24 de dezembro de 2011

2012 com Amor!

Desejo a você um ótimo 2012! Lembre-se de que o AMOR é o combustível do mundo, do ser humano. Sem ele nada faz sentido, sem ele nada anda pra frente.

Amor é se preocupar com o próximo, seja ele quem for. Não reclame de barriga cheia, não fique de mal humor a troco de besteiras, não brigue com o próximo (seja familiar, amigo ou desconhecido) a troco de nada.

Boas vibrações geram boas vibrações. Amor gera amor. Dê o que quer receber de volta. Não se zangue por pequenas coisas, não perca a paciência por detalhes. Produza bons pensamentos que eles voltarão a você. Não culpe Deus por falhas suas ou de outros.

Não brigue no trânsito, na balada e em nenhum outro lugar. Você pode fazer seus dias serem maravilhosos só com bons pensamentos. “A gente é o que a gente pensa”.

Moramos em um planeta que podemos imaginá-lo como sendo um pequeno apartamento. Todos nós somos da mesma família e moramos juntos, só isso já basta para não termos diferenças e se elas existem, então que saibamos conviver com elas. Não é assim dentro de casa, na família? O mundo é nossa casa e quem está dentro dela é da família.

Não julgue os outros para não ser julgado. Somos todos imperfeitos. Todos nós erramos. Retribua o mal humor, o mal olhado com boas energias. Se alguém for agressivo com você ou te ofender (mesmo que por besteira), pense no amor, conte até 10 e siga em frente. Não se rebaixe. Viva o amor. Viva um dia após o outro.

Valorize sua saúde, seus amigos, seu dia a dia, seu trabalho, seu estudo, seus familiares e os bons sentimentos. Antes de reclamar da vida pense nos humildes que estão nos hospitais públicos, nos cegos, paralíticos, nos doentes crônicos. Reclame menos e ajude mais.

Para exercer o amor não é preciso sair como um hippie dando beijo em todo mundo, falando “paz e amor”. Basta passar uma boa energia para o próximo, seja quem ele for (mesmo um gari). Usar a educação básica: bom dia, obrigado, até logo, por favor. O “olho no olho, dente por dente” evoluiu para “amai seu inimigo”, que não precisa necessariamente ser levado ao pé da letra.

Que 2012 seja maravilhoso para você e sua família. Que tudo se realize. Que o bem prevaleça e o AMOR fale mais alto no coração.

Vou tirar alguns dias de folga e, em 2012, o Sete Doses de Cachaça continua firme e forte. Obrigado pelas visitas e divirta-se nesses dias de festas!

15 de dezembro de 2011

Festivais Internacionais e os Artistas Brasileiros

Lobão dias atrás publicou um vídeo onde fala de sua negativa em tocar no Lollapalooza e deu suas razões. Tem coisas que concordei, outras não. Fiquei pensando se, assim como agora há uma lei audiovisual que obriga canais de TV abrir espaço para produção independente brasileira, deveria também haver alguma lei sobre esses festivais de música, que posam de mocinhos, mas o que querem mesmo é sugar o máximo de dinheiro possível, nem que seja vendendo mentira. Fico pensando se não deveria ter uma obrigação de espaço para artistas brasileiros tocarem no dito horário nobre entre as atrações internacionais. Mas isso funcionaria? É certo? Tenho minhas dúvidas... Talvez ao menos obrigar a usar a mesma potência, sei lá.

Por outro lado, se gasta uma fortuna e se tem uma enorme dor de cabeça com os artistas gringos. Imagine o que é trazer um Guns N’Roses, quantas exigências se pede e o tamanho da equipe. Tem artista que inclusive impõe o horário. É barra! Festival é grana mesmo, uma logística doida, e quando você tem uma escalação de peso internacional, a mídia é mundial e se tem mais retorno. Aí penso que o cara trouxe o artista por milhões de dólares, teve uma trabalheira danada e, óbvio, por isso vai querer valorizá-lo e colocá-lo entre as principais atrações. Absolutamente normal. Mas da mesma forma é sacanagem tratar artista brasileiro com indiferença. Tem que haver um equilíbrio.

Agora o que não acho certo é Lobão querer convocar os artistas a desistirem de participar do festival. Aí já é delírio. Para os artistas pequenos isso é um sonho, sendo do jeito que for. Não dá para falar isso no alto de uma carreira bem sucedida, cheia de hits radiofônicos, agenda cheia, fama na mídia, com estabilidade financeira e profissional. Isso não pode. Não quer participar, não participe, mas podia ter feito o contrário, e não só ter dado força a quem for participar, mas dito o nome de ao menos alguns deles (com todo respeito ao que Lobão já fez pela cena independente).

Mas a questão aqui não é essa. Certo e errado, Lobão falou e foi legal. Mas depois de ver o vídeo comecei a pensar sobre a importância desses festivais internacionais para os artistas brasileiros pequenos e médios. Tirando o Rock in Rio 1, nenhum outro revelou ou deu força para nomes nacionais. Nem nas outras edições do próprio Rock in Rio, Hollywood Rock e agora o SWU. Até parece meio forçada a entrada desses artistas menores, porque são colocados em palcos menores, com som de menor potência, tempo curto de apresentação e tratados com desdém nos bastidores. Se eles não se importam, ok.

Não existe, ao menos não consigo lembrar, nessa curta história de festivais internacionais no Brasil, de algum nome que tenha despontado a partir deles. Só Paralamas no RiR de 1985. No RiR 2, em 1991, teve toda aquela história de espaço para novos artistas que seriam escolhidos através de eliminatórias, mas que no final o que pareceu foi um jogo de cartas marcadas. De qualquer forma pergunto: o que aconteceu com os artistas que ganharam o direito de tocar no RiR 2? Cri...cri....cri....

O Hollywood Rock nunca deu espaço para novos nomes. E mesmo em festivais como o Skol Rock, criado exatamente para achar novos talentos, com os vencedores nada aconteceu. Ninguém estourou depois de ter tocado nesses festivais. Quantos shows desses nacionais foram transmitidos na TV? Quantos desses artistas conseguiram ao menos um minuto de entrevista em um grande veículo de comunicação? Cri.....cri.....cri...

No line up nacional há nomes consagrados, médios e pequenos. Cada um tem que se virar para fazer o marketing desde já, e não pensar que só o fato de tocar já vai mudar a vida. Nada disso.

Tenho amigos que vão tocar no Lollapalooza e estão dando pulos de alegria, mas falei pra eles "capitalizar" em cima desse fato fazendo o máximo de shows nos meses que antecedem o festival. Quem sabe uma casa noturna não abraça a causa e faz um festival com alguns desses nomes. Uma espécie de esquenta. Quem sabe isso talvez não chame mais mídia que no dia do show no festival? E põe Lobão de headline!

10 de dezembro de 2011

MTV: Haverá Futuro?

Antes de tudo quero dizer que o título do post é uma clara homenagem ao Olho Seco, que registrou “Haverá Futuro?” na coletânea (do festival) O Começo do Fim do Mundo, que tenho escutado bastante nas últimas semanas...



É difícil pra mim escrever sobre esse assunto. Trabalho nesse segmento. É delicado. Mas acima de tudo sou telespectador. Faço, mas também assisto. Cresci em Brasília, mas não faço política. Tem gente que me fala que isso é um erro, mas prefiro continuar a acreditar no meu trabalho. Em primeiro lugar vem o tesão por ele, até porque nenhum pai passa a mão na cabeça do filho dizendo orgulhoso: “esse aqui quando crescer vai trabalhar em televisão. Vai ser Diretor! Vocês vão ver”. Então a televisão deveria ser feita só por quem realmente gosta disso, mas infelizmente essa não é a realidade. Nela há pessoas que estão em suas posições, mas pensando mais no status, nas trocas de favores, nos bens materiais, na política. O que realmente importa fica em 5º plano. Tô falando besteira?

Claro, sou amigo de produtores, roteiristas, diretores (artísticos, de produção, de fotografia, de arte...), executivos, empresários do vídeo, enfim. Como free lancer passei por emissoras e produtoras e conheci equipes das mais diversas, formas diferentes de trabalho e de se pensar e gerir. Isso não é pra mim. Meu negócio é criar, desenvolver, colocar em prática uma ideia (minha ou não). Faço isso porque amo televisão. Sou tele maníaco e com a chegada a MTV no Brasil vi a possibilidade de trabalhar com minhas duas paixões: música e televisão. Perfeito! Trabalhar lá foi incrível, mas depois ficou esquisito e chato. Pulei fora.

