29 de abril de 2013

Em maio...


Em maio basta dizer que é o mês em que faço aniversário. Só esse fato bastaria para o texto terminar aqui, mas sou humilde e darei espaço para outros nomes hahaha.

Junto comigo, por baixo, há outros 20 nomes que fazem aniversário este mês. Tem aniversários conjuntos como é o caso de André Jung (Ira!), Clemente (Inocentes e Plebe Rude) e Spaghetti (ex-RDP). Gostava do RDP com o Spaghetti, sempre estava nas baladas caladão e ao lado do Gordo. Gente boa. Clemente é picareta hahaha só toca na Plebe porque paga 67 mil reais por mês pra isso hahaha. Ele é daqueles que sempre irão ter o meu respeitoAdoro tudo que o Inocentes fez na primeira fase independente. Da Warner Pânico SP e Adeus Carne são obras primas (preparo algo do Adeus para breve). Tem o dois dias do mês em que quatro feras das cordas comemoram mais experiência rsrs: Primeiro Lulu Santos e Herbert Vianna, depois Frejat e Armandinho.

Da mesma banda completam anos André Jung e Gaspa (Ira!), Marcelo Lobato e Falcão (O Rappa).Tem os aniversariantes que ninguém vai lembrar: Jaques Morelenbaum (ex-A Barca do Sol. É dele o famoso cello em “Até Quando Esperar” da Plebe Rude), Fausto Fawcett, Augusto Licks (Engenheiros), George Israel (Kid Abelha), Wanderley Cardoso, Negrete (ex-Legião Urbana), Celso Alvim (PLAP).

Completaria 85 anos o compositor e versionista Fred Jorge, responsável pelas versões de  “Diana” (Carlos Gonzaga), “Pobre de Mim” (Tony Campelo), “Banho de Lua” e “Estúpido Cupido” (Celly Campelo).

Tivemos duas grandes perdas: Wander Taffo (ex um monte de coisas: Joelho de Porco, Rádio Taxi, Made in Brazil, Gang 90, Secos e Molhados, Rita Lee) e Zé Rodrix, . Morreram também em maio, e vale lembrar, dois outros grandes músicos, Bebeco Garcia (ex gui-Garotos da Rua) e Sérgio Santana (ex-bx Patrulha do Espaço). Wander Taffo também foi difícil acreditar por ninguém imaginar essa possibilidade naquele momento. Em poucos dias completaria seus 55 anos de vida. Agora está no IG&T do céu junto com Hendrix e outros feras.

Agora, falar o quê de Zé Rodrix? Sou fá de carteirinha de toda sua obra, inclusive na publicidade. Ajudou a música brasileira a evoluir e trouxe niovações no mercado de jingles e trilhas. Sempre o encontrava pelas ruas da Pompéia fazendo sua caminhada diária (com um shortinho que só ele mesmo poderia usar rsrs).

Há boas datas relacionadas com o rock progressivo / psicodélico brasileiro, mas quero começar pela jovem guarda. Antes até, volto para maio de 1956, quando Caubi Peixoto lançou “Rock’n’Roll em Copacabana”, o 1º rock brasileiro cantado em português. E vou te dizer que a música é muito boa. Por que Caubi? Na época não havia no Brasil ídolos do rock, por isso, foi escolhido um dos maiores nomes da música naquela época. Caubi era o “Elvis brasileiro”. A música é de Miguel Gustavo, o mesmo que compôs “Pra Frente Brasil” (hino da Copa de 1970). Wanderléia e Erasmo Carlos lançaram seus primeiros discos também em maio, a musa da jovem guarda dois anos antes que Erasmo.

Ainda em meio a jovem guarda, a banda O’Seis assinou contrato com a gravadora Continental, e lançou compacto em junho. Na formação tinha Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias, que depois formaram Os Mutantes.

Logo em 1º de maio de 1970 o Módulo 1000 fez dois grandes shows no Clube Siri, no RJ. Bandaça que lançou apenas um disco em 1971, o maravilhoso Não Fale Com Paredes, que hoje é disputado à tapa por colecionadores do mundo inteiro. Outro grande nome do progressivo brasileiro, a gaúcha Bixo da Seda, lançou disco.

Aconteceu, em 1976, o festival de Saquarema (RJ), que foi uma bagunça, mas que deixou sua marca na história do rock brasileiro. Nele tocaram, entre outros, Rita Lee & Tutti Frutti, Raul Seixas, Made in Brazil e Ronaldo Resedá. Também foi uma bagunça esse negócio de quem ia tocar, quem de fato tocou e quem desistiu de tocar. Ditadura, rock e desorganização. Dá pra imaginar a zona, não?

