24 de maio de 2012

O Fim da Música Autoral!?!

Há anos penso a respeito do fim da música autoral. Não quero dizer que ninguém mais irá compor, não é isso. Mas acredito que a música autoral não vai mais fazer sentido. Vai cada vez mais perder o impacto, a importância. Hoje tem muito mais artistas que há 10, 20, 30, 40, 50 anos atrás. Bandas de rock, grupos de MPB, artistas solos, cantoras, música instrumental, jazz, chorinho, pop, sertanejo, toneladas de tudo. O resultado disso é também toneladas de músicas e letras parecidas.

É só prestar atenção no que ouvimos hoje nas rádios e trilhas de novelas. Sei lá de quem é a culpa disso, mas a qualidade das composições brasileiras, seja qual for o gênero, está cada vez pior e caindo vertiginosamente nesses últimos dez anos, incluindo aí compositores consagrados.

Minha teoria, que já expressei aqui em um dos textos da Série Mais do Mesmo, é que todas as notas já foram tocadas, todos os acordes já foram inventados e todas as combinações possíveis entre eles também. Pode perceber que é cada vez mais raro surgir algo bom e diferente, assim como não surgirá mais nenhum bom letrista. Não teremos mais um Noel Rosa, Cazuza ou Chico Buarque.

Como letrista, quem se destaca nos anos 1990? Marcelo Yuka, Lenine, Pedro Luís (e a Parede), Gabriel O Pensador, Chico Science. Não há comparação com décadas anteriores. É também um ótimo time, mas não tem nem de perto a mesma força.

(Por favor, quando cito nomes, leve em consideração que acabo não lembrando de todos que gostaria de citar e posso até esquecer de citar alguém de suma importância).

A música começou a mudar quando Luiz Caldas apareceu com “Fricote” (Nega do cabelo duro...) e quase dez anos depois, em 1995, apareceu o É o Tchan! que acabou descendo ainda mais o nível. Nesse mesmo período Mamonas Assassinas vendia milhões de discos por segundo, e junto a tudo isso o pagode bombava. Todos esses nomes faziam letras de duplo sentido. Para o lado do rock tinha o Raimundos. Tudo isso foi dando um outro contexto para a música brasileira. E não adianta mais usar um instrumento diferente, um batom diferente, isso não engana mais o público. Foi nos anos 1990 que o papel da música brasileira mudou. Lembro até de pegar um CD de um artista bacanudo dos anos 1990 para escutar na MTV e, lendo as letras no encarte, me deparei com palavras como, por exemplo, derrepente.


As músicas de amor, hoje dominadas pelo sertanejo, pelo baby rock e pelo pagode, são todas iguais sem a menor sensibilidade e profundidade. Versos óbvios, palavras óbvias. O brasileiro não lê e isso fica evidente nos artistas que escrevem. A música brasileira de antes tinha conteúdo, informava, contestava, questionava, opinava e hoje ela é feita apenas para diversão. Normal, tudo bem. Fazer o quê? São outros tempos. Até tivemos um nome contestador nos anos 1990, mas que nem todos deram bola, que era (e ainda é) Gabriel O Pensador. É o que já falei: o que é bom já foi feito, portanto, se eu quiser escutar música boa, já tenho várias opções. Se aparecer algo aqui, outro ali, agrego, se não, tudo bem. As opções existentes já me satisfazem.

Em se tratando de rock então! Quem gosta de um bom rock brasileiro está perdido há tempos. Esse gênero está sem rumo, mais marginalizado que nunca, sem chances de voltar ao mainstream. Também nem precisa, porque não tem muita coisa boa, tá tudo igual, com um ou outro nome mais legal, mas mesmo assim nada fenomenal. Não temos mais a figura do frontman, aquele que segura o público, que leva o show, que faz acontecer, que mata a cobra e mostra o pau, que tem postura, que nasceu pra coisa. Tá tudo xoxo, sem tempero, sem coragem, sem tesão. Todo mundo fica falando o ultra irritante “sai do chão”. Um saco. Mas, como já disse, são outros tempos e ao que tudo indica teremos cada vez mais Michels Telós pela frente.

Fico questionando se vale a pena o artista perder tempo compondo músicas novas que sequer serão escutadas, mesmo que gravadas. Já ouvi da boca de grandes compositores do rock que não querem mais saber de compor e lançar discos. Tem artista que já perdeu o tesão e compõe, se muito, três músicas por ano.

Em SP o que há agora é uma onda de shows com repertórios especiais executados por bandas e artistas de médio porte. E são shows legais. O Mombojó com o China tem o Del Rey com repertório dedicado à Roberto e Erasmo Carlos, o pessoal da Nação Zumbi tem o show só de Jorge Benjor, o Vanguart fazendo Beatles Iê Iê Iê, Pública com Oasis e já sei que virá coisa boa relacionada a Elvis Presley. Estão até pedindo shows especiais do Acabou Chorare e do Transa. Não acharei estranho se grandes artistas brasileiros adotarem esse tipo de coisa (que inclusive artistas internacionais tem feito - veja Cure, Killing Joke, Gang of Four, por exemplo). Não são bem bandas cover como no início dos 1990, são shows homenagens muito divertidos. Esses shows pagam as contas! É isso que tem interessado muito as pessoas que vão, lotam as apresentações, entram na vibe e se divertem pacas.


Em questão de música já temos de tudo para nos satisfazer: canções de amor, política, comportamento, sexo, malandragem, cotidiano, humor, filosofia. As grandes canções já foram compostas, as grandes letras já foram escritas. Antigamente, digo até o final dos anos 1980, escutávamos o disco inteiro. Chegava à rádio o disco com a indicação das músicas de trabalho, mas tocava-se todas. Assim foi com os discos da Blitz, Lobão, Paralamas, Legião, Titãs, Engenheiros...


Acredito que o grande último disco a ser tocado da primeira a última música foi As Quatro Estações da Legião Urbana que, quando saiu o V com a música “Teatro dos Vampiros”, ainda tocava nas rádios “Se Fiquei Esperando Meu Amora Passar”. Isso era reflexo da força do público diante da obra lançada. Depois esse tipo de coisa acabou. Essa força das músicas diante do público foi se esfriando. Hoje grava-se um CD com 14 músicas para aproveitar, se muito, duas. O jabá sempre existiu, mas havia discos que eram mais fortes que o esquema de divulgação. Nos anos 1990, com a força do Real, o jabá ganhou maior importância e novos tipos de negócios, fora o dinheiro por música tocada, foram surgindo. A música autoral foi perdendo músculo, o mercado fonográfico foi perdendo folego, mas o jabá continuou (e continua) firme e forte.

No Top 100 brasileiro da Billboard Brasil de maio/2012 há músicas com os seguintes títulos: “Assim Você Mata o Papai”, “Lê Lê Lê”, “Eu Quero Tchu Eu Quero Tcha”, “Tcha Tcha Tcha”, “Balada (Tchê Tchê Re Re)” e “Qui Belê”. Ou seja, pra quem já teve “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, “Alegria Alegria”, “Vai Levando”, “Eu Nasci há Dez Mil Anos Atrás”, “Detalhes” e “O Tempo Não Pára”, tá bem ruim, né não?

Pra que então fazer música nova?

19 de maio de 2012

Série Coisa Fina: 13 - Diana & Marvin


A Soul Music é incrível. Adoro, sou fã e já escrevi aqui a respeito, mesmo sem muita propriedade. Tenho um arquivo respeitável de Soul, com clássicos conhecidos e obscuros. Sam Cookie, Smokey Robinson, Temptations, Supremes, Wilson Pickett, Al Green, The Isley Brothers, a lista vai longe. Isso é música que se escuta pra ficar de bem com a vida. É de fato música da alma. Toca fundo e desperta bons sentimentos.

Em dias que necessito de energia extra, já saio de casa ouvindo. Alguns discos pegam mais que outros. Esse é o caso de Diana & Marvin, lançado em 26 de outubro de 1973, depois de mais de dois anos de gravação. Diana Ross e Marvin Gaye começaram gravando juntos, mas ao longo do tempo as coisas foram mudando. Diana ficou grávida, Marvin tinha projetos em andamento, inclusive durante as gravações os dois lançaram discos. Por isso, as gravações terminaram com os dois gravando separadamente.


