29 de maio de 2010

Olho de Peixe & Astronauta Tupy


Assim como a década de 1980, a de 1990 também é recheada de clássicos. Dá pra citar Raimundos, Chico Science e Cássia Eller como alguns artistas donos de alguns desses clássicos. Mas há dois álbuns que, pra mim, são fundamentais para a música brasileira: ‘Olho de Peixe’ de Lenine e ‘Astronauta Tupy’ de Pedro Luís e a Parede.

Foi numa fita cassete emprestada de uma amiga de Porto de Galinhas (PE) que ouvi pela primeira vez Olho de Peixe, que Lenine lançou em 1993/94. Isso aconteceu pouco mais de um ano depois do lançamento.

Caí pra trás, perdi o chão, fiquei tonto e quando voltei ao normal nada era como antes. Como eu, muitas pessoas também viram a mudança de rumo que esse álbum trouxe para a música brasileira. A forma de tocar o violão, a percussão, as dinâmicas, os timbres. Um álbum basicamente de violão e pandeiro. É um trabalho que nota-se a mistura de levadas brasileiras, mas que não descarta o rock em certos momentos. Nunca em primeiro plano ou sendo protagonista, longe disso. É como diz o músico Juca Novaes em seu blog, onde cita a mistura criada pela Tropicália.

Olho de Peixe foi uma injeção de ânimo para a música brasileira. Isso não é exagero, é um fato. Um novo ângulo, um novo jeito e isso em plenos anos 1990, quando o grunge reinava no mundo pop e a MPB estava numa mesmice absoluta. Desse álbum é bom escutar até a reverberação do estúdio.

 Mas não é só a sonoridade que é original. As letras e a interpretação também fizeram a diferença. O uso do violão como, digamos, percussão acidental. A mistura de Recife com Rio de Janeiro ficou bacana e tão natural e espontânea que não é nada estranho ouvir frases como “Surfista na Central” e “Metaleiros no Maraca” no mesmo lugar onde tem “Sou um boneco de mestre Vitalino / Dançando uma ciranda em Itamaracá”.

Passei anos sem ter esse álbum. A fita que eu escutei foi devolvida e demorou muito pr’eu conseguir outra. Lembro que a primeira vez que Lenine foi à MTV fiz questão de descer na sala onde ele estava. Primeiro para cumprimentá-lo e conhecê-lo, e depois pra perguntar o motivo pelo qual não se fazia uma nova edição de ‘Olho de Peixe’. Isso foi na época do lançamento do ‘O Dia em Que Faremos Contato’ e ele me disse que muita gente perguntava do Olho de Peixe. Tempos depois comprei um CD usado que algum maluco deixou numa lojinha que eu frequentava, e acabei não sabendo quanto tempo levou para uma nova edição sair. Eu percebo nesse álbum um clima bastante parecido com o álbum ‘Caetano’, que Caetano Veloso lançou em 1987 (que tem “Fera Ferida”). Por coincidência e em épocas diferentes ouvi esses dois álbuns em casas no meio do mato, na tranquilidade.

‘Astronauta Tupy’ foi outro tapa na cara, murro na boca do estômago, cabeçada no nariz.

Conheci Pedro Luís e a Parede de uma forma inusitada. O prédio onde fica a MTV tem nove andares e em cada um deles ficam departamentos diferentes, desde a direção e o restaurante, até o jornalismo e a produção. Estando tudo combinado entre a gravadora e o departamento de relações artísticas, PLAP desceu de escada do 9º andar ao térreo tocando suas músicas de forma acústica e com, literalmente, panelas na mão, passando por todos os departamentos. Tomei um susto quando entraram na produção, fiquei olhando, os cumprimentei com a cabeça, fiquei curtindo, e quando a garota da gravadora passou, perguntei o nome da banda, pedi um CD e ela me deu na hora. Quando saíram sentei pra ver a capa do CD e depois de ver que a produção era de Tom Capone até liguei pra ele.

 Assim como o ‘Olho de Peixe’ – que também inspirou bastante Pedro Luís – o ‘Astronauta Tupy’ também tem uma sonoridade acústica e brasileira bastante acentuadas. Traz também misturas inusitadas como violões, baixo fretless e percussão feita com panelas, latas, Tambores e até piso de alumínio (que serve de reco reco).

