25 de julho de 2012

Especial Discos Históricos 2: Os Maiores Sucessos de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados



Os Maiores Sucessos de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados é um disco que faz parte da minha história. Esse é daqueles que sei até o tempo de intervalo entre as músicas. Cada acorde, cada sujeira. Ele chegou em Brasília pouco antes do lançamento pelas mãos de Totoni (Manoel Antônio Fragoso, ex-baterista do Escola de Escândalo e hoje ator). Na primeira audição o queixo caiu por vários motivos: músicas ótimas, letras ótimas e, pasmem, ótima produção, mesmo tendo sido gravado em 1983. O responsável foi Ronaldo Bastos. Muitos momentos épicos, como o solo final de “M”. “Edmundo”, “O Kaos (A Dança)”, “Menina Fútil”, “Keki Rolou”, um clássico atrás do outro. Tudo bem gravado. A coisa toda fica mais incrível ainda quando se fala que o disco foi lançado pela Ariola / Continental, gravadora que não tinha a menor noção do que era rock, passava longe, anos luz.

Infelizmente um erro de estratégia foi fatal para o disco. A primeira música de trabalho foi “Calúnias (Telma Eu Não Sou Gay)” com Ney Matogrosso no vocal. Ninguém entendeu nada e, de última hora, a música entrou no disco de Ney. A banda não aparecia nos programas de auditório e, fora “Calúnias”, nenhuma outra música tocou nas rádios. Infelizmente (ou felizmente) o disco acabou sendo esquecido, sendo cultuado por poucos.

Nesse início de rock geração 1980, como as gravadoras se concentravam todas no Rio de Janeiro, e ainda tinha o Circo Voador e a rádio Fluminense, o momento era intenso e o que prevaleceu nesse período foi a linguagem de deboche, malandragem e descontração do carioca. Blitz, João Penca, Eduardo Dusek e até o goiano Léo Jaime entram nessa.

Com Miquinhos, dá pra lembrar também, dois outros discos históricos: Cantando no Banheiro, de Eduardo Dusek e Phodas C, de Léo Jaime. JPSMA gravou com Dusek o disco e em apresentações, e Léo Jaime foi integrante da banda, que até chegou a tocar músicas gravadas por Léo, como “Aids” e “Já Foi Papai”. A parceria com Dusek foi confundida com banda de apoio e, mesmo sendo a música de maior sucesso de autoria de João Penca (“Rock da Cachorra”), tudo ficou em um disco. “Barrados no Baile” foi composta também por um Miquinho, Leandro.

Os Maiores Sucessos de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados foi quem deu a luz para esse especial com os discos históricos. O escuto sempre, desde 1983. De tempos em tempos o resgato e ouço por dias. De todos os discos que falarei aqui esse é o mais obscuro

PS: Um fato triste nesse início de carreira profissional foi a morte do tecladista Cláudio Killer, ocorrida em 1º de dezembro de 1983, por conta de um vazamento de gás em seu apartamento enquanto tomava banho... pouco mais de dois meses após o lançamento de Os Maiores Sucessos... (no final da postagem há nota sobre este fato).





Veja, edição 701, 10-fev-1982, pág. 107

Os Sete Gatinhos
Por Joaquim Ferreira dos Santos

Ninhada do Leblon mistura velhos rocks com humor.

Chamam-se estranhamente João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, sem conseguirem qualquer explicação para este batismo. Nas madrugadas do Rio de Janeiro eles são capazes de agrupar uma audiência de 700 pessoas, como na semana passada, no clube Lagoinha durante a festa Rock, Meu Bem. São sete rapazes a maioria estudantes com jaquetas de couro e cabelos gomalizados, como um grupo de new wave. Mas jogam microfones contra a parede, sacrificam fãs no palco, escalando-as para segurar uma bananeira no cenário, como artistas da música punk.

São capazes de cantar a selvagem história do executivo americano seduzido por um torcedor do Flamengo na arquibancada do Maracanã (versão do clássico “Johnny B. Good”, aqui “Johnny Pirou”) e, em seguida, atacar a melosa “Gatinha Manhosa”, sucesso da bem comportada Jovem Guarda. Desde que Roberto e Erasmo Carlos se encontraram numa esquina da Tijuca, poucas coisas foram mais originais na música jovem. Moravam todos no Edifício Jacuna, no Leblon, e quando não estavam tocando rock-n-roll na escada, ouviam discos de Chubby Checker, Shanana, Beach Boys e Jovem Guarda.

Hoje, sempre de madrugada, apresentam a mistura bem humorada dessa velharia roqueiras em escolas, no bar Emoções Baratas, em Botafogo (dia 11 estarão no Morro da Urca), mais interessados nas meninas que seduzem com amalucados meneios eróticos do que no cachê de 35 000 cruzeiros. Um sucesso de muitos gostos: na semana passada, tanto foram convidados para o próximo festival da TV Globo como para o desfile que um grupo de poetas pornográficos fará – todos nus – pelas areias de Ipanema.

Nas letras, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados criticam o movimento estudantil (“Universotário”), fazem crônica sobre um traficante de drogas (“Toque e Tenha”). Na letra de “Já Foi Papai”, de Tavinho Paez e Léo Jaime, eles debocham da família: Papai suas ideias são uma delícia / eu gosto delas tanto quanto amo a gripe e a polícia. Um escândalo de criatividade nas madrugadas cariocas.



Veja, edição 789, 19 de outubro de 1983, Música, pág. 158

Mutirão do Rock
Ney e os Miquinhos numa afiada parceria.