Outro bom evento do progressivo/psicodélico que aconteceu em maio, foi o Banana Progressiva, em SP, com quatro datas lotadas e participação de Vímana, Veludo, A Bolha e A Barca do Sol. Dessa apresentação o Veludo lançou disco ao vivo nos anos 1990, depois que um dos integrantes da banda achou uma fita cassete em 1985 com a gravação desse show no BP. Foi lançado no mesmo dia do show.

Tem dois acontecimentos marcantes na carreira de Raul Seixas, os dois nos anos 1980. Raul foi preso durante um show em Caieiras (SP) acusado de falsa identidade. Como estava doidão no show, todo mundo achou que se tratava de um sósia de Raul Seixas, e o próprio foi preso e ainda apanhou do delegado! Ele só foi liberado na manhã seguinte. Esse fato foi documentado no curta Tanta Estrela Por Aí, em que Rita Lee faz o papel de Raul Seixas (postei o curta no final do texto). Três anos depois, Raul lançou o disco Let Me Sing My Rock’n’Roll, o primeiro no Brasil a ser lançado por um fã clube.

Algumas bandas lançaram seus primeiros discos: Kid Abelha, Ira!, RPM, Capital Inicial, Cabine C, Vértigo (Dinho Ouro Preto) e Edu K. Além do 1º disco, Capital inicial também lançou o 1º e único compacto da carreira, também e maio, mas um ano antes do disco cheio. Também teve outros clássicos lançados: Psicoacústica (Ira!), Corredor Polonês (Patife Band), Bora Bora (Paralamas), Afrociberdelia (CSNZ) e Só no Forévis (Raimundos).

Também houve alguns fatos que aconteceram pela primeira vez: Raimundos tocou em SP abrindo para o Titãs, o Barão Vermelho gravou o 1º disco e Edgar Scandurra seu primeiro solo. Replicantes fez seu 1º show, Lobão foi preso pela 1ª vez por porte de drogas e Augusto Licks gravou seu 1º disco com o Engenheiros do Hawaii (A Revolta dos Dândis). Foi o mês em que Ultraje à Rigor começou a usar o nome Ultraje à Rigor.

Teve algumas tragédias, pequenas ou grandes: Toni Belotto e Arnaldo Antunes, do Titãs, foram condenados por porte de heroína e as sentenças foram cumpridas em liberdade. O show gratuito que o Sepultura fez na Praça Charles Miller, em SP, acabou com um morto, 6 feridos e 18 presos. Um mês antes desse ocorrido, no 1º show do Ramones no Dama Xoc, houve um morto a facada. Durante alguns meses shows de rock em SP ficaram barra pesada. Durante show pela paz realizado no Jockey Club de Curitiba (PR) com as bandas Charlie Brown Jr., Raimundos, Natiruts e Tihuana, três adolescentes morreram pisoteados pela multidão que forçou os portões de entrada do local.

Outros dois fatos que considero tragédia foram a saída do baixista Dé do Barão Vermelho, e o lançamento do disco Amanhã é Tarde, de Fellini, em 2003, que é ruim de doer! Uma pena.




15 de abril de 2013

Itaú o Banco Moderno


São 12h04 de um dia qualquer em abril de 2013. O cliente entra no banco Itaú, se dirige a mesa de informações e pergunta ao atendente:

Cliente: “Oi. Por favor, preciso do meu informe de rendimentos para o Imposto de Renda”.
Atendente: “Claro, pois não. Tiro pra você já”.

Assim que termina de falar o cliente passa o cartão para o atendente que, na mesma hora que pega o cartão, diz:

Atendente: “Putz. É conta empresa, né? Melhor falar com o gerente X que ele tira pra você”.
Cliente: “Eu só preciso saber o meu saldo em 31 de dezembro de 2012. Você não consegue ver no seu sistema?”
Atendente: “Por aqui não. Fala com o gerente X. Ele está ali”.

O cliente agradece sem entender como o atendente de um banco que se diz  ultra mega moderno não consegue ver um simples saldo, e se dirige a mesa do gerente X. Chegando encontra com o gerente saindo do banheiro:

Cliente: “Olá. O atendente disse que você poderá me ajudar com meu informe de rendimento. Eu só preciso do meu saldo em 31/12/2012”.
Gerente X: “Putz amigo, eu já bati meu ponto para o almoço. Por favor, fala com a gerente Z naquela mesa ali”.

