28 de abril de 2009

TEM PRA TODO MUNDO


No próximo final de semana, dias 2 e 3 de Maio, haverá a grande festa gratuita da cidade de São Paulo: a quinta temporada da Virada Cultural. Durante 24 horas ininterruptas, o público estimado em torno de 330 mil pessoas, terá centenas de opções de lazer e entretenimento – desde shows dos mais variados ritmos (do samba-rock ao eletrônico, do rock ao romântico brega, releituras dos discos mais significativos de importantes nomes da música brasileira), a apresentações circenses, intervenções e encontros. Ao todo serão 800 atrações, em 150 locais diferentes.


E, como o 7 Doses de Cachaça tem identidade própria e declara abertamente suas preferências musicais, deixo abaixo algumas dicas, sendo que para os dispostos a encarar a maratona de horários malucos (mesmo!!!) o lance é navegar pelo site oficial do evento: http://viradacultural.org/


Avenida São João – John Lord, tecladista do Deep Purple, apresentando seu Concerto de 1969, chamado “Para Grupo e Orquestra”, seguido de Geraldo Azevedo, Marcelo Camelo, Projeto Tim Maia Racional (por Instituto, B Negão, Thalma e Dafé), Tribo de Jah, Cordel do Fogo Encantado, Novos Baianos e Maria Rita.


Teatro Municipal – (artistas seminais da música brasileira tocando na íntegra determinados álbuns passados, da primeira à última faixa): Arrigo Barnabé (Clara Crocodilo - 1980), Egberto Gismonti (Alma - 1986), Tom Zé (Grande Liquidação - 1968), Chico César (Aos Vivos - 1995), Violeta de Outono (idem - 1986), Cama de Gato (Arthur Maia - 1986), Fafá de Belém (Água - 1977), Francis Hime (Orquestra Experimental de Repertório - 1973) e Beto Guedes (Alma de Borracha - 1896).


Estação da Luz – Homenagem à Raul Seixas com Os Panteras, banda original de Raul, Edy Star, Vivi Seixas, Kika Seixas, Nasi e Marcelo Nova.


Praça da República – Tutti-Frutti, O Som Nosso de Cada Dia, Joelho de Porco, Camisa de Vênus, Velhas Virgens, Los Goiales all Stars, MQN, Matanza, Vanguart, CPM 22, Nação Zumbi, Nasi, Ike Willis e Frank Zappa, The Electric Sitar Experience e Central Scrutinizer Band.

25 de abril de 2009

Cazuza responde para Veja

Como disse no blog das Efemérides, foi no dia 26 de abril de 1989 que a revista Veja saiu nas bancas com Cazuza na capa e a manchete “Cazuza – Uma vítima da aids agoniza em praça pública”. Muita gente não gostou, incluindo o próprio artista que, para mostrar sua indignação, escreveu um texto com o título “Veja, a agonia de uma revista”. Reproduzo aqui este texto. Se quiser ler a reportagem de Veja vá para http://veja.abril.com.br/acervodigital/ e busque pela edição de 1989, 26/abril/1989, pág. 80.


"A leitura da edição da Veja, que traz meu retrato na capa produz em mim - e acredito que em todas as pessoas sensíveis e dotadas de um mínimo de espírito de solidariedade - um profundo sentimento de tristeza e revolta.
Tristeza por ver essa revista ceder à tentação de descer ao sensacionalismo, para me sentenciar à morte em troca da venda de alguns exemplares a mais. Se os repórteres e editores tinham de antemão determinado que estou em agonia, deviam, quando nada, ter tido a lealdade a e franqueza de o anunciar para mim mesmo, quando foram recebidos cordialmente em minha casa.Mesmo não sendo jornalista, entendo que a afirmação de que sou um agonizante devia estar fundamentada em declaração dos médicos que me assistem, únicos, segundo entendo, a conhecerem meu estado clínico e, portanto, em condições de se manifestarem a respeito. A VEJA não cumpriu esse dever e, com arrogância, assume o papel de juiz do meu destino. Esta é a razão de minha revolta.
Não estou em agonia, não estou morrendo. Posso morrer a qualquer momento, como qualquer pessoa viva. Afinal, quem sabe com certeza quanto vai durar?Mas estou vivíssimo na minha luta, no meu trabalho, no meu amor pelos meus entes queridos, na minha música - e certamente perante todos os que gostam de mim."


Cazuza

Série O Resgate da Memória: 8 - Paralamas

Entrevista com Paralamas (Herbert Vianna)
Revista MIX, de 86 (Ed. Diagrama)
Herbert Vianna fala como foi a gravação do disco SELVAGEM?

(24/04/2009 - Selvagem? completa 23 anos de seu lançamento)
O terceiro disco do Paralamas do Sucesso foi uma bomba. Em vários sentidos. Primeiro porque o som da banda mudou totalmente no Selvagem? pois, nos discos anteriores, o som do Paralamas era bastante influênciado pelo Ska, Police, Clash e pelo movimento New Wave. De repente, a banda apareceu com um disco, basicamente de Reggae Roots e isso chocou a crítica e o público. Muita gente, a princípio, estranhou essa nova influência e apostou no fracasso da banda. Por outro lado, Selvagem? chegou a vender quase 200 mil cópias em menos de um mês e se tornou um dos maiores sucessos da discografia da banda. Nada como o tempo pra pôr as coisas em seu devido lugar… (PS: ficarei devendo a capa da resvista)

Mix – Como é que pintou “Alagados”, como você compos?
Herbert – Bom, tínhamos a idéia do ritmo aí, um dia ensaiando, pintou um riff de guitarra e eu tinha uma letra em casa, só que era um samba, aí juntando as coisas, senti que poderia ser um lance legal. Mostrei para o Bi, foi na época em que João estava no Sul, por causa do acidente (de moto que quebrou sua perna), aí começamos a tocar e vimos que ficava uma mistura interessante pra caramba, foi um lance até que simples. As letras, na maioria das vezes, fluem normalmente, sem maior trabalho intelectual.

Mix – Aí vocês partiram direto para o estúdio, ou fizeram primeiro uma demo?
Herbert – A gente fez demo de tudo. Eu tenho um gravador portátil, que eu acho muito legal. É um Fostex X-15, mas deu pro gasto. Aí fizemos a demo de todas as músicas, inclusive acho que nas demos, as experiências que fizemos, são bem mais arrojadas que o disco, bem mais experimentais. Acho que no disco, você acaba perdendo muita coisa em função do espaço. Aprendemos muito no disco, mas acho que o próximo será, certamente, mais radical.