Por Okky de Souza

Semanas antes do lançamento de seu novo LP, ...Pois É, que chegas às lojas nesta segunda feira, o cantor Ney Matogrosso constatou que, por ironia, poderia vir a competir com ele próprio. Explica-se: a canção Calúnias (Telma Eu Não Sou Gay), faixa do LP de estréia do grupo carioca João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, a que havia emprestado sua voz como convidado especial, invadiu as emissoras de rádio e tornou-se sucesso nacional. Como cantor e conjunto pertencem a mesma gravadora, a Ariola, a faixa foi incluída às pressas também no disco de Ney, com ligeiras modificações na mixagem (volume de cada voz e instrumento). A manobra, finalmente, foi bem-sucedida: Ney empresta seu prestígio ao grupo estreante, que, por sua vez, o auxilia numa das melhores faixas de seu LP. A seguir, as críticas dos discos de Ney de dos Miquinhos: (NOTA: aqui só transcrevi a crítica ao João Penca)

A Ironia dos Miquinhos

No disco de Ney Matogrosso, a canção Calúnias (Telma Eu Não Sou Gay) se descata como a faixa irreverente. Em Os Maiores Sucessos de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, LP de estreia desse irrequieto grupo carioca, porém, ela não passa de mais uma piada entre muitas outras. Na verdade, ao ironizar o cotidiano da juventude, o grupo forma um dos mais divertidos painéis já realizados pelo rock brasileiro. Ao contrário, por exemplo, do grupo Blitz, que toma como cenários as areias de Ipanema, os Miquinhos recriam o clima da juventude transviada dos anos 50 em Edmundo (In The Mood), ou os tempos do twiste do chá-chá-chá em Keki Rolou.

Frequentemente eles transportam esse clima para os figurinos de seus shows, ostentando vistosos topetes à la Elvis Presley. A música dos Miquinhos também parece saída de antigos aparelhos hi-fi: é um som muito simples e básico, às vezes confuso. Essa distância de qualquer virtuosismo, porém, é plenamente compensada por faixas como O Ursinho, em que o cantor Selvagem Big Abreu, com entonação de quem vai fazer um discurso transcendental, confessa à namorada: “eu quero ser o seu ursinho...”.


Folha de SP, 23-out-1983, Caderno Ilustrada, pág. 64




Miquinhos, a nova poesia do “plágio”

Com “Telma Eu Não Sou Gay” e “Johnny Pirou”, o grupo lança moda da paródia irreverente

Rio – O título do LP – Os Maiores Sucessos de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados – já mostra o espírito debochado do grupo. Afinal, trata-se do primeiro disco do conjunto que, até agora, era conhecido pelo grande público apenas como acompanhante de Eduardo Dusek (“Rock da Cachorra”) e Ney Matogrosso (“Calúnias” ou “Telma Eu Não Sou Gay”). Agora, os “Miquinhos” (são oito) passaram a ser o personagem principal.

Jovens (a idade média é 23 anos), descontraídos, os “Miquinhos” passam, à primeira vista, uma imagem de “pirados”, mais por causa das brincadeiras irreverentes do que pelo visual, pois vestem-se à maneira de qualquer rapaz da zona sul carioca. E na vida pessoal, aparentemente, não fazem qualquer loucura: apenas dois deles dedicam-se somente à música. Dos outros, um deles é recém-formado e os demais dividem-se entre Engenharia e Arquitetura.

Mas, por enquanto, não pensam em dedicar-se a outra carreira além da música. É um caminho que percorrem há dez anos, pois tocam juntos desde criança. Moravam no mesmo edifício e, desde os 7, 8 anos, quatro deles – Leandro, Cláudio, Marcelo e Guilherme – já formavam um conjunto, cujo palco eram os corredores do prédio. Mais tarde entraram Abreu, Avelar e Rosa. Mas foi com a chegada de Léo Jaime – hoje seguindo carreira “solo” na CBS – que o grupo passou a canalizar sua irreverência para a criatividade. Abreu lembra que até aí – com exceção de Leandro – ninguém tinha pensado em se profissionalizar.

A La James Dean
“A gente tocava não apenas por prazer, mas por necessidade. Em plena década de 70, quando a onda era “surf” e cabelos compridos, usávamos cabelos curtos, calça de perna estreita e curtíamos o rock dos tempos de Elvis. Basta dizer que o nome do conjunto era “Anos 50”. É evidente que com um visual de James Dean num tempo de surfista, as garotas não davam bola para nós. Então, a gente se dedicava à música como uma forma de lazer, de curtição.”

Leandro lembra que o grupo – na infância e na adolescência – sempre foi muito fechado: não permitiam que ninguém se intrometesse entre eles. “Era uma tribo que tinha até uma linguagem própria”, diz Abreu. E era uma tribo que tinha um comportamento sempre imprevisível.

Foi nessa época que surgiu o nome definitivo do grupo. Durante o dia, depois da escola, costumavam gravar fitas tocando e falando “besteiras”. A noite, o prazer era ouvir as tais fitas. Um determinado dia, durante a audição, ouviu-se uma voz – nunca se soube de qual deles – gritar em meio a um vozerio: “Agora, com vocês, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados” que apresentaram-se, há três anos, num festival universitário da PUC, despertando o interesse do compositor Ronaldo Bastos, que produziu o primeiro disco do grupo.

“Era um festival sem novidades”, lembra Bastos, “Até que eles surgiram com uma música ótima e fazendo mil loucuras, do tipo mostrar o traseiro para o público. Foram censurados por essa atitude pela direção do festival, mas me impressionaram pelo talento, pelo “pique” de juventude porque as outras músicas pareciam ter sido feitas por gente mais velha”.

Com a cachorra
Mas, o contato entre Ronaldo Bastos e o conjunto parou por aí. O grupo seguiu uma carreira marginal e, como define Abreu, ficou famoso no circuito “underground” carioca. Até que Ney Matogrosso gravou uma versão que Léo Jaime fez para “Johnny B. Good” (“Johnny Pirou”). Em seguida, veio o convite para um trabalho conjunto com Eduardo Dusek, que acabou estourando com uma música do grupo, o “Rock da Cachorra”. Separação aconteceu logo depois. Leandro explica os motivos:

“A gente queria aparecer mais do que ele. E não cabem nove estrelas em um palco. Não achávamos certo ficar como acompanhantes quando a música de sucesso era nossa. Além disso, Dusek fez o vestibular do rock conosco, pois até aí ele nem sabia o que era esse ritmo. Por isso, numa boa, decidimos que era melhor cada um seguir seu caminho”.

Não chegaram a entrar na Polygram – onde tinham gravado com Dusek – e tampouco a um acordo com a CBS, que acabou ficando somente com Leo Jayme (“A saída dele foi numa ótima; continuamos ligadíssimos” diz Leandro). Acabaram indo para a Ariola, graças a uma indicação de Ronaldo Bastos, que depois de uma temporada nos Estados Unidos (“fiquei muito chateado com a morte de Elis e decidi dar um tempo”), voltou para a produção de disco, na Ariola.

