14 de dezembro de 2007

A Verdadeira Face do RPM

Acabei de ler a biografia do RPM que saiu no dia 05/12/2007. Foi escrita por Marcelo Leite de Moraes, autor do ótimo livro sobre Madame Satã, a melhor casa noturna paulistana dos 80.

A biografia do RPM é uma coisa que eu sempre pensei em escrever, mas sempre relutava em ir atrás por nunca ter gostado da banda, pelo contrário, sempre achei RPM muuuuito chato, cafona e altamente brega.


Sou amigo de P.A., temos milhares de amigos em comum e o conheci quando ele montou a banda MAPA, que tocava um heavy de prima! Dessa amizade, uma vez fui a casa dele para conversarmos sobre um projeto de biografia dele mesmo, mas saí de lá tentando convencê-lo a respeito de uma biografia do RPM. Logo depois dessa conversa, muitas coisas mudaram na minha vida e na dele, pois o RPM estava armando sua volta. Por conta disso, nunca mais falamos sobre o projeto.


O que me levava a querer escrever uma bio do RPM era o fato dela ter sido a única banda que levou ao extremo o “sexo, drogas e rock’n’roll” e por isso ter tido uma carreira meteórica. 
Queria colocar no livro todas as histórias que ouvia da banda nos anos 80, os erros, as podreiras, enfim, a verdadeira ascensão e queda da banda.

Mas por outro lado jamais teria a coragem de escrever algo como “Paulo Ricardo é um dos maiores compositores e letristas do rock brasileiro” ou “o RPM foi a maior banda do rock brasileiro dos anos 80”. Ao meu ver, eu estaria mentindo, e mentindo feio.


O RPM pode ter sido o maior nome do pop brasileiro entre 1985 e 1986, mas não a melhor banda da década. Longe disso, muito longe. Assim como Paulo Ricardo e Luiz Schiavon nunca foram grandes compositores.

Há muitos erros quando se escreve sobre RPM. A começar pelo fato de ela nunca ter sido uma banda de rock. Tentou fazer rock em Os Quatro Coiotes, mas foi um fracasso. Até porque uma banda que usa calça de pregas, blazer com enchimentos nos ombros e mullet, jamais poderá ser uma banda de rock.

As letras de PR são razas. Mas ok, se pensarmos que é uma proposta pop onde a melodia tem a mesma ou maior importância que a letra.


O RPM caiu nas graças do popular. O RPM foi literalmente o pôster no quartinho da empregada, aquela mesma que gostava de Gilliard, José Augusto, Sidney Magal, Biafra e Roberto Carlos.


O popular do RPM era isso aí. Não era o jovem brasileiro roqueiro. O jovem brasileiro roqueiro gostava de Legião Urbana, Titãs, Ira!, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso.


Há méritos para o RPM? Sim, há. Foi por causa dele, e também muito por Ney Matogrosso, que as bandas deixaram de tocar em danceterias com aparelhagem podre, sem cenário, sem uma iluminação apropriada, para tocarem em teatros, ginásios e até estádios. Os shows melhoraram de fato. Mesmo sendo um grande feito, para por aí a contribuição do RPM.

Dizer que a banda contribuiu para uma nova geração de bandas, isso é absurdo, fantasioso!


Verdade seja dita também: muitos jornalistas, amigos ou não da banda, rasgavam a seda para o RPM quando a banda era underground, e depois que estourou, passaram a falar mal. Se há motivo para tal, coisa de bastidores, eu não sei. Mas houve sim uma mudança de postura, talvez por parte da banda também...

O RPM foi uma coisa de momento, como foi o Menudo e o New Kids On The Block. Paulo Ricardo e Luiz Schiavon nunca mais conseguiram compor coisas como “Louras Geladas”, “Olhar 43” e “A Cruz e a Espada”. Tanto é que, contando com a volta, foram gravados 4 discos, sendo que 3 desses 4 tem praticamente o mesmo repertório.

Não tenho nada contra a banda – nem tenho motivos para tal – mas só quero ser realista, ter os pés no chão em relação ao RPM. É como o Poladian falou sobre o disco Quatro Coiotes: “O disco não foi bem porque é um disco ruim”. 

O que me irrita é essa pose que fazem de super banda, isso não dá. RPM teve sua grandeza e foi efêmera. 

Do primeiro disco com 11 músicas gravadas, ao menos 6 fizeram grande sucesso. Do segundo, ao vivo, 4 inéditas, sendo uma instrumental, duas são versões, e apenas uma autoral, e bem fraca.

Pra mim, é desculpa fraca dizer que o show tinha sido pirateado e que tiveram que lançar. Conversa fiada de quem não tinha material inédito bom, o que o tempo comprovou. Analise o que o RPM lançou entre 1985 e 1988, e compare com as outras bandas amigas da época, como Legião, Titãs, Ira!, Paralamas, Engenheiros. Para o RPM 1984 durou até 1987. PR, Schiavon, PA, Deluqui dormiram no ponto, não foram capazes de compor mais nada, enquanto as outras lançaram discos que tocaram inteiros nas rádios.

O RPM não deu certo pelo simples fato de ter sido uma banda de momento, de surgir e estar no lugar certo, na hora certa. Com Paulo Ricardo bonitão e tratado como galã pela gravadora e mídia.

Quanto à biografia de Marcelo, todos os méritos para ela, pois o Brasil ainda engatinha em relação a esse tipo de publicação. Há fatos importantes ali documentados. É maravilhoso saber que temos mais uma boa bio para ler e comprar. Mas eu teria me aprofundado mais no ‘sexo, drogas e rock’n’roll’, até porque tem muita, mas muuuuita história legal que ficou de fora do livro. Mais uma vez o RPM deixou o bonde passar.