A marca MTV foi muito importante para várias gerações desde quando começou em 1983. Pelo bem ou pelo mal, ela ajudou a construir a cultura pop contemporânea. A MTV Brasil dos anos 1990 deixava artistas estrangeiros de boca aberta. Até Jello Biafra falou bem. Muitos artistas saiam daqui impressionados com as entrevistas e pautas do Gastão, Massari e de boa parte da produção (artistas que passam anos em turnê pelo mundo). Sim, porque muitas vezes as entrevistas também eram feitas off câmera por diretores, produtores e até redatores.

Era muito amor pela música. Dedicação mesmo. A equipe vestia a camisa como se fosse uma banda. Pô, quer coisa melhor do que poder fazer a pauta para uma entrevista com Metallica, Ozzy Osbourne, Red Hot Chili Peppers, Oasis, Ramones, Nirvana, Lou Reed. Pegar um carro e ir se encontrar com esses artistas. Era um prazer. É a sorte de fazer o que gosta e ainda receber por isso.

O que fizeram com a MTV de 1990 até (+ ou -) 1999, depois foi destruído. Nunca entendi, por exemplo, programa de namoro em uma emissora musical (gosto pessoal). Como disse não sou executivo, mas não posso engolir se a desculpa for patrocínio. Então na reunião faltou alguém dizer para o patrocinador que o “M” da MTV quer dizer música.

Também não sou a favor de ser apenas música e só música e mais música. Cultura pop. Namoro na TV definitivamente não é cultura pop. Programa de esporte pode até ser, dependendo de como for feito. Aquele bom e velho Hermes e Renato, de quando eles mandavam as fitas com os programas para São Paulo, não existe mais. Quando era cult, mal feito. Tem o Comédia MTV que é a reformulação de outro que já havia na grade, mas com outro nome. Acho bom, dou boas risadas nas poucas vezes que vejo. Me lembra muito a turma da TV Gazeta de 1987/88: TV Mix, Astrid, Serginho Groisman, Ricardo Corte Real, Grace Gianoukas, Marcelo Mansfield, Ângela Dip e outros. Era bom demais. Mas questiono esse humor em uma emissora como MTV.

Em algumas rodas de conversa pela cidade, seja em um show, bar, festa ou qualquer outro evento, já ouvi de tudo sobre o futuro da MTV Brasil. Até mesmo de que vai acabar. Isso eu acho difícil.

Não sei o motivo pelo qual houve tanto descaso com a emissora nesses últimos 10 anos. A culpa não foi só dos executivos da emissora, mas também de quem, do Grupo Abril, estava designado a tomar conta do negócio. Eu, como telespectador, vejo que o estrago foi tão grande que é preciso recomeçar do zero. A renovação já começou, mas no modo operação tartaruga... por diversos motivos.

Quem gosta de música quer ver, obviamente, programas musicais e é isso que todos esperam da MTV. Programas que mostrem clipes de todos os segmentos. Programas com música ao vivo, shows (como os que o Multishow compra), programas de debates, entrevistas, um bom jornal (o Sportcenter da ESPN Brasil é um bom exemplo de ótimo jornal com um editorial segmentado). Ninguém explora a música como ela deve e pode ser explorada.

Como falei, é ultra difícil pra mim publicar um texto como esse. Apesar de todos os cortes feitos no último ano, ainda tenho muitos amigos na MTV, torço por eles e pela emissora (eles sabem disso). É uma marca muito forte, por isso, não acredito que irá acabar, mesmo com esse momento difícil. O que falta é fazer o que ela fazia muito bem: surpreender.

1 de dezembro de 2011

Série Coisa Fina: 9 - Mates of State

Pense em Eurythmics, B-52’s, XTC, Talking Heads, Stranglers, Duran Duran, Devo, Elvis Costello, Blondie, Ultravox, Trio, Thompson Twins, Tears for Fears, Missing Persons. Artistas que trabalham bem com teclados, música pop de qualidade, coisa fina mesmo. Mas pense também em rock progressivo, em Pink Floyd, Genesis, Yes. Pense também em Carpenters e Abba. Mates of State é um pouco disso tudo, hoje deixando o progressivo, digamos, mais apagado. O progressivo aqui é em relação aos teclados e mudanças bruscas de andamento e harmonia.

Mountaintops, o 7º da carreira do Mates of State é assim: álbum pop de primeira linha, atemporal, com sonoridade moderna, mas soando, ao mesmo tempo, vintage. “Palomino”, “Maracas”, “Basement Money” são maravilhosas para qualquer pista de dança, fácil. E também tem as lindas baladas “Unless I’m Led”, “Mistakes” e “Change”. Lindas!

São 10 músicas que somam 37 minutos. Foi lançado em setembro e é daqueles que, quando acaba, você aperta o play de novo. Ele lembra muito os bons momentos criativos da música pop.

A linda tecladista Kori Gardner sabe muito bem misturar timbres antigos com atuais e assim, por ter noção de balancear esses timbres, é que o som consegue ser moderno e vintage. O baterista Jason Hammel lembra muito Jason Finn do The Presidents of the USA (dois Jason!). Toca com um set pequeno de caixa, bumbo, ximbau, um pandeiro, um tom, surdo e dois pratos (um ataque e um condução). Bateria baixa e ele comprido. Seco, curto e grosso. Com viradas de caixa e muita porrada nos pratos (principalmente nos primeiros discos). Com os anos, a relação com os instrumentos melhorou, a química e a forma de tocar e cantar também.

São vários fatores que chamam a atenção no Mates of State, mas um deles é que é difícil, nos tempos atuais, vermos bandas estáveis, com carreira regular e evolutiva, sem necessariamente estarem na grande mídia como artista e celebridade, essa coisa que engole muita banda. Não consigo me expressar direito, mas quero dizer que hoje, com a tecnologia, todo mundo quer aparecer, e que são poucos os artistas que hoje tem uma carreira firme, feita de maneira gradativa, de forma tranqüila e na maior harmonia, sem polêmicas, atitudes ou declarações para chamar a atenção da imprensa.

Principalmente dos anos 1980 para trás há vários exemplos de carreira sólida e evolutiva: Beatles, Who, Stones, Clash, Stranglers, Elvis Costello, U2, REM, Red Hot Chili Peppers. Já nos anos 1990, com o lance do sucesso rápido, muita coisa surgia e sumia deixando carreira curta e 2 ou 3 lançamentos, sendo significativos ou não. São os tais 15 minutos de fama.

Conheci Mates of State por acaso, em 2003, fazendo pesquisa na rede. Na época tinha acabado de lançar Team Boom, o 3º trabalho. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a formação. Um duo composto pelo casal Jason Hammel e Kori Gardner. É isso: bateria e teclado, com os dois dividindo os vocais. Hoje, apesar de ter um guitarrista como músico de apoio, essa característica inicial permanece e prevalece.

Os dois eram da mesma escola, tocavam em bandas juntos e aos poucos foram fazendo músicas em parceria, sempre nos intervalos dos ensaios ou quando os outros integrantes não podiam ir, eles se encontravam, até que em 1997 resolveram formar o Mates of State. Casaram-se em 2001. São americanos, de Kansas, da pequena cidade de Lawrence, que tem 87 mil habitantes.

No início era um som mais experimental, cheio de notas e partes diferentes, parecendo com o rock progressivo que, de um segundo pro outro, muda a harmonia, o andamento, mas é a mesma música. Os dois praticamente gritam com melodias vocais muito herméticas. Mas mesmo assim lá no fundo dá pra sentir o lado pop. Aos poucos o experimental foi perdendo espaço para o pop, mas de forma natural, numa crescente, nítida evolução em composição e química.

A partir do Bring It Back, de 2006, aflorou de vez o pop. As baladas são incríveis, e quando resolvem fazer algo pra dançar também não fazem feio. Mas outra coisa muito legal e que faz a diferença é o próprio casal que tem uma relação bacana, com duas filhas lindas, que acompanham o Mates of State sempre que podem. Kori inclusive tem um blog (Band on the Diaper Run) onde conta sua aventura de ser mãe artista, posta fotos da família em turnê, as meninas na passagem de som. Recentemente ela abriu um novo negócio junto com outras amigas que é uma agência especializada em babás para artistas. Ideia muito boa.

