiras, buracos, obras, calçadas irregulares, cocô de cachorro, suor, enfim, como tudo na vida, tem o lado bom e o ruim. Esses exemplos fazem parte do lado ruim de andar a pé, que é pra mostrar a você motorista, o quanto você reclama de barriga cheia dentro do conforto de seu carro (com ou sem ar condicionado). Imagine longas caminhadas embaixo de muito sol e longas caminhadas embaixo de chuva torrencial. Legal, né?

11 – Motorista, como já citado aqui, respeitar mulheres, mulheres grávidas, crianças, idosos, é o mínimo. Respeite a faixa de pedestre, tendo ou não semáforo. Mas acima de qualquer coisa, respeite o ser humano, que é seu igual!

12 – Motorista, quando for sair da garagem, da rua onde está estacionado; quando for dar ré, ou fizer alguma manobra diferente, não pense só em ver se há polícia ou outro carro por perto, veja também se não há pedestres. Dê sinal, pisca pisca, alerta, aguarde o momento ideal. Lembre-se: visão de 360º. Muitas crianças morrem em situações idiotas assim.

13 – Motorista, lembre-se que a tendência mundial não é o pedestre ter um carro, mas sim o motorista virar pedestre. É o caminho natural.

14 – Motorista, se tiver coragem faça um exercício: deixe o carro parado em casa por uma semana e ande de ônibus e a pé. Sinta na pele e entenda na pele o que aqui escrevo.

15 – Andar a pé é o meio de locomoção mais antigo do mundo. Então, motorista: RESPEITE OS MAIS VELHOS!!!

16  Motorista, respeite as pessoas com dificuldade de locomoção. Nem sempre o tempo do farol fechado é o tempo necessário para algumas pessoas atravessarem a rua, portanto, se houver algum retardatário atravessando, respeite, espere, tenha paciência!!!!!

17  Motorista, lembre-se de que você também é pedestre!!!





ATENÇÃO - O vídeo tem cenas fortes (e a trilha é horrorosa! - assista no mute)

2 de setembro de 2012

Especial Discos Históricos 4: Rádio Taxi



Em um período entre 1980 e 1983 houve um vácuo entre gerações. Na mídia havia rock brasileiro, mas era um rock mais puxado para a MPB, com conceitos ainda dos anos 1970, sem a menor ligação com o que estava acontecendo na Europa e Estados Unidos, como a new wave, o gótico e o pós-punk.

Em 1980, 1981 e 1982 o rock era 14 Bis, A Cor do Som, Pepeu Gomes, Rita Lee e outros. O rock brasileiro influenciado por esses movimentos que citei, nesse período, estava sendo formado, ainda na fase do “pagar para tocar”, ensaiando na garagem com instrumentos horrorosos. É uma geração que começou a se juntar no final dos anos 1970 e início dos 1980. Estou falando de Titãs, Legião Urbana, Barão Vermelho, Blitz e toda essa geração que se consolidou em 1985 pós-Rock in Rio. Era uma bomba que iria explodir a qualquer hora, já que, mesmo antes do grande festival, já havia o Circo Voador, a Rádio Fluminense e toda a enorme movimentação em SP de bandas, casas de shows, publicações e selos independentes.

A transformação foi natural e algumas bandas foram preparando o terreno para toda essa nova geração que ia chegar. Entre esses grupos pioneiros, estava o Rádio Taxi, formado por feras como Lee Marcucci, que já tocava no início dos anos 1970. A reportagem da Veja mostra alguns dos nomes dessa geração pioneira: Blitz, Lulu Santos, Herva Doce e Barão Vermelho. Okky de Souza foi muito feliz em ligar todos eles às novas composições e sonoridade de Rita Lee.

Nesse comecinho de tudo entre os hits que ajudaram a abrir o caminho estavam “Eva”, versão gravada por Rádio Taxi e que foi febre nas rádios, “Down em Mim” do Barão Vermelho, “Menina Veneno” de Ritchie, “Eu Sou Boy” do Magazine, além de outros artistas já citados nessa série Discos Históricos. Era um rock mais inocente e foi isso que prevaleceu nesse período. Deixo registrado aqui “Inútil” de Ultraje à Rigor e “Bete Morreu” do Camisa de Vênus.que serviram de divisores de água já que ajudaram a derrubar essa inocência.




Os Filhos de Rita Lee
Revista Veja (Acervo Digital), 23 de junho de 1982, Edição 720
Música, página 136, por Okky de Souza

Ao se eleger a namoradinha do Brasil de 1980, a roqueira Rita Lee fez mais do que consagrar a vitória de seu estilo saudável e bem-humorado entre a juventude do país. Numa manobra original, conseguiu transpor a linguagem do rock para o ouvido brasileiro, com o revolucionário LP Lança-Perfume. Ao mesmo tempo, pregando a alegria, provou que roqueiro brasileiro não precisa ter, como em sua própria definição, “cara de bandido”: em vez de imitar posturas importadas, ele pode cobiçar o sucesso com um modelo nativo. Ao vivar mania nacional, esse estilo Rita Lee, simples e óbvio como todo invento depois de inventado, acabou por lançar sementes férteis.