O disco está na praça e Ronaldo Bastos acredita no sucesso do grupo pelo valor dos rapazes: “Não estou aproveitando a onda do rock. Produzi o disco com o maior carinho – como faço com os discos de Milton Nascimento e outros cobras – porque acho que eles têm muito talento e são jovens fazendo música para um público jovem, que, até então, não tinha um conjunto de sua geração fazendo um trabalho musical forte, em termos de rock.

O Lp, no entanto, saiu com um erro de “merchandising”: a música mais executada, “Calúnias”, é exatamente a única que não é cantada por um dos integrantes do grupo. Para o público, é um grande sucesso de Ney Matogrosso, que também a incluiu em seu LP. Mas os rapazes acreditam que as outras faixas vão acabar estourando (“Psicodelismo em Ipanema” já toca bastante nas rádios cariocas) e mostram-se contentes com o sucesso de “Calúnias”, uma versão de “Tell me Once Again”, sucesso antigo do grupo paulista “Light Reflections”. No LP dos “Miquinhos”, há mais duas versões e Leandro explica o gosto por esse tipo de sucesso.

“A gente curte em cima como é o caso da “Telma”. Queremos mostrar o ridículo de uns caras brasileiros cantando em inglês. Além disso, é mais fácil. É só botar letra. Aliás, eu nem gosto do termo ‘versão’. Prefiro plágio mesmo pois qualquer versão não passa disso”.


Painel da Ilustrada (22-out-1983)
Por Miguel de Almeida

Lulu
João Penca e Seus Miquinhos Amestrados lançaram um disco pela gravadora Ariola. Tem o nome de “Os Maiores Sucessos de...”. O grupo foi responsável pelo adequado sucesso de Dusek. Eles são os autores da canção “O Rock do Cachorro”. João Penca não seguiu o que pregam no verso: “Troque seu cachorro por uma criança pobre.” Lulu – Santos – toca em duas faixas do disco.


Painel da Ilustrada (02-dez-1983)
Por Miguel de Almeida

De Manhã
Foi um acidente e uma tristeza. Cláudio Killer, tecladista do João Penca e Seus Miquinhos Amestrados morreu ontem às 07h30. Por uma besteira: foi tomar banho e escapou o gás. Quando seu irmão percebeu, e arrombou a porta do banheiro, Cláudio já estava morto. Tinha 25 anos, era médico e tenente da aeronáutica. Gente sensível.



O Bolha (Circo Voador ainda com  Léo Jaime e Cláudio Killer)



Psicodelismo em Ipanema



Menina Fútil



O Kaos (A Dança)



Edmundo

18 de julho de 2012

Especial Discos Históricos 1: As Aventuras da Blitz




A partir de 2012 até 2016 muitos discos de suma importância da geração rock dos anos 1980 irão completar 30 anos de lançamento. Porém, o que me interessa aqui são os pioneiros, que são cinco (queira ou não): Rádio Taxi, As Aventuras da Blitz, Essa Tal de Gang 90 & Absurdettes e Os Maiores Sucessos de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados.

Na época eu odiava Blitz. Estava em outra vibe escutando, além das bandas de Brasília que ainda nem eram conhecidas fora da capital, muito hardcore com Exploited, Riistetyt, GHB, Dead Kennedys, além de Olho Seco, Cólera, RDP, Inocentes, entre outras podreiras. Além do bom e velho punk rock dos 70. Era isso que eu queria escutar nas rádios (hahaha) e não Blitz (pelamordedeus o que é isso???). Eu era um pirralho começando a descobrir a vida além de meu quarto e, claro, não estava nem aí para a importância daquele momento. Apesar disso assisti a dois shows da Blitz com sua formação clássica, acho que em 1983 e 1984.

Só anos depois, quando abri meus ouvidos para além do punk rock e hardcore, é que eu comecei a curtir a Blitz. Eu gostava mesmo era de “A Dois Passos do Paraíso”. E veja só você que, apesar disso, sabia cantar várias. Era febre. De fato só tocava “Você Não Soube Me Amar” nas rádios.

Esses cinco discos que pontuei fazem parte do início da invasão de uma nova geração, uma nova linguagem e novo comportamento. Músicas com gírias jovens, com o português mais coloquial não existiam antes de Radio Taxi, Blitz, Gang 90, João Penca. Esses discos abriram caminho, foram pioneiros. Afinal, naquela época era muito arriscado querer quebrar paradigmas.

Agora, o que realmente fez com que essa nova linguagem fosse, digamos, experimentada pelas gravadoras, foi o sucesso de alguns filmes brasileiros que também começaram a trabalhar essa linguagem mais jovem, é o caso de, por exemplo, Menino do Rio e Rio Babilônia, que também já traziam uma trilha mais pop.

Mas o mais importante é perceber nas reportagens que irei publicar aqui, que tudo era muito maior que a música, foi uma mudança de comportamento, muito além de mero modismo.

Algumas postagens serão maiores que o normal, mas aí é só lê-las em partes, porque elas são especiais. Infelizmente não estou de posse de meu material pessoal de pesquisa, mas é só dar uma pesquisada aqui no Sete Doses de Cachaça que certamente você encontrará algum outro material ligado diretamente a esse assunto.

Resolvi começar esse especial com o primeiro disco da Blitz, As Aventuras da Blitz, lançado em setembro de 1982, por motivos óbvios. Foi ele que fez as gravadoras abrirem os olhos para as novas bandas de rock. O disco abusou da linguagem coloquial e “Você Não Soube Me Amar” era uma coisa de doido. Todo mundo queria a Blitz. O compacto vendeu como água e o disco também. Rendeu até uma paródia histórica que eu achei no You Tube e fiquei dando risada sozinho, porque fazia décadas que eu não escutava. Blitz rendeu programas de televisão, álbum de figurinha, entre outros produtos.

A Blitz trouxe tanta coisa diferente que rendia matérias exatamente sobre a mudança de comportamento do jovem. A matéria da Veja é um bom exemplo disso.