O cliente não só agradece como se desculpa por atrapalhar o gerente X em sua hora de almoço. A gerente Z está atendendo alguém e o cliente se senta em uma poltrona para aguardar sua vez. É hora do almoço, hora em que muita gente aproveita para resolver problemas, mas o banco Itaú, trilionário e ultra mega moderno, está às moscas de funcionários. O cliente olha para o lado e vê a fila dos caixas aumentando e outros clientes chegando para falar com o gerente Z, o único presente no local.

Não por acaso o cliente lembra da propaganda engraçadinha do Itaú com o bebezinho que rasga o papel. Lembra da assinatura da propaganda que dizia que o banco Itaú é ultra mega moderno e que não precisa de papel. O cliente também se lembra que o Itaú se orgulha de ser considerado um banco que luta pela sustentabilidade e mais uma vez se pergunta que merda isso significa para ele e os demais clientes do Itaú. O cliente se pergunta : “será que vão aumentar as tarifas por causa disso” e ri sozinho. Lembra de quando teve que trocar de cartão e que foi obrigado a levar pra casa quatro papeis inúteis impressos pelo Itaú, mesmo pedindo para que eles não fossem impressos. “Pra que todo esse papel, moça?”. “É o comprovante de que você retirou o cartão”. “Mas eu não preciso disso. Vamos economizar papel!”. “Não dá. Eu preciso te dar esses papeis”. Aí o cliente pensou que o banco Itaú, além de ser trilionário e se dizer ultra mega moderno, é também mentiroso e usa a voz do dono pra isso!

Depois de pouco mais de dez minutos gerente Z fica disponível, o cliente se aproxima e se senta:
Cliente: “Oi. Por favor, preciso do meu informe de rendimento para o IR. Você pode tirar pra mim? Na verdade eu só preciso saber do saldo em 31/12/2012. Você pode ver isso pra mim?”
A gerente Z pega o cartão do cliente e acessa uma tela de seu computador:

Gerente Z: “Olha, não sei se consigo tirar pra você. Preciso ver aqui. Ah! A conta não é dessa agência, né?”.
Cliente: “Não”.
Gerente Z: “Ih. Não vai dar. Não tenho acesso”.
Cliente: “Mas você não é gerente de conta jurídica? Você não consegue nem ver meu saldo em 31/12/2012?”.
Gerente Z: “Não consigo fazer nada daqui. Você pode tentar pela internet ou ligar para o seu gerente”.
Cliente: “Mas você não consegue me ajudar dentro de um banco que se diz tão ultra mega moderno? Eu entrei aqui para pegar um simples saldo de conta corrente e vou sair sem porque o próprio banco não consegue ver este saldo? Isso é ser banco ultra mega moderno? Que adianta ter um lucro gigantesco se não o aplica em melhorias?”.

O cliente, absurdamente insatisfeito, sai do banco Itaú, o mesmo que se diz ultra mega moderno e trilionário, e vai pra casa puto por ter que ligar para o gerente para pedir um mísero saldo. Mas como a gerente Z falou, há a possibilidade de pegar o informe de IR no site do banco.

O cliente chegando em casa ligou o computador e entrou no site do banco Itaú, que é trilionário e ultra mega moderno. Depois de passar pelas devidas páginas de segurança, o cliente acessa sua conta e procura por informe de rendimento. Ao clicar, automaticamente o site informa que a conta não tem informe de rendimento. O cliente diz pra ele mesmo: “Ok, então vou pegar meu saldo em 31/12/2012”. Ao pedir o saldo e/ou extrato do dia 31/12/2012, o site diz que não é possível informar movimentações além de 40 dias. O cliente lembra que o Itaú vende modernidade e lembra que também vende mentira. Ele respira fundo, vai até o armário da sala, e resolve revirar a pasta de documentos atrás do extratos consolidados que o moderno banco Itaú envia aos clientes por correio. Finalmente o cliente achou o que precisava: um simples saldo.

E conseguiu o saldo através de papeis que o Itaú diz lutar para acabar, para ser um banco digamos, sustentável. Imagine você se o cliente resolve cancelar o envio desses extratos consolidados. Como ele iria conseguir o saldo de 31/12/2012?

Para finalizar toda sua maratona o cliente, após anotar seu saldo de 31/12/2012, lê no envelope do extrato consolidado: Mude. Papel só no que vale a pena. Mude para digital. É mais simples, rápido e seguro.

Após ler este texto no envelope o cliente toca seu nariz para se certificar de que não está usando um nariz vermelho de palhaço.