Esses empresários de festivais (ou não) podiam trazer em 2012 o Mates of State (e também o Stone Roses que anunciou sua volta). Não sei se o duo um dia vai virar um grande nome, mas não é necessário isso acontecer. Mates of State pode continuar sendo para poucos. O importante é que a família esteja feliz e que continue lançado canções que toquem o coração.

Mountaintops é delicioso e lindo. Mates of State é água no deserto e uma prova de que música boa é a que vem do coração.


Band on the Diaper Run
http://blogs.babble.com/babble-voices/band-on-the-diaper-run/

Mates of State
http://www.matesofstate.com/

Quase todos os clipes do Mates of State estão aqui. A ordem é do mais recente ao primeiro clipe. Também coloquei alguma coisa ao vivo onde o vídeo e o áudio estão com boa qualidade.












































24 de novembro de 2011

Vinil, CD, MP3, Partículas de Ar

Meu pai era agrônomo (e eu um agrônomo frustrado...rsrs). Ele tinha alguns hobbies: foto, vídeo e som. Em 1971 ele ganhou uma bolsa de estudos para seu Doutorado e a família morou nos EUA (Columbus, Ohio) até 1973. Lá comprou aparelhos de som de última geração como gravador de rolo, equalizador, duas picks ups, dois decks, caixas.

Sempre que havia novidade meu pai ia atrás. Cresci vendo-o cuidar de seus vinis, gravando coletâneas de 6 horas em fitas de rolo (depois dava festas só para tocá-las), mexendo nos botões do equalizador. À medida que cresci também passei a fazer minhas gravações, coletâneas onde podia usar os dois toca-discos com o equalizador.

Escutar e gravar música eram um ritual. Ligar o som, tirar o vinil da capa e colocá-lo na vitrola, trocar o lado, play-rec, levanta agulha, abaixa agulha, vira o lado da fita, pega capa, anota as músicas, lê ficha técnica, limpa agulha, limpa vinil, calcula o final da fita, lado A, lado B, faz fade out pra música não ser cortada repentinamente, muda o lado, repete ou não a música que foi cortada. Tudo isso uma delícia.

Como já escrevi aqui algumas vezes, por eu ter discos importados, vivia fazendo gravações, mas ao contrário de meu pai, eu não usava o gravador de rolo, apenas fita cassete. Mas além dos discos, a aparelhagem também contava e, por isso, eu me dava bem, porque sempre apareciam outros discos importados e raros em casa para serem gravados. Eu podia gravar duas fitas de uma vez. Como era em tempo real, então se sentava com a capa na mão, a conversa rolava e o tempo passava.

Havia todo um cuidado com o vinil, de não colocar o dedo, guardá-lo de forma correta, não deixar no sol, não deixar deitado. Era caro e delicado, podia riscar, empenar e quebrar. Não era objeto para sair de casa, para emprestar ou deixar qualquer um pegar, principalmente os importados. Uma vez danificado, já era, babau, dificilmente você teria outro.

Lembro-me de quando estava no Guarujá passando um final de semana, acho que era início de 1987, encontrei um amigo de infância do prédio onde tinha apartamento. Muito rico, sempre tinha as últimas novidades. Ele me levou até seu carro e me mostrou seu CD player (CD player, que diabo é isso?). Lembro perfeitamente de pegar o CD na mão e ele dizer que não quebrava, não riscava e que, inacreditavelmente, tinha um único lado. Era o fim do lado A, lado B. Aquilo foi um baque muito grande pra mim. Eu até insisti para que ele colocasse o CD do lado inverso, mas ele me disse que não entraria e não tocaria. Fiquei chocado. O primeiro CD que peguei na mão e escutei foi o Concert, do The Cure. Bom começo, não?

Era tudo importado. Mesmo sendo 1987, tudo isso ainda era coisa que víamos nas revistas e reportagens na televisão. Eu tive sorte de encontrar esse amigo podre de rico que me mostrou a grande novidade. Tinha adorado a ideia de um pequeno disco que você poderia levar para qualquer lugar, e mais leve que uma fita cassete!

Eu fui um que demorei a ter um aparelho de CD, mas lembro bem da revolução que causou no mercado, nas lojas de discos, no espaço físico. Não acreditava muito que o CD iria pegar, não que eu fosse um defensor do vinil, blá blá blá. Mas só parei de comprar vinil quando os lançamentos passaram a ser só em CD. Me entreguei, mas como muitos, não abandonei de vez minha aparelhagem de som. Entrei de cabeça no universo do CD apenas em 1995.

Já não era mais o mesmo apego que se tinha com o vinil. Era até chato ter que comprar novamente o que você já tinha, e constatar a diferença na arte gráfica, a perda do visual. Tudo ficou pequeno. Tudo mini. Esquisito. A geração vinil teve que ter um tempo para a adaptação. Mudança de comportamento.

Mas como o CD tinha mais que o dobro de espaço de um vinil, então era gostoso comprar os importados que vinham com encartes mais ricos e cheios de extras. Teve um lado ruim pelo fato de muita banda gravar mais músicas para tentar preencher o espaço do CD e assim, ao invés de um lançamento ter em média 10/12 músicas, passou a ter 15/18 músicas. Por isso tinha muito lançamento com mais músicas ruins que o normal.

Falei de espaço físico nesse tempo de adaptação, porque teve uma época que tanto as lojas como a casa das pessoas, passaram a ter, além do espaço ocupado pelo vinil, um espaço também para os CDs. Eu mesmo passei a ter problema com isso, já que em pouco tempo fiz uma coleção de 200 CDs. Comprei duas torres de 100 que, óbvio, ocupavam espaço. Até que um dia um amigo me mostrou seus CDs colocados em pastas, apenas o CD a capa e contracapa. A caixinha de plástico ele tirava e jogava fora. Isso foi no final dos anos 1990 e a partir de então passei a guardar meus CDs da mesma forma. Não tenho caixinhas de plástico.

Já que com o CD não havia mais o ritual do vinil, da relação com capa e encarte, da troca de lado, da vitrola, agulha, então abandonei as caixinhas em favor de espaço. Nessa era do CD escutar música já virou uma coisa mais fria, a relação não era tão próxima como era com o vinil.

Pra azedar de vez o ritual de escutar música, surgiu o mp3 (alguém aí já pegou um mp3?). A música deixou de ser algo físico, ficou solta, fundiu-se com partículas de ar e hoje toma várias formas e corre entre os cabos da rede mundial, vai e volta para satélites. CD hoje é só back up.

O bom é que, por isso, a música ficou mais acessível. Hoje se vê na rua, de criança a pessoas da 3ª idade com fone no ouvido. Parei de comprar CD há anos. Muito raro fazê-lo. Ou seja, eu que ficava lá em casa gravando vinil, fazendo mixagem de fita pra fita, usando equalizador, limpando agulha, tendo todo cuidado especial em cada fita gravada, hoje ouço os lançamentos que quero, na hora que quiser e onde quiser. Não vejo capa, não vejo encarte, não vejo ficha técnica. Vejo, mas pela internet e não necessariamente na hora em que estou escutando música.

Nunca antes tivemos acesso tão fácil a música, mas também nunca a relação com ela foi tão fria.

Não sou saudosista, achando que o vinil deve voltar junto com todo aquele ritual. Já foi. Quem viveu aquilo, viveu. Quem não viveu, ok, vive seu tempo... e temos que viver conforme o tempo. Haverá um dia em que teremos um chip na cabeça e, para escutar música, bastará apenas pensar no artista que a música tocará, porque de fato ela estará misturada nas partículas de ar. Será?

17 de novembro de 2011

JP e Seu Cabelo de Maconha

Aperta o Play Produções Esdrúxulas Apresenta:


JP e Seu Cabelo de Maconha*

Desde as 4 da manhã JP tentava se livrar de mais um grupo de ninjas. Dessa vez eram só 3 (no início eram 11). A perseguição começou ainda dentro da Universidade de Roundup (RU), em meio à plantação de milho do departamento de agronomia, e se estendeu para a estrada ao fundo da Universidade, e chegou a 20 quilômetros longe de lá. JP é dono de uma resistência fora do comum, mas isso não impedia de despistar os ninjas, que surgiam do nada a cada instante.