Bem, além dessas duas reportagens, da Folha SP e Veja, também há um bom depoimento de Billy (tecladista), que retirei do site oficial da Blitz, sobre o disco e sobre o que estava acontecendo na época. Também há uma reportagem da revista Pipoca Moderna que transcrevi aqui e que vale a pena ler.





Blitz e as Explosões Musicais dos Anos 80

Ricardo, Fernanda, Antônio, Márcia, Evandro e Willian ficaram tão espantados com o sucesso da pop song “Você Não Soube Me Amar” que resolveram gravar seu primeiro LP, “As Aventuras da Blitz”, a ser lançado no momento em que a Censura liberar três músicas, consideradas impróprias.

Por Isa Cambara
(Folha de São Paulo, 02/10/2012, caderno Ilustrada, pág. 35, acervo digital)

Desde o Secos e Molhados – e lá se vão quase dez anos – um conjunto musical não estreava com tanto sucesso. Em um mês, cinco cariocas e um paulista – que formam o Blitz – venderam quase 60 mil cópias de um compacto com uma única música “Você Não Soube Me Amar”. Do outro lado, nenhuma canção, apenas os gritos de “nada, nada, nada”.

Apesar disso – ou por causa disso, já que por ter só uma música o compacto custa 200 cruzeiros – “Você Não Soube Me Amar” estourou em vendas e em execução nas emissoras de rádio. E o Brasil inteiro – e Portugal também já que a música está sendo muito bem tocada lá – passou a conhecer o “rock de breque” do Blitz, que tem por norma “teatralizar” as canções, inserindo comentários, piadas, contando histórias, à maneira de Moreira da Silva.

Para os integrantes do Blitz – liderados por Evandro Mesquita, ex-membro do grupo teatral “Asdrubal Trouxe o Trombonoe” – não há nada de estranho no fato de um grupo de “rock” ter, como uma das fontes de inspiração, o velho Moringueira.

“É isso aí, a gente faz o breque como o Moreira tem feito há anos. Evidentemente, ninguém pensou: Vamos fazer igual ao Moreira da Silva”, mas a forma dele atuar deve ter pesado, de alguma forma. Afinal, quem não conhece Moreira da Silva? E o nosso lance é fazer teatro com música. Por isso, fazemos questão de um visual perfeito nos nossos shows, com cenário caprichado, adereços, dança.”

Sucesso Instantâneo – A tragetória do Blitz do desconhecimento total para o sucesso não levou mais que alguns meses. Em fevereiro, quando se apresentaram nos espetáculos do “Circo Voador” – montando pelo “Asdrúbal” na praia do Arpoador – foram vistos pelo produtor Mariozinho Rocha, da Odeon. Encantado com o que classificou de “Som Inovador”, Mariozinho convidou-os a apresentar uma fita à gravadora. Aprovados, assinaram o contrato e há dois meses entravam no estúdio para gravar um LP. Prevendo sucesso, a gravadora resolveu lançar, antes, um compacto. O resto da história é conhecida.

O estouro de “Você Não Soube Me Amar”, assustou até o próprio conjunto, pois, como diz Evandro Mesquita, cantor e principal compositor do grupo, “a gente tinha a consciência de nossa força, mas não esperávamos uma resposta tão grande.” O sucesso, aliás, ultrapassou até as expectativas da gravadora que, agora, espera vender cerca de um milhão de cópias do LP, “As Aventuras da Blitz”, que deve ser lançado em breve. Não é uma expectativa exagerada, pois o primeiro LP do “Secos e Molhados” vendeu, na época, cerca de 800 mil cópias.

Não Para Todos – O sucesso, para alguns integrantes do Blitz, chegou depois de alguns anos de estrada. Antônio Pedro, por exemplo, toca baixo, profissionalmente, há 15 anos. Chegou a tocar com “Os Mutantes”. Foi músico também de Tim Maia, Raul Seixas, Marina , mais recentemente com Robertinho do Recife e Lulu Santos.

O paulista Willian, tecladista, também tem um passado ligado ao “rock”. Fez parte do conjunto “Apocalipse” e “Gang 90”. Ricardo Barreto, guitarrista, dividia seu tempo entre a música e as artes plásticas. Como músico, fez parte dos grupos teatrais “Asdrúbal” e “Disritmia”. As duas jovens que fazem o coral – Márcia e Fernanda – eram, até o sucesso, “doublês” de universitárias (vão trancar as matrículas por falta de tempo de ir à universidade) e artistas. Márcia integrava um grupo teatral e Fernanda fazia parte de um conjunto de dança.

Até dezembro, o único a ter algo em comum com Evandro Mesquita era Ricardo Barreto. Além de terem pertencido ao “Asdrúbal”, os dois – desde fevereiro de 81 – eram integrantes do Blitz, então um conjunto que fazia música “Just for fun” como diz Evandro. O grupo não tinha sequer uma formação definitiva; os únicos certos eram Barreto e Evandro.

Quando pintava um show – geralmente em Ipanema saíamos procurando quem estivesse a fim de tocar conosco. Foi assim durante todo o ano de 81; era uma curtição, apenas. Mas, em dezembro, resolvemos partir para a formação de um grupo mais sólido para as apresentações no “Circo Voador”. Em fevereiro, quando faltava uma semana para o show, o conjunto ainda não estava completo. Nesse período entraram Antônio Pedro e Willian e o Blitz ficou com a formação atual.”

Agenda Repleta – Do conjunto faz parte ainda, Lobão, o baterista que não pode assinar contrato com a Odeon por ter gravado um disco independente. Ficou fora das gravações, mas não deixa de integrar o grupo nas apresentações. Foi ele quem batizou o conjunto, aproveitando uma expressão muito usada por Evandro, quando convidava gente para se unir ao conjunto: “vamos dar um ablirtz aí.”

“Hoje as blitz são marcadas com  muita antecedência, já que a agenda do conjunto anda cheia de apresentações, principalmente nos subúrbios cariocas, um público que os jovens de Ipanema jamais pensaram em conquistar: “Mas, agora, vimos que temos música para qualquer idade e qualquer nível social.” Os ricos e os pobres, como se vê, aderiram ao “rock de breque”.