PS: No mínimo 15% dos lucros obtidos pelos bancos deveriam ser aplicados em ações sociais. Quem é macho de propor isso no Congresso Nacional?

8 de abril de 2013

Série Coisa Fina: 19 – The Stranglers

Mal-encarados, sujos, velhos, cínicos e feios. Stranglers me faz sentir-se bem. Muito bem. Não sei ao certo quando e como ouvi The Stranglers pela primeira vez, mas quando minha irmã chegou de viagem com o Rattus Norvegicus e o La Folie debaixo do braço em setembro de 1982 eu fiquei perplexo. Até foi festejada a chegada do La Folie, o “novo” do Stranglers que, na verdade, havia sido lançado em novembro de 1981. Para a época era considerado disco novíssimo em folha, como se tivesse saído um dia antes. Ainda mais se tratando de um disco que jamais seria lançado no Brasil.

Pensando fundo é muito improvável escutar Stranglers na Brasília do final dos 1970 e início dos 1980. Não sei quem “descobriu” a banda, mas certo é que isso foi coisa ou dos irmãos Lemos (Fê e Flávio) ou dos Mueller (André e Bernardo). Muita gente dessa Turma de Brasília é apaixonada por Stranglers, mas o maior fã que conheço entre todos é André Mueller (Plebe Rude) que, inclusive, tem uma maravilhosa edição da caixa The Old Testament.

Em Brasília a banda fazia parte das coletâneas que eram feitas nas fitas cassetes. Todo mundo escutava no carro, nas festas, em casa. Até hoje eu escuto corriqueiramente. Tenho escutado muito os três últimos lançamentos: Norfolk Coast, Suite XVI e Giants. Os três são ótimos, pra se escutar de cabo a rabo.

Giants foi lançado em 2012 e é o último do Stranglers que já anunciou a aposentadoria. Discaço! Saidêra de ouro! Inclusive a capa do disco é uma foto dos quatro enforcados: JJ Burnel (voz e baixo), Jet Black (bateria), Dave Greenfield (teclados) e Baz Warne (voz e guitarra). Um dos motivos da aposentadoria é a saúde de Jet Black. Em 2013 ele completa 75 anos. Sim, 75 anos! Ele tem arritmia cardíaca e deixou de se apresentar com a banda em diversas ocasiões, sempre substituído por seu roadie.

Jet Black é contido, faz o necessário e gosta de jazz. Em 1974, quando já tinha 36 anos, respondeu a um anúncio de procura por baterista na finada Melody Maker. Antes disso já havia tocado em uma banda e acompanhado outras diversas em pequenos shows em pubs. Ele tinha sido baterista amador e quando respondeu ao anúncio, era empresário dono de vans que vendiam sorvete pelas ruas de Londres. Jet também era revendedor de uma famosa marca de equipamentos para fabricação de bebida caseiras, principalmente cerveja. De saco cheio da vida, há um tempo ele tentava formar uma banda, fazendo testes com baixistas e guitarristas que não lhe chamavam a atenção.

O anúncio que respondeu era para entrar em uma banda chamada Johnny Sox, que já tinha Hugh Cornwell, JJ e Dave. Essa banda foi formada na Suécia quando Hugh foi pra lá estudar bioquímica. Conheceu Hans Warmling e começaram a tocar juntos. Quando os estudos acabaram, Hugh voltou para Londres, reformulou a banda e continuou o Johnny Sox junto com Hans, que foi passar uma temporada na Inglaterra. Foi aí que Jet entrou.

Esse Johnny Sox inglês era Hugh, Hans, JJ e Jet. Depois de pouco tempo Hans voltou para Suécia e Dave Greenfield entrou. Isso tudo aconteceu entre final de 1973 e 1974.

A cena punk londrina nem existia na época e o Stranglers fazia o circuito de pubs. Isso trouxe à banda forte influencia do pub rock. O fato de também ter teclado era um diferencial. Mas como naturalmente eles todos se vestiam de forma simples, com roupas sujas e amassadas, falavam de comportamento, muito sexo, guerras, política e religião, não foi nada difícil e estranho para a banda entrar no contexto punk e fazer parte da turma punk londrina dos anos 1970. Inclusive o Stranglers abriu os famosos shows que o Ramones fez em Londres em 1976.

Desde o início o Stranglers se diferenciou de todas as bandas de sua geração. Era diferente dentro da cena pub rock e diferente dentro da cena punk. Stranglers, pra mim, é uma banda de gênios, por ter uma visão muito além de seu tempo. Seus discos são atemporais mesmo tendo teclados. Alias, Stranglers é referência obrigatória pra quem quer ter banda com teclados.

