4 de julho de 2018

Esquerda ou Direita? Dane-se os Lados!

Não entendo o motivo pelo qual é preciso ter um lado ideológico para poder ver tudo funcionando da forma como se deve ser. Isso pra mim é papo jurássico, não mais cabível no mundo em que vivemos.

Pra saúde funcionar é preciso escolher um lado?
Pra escola funcionar é preciso escolher um lado?
Pra termos segurança é preciso escolher um lado?
Pra termos prosperidade na vida profissional e social é preciso escolher um lado?
Pro mundo funcionar de forma honesta e coletiva é preciso escolher um lado?

Coisa mais boba. Ridícula.

Certa vez, conversando com uma pessoa com uma posição radical de esquerda, ela não se conformava quando eu dizia não ter um lado. Não se conformava com o fato de eu não levantar nenhuma dessas bandeiras que só segregam mais as pessoas.

Preconceito é uma coisa absolutamente desnecessária em nossas vidas.

Dizia à pessoa que minha bandeira é a do ser humano, e ela não conseguia entender.

Esse papo de direita ou esquerda, pra começar, é papo de burguês. E de burguês não tenho nada. Vai perguntar para o frentista, o balconista, a diarista, o cobrador, o flanelinha ou o manobrista se eles são de direita ou esquerda! No máximo vão te perguntar pra onde você quer ir,  pra daí sim dizer se é preciso pegar a direita ou a esquerda. Falo isso de brincadeira, mas é verdade.

Pergunta para o feirante que tem um parente com câncer e que não consegue atendimento e remédios de acordo com sua situação, se ele está preocupado com o lado ideológico do Governo.

Já passou da hora de pararmos com essa baboseira que só favorece a quem mama no Estado.

O povo, esse que a esquerda diz representar, nunca na história desse regime participou de qualquer benefício. Sempre foi assim: nada de povo mandando, pelo contrário.

Não dá pra perceber que sejam militares de direita ou de esquerda, são todos “assassinos armados, uniformizados”? é tão óbvio!  Qual a diferença entre a farda do Médice, do Pinochet, do Franco, do Che Guevara, do Chaves, do Hitler, do Stalin, do Mao Tse Tung e dos ditadores na África?

Porque fechar os olhos pra alguns deles e odiar outros? Nenhum deles presta!

Dividir o ser humano em lados é algo muito, mas muito asqueroso!

As pessoas precisam entender primeiramente que o Planeta Terra é como se fosse nossa casa de dois quartos, banheiro, cozinha e área de serviço. E vivendo na mesma casa, precisamos nos entender, né não? Até porque, não há alternativa.

Diz pra mim: se você começar a gerar discórdia e divisões dentro de casa, ela não vai se tornar um caos?

Pô, vivemos todos no mesmo lugar, precisamos cuidar um dos outros, isso é uma coisa um tanto óbvia! E mesmo assim vivemos no caos :/

Quando você vai a uma padaria pra comprar pão e tomar um café, você pergunta se quem construiu a padaria era de direita ou esquerda? Se quem fez o pão era branco ou oriental? Se o fornecedor do café é descendente de índio ou afro descendente?

Quando você compra ou aluga uma casa você pergunta se quem a pintou era de esquerda ou direita? Se quem a reformou era gay ou hétero?

Então porque diabos é preciso ter um lado? É muita pequenez!

Volto a perguntar: pra colocar a escola ou o hospital funcionando de forma correta é preciso ter um lado?

Importa pra você saber se quem fez o posto de saúde ou a creche da sua região funcionar é de esquerda ou direita? Se é descendente de nordestino ou descendente de chileno?

Importa pra você se aquele médico pediatra atencioso do posto de saúde tem um lado?

É difícil pra você entender que esse papo de esquerda ou direita só segmenta ainda mais o ser humano, que isso só traz desigualdade, ódio e soberba?

Não contentes com o sofrimento que já temos por conta da divisão, das guerras e do ódio que as religiões trazem, temos que inventar mais essa de ter um lado!!?!

Haja paciência pra tanta idiotice!

Não importa se você é gay, trans, oriental, ruivo, rico, pobre, travesti, hétero, de esquerda, de direita, de centro ou qualquer outra definição besta dessas. Somos todos seres humanos.

A gente não precisa de lado, religião, ideologia, ou de uma vida acadêmica pra enxergar essas coisas.

Somos todos da mesma raça. Todos nós necessitamos das mesmas coisas, nem mais nem menos! Chega de criar diferenças!

Coitado do Brasil. Coitado do Planeta Terra. Não nos merecem...


PS: Deixo aqui como sugestão o texto A Última Flor

12 de junho de 2018

Quando o Rock Brasileiro Morreu?

Eu vi o rock brasileiro morrer. Acompanhei sua agonia de perto. Errado pensar que sua morte é recente...

Eu tenho minha conta das efemérides do rock brasileiro. Pesquisa única que iniciei em 1998. A data inicial da pesquisa é 24 de outubro de 1955, dia em que Nora Ney gravou “A Ronda das Horas”, versão de “Rock Around the Clock”. Não uma versão em português, mas versão em inglês mesmo.