Incomodava também Diana Ross o fato de Marvin Gaye fumar maconha no estúdio. Pediram para ele parar por conta da gravidez de Ross, mas ele falou que sem maconha não cantava. A ideia do disco surgiu em 1970, mas só começou a ser gravado em 1971. Não era uma tarefa fácil juntar os dois principais nomes da Motown, até porque a princípio Marvin Gaye não queria mais fazer duetos. Nada contra Ross, pelo contrário, mas os dois últimos que havia feito suas parceiras não tiveram um final feliz. Ele temia por Diana Ross. Mas foi convencido e topou. Receado de clássicos é perfeito para escutar principalmente naqueles dias tensos, de energia pesada, de aborrecimento, saco cheio. A sonoridade, os arranjos, a produção, direção musical e, claro, as incríveis e maravilhosas interpretações de Diana Ross e Marvin Gaye, pra mim, tudo isso faz ser um álbum perfeito. Grandioso. Deveras romântico. Lindo. São dois monstros da Soul Music em um grande momento.

 Em 2001 foi lançada uma edição remasterizada com quatro músicas bônus que são tão maravilhosas quanto às lançadas originalmente. Diana & Marvin é mais uma referência fundamental para quem quer fazer rock, pop, MPB e até mesmo pra quem gosta de metal mais pesado da terra. É música do bem, que faz bem.

 

10 de maio de 2012

Série Coisa Fina: 12 - The Gift (The Jam)

De um ano pra cá tenho escutado muita coisa que eu escutava no início da minha adolescência em BsB. Os resultados desse flashback são os posts do The Hurting (Tears For Fears), The Cure e Husker Du. Agora é a vez de The Jam/The Gift e, se continuar assim, ainda vou carimbar o blog com Dead Kennedys, Stranglers, Joy Division/New Order, Talking Heads...

O que Paul Weller (e The Jam) fez pelo rock foi algo tão forte que seu nome é citado como influência até hoje, principalmente entre as bandas do Reino Unido, desde cenas como Madchester e Britpop, e agora com Art Brut e Arctic Monkeys. Aqui no Brasil, como influencia direta, dá pra citar Legião Urbana, Plebe Rude, Ira!, Camisa de Vênus e Paralamas do Sucesso.

The Gift é o último disco lançado pelo Jam, em março de 1982, e de maior sucesso. Ele colocou a banda no topo das paradas inglesas e fez de "Town Called Malice" o grande hit comercial do Jam. Depois do lançamento aconteceu a turnê e a banda acabou no final do mesmo ano. Tem gente que considera The Gift um disco irregular. De fato há outros discos do Jam bem mais significativos, mas ele é especial pra mim porque foi, junto com End of the Century (Ramones), um dos primeiros discos que comprei . É daqueles que conheço cada acorde, e até o tempo de intervalo, no vinil, entre uma música e outra. Tudo. Esse disco é bem diferente dos outros, não só pelas composições, mas também pelos efeitos e pedais que Weller usou nas guitarras, abrindo mão de seu timbre clássico em algumas faixas.

Tem também um pezão na black music como o soul e o funk. Arranjo de metais. The Gift é mais próximo do Style Council do que do In the City (primeiro do Jam). O disco inclusive foi gravado em um clima de insatisfação de Buckler e Foxton com as composições.

Mas o Jam foi esperto, assim como o Clash, e sempre mostrou coisas novas a cada lançamento. Sempre evoluindo. E Paul Weller conseguiu juntar o mod sixties, com o lado mais hard do pub rock e a energia do punk rock. Mais ou menos isso. Em resumo, trouxe evolução para o rock inglês.

The Gift tem essa coisa de brincar com outras sonoridades, como o lance latino de "The Planners Dream Goes Wrong", a boa e velha mistura de rock e soul, além de uma sonoridade pós-punk que volta e meia aparece. É um disco meio doido, no bom sentido, mas com boa produção e direção musical.

Na verdade todos os discos do Jam são ótimos e cada um tem sua particularidade. Foram apenas seis discos de estúdio lançados entre 1977 e 1982. Paul Weller nesse período reinventou a forma de tocar guitarra, assim como Bruce Foxton trouxe para o baixo novas possibilidades (no final dos 1980 ele tocou no Stiff Little Fingers). Era um trio de muita energia ao vivo e, como já disse, uma das principais referências do rock inglês, o que, venhamos e convenhamos, não é pouca coisa.

Como fiz no Pixies, registro aqui que das 68 músicas gravadas pelo Jam em seus LPs oficiais, 59 foram compostas por Paul Weller. Quer sentir a influência do The Gift? Escute então "A Dança" da Legião Urbana e escute "Precious"; escute "Sonhar Com Quê?" do Ira! e escute "Running on the Spot" (que inclusive o Paralamas a toca em alguns shows).

PS: Ninguém me tira da cabeça a ideia de que a capa do Synchronicity (The Police) foi inspirada na capa de The Gift.

3 de maio de 2012

Rock Brasileiro: 2 - Reflexões {2}

Ave Sangria
Fui à lojas de discos de vinil. Para ser mais exato, em cinco lojas, cinco sebos. Achei legal ver em todas elas discos de rock brasileiro expostos ao lado de clássicos estrangeiros. The Jet Black's, O'Seis, Renato e Seus Blue Caps, Rita Lee. E até coisas mais obscuras e underground como Os Brazões, Flaviola e o Bando do Sol, Bixo da Seda, Ave Sangria e Módulo 1000. Um resgate muito importante. Isso me parece que tem um empurrão causado pelo interesse de europeus, americanos e japoneses. David Byrne, Kurt Cobain, Belle e Sebastian, Beck citam influencias da música brasileira.

Cresci com meus pais escutando de tudo: Serge Gainsbourg, Frank Sinatra, Willie Nelson, Rolando Boldrin, Alvarenga e Ranchinho, Tonico e Tinoco, Chico Buarque, Maria Bethânia, Soul Music, Glenn Miller, Duke Ellington, Elis Regina, a cena de San Francisco, soft rock, Gilberto Gil. Um monte de coisas (bossa nova não!).

Dos anos 1980 o melhor eram os shows, por causa do som que, mesmo sendo ruim, era melhor do que estava em disco. Até o final dos 1980 poucas bandas conseguiram gravar discos com ótima qualidade sonora. Por isso, o que acontece é de pessoas redescobrindo discos dessa época e quando vão escutar rola uma decepção. Já escrevi sobre isso por aqui. Aí nos anos 1990, por conta de tanta novidade vinda do Reino Unido e EUA como a cena eletrônica, Madchester, Grunge, Britpop, quem estava formando sua banda, acabou indo direto para essas influências, principalmente as duas últimas cenas citadas.

Durante toda a década de 1980 os jornalistas que escreviam sobre música faziam questão de deixar claro o preconceiro. Pela economia, pela política, a cultura sofreu um baque no final dos 1980 e início dos 1990. Muitos dos que esrtavam começando, não vendo futuro aqui, compunham em inglês. Bandas cantando em português só ressurgiram junto com o Real, em 1994. O Raimundos com forró, o Skank com Clube da Esquina, O Rappa e Planet Hemp com o samba dos morros e da Lapa, a malandragem carioca e CSNZ o Maracatu.
Mas acredito que o pontapé inicial do que se tornou hoje a influência da música brasileira mais antiga nos trabalhos de bandas e artistas solos foi o aparecimento do Los Hermanos. Queira ou não a banda resgatou o samba, a bossa nova e também um pouco da mpb dos anos 1970. Particularmente eu não gosto, mas não posso negar essa influência.