Mix - Como foi gravada “Alagados”?
Herbert – Usamos uma percussão eletrônica Yamaha FX 21L, que tem até cuíca. A bateria foi a Tama do João, gravada com bastante ambiência. O baixo, ao contrário do disco passado, foi gravado com amplificador. Essa é uma das manias do Liminha, gravar o baixo no amplificador (muita gente grava os instrumentos ligados direto na mesa). Essa música talvez tenha sido a única música qu eu não usei amplificador pra gravar.

Mix – Quantas guitarras você colocou nessa música?
Herbert – “Alagados” tem duas guitarras base, duas solo e tem uma guitarra ritmo com Phase, bem ao fundo, que foi o Liminha que tocou.

Mix – Quanto tempo vocês levaram pra gravar?
Herbert
– Essa música deu trabalho, porque gravamos tudo com um clic eletrônico, tipo um metrônomo. Depois de grava-la, começamos o resto do disco. Quando fomos ouvi-la novamente, e essa era a música que depositávamos maiores esperanças, sentimos que não tinha ficado como gostaríamos, especialmente a parte da bateria. Refizemos a batera em cima do clic e João mudou alguma coisa na acentuação do bumbo e a música ficou realmente mais solta, com um resultado bem melhor. Aí ficou tão melhor que também resolvi refazer as guitarras, ficando apenas o baixo da gravação original.

Mix – Como foram feitas as bases?
Herbert – Gravamos guitarra, baixo e bateria direto e a voz só como guia. Fizemos isso em quase todas as músicas.

Mix – E “Selvagem?” como foi gravada?
Herbert – “Selvegem?” foi gravada direto, a música tem uma só guitarra e eu usei um amplificador Mesa Boogie, só que usei um pedal digital delay na gravação. Na mixagem usei outro delay em cima do delay que eu tinha usado na gravação. Ficou um resultado super interessante, mas foi gravado direto, quase que ao vivo.

Mix – Como pintou “Selvagem?”?
Herbert – Essa música pintou quando estavam eu, Bi e o João tocando e aí eu tive a ideia do riff de guitarra. Sempre tocávamos porque curtíamos e achávamos legal e foi a última letra que escrevi para o disco. Eu estava passando a limpo as letras do disco, aqui em casa, e já tinha algumas idéias, como o lance de “apresentam suas armas”, aí afastei os papéis da mesa e escrevi a letra em alguns minutos, direto. A base já estava gravada, voltamos para o estúdio, pedi um microfone e, sem mostrar pra ninguém, botei a voz e, felizmente, todo mundo gostou. Liminha especialmente.

Mix – E “O Homem”?
Herbert – “O Homem” tem uma coisa legal, que é aquele refrão “as vezes o covarde é o que não mata”, que o João dobrou o bumbo na mixagem e o Bi, fez uns lances no delay da minha guitarra durante a mixagem. Eu gravei a guitarra já com alguns ecos e, com o delay que ele colocou, ficou demais, aliás, o Bi é especialista nesses ruídos estranhos. Essa música também só tem um baixo, uma guitarra, uma bateria e esses efeitos.
A “Melô do Marinheiro” e o “Marujo Dub” foram gravadas uma em seguida da outra. O lance Dub, foi fazer algo assim como os disco do Clash. Pra te dar um exemplo, no disco “Sandinista”, tem uma música chamada “One More Time” e outra chamada “One More Dub”, que era praticamente a mesma música, só que sem voz e com mínimas modoficações. Tinha também uma do Black Uhuru, que nós adoramos, que chama “Love is Life”, que tem um voocover e acabamos conseguindo um, num lance de sorte, porque é meio difícil arrumar um voocover aqui no Brasil. Nesse dub tem muito voocover, mas também tem lances de simplicidade como os apitos e a flauta de válvula que o Bi e o João colocaram na “Melô do Marinheiro”.

Mix – Vocês usaram um percussionista extra nesse disco?
Herbert – Usamos o Marçal.. Em “Alagados”, ele coloucou toda a percussão: conga, tamborim, cabaça… Tocou também em “Teerã” e em “Você”, do Tim Maia. Tem uma coisa interessante nesse disco. Um instrumento que as pessoas não entendem, que é um som de piano que tem numa música chamada “A Novidade” aquilo é um piano digital. O João tem uns samplers da Emulator e uma percussão que você bota o chip que você quiser. Ele tem um som de timbales, dois com som de piano, tem um gongo chinês, que está, inclusive, na música “Selvagem?” e que, ao vivo, também tem. Aliás, estamos conseguindo reproduzir tudo ao vivo, graças a essas coisinhas digitais que estão pintando.

Mix - “Você” do mestre Tim Maia, deu trabalho?
Herbert
– Apesar de ser, talvez, a música mais simples, deu trabalho, porque já estávamos cansados. Gravamos e mixamos o disco em um mês e meio. Em uma semana fizemos todas as bases, menos a de “Você”, que ficamos enrolando, tipo “é muito fácil, fazemos depois, sabe como é”. Aí acabou que foi colocado um click e tocamos eu e o Bi. O João pôs a bateria depois, pra ficar uma coisa bem precisa e o Liminha tocou teclado. Aliás ele também tocou em “Teerã”. Ficamos entusiasmados e achamos que ele tinha que ir pra estrada com a banda. Em São Paulo, ele chegou a tocar bateria com a gente.

Mix – Alguma música do material inicial foi limitada em “Selvagem?”?
Herbert – Uma música que é em inglês e que é um lance bem diferente do que estamos acostumados a fazer. Era um Country, assim como “Meu Erro” e que se chama “Clever Boy”. Foi gravada nos estúdios da Odeon há um tempo atrás. O pessoal de lá ficou super empolgado, inclusive o presidente gostou muito e mandou a fita pra convenção da gravadora em Londres mas, ao que parece, o pessoal lá de fora não gostou. Talvez pelo problema da pronúncia. Acho que criou um certo clima amargo e decidimos tira-la. Talvez algum dia a gente coloque essa música em algum lado B.

Mix – E o próximo trabalho?
Herbert
– Eletro-Funk-Reggae!!!




Barone escreve sobre o Selvagem?

http://setedoses.blogspot.com/2009_02_01_archive.html

(6º post dessa página)

22 de abril de 2009

O MAIOR SHOW DE ROCK DO BRASIL

Ontem fez um ano que o Capital Inicial gravou seu DVD ao vivo em Brasília. Eu estive lá cobrindo esse show para uma revista especializada de música. E como foi um evento sem precedentes no país – em termos de público e produção – entendo seja bacana reproduzir aqui na íntegra a matéria que fiz.