Essa foi a primeira vez que um rock foi gravado no Brasil. Apesar do sucesso instantâneo (puxado pelo filme), demorou um pouco para a coisa toda engrenar.

Mas depois disso veio a 1ª geração do rock, 2º a jovem guarda, 3º os anos 70, 4º a geração 80 e 5º os anos 90. Grosso modo é isso. Pra mim, acaba aí.

Nas minhas efemérides os últimos nomes a pesquisar foram Los Hermanos, Pitty, Cachorro Grande e Autoramas e paro por aí. Pesquiso a geração posterior, apesar de absolutamente irrelevante, mas não publico nada dela.

Você pode me falar de um monte de bandas recentes e/ou artistas solos (havia citado aqui alguns nomes, mas resolvi tirar). Fato é que se juntar todo mundo de hoje (não dá pra falar 'cena') não dá mesma relevância histórica de bandas dos 70 e 80 que estavam no chamado 2º escalão. Não atinge o mesmo número de pessoas, não fala pra muita gente, não é vanguarda, não dita modas, não tem um bom texto, sequer trazem novidades seja na composição, no texto, no arranjo, na harmonia...

Desculpe por ser direto. Falar assim não significa que eu não goste delas ou de outras recentes. Vou a shows de bandas novas e relativamente novas, tem algumas que gosto muito e fico entristecido em ver que não acontecerá nada com nenhuma delas.

Vejo shows com muita gente, todo mundo cantando as músicas e tals, mas é nitidamente uma coisa de gueto, para alguns poucos. Em SP, onde moro, tem um circuito bom de shows com as unidades do SESC, o Centro Cultural, algumas outras boas casas noturnas com música ao vivo que surgiram recentemente... lugares não faltam.

Bom ver que há novamente um circuito. Há bandas do underground que conseguem fazer uma agenda de shows e tocar com certa frequência. Legal. Ok. Mas nunca mais vai acontecer de um músico de rock com sua banda autoral viver somente de sua música. Pode haver exceções, raras. Mas como houve nos 80 e 90, de uma porção de bandas surgirem juntas e ter uma carreira profissional de lançamentos, shows, divulgação, bons cachês, reconhecimento nacional, etc... isso nunca mais.

Depois da geração 90, acabou a história do rock aqui no Brasil. Não foi feito nada de muita relevância desde então, e também não aconteceu nenhuma cena.

O que eu vejo de último suspiro do rock brasileiro, aconteceu na segunda metade dos 90, que são essas bandas que citei no inicio do texto, e ainda acrescento, claro, CPM22 e Charlie Brown Jr.

Pronto. Acabou. Fim.
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E se você pensar bem, tirar o coração, perceberá que na verdade, a história toda acaba nos anos 1990 com CSNZ, Raimundos, Planet Hemp, Pato Fu, O Rappa, mundo livre s/a, Skank...

Digo isso porque todas elas formaram uma cena que girou em torno do Juntatribo, Superdemo, Abril Pro Rock e do grande boom da MTV que, juntamente com essa galera, saiu do underground. Não dá pra não citar a situação econômica do país naquele período. A estabilidade do Real permitiu que as gravadoras voltassem a contratar bandas de rock, coisa que não acontecia desde 1989-90.

Killing Chainsaw
Vi bem de perto essa morte. Eu ainda estava na MTV e dou aqui um depoimento enxuto que ilustra a morte:

Essas bandas todas que estouraram nos 1990 citadas aqui acima, todos os integrantes envolvidos nelas começaram a carreira ainda nos 80, e nunca deixaram de cantar em português. É uma turma que ainda tocava por amor, ralou, juntou grana pra gravar demo, pagou pra tocar e dependia de amigos para ajudar na divulgação. Só pra dar alguns exemplos, John Ulhoa já tocava em 1982 com o Sexo Explícito; Marcelo Lobato tocava com Fausto Fawcett; Fred 04 também na atividade já no início da década de 80; Digão tocava com Filhos de Mengele em 1986 e Raimundos começou em 1987; D2 e Skunk; Pouso Alto/Skank... tava todo mundo lá.

Essas bandas aproveitaram os festivais e o novo boom da economia + MTV + gravadoras e tals. Nunca abriram mão do som que faziam e o faziam sem saber no que ia dar e se ia dar em algo.

Com o estouro dessa geração, surgiram trocentas zilhões de asquilhões de bandas fazendo as mais diversas misturas. Muitas bandas que cantavam em inglês passaram a compor em português. Lembro de gente dessas bandas indo à MTV entregar material novo "olha, mudamos o repertório..." rã rã... Era um desespero por sucesso que dava pena ver... E o momento da morte é esse!

Eu criei o Ultrassom MTV e fiz sua direção por uma temporada. Era tanto material que uma pessoa foi contratada para ajudar a ouvir e já fazer uma seleção. Fitas e CDs não paravam de chegar e lotavam caixas e caixas que ocupavam armários. Não era pouca coisa, não.