Nos últimos meses, uma série de artistas e grupos desenvolveu ótimos trabalhos a partir das lições da madrinha pioneira. Acabaram por detonar um movimento, o rock brasileiro de bom gosto e apelo popular, que conquista espaço cada vez maior nas rádios e desperta um surpreendente interesse das gravadoras, tradicionalmente avessas ao gênero. No Rio de Janeiro, por exemplo, os bem-humorados grupos Herva Doce e Blitz, contratados de uma só tacada pela Odeon, conquistaram lugar de honrta na programação das rádios em poucos dias. A Som Livre apostou suas cartas no rock violento e adolescente do Barão Vermelho e destacou para coordená-los seu melhor produtor, Guto Graça Mello. “Há muito tempo eu não via um grupo com tanta alegria e garra. Eles são realmente novos”, admirou-se Graça Mello ao ouvi-los pela primeira vez. Já no final do ano passado, o grupo paulista Rádio Táxi alçava Garota Dourada ao primeiro lugar das paradas de audiência em todo o país, enquanto o cantor e compositor Ricardo Graça Mello, 20 anos, filho da atriz Marília Pêra, transformava De Repente Califórnia numa espécie de hino do verão, maciçamente executado por três meses.

Em comum com Rita e entre si, esses grupos possuem um inabalável bom humor, e essa parece ser uma arma principal na conquista de um público saturado dos amores desesperados de Maria Bethânia. Suas letras não são grandes poemas, mas as mensagens são imediatas, claras e transmitidas com uma naturalidade que até hoje falta, por exemplo, aos grandes artistas que foram perseguidos nos tempos negros da Censura. O amor nunca é triste ou carrega culpas; ser saudável é fundamental, o otimismo é a maior das virtudes, como resume a letra de Certo Dia na Cidade, do Barão Vermelho: Ei garoto, a força que me conduz/É uma ventania/Descobrindo o que é belo e tem luz/É o incerto, é o que é.

SOLO MEMORÁVEL – Na semana passada, com o lançamento do primeiro LP do cantor, compositor e guitarrista Lulu Santos, Tempos Modernos, o movimento que agrupa os herdeiros de Rita Lee ganhou seu produto mais bem acabado até agora. Carioca, 29 anos, Lulu peregrinou pelos anos 70 como líder do grupo Vímana, de certo prestígio na zona sul do Rio. Depois, tocou com As Frenéticas e trabalhou para a Rede Globo selecionando canções para trilhas de novelas. Ótimo compositor, consegue combinar todos os elementos que têm valorizado o rock brasileiro. Como a letra sensual e picante de Bole-Bole (Me segura num cantinho/Pra me provocar), encaixada numa melodia de grande impacto. Os arranjos são modernos e a produção é impecável. O melhor momento do disco, porém, é fornecido pela própria Rita Lee, a quem aponta como responsável pela abertura do espaço para os novos grupos. Ela presenteou Lulu com a faixa Scarlet Moom, composta em homenagem à jornalista e apresentadora de TV carioca Scarlet Moon de Chavalier, mulher do cantor há quatro anos. É uma canção com a mesma sonoridade e o mesmo pique irresistível de Lança-Perfume, misturando rock e carnaval, com um solo de guitarra absolutamente memorável.

A descendência mais direta de Rita Lee, porém, é formada pelo grupo Rádio Táxi, que, depois de acompanhá-la em shows por quatro anos, parte para a carreira solo. Apoiados por uma maciça campanha promocional da gravadora CBS – certamente inédita no rock brasileiro, à exceção daquelas montadas para a própria Rita –, o grupo lança na próxima semana seu primeiro LP. É um disco que mergulha em todos os tipos de sonoridades que compõem a música pop e exibe, portanto, as lições aprendidas com Rita. Há doces baladas, como Ana, a rock atrevidos. “A própria Rita sempre foi mossa maior incentivadora”, revela o guitarrista Wanderley Taffo, 28 anos, garantindo que, mesmo nas paradas, o Rádio Táxi pretende continuar coadjuvando os shows da estrela.

Na semana passada, o mais executado nas rádios, entre os filhos de Rita Lee, era o grupo carioca Blitz, criado há um ano na praia de Ipanema e revelado no Circo Voador – espécie de templo da vanguarda montado durante o verão passado na praia carioca do Arpoador. Misturando música e teatro (o violonista é Evandro Mesquita, do Asdrúbal Trouxe o Trombone), o Blitz já começa sua trajetória em disco de forma original: há duas semanas, lançou um compacto de um lado só, com a música Você Não Soube Me Amar. É uma experiência inédita do produtor Mariozinho Rocha – o mesmo de Gal Costa –, que os considera o grupo “mais original da música brasileira, capaz de dar uma revitalizada no mercado, como fez Rita Lee há dois anos”. A julgar por letras como a de Cruel, Cruel, incluída no LP a ser gravado em setembro, a previsão de Mariozinho não é excessivamente otimista: Não, não vá/Botar a culpa no destino/Por ter casado com um cretino industrial/Apenas para dar satisfação à sociedade/Pois na verdade/Eras parada num surfista local.