Seus shows sempre tinham confusão. Muita gente acusava a banda de sexista e aproveitava pra fazer protestos. Em determinados shows a banda costumava contratar prostitutas para ficarem dançando peladas no palco. Fora que os próprios integrantes tinham (e tem) cara de poucos amigos. Por conta disso, o Stranglers costumava fazer shows escondidos, usando outros nomes. Era banda que a crítica não gostava, mas que o público adorava. Nunca chegou ao Top 1 (graças a Deus!, mas entrava nas paradas).

Em 1980, depois que Hugh Cornwell foi preso por porte de heroína, o Stranglers organizou um show para ajudar a pagar os custos do processo e chamou diversos amigos/fãs para participar. Foi lançado o ótimo Live in Concert 1980 The Stranglers and Friends e, na lista de participações, tem Robert Smith (The Cure), Robert Fripp (King Crimson), Wilco Johnson (Dr. Feelgood), Ian Dury e outros famosos nomes do rock inglês.

Nos anos 1970 muita gente se referia ao Stranglers como uma banda de velhos. E pra calar a boca dessa gente, a banda acabou sendo uma das poucas de sua geração a permanecer na ativa até hoje. Pra mim, dos 17 discos de estúdio, do Rattus Norvegicus até Giants, apenas 6 considero ruins. 5 deles foram lançados na década mais fraca da banda, que foi 1990. Hugh Cornwell saiu logo depois de lançar o ‘10’, exatamente em 1990. Contando com este último de Hugh, o Stranglers lançou outros ruins com Paul Roberts no vocal (ex-Vibrators). Paul não era o cara certo. A banda passou essa década sem muita inspiração.

Nos anos 1970 o som era cru e com muita energia, raiva. Distorção na guitarra e no baixo, experimentações com timbres de teclados. Os vocais graves de Hugh também são marca do Stranglers. O baixo sempre em destaque junto com os outros instrumentos e em certas músicas ganha até mais destaque, o que era outro diferencial tanto para a cena punk, quanto para o pub rock.

Nos anos 1980 o som mudou, e muito. Entraram violões com cordas de aço, muita melodia, guitarras dedilhadas, os timbres de bateria mudaram e o baixo, apesar das boas frases de JJ, deixou de ter a importância que tinha. A sonoridade punk e o pub rock raivoso saíram de cena. Tudo ficou mais leve e estranho. Perdeu-se o som ogro dos 1970. O Feline e o Dreamtime são bem esquisitos (no mau sentido). Dentro dessa nova sonoridade pós La Folie, o grande disco é Aural Sculpture. Do começo ao fim.

De 1990 até 2006 o Stranglers se tornou um quinteto, mas dois anos depois de Norfolk, Paul Roberts saiu e a banda voltou a ser um quarteto com Baz Warne na guitarra e voz. Baz começou a carreira profissional em 1983 tocando baixo no Toy Dolls. Em 1995 acompanhou Stranglers em uma turnê. O legal dele é que ele é fã, deixa isso na cara. Dá pra ver a felicidade dele no palco, faz bem as partes de Hugh e tem personalidade (próximo do que CJ foi para o Ramones).

Duas coisas diferem o Stranglers das demais bandas (não só de sua geração): os geniais teclados de Dave Greenfield, dono de um ultra bom gosto, tanto nos arranjos, quanto nos timbres; e o baixo de JJ Burnell que foi um dos grandes responsáveis por mudar o rumo desse instrumento dentro do rock/pop.

The Stranglers foi o patinho feio em todas as cenas que a mídia tentou encaixá-lo. Caiu melhor no punk, pela postura, pelo som pesado. Pouca gente aqui no Brasil conhece ou gosta. É banda atemporal, influência para qualquer geração.

Amo demais. É banda companheira de todas as horas. Fiquei muito feliz quando voltou a gravar bons discos a partir do Norfolk Coast. O peso e o baixo marcado voltaram. A sonoridade ficou mais próxima dos anos 1970. 

Já escrevi sobre Stranglers no Rock Brasília 64 mas, pela aposentadoria, faço dessa publicação minha humilde homenagem a essa banda que, quando escuto, me ajuda a pensar e resolver as coisas da vida.

Justa aposentadoria desses caras mal-encarados, sujos, velhos, cínicos e feios.

Meus 5 preferidos (por ordem de preferência): 
1º) Rattus Norvegicus 
2º) La Folie 
3º) Black and White 
4º) No More Heroes 
5º) The Raven