Tom Capone àquela altura já começava a ficar conhecido entre o meio musical, seus trabalhos no AR Studios foram muito marcantes. Com Tom também estava outro amigo de Brasília, Mauro Manzoli, que infelizmente foi embora cedo como Tom.

Bem, ‘Astronauta Tupy’ se tornou outro clássico fundamental dos anos 1990, e trouxe com ele outra forma de mistura entre MPB e rock. O baixo fretless também me faz recordar alguns momentos do ‘Caetano’ e a impressão que dá é que todos estavam muito bem preparados para fazer esse álbum e Tom teve tempo e um bom clima para tirar a sonoridade perfeita.

Ao contrário de ‘Olho de Peixe’ que surgiu num momento em que o Brasil não tinha nada de novidades, o ‘Astronauta Tupy’ foi lançado em 1996, junto com outros álbuns importantes como ‘O Samba Poconé’ do Skank, ‘Lavô Tá Novo’ do Raimundos, ‘Rappa Mundi’ d’O Rappa e ‘Afrociberdelia’ de Chico Science. Mas ‘Astronauta Tupy’ não bateu de frente com nenhum desses lançamentos e nem tinha a sonoridade parecida. Era algo a parte do que acontecia no rock e na MPB.
“Pena de Vida”, “Tudo Vale a Pena”, “Caio no Swing”, “Miséria no Japão”, “Chuva de Bala”, são algumas das composições de respeito desse álbum. Algumas delas foram regravadas por diversos outros altistas. Anos depois do lançamento fiz a direção artística da transmissão ao vivo do show do PLAP e Cake no Free Jazz de 1999.

São dois clássicos absolutos que, mesmo lançados numa década onde a revolução tecnológica tomou outro rumo, conseguiram com suas sonoridades acústicas e simples, plantar sementes que até hoje dão frutos. Seja no rock ou na MPB.

Esse clipe aqui é também em homenagem ao velho amigo Tom

24 de maio de 2010

Música efêmera e música atemporal

A cada nova geração os artistas, os álbuns e as músicas, tudo têm ficado cada vez mais efêmero, fraco e superficial. Sobre isso penso o seguinte...

Já faz um bom tempo que venho postando textos sobre bandas e artistas um tanto desconhecidos no Brasil. Faço isso não só aqui no Sete Doses, como também no Rock Brasília, onde inclusive já fiz a série pós-punk com The Stranglers, Talking Heads, XTC, entre outros (aliás, penso numa nova leva).

Gosto de escrever sobre essas bandas não por ser nostálgico, longe disso. Faço isso por outros motivos.

Em uma entrevista com Roger, do Ultraje, ele disse o certo, que essa nova geração espera as coisas caírem no colo. É a lei do mínimo esforço. E o pior é que Roger está certo. É também como aquela coisa de você se apaixonar por quem te nega, e não por quem baba por você.

Hoje com a internet, está tudo muito fácil, quase tudo está banalizado (de notícias a sexo). Você vai onde quiser, lê e conhece tudo. É por isso mesmo que ninguém quer saber de pesquisar e conhecer, só quando é obrigado. Hoje você tem as mais completas informações sobre tudo e de quebra diversos pontos de vista. É tudo muito fácil.

Da segunda metade dos anos 1990 para trás era muito difícil ter notícias da banda, artista, disco ou música preferida. As opções eram poucas, mas já teve a Rolling Stone em 1972/73, a Geração Pop, Pipoca Moderna, Som Três, Roll, Bizz, Metal, Rock Brigade. Cada revista teve sua época e nos anos 1970 até início dos 1990 era sofrível obter notícias frescas e verdadeiras sobre seus ídolos. Pior ainda pra quem gostava de gêneros mais segmentados como punk rock, metal e black music.

As revistas priorizavam, claro, o que era mainstream, então eu, por exemplo, quase nunca lia algo a respeito de Clash, Dead Kennedys, Gang of Four ou mesmo Talking Heads e U2 (quando ainda era banda pequena). Aí finalmente quando saia algo sobre Red Hot Chili Peppers (tô falando de 1986 e eu louco por algum texto sobre o Freaky Styley) era uma nota minúscula falando que a banda deu uma festa e a polícia foi chamada por causa da bagunça. Pronto. Mais nada. E o pior é que dava uma nota dessa como se a banda fosse ultra falada por aqui.