As bandas do Rio Grande do Sul sempre tiveram forte influência da Jovem Guarda, Marcelo D2 o samba, tem uma nova geração que é mais ligada na Tropicália e na mpb70. É nítido isso em quem faz rock com mpb e vice versa. Os gringos mostraram interesse e isso fez despertar a curiosidade dessa geração surgida com LH e que agora vai mais longe na busca pelos artistas e discos mais raros, como quem diz "quem é você gringo que quer saber mais que eu, que sou brasileiro."

Também conheço algumas bandas que mesmo sendo 100% rock, citam Clara Nunes, Noel Rosa, Ney Matogrosso, Vinícius de Moraes. É bom ver essa valorização, mas digo sem querer ser nacionalista. Nada disso. Sou roqueiro, ultra fã de ingleses e americanos. Só que também valorizo tudo isso, pesquiso desde 1997 e muitos discos que eu não tinha acesso na época consegui através da internet, principalmente, nos 10 últimos anos. Mas essa influência não se restringe só a bandas do underground dos 1960 e 1970. Tem também os nomes ditos marginais como Arnaldo Baptista, Itamar Assumpção, Jards Macalé, Tom Zé, Sérgio Sampaio.

Em todas essas lojas eu vi gente garimpando, incluindo alemães e japoneses. Mas pra você que quer achar pérolas a dica é não ir nesses sebos mais conhecidos. Há lugares que sabem colocar o preço, mas há lugares que não, principalmente em pequenos sebos de bairros, digamos, menos comerciais e mais residenciais. Há brechós com discos, mesmo que poucos. Já achei muitas coisas boas em lugares mais especializados em objetos antigos e roupas usadas, e com pouquíssimos e ótimos discos vendidos por 3, 5, 10 reais no máximo.
Mas fato é que durante muitos anos nos 1990, 90% das bandas ignorava a música brasileira e só depois que a nova cena estourou em 1995 é que um monte de bandas que cantavam em inglês passaram a amar Jackson do Pandeiro e Tom Zé. Nessa época aqueles que mostravam gosto pelo rock brasileiro, mpb, forró, chorinho e até mesmo Tropicália eram escrachados pelos "grunges" e "alternativos", que com o fim dessas cenas, passaram a admirar exatamente do que antes riam e depreciavam.

Por isso hoje é bom ver que as novas gerações não tem vergonha e preconceito da música brasileira, pelo contrário, hoje são influências assumidas e a garimpagem por títulos raros vai além do colecionismo, também é expectativa de que possa se tornar uma nova influencia. Lembro, por exemplo, de escutar Loki? em 1987, com 17 anos e a cabeça rodar com o que pra mim era novidade. Em poucos dias estava eu com todos seus discos solos comprados, e por um preço baixo, já que na época ele estava completamente esquecido. Hoje as coisas mudaram. Vai achar o Build Up da Rita Lee. Quase impossível, e ainda pode chegar a 350 reais.
Hoje, eu que fiz parte da turma dos 1990 que tomava porrada por gostar de mpb, tenho a alma lavada de ver que esse preconceito que escrevi aqui acabou. Agora, se essas influencias são bem ou mal usadas, isso é outra história.

19 de abril de 2012

Foo Fighters e Oasis

Tenho alguns amigos que volta e meia discutimos sobre Oasis e Foo Fighters. Mas é dessas discussões saudáveis, de bêbados. Que não chega a lugar algum. Porém afirmarei até o fim da vida que Oasis não chega nem aos pés de Foo Fighters.

Oasis dos irmãos Gallagher. Liam e Noel vivem em uma bolha onde só há Beatles e a própria banda (e agora suas carreiras individuais).

Não é, nem de longe, uma banda de personalidade e sonoridade próprias. Além do mais, o mau humor e a pose de descaso, principalmente de Liam, é algo que beira o ridículo. É só lembrar-se dele cantando sentado no Rock in Rio.

Partiram para a carreira solo é continuam fazendo a mesma coisa. Não gostam de nada e não gostam de ninguém. As músicas, os discos, os clipes, tudo se refere a Beatles. É muita pose para pouco som.

Tem outra coisa. A sonoridade do Oasis não é só parecida com a de Beatles, mas também é ultra mega chupinhada de Inspiral Carpets, Charlatans UK e Stone Roses. Quando não parece um, parece outro.

Aí vem pedrada me dizendo que Dave Grohl não tá com nada (rápida citação de Detrito Federal), que é um americanóide, e que faz pose. Dificilmente os Gallagher seriam meus amigos, ao contrário de Dave, que como eu, é um roqueiro convicto, amante do bom rock: Black Sabbath, Motorhead, Ramones, Beatles, Who, Pixies, Husker Du, Led Zeppelin, Pink Floyd, Clash, Sex Pistols...

Dave é um cara que sabe aproveitar as oportunidades, tanto é que já tocou com vários de seus ídolos. Conhece muito bem cultura pop, o universo rock, e um bom exemplo recente desse seu bom gosto está na participação que ele fez no novo filme Muppets, fazendo papel de substituto do baterista Animal. Sempre foi fã de Germs, e se sente honrado em tocar com Pat Smear.

Só que o mais legal é ver que o Foo Fighters se diverte, o que é fundamental para quem quer fazer rock’n’roll. Lembro de uma entrevista gringa em que o repórter quis saber o motivo da banda se vestir de mulher nos clipes, “se é pra fazer clipe, que é uma coisa chata de fazer, ao menos vamos nos divertir”, essa foi a resposta. É isso.

Um dos primeiros shows do Foo Fighters aconteceu na loja da Virgin nos EUA, lançando o primeiro disco. Foi divertidíssimo. Dave chamou uma fã para cantar uma música, foi um show intimista que já mostrou o que seria o FF. Você vê a banda ao vivo e tem a certeza de que todos que estão no palco, estão se divertindo tanto quanto você. Bem ao contrário de um show do Oasis, que também jamais faria um clipe como Big Me ou Everlong.

É isso; enquanto os irmãos Gallagher, principalmente Liam, faz pose de quem está odiando tudo em sua volta; o Foo Fighters aproveita cada segundo se divertindo pacas.

Gosto é gosto. Considero Dave Grohl mais verdadeiro e Foo Fighters mais divertido, mais rock e mais pesado que Liam, Noel e Oasis. E tem quem goste muito das duas.

Bem, uma parte desse contexto está também no post Ídolos de Barro e Ídolos de Aço (set/2010), que completa bem o que quero dizer.

7 de abril de 2012

A Morte do Futebol!

Há anos não escrevo aqui sobre futebol, então me sinto a vontade até para me repetir (não reli os textos antigos). A última vez que fui ver uma partida de futebol no estádio, foi na (mais do que) fracassada Copa João Havelange, a qual – digamos a verdade, foi ganha pelo São Caetano. Quando foi isso? 1999? Então já são 13 anos que não dou um tostão do meu suado dinheiro para os cartolas da bola.

Sou palmeirense, tenho muitos amigos no jornalismo esportivo, inclusive apresentadores, colunistas e participantes desses programas de debate futebolístico nas TVs aberta e a cabo, e faço questão de não dar um centavo para qualquer time ou seleção. Não uso camisa do time e não consumo os produtos anunciados nas transmissões, principalmente esses que tem acordos eternos com a CBF (como diz Juca Kfouri, Casa Bandida do Futebol).

A Copa no Brasil é uma clara ação para apenas uma dúzia de corruptos milionários ficarem mais milionários (haja caixão pra tanto dinheiro!). Os times estão falidos, vivem de aparência. Eu, pobre coitado trabalhador, se entro no SPC por 10 reais, passo a ser visto como bandido. Me pergunto como um time com dívidas que somam centenas de milhões de reais, pode continuar a exercer as atividades, e pior, conseguem empréstimos de milhões para contratar até mesmo jogadores de qualidade duvidosa.

O futebol me perdeu e, assim como eu, muitos amigos e amigos dos amigos também deixaram de ir aos estádios. Pra quê? Se para comprar ingresso você sofre, para ir ao estádio sofre, entrar no estádio sofre, para consumir alimento durante o jogo sofre e para ir embora sofre. Dá pra entender? Eu vejo estádio cheio pela televisão e minha cabeça entra em parafuso. Até entendo quando o jogo acontece no interior, mas nas capitais não entendo mesmo. Aliás, me parece que nem mais o interior está engolindo os fracos confrontos, já que nessas últimas rodadas do Paulista os estádios estão vazios, com menos de 10 mil pagantes.