ELES NÃO DIZEM ADEUS

Os anos 80 foram marcados pelo surgimento de dezenas de bandas de rock no cenário nacional e esse fenômeno se concentrou mais nos principais centros do país à época – São Paulo, Rio de Janeiro e na distante Brasília; As duas primeiras cidades abriram (algum) espaço em suas rádios para essa nova onda, antecipando e propagando a urgência daquela juventude em se expressar.
Aos poucos os grupos foram se sedimentando (outros tantos se diluindo) e algumas bandas se firmaram, caindo nas graças de toda uma geração, fosse pela qualidade, identidade ou mesmo pela própria irreverência nas letras e batidas. São Paulo teve o Ira!, Titãs, RPM e o Ultraje a Rigor como seus maiores expoentes; O Rio, por sua vez, consagrou o Barão Vermelho, Paralamas, Blitz e Kid Abelha; E Brasília atacou com a Plebe Rude, Legião Urbana e Capital Inicial. Mereceram ainda menção honrosa os baianos do Camisa de Vênus e os gaúchos do Engenheiros do Hawaii.

Mas o tempo foi passando e por razões diversas - que envolveram egos, tragédias, drogas, separações, as lamentáveis tendências impostas pelo mercado fonográfico e tudo mais que faça parte no mundo da música - muitos sonhos viraram pesadelos. Ainda assim, das bandas clássicas, o Capital Inicial conseguiu a proeza de se manter vivo e lúcido por todos esses anos, ainda que tenha experimentado sua provação, com a saída e volta do seu vocalista, Dinho Ouro Preto (substituído num período pelo santista Murilo Lima) e, em passado recente, pela troca do seu guitarrista original, Loro Jones, por Yves Passarell.

Superando o baixo astral de pagode-axé-sertanejo que também assolou e contaminou o Brasil naqueles anos, o Capital Inicial retomou o fôlego original lançando em 1998 o álbum “Atrás dos Olhos” e logo depois (em 2000) o seu trabalho mais marcante e popular, o Acústico, sucesso de crítica, com vendas superiores a um milhão de cópias e dois anos de turnê por todo o país.

Na seqüência vieram dois trabalhos de estúdio, “Rosas e Vinho Tinto” (2002) e “Gigante” (2004), e uma justa homenagem às origens da banda através do CD “Aborto Elétrico”, em 2005; E, para finalizar este ciclo, lançaram mais um álbum de inéditas, “Eu Nunca Disse Adeus”, em 2007.

Agora, para comemorar esses últimos 10 anos de sucesso, o Capital Inicial voltou em grande estilo a Brasília para gravar um DVD AO VIVO, em parceria com o canal fechado Multishow, numa data igualmente marcante: o feriado nacional de 21 de Abril, data da fundação da nossa Capital Federal.

O local escolhido para a gravação foi a Esplanada dos Ministérios, uma enorme área livre, cercada pelos mais belos e malditos prédios de Brasília. O público, estimado em quase um milhão de pessoas, fez sua parte nas duas horas de show, cantando alto e em coro os maiores sucessos da banda, inclusive invadindo por várias vezes o palco, o que deu grande trabalho para a segurança.

Visualmente foi uma experiência única, de alto impacto e cercada de requintes - como o cenário idealizado por Zé Carratu, inteiramente pintado à mão; E a iluminação, impecável, que ficou a cargo do inglês Dave Hill, responsável pelos recentes trabalhos ao vivo com Rolling Stones, Led Zeppelin e Pink Floyd; A filmagem (com a direção de Rodrigo Carelli) teve doze câmeras espalhadas e ainda contou com tomadas feitas por rasantes de helicópteros e duas grandes gruas; Essa combinação funcionou de maneira exemplar e lançou a banda a explorar bem o palco e suas passarelas.

O som, que teve a produção de Marcelo Sussekind, estava alto e bem equalizado (se levarmos em conta os limites impostos por uma produção dessa grandiosidade); O Set List, de 24 músicas, foi diversificado e previsível – indo dos sons pesados e antigos deles, do Aborto Elétrico e da Legião Urbana (Fátima, Independência, Que País é Este?, Geração Coca-Cola, Música Urbana, entre outras), aos sucessos da nova fase assumidamente teen da banda (coisas como Natasha, Não Olhe Prá Trás, À Sua Maneira, Olhos Vermelhos, Eu Vou Estar); Teve ainda duas músicas inéditas (Passos Falsos e Dançando com a Lua), além da já tradicional versão de “Primeiros Erros” (do Kiko Zambianchi) e um divertido cover dos Raimundos, “Mulher de Fases”. Como palpite, eu apostaria na música “Algum Dia” (de Pit Passarell) como o novo hit do Capital Inicial, pois, apesar de já ter sido gravada no álbum ‘Rosas e Vinho Tinto’, essa bela canção passou batida naquele CD. E, por se tratar de um registro especial e comemorativo, lamentei (e muito) a ausência de três canções: Descendo o Rio Nilo, Leve Desespero e Mickey Mouse em Moscou. Mas o resultado final, em conjunto, foi muito bom, emocionante até.

Depois do show tudo virou uma grande festa atrás das cortinas; Foi o momento de reunir família, amigos, produtores, fotógrafos, jornalistas e todos mais que viabilizaram e fizeram acontecer o evento sem maiores sustos ou problemas técnicos; O backstage era pura alegria e a comemoração se estendeu até altas horas, em noite de lua cheia em Brasília.

Parabéns para os irmãos Flávio e Fê Lemos, Yves Passarell e Dinho Ouro Preto. Eles têm agora um registro oficial à altura de grandes artistas da música nacional. E o melhor de tudo: afirmaram-me categoricamente que estão longe de dizer Adeus.

16 de abril de 2009

Balcão de Negócios da CBF


Futebol é supérfluo, mas aqui no Brasil é tratado como sendo uma necessidade vital, porém ele está anos luz longe de ser água ou alimento.
Já tive fases bastante ruins na vida e sei o quanto o futebol se torna importante nessa hora: é uma válvula de escape, uma distração que ajuda no psicológico.

Tempos atrás eu não só deixaria de fazer alguma coisa por um bom jogo, como também ia aos estádios!!!
Hoje não dou um centavo para o futebol. Não sou otário.

Fora o futebol dos clubes, tem a seleção brasileira, ops, seleção da CBF, ops, balcão de negócios da CBF.
Sim, a dita seleção hoje é nada mais que um balcão de negócios políticos e financeiros. (A CBF está para fechar um novo patrocínio com a Nike que pode render algo em torno de 65 milhões de dólares anuais).

O cidadão Ricardo Teixeira está há 20 anos comandando a CBF – entrou lá so porque seu sogro na época era o João Havelange. Só esse fato já mostra o quanto de rabo preso existe nessa história toda.