Notícia completa do RHCP só após o lançamento do Blood Sugar Sex Magic, e mesmo assim era só com incentivo da gravadora (se é que você me entende). Ah! E lembro também que essas revistas eram mensais. Ou seja, a notícia muitas vezes já estava velha e demorava-se meses para ler ao menos uma notinha estúpida sobre o que você tanto aguardava.

Hoje não é mais assim. Tenho as informações que quiser sobre Red Hot Chili Peppers. Biografias, vídeos, noticias, fotos, músicas, tudo! Por falar em fotos, se não fossem as capas de discos e os livros gringos que eu conhecia, até os anos 1990 eu teria visto, no máximo, 10 fotos do Ramones, umas três do Red Hot Chili Peppers.

Dessa forma éramos obrigados a achar o máximo de informação possível das coisas que gostávamos, por isso, era costume consumirmos qualquer coisa que vinha nos discos, quase comíamos o encarte desde as letras, os compositores, a ficha técnica, o endereço da gravadora e até mesmo as informações que estavam no selo do vinil. Nós, roqueiros convictos, queríamos ‘matar’ a gravadora quando não vinha encarte. Para economizar, algumas edições brasileiras eram só capa e vinil. Ódio mortal.

Era um efeito dominó porque eu lia no disco do Sex Pistols nomes como The Who e Eddie Cochram, no do The Jam lia Kinks e ia atrás de notícias sobre essas bandas, geralmente com os amigos mais velhos. A busca por informações era praticamente uma aventura. Uma banda me levava a outra e assim o conhecimento musical ia aumentando. Até hoje é assim.
Aí veio a internet no final dos anos 1990 (aqui no Brasil) e facilitou tudo. Eu me esbaldei indo atrás de tudo o que eu queria. Gosto de XTC desde os anos 1980, mas só fui ver um clipe da banda em 2006 graças ao You Tube.

Hoje não me conformo em ver a nítida falta de conhecimento desses últimos artistas que surgiram, seja as bandas emo, as novas cantoras ou os sertanejos. Teve uma cantora, que lançou o 1º álbum em 2006, e já está no segundo, que declarou que só foi conhecer Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes após ter gravado o 1º álbum. Pô?!

Conheço gente de hoje, do underground de São Paulo, que faz um rock alternativo e que acha que o rock começou com Nirvana, que só conheceu Gang of Four graças ao Franz Ferdinand. Gente que em 1998 me falou que não gostava de Clash por ser uma banda velha!!! Santa ignorância! Então eu Paulo Marchetti não gosto mais de Chopin, de Salvador Dali ou Jorge Amado porque é tudo velho.
Quem quer fazer música tem que conhecer música e quanto mais se conhece, mais chance você terá para fazer um som original (e de forma natural). Se você só conhece Oasis, Red Hot Chili Peppers e Pearl Jam, então você está perdido, vai fazer uma música limitada, de baixa qualidade e sem personalidade. Exatamente o que eu vejo e ouço hoje por aí e que já ouvia nos anos 1990 quando eu recebia centenas de fitas e CDs demos por mês.

Hoje ouço The Strokes, Mates of State, The Hives, Interpol, Bloc Party, The Zutons, Modest Mouse, The Temper Trap, The Thrills, mas jamais deixarei de lado as coisas dos 1960, 1970, 1980 e 1990. No meu mp3 as gerações estão misturadas. Esses dias mesmo venho escutando bastante Hockey e The Cure.

Veja o quanto John Lennon e Paul McCartney conheciam de rock. Renato Russo, Raul Seixas, Roberto Frejat, Robert Smith, Joey Ramone, James Hetfield, Flea, The Edge, Kurt Cobain. Todos roqueiros convictos. E não só isso. Veja a importância que a literatura tem na vida de todos os que citei. Ela é de suma importância para se fazer uma boa letra, um bom texto e até buscar temas e pontos de vista diferentes.

Talvez seja um pouco por isso que aqui não vemos tantos artistas bons surgindo como vemos em países como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália. Veja a lista de bandas recentes acima, se eu quisesse poderia colocar o dobro de nomes tranquilamente. Enquanto que aqui no Brasil, seja no mainstream ou no underground, é sofrível para achar cinco nomes, e não é por falta de vontade.