JP chegou a uma vila operária abandonada onde havia várias casas vazias, escolheu uma delas e entrou para se esconder. Entrou e começou a procurar alguma coisa que nem ele mesmo sabia o que era: comida, roupa, arma, qualquer coisa. Acabou achando um cobertor velho e furado, material de limpeza, espetos de churrasco, jornais e revistas velhas. Aproveitou para usar o banheiro e tomou um banho frio, com a escassa água que saía da torneira.

Ele precisava despistar os ninjas e ter certeza de não ter ninguém de olho nele. Por isso, propositalmente corria na direção oposta de onde queria ir. Logo que achou os arquivos no departamento de geografia, teve a ideia de esconder documentos, roupas e dinheiro em um buraco no meio do deserto, 10 quilômetros de distância de Roundup. Agora era preciso usar seus pertences escondidos. Sabendo que todos iriam procurá-lo no Brasil, foi para New Jersey, para casa de um velho amigo dos tempos da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Ali na casa abandonada, entrou em um armário embutido e lá ficou quieto. Não queria sair durante o dia, pois estava muito quente. Então resolveu tirar um cochilo ali mesmo, para sair a noite, quando seria mais seguro. JP saiu da ducha e se enxugou com o cobertor velho e sujo. Quando terminou de se trocar, escutou barulho fora da casa. Olhou pela janela e viu os 3 ninjas procurando-o pelas casas. JP só tinha mais uma cápsula de fumaça, resolveu então pegar um pedaço de seu dreadlock seu e colocar fogo nele. Cortou um pedaço com o canivete, colocou-o no chão no meio do banheiro e pôs fogo nele.

Saiu do banheiro agachado e entrou no armário embutido do quarto onde estava. A fumaça intensa e forte chamou a atenção dos ninjas. Assim que entraram no banheiro, já ficaram tontos com a fumaceira e logo em seguida JP surgiu pegando-os de surpresa e já jogando a cápsula de fumaça no chão que estourou e deixou os ninjas mais doidões ainda. Com três golpes fatais, um em cada ninja, conseguiu escapar de mais essa. Rapidamente ele saiu da casa e entrou em outra. Dessa vez mais nenhum ninja apareceu e quando anoiteceu JP colocou seu plano em prática e foi para New Jersey, onde ficaria por ao menos 2 meses. Ele precisava falar com Simone, mas não podia.
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Roundup é uma minúscula e discreta cidade do estado de Montana, nos Estados Unidos. A população é de pouco mais de 2 mil pessoas. A 20 km de lá fica a Universidade de Roundup, direcionada apenas a pessoas superdotadas, ou melhor, as superdotadas das superdotadas. Ela foi criada em 1923 por um grupo de 5 amigos, também superdotados, que viram a necessidade de se fazer uma universidade especial para pessoas com inteligência fora do comum, e que necessitam de uma atenção especial, diferenciada.

Já como agente da IBE (Inteligência Brasileira de Espionagem) JP foi para a RU. Ela era enorme e, como Brasília, era plana e setorizada. Há as moradias dos alunos, dos professores, dos pesquisadores, dos funcionários. Todos com prédios e casas. Há as áreas onde ficam os departamentos (tecnologia, agronomia, biologia, geografia, medicina, direito...). Quadras esportivas, piscinas, parques, lojas de conveniência, mercado... a RU é como um condomínio residencial desses modernos, de certa forma auto suficientes, onde se mora, trabalha e se diverte.

JP foi para estudar e trabalhar no departamento de sistemas e engenharia da computação. Ele queria mais, mas a princípio seria isso. Ele foi recebido por Simone, uma brasileira paulistana que estava lá há pouco mais de um ano e estudava e trabalhava no Departamento de Biologia. Em toda história da RU apenas 5 brasileiros passaram por lá, incluindo Romero, JP e Simone.

Passados 10 meses de RU, JP já estava bem adaptado ao local e aos novos amigos. No início teve um affaire com Simone, mas agora eram ótimos amigos. Ele havia criado uma festa mensal só com música brasileira e muita caipirinha que, apesar da relutância inicial, acabou se tornando uma tradição, principalmente entre os alunos.

A essa altura também, ele já havia contado seu segredo para Simone, que também já tinha feito testes escondidos com seus dreadlocks, e constatado que eles têm um teor de THC de 34%, bastante superior ao skunk (17,5%). E foi Simone que também ajudou JP a desenvolver as cápsulas de fumaça que tinham um teor ainda maior.

Mas pouco mais de um mês depois de lá chegar e começar a trabalhar, JP desenvolveu um novo sistema de integração da rede de computadores da Universidade. Era algo menos complexo e mais seguro. Mais alguns meses foram precisos para que a direção da RU autorizasse a implementação do novo sistema. Para fazê-lo JP assinou um termo de sigilo de informações e também se comprometeu a não vasculhar o sistema (o que seria bem difícil).

Tudo começou pelo Departamento de Geografia e 80% do trabalho se concentrava no período noturno para exatamente não atrapalhar o expediente normal de aulas e pesquisas. Um mês depois, durante uma madrugada trabalhando na sala principal da Geografia, viu aberta uma porta que sempre ficava fechada. Não havia ninguém no departamento e ele resolveu entrar pra ver o que tinha. Era um pequeno depósito, um almoxarifado, com muita coisa de escritório e equipamento de pesquisa de campo. Ali achou três HDs externos e resolveu pegá-los para ver o que era. Eles estavam encostados em um canto, atrás de umas folhas de cartolina, como se estivessem escondidos para ninguém ver. JP costumava ficar trabalhando até no máximo duas da manhã, mas nesse dia foi até quatro. Em um dos HDs encontrou fotos e imagens em vídeo e de satélites de várias áreas da Floresta Amazônica. Achou tudo aquilo bem estranho, já que falava de algumas bases secretas. Não entendeu muito na hora, mas acabou fazendo um back up de tudo o que viu.

Quase dois meses depois de ter achado os HDs (que foram postos no mesmo lugar), um dia, em um final de semana, voltando pra casa depois de uma corrida pela Universidade, viu que sua casa tinha sido invadida, fato inédito na história da RU. Tudo foi revirado, mas nada foi roubado. Ficou com a pulga atrás da orelha.

Uma semana depois, dessa vez voltando de bicicleta de uma festa, eram 4 da manhã quando um grupo de 11 ninjas surgiu na sua frente e uma longa perseguição se iniciou.
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João Pedro nasceu no início dos anos 1980 em uma fazenda secular no interior de Pernambuco. Até final dos anos 1950 era uma grande plantação de cana de açúcar, uma das maiores do estado. Mas com o passar dos anos a riqueza da família foi se perdendo por maus investimentos dos sucessivos herdeiros. Assim, no final dos anos 1960, início dos 1970, a fazenda passou a investir na plantação de maconha. Governo, polícia e exército faziam vista grossa. Família de muita influência. Os trabalhadores moravam em uma vila de 12 casas dentro da fazenda.

A casa principal da fazenda era uma casa antiga do século 19, com 8 quartos, e se transformou em uma espécie de depósito de objetos de toda família: móveis, roupas, obras de arte, fotografias, objetos de decoração, discos, livros (além da biblioteca com 3.500 títulos), instrumentos musicais, equipamentos de áudio, vídeo e foto. Foi com 3 anos que JP lembra de mexer nas caixas espalhadas por toda casa. Desde então ele adorava tudo aquilo.

De forma autodidata, nessa idade já sabia ler e escrever. Desde que nasceu já se mostrava diferente. Começou a andar e falar mais cedo que outras crianças. Seu desenvolvimento era mais rápido em todos os sentidos.

Na capoeira sempre foi um fenômeno, assim como Pelé no futebol. Apesar de também ajudar no trabalho, sobrava muito tempo para brincar. Gostava também de correr de 10 a 20 quilômetros por dia, sua resistência também era diferente. Suava, mas não mostrava cansaço. Podia fazer uma maratona por dia tranquilamente. Corria por entre a plantação com as palmas das cannabis batendo pelo seu corpo suado, dos pés a cabeça. Vivia descalço e só de short.

Gostava de ler. Na casa, além dos livros em caixa, havia uma biblioteca com 3.500 títulos. Lia uma média de um livro por semana. Eram livros em português, inglês, francês, alemão, espanhol, línguas que dominava naturalmente.