Fico me perguntando: quanto o governo federal ganha por deixar a CBF usar o nome do país para ganhar milhões de dólares por ano? Ela faz serviços sociais beneficentes significantes? O imposto pago por ela é mais alto? Ela ajuda de alguma forma a formação de melhores cidadãos para o Brasil? Dá educação e saúde para alguma comunidade ou algo parecido? Pra onde vão os milhões ganhos anualmente pela CBF? Existe prestação de contas para o governo?
Podia ser assim: essa seleção da CBF (balcão de negócios) poderia ser uma espécie de seleção show formada pelos craques já consagrados (Kaká, Ronaldinho e cia.). Seria como um circo, os Harlem Globetrotters do futebol.

Além dessa seleção circo, teria uma outra mais séria, comandada por quem realmente entende de futebol, que não tenha compromissos empresariais (rado preso) e seria ela formada pelos jogadores que estão em melhor momento – que é o certo. Jogador que está jogando bem naquele mês, naquele período de convocação, independente de qualquer coisa, estaria dentro da seleção séria. Que tal?

Como sei que Dunga e Ricardo Teixeira têm costume de acessar o Sete Doses semanalmente, fica aí minha sugestão.

PS: Tenho outra sugestão, mas essa é para a Seleção e para os clubes: vender camisas oficiais dos times porém sem os logos de patrocinadores. Afinal, quem ganha para promover os patrocinadores são os times e os jogadores e não a torcida. Digo isso pois não entendo o motivo de o torcedor comprar uma camisa ultra cara e ainda ficar fazendo propaganda de marcas que não lhe dão nada.

13 de abril de 2009

TEMPESTADE EM VIENA


Há bons anos atrás fui a um casamento de conhecido jornalista no Rio de Janeiro, na presença de uma barca de respeito formada pelos queridos cariocas Ana Paula Romeiro e Alvim L e pelos meus irmãos paulistanos Yves Passarell e Felipe Machado. Entre tantos fatos hilários que vivemos naquele final de semana de calor senegalesco, o sábado foi especial: começamos o dia enchendo a cara na praia a ponto de confundirmos o horário indicado no convite e perder a cerimônia religiosa numa igreja do Rio Comprido; à noite apavoramos a festa dos noivos no secular Salão Nobre do Fluminense Football Club, para finalmente sermos carregados madrugada adentro a uma balada exxxperta num puteiro em Copacabana.


Era uma das primeiríssimas edições da festa “Ronca Ronca”, que naquela oportunidade fazia um ato de desagravo às recentes investidas da polícia militar contra os maconheiros de plantão nas areias de Ipanema; O ano era 1996 e o episódio ficou conhecido como o ‘verão do apito’ (foram distribuídos centenas de apitos aos banhistas, para que estes ao avistarem a chegada dos guardas, alertassem a turma do fumacê). Desnecessário dizer aqui que os gabeiras transformaram tudo aquilo em piada e que seguem consumindo até hoje seu fuminho às ordas por lá, né?


O cappo da balada e nosso anfitrião era Tony Platão, até então um ilustre desconhecido para mim; Falha lamentável a minha, pois o cara naquela altura já era uma das figuras mais conhecidas da música no Rio e vocalista da extinta banda Hojerizah.


De volta a São Paulo, devendo lição de casa a um indignado Alvim, me virei bastante até achar os álbuns deles; E são duas raridades - Hojerizah e Pele, lançados em 1986 e 1987, respectivamente. Com isso, a alternativa hoje seja adquirir o CD-Coletânea de 20 músicas (remasterizadas digitalmente) que a BMG cuspiu ainda ao final da década passada. Lá está sintetizado o que a banda fez de melhor: um som bem elaborado (que me remete muito a pegada dos Smiths), recheado de letras prá lá de densas (fruto dos profundos delírios de seu maior letrista, o guitarrista Flávio Murrah) e os timbres inconfundíveis de Tony Platão.



A música do Hojerizah nada lembra o rock praiano-descontraído-carioca que invadiu nosso país nos anos 80 (e se tomarmos por base os parâmetros nacionais de sucesso FM da época, aí nem se fala...); Diz a lenda que eles eram rigorosamente ignorados inclusive aqui em Sampa, como anos mais tarde declarou o mesmo perturbado Flávio: “A gente não tinha referência de nada do que estava sendo feito no rock. O Hojerizah chegava no Western (bar carioca onde os Paralamas do Sucesso estrearam) falando de bebida, depressão e sexo...tínhamos dificuldade de apresentar nosso trabalho, hoje seria mais fácil”.



E, como eu curto adoidado a obra deles, me ponho de fora em classificar essa ou aquela música como melhor ou pior do Hojerizah, portanto, a dica para a ‘geral’ é ouvir sem preconceitos a todas elas (que infelizmente não são muitas) para depois cada um tirar as suas conclusões – e de repente, até incluir seus comentários aqui no 7 Doses; Arrisco somente dizer que essa experiência será surpreendente para os não iniciados, assim como também poderá brotar um incômodo revival para outros tantos.

10 de abril de 2009

Série O Resgate da Memória: 7 - Gueto

Essa bela entrevista com Gueto foi feita durante a divulgação do segundo disco ‘E Agora Pra Dançar?’ Esse é um verdadeiro clássico do rock brasileiro, um disco impecável em sua produção e em suas músicas. Por que a coisa não foi pra frente eu não sei dizer, mas que Gueto era uma grande banda, isso era. Podia estar aí fácil, ainda mais nessa onde de acústico – seria lindo um do Gueto.
‘E Agora Pra Dançar?’ é um clássico absoluto porém bem pouco conhecido. Uma pena. Uma injustiça. Nesse dia 13 de abril seu lançamento completa 20 anos e eu de forma alguma poderia deixar passar essa data em branco.

ENTREVISTA GUETO
Revista Bizz – Edição 39 – Ano 4 – Nº 10 – setembro / 1988
Por Bia Abramo


Que expectativas vocês tinham em relação ao primeiro disco Estação Primeira?
Edson: Aquelas que a gravadora deu pra gente... (risos). A banda tinha seis meses, gravar um disco já era uma puta coisa legal. Você, com toda sua experiência, acredita em tudo o que te falam e não é bem isso. A inexperiência da banda faz com que você acredite num ufanismo, tipo vai acontecer, vai dar certo...
Márcio: Ah, mas acho que isso foi mais por parte da gravadora. Por que pelo que acontecia realmente, pelas rádios e pelo público, a gente imaginava que ia acontecer que a gente ia vender legal, mas que não ia ser um puta estouro logo de cara.
JC: É, mas eles estavam esperando isso. A gente nem estava esperando tanto, mas a gravadora estava. Tanto é que o orçamento do primeiro disco foi o de um disco estourado, tipo um Roberto Carlos. Eles gastaram uma puta grana, e a gente ficou quase três meses no estúdio.
Edson: Tudo que a gente falava, imaginava, podia. A gente pensava num trombone: “Ah, vamos chamar o Raul de Souza”. Para a gente, na pior das hipóteses, isso acabou sendo lucro. O único problema é que a gente ficou traumatizado porque uma hora a gente teve que pôr o pé no chão.
Márcio: Nós gravamos no plano cruzado e lançamos no começo da volta à inflação. Foi bem difícil, mudou tudo de uma hora pra outra.