É por isso que as coisas andam de mal a pior. É pela falta de conhecimento musical e falta de conteúdo, de leitura. Isso, claro, se o artista quiser de fato entrar para história ou ao menos tentar fazer alguma diferença. Analise o quanto esses artistas duradouros têm de conhecimento.

Os que têm sustância duram para sempre. Tornam-se atemporais.

18 de maio de 2010

The Durutti Column

A primeira vez que ouvi The Durutti Column foi em 1985. Era diferente de tudo o que eu tinha ouvido até então. Era rock sem ser rock. Conheci a banda vendo um show que rolou no Japão (Domo Arigato). Fiquei impressionado com a habilidade de Vini Reilly. Ao mesmo tempo tocava guitarra e teclado. A história de Vini Reilly e Durutti Column se confundem.

Na lista de fãs de Reilly estão nomes como Brian Eno, Robert Fripp, Andy Summers e John Frusciante. Todos eles são unânimes em dizer que Vini é o melhor guitarrista do mundo. Eu não acho exagero.

Com Vini Reilly pela primeira vez ouvi falar em anorexia, mas nunca soube se era verdade ou lenda. Essa figura principal do Durutti Column já trabalhou em posto de gasolina e antes, ainda garoto adolescente, tentou a carreira de jogador de futebol, e era considerado um atacante de promessa – inclusive até hoje há familiares dele que não acreditam que Vini tenha trocado o futebol pela música.

Antes da guitarra, tocava piano. The Durutti Column foi idéia de dois amigos: Tony Wilson e Alan Erasmus, criadores da Factory Records, gravadora de suma importância para a cena de Manchester, que procuravam alguma boa banda para eles lançarem (assista 24 Hours Party People).

O primeiro registro foi na coletânea Fac 2 – A Factory Sample de 1978, o primeiro lançamento da Factory que além de DC tinha Joy Division, John Dowie e Cabaret Voltaire. Para baixar é só jogar no glooge. Ali a banda está mais para Joy Division do que qualquer outra coisa (volta e meia Joy Division abria pra Durutti Column e vice-versa).


Não à toa Vini Reilly achou tudo uma bosta e resolveu sair fora. Mas aí em 1980 ele foi resgatado para lançar um novo álbum da banda. The Return of The Durutti Column já é outra história, já tem a cara de Vini e a sonoridade que marca a banda até hoje. Às vezes tem sopro, violino, bateria eletrônica ou acústica ou as duas, é instrumental ou não, teclado com vários timbres. O DC apesar de ter uma sonoridade bem definida, sempre tem algo diferente.

Com o tempo, principalmente pós-1984, o Durutti Column foi se tornando cada vez mais banda de um homem só. O baterista Chris Joyce e o baixista Tony Bowers saíram em 1983 para formar o Simply Red (com quem gravaram os três primeiros álbuns).

Entre álbuns de estúdio e ao vivo, são mais de 20 lançamentos. É difícil apontar clássicos, mas o mais conhecido de todos é o LC, lançado em 1981. Além desse e do ‘Return...’, também gosto do Amigos em Portugal. Em janeiro de 2010 o DC lançou o álbum Paean to Wilson, uma homenagem ao amigo Tony Wilson, que morreu em 2009. É um ótimo álbum.

Tem muita gente que põe o Durutti Column na cena pós-punk, por estar ali em Manchester no meio de Joy Division, Cabaret Voltaire, Buzzcocks e todos aqueles nomes mais conhecidos, mas na verdade não há sonoridade pós-punk no DC, o que a banda faz é um som experimental, baseado nas guitarras de Vini Reilly. Alguns chamam de ambiant.

O conhecimento de música clássica deu a Vini a possibilidade de ele explorar a guitarra de formas diferentes, com outras afinações, timbres diferentes, efeitos malucos, além de explorar hamônicas, escalas, tônicas, pentatônicas, oitavas e tudo misturado com sonoridades eletrônicas fazendo papel de percussão e bateria. The Durutti Column faz uma música tranqüila, calma, boa para ser ouvida naquele momento em que você está querendo paz. Ah sim, também bastante inspiradora.