Um dia quando tinha 12 anos conheceu um dos donos da fazenda, de uns 35 anos, que ficou impressionado com a inteligência dele. Com seus contatos conseguiu levá-lo para a UFPE como ouvinte, mas a experiência durou apenas uma semana, já que ele batia de frente com praticamente todos os professores. Os anos se passaram com JP deixando dreadlocks na cabeça, dando aulas para todos da fazenda, correndo pela plantação e desde os 12 se engraçando com as menininhas. Com 14 já era o galãzinho do baile da cidade. Mesmo com tudo isso, JP não era convencido, pelo contrário, era solícito e humilde. E foi também com 14 que experimentou maconha pela primeira vez, já que via aquilo como trabalho. Não sentiu nada. Tentou outras vezes, mas nunca ficava doidão.

Uma vez, durante uma festa no meio do mato, brincando com um graveto de uma fogueira, deixou-o queimar um pedacinho de seu cabelo. Na hora sentiu um forte cheiro de maconha, mas um pouco diferente, adocicado. Não teve dúvida, queimou o cabelo de novo e viu que o cheiro vinha dali. Cortou um pedaço e na primeira oportunidade na festa, pediu maconha a alguém e enrolou um baseado com seu cabelo junto.

Não deu outra: todo mundo ficou mais doidão que o normal e muito mais tempo. Todos queriam saber de onde era a maconha de gosto diferente, mas JP se limitou a dizer que apenas enrolou, e nem tinha fumado. Aquilo o deixou com uma pulga atrás da orelha e a única coisa que veio a sua cabeça depois de passar uma noite inteira pensando, foi a lembrança de correr entre a plantação desde que começou a andar, o contato de seu corpo suado com as folhas de cannabis.

Com 17 JP chegou na UFPE, mas por apenas 6 meses, pois em seguida foi para RU. Nesses anos, continuou correndo por entre a plantação, dava aulas particulares de várias matérias para quem quisesse, também dava aulas de capoeira e cada vez mais se enrolava com a mulherada (também, com sua resistência...). Nas festas da rapaziada, vez ou outra aparecia o baseado especial e todo mundo ficava louco com seu efeito e com o mistério de sua origem.


* Em 2001 fui editor de música do site tantofaz.net e, pra dar um respiro da minha área, me arriscava em escrever algumas histórias ficcionais, mas com tom de veracidade.
A primeira que escrevi foi essa do JP, agora modificada. Gostei desse personagem e passei a escrever uma espécie de novela com ele... ideia há tempos abandonada. Esta publicação é uma mistura editada de alguns dos textos já escritos sobre o personagem. É uma história, claro, puramente ficcional.

10 de novembro de 2011

Rock Brasileiro: 1 - Reflexões {1}



O Terço
Preconceito. Ainda hoje há preconceito com o rock brasileiro, mas atualmente há motivo. Foi isso que pautou a década de 1980, quando o rock chegou ao mainstream.

Preconceito porque era mal gravado, mal produzido, mal tratado. Foi na onda. Era o que dava um bom dinheiro na época, assim como o sertanejo universitário hoje, e o pagode de outros tempos. “Tem uma música boa? Então gravaí, e solta pra vender. Se pegar, legal. Se não pegar chuta fora”. As gravadoras tinham seus genéricos. Todas elas procuravam a sua Legião Urbana, o seu Paralamas, o seu Titãs ou o seu Barão Vermelho. Assim não tinha jeito: era um festival de coisa ruim na televisão e no rádio. Eram 700 nomes para ter 3 bons. Mas o preconceito também era alimentado por jornalistas arrogantes, mas esse é assunto para outro post.

As honestas foram poucas, e também sofriam para gravar seus discos. O 1º do Titãs, do Barão, da Legião, do Paralamas, do Kid Abelha, Camisa de Vênus, Capital Inicial, Engenheiros. Todos sofríveis e todos com suas histórias de luta. Apesar de clássicos, tudo ruim, gravado na raça, que no final das contas não agradou banda, produtor e gravadora. Essa má qualidade gera preconceito. O sonzin chinfrim, radinho de pilha, manja? A culpa não era das bandas, mas o sonzin chinfrim ficou.

Ultraje à Rigor
Algumas conseguiram tirar um bom som, ou por milagre, sorte, algo diferente aconteceu. Por exemplo, gosto demais do 1º disco do João Penca, “Os Maiores Sucessos...”, lançado pela Continental. Ainda hoje o acho bem gravado. Sei que não foi nada fácil, até mesmo trabalhar esse disco numa gravadora diferente, e ainda em 1982. Tem Ira!, Plebe Rude, Gueto, Ultraje, Blitz e outros poucos exemplos de 1º discos bem gravados, ou ao menos com qualidade acima da média na época.

Dificuldade pior foi a década de 1970, com o rock completamente no ralo, feito na unha, com amor, mas absolutamente de canto, apesar dos festivais, dos shows, dos discos lançados, e até filmes, como o Geração Bendita. A ditadura proibia festivais em SP, RJ e onde podia. Apesar disso, as coisas aconteciam, e há discos ótimos que marcaram, como Secos & Molhados, Os Novos Baianos, O Terço, Joelho de Porco, Os Mutantes, Bixo da Seda, Casa das Máquinas. Como nos 1980, tinham que se virar com ou sem gravadora. No caso dessa década de 1970, engraçado que os discos, mesmo os mal gravados, não soam tão ruim como os dos 1980, talvez por não ter o som de tecladinho new wave efêmero. Os timbres também contam muito, e como os próprios músicos faziam tudo (até mesmo o estúdio – quando havia!), então o som tinha um cuidado melhor. Ah! Muitos dos casos também não havia a pressão de fazer para vender zilhões. Não era por isso que os discos eram gravados.

Raimundos
Com o tempo, alguns dos músicos que faziam rock nos 1960, 1970, 1980, passaram a trabalhar nos bastidores, muitos como produtores, donos de estúdio, executivos, e aos poucos foram se equipando para gravar de jingle e MPB, até rock e pop. Isso ficou mais aparente a partir da segunda metade dos 1980.

Outro grande problema do rock brasileiro feito nos 1980 era a forte influência dos EUA e Reino Unido. Poucas eram as bandas que conseguiam escrever em português tendo essas influências gringas. Cantar em português é difícil. Não eram todas as bandas que tinham um bom texto com uma boa composição entre letra e música. Mas fundamental de tudo isso era ter personalidade. Nem preciso listar aqui as que tinham.

É nesse negócio de influência que a geração 1990 se assemelha a geração 1970. A brasilidade, o choro, o forró, a MPB, o folclore – e nos 2000 a bossa nova incorporada.

Agora acontece o contrário, muitos artistas da nova MPB incorporaram o rock, voltou-se a fazer rock / MPB / bossa / psicodelismo. Atualmente se vê uma ultra mega influência de Tropicalismo e da MPB-1970.

Nevilton
O forrócore do Raimundos e o mangue beat de Recife pautaram a década 1990. Também passada a era xixi-coco Collor, aconteceu à estabilidade da moeda e as gravadoras investiram novamente no rock, mas dessa vez com bons estúdios, bom equipamento, produtores e executivos que ao menos já entendiam melhor do negócio. A maioria dos discos feitos a partir de 1994 tem ótima qualidade de produção e gravação, alguns podem derrapar na mixagem e masterização, mas não todos, e isso não acontece mais hoje.

Apesar de a música brasileira estar bastante presente no rock brasileiro, e ele não ser mais uma mera cópia do que é feito nos EUA e Reino Unido, ainda há resistência até mesmo do jornalismo especializado – já falei desse assunto aqui. Jornalistas gostam de reclamar da falta de novidade e quando aparece um raro nome bom, ele também é posto no mesmo saco das coisas ruins.

Vemos festas como a do Multishow, da MTV e outras, e é a mesma coisa, os mesmos artistas, as mesmas apresentações ao vivo, o mesmo formato, as mesmas homenagens. Porque a Tulipa não fez uma apresentação solo? Por que não chamaram o Nevilton pra fazer um som? Há espaço. Porque nenhuma revista faz uma boa entrevista com esses novos nomes em destaque? Não faz uma matéria de 4 páginas, contando tudo, depoimentos, mostrando o perfil e depois pode até se gabar de dizer que foi a primeira, coisa e tal. Porque não se dá capa para esses artistas? Põe todos juntos! Custa uma só capa? Uma só boa matéria?

Barão Vermelho
Pode ser Pop, Pipoca Moderna, Som Três, Roll, Bizz, Revista da MTV, Rolling Stone, Billboard e muitas outras que não citei. Pegue todas elas e me mostre uma que tenha colocado uma aposta na capa ou dado um relevante destaque para algum nome. Tudo isso é uma pena.