Quer dizer então que as expectativas da gravadora foram por água abaixo?
Edson: Tem mais coisas que rolam. Naquela época a gravadora estava avaliando que o rap ia estourar e o Gueto era um representante. “Kátia Flávia”, diz o pessoal lá da gravadora, estourou sem fazer esforço e, obviamente, quando alguma coisa estoura sem esforço, é aí que a gravadora faz divulgação em massa – põe em novela, faz propaganda, etc. Esse estouro de “Kátia Flávia” atrapalhou a gente.
JC: Além disso, a gente não é uma banda rap. Tem só uma música mais rap, “GUETO”, que a gente não concordava em ser a música de trabalho. É, a gente não foi muito bem trabalhado. Mudou o pessoal de divulgação de rádio, puseram uma tonta lá que não fazia nada, ficava lixando a unha o dia inteiro. Eu achei que o nosso primeiro LP foi super mal dirigido.
Edson: Se fosse feito o LP com a metade da verba e a outra metade para a divulgação, teria muito mais resultado.

Bem, tudo isso é a parte da gravadora. E vocês, entraram nessa trip de super produção e se decepcionaram?
Edson
: A gente ficou meio traumatizado. A gente teve uma experiência de produção que não condiz muito com a realidade da banda. Então resolvemos partir pra outro processo de gravação nesse novo disco. Resolvemos gravar mais como uma banda. E também tem o lance da introdução dos teclados que ajuda na composição harmônica, fica mais cheio.

Como é que o Valdir entrou?
Valdir: Eu já conhecia o pessoal antes – eu ia muito em shows, era fã. Em janeiro desse ano, eles me convidaram para participar de um ensaio e eu topei.
Edson: De fevereiro a maio, a gente fez oito músicas novas. Esse foi outro problema do Estação Primeira: a gente ficou trabalhando tanto, fazendo shows, que na hora de gravar o próximo LP, a gente nem estava preparado pra isso. Essas composições (do disco E Agora Pra Dançar?) foram feitas no maior gás. Claro, a gente tinha idéias, letras, mas é difícil o processo de composição.
JC: Nós gravamos e mixamos em um mês. Trabalhamos todos os fins de semana. A gente queria muito gravar no Nas Nuvens com o Paulo Junqueiro e ele tinha algumas coisas pra fazer – ele acabou de gravar e foi pra Portugal no dia seguinte produzir o Xutos e Pontapés. Então se a gente quisesse fazer naquele estúdio e com aquele produtor, a gente tinha que gravar em um mês, naquelas condições. O resultado eu achei bom... Você não achou?

Eu achei que o som ficou mais simples do que era no primeiro disco.
JC: Mais simples... É, no outro a gente usou bastante sampler, bateria trigada. Esse foi bem rock’n’roll.
Edson: Nós tentamos melhorar coisas que foram falhas no primeiro disco, melhorar os arranjos, as letras...
Márcio: O que mudou nesse disco foi que não teve participações.
JC: É, a gente fez tudo.
Edson: Se a gente quisesse chamar participações especiais, até podia chamar, a gente até poderia, mas pelos arranjos a gente achou que não havia necessidade. A gente queria o Gueto, a banda que faz sucesso em show. Procurar a simplicidade do Gueto dentro do disco, uma coisa que no Estação Primeira não tem.
JC: É arriscada esse história de ter muitas participações no disco, ma não ser que você tenha muito tempo; daí dá pra estudar com calma.
Edson: A gente também pode estar numa fase de curtir umas coisas mais vazias e de repente, no próximo disco, mudar isso. Não tem uma coisa aprisionada, é uma questão de época. Acho que todo artista pop tem esse direito de mudar o seu trabalho.


Edson, você falou que o artista pop tem o direito de mudar o seu trabalho. O que mudou no Gueto, além dos acertos técnicos?
Edson
: Toda vez que se faz um disco, no próximo se pretende uma evolução. Tem que fazer um trabalho que soe bem, que você coloque na vitrola e seja audível – e no nosso caso a gente tem a ambição de fazer um som moderno – e que também soe bem no rádio. Nas rádios tem compressores, mil coisas que alteram o som. O Estação Primeira, que tem um puta som na vitrola de sua casa, na rádio não soava com definição, principalmente o vocal. E no Brasil, e acredito que no mundo, todas as pessoas estão a fim de ouvir a letra, o vocal. Se você pegar o Brasilzão afora, as pessoas que não tem muita informação musical querem ouvir o vocal. Esse próximo vai ser mais definido. Ah, você tinha perguntado das mudanças... Eu acho que a gente conseguiu manter a personalidade do trabalho.
JC: A gente é uma banda de rock, pô! Tem baixo, tem bateria, tem guitarra, tem vocal, e a gente ensaia sempre junto. Hoje em dia, com essas coisas de house music, de tecnologia, isso não é muito comum... Música de sucesso tem bateria eletrônica, tem uns detalhes e depois vem a melodia, isso que é uma produção moderna. Esse tipo de produção foi tentada no primeiro disco, mas, como a gente não era isso, foi por isso que a gente não gostou muito, e que não funcionou direito.

Tentou quem? O Produtor?
JC: Sim, o produtor. “Vocês são uma banda moderna, então vamos ter que gravar moderno”. Não sei se é isso... Você pega o Talking Heads, não tem um exagero de produção. A gente não devia ter feito esse tipo de coisa.

Então, talvez em função desse tipo de produção é que puseram vocês no balaio do rap?
Edson: Eu acho que você pegou num ponto legal. O Gueto, não vamos negar, estava super influenciado nessa época pelo hip hop – e a gente continua ouvindo até hoje – mas com uma sonoridade de uma banda de rock, não como uma sonoridade de uma banda de hip hop.
JC: No hip hop é tudo eletrônico. Pô, o Edson toca bateria, por que vamos gravar com uma bateria eletrônica? A gente compôs a música com bateria acústica, então ela tem que ser gravada como ela foi feita, não pode fugir do padrão da banda. Isso é que falta aqui no Brasil, um produtor que entenda o que a banda faz e grave como tem que ser.
Edson: Tem experiências interessantes mesclando as duas coisas, usando efeitos em cima daquilo que é acústico, dá pra conseguir timbres interessantes. Basicamente os timbres modernos, de bateria eletrônica, estão tentando cada vez mais chegar próximos da bateria acústica. Então pra quê? Se estou lá me esforçando? A gente está caminhando mais em direção à personalidade da banda.