Trecho do vídeo Domo Arigato


17 de maio de 2010

Ronnie James Dio

Em todos os meus anos de MTV e Fúria Metal, tive a oportunidade de entrevistar Dio algumas vezes. Apesar de ter meu lado metal, Dio não é dos meus preferidos, mas presto essa homenagem não só pela importância dele ao heavy metal, mas por ser uma pessoa gente fina, humilde e absolutamente normal. Mesmo tendo a importância que tem, sempre foi atencioso com todos e sempre bem humorado. Valeu Dio!

9 de maio de 2010

Sid Vicious Hoje - Parte 1 de 2

Em 10 de maio Sid Vicious completaria 53 anos. Como ele estaria? Eu imaginei o improvável... (será?)

Se quisesse Sid Vicious poderia estar muito bem ao lado de seus companheiros nessas eventuais reuniões do Sex Pistols. Gordo como Steve Jones, estaria ainda com seu cabelo espetado e fazendo aquela careta com a boca torta, mas agora com um papo e pés de galinha. No entanto preferiu se afastar da mídia, e mesmo assim é um dos compositores que mais arrecadam direitos autorais no mundo. Eis aqui a verdadeira história de Sid Vicious:

Logo depois de sair da prisão por causa da acusação de ter matado sua namorada Nancy Spungen, Sid Vicious estava decidido a dar outro rumo para sua vida. O tempo que ficou preso foi sofrido. Sentiu dores, se debateu, tentou suicídio, teve febres altíssimas, mas a medida que o tempo passava e o sofrimento também, com a cara limpa, ele resolveu dar um basta nas drogas. A vontade agora era de aprender a tocar de fato. Não estudar, mas ter mais conhecimento de guitarra e violão pra poder compor.

Até então ele só havia assinado três músicas do Sex Pistols, mesmo assim junto com os outros três e por uma questão de estratégia e não por ter participado efetivamente da composição, tirando um pitaco ou outro.


Sua mãe foi buscá-lo na delegacia e já no taxi ele tentou já falar de sua mudança, mas sua mãe não deixou: “Espere a gente chegar em casa pra conversarmos”. A ansiedade dele estava no fato de Sra. Anne também ser usuária de heroína.

Assim que pisou em casa lá estavam diversos amigos festejando sua chegada. Todos estavam muito felizes, mas três precauções foram tomadas: não foram convidadas as garotas que costumavam dar em cima de Sid e ninguém iria falar sobre Nancy. Pelo sim, pelo não, tudo deveria partir dele.

Não demorou mais que 10 minutos para oferecerem a ele álcool, maconha, cocaína, heroína e outras bolas. A única coisa que aceitou foi cerveja. Assim que ele recusou as drogas, os que estavam ao seu lado ficaram pasmos e essa reação foi sendo passada pra todos que estavam no apartamento. Sid aproveitou esse momento pra falar de seus novos planos:
“Gente, não quero parecer nenhum padre, mas já que estão todos pasmos digo à vocês que não quero mais tomar nada forte. Essa cerveja aqui já está sendo difícil, mas como bom inglês não resisto. Não quero mais saber de heroína, anfetamina ou qualquer outra coisa química. Respeito quem usa, isso não muda, mas quero que todos vocês respeitem minha decisão e me ajudem a me manter assim. Passei poucas e boas quando estava preso...” Sid Vicious sentou numa poltrona, e todos se acomodaram pra escutar as histórias da prisão e de seu sofrimento pela abstinência.

Os dias que se seguiram Sid, óbvio, foi seguido insistentemente pela imprensa, mesmo depois da coletiva que deu exatamente para acabar com essa perseguição. Durante um jantar ele confidenciou a um amigo de sua mãe que já estava de saco cheio de ser observado o tempo todo. Pra ele a sensação era de que estava todo mundo esperando Sid aparecer caído em algum lugar, doidão de heroína; ou então que matasse mais alguém. Esse amigo, por coincidência tinha uma fazenda que ficava perto da cidade de Niagara Falls (na frointeira com Canadá) e que se ele quisesse poderia ficar lá por um tempo.


Sid gostou da idéia, mas precisava de grana. Foi então que a Virgin o procurou querendo lançar em disco o show que ele havia feito em 1978 no Max’s Kansas City, acompanhado pela banda The Idols com Barry Jones (ex-The Selecter), Steve Dior, Arthur Kane (New York Dolls) e Jerry Nolan (NYD). Pra ele caiu como uma luva porque estava se vendo quase obrigado a fazer alguns shows, coisa que não queria fazer naquele momento. Ganhou uma boa grana da gravadora, comprou algumas coisas que queria como, por exemplo, uma guitarra e acessórios.