Mas, a censura anda implicando exatamente com o breque: três músicas do LP ainda não foram liberadas por causa de expressões consideradas “impróprias”. Porém, Evandro Mesquita – autor de todas as músicas do disco – não está disposto a trocar um sonoro palavrão por uma expressão mais suave “porque se o Blitz passar ser bem-comportado não será mais o mesmo conjunto.”

Para Evandro – que começou compondo músicas em inglês – palco, no momento, só com o conjunto. Depois de ter alcançado o sucesso como ator com o “Asdrúbal” e como compositor e cantor com o Blitz, só falta tornar realidade um de seus sonhos de adolescente: jogar futebol no Maracanã.





Revista Veja (acervo digital)
Edição 736, 13-out-1982, pág. 108, Comportamento

A língua Blitz
A juventude do Rio fala conforme a música

O Rio de Janeiro entrou rápido na brincadeira do dialeto Blitz. Começou na praia. Quando alguém está passando óleo nas costas de alguma garota, os amigos gritam de longe: “Desce dois, desce mais”. Chegou depois às escolas. No colégio Andrews, um dos melhores da cidade, um aluno flagrado pelo professor em plena tentativa de cola, reagiu à altura do humor Blitz: “Ok, você venceu”, disse ele, e entregou a prova em meio ao delírio dos colegas. “É linguagem mais de surfistas”, acha Rodolfo Almeida e Silva, 14 anos, aluno do Andrews, que não pratica o surf. “Gosto da música, mas quem usa mesmo na conversa é o pessoal um pouco mais velho.” Muito mais velho, com 41 anos, o colunista Zózimo Barrozo do Amaral do Jornal do Brasil, esqueceu a idade, como tantos outros cariocas, e aderiu à novidade. Na quinta-feira passada, abriu uma de suas notas com a linguagem cifrada marca Blitz: “Em matéria de campanha eleitoral”, disse Zózimo, “está tudo muito bem, está tudo muito bom, mas realmente...”

Essas frases saíram de uma música, Você Não Soube Me Amar, lançada há 4 meses pelo conjunto Blitz, do Rio de Janeiro. Mais falando do que cantando, os seis integrantes do Blitz contam a história de um casal de namorados que conversa no bar. Garçom, uma cerveja, pede o namorado. Só tem chope, responde o garçom. Desce dois, desce mais, encomenda o rapaz. Então a namorada pede batata frita e ele chama o garçom de volta. Ok você venceu, batata frita. Nesse ponto, o namorado, muito nervoso, emprega a tática errada. Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas realmente eu preferia que você estivesse nua. Ela não gosta e o coro entra em ação. Você não soube me amar, você não soube me amar.

Sem Armação – Com essa brincadeira bem humorada, o Blitz vendeu 90 000 compactos em um mês. “Nós falamos de tudo o que acontece com nossa turma, da cabeça das garotas e dos garotos, diz Evandro Mesquita, 31 anos, e um dos integrantes do grupo Blitz. O próprio Evandro já constatou a penetração da brincadeira pelas praias cariocas. “Vi um jogador de vôlei errar o saque, no Leblon, e ser advertido por um companheiro com a letra da nossa música.” Você está nervoso, provocou um. Nada, nada, nada, respondeu o outro. Ambos usavam frases de Você Não Soube Me Amar. E, como a música está sempre tocando no rádio, todo mundo adere. “Meus filhos vivem repetindo o Blitz”, conta a cantora Nara Leão. “Eu também gosto muito. Dá vontade de namorar”, diz ela.

Mas é nos bares que mais se usa o fraseado Blitz. “Fregueses antigos estão cansados de saber que não temos cerveja pedem só para entrar nessa onda”, diz o garçom Manuel Araújo, do bar Varanda de Ipanema, um dos mais frequentados da zona sul do Rio. Araújo nunca repetiu tantas vezes a frase “Só tem chope”, e nunca viu tanta gente dizer “desce dois, desce mais.” Também jamais carregou tantas porções de batata frita. Até sobre as ondas, exercita-se o diálogo.

O surfista Felipe Castejá, conhecido e competente cavalgador do mar no Arpoador, conta que, há dias, já se preparava para subir uma onda, quando foi abalroado por outro surfista Rodolfo Lima. “Ok, você venceu”, rendeu-se Castejá.

Você Não Soube Me Amar foi feita inicialmente para a peça A Incrível História de Nemias Mutcha, há um ano, tendo Evandro Mesquita como cantor. Só agora, porém, a música chegou à boca do povo, para a alegria dos seis membros do Blitz, que cantam e vivem em harmonia total, apesar de algumas divergências internas. Por exemplo, o tecladista William, um paulista de 25 anos, vai votar em Reynaldo de Barros para governador de seu estado, enquanto a vocalista Fernanda, 21 anos, é ativa militante do PT, no Rio. Em compensação, a outra vocalista, Márcia, 19 anos, em nada diverge de Ricardo, o guitarrista de 28 anos, autor de várias músicas do conjunto, que acaba de lançar seu primeiro LP. São namorados, gostam de chope e batata frita. “A gente se encontrou um dia aí por Ipanema e a coisa aconteceu sem armação nenhuma.” O avô do Blitz poderia ser o cantor Jair Rodrigues, cuja música Deixa Isso Pra Lá, acompanhada com gestos de mão, tomou conta do país em 1964. No Arpoador, o surfista campeão Frederico Dorei, fala agora a linguagem Blitz, porque, segundo ele, ela faz sentido na areia, dentro do bar ou no cinema com a namorada. “É o maior barato”, aprova ele.