Boa, então defina. Qual é a personalidade da banda?
JC: A gente é uma banda de rock que gosta muito de música negra.
Edson: É isso aí. Uma banda de rock branca...
JC: ...metida...
Edson: ...que gosta de música negra, não só de funk.

O que vocês acham do que está acontecendo no rock nacional agora?
Edson: Agora está totalmente ligado a situação política do país. A gente ouve cada coisa que dá medo, a coisa está indo para um buraco negro; ninguém sabe o que vai acontecer. A próxima invasão do brega... todo mundo fala que o rock vai sobreviver, mas amedronta. Os poderosos das rádios FMs é que mandam no gosto da povão. Se os caras inventarem de acabar com o rock, vai existir o rock de uma outra forma, mas não vai existir mais ao nível de Paralamas e Legião venderem 800 mil cópias, estouros tipo RPM. Se bem que essas bandas, embora toquem rock, já estão no contexto da MPB. Não vai existir um grupo pop brasileiro com uma concepção americanizada ou inglesa... Não sei, acho difícil.
Márcio: O Gueto não é uma banda do Plano Cruzado. Todas as bandas do Plano Cruzado venderam, todas as bandas depois do Plano Cruzado não venderam.
JC: Todo mundo gosta da gente quando vai ao show. Acho que falta o apoio da mídia, tipo a mídia comprar a gente.

Você acha que só dá certo se a mídia comprar? Como a Folha de SP com os Titãs?
JC: Não só assim, não, mas é um processo mais demorado. O que acontece aqui é que tem uma distância muito grande entre a imprensa escrita e a mídia de rádio. A crítica é mais informada, pesquisa mais. O pessoal da rádio vai mais pelo que pega.
Márcio: O legal disso tudo é que as pessoas que a gente conquista são pessoas que vão ao nosso show e gostam. E essa propaganda é ótima. A melhor propaganda da gente é a gente mesmo.

Vocês fizeram uma letra politizada em “Balaio de Gatos”, coisa que vocês nunca tinham feito. A letra reflete uma preocupação nova de vocês? (Leia mais abaixo o post ‘Musica de Protesto’)
Edson: Acontece que a gente é “super era 70”, pela idade é todo mundo setentão (Nota: dos anos 70). Todo mundo viu essas mudanças, eu vi o Brasil sendo campeão, eu vi o Brasil virando um país rico, eu vi meu pai ganhando grana e eu vi tudo isso mudando. Então era importante retratar toda essa situação e colocar nosso pé atrás com o que está pra vir...
JC: Essa letra fala do Plano Cruzado, é uma letra meio histórica. A gente sentiu que a situação está uma merda, então a gente fez uma letra sobre isso.
Edson: Foi o que a gente passou, é o que a gente está passando.
Marcola: Eu acho ela legal, porque é uma letra política com uma música pra dançar. É difícil fazer isso.

7 de abril de 2009

PRO CÉU AZUL

Começo o “Lado B do Pop Rock Nacional” com uma banda de São Paulo chamada Hip Monsters, falando especialmente do álbum mais divertido deles, Música Popular do Espaço. O HM foi formado no início da década de 90 por figuras conhecidas do meio artístico daqui: Johnny Monster, Jeff Molina, Gastão Moreira, Eriberto Leão e Zé Luiz Zambianchi.

O projeto, por si só, já era uma loucura - os músicos assumiram codinomes lunáticos, a galera que participou da concepção geral era chamada tripulação, ao vivo havia todo um mis en scène de trajes, luzes e efeitos (lembro-me bem de um show histórico deles no antigo KVA) e as dez músicas do CD abordavam exclusivamente a temática espacial; Segundo me confidenciou recentemente o próprio Johnny, tudo foi cuidadosamente regado à experiências ácidas, se é que vocês me entendem...

E a sacada dessa viagem foi gravar uma seleção de quase todos os ritmos possíveis - rock, pop, ska, funk, pós punk, industrial, balada, progressivo, até (ufa!!) uma boa dose de música eletrônica; Concordo que quem ainda não ouviu o som pense ser pura falta de identidade musical deles, mas quero crer que o elo central daquela desgovernada nave eram as letras hilárias, além do cuidado nos arranjos.

Volta e meia eu encontro com o Johnny e o Molina pela noite (aqui da Terra mesmo), ambos seguem na música com seus projetos - Daniel Belleza & Os Corações em Fúria e o recente disco-solo lançado pelo Johnny; O Eriberto se firmou como bom ator de TV; Agora, o Gastão (ex-VJ daquela fase áurea da MTV e Cultura) e o Zambianchi se mudaram sabe lá pra qual planeta...(inclusive se alguém souber do paradeiro deles, mande notícias).

O Sete Doses de Cachaça agradece a preferência, alerta que durante o vôo é proibido o uso de aparelhos celulares e deseja a todos uma Boa Viagem.

Em tempo: o título desse post é uma saudosa lembrança do grupo Patrulha do Espaço, no seu clássico Columbia.

4 de abril de 2009

Cazuza só no Sete Doses

A página inicial do meu computador é a do UOL. Quando liguei dei uma passada de olho rápida e logo vi na cara, como uma das manchetes principais, reportagem sobre os 15 anos sem Kurt Cobain.

Aí lembrei que este sábado seria aniversário de Cazuza. Aí comecei a procurar por notícias a respeito dessa data tão legal. Percorri o UOL, IG, Terra, G1, Wiplash, Folha on Line, Estadão, O Globo e outros. Em nenhum desses canais vi nadica de nada sobre Cazuza. Vi coisas de Kurt Cobain, Madonna, Paul McCartney, Micheal Jackson, Lilly Alen e até ex-SPice Girl.

Todo mundo perdeu a chance de fazer algo bacana a respeito da data: uma matéria, uma programação de rádio especial, depoimentos e entrevistas, enfim. A rede Globo ao menos colocou essa semana aquele filme horroroso Cazuza - O Tempo Não Pára. É ao menos alguma coisa...

Aqui no Sete Doses fiz minha pequena homenagem. Uma pena esquecerem disso. Porque será que brasileiro não tem memória?

3 de abril de 2009

Série O Resgate da Memória: 6 - Planet Hemp



Dia 1º de abril ‘Usário’, primeiro disco do Planet Hemp foi lançado e agora em 2009 esse lançamento completou 14 anos. Legal que um ano e um dia antes foi lançado o 1º Raimundos. Dois clássicos absolutos dos 1990. Sem eles a história seria outra.