A fazenda era em um lugar tranqüilo, bem equipada, grande e tinha um visual maravilhoso. Sid costumava brincar falando que era sua fazenda hippie. Não era um isolamento social, mas sim uma fuga da imprensa, que realmente se afastou. Ele costumava receber os amigos e chegou até a juntar o The Idols novamente. Todos ficaram na fazenda por uma semana tocando o dia inteiro. Fizeram planos para os próximos meses, mas nada foi adiante e não por falta de vontade de Sid.

Dois meses depois de ter saído de Nova York Sid recebeu um pedido da New Musical Express para uma entrevista, ele ficou balançado em aceitar, pediu alguns números para ler e também comprou outras publicações especializadas. Não se empolgou com nada e decidiu recusar a entrevista, mas prometeu procurar a NME caso quisesse falar.

Nesse tempo sempre pingava uma boa grana referente ao Sex Pistols, suficiente para ele ter tranqüilidade. A experiência de tocar com The Idols na fazenda deixou um gosto de quero mais e não demorou a recrutar pessoas em Niagara para fazer um som. Assim pelo menos duas vezes por semana ele fazia um som, e gostava porque não tinha compromisso, só faziam versões e os quatro caras que estavam tocando estavam adorando tocar com Sid Vicious, mesmo eles sendo um pouco mais velhos. Não queriam forçar a barra pra nada. Pra eles já tava ótimo fazer um som.
Passados quatro meses Sid realmente havia abandonado as drogas químicas e nem mais sentia falta de heroína. De drogas apenas cigarro, cerveja e maconha.

Volta e meia ele ligava para para o Sr. Phalows para perguntar da estadia na fazenda e, quando viu que ganharia permanentemente uma boa grana até propôs pagar um aluguel. Sr. Phalows se negou e sempre dizia pra ele ficar sem preocupação. Na verdade para ele era até bom Sid Vicious estar lá, pois era um lugar que não ia há anos. Sid já estava pegando jeito com a manutenção da fazenda e aos poucos ia dividindo os afazeres com o casal que morava lá e tomava conta do local.
(continua embaixo...)

Sid Vicious Hoje - Parte 2 de 2

(continuação...)
Os meses foram passando, volta e meia alguma publicação fazia matéria do tipo ‘Onde Está Sid Vicious’ ou ‘A Verdade Por Trás de Nancy Spungen’, mas isso não abalava mais Sid Vicious. De vez em quando ia a Nova York para algum compromisso particular. Chegou a encontrar seus velhos amigos de Sex Pistols, jantou com John Lydon e ganhou o primeiro disco do PIL autografado, e para surpresa de Lydon, Sid tinha o disco e sabia todas as músicas. Depois de horas agradáveis Sid foi embora, mas voltariam a se falar.

Com Steve Jones e Paul Cook também foi legal porque além deles se encontrarem em Nova York, Steve e Paul chegaram a ir ara Niagara Falls, ficaram uma semana com Sid e fazendo um som. Até fizeram um show surpresa num bar da cidade para 70 pessoas. Os dois ficaram impressionados como Sid estava tocando bem, dominando a guitarra. Comentaram isso com ele, que ficou surpreso, porque Jones era uma de suas influencias. O jeito de Sid tocar chegava perto de guitarristas como Chuck Berry, Wilco Johnson (Dr. Feelgood), Keith Richards (Stones) e Hugh Cornwell (Stranglers).

Claro que com o tempo passando Sid foi fazendo amizades e uma vida social em Niagara Falls. Cidade com muita queda d’água, ela vive basicamente do turismo, por isso há bons bares pela pequena cidade e tem dois ou três que Sid além de freqüentar, também tocava.