Apesar de gostar de nomes brasileiros que estão no mainstream (citei alguns aqui), não são todos que aceito. Gosto muito, como já escrevi, dessa cena pós-punk brasileira; do punk rock do Cólera, RDP, Olho Seco, Inocentes, Lixomania. É muito bom poder escutar, por exemplo, um Cadê as Armas?, um Tente Mudar o Amanhã, um Corredor Polonês, um Panis Et Circences, um Acabou Chorare ou um São Paulo 1554 / Hoje.

Com a situação atual (O Rock Está Morto!...) é impossível saber se ainda teremos uma cena brasileira como foi em 1980 e 1990. Com tamanha falta de apoio, está cada vez mais "cada um por si e Deus por todos".







3 de novembro de 2011

Série Coisa Fina: 8 - Husker Du


Antes de tudo quero aproveitar o momento para esclarecer de uma vez por todas que o que existe é punk rock e hardcore. Todo mundo no mundo todo cria, sei lá o motivo, termos como punk pop, hardcore melódico e já li até mesmo o absurdo poppy punk.

O que todos querem dizer com punk pop? Que tem melodia, harmonia? O punk rock tem isso a começar pelo Ramones. O punk é pop por natureza. Riffs, refrões, harmonia, melodia, tra la la, sha la la, La ra ra, tchubiruba, uouououyeh, tudo isso está na música do Ramones, Clash, Sex Pistols, Generation X, Damned, Buzzcocks, Jam, Stiff Little Fingers, Television, Richard Hell e mais um monte de nomes da 1ª e 2ª geração do punk rock. Cada um com suas influencias, uma mais aparentes que outras. É só escutar com mais atenção os discos dessas bandas que citei e outras. Ter guitarras sujas, vocais gritados e ser barulhento não significa ausência de melodia e harmonia.

Hardcore é outra coisa (como alguns segmentos do metal). É mais radical porque tem guitarras sujas e vocais gritados, mas quase melodia nenhuma. Digo quase, porque no fim das contas o hardcore também tem refrões e melodia (mesmo que mínima em algumas músicas). Exploited, GHB, Discharge (do início), Riistetyt, Rattus, Anti Pasti e outras da primeira leva. Dead Kennedys e Fred Banana Combo são casos a parte, porque transitam nos dois lados muito bem.

Quer nominar essa geração punk / hardcore dos 1990 pra cá,então é só falar punk rock dos aos 1990. Pronto. Hardcore dos anos 2000. Pronto.

Dito isso, vamos ao hardcore e punk rock do Husker Du.

Digo hardcore e punk rock porque HD teve essas duas fases. O hardcore é do início, de 1979 até 1984, com Zen Arcade. Aí veio a fase punk rock que começou em 1985 com New Day Rising. Nesse mesmo ano saiu o 5º disco Flip Your Wig. Todos eles independentes. Depois o Husker Du assinou com a Warner e veio Candy Apple Grey (1986) e Warehouse: Songs and Stories (1987). Em dezembro de 1987 a banda acabou.

O rock independente / alternativo deve tudo a R.E.M. e Husker Du. A diferença entre ela, além do som (claro), é que uma chegou ao mainstream e a outra não.

Husker Du influenciou meio mundo, de forma direta ou não. Você escuta a banda em Pixies, Jane’s Addiction, Jesus and Mary Chain, Dinossaur Jr., Mudhoney, Nirvana, Weezer, Pavement e mais uma penca.

Aqui no Brasil quase não se fala de Husker Du. Algumas pessoas gostam, mas sempre foi difícil pra mim achar alguém que conhecesse bem. Teve um momento na fase grunge, mas mesmo assim nunca foi assunto nas rodas de conversa. Com influência direta tem o Killing Chainsaw e Garage Fuzz.

Os dois últimos discos do HD foram lançados pela Warner aqui no Brasil. Mas mesmo sendo mais comerciais, com mais violões, baladas, eles não venderam. Warehouse inclusive era duplo.

Em 1979 os três começaram tocando no porão da casa do baixista Greg Norton, e ainda tinha um tecladista que durou até o primeiro show. Não rolou química. Husker Du, assim como a grande maioria das bandas punks, começou tocando Ramones.

A banda tinha um diferencial: tanto Bob Mould, quando Grant Hart, os dois compunham e cantavam. Não era nada comum uma banda de hardcore com o baterista cantando. O hardcore do começo não era chinfrin, era porrada, mal gravado, sujo. Não é para os fracos... rsrs.

A banda é de Minneapolis e todos eles se conheceram em uma loja de discos onde Bob Mould trabalhava. Husker Du é o nome de um jogo dinamarquês dos anos 1950 e significa “você se lembra?”.

O primeiro disco, Land Speed Record, foi gravado ao vivo (mais barato), é uma sujeira tosca, tem 17 músicas em 27 minutos. Podreira da boa. Tudo bem, é o pior da banda, mas vale o registro. Fã é fã... e enxerga o lado bom até nas coisas ruins...

O clássico Zen Arcade tem 23 músicas e foi gravado em três dias, praticamente no take one. Apesar de também ser uma porrada só, ele já flertava – em uma faixa ou outra – com a musicalidade futura da banda, mais punk rock e menos hardcore. Zen Arcade quebrou paradigmas sendo, apesar de hardcore, um disco conceitual. Além do fato de ter sido duplo (não era qualquer banda que lançava disco duplo, ainda mais independente). Este foi um disco adorado por crítica e fãs.

Aliás, do primeiro ao último disco a diferença sonora é enorme, mas há unidade. Tudo faz sentido. A discografia do Husker Du comparo, de certa maneira, com a discografia do Clash que, depois de dois discos punks, mais crus, lançou três discos completamente diferentes e com outra direção (London Calling, Sandinista! e Combat Rock). Apesar de diferentes, eles têm unidade. Essa evolução também se vê na discografia de HD.

Mas o legal do Husker Du não é só o som. As letras do Bob Mould e do Grant Hart são muito boas. São existenciais, falam sobre relacionamento, amizade, traição, angustias, mentiras, algumas são cínicas, recados diretos.

A guitarra Flying V de Bob Mould, o bigodâo de Greg Norton e o vocal de Grant Hart eram demais. Como os ídolos Ramones, eles usavam os instrumentos no joelho. Os timbres de guitarra, baixo e da bateria de Hart são bastante característicos. Você reconhece de longe.

Apesar de bastante cultuado no underground, pelos artistas alternativos e outros até grandes, o Husker Du nunca conseguiu sair desse mercado alternativo, vendas baixas, shows pequenos, ralação absoluta. Aí começou um envolvimento de Mould e Hart com drogas pesadas, principalmente bebida. Quando Mould pulou fora dessa Hart, ao contrário, foi para a heroína. Também tinha o lance de uma rivalidade, no começo velada, pra ver quem compunha melhor.

Até por isso a banda era bastante produtiva, tanto é que em 1985 lançou dois discos (29 músicas): New Day Rising e Flip Your Wig, que chegaram a aparecer discretamente em algumas paradas. Boas críticas saíram em revistas mais conhecidas. A crítica sempre falou bem do Husker Du.

Ela foi a primeira banda alternativa dos 1980 a assinar com uma gravadora multinacional. Foi justamente nessa boa fase da Warner que a relação de Mould e Hart não estava nada legal. Pra completar, em 1987 o empresário David Savoy cometeu suicídio pulando de uma ponte, justamente um dia antes da turnê de Warehouse começar. Mesmo assim a turnê foi feita aos trancos e barrancos. Obviamente com o fim da turnê a banda acabou.

Apesar de tudo os três sobreviveram. Bob Mould e Grant Hart continuaram tocando e lançando discos. Greg Norton abandonou a música e abriu um (bom) restaurante na cidade Red Wing. Ele é chef de cozinha dos bons.

É difícil apontar o melhor disco do Husker Du. Mas se você não quer muita podreira, então escute de New Day Rising até Warehouse. Também tem o excelente The Living End que é um ao vivo oficial lançado em 1994 com 24 músicas da melhor qualidade. Esse vale muito a pena.














26 de outubro de 2011

Série O Resgate da Memória: 24 - Joelho de Porco São Paulo 1554/Hoje

No final de agosto postei aqui uma matéria da Folha sobre o disco solo de Gerson Conrad, publicada em 1975. Na mesma página há uma reportagem sobre o Joelho de Porco, mais até: fala do 1º disco da banda, o São Paulo 1554/Hoje antes mesmo de ter uma gravadora para lançá-lo. Clássico absoluto do começo ao fim!