Billy Forghieri fala sobre As Aventuras da Blitz:

A gente já tinha passado na mão de vários produtores na época: Guto Graça Mello, Nelson Motta, Liminha... Mas nenhum topou trabalhar com a banda. Aí um cara da rádio Cidade, junto com o Mariozinho Rocha, resolveu apostar. Gravamos uma “demo” na marra mesmo, sem teclados e coisa e tal, no estúdio Transamérica. O pessoal da EMI/Odeon curtiu a gravação e resolveu assinar com a BLITZ ! O compacto de Você Não Soube me Amar arrebentou, vendeu quase 1 milhão de cópias no comecinho de 82! E o LP, As Aventuras da BLITZ, umas 500 mil alguns meses depois... Em julho a gente já tinha estourado! Na época da gravação a BLITZ já fazia shows, tava bem entrosada... Por isso foi tranqüilo entrar no estúdio e mandar tudo rapidinho, numa tacada só, nos 16 canais disponíveis naquele tempo!. Os ensaios rolavam no apê do Lobão mesmo... Aliás, a idéia do nome da banda foi dele, no finalzinho de 81. Eu morava com o cara, estava trabalhando no Cena de Cinema com ele quando comecei, por acaso, a levar um som com o Evandro, Antônio Pedro, Ricardo Barreto e as minas (Márcia e Fernanda Abreu). Tinha também o Sussekind (Marcelo, ex - Erva Doce e atual produtor musical) que vivia com a gente: ele montava o som, tocava guitarra nos shows... Uma vez o Lobão passou mal e o cara acabou na bateria (risos)! A mixagem do Aventuras, comparando com discos atuais, é uma porcaria! Naquele tempo se pensava em mono, a voz ficava na cara e os instrumentos numa 'massaroca' danada no fundo, embolados pra cacete! De vez em quando pintava uma guitarrinha aqui e ali... Mas as músicas eram muito boas, ao vivo era outro papo. Viajávamos com equipamento próprio: palco, P.A., luz e cenários do Gringo Cardia, que tava começando junto com a gente. Mas no estúdio só fomos melhorar no segundo disco (Radioatividade), quando gravamos com 24 canais e o Liminha finalmente produziu.





13 de julho de 2012

Sonhos


Até os 25 anos eu me lembrava de muitos sonhos e escrevia todos eles. Depois, os sonhos lembrados ficaram cada vez mais raros. Sonhos bons e ruins. Infelizmente perdi o caderno que tinha a maioria deles anotados, mas achei alguns em outros velhos cadernos.

Quando eu tinha oito anos meu avô paterno morreu. Eu morava em Brasília e ele em São Paulo. Me lembro de meu pai chorando na sala de casa. No dia seguinte foi pra SP no primeiro voo. Pouco tempo depois sonhei que vi meu avô no meu quarto a noite, quando eu estava dormindo. Era noite, eu estava deitado em minha cama e ele em pé no meio do quarto. Até hoje tenho dúvida se eu acordei e o vi lá ou se sonhei. Sei que foi legal. Também sonhei com meu pai pouco depois que ele morreu, mas aí é muito pessoal pra falar aqui.

Durante um período de um ou dois anos, quando eu tinha sete ou oito anos tive um sonho recorrente. Era, na verdade, um pesadelo que, com o tempo, fui sabendo lidar. Ele começou depois que fui a uma festa dada pelo meu vizinho, mas que minhas irmãs não queriam que eu fosse. Era apartamento, só abrir a porta, dar cinco passos e entrar na casa dele. Claro que fui à festa. Não bastasse eu ter ido, ainda quebrei um copo e passei vergonha.

Depois disso comecei a ter o pesadelo, que se passava em um labirinto de paredes brancas altas, que ficava no meio da sala onde aconteceu a festa. Dentro do labirinto tinham objetos relacionados com a festa ou não. Certamente tinha um copo de vidro grande, e lembro também de uma grande bola vermelha. Era tudo muito maior que eu. Nesse labirinto também estava Virgínia, amiga de infância que estava na festa ao meu lado quando quebrei o copo. Apesar de estar no labirinto, ela estava tranquila. Não estava lá por obrigação como eu. Essa era a minha sensação. Não lembro se eu conseguia sair do labirinto, mas acho que não.

Tive um sonho maravilhoso em 1990, depois da primeira (e incrível) noite que passei com uma namorada que era uma paixão de infância, platônica. Eu estava no alto de um penhasco, em um vale com muito verde e céu azul sem nuvens. Era um campo gramado e, firme do que estava fazendo, saí correndo em direção ao penhasco e pulei, caí reto pra baixo como em um salto de bungee jump, mas depois de alguns segundos fui pra cima e comecei voar desordenadamente como Peter Pan. O lance é que eu acordei com forte sensação de ter voado de fato, tão forte que ainda hoje, em 2012, quando me lembro desse sonho, me vem parte da sensação, e me sinto muito bem.

Aconteceu um mais recente, acredito que em 2010, talvez 2009. Sonhei com um primo que faleceu em 1997, de forma ruim e repentina. Eu estava em uma casa que ficava literalmente na areia da praia, bem em frente ao mar. A casa era minha, mas não sei se morava lá. Casa de madeira com varanda. Eu estava na varanda quando chegou um carro, mais precisamente uma Caravan abarrotada de coisas que até deixava a traseira do carro rebaixada: malas, sacolas, caixas. Estava chegando de uma longa viagem e estacionou ao lado de casa. Do carro saiu meu primo, com uma energia que transmitia paz. Ele estava calmo, de calça branca e camisa azul clara de gola, botões e manga longa dobrada até o cotovelo. Roupa bem passada, simples, mas muito bem cuidada. Nos cumprimentamos, nos abraçamos e ele me disse que estava tudo bem. Acho que o convidei para entrar e acabou aí. Curto mas suficiente para mexer comigo. Acordei me sentindo muito bem.
(PS: De 1976 a 1984 tivemos uma Caravan bege e com ela fazíamos a anual viagem Brasília-São Paulo-Brasília)
Aí vão os sonhos anotados que achei:


30 de agosto de 2000
Dormi 2h
Acordei 9h

Sonhei intensamente, a noite inteira. Mas é aquela coisa: quando acordei só me lembrava dos instantes finais.
Eu estava com uma galera na minha casa em Piracicaba, mas não sei quem era. Estávamos de saída, mas por algum motivo que não lembro, tive que voltar, enquanto todos já estavam na garagem. A casa estava com poucas luzes acesas e fui do hall de entrada até a sala de TV para ir até os quartos. Mas quando cheguei à sala de TV me deparei com uma bruxa em pé no meio da sala. Era um vulto, não via o rosto, mas sabia que era uma bruxa por causa das características, do chapéu. Nesse momento tomei um susto, pois não esperava encontrar ninguém no caminho. Ela começou a se aproximar de mim e eu indo pra trás, com medo. Era como se ela estivesse saindo de uma sombra, só que, antes de eu ver o rosto dela, fui acordado pela pessoa que estava comigo e que ficou assustava com meus gemidos.