Já era início de 1980, o punk estava em plena decadência e três cenas novas eram comentadas: o pós-punk, o gótico e a new wave. Dois fatos mudaram a vida de Sid Vicious: por causa de alguns amigos locais Sid estava interessado na soul music de raiz, dos 1940, 1950, a Motown. Eram coisas que ele nunca teve interesse e que agora era prioridade em termos musicais; ao mesmo tempo conheceu ninguém menos que Quincy Jones. Sim, Quincy Jones! Se encontraram em um pequeno restaurante em Niagara Falls por acaso. Inclusive foi Quincy que foi conversar com Sid. O grande produtor também tinha uma fazenda ali perto. Sid falou de seu recente interesse pela soul music e isso bastou para os dois sentarem juntos. O encontro rendeu muita conversa e o convite para Sid visitar Quincy Jones em sua fazenda que havia um belo estúdio e uma discoteca recheada de soul music.

Na verdade Quincy ia muito pouco pra lá, mas resolveu se afastar um mês para ajudar um familiar que se recuperava de uma cirurgia. Dois dias depois de ter chegado em Niaraga Falls aconteceu esse encontro com Sid Vicious. Os dois se encontravam quase que diariamente pra escutar música, tocar e conversar. Uma grande amizade surgiu e deu mais fôlego para Sid continuar a praticar, mas agora que já tinha mais segurança em violão, guitarra, baixo e até já brincava mais na bateria, resolveu comprar um teclado por influencia de Quincy Jones.

Depois de um ano, naturalmente , começaram a surgir as primeiras composições, riffs, frases. A essa altura o pessoal da região o chamava de John, seu verdadeiro nome. Sid gostava. Foi então para Nova York numa viagem inesperada após um telefonema de sua mãe. Sr. Anne, ao contrário do filho, continuava usando heroína e vivia oscilando entre bons e maus momentos. Volta e meia Sid tinha que ir socorrê-la de alguma crise. Mas o telefonema não era sobre sua mãe, mas sobre Sr. Phalows, que havia morrido e tinha deixado de herança para Sid a fazenda e dois apartamentos em Manhattan, já que não tinha herdeiros.

Foi em 1981 que o agora John deu para o amigo Quincy Jones algumas músicas que havia composto e gravado com seus amigos na fazenda. A intenção era apenas mostrar ao amigo a sua evolução, porque inclusive tinha música que Sid tocava teclado. A fita tinha umas 6 músicas, e em todas elas era Sid Vicious tentando fazer soul music.

Duas semanas após Quincy receber a fita, ele ligou para Sid já a noite dizendo estar em sua fazenda e queria encontrá-lo pois era uma viagem de bate-volta. Duas músicas que estavam na fita interessaram Quincy Jones, que queria gravá-las no novo disco que estava produzindo, mas queria dar outros títulos: “Billie Jean”e “Beat It”. Sid não viu problema e quis saber quem era o artista. Quando Quincy lhe disse que era Michael Jackson, Sid caiu na gargalhada. Só que Quincy tinha que dar créditos a Michael em algumas músicas e ofecereu uma boa grana para Sid cede-las para MJ assiná-las. Ele adorou tanto a idéia de ganhar muito mais grana quanto à de ficar anônimo.

A partir daí Sid Vicious passou a viver de suas composições (sempre anônimo) que já foram gravadas por diversos artistas: B-52’s, Ramones, Michael Jackson, Sigue Sigue Sputnik, Soundgarden, Marvin Gaye, Tears For Fears, Red Hot Chili Peppers, Jane’s Addictian, Guns’n’Roses, Lenny Kravitz, Prince, U2, R.E.M., Janet Jackson, The Strokes, Interpol, Neurotic Outsiders, Velvet Revolver, PIL e até mesmo Justin Bieber.

Agora bilionário e casado desde 1986 com Brenda, Sid Vicious tem 4 filhos e ainda vive em sua fazenda em Niagara Falls. Ah! Ele também tem um bem sucedido negócio de apicultura administrado por sua família.

6 de maio de 2010

Ian Dury

O pub rock merece um espaço único, mas não dá pra falar de Ian Dury sem falar desse estilo que resgatou a raiz do rock’n’roll. Era início dos anos 1970 e o cenário era tomado pelo glam rock, rock psicodélico e, principalmente, pelo chato e horripilante rock progressivo.

Tipicamente inglês, o pub rock foi formado por músicos que não topavam com esse cenário hippie/psicodélico, e de saco cheio da complicação que estava se tornando o rock, esse punhado de roqueiros resolveu resgatar as raízes e trazer de volta o blues, o country, o rock’n’roll 1950.