Próspero e Joelho de Porco, o Disco Mais Esperado do Ano


Acervo Digital Folha de São Paulo
Caderno Ilustrada
17-11-1975

Por Carlos A. Gouveia (provavelmente)

Depois de um ano de pesquisas e ensaios, além do trabalho, é claro, Próspero e Joelho de Porco acabam de gravar uma fita com material para um LP. A gravadora? Várias estão disputando essa fita, pois os comentários que circulam pelo meio “rockiano” são imensos, a respeito. Pedrinho, baterista do Som Nosso de Cada Dia, Arnaldo, ex-Mutantes, Juarez Machado, artista plástico e Guarabira, além de Rogério Duprat, “of course”, dono do estúdio Vice-Versa, onde o grupo gravou, externaram as melhores opiniões possíveis sobre as gravações e a atuação dos músicos do Joelho de Porco.

O clima criado em torno do lançamento desse disco foi tal, que o empresário Mário Buonfiglio tem até rejeitado algumas propostas por parte de gravadoras, não por dinheiro, como ele fala, mas pela qualidade que ele e o grupo exigem para o lançamento e perfeita divulgação do disco.

Juarez Machado ouviu a fita, entusiasmou-se e fez a capa com caricatura dos componentes do grupo Joelho de Porco. Mas, é melhor que eles digam. O Joelho de Porco é formado por Próspero Albanese (vocais), Tico Terpins (baixo e composições), Walter Baillot (guitarra, vocais) e Flavinho Pimenta (bateria).

Próspero fala do disco: “Nós juntamos o material musical desde o início do grupo (1970). Nunca tivemos pressa de gravar e, quando gravamos pela primeira vez, na Phonogram, não encontramos apoio suficiente para uma boa divulgação. Gravamos “Se Você Vai de Xaxado Eu Vou de Rock n Roll” e “Fly America”, que tiveram boa aceitação por parte do público de rock e não-rock, mas a gravadora bobeou.”

Sete meses de ensaios e discussões se passaram até que decidiram partir para uma gravação financiada por eles próprios.

“Por que o autofinanciamento?”
“As gravadoras – fala Tico Terpins – se contentam com os 300 mil discos do Martinho da Vila e, por comodismo, não por falta de verba, não investem em coisas novas da música. Tanto é que a nossa maior preocupação cai em cima das letras que retratam a vida dessa cidade que é São Paulo. Como dizia Ezra Pound, os artistas são antenas da raça e eu me cansei de esperar informação das letras de Gilberto Gil e dos baianos em geral. Afinal todos tem 36 anos de idade e o rock ou a nova música popular brasileira se esqueceu da poesia.”

As músicas gravadas por Próspero e o grupo Joelho de Porco, são: “Trombadinha”, “Mardito Fiapo de Manga”, “Lâmpada de Edson”, “Aeroporto de Congonhas”, “Mexico Lindo”, “Cruzei Meus Braços”, “Fui um Palhaço”, “Boeing 723897” e outras. As músicas em que o grupo mais acredita são “Mardito Fiapo dde Manga” e “Boeing 723897”, que retrata o contraste entre o medo no edifício Itália e o medo que o índio do Amazonas tem de viajar de avião.

A produção do disco de Próspero e Joelho de Porco “São Paulo 1554/Hoje” é do próprio grupo. Próspero, antes de se integrar nesse grupo formou o Mona, que teve a participação de Pedro (baixo), Fábio (guitarra) e o excelente baterista Albanese. Nessa época, o Mona contou com a participação do inesquecível Barto (?), nos teclados. (Próspero) Tem 10 anos de bateria.

Tico Terpins começou em 1967 participando do finado grupo “Baobás”, depois passou a trabalhar com Juca Chaves, sendo o autor da música “Sdruws”, “Circo Azul e Branco” e compositor de “Sei Lá Que Tem” (?), gravado por Elisete Cardoso. Entrou para o Joelho de Porco em 1972.

Walter Baillot tem 25 anos, sendo 14 de guitarra com oito anos de profissionalismo. Começou nos “Provos”, integrou também o “Século XX” e tocou com Eduardo Araújo. Entrou para o Joelho de Porco em 1972, após uma estada no Canadá para pesquisa de rock.

Flavinho Pimenta, baterista de 17 anos, dá aula em conservatórios e tocou na Orquestra Jovem do Municipal. Entrou no Joelho de Porco no ano passado, quando Próspero deixou a bateria para se dedicar aos vocais.


17 de outubro de 2011

Ramones (e Eu)


Eu sou mais um que teve a vida mudada depois de ter ouvido Ramones. Ouvi pela 1ª vez em 1980, com 10 anos. Era exatamente “Rock’n’Roll High School” e “Do You Remember Rock’n’Roll Radio?”, “Chinese Rocks”, “Let’s Go” e “Danny Says”. Era uma fita cassete da Mila, minha irmã mais velha (que tinha 13 na época). Nela também tinha Sex Pistols e Siouxsie and the Banshees. Engraçado que, como sobrou espaço na fita que não era virgem, ficou um resto de Pink Floyd que era o que estava gravado antes (bastante significativo, não? Adeus PF!).

Mesmo sendo moleque, me chamou atenção. Meus pais gostavam de rock, não pauleira, mas um bom soft rock, Beatles e sucessos da era hippie e disco. Coisas assim. Então quando escutei aquele rockão, claro que me chamou a atenção. Sempre que podia escutava aquela fita e outras que foram aparecendo.

Mas Ramones é Ramones. Tive a sorte de ter alguns de seus discos perto do lançamento ou na sequência. Em 1982 comprei ‘End of the Century’ e ‘Pleasant Dreams’ que eram, inacreditavelmente, edições nacionais. O primeiro comprei numa lojinha em Brasília, que ficava na comercial da 111 Sul, quadra onde morava. Foi nos fundos dessa loja que rolou um show do Aborto Elétrico.

‘Too Tough to Die’, ‘Animal Boy’ e ‘Halfway to Sanity’ foram três discos que tive a sorte de tê-los na sequência de seus lançamentos. Os dois primeiros no mesmo mês em que saíram e ‘Halfway’ um dia depois (!!!).

Nos tempos de fita cassete se media a importância da banda pela qualidade da fita com a qual você gravava os discos. Da discografia da banda (em vinil) tenho de ‘Leave Home’ até ‘Brain Drain’. Todos os amigos e amigas me davam fitas ou iam em casa gravar. Uns gravavam discos específicos, outros faziam coletâneas. A maioria das vezes as fitas que se gravava Ramones eram das melhores, tipo TDK importada.

Mesmo clichê, é sempre bom lembrar que, sem internet, não tínhamos muitas notícias frescas, principalmente do Ramones e punk rock em geral (até o heavy metal tinha suas revistas). Então, notícias frescas do Ramones nem pensar...

Nos anos 1990, quando já estava na MTV, como todo fã, fiquei chocado com as notícias que chegavam sobre o clima interno na banda. Tive a honra de conhecer a banda por causa do Fúria Metal. Junto com Gastão fiz três entrevistas com ela. Tenho uma camiseta com o autógrafo de todos eles que peguei em 1994.

Acabei de ler Hey Ho Let’s Go – A História dos Ramones de Everett True, e o livro me mostrou que eu não era o único a pensar tudo o que pensava sobre a banda e de como toda a revelação me chocou, mas sem derrubar o mito, claro!

As roupas que eram uniformes, o fato de Johnny não falar com Joey, Joey doente, enfim. Assim como outros fãs também sempre desconfiei a respeito da gravação de algumas guitarras nos discos do Ramones que não foram feitas por Johnny... fato depois comprovado...

Rara foto com Johnny rindo
Não gosto de praticamente nada do que foi feito após ‘Halfway to Sanity’. Há apenas alguns poucos bons momentos. Quando ‘Halfway” saiu, eu já morava em São Paulo, e lembro de ter ido ao shopping onde minha amiga (muito querida Cris Rio Branco) trabalhava. Ela tinha chegado de Nova York no dia anterior e disse que havia comprado o disco indo para o aeroporto, e que eu havia me dado bem porque tinha chegado nas lojas nesse mesmo dia que ela foi embora. Lembro que ela me disse ter visto a loja de disco cheia de pôsteres do Ramones e que não entendia como eu ainda gostava da banda. Falou também que durante o tempo que ficou em NY (acho que um mês) houve alguns shows do Ramones, mas tudo em lugares bem pequenos. Disse que a banda estava por baixo. O pior é que estava mesmo! Mas nunca pra mim.