Lembro de dois ótimos shows do Planet Hemp: um no festival Juntatribo, que por razões óbvias não me lembro de detalhes e outro, arrebatador, aconteceu no Aeroanta, abrindo o show de lançamento do Raimundos.


Lembro de nós (eu e Raimundos) no camarim, em meio a neblina, na parte dos fundos, tentando descobrir sobre aqueles cariocas esquisitos sentados quietos no camarim. Até oferecemos para eles que timidamente recusaram (quem diria, não?). A gente lá conversando e imaginando o som da banda. E chegamos a conclusão de que poderia ser uma banda de metal (???). Sei que na hora do show todo mundo ficou de boca aberta. Um sonzão porrêta e diferente de tudo que havia em SP. Lembro que corri para a UM (Unidade Móvel) da MTV, que estava lá para gravar o Raimundos e pedi para que gravassem ao menos alguns minutos daquele show porque poderia valer a pena tê-lo nos arquivos.

Bem, eis aí minha pequena homenagem a esse disco tão importante. Trata-se de uma entrevista feita pela Folha de São Paulo bem na época do lançamento.


O grupo Planet Hemp lança seu primeiro disco e aquece a questão da descriminalização da maconha
20/03/95

Folha da São Paulo
Autor: ANTONINA LEMOS
Editoria: FOLHATEEN Página: 6-5


Se você ouvir o grito "Legalize Já" tocando no rádio não se espante. Essa é a música-chave do disco "Usuário", da banda de rap carioca Planet Hemp.Como já deu para perceber, eles são a favor da legalização da maconha. Mas o trabalho dos caras é mais que isso. Eles misturam letras cantadas em ritmo de rap com guitarras pesadas e batuques de samba.A Folha conversou com Marcelo D2 e Bnegão (vocalistas), Bacalhau (bateria), Rafael (guitarra) e Formiga (baixo) sobre rap, drogas e o disco, que vai ser lançado em abril pela Sony.

Folha — Por que vocês falam tanto em legalização da maconha?
Marcelo — Nós falamos da nossa realidade, do que a gente faz. Mas isso é uma opinião nossa. Não queremos ser cabeça de movimento nenhum de legalização. A gente quer que legalize, mas a gente não carrega bandeira nenhuma.

Folha — Mas qual é a opinião de vocês sobre o assunto?
Marcelo — No Rio de Janeiro morrem no mínimo seis pessoas por dia por causa do tráfico. Isso tem que acabar. O governo tem que tomar conta, vender por um preço barato e fazer campanha como faz com o cigarro. Álcool faz muito mais mal que maconha, só que a indústria do álcool dá muita grana. O que não é certo é um jovem que fuma maconha levar dura da polícia.

Folha — Vocês já tiveram contato com a indústria do tráfico no Rio?
Marcelo — Eu morei até os 14 anos no morro do Andaraí e quando era criança cheguei a fazer "pequenos trabalhos" para os traficantes. Só que mudei para o asfalto e saí dessa. Quase todos os meus camaradas da época morreram. O único que não morreu está preso.

Folha — Falando um pouco de som. O Planet é um grupo de rap?
Rafael — Não, é uma banda de rock.
Marcelo — Na verdade são duas bandas. Uma é de rock e outra é de rap. Só que a gente juntou e deu nisso.

Folha — O pessoal do rap aceitou bem essa mistura?
Marcelo — Não, eles achavam que a gente estava deturpando o movimento. Achavam um absurdo uma banda misturar rap com guitarra e bateria. Quem apoiou foi o pessoal do rock.

Folha — Deve ter sido difícil para a banda sobreviver após a morte do Skunk (vocalista da banda que morreu em junho do ano passado de Aids)...
Bnegão — A gente nem gosta de falar nisso. Ele era quase meu irmão. A banda quase acabou na época. A gente não conseguia pensar em nada.
Marcelo — Não dá para falar nisso sem ter vontade de chorar. Esse disco é em homenagem a ele. O Skunk era nosso amigo, era um cara cheio de vida. É bom deixar isso claro: ele morreu porque transou sem camisinha. Que sirva de lição. Gente, não transe sem camisinha!

2 de abril de 2009

Série O Resgate da Memória: 5 - Cazuza


Neste dia 04 de abril, se estivesse vivo, Cazuza faria 51 anos e certamente não estaria satisfeito com tudo o que tem acontecido no Brasil e no mundo. Em homenagem a essa data posto aqui uma matéria feita com ele na revista Bizz de maio de 1986.

EXAGERADO

O Rio de Janeiro continua lindo... se você olhar para cima, ou de cima. Muita fumaça, muito trânsito que entram em ebulição com o cheiro de maresia, já meio acre. Mas Cazuza mora lá, e preferiu a visão de cima para baixo - uma pequena cobertura na zona sul. Do lado esquerdo, a pedra da Gávea e as montanhas, "que lembram seios de mulheres", como ele gosta de vê-las. Em frente, o Jockey Club, onde às quintas-feiras, Cazuza e seus convidados têm um espetáculo pronto -luzes, binóculos e cavalos em ação. "Veja", confidencia ele, "a primeira entrada, menos pomposa, é a da gentalha. Bem em frente. Ótimo! Os bookmakers da esquina, o pessoal da favela, todos descem, na maior função, para apostar cinco ou dez cruzados. Ali, mais para a direita, é onde entra a burguesia."

Não é à toa que ele foi morar lá. Nestas duas entradas podemos resumir a pessoa de Cazuza; aquele que entra pelo portão nobre e, depois do décimo copo, sai saltitando pelo da gentalha. É o exagerado, muito mais até do que diz a própria música. E faz disso sua arte. A preferência pelos temas agonizadamente românticos está no sangue: "Estas letras têm a ver com o pessoal que conheço, noturno, complicado que nem eu. Gosto do lado marginal da vida. Adoro ir para as biroscas, bater papo com malandros, prostitutas, pessoas que são felizes, fazem festa, mas no fundo são muito solitárias. Estou do lado dos derrotados e isso é poesia" E Cazuza vai mais fundo: "Elas não estão em conexão com nada do que está rolando e, por isso, estão mais próximas de Deus. E, também, faço meio um deboche disso tudo."