Você vai a um jogo de futebol sem saber se vai voltar vivo para casa. Torcedores morrem e brigam no meio da rua e as pessoas vão ao estádio! Lembro de um amigo, que trabalhou anos na Record como repórter, me relatando o que aconteceu naquele jogo do Pacaembu em que o Corinthians foi eliminado da Libertadores. Em determinado momento, ele pai e eu também, estávamos os dois chorando, por conta do sofrimento das crianças assustadas. Era jogo de uma torcida só, momento perfeito para levar família no estádio, certo? Nada disso.

Os clubes dão respaldo para as torcidas organizadas, tendo uma relação próxima, favorecendo-as em relação a ingressos, logística, transporte. Essas mesmas torcidas que xingam e ameaçam jogadores, técnicos e cartolas. Marcam briga, não respeitam lugar marcado e até matam pessoas! Agora pergunto: o que os clubes fazem por torcedores como eu, trabalhador normal, que ama futebol, que não quer brigar, que gostaria de levar a família para o estádio (é um momento lindo, não é?), que simplesmente quer participar mais ativamente, mas sem fazer dessa participação uma batalha?

Os responsáveis pelo futebol só querem cifras, acordos com patrocinadores (que se fingem de mortos), e esquecem o que realmente importa. A CBF não cuida dos estádios, não cuida do calendário, não cuida de nada além da seleção, e como o exemplo vem de cima, as federações estaduais são tão podres quanto a Confederação.

Sou sócio do Palmeiras, frequento o clube social, nado toda semana, e se engana quem pensa que nele sócios são apenas torcedores. Nada disso. No clube social tem muita gente que nem gosta de futebol, e mais, há sócios que torcem para outros times. Normal.

Futebol não é para se matar. Não existe razão para transformar um jogo de futebol em guerra. Pra mim, não faz a menor diferença se meu time ganhou ou perdeu, já que o dia seguinte pra mim continua igual.

Dane-se os cambistas, dane-se os acordos comerciais, dane-se os clubes, dane-se jogo as 22h, dane-se o cachorro quente que é frio e caro, dane-se que jogo de futebol não se paga. Azar de quem vai aos estádios, azar da Copa do Mundo ser no Brasil.

O futebol na minha vida já é supérfluo, desorganizado dessa forma então...

PS: Alguém acredita na CBF ou em Mano Menezes?

29 de março de 2012

Série Coisa Fina: 11 - The Presidents of the United States of America

Aí então veio a virada dos 1980 para os 1990 e uma cena híbrida apareceu. Falo de Stone Roses, Inspiral Carpets, Charlatans UK, Happy Mondays, Primal Scream e outros. Uma cena que misturava elementos eletrônicos, loops e muita psicodelia. Uma coisa meio hippie moderno e um clima de “vamos tocar pra nos divertir”. Era uma espécie de rock alternativo, mas que não era sisudo.

O pessoal mais cool, que gostava de um rock mais sério, mais cabeça, mais alternativo, ia para outro lado: REM, Pixies, Husker Du, Sonic Youth, Flaming Lips, Jesus and Mary Chain, Screaming Trees, Jane’s Addiction. Essas bandas tinham uma postura mais séria, a mesma postura que anos depois tiveram Pearl Jam, Alice in Chains, PJ Harvey, Morphine, Alice in Chains, Soundgarden, Pavement, Weezer.

Essa postura mais cool, mais lado b, underground, música para intelectuais, sempre existiu, há coisas boas e coisas ruins como tudo. Nada contra. O que na verdade irrita é a postura do jornalista e fã desse rock mais cabeça. A pessoa acha que deve ser cabeça também. Não se pode levar o rock tão a sério.

O miolo dos anos 1990 foi baseado nesse rock cabeça, ainda das rádios universitárias americanas e, por causa disso, uma das melhores e mais criativas bandas da década passou batida por muitos: The Presidents of the USA, o patinho feio do tal grunge.

Tem aquele cara que se produz inteiro para parecer que não se produziu, chega na festa, encosta na parede, faz pose, não se mistura com qualquer um, tem um cigarro na orelha e outro os lábios, só pensando em qual garota ele vai levar pra cama no final da noite; e tem aquele cara que chega na festa com o cabelo despenteado sem saber, com um jeans, camiseta e tênis porque é assim que se sente bem, se dá bem com todo mundo e que está ali, acima de tudo, para beber e se divertir com os amigos. O PUSA é o segundo exemplo.

Sei lá o motivo, mas um dia na MTV tive que gravar algum programa que não era de minha responsabilidade e nele havia Presidents. Achei legal o clipe, que era da música “Lump”. Saí do estúdio e fui direto perguntar da banda para o redator do programa. Com certo desdém falou que era legal, mas não tinha nada demais. Não fui atrás, mas passei a observá-la.

Tempos depois chegou na MTV um show do Presidents no Monte Rushmore, aquele onde estão esculpidos os rostos de 4 presidentes americanos. Como era eu que tomava conta dos shows e acústicos gringos, tive que assistir ao show. Chapei de ouvir o peso do som apesar de, somando guitarra e baixo, serem apenas cinco cordas, além de uma bateria quase pelada, sem tom tom. Virei fã e resolvi ali saber melhor sobre a banda. Além disso tudo, a presença de palco era muito boa. Os três de fato se divertiam nos shows.

Chris Ballew com Mark Sandman (esq)
Antes da banda, Chris Ballew, o vocal e baixo, já havia tocado com Mark Sandman, do Morphine, e também com Beck. O baterista Jason Finn tocava no Love Battery e Dave Dederer apareceu mesmo com o Presidents (apesar de ter tocado em uma banda junto com Duff McKagan). É uma doidêra ver como Chris e Dave usam seus instrumentos. Chris toca um baixo de duas cordas (distorcido pelo amplificador), sendo que uma delas é corda de guitarra, coisa assim. Dave usa só três cordas em sua guitarra e ambos afinam de forma diferente. É um baixo meio guitarra e uma guitarra meio baixo. Isso é legal!

PUSA tem sonoridade simples, direta. Bons riffs, ótimos refrões e linhas de baixo, bateria bem seca com ótimas viradas de caixa (o que adoro). É punk rock do bom, daqueles com mais melodia como Buzzcocks, 999, Wire, Stiff Little Fingers, Generation X, The Beat, XTC. É rock pra dançar. Nessa sonoridade também tem o lance do forte sotaque americano (típico das músicas country) e mais alguns elementos dessa raiz musical americana.

Nos Estados Unidos a banda fez sucesso, ganhou Grammy e vendeu mais de 3 milhões do primeiro disco, que tem uma ótima versão de “Kick Out the Jams” do MC5.

Apesar dela não ter feito sucesso por aqui, vale a pena ouvi-la para saber como ainda é possível fazer coisas simples e de personalidade. The Presidents of the United States of America soube criar uma sonoridade própria e é, pra mim, dentro dessa cena descrita aqui e ao lado de Morphine, um diferencial na década de 1990.










15 de março de 2012

Metal! Metal! Metal!

Minha paixão é o punk e pós-punk, como fica claro aqui no blog. Porém o metal faz parte da minha vida e é, também, muito importante na minha história. Nele sou mais seleto, não é de tudo que eu gosto. Escutei AC/DC, Van Halen e Iron Maiden na mesma época que conheci Ramones, Sex Pistols, Clash e Jam. Os três acordes, a tosqueira, os cabelos despenteados e as roupas rasgadas do punk me conquistaram mais que o couro preto, os solos de guitarra e os longos cabelos do metal. Sempre tive amigos headbangers. Em Brasília era normal punks e bangers estarem juntos, serem amigos.