25 de janeiro de 2001

De repente me vi com meu pai (ele morreu em 23-jan-1989) em um terreno gramado, com um casinha branca, cercado por um muro baixo de menos de um metro de altura.
Estávamos sentados na grama olhando o céu quando apareceram discos voadores triangulares que ficavam fazendo desenhos geométricos no céu. Logo depois saímos correndo porque um deles começou a nos atacar, e entramos para dentro da casa. Lá ficamos atrás da porta fazendo contrapeso para caso o ET quisesse entrar. O ET era enorme, gigante, e sua cara parecia com a de um leão. Ficamos desesperados, pois sabíamos que ele queria nos comer vivos.


02 de abril de 1993
Dormi 03h15
Acordei 13h

Nessa noite lembro de dois sonhos: o 1º lembro pouco. Tinha uma ladeira asfaltada, casinhas modestas (tipo interior). O 2º sonho era uma refeição (almoço ou jantar) e, das pessoas que estavam lembro, estavam na mesa meu pai, Alja (grande amigo e ex-baterista Rip Monsters), Fernanda (minha irmã), e talvez João (Johnny Monster).
Nos pratos comidas exóticas, tipo cérebro de macaco (cortado na vertical) e melão em forma de mamão papaia e com sementes de Kiwi com um molho preto meio transparente que não sei explicar. Depois da refeição haveria uma luta de boxe na TV e Alja queria assistir, mas ele queria mesmo era fumar, e durante o almoço ele ficava me lembrando disso através de códigos verbais, indiretas. Eu ficava sem jeito porque estava ao lado do meu pai. Eu ficava desesperado com o Alja querendo que ele parasse com as indiretas com medo de meu pai sacar e essa situação durou até eu acordar.


09-fev-1994 (sábado para domingo)

Rolava uma festa embaixo de um bloco em Brasília (lá os edifícios residenciais são chamados de blocos). Tinha muita gente.
Andando de ponta a ponta do bloco me deparei com a garota que estava comigo beijando outro cara na boca. Fiquei muito triste, mas me controlei.
Corta para eu dentro de um galpão sujo de luz baixa, com algumas coisas empilhadas. Do nada surgiu um homem-formiga de uns 2 metros de altura e nós começamos uma batalha de vida ou morte. Foi uma luta interminável e cinematográfica. No fim, não sei como, consegui vencê-lo. Não tenho certeza se ele morreu, mas o venci.
Depois da luta apareci em um restaurante de hotel luxuoso que pertencia a minha mãe. Eu andava por entre as mesas, mas não sabia para onde estava indo. Apenas pensava em minha mãe. Eu estava todo sujo, com as roupas rasgadas, mancando, e as pessoas nem davam bola. Mesmo assim me sentia um herói. Muitas pessoas estavam de branco, acho que inclusive eu.

2 de julho de 2012

Jogando Lembranças nas Linhas II

Em 12/04/2010 publiquei no blog Rock Brasília Desde 64, dentro da Série 50 Anos, o texto Jogando Lembrança nas Linhas*, relembrando a velha Brasília das décadas de 1970 e 1980. Na ocasião Brasília completava 50 anos. Duas semanas atrás estava em uma mesa de bar com amigos e amigas jogando conversa fora. Em certo momento passamos a lembrar do quanto era bom a vida sem internet e celular. Sem essa corrida tecnológica que mais parece uma corrida de cegos. Tudo era mais simples, mais legal, funcionava do mesmo jeito e não era essa loucura que é hoje, com pessoas literalmente viciadas nessas ferramentas de última geração, deixando todos cada vez mais individuais, fechados e paranoicos. Então, pela boa conversa e pelas boas lembranças que tivemos na mesa de bar, acabei que escrevi o Jogando Lembrança nas Linhas II, para lembrar algumas pequenas coisas de nosso antigo cotidiano.


Lembro que em 2007, quando eu tinha 37 anos, conversava com uma amiga do trabalho que tinha 23. Falávamos sobre chegar em casa da balada, ligar a televisão, ir à cozinha, tomar um banho... Aí falei pra ela que até, mais ou menos, 1992, a programação das emissoras acabava lá pelas 2h e só voltava entre 5h e 6h. Poucos anos antes disso, quando a Globo não tinha inventado o Corujão, nem nos finais de semana passava-se de 2h30.

Minha amiga achava que eu estava brincando com ela, mentindo. Só depois que outro amigo, pouco mais novo que eu, chegou e confirmou o que eu dizia, é que ela foi acreditar. Fiz as contas e percebi que ela tinha entre 7 e 9 anos quando a TV a Cabo começou a se popularizar aqui no Brasil entre as classes A e B, ou seja, ela em sua época de adolescente baladeira já tinha a TV a Cabo.

Muitas vezes você voltava para casa de madrugada, ou mesmo não saia, mas ficava acordado até mais tarde, e não tinha um canal com programação, tudo fora do ar, com o famoso chuvisco na tela. Nem vídeo cassete tinha, já que ele se popularizou em 1986. Em 1984 já havia vídeos cassetes nas casas, mas o problema era que não havia opção de locadora e também não tinha muito filme com legenda, muito menos dublado. Uma alternativa era deixar gravando a programação da tv quando se saia de casa, mas nem sempre dava pra fazer isso.

A primeira grande locadora de filmes no Brasil foi o Vídeo Clube do Brasil (ou algo assim). Ao se cadastrar você ganhava uma bolsa que cabia dois ou três filmes e também tinha que dar, veja só você caro amigo(a), duas fitas virgens. Isso era 1984. Mas em 1985 muitas outras locadoras surgiram. O Video Clube ganhava por ter muitas cópias dos principais filmes (duas fitas virgens no cadastro!). As locadoras menores ficavam lotadas quando chegava o final de semana. Disputa pelos melhores filmes, com lista de espera e tudo. O vídeo cassete foi uma grande revolução. Assistir a filmes de cinema em casa daquela forma... uau! Era um evento. Vamos à locadora! Ah! Fitas de vídeo virgens eram caras. Hoje seria uns 15 reais, talvez?