É o caso de "Exagerado", um deboche do trabalho anterior e da pretensão de Cazuza fazer uma letra meio beat. Mas aí o Zeca (Ezequiel Neves) chegou e disse: "Ora, você não passa de uma Dolores Duran". Ah! Mas você tem musas, ou não? "Muito difícil eu fazer uma letra inspirado num fato real. Tem duas: ´Mal Nenhum´ é bem minha mesmo, de uma fase que nem eu me agüentava, andava meio agressivo. E o Lobão estava parecido comigo. Compusemos a música no apartamento, jogando ovos por todos os lados, até as quatro da manhã. Chamaram até a polícia." Parênteses: todas as parcerias são mais ou menos assim. Começam numa conversa de bar e acabam de madrugada, em louca composição. "Também ´Boa Vida´ eu fiz quando estava apaixonado, ótimo mesmo. O resto é historinha que eu invento."

Outro caso real é a letra que Waly Salomão fez especialmente para Cazuza, cujos versos "Eu sou a boca do lixo na boca do luxo na boca do lixo" resumem bem seu pique. "Eu e Waly nos hospedamos num hotel na Bahia, o Méridien, que só recebe bem turista francês. Um dia, naquela displicência bem característica dos baianos, fazia quarenta minutos que eu tentava falar com um amigo e não conseguia linha. Fiquei puto, arranquei o telefone da parede e saí nu pelo corredor, gritando." O que horrorizou os hóspedes. A história continua: "Waly saiu do quarto e disse: ´Que coisa mais Antonioni. Uma pessoa nua, com o telefone na mão e ninguém ouvindo´. Daí ele fez a letra. Adorei!"

Além disso, se diz um egocêntrico, o que, aliás, motivou sua saída do Barão Vermelho. "Eles queriam ocupar um espaço maior, eu era muito pesado. Então eu disse: ´Vou à luta, fiquem com todo espaço´. Somos muito amigos. Não é uma traição. Metade do meu disco é de parceria com o Frejat e eles abrem o deles com uma letra minha. E estão a mil, como eu. O problema é que eu sempre quero ter a palavra final." Aí você foi procurar outros parceiros, não é? "Na época que nos separamos recorri ao Nico Rezende porque me senti meio sem pai nem mãe. Não toco instrumentos, componho na base da caixa de fósforos. Agora tenho um trabalho de grupo, também, mas sou o patrão. Uma coisa que eu achava horrível, mas não é. Tanto que eu e meu novo parceiro, o Rogério Meanda, estamos fazendo muita coisa boa juntos." Estão na nova banda: Rogério (guitarra), Nilo Romero (baixo), João Rebouças (teclados) e Fernando Moraes (bateria).

Da pioneira safra de grupos cariocas - Blitz, Barão, Kid Abelha - houve muitas mudanças, separações, e o pessoal procurou novas parcerias. A dúvida é se isso significaria falta de criatividade ou vontade de variar. Cazuza dá sua opinião: "São os dois. Somos uma turma. Todos os movimentos importantes na música brasileira vêm de turma. A gente pintou no começo em reação ao sucesso FM e do pessoal da MPB, virando a cara. Uma coisa meio de nos proteger. Mas não tem a ver continuar junto só porque se está fazendo sucesso. Nós, no auge dele, nos separamos. Foi por puro tesão de fazer mais. Todo projeto de arte tem que sair com tesão".

Cazuza acha ótimo cobrarem, criticarem, agulharem seu trabalho. "Que nem a gente, eu, que criticava a Rita Lee por fazer bolero, de repente. É estimulante. Gosto muito do pessoal novo do ABC, os Garotos Podres, e os de São Paulo. É uma revolta verdadeira. Até agora o protesto era meio paternalista. Eu não consigo fazer porque não vivo isso. Ia achar demagogo até." E, neste rol de preferências, ele cita o Legião Urbana como a melhor coisa que pintou nos últimos tempos e, também, o Akira S e as Garotas que Erraram, de quem adora "Sobre as Pernas". "Bom ouvir porque vai motivando a criação."

Cair na estrada e promover uma total contravenção no palco é uma de suas maiores festas. "Adoro a energia do púbico, importantíssima para mim. Nunca tive problemas em São Paulo. Lá, eles não têm vergonha de ser tiete. Aqui não, o pessoal é meio estrela. Gosto de quem vai no camarim, opina e tal. E dos que sobem no palco. Como uma vez, uma mulher, tipo lá da Mooca, que subiu com uma Xereta (aquela maquininha fotográfica). Eu cantava e fazia pose para ela."

No novo disco, que sai em setembro, Cazuza aparece mais preocupado com a própria posição e a das pessoas no mundo. Da impossibilidade do homem viver num grupo social sem brigar. É o que expressa a letra "Só Se For a Dois", que, já no título, apresenta a solução. "Só resta a convivência a dois. ´Paz na terra aos homens de boa vontade´ não existe. Este é o ponto de partida do novo LP", explica.

Agenor de Miranda Araujo Neto, vulgo Cazuza, é isso e mais. Peço uma pausa para ir ao banheiro. Lá, encontro uma boca marcada a batom na parede, com a frase "eu te amo". Logo depois chega o "avô", que solta o verbo: "Cazuza é irritante. Um prolixo que joga toda sua arte para o mundo e não regateia (risos)". Ezequiel, o "avô", diz ter renascido com Cazuza e o Barão, que também produziu. E completa: "Tenho cinqüenta anos e quero viver quinhentos para ver tudo". O "neto" rebate: "Não quero viver nem oitenta, se disso depender abdicar de todas as minhas loucuras".

1 de abril de 2009

RECORDAR É VIVER

Meu parceiro de blog, com propriedade ímpar, lançou nesse espaço a sua “Série Clássicos de 1986”, onde abordou os 10 álbuns mais importantes do rock brasileiro lançados naquele ano, com o requinte de comentários dos próprios artistas. A lista é absolutamente indiscutível, pois aquele material sintetizou o que foi e ainda profetizou o que viria a ser a mais importante década na nossa música jovem (ao menos para a minha geração). E eu ratifico saudosamente suas escolhas, pois confesso que tive o prazer de assistir ao vivo todos aqueles shows de lançamento, sem exceção, em Santos, tendo até hoje muito bem guardadas minhas pilhas de LP´s.

E, confiado que sou, me darei a oportunidade (grosseiramente baseado na idéia do Paulo Marchetti) de esporadicamente, relembrar aqui outras figuras, digamos, da antiga; Ou seja, falarei sobre artistas e/ou bandas que tiveram seus trabalhos lançados há mais de 15 anos. Uma espécie de “Lado B do Pop Rock Nacional”, com o cuidado de que seus protagonistas jamais sejam interpretados como realizadores de obras menores em importância e qualidade; Pelo contrário, será somente uma justa homenagem deste escriba.

Desde já tenho muita lembrança boa fervilhando em mente, mas o Sete Doses de Cachaça está aberto para receber a sua opinião e a sua dica.