O fabuloso e genial guitarrista Fejão (Escola de Escândalo e Dungeon) vivia de brincadeira com os punks carecas Jander (Plebe Rude) e Fred (Mantenha Distância). Eles costumavam brincar em disputas de comparação para saber quem tocava mais rápido, se era Dead Kennedys ou Metallica e Slayer. Dessa forma, na brincadera, além dessas duas bandas, conheci também Venom e outras bandas de metal que surgiram nesse período.

Em 1983, quando Kiss veio ao Brasil, acompanhei tudo de Brasília. Nessa época eu estudava com Biu, ex-guitarrista do Rumbora, e tínhamos outro amigo metal que era o Parente, depois guitarrista do Fallen Angel e Dungeon. Lembro de uma apresentação que tínhamos que fazer na aula de ciências e não sei qual o motivo, o professor nos deixou falar de outros assuntos. Biu fez uma apresentação sobre o Kiss e eu fiz uma sobre o Sex Pistols. Isso foi engraçado, até porque era colégio de padre...

Em 1982 minha irmã Fernanda fez intercâmbio fora do Brasil e quando voltou no final do ano trouxe uma penca de discos. Entre eles estava ‘For Those About To Rock’ e ‘Back in Black’ do AC/DC, e ‘Piece of Mind’ do Iron Maiden. Nessa mesma época em casa já tinha o ‘Van Halen 1’. Esses 4 discos foram automaticamente incorporados ao meu gosto e até hoje estão na minha lista de preferidos. Só que naquela época não era de bom grado misturar as coisas. Isso era traição da maior gravidade e, por conta disso, o gosto por esses 4 discos era segredo absoluto. Não me arrependo, mas, também por conta dessa imbecilidade, deixei de ir ao show do Van Halen em São Paulo. Tinha ingresso e não quis ir. Era a turnê do ‘Diver Down’, também um de meus preferidos. Do Motorhead não tem jeito, e eu gostava mesmo era de ver o clipe de “Ace of Spades” no Som Pop. É coisa de deixar qualquer um maluco.

Venom foi tocar em Brasília na turnê que fez aqui em 1986, mas não quis nem chegar perto. Disso eu já não gosto. O tal metal melódico eu também não gosto, tirando Iron. Não gosto, por exemplo, de Judas Priest. Prefiro um bom thrash metal.

Em 1986, também em Brasília, era comum ter shows de metal e punk misturados. Estava tudo entre amigos. Nessa época, em São Paulo, essa discussão estava no auge, inclusive o RDP começou a ser chamado de traidor por incorporar influência thrash no som, enfim...

Durante meus aos de MTV Brasil, fiz a direção do Fúria Metal, que era apresentado pelo Gastão (Mogs!). Tudo de bom! Conheci Ozzy, Angus, Alice Cooper, Kiss, Slayer, Black Sabbath, Dio, Saxon, Pantera (argh!), Iron... a lista é longa, vai longe. Tirando isso havia a cena local com Dorsal, Sepultura, Korzus (minha preferida), Angra, Overdose, Krisiun, Volkana, Viper, e vai...

Anos depois fui diretor do Stay Heavy por alguns meses, quando pude reviver um pouco dos bastidores do metal.

Aprendi muita coisa, inclusive com o pessoal fiel, que enviava carta e ligava. Não há, dentro do rock, fãs tão fieis e dedicados. Não há, no rock, gênero que mais ramificações têm. E outra: é o único estilo que não sucumbiu como moda, pelo contrário. Surgiu nos anos 1970 e até os anos 2000 se renovou. Hoje sim, vejo uma estagnação, mas isso depois de 40 anos!!! Não foi como o progressivo, o punk, a new wave, o grunge, o acid rock, o gótico, o electric rock e outros que evoluíram por, no máximo, 5 anos e mais nada... independente da importância de cada um desses gêneros.

Você pode ver a adoração nas bancas com tantas revistas, e na internet com os sites e blogs. Os headbangers gostam de todos os detalhes que envolvem um disco, como foi gravado, quem produziu, quais instrumentos foram usados. Tudo é importante. Nada escapa.

Pra muitos, o metal é um estilo de vida, e é muito legal ver o amor do banger por sua banda preferida. Admiro a dedicação do fã e dos artistas. É muito forte essa relação e é isso que faz a diferença. O respeito vem das duas partes. Vi muito de perto esse respeito que os grandes nomes do metal tem pelos fãs. É incrível. Eles realmente se importam com quem compra o disco, vai ao show, e procura saber de tudo da carreira. Artista de metal que esnoba o público não dura nada.

Passe quantos anos for, com modas indo e vindo, na chuva ou no sol, com todas as dificuldades imagináveis e inimagináveis, gostando ou não, o metal sempre estará de pé.








28 de fevereiro de 2012

Série O Resgate da Memória: 27 - Entrevista com João Gordo (2000)

Conheci João Gordo em 1983, na Punk Rock, quando a loja era na Rua Augusta. Estava lá comprando camisetas e bottons, já que em Brasília não tinha nada disso (só o que nós mesmos fazíamos), quando Gordo colou em mim perguntando se eu queria aparecer na TV Bandeirantes, pois nesse dia ela estava fazendo uma reportagem sobre o movimento punk e queria filmar os punks subindo a Augusta. Tímido eu fui, mas fiquei bem atrás de todo o pessoal.

Em 1986 o RDP foi fazer seu primeiro show em Brasília, e foi demais! Inclusive desmaiei nesse show por ter sido prensado entre o público e o palco por causa da brincadeira de pogo que fazíamos na frente dele. Susto rápido, mas perdi o fim do show.

Em 1987 me mudei para SP e nas noitadas comecei a encontrar Gordo direto e assim ficamos amigos, até porque já tínhamos muitos amigos em comum.

Em 1996 ele foi parar na MTV e lá estreitamos um pouco mais a amizade. Não lembro se foi em 1999 ou 2000 que João teve o piripaque que o levou para a UTI. Um susto para todo mundo! Pouco antes eu tinha emprestado a ele o filme Quadrophenia, e lembro bem quando ele voltou a trabalhar e me disse que precisava me devolver o filme. Eu, na hora disse: "Velho, você tá louco? Quase bateu as botas e quer me devolver o filme? É seu! Fica de presente!", e assim foi.

Nesse mesmo ano eu saí da MTV e fui trabalhar em um site como Editor de Música. Como no início eu não tinha uma equipe, era eu mesmo que fazia tudo. Um dia liguei para o Gordo e pedi uma entrevista. Isso foi 3 ou 4 meses depois que ele voltou pra casa, bem quando o RDP estava lançando o EP Guerra Civil Canibal. Ele ainda estava tomando remédios, de licença médica e mais tranquilão.

João Gordo é um grande sujeito e sempre foi, mesmo em seus tempos porra louca, nos 1980 e 1990. Então fica aqui no Sete Doses de Cachaça registrada mais essa entrevista que fiz.

PS: Pode não parecer, mas entrevistar amigos é bem mais difícil...



Paulo Marchetti - Como você está?
Gordo - Vida nova, né?

Paulo Marchetti - O que você aprendeu com esse susto?
Gordo - Que cigarro é uma porcaria, uma bosta. (risos)

Paulo Marchetti - Mas a culpa foi só do cigarro?
Gordo - Não, foi uma vida desregrada. As pessoas pensam que meu coração é de criança, minha pressão é de neném e meu colesterol é de baby. Eu tenho uma diabétes fudida e um problema no pulmão, que foi consequência de vinte anos de tabagismo descontrolado.
Devido a um porre que eu tomei em Parati, há uns cinco anos atrás, levei uma queda que me quebrou duas costelas e eu as deixei quebradas e uma delas ficou torta, com uma ponta no pulmão e essa ponta furou meu pulmão. Deixei esse problema, fui engordando, fui ficando louco ...


Paulo Marchetti - Você precisava ter tido um problema de saúde pra se ligar?
Gordo - Precisava. Aí eu senti que eu estava errado do modo como vivia. Eu comecei a pirar de vez, meu fim de ano foi muito doido. Cheguei a pesar 210 quilos e já nem conseguia mais dormir e fumava quase 50 cigarros por dia. Comendo e bebendo muito refrigerante só de litro. Só comia porcaria, muito doce, cada vez mais. Na semana que eu tive o “piripaque”, eu tinha certeza de que iria morrer.