A coisa toda era seca mesmo, simples nos arranjos, nas letras, em toda a estrutura. Esse estilo ganhou força, mas sempre no underground. Não tendo grandes espaços onde tocar, essas novas bandas resolveram se instalar onde viviam seus criadores e seguidores: nos pubs ingleses. Daí o termo pub rock. Muita cerveja, whisky caubói e rock’n’roll curto e grosso.

Desse cenário faziam parte entre outros: Eddie & The Hot Rods, Ace, Dr. Feelgood, The 101ers, Nick Lowe, Graham Parker, Dave Edmunds e The Stranglers (esse já influenciado pelo punk rock).

Ian Dury estava junto com toda essa rapaziada e começou sua carreira na banda Kilburn & The High Roads, uma das primeiras de pub rock. A banda conseguiu boa repercussão, gravou um álbum, mas lançado quando ela já estava terminando. Em 1975 Ian saiu em carreira solo e assinou contrato com a Stiff Records (reduto de outros artistas do pub rock).

Ian começou tarde, formou a banda quando já tinha 28 anos. Na infância, aos 7, teve poliomielite o que deixou suas pernas atrofiadas e parcialmente paralisadas. Ficou dois anos no hospital, estudou em escolas para deficientes físicos e depois entrou para a Royal College of Art. Se formou, chegou a dar aulas de pintura em diversas escolas, mas em 1970 resolveu montar a banda e levar as duas atividades em paralelo – inclusive tinha gente que achava que com o fim da banda Ian voltaria para as artes, já que não tinha pinta de rockstar. Ledo engano.


Seu 1º álbum ‘New Boots and Panties!’, já com The Blockheads, sucesso absoluto na Inglaterra, somou um milhão de álbuns vendidos pelo mundo. “Hit Me...” e “Sex, Drugs and Rock’n’Roll” foram os hits desse primeiro momento. A mistura que Ian Dury faz é diferente, inclusive na cena que ele faz parte. Ele conseguiu dar unidade a uma salada que tinha pub rock, punk rock, reggae, ska e disco music. Mas no início dos anos 1980 essa mistura inusitada e suas letras bem humoradas não chamavam mais a atenção da mídia e Ian Dury se afastou do mainstream. Foi se dedicar as artes cênicas. Fez participações em televisão e cinema – incluindo ‘O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante’, e ‘Pirates’ de Roman Polanski. Compôs trilhas, jingles e um musical para teatro chamado ‘Apples’.

Só voltou a lançar um álbum novo em 1992, o ‘The Bus Driver’s Prayer and Others Stories’ (mas sem os Blockheads). Irregular. Também em 1992 The Blockheads juntou-se novamente.



Ian ajudava como podia no combate a pólio, era inclusive um dos representantes ingleses da UNICEF, além de ajudar em outras organizações e estar permanentemente envolvido com ações beneficentes.

Na Inglaterra era (e continua sendo) respeitadíssimo, ganhou diversos prêmios e homenagens, gravou com Paul Weller, Madness, Stranglers e é referência para toda a geração inglesa posterior a ele. Dizem que Ian não fez enorme sucesso fora da Inglaterra por conta de seu forte sotaque inglês. Não sei. Só sei que seu som é bom pacas.

Em 1998, pra sair com chave de ouro, lançou ‘Mr. Love Pants’, gravado com The Blockheads após dezessete anos separados. Maravilhoso como seus primeiros trabalhos. Um clássico. Também em 1998 foi diagnosticado um câncer de cólon, que acabou atingindo o fígado. Mesmo assim, Ian continuou seus trabalhos beneficentes e tocando com The Blockheads. Em 06 de fevereiro de 2000 entrou para o Hall of Fame da revista Q e foi ao Palladium de Londres receber as homenagens. Essa foi sua última aparição pública.


Em 27 de março de 2000, perto de completar 58 anos, Ian Dury morreu.

O vozeirão grave, algumas músicas quase faladas, riffs secos e o swing convivendo numa boa com o rock. Ian Dury é coisa fina.


Assista ao filme biográfico 'Sex, Drugs and Rock n Roll'.

Discografia completa de Ian Dury e outros ligados ao The Blockheads, além de textos você pode ler e baixar aqui.

Site oficial


Aqui alguns momentos ao vivo. O show de Estocolmo é perfeito!

Show de Estocolmo (dividido em 5 partes)