Mas quero voltar rapidamente para a televisão para lembrar que controle remoto era coisa de americano. Tínhamos mesmo era que se levantar do sofá, se postar ao lado da TV e mudar o canal através do grande botão giratório. Cléqui, cléqui, cléqui, íamos mudando de canal devagar para ver o que estava passando nas 4 ou 5 emissoras que existiam. “Quem vai levantar agora pra mudar o canal??? Eu não!!!! Agora é sua vez!” . Vixi... O controle remoto foi o vilão das emissoras, assim como o MP3 foi o vilão das gravadoras... rsrs.

Escrever e enviar uma carta para depois esperar sua resposta, isso podia levar duas, três semanas ou mais. Essas semanas de espera eram especiais. Eram dias que passavam com você imaginando a pessoa recebendo a carta, lendo, para depois escrever a resposta, ir ao correio, selar para colocá-la na caixa de correio. Era uma dedicação àquela pessoa. Por trás de uma carta recebida tinha todo um ritual, então ela era valorizada, lida e relida várias vezes.

Na Brasília dos anos 1970, para fazer um interurbano, era preciso passar o número para a telefonista que fazia a ligação para você. “Fernanda telefone!!!!!!!” Não tinha como não gritar ao atender o telefone, já que ele era literalmente fixo. Nem telefone sem fio existia. Era o aparelho de disco, com fio curto e que ficava ao lado da parede. Era preciso se sentar ao lado dele e lá ficar até a conversa acabar. Privacidade zero. Quando se entrava na casa nova falava-se : “... e aqui vai ficar o telefone...”. Alguns poucos sabidões conseguiam comprar aqueles fios telefônicos enormes que apareciam em filmes americanos, mas mesmo assim eram raros. Coisa de televisão. Coisa de americano.

Eram apenas duas opções: telefone ou orelhão. Eu até hoje tenho uma ficha telefônica guardada. Chegava final de semana e o telefone era tudo. Tudo! Combinava-se o horário para se falar, caso contrário podia-se até perder balada, carona, atualizações. Os horários marcados para os telefonemas tinham que ser respeitados. Uma vez que você saía de casa, podia significar ficar um bom tempo sem falar com os amigos, e assim ficar sem saber do que iria acontecer. Você no restaurante com a família precisava voltar rápido pra casa para usar o telefone. Também é bom lembrar que número de telefone era patrimônio. Você comprava um número por uma fortuna, nem todos eram donos de seus números, muitos alugavam. Comprar número de telefone era investimento

Se marcava uma hora para ligar ou receber ligação, esse horário tinha que ser rigorosamente cumprido. Outro enorme problema era o uso do telefone por outro familiares bem no momento em que você precisava dele. Telefone foi motivo de muita briga familiar!

Até o início dos anos 1980 não era todo mundo que tinha toca fitas no carro. Se muito a pessoa tinha rádio AM-FM. Era caro um toca fitas. Ele era tudo numa viagem, por exemplo, entre Brasília e São Paulo! Nos finais de semana os carros mais legais eram os que tinham toca fitas. Tinha gente que gravava fitas coletâneas só para tocar no carro durante o rolé pela cidade. Eu era um desses.

Fitas cassetes eram caras. Aqui no Brasil a melhor era a Basf, mas o legal era conseguir TDK importada, principalmente para gravar os discos mais importantes. Arrisco a dizer que se hoje ainda usássemos fitas cassetes, elas custariam entre 10 e 15 reais. Não dava pra comprar toda hora. Era preciso, algumas vezes, sacrificar gravações, para gravar coisas novas por cima. Entre a Turma em Brasília era comum o roubo de fitas. Era tão indecente que chegava a parecer até um rodízio não oficial, de tanto que as fitas roubadas rodavam de mão em mão, de carro em carro.

Meu pai era agrônomo e viajava para fora do Brasil ao menos uma vez por ano. Sempre que ia trazia ao menos três caixas de TDK. Eu adorava o cheiro de fita nova. Cada fita, uma nova possibilidade. Era muito poder na mão! Em 1978 meu pai passou dois meses no Japão, e era muita novidade pra quem morava num país de milico. O grande presente que ele me trouxe de lá foi um rádio gravador. Absoluta novidade inclusive no comércio brasileiro. Eu podia não só gravar e escutar minhas fitas no meu quarto, como também podia gravar músicas do rádio.

Gravar músicas do rádio era, inclusive, coisa absolutamente normal. Sempre quando eu vinha para São Paulo, trazia ao menos duas fitas com a intenção de gravar músicas das rádios que tocavam rock. Não lembro quais eram, mas estou dizendo entre 1983 e 1986. Muitas vezes conseguia não só novidades gringas, mas demos de bandas paulistanas que tocavam em programação alternativa, e discos independentes. Muita gente ligava para a rádio para pedir música exatamente com a intenção de gravá-la. Lembro do programa Comando Metal, da 89 FM, quando tocou na íntegra, e com poucas semanas depois do lançamento, o ...And Just For All do Metallica. Quanta gente não gravou?! E olha que estou falando de 1989! Nem é tanto tempo assim.

Dinheiro e gasolina também era problema para o fim de semana. Não existia caixa eletrônico. Era cheque ou dinheiro. Se precisasse de dinheiro no sábado e domingo, era preciso sacar no caixa na sexta o tanto que imaginava precisar. Nos bancos não existia fila única. Cada caixa tinha uma fila e tudo era feito na boca do caixa. Não tinha nem débito automático.

Não sei no resto do país, mas em Brasília, os postos de gasolina fechavam oito horas da noite, depois chegaram a ficar abertos até 22h, mas mesmo assim... Isso era péssimo para quem tinha a pretensão de rodar pela cidade.

Mais do que todas essas lembranças, o que acontecia de 1990 para trás era algo muito maior, difícil de descrever. A impressão que fica hoje é que o tempo passava mais devagar, por isso era mais proveitoso. Os acontecimentos tinham mais valor.

O certo é vivermos de acordo com o nosso tempo. Hoje não tenho toca discos ou um Opala 76, e não faço a mínima questão de ter. Em tudo existem os prós e contras, mas mesmo com algumas dificuldades da época, que a vida era melhor, mais simples, mais contemplativa e proveitosa, sem essa paranoia da tecnologia, do futurismo, isso era. Com certeza.


*Jogando Lembrança nas Linhas