Paulo Marchetti - De alguma forma, esse problema de saúde atrapalhou o disco novo?
Gordo - A gente fez um mini LP, né? Eu fiquei doente e faltou gravar dois vocais que só fui gravar agora.

Paulo Marchetti - E deu pra cantar legal?
Gordo - Deu. Mudou muito. Minha vida mudou pra caralho. Olha, só o fato de parar de fumar já mudou tudo. Nunca tive um pulmão tão limpo como agora. Minha voz mudou, meu fôlego. O timbre da minha voz ficou mais grave e até tive um pouco de dificuldade de cantar como cantava, porque estranhei minha garganta limpa.

Paulo Marchetti - Você acha que o pessoal irá sentir essa diferença?
Gordo - Não sei. Eu senti diferença porque as letras deram uma mudada. Inclusive nesse disco tem uma letra “pré piripaque” e uma “pós piripaque”. A letra “pré piripaque” se chama “Toma Trouxa” e é a história que eu estou na balada, bem louco, e conheço uma mina e eu ofereço droga pra ela, começo a pega-la, mas ela só queria minha droga. Eu dei a droga e ela sumiu. No final, a moral da história é: a mina é uma piranha ou eu que sou um suicida?
A outra letra se chama “Obesidade Mórbida Constitucional” que fala de tudo isso que rolou comigo e no final tem um discurso onde eu falo todas as normas técnicas do que eu tive, que eu li no meu relatório médico. “Obesidade Mórbida Constitucional/Regada por tabagismo pesado/ Ingestão de líquidos e alimentos desregradamente...” é uma história. Esse mini LP se chama “Guerra Civil Canibal” e tem 7 músicas.

Paulo Marchetti - Qual a intenção desse mini LP?
Gordo - Apenas lança-lo. No momento estamos lançando 3 discos: esse mini LP, a coletânea “Só Crássicos” que sairá pela RDZ e, pela Alternative Tentacles, sairá o “Sistemados Pelo Crucifa” que é a regravação e revisitação do “Crucificados Pelo Sistema”. Vai ser bem legal.

Paulo Marchetti - E como você está pra fazer shows e sair em turnê?
Gordo - Tô ótimo. A única coisa que está foda é a história da minha costela, que vou ter que operar. Eu sinto ela me cutucando, parece que tem um dedo no meu pulmão. Quando fico de pé por muito tempo, ela começa a me incomodar. Também parei com tudo, com doideira, com cigarro, bebida alcoólica, só como comida saudável. Agora estou me cuidando...

Paulo Marchetti - Você está aguentando essa nova vida?
Gordo - Porra, tem que aguentar, mas estou numa boa. O cigarro que eu pensava que ia ser foda de largar, está sendo na boa. Acho que o susto valeu.

Paulo Marchetti - A intenção é emagrecer mais ou manter o peso que você está?
Gordo - Tenho que emagrecer mais. Agora eu tenho médico, coisa que nunca tive e ele fica no meu pé. Tenho ido, três vezes por semana, à uma Psicóloga. Tenho um monte de nó na minha cabeça e ela me ajuda.

Paulo Marchetti - O Ratos dá dinheiro?
Gordo - Não! É dinheiro a longo prazo. Todo mundo nos rouba, as gravadoras não nos pagam, quando pagam é demorado. A RoadRunner não paga, a Paradoxx não paga. Inclusive eu irei processar a Paradoxx.

Paulo Marchetti - Qual o disco do RDP que mais vendeu?
Gordo - Eu não sei. Não temos um controle sobre isso, cada disco é de uma gravadora diferente.

Paulo Marchetti - O Ratos nunca foi para os Estados Unidos...
Gordo - Só pra mixar. O lance de fazer turnê nos EUA é que precisamos de um apoio grande de alguma gravadora. Os EUA tem muita cidade e é tudo longe, então toda vez que o Boka tenta armar alguma coisa lá, as pessoas falam que a gente vai perder dinheiro e perder o que nós não temos é foda.
Agora na Europa a gente consegue fazer turnê por que? Porque a Espanha e Portugal pagam tudo. Principalmente Portugal, que a gente pode cobrar 4 ou 5 mil dólares por show, pois vão umas 3 mil pessoas nos assistir. Então essa grana já paga, por exemplo: eu tenho uma grana e pago minha passagem e a do Jão, aí ele fica me devendo o dinheiro da passagem e o dinheiro que ele recebe em Portugal, vai pra mim. O Boka e o Fralda compram pelo cartão de crédito e tem todo o esquema. Na Espanha também ganhamos bem. Na Itália vai gente pra caralho nos shows, mas não ganhamos porque é sempre shows em Squat e você tem que dividir o dinheiro com quem precisa e acabamos ganhando menos de mil dólares. Mas é assim, se você faz 50 shows, ganha 700 aqui, 500 ali, tirando o gasto com comida, transporte... com droga não temos mais gasto, porque agora todo mundo é careta (risos), acaba sobrando uns 2 mil pra cada um.

Paulo Marchetti - Vocês foram roubados na última turnê européia...
Gordo - A gente foi assaltado na Itália, perto de Udine, indo pra Eslovênia. Paramos num restaurante e deixamos as bolsas no carro, porque foi uma parada de 5 minutos. Voltamos e vimos que tinham levado duas bolsas, uma do Pedrão e outra do Boka. Lá tinham os passaportes deles e, uma delas, tinha 2.500 dólares e CDs do Pedrão. Estávamos no meio da turnê e isso nos desestruturou, mas demos risada.

Paulo Marchetti - Porque o RDP nunca é convidado para tocar nos festivais brasileiros?
Gordo - Por que o festival geralmente é uma panela. Então o empresário que está trazendo as bandas, tem suas bandas brasileiras, aí ele põe as bandas dele pra tocar.

Paulo Marchetti - Você não fica chateado com isso?
Gordo - Já me acostumei. Mas pra compensar isso, tocamos em festivais fora daqui. No último festival que tocamos em Portugal, havia 35 mil pessoas e tocamos com o Therapy e The Cure.

Paulo Marchetti - O Ratos toca em rádios européias?
Gordo - Toca. Lá eles dão um puta valor pra gente. Eles dão valor para a língua brasileira e outra, o Ratos de Porão é uma banda velha, clássica. Tipo assim, essa molecada daqui, esses Punks daqui, eles metem a boca em nós, falam que somos traidores, burgueses capitalistas. Só que, na Europa, nós temos fama de banda clássica, banda grande. O que eu acho dos Varukers, do Chaos UK, eles acham a mesma coisa de nós e eu tive a prova disso, quando fomos tocar na Inglaterra, os caras pagam o maior pau pra nós. Eu sou ídolos dos caras e eles são meus ídolos. Foi muito louco ter contato com esses caras.

Paulo Marchetti - E uma biografia do Ratos, quando vai sair?
Gordo - Talvez se eu tivesse morrido agora, iria sair um monte de coisas.

Paulo Marchetti - Você já pensou em gravar um disco solo?
Gordo - Sempre penso nisso, mas não sei o que fazer ainda.

Paulo Marchetti - O Ratos nunca fez um show com essas bandas antigas, depois do reconhecimento. Tipo Ratos e Inocentes.
Gordo - Eu gosto do Clemente, do Ronaldo. Mas se tem algum traidor do movimento, esse traidor é o Clemente (muitos risos). O Inocentes tentou virar Rock comercial e eles tem uns discos bem ruins. Tipo aquele que foi produzido pelo Frejat, onde os caras cantam que nem Barão Vermelho. Eu chorei, mas respeito o Inocentes pela importância que teve na minha época.

Paulo Marchetti - Tem algum produtor brasileiro que você gostaria de trabalhar?
Gordo - Não. Aqui ninguém tem a manha...

Paulo Marchetti - Quem produziu esse novo mini LP?
Gordo - Nós mesmos.

Paulo Marchetti - E quando começam os shows?
Gordo - Tem um show marcado para o dia 29 de abril, em Curitiba. Por enquanto é só esse.