Mais acessíveis ao público que a vanguarda cerebral de Arrigo Barnabé, lançando propostas às vezes igualmente inovadoras, os filhos de Rita Lee lançam um sopro de vida na música popular do país. A própria Rita vê o movimento com grande tranquilidade, como se, depois de quinze anos de carreira e brigas com patrulhas diversas, o considerasse inevitável: “É o fim da ditadura do preconceito na música brasileira, acabou a escravidão ao violão e ao banquinho. E é natural que, nesse processo, o rock tenha conquistado seu espaço. Rock é como futebol: foi inventado lá fora, chegou aqui com sotaque e foi adotado porque diverte”.



Rádio Taxi, um novo som de cidade grande
Folha de São Paulo, 31-ago-1982, Ilustrada, página 7


Os jovens – principalmente aqueles que frequentam shows e bailes – ganharam um novo conjunto; Rita Lee provavelmente deverá formar outro para acompanhá-la. Agora o Rádio Taxi (formado por Wander Taffo, Lee Marcucci, Willie e Gel Fernandes) decidiu investir de vez em carreira própria, principalmente depois do sucesso da música “Garota Dourada”, um dos temas do filme “Menino do Rio”, de Antônio Calmon.

“Fazemos um som de cidade grande. Nascemos, vivemos e trabalhamos em São Paulo, com toda sua loucura de maior cidade do Brasil. E é isso que fica registrado em nosso som. Procuramos acompanhar a época em que vivemos, os anos 80, com uma mistura de simplicidade, bom gosto e uma pitada de ousadia”. A declaração é do guitarrista Wander, mas pode ser assinada pelos outros três. Afinal, eles decidiram formalizar o conjunto exatamente por conseguirem – com bom humor – concordar musicalmente, em todos os sentidos. “O principal é a sinceridade. Para ser claro, acho muito fácil fazer um aglomerado de músicos, mas formar um conjunto que permaneça, não”.

Daí um LP, o primeiro de uma carreira que desejam longa. A gravadora é a CBS – “que deu toda força possível através de sua equipe, um pessoal também jovem” – e o disco tem o nome do conjunto. Programado para estar nas lojas no próximo dia 20, “Rádio Taxi” foi produzido e dirigido por Luiz Carlos Maluly, ex-guitarrista de Lee Jackson e também amigo do conjunto, e inclui músicas compostas por eles próprios e letristas convidados.

“Coisas de Casal”, por exemplo, foi composta por Rita Lee e Roberto de Carvalho, numa espécie de homenagem e força especial aos rapazes que se foram juntando à moça do “Lança Perfume” a partir de 1973. O primeiro foi o baixista Lee Marcucci (é autor de “Babilônia”), depois chegou o vocalista Willie – em 76 – e três anos depois o time completou-se com Wander e Gel, responsáveis pela guitarra e bateria. O ano era 79, eles vinham de uma carreira pelo Menphis e Secos e Molhados.

“Abelha Rainha”, de Wander Taffo – um tema sobre o amor dos jovens -, teve três frases cortadas pela censura. “Eva, Não Se Atreva”, eles preferiram deixar de fora pelo mesmo motivo. “Ela foi vetada totalmente”. Mas, além delas, o LP inclui ainda “Põe Devagar”, “Pedra de Talismã” e “Ana”, esta comporta por Guilherme Arantes. Outra autoria de “fora” é a dupla Roberto e Erasmo Carlos, de quem regravaram “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”.

Para o Rádio Taxi o detalhe mais importante de seu lançamento é o incentivo a outros grupos. Lee lembra que a cidade vai ganhando gente nova – Erva Doce, Blitz, Dalto – mas esse número é pequeno demais perto de uma cidade como Nova York, onde “existem 15 conjuntos por quarteirão”. É pra lá, aliás, que os quatro deverão viajar brevemente, com a finalidade de comprar um dos melhores equipamentos do mundo, o Mesa Boogie. “Custa caríssimo, deve-se encomendar antes. Nós estamos vendendo tudo que temos com esse objetivo. Para se ter uma idéia, é o equipamento do Rolling Stones. Perfeito para estúdio, um local como o Morumbi ou o Oficina.”

Tal cuidado inclui diretamente o público. Eles fazem questão de esclarecer que o Rádio Taxi é muito mais um conjunto de baile e shows que outras formalidades. Situação seu público numa idade média de 25 anos, e o tipo de trabalho como “uma forma de chegar mais rápido até ele; uma música meio marota, paqueradora. Claro que nesse aspecto aprendemos muito com Rita”.