‘Halfway to Sanity’ é um clássico. Ótimas composições, letras e produção. Disco pesado, e que considero o que tem uma das melhores baterias da discografia. Ritchie Ramone estava muito iluminado nesse disco. É realmente incrível!

De todos os shows que a banda fez aqui só não vi o segundo de domingo, em 1987, e o último, em 1996. Eu vi Dee Dee em ação por duas vezes, e ele descia a porrada no baixo.

Não lembro se já escrevi aqui, mas uma vez tive a grande honra, na MTV, de levar Joey Ramone até o banheiro, onde ele quis ir antes de uma entrevista. Como não tinha ninguém do A&R naquele momento, coube a mim levá-lo. Com meu inglês macarrônico disse a ele que teríamos que subir um lance de escada, e ele resmungou de uma forma engraçada, mas foi na boa. Indiquei a direção e abri a porta do banheiro. Ele entrou já tirando um pente do bolso e se abaixando para se olhar no espelho – ele era muito alto. Tudo isso foi rápido porque a porta logo se fechou e eu, claro, o esperei ao lado de fora.

Na última passagem da banda aqui (no Olympia), eu e Gastão fomos até lá entrevistar Joey durante a passagem de som - sim, durante toda a carreira era a própria banda que passava o som, salvo raras exceções. Lá percebi que de fato o clima não era bom. Senti na pele os boatos que ouvia. Eles estavam em camarins separados. O que era pra ser 10 minutos, acabou sendo uns 20 e poucos. Entrevista curta, mas muito boa. Agradecemos e Joey, muito simpático (sempre, todos eles), entrou no camarim. Juntamos o equipamento e na hora que estávamos saindo, a banda subiu ao palco para passar o som. O clima não estava bom! Inclusive tenho (péssimas e escuras) fotos dessa entrevista e da passagem de som. Joey e Johnny tocavam um de costas para o outro. Comentei com Gastão minha tristeza em presenciar aquilo e a minha decisão de não ir ao show por conta disso tudo. Não fui mesmo. Foi difícil pensar que o Ramones estava ali ao meu lado tocando e eu não estava. Não fui!

Nos tempos de walkman adorava escutar o 1º Ramones e o Leave Home, pois a mixagem que foi feita nesses discos, não sei porque cargas d’água, permitia escutá-lo sem vocal. Lembro também de um dia em 1985, voltando pra casa já de madrugada a pé junto com Danilo, após um ensaio do Filhos de Mengele no Rádio Center, de comentarmos como seria bom ver um show do Ramones. Naquele tempo isso era um sonho impossível, mas pouco mais de um ano estava eu no Palace vendo Joey, Dee Dee, Johnny e Ritchie ao vivo. O tempo inteiro me lembrava dessa conversa com Danilo.

Tive muita sorte de conhecer a banda, sorte de ver Dee Dee em ação e de poder fazer pauta para entrevistá-la. Tudo incrível! Pra mim, o melhor disco da banda é disparado o 'It’s Alive', por ser o resumo da primeira e melhor fase do Ramones (os três primeiros discos). Dos anos 1980 gosto demais de 'Too Tough to Die' e 'Halfway to Sanity'.

Ramones era uma gangue e eu fazia parte dessa gangue.

Ramones é a maior banda entre todas que já existiram no universo, e assim será pra sempre!

Menos é mais!

PS: É incrível o fato dos principais integrantes da banda - Joey, Dee Dee e Johnny - terem morrido em um intervalo de 3 anos e 5 meses. Eles realmente nasceram para a missão Ramones. Terminada, aproveitaram um pouquinho e foram embora.

10 de outubro de 2011

Histórias da MTV: Especial Legião Urbana

Nesse final de semana que passou assisti a programação especial dos 15 anos da morte de Renato Russo que a MTV fez (mas não cheguei a ver tudo). Até me toquei que os amigos Renato Russo e Redson morreram em datas próximas. Dois grandes ídolos meus.

Assisti, depois de muitos anos, o Acústico Legião Urbana, o qual eu fiz a edição especial para Home Vídeo / DVD (foram 3 meses intensos de trabalho). Mas o que passou na MTV foi o especial Acústico com uma entrevista que fiz com Dado e Bonfá, em 1999, intercalada entre as músicas. Era o lançamento do Acústico em CD. Acredito que desde então nunca mais tinha visto esse pgm e ouvido o Acústico.

Na MTV, entre 1996 e 1997 (ou 1997 e 1998?) fiz um programa chamado Arquivo. Era uma mistura de matérias do arquivo da MTV com videoclipes. Era programa que variava entre meia hora ou uma hora de grade.

Era um programa mensal com diversas reprises. A princípio era pra ser produzido com artistas que estivessem com alguma novidade no mercado, seja um novo trabalho, videoclipe, ou uma efeméride significativa e, claro, artistas que tivessem bastante material de arquivo. Era um programa de edição e colagem. Fiz Michael Jackson (e vi de perto seu vitiligo), Madonna, Cure, Marisa Monte, R.E.M., Nirvana e mais um monte que nem me lembro.

Eu, documentarista que gosta pouco de pesquisar, fui a fundo nas pesquisas de arquivo. Não me limitava apenas ao arquivo de matérias jornalísticas, procurava por tudo, até as mínimas participações em programas (seja MTV BR ou EUA / Europa). O que eu achava, eu assistia


Procurava montar o programa de forma cronológica, mas nem sempre dava certo, já que os arquivos da MTV começam em 1990. Quando não era possível, montava de acordo com o material que eu tinha na mão


Alguns programas eram demanda e outros eu sugeria. Horas de decupagem e horas e edição. Não lembro a data certa, mas acabei fazendo um Arquivo MTV Legião Urbana, que deveria ter apenas 30 minutos de grade, ou seja, 22 minutos de produção. Talvez por conta da proximidade do lançamento do A Tempestade (não sei). 


Esse tempo para um programa que ainda deveria ter videoclipes inteiros era irrisório, mas fiz e ficou legal (na verdade não lembro dele rsrs), mas deu certo. Pra mim o programa tendo 10’, 30’ ou uma hora tanto fazia. O trabalho era o mesmo. 


Obviamente ficou muita coisa de fora do Arquivo Legião, mas a medidda em que ia assistindo e montando o Arquivo, vi que eu teria um ótimo programa especial da Legião. Havia músicas inteiras gravadas de alguns shows feitos em SP e RJ. O áudio não era lá essas coisas, mas dava pra escutar tudo numa boa: voz, letra e instrumental. Vi out takes de entrevistas que não tinham sido usadas e, com os dois materiais dava pra fazer um programa de uma hora de grade (48’ de produção).

Anotei tudo e guardei não sei por quanto tempo. Em uma reunião feita no dia da morte de Renato Russo, falei sobre o programa que eu tinha na mão, e rapidamente juntei o material para fazê-lo. Eu só precisava de algumas horas de ilha para montá-lo. Eu tenho um show que a Legião fez em Santos, em 1983 ou início de 84, abrindo para o Paralamas, com Herbert fazendo a apresentação da banda. Usei esse áudio para abrir o Especial e resolvi gravar uma cabeça introdutória explicando o conteúdo do pgm, que foi gravada pelo Cazé. De fato não lembro bem quando e como tudo aconteceu...


Dias depois que o programa foi ao ar, pessoal do departamento de jornalismo me contou que Dona Carmem (mãe de R. Russo) ligou pra lá para agradecer a homenagem, e ainda disse que aquela tinha sido a homenagem mais bonita que tinha visto. Nos encontramos diversas vezes depois disso, mas nunca perguntei a ela sobre isso. Verdade ou não, de fato fiz esse programa de coração. E tudo o que há nele era, até então, inédito na MTV. Não quis fazer nada piegas por conta da morte de Renato. 


Claro que, passados 14 anos de sua exibição, o contexto hoje é outro. Em 1997 não havia You Tube e nem mesmo internet caseira (era para pouquíssimos, mesmo!), portanto o conteúdo exibido tinha um valor diferente de hoje, de material raro e garimpado. Fiquei feliz com o resultado.


PS: Este texto foi escrito ao som do m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o O Descobrimento do Brasil.