Paulo Marchetti - Como está na MTV?
Gordo - Segundo os chefes de lá, só vai ter programa daqui a um mês. Eles estão resolvendo se vai ser um programa diário ou semanal. Se for diário, terá meia hora de duração. Se for semanal, terá uma hora.

Paulo Marchetti - Como vai ser esse programa?
Gordo - Parecido com o do Jô Soares. Terá uma banda de Punk Rock fixa que, talvez, seja o Forgoten Boys. Acho que terão dois convidados por programa: uma pessoa desconhecida, tipo travesti, coveiro, prostituta, que faremos uma matéria de rua sobre ela e depois a entrevistamos. Depois terá uma pessoa conhecida, um artista ou banda. Se forem tocar, vai ser playback. Faço questão de seja playback! O meu programa vai continuar a apoiar o underground, vou ter um aparelho de som na minha mesa pra mostrar umas podreiras pra galera.

Paulo Marchetti - Você está satisfeito na MTV?
Gordo - Eu gosto muito de trabalhar lá. Só acho que me falta um pouco mais de assessoria. Parece que o pessoal não me dá tanto valor e eu tô ligado que o meu programa dá audiência, mas eles não me falam. Eu tô ligado nisso porque, lá no Gugu, eles medem o ibope de todos os programas, então o cara que trabalha com ele, começou a querer levar todos os artistas da Promoart (empresa do Gugu Liberato) no meu programa. Por que? Porque no meu horário é o programa que dá mais audiência. Os caras do Gugu falaram isso pra mim e lá dentro da MTV ninguém me fala. Acho que é pra eu não ficar pedindo aumento.

Paulo Marchetti - Você já se relacionou com alguma fã?
Gordo - Já. Mas sem namorar. Só pra transar.

Paulo Marchetti - Você não é muito de namorar, né?
Gordo - É difícil eu achar alguma mina que se submeta a tal gordão, é bem difícil. Mas eu sempre encontro umas loucas por aí. É foda, porque você tem que descolar alguém que te tire do buraco e não que vá pro buraco junto com você. Nesse momento estou procurando alguém que seja caretinha...

Paulo Marchetti - Você acha que assusta a mulherada?
Gordo - Assusto. Não adianta ser o fodão da TV. Não adianta ser remédio, tem que ser gelol (risos), entendeu?

Paulo Marchetti - Você já transou com duas ao mesmo tempo?
Gordo - Já. Mas tinha um problema: quando eu usava muita droga, geralmente não rolava. Hoje em dia isso mudou, só pelo fato de ter parado de fumar cigarro... tá escrito lá no maço que o cigarro brocha e é verdade!

Paulo Marchetti - E bandas como Paralamas, Barão ...
Gordo - Eu acho tudo chato. Eu respeito Paralamas porque o Herbert deu uma guitarra pro Ratos e são bons músicos. Respeito o Ira! também. Detesto Titãs! Odeio o Titãs!

Paulo Marchetti - Porque? Por causa das releituras que fizeram?
Gordo - O meu ódio começou quando eles lançaram aquele disco Grunge (Titanomaquia). Antes desse disco eu até suportava. Eu não tinha bronca. Gostava muito dos discos “Cabeça Dinossauro”, “Jesus Não Tem Dentes” e “Oblesq Blón”. Esses discos são muito bons, inteligentes. A melhor música deles é “Nome aos Bois”. Mas, de repente, os caras começaram a tocar Roberto Carlos!

Paulo Marchetti – E o Max Cavalera (ex-Sepultura), como foi sua briga com ele?
Gordo - O Vovô é um coitado. Ele deve sofrer muito.

Paulo Marchetti - O que gerou essa briga?
Gordo - Foi porque eu gravei “Reza” com o Sepultura e ele achou que a letra tinha sido pra ele, só porque ele fica lá rezando pras coisas dele. Enfiaram na cabeça dele que eu sou traidor e que fiquei do lado do Sepultura. Na verdade, no começo dessa história, eu não fiquei do lado de ninguém, mas se for ver direito, eu fiquei do lado do Sepultura sim. Eu conheço bem os caras e acho que o Max tá errado. O que a mulher dele fez tá errado.
(Nota: Essa briga/discussão aconteceu na MTV pouco antes de eu entrevistar o Soufly para o Fúria, e eu vi tudo acontecer na minha frente. Quem estava no estúdio não acreditou na postura infantil de Max)

Paulo Marchetti - Você nunca mais o viu?
Gordo - Nunca mais. Ele mandou uns recados dizendo que andou rezando pra mim. Ficou sabendo da minha saúde e rezou pra mim. Eu dispenso suas rezas e macumbas.

Paulo Marchetti - Você acha que um dia ele volta pro Sepultura?
Gordo - Olha, tem umas histórias aí de que ofereceram 1 milhão de dólares para eles voltarem e eles não aceitaram. Acho que, pelo que Max fez, chegar e tocar com ele sem dar um murro na cara dele, não rola. Ele foi muito filho da puta, cuzão demais. Ele enfiou uma amizade de anos no cú. A última vez que ele esteve na MTV, eu fui lá, na maior inocência, falar com ele e ele virou a cara. Fiquei até doente! O Rapadura estava com ele e também teve uma atitude infantil.

Paulo Marchetti - Quando rolou a amizade com o Sepultura?
Gordo - Foi no show do Venon, em 86, em Belo Horizonte.

Paulo Marchetti - Você tinha ido pra lá pra ver o show?
Gordo - Eu tinha ido pra lá com uma amiga minha, pra tentar descolar uns shows pro Ratos. A gente nunca tinha tocado em Minas e quando cheguei lá, li O Estado de Minas e tinha uma entrevista com o Max, onde ele falava que a melhor banda do Brasil era o Ratos de Porão. Aí eu pensei: se eles acham minha banda a melhor do Brasil, vão ter que me descolar um Backstage pro show do Venon (o show de abertura foi do Sepultura). A partir daí eu fiquei amigo dos caras e passei a frequentar a casa deles e somos amigos até hoje.

Paulo Marchetti - Vocês já fizeram alguma turnê juntos?
Gordo - Nunca rolou. Teve uma época que eu até pedi, mas depois larguei mão. Porque não era interessante pra eles. Eles começaram a crescer demais e não tínhamos apoio da gravadora.

Paulo Marchetti - Você ainda tem treta com alguma tribo?
Gordo - Os Skinheads. Se eles me pegarem na rua, me mandam pra UTI. Mas tem que ser mais de três.

Paulo Marchetti - Se a eleição pra presidente fosse agora, você teria candidato?
Gordo - Eu não voto. Nem vou na zona eleitoral. Antigamente eu ia pra anular, mas nem isso eu tenho feito. Esse país é muito ridículo, não perco mais meu tempo. Já sei que as coisas nunca irão mudar mesmo...

Paulo Marchetti - O Ratos já pensou em morar fora do país?
Gordo - Não dá porque os caras tem família aqui.

Paulo Marchetti - Então agora o João Gordo é um cara careta?
Gordo - Não.

16 de fevereiro de 2012

Série O Resgate da Memória: 26 - Os Mutantes na Veja (1968, 1969)


No próximo dia 24 de fevereiro o 2º disco d'Os Mutantes, simplesmente chamado de Mutantes, completará 43 anos (1969). Antecipando uma semana, trago todas as novidades desse lançamento... jeje.

Clássico absoluto do rock brasileiro!

Aqui transcrevi as duas primeiras reportagens da banda na revista Veja: a primeira de outubro de 1968, quando a revista tinha apenas 2 meses; a segunda de fevereiro de 1969, que fala exatamente do segundo disco. De quebra ainda tem uma pequena resenha escrita pelo maestro Júlio Medaglia.

Infelizmente não consegui pegar as páginas das reportagens, tendo que me limitar apenas as respectivas capas.

Curiosidade: Rita Lee no início de sua carreira profissional tocou com Tony Campello (ela tinha a banda vocal Teenage Singers com mais três amigas). Em 24 de fevereiro também comemora-se o nascimento de Tony Campello (1936).

PS: Em 24/02/1975 Led Zeppelin lançou Physical Graffiti. Em 24/02/1979 The Police lançou a música "Roxanne". Em 24/02/1984 Léo Jaime lançou o clássico Phodas C.





A música dos Mutantes no Festival

Revista Veja – Edição 4 – 2 de outubro de 1968 (Pág 66)

Eles levaram ao palco do Maracanãzinho, dentro de sua canção, “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso

Os componentes do conjunto Os Mutantes, de São Paulo, foram apanhados de surprêsa pelos aplausos que receberam no Maracanãzinho, Rio, ao apresentarem sua música “Caminhante Noturno” na semifinal brasileira. Êles estavam tão certos de serem vaiados – a exemplo de Caetano Veloso no TUCA –, que já tinham uma resposta preparada: na hora em que a cantora Rita ligou um pequeno gravador na bôca do microfone, a voz que saiu foi a de Caetano Veloso no seu desabafo ante a vaia, e que terminava com a frase “É proibido proibir”.

Sentar nas teclas do piano ou colocar uma barra de ferro nas cordas das guitarras, tudo vale para Os Mutantes, desde que produzam um nôvo som: “Queremos dizer tudo em nossa música, no tema e no som: os ruídos, as vozes, o canto de um pássaro. Novos temas estão em volta do mundo em nós: um dia de sol, um sorriso, muito amor nas pessoas, bancas de jornais, gente”.

Uma família musical – Arnaldo, vinte anos, e Sérgio, dezessete, são irmãos. Faziam parte de um conjunto que só tocava “rock” e “twist” (hoje consideram essa fase de iniciação um lixo), até o dia em que conheceram Rita Lee Jones, dezoito anos, filha de americanos, que integrava por sua vez um conjunto de meninas que cantavam músicas folclóricas americanas. Os dois irmãos convidaram Rita a formar um nôvo conjunto – Os Mutantes (os que mudam, os que transformam). São todos muito versáteis: Rita toca flauta, harpa, guizos, castanhola, cítara e instrumentos de percussão; Arnaldo além de pianista, organista e violoncelista, é um ágil guitarrista; Sérgio estuda quatorze horas por dia a guitarra, o violão e a harmonica-de-bôca. Há também outros instrumentos estranhos, inventados pelo irmão mais velho, Cláudio, especialista em eletrônica: uma espécie de “cello” elétrico, um baixo elétrico com três registros diferentes, e uma guitarra cuja freqüência é alterada sem amplificador, no próprio instrumento. Todo êsse arsenal sonoro é completado pela voz do pai dos rapazes, César Dias Batista, tenor do Coral Paulistano, e pela mãe, uma exímia pianista.

Samba africano, futebol inglês – “No canhão vê folhas / Sêcas, de jornal / Pisa o silêncio, caminhante noturno / Foge do amor que a noite lhe deve / Sem corar, sem falar, nem sonhar”. Em letra e música, Os Mutantes (que só assinam coletivamente suas canções), são tidos como uma versão brasileira dos Beatles. Isso lhes tem criados problemas com a “linha dura” do samba, que os acusa de estrangeirismo. Os Mutantes respondem: “Nossa música não é menos brasileira por gostarmos do que se faz nos Estados Unidos, na Inglaterra. Afinal, o samba é africano, o futebol é inglês e o violão veio de Portugal, como veio também a viola das canções caipiras, dos violeiros e dos repentistas do Nordeste”.




Mutantes, as novidades do segundo LP

Revista Veja – Edição 25 – 26 de fevereiro de 1969 (Pág 61)

Em apenas uma semana, os 3 jovens fizeram um nôvo disco que é para a sua gravadora um futuro sucesso de vendagem. Segundo a crítica, é um avanço musical.


Os Mutantes mudaram? Desde seu primeiro LP, lançado em julho do ano passado, até o segundo, colocado a venda essa semana, os dois rapazes (Arnaldo e Sérgio) e a môça (Rita) mudaram muito, e para melhor, segundo a crítica. “Enquanto os Beatles lançam um álbum bem comportado, de rock açucarado, com lindos efeitos de cordas e cravos, três jovens brasileiros, com a média de vinte anos de idade, surgem com um nôvo LP e conseguem, através do humor e da total desmistificação, ampliar efetivamente os limites da música.” É a opinião do maestro Julio Medaglia, músico de vanguarda para quem as barreiras entre o “erudito” e o “popular” já caíram há muito tempo. Carlos Gonçalves, chefe de divulgação da gravadora Phillips, está apostando no disco, e garante mesmo que “será o campeão de vendagem, o nosso carro-chefe para depois do carnaval.” O primeiro álbum dos Mutantes vendeu 20 000 discos e a gravadora espera uma vendagem mínima de 50 000 para o segundo LP.

Beatles brasileiros? – O nôvo LP dos Mutantes, mais que o primeiro, é uma criação do próprio grupo: apenas quatro faixas contaram com a participação de orquestra. A participação do maestro Rogério Duprat – com quem Os Mutantes colaboraram em seu primeiro disco e no LP “Tropicália” – está bastante reduzida. Em compensação os três técnicos de som trabalharam mais do que nunca atrás de efeitos inéditos. Na faixa “Fuga Nº 2” o acorde final bate um recorde – dura dois segundos mais que o acorde com que termina “A Day in the Life”, dos Beatles. O primeiro LP levou um mês e meio de gravação; o segundo foi feito em uma semana e meia, às vésperas da viagem do conjunto para à Europa, para apresentar-se no MIDEM, em Cannes. Sempre comparados aos Beatles – o “Nice Martin”, diário de maior circulação no sul da França, os chamou de Beatles brasileiros –, Os Mutantes usam acordes dos ingleses na faixa “Rita Lee” (“Ob La Di Ob La Da”) e pistons em acordes repetidos em outras faixas, lambrando o clima de “Penny Lane”.

Caminho novo – Para “o mutante que não aparece”, Cláudio Dias Baptista, 23 anos – é engenheiro eletrônico responsável pelos sons novos dos Mutantes –, “a influencia dos Beatles existe, mas é pequena: o resto é pesquisa nova num caminho que os Beatles abandonaram”. “Dom Quixote” cita música clássica num vocal bem trabalhado e termina com acordes da “Disparada” e a buzina do Chacrinha, Johnny Dandurand – americano que morou no Brasil e cantou ao lado de Caetano Veloso – compôs para eles um número dramático e misterioso, “Dia 36”, cantado dentro do canal de som de um órgão, envolvido pelo som forte de guitarras elétricas. “2001” é o confronto entre instrumentos eletrônicos e a velha viola caipira. Em quase tôdas as músicas, letras bem humoradas, lirismo crítico, colaboração de Tom Zé com versos irônicos, como na faixa “Qualquer Bobagem”: “Escute esta canção / Ou qualquer bobagem / Ouça o coração / Que mais? Sei lá”.


Os Mutantes – Volume II (Pág. 65)

“Uma boa maneira de se fazer revolução é subverter a linguagem”. Depois de pronunciar frases “heróicas” desse tipo, os Beatles lançaram um LP, ainda mais clássico e “musical”, enquanto Os Mutantes, levando tudo na base do humor e da gozação, lançam sua bomba criativa e desmistificadora, mais eficiente na destruição dos conceitos tradicionais do som musical. Os mais belos e engenhosos textos e melodias, são tão musicais, quanto falatórios, beijos, papos, risos, a buzina do Chacrinha e sons espaciais, “dó de peito” de ópera e um recitativo musical gaguejado. O rádio de pilha e a eletrônica, a vaia e o som açucarado da harpa, tachinhas nos martelos do piano, deformações de pronúncia e sons onomatopaicos, vale tudo no rico arsenal musical do conjunto. Um aula de profissionalismo, humor e inteligência que coloca Os Mutantes na vanguarda da música brasileira atual. Destaque para: “Dia 36”, “Qualquer Bobagem”, “2001” e “Caminhante Noturno”.
Julio Medaglia