E mesmo assim era absurdamente difícil achar algo bom. Eu precisava de apenas duas bandas por programa, que era semanal, e era muito difícil achar material bom no meio de tudo aquilo.

E foi nesse momento que percebi que a razão do rock existir havia acabado, havia se perdido. Todos ávidos pelo sucesso, foda-se a música. Letras horrorosas, composições cheias de clichês, sem personalidade alguma e o pior de tudo: não tinha história, não tinha coração.

Grosso modo os anos 90 foram duas cenas: uma underground que começou exatamente em 1989-90, com todas aquelas bandas que surgiram cantando em inglês; e outra que é essa que citei acima, que ao contrário do underground internacionalizado, cantava em português e valorizava a língua.

Depois dessas duas cenas, as coisas foram acontecendo soltas, surgindo um nome aqui e outro ali até finalmente tudo morrer de vez.

Em 2015 fiz um trabalho onde conversei com muita gente da música, inclusive executivos de gravadoras. Todos eles afirmavam que 2016 seria a volta do rock no mainstream. Estamos na metade de 2018 e não há nenhum sinal de que algo nesse sentido irá acontecer.

Ter gente aí fazendo rock não significa que ele não esteja morto. Como disse, perdeu todo o sentido, do que representava, da contestação, e de todo o contexto que o cercava, inclusive das dificuldades. Nada do que era fazer rock existe hoje.

Então fim. :)

17 de maio de 2018

Festival Alternativo Serve Pra Quê?

Como desdobramento do texto anterior (link no fim palavra "bolha"), faço esse tema e pergunto: festival alternativo serve pra quê? Pra mim isso é uma grande bobagem, e interessa apenas a quem ganha com isso: quem organiza, quem aluga a aparelhagem de som e luz, o local do evento, quem faz o bar... É um negócio que até gira uma grana e gera empregos temporários diretos e indiretos. Ok.

Mas fazer um festival alternativo deveria também comtemplar as grandes estrelas que são os artistas. No entanto, o que sobra à eles? Um cachêzinho meia boca e em certos casos nem isso.

É nítido que róla uma panela dos organizadores desses festivais, cada um em sua região. Há interesses por trás, muita política, etc. Exatamente igual ao que acontece nas grandes gravadoras, nos rádios, TVs, festivais mainstream (como o RiR). No fim, os bastidores são podres iguais, cada um dentro do seu universo.

O que adianta um festival alternativo colocar 50 bandas pra tocar? O que ele quer com isso? Qual o objetivo? Não consigo entender. Se os organizadores quisessem de fato ajudar aos artistas, o modelo de negócio seria outro.

Nos anos 90, 3 festivais cumpriram seu papel. Juntatribo, Superdemo e Abril Pro Rock praticamente apresentaram o que viria a ser a nova cena daquele período: Skank, O Rappa, Planet Hemp, Pato Fu, Raimundos, Chico Sciense & Nação Zumbi, mundo livre s/a, Acabou La Tequila... e outras bandas poderiam ter se dado bem caso não cantassem em inglês.

É sempre bom lembrar que o contexto era outro. Até por isso sou contra esses festivais de hoje terem zilhares de bandas tocando. Hoje, em tempos onde há quantidade sem qualidade, seria bem melhor concentrar a atenção em poucos e bons artistas. Assim, acredito, seria bem mais fácil o festival cumprir ao menos parte de seu papel.

É só pensar: quantos festivais alternativos há no Brasil hoje? Grosso modo ao menos uns cinco, e isso já há anos! Pois bem, pensemos nos últimos 10 anos desses festivais. Quantos artistas passaram por esses palcos? E quantos deles chegaram ao grande público ou ao menos conseguiram certo destaque na cena alternativa a ponto de conseguir viver de sua música? Nos últimos 20 anos alguma cena surgiu ou se destacou com a ajuda desses festivais?

Dos pouquíssimos nomes que se destacaram nesses últimos anos, nenhum surgiu de festivais.

Agora, se a ideia é apenas montar palco e botar gente pra tocar lá e divertir todo mundo, então ok. Mas até onde sei esse tipo de festival é não só pra se divertir, mas pra dar espaço a novos nomes, ajudar na divulgação do trabalho e chamar a atenção da mídia. Porém, não vejo a grande mídia cobrindo esses festivais. E nem adianta falar pra mim que isso é culpa da própria mídia! Não. A iniciativa e interesse da cobertura deve partir principalmente da organização. Trabalhei anos na MTV e em outras produções que envolvem música, e sei que quando há esforço, há bons frutos. 

Pra quem organiza, é trabalhoso, eu sei. E pode ser divertido pra quem participa (e bem cansativo também), todos se encontram, trocam ideia, divulgam o material, vendem merchandising e tals, e pronto. Acabou. 

Ok. Os artistas saem com contatos novos, armam shows em outras cidades, mas fica nisso, dentro de uma bolha. Pra mim, a organização tem a obrigação de ligar para as rádios, tvs, jornais, sites. E não só isso, mas também entrar em contato com gravadoras e selos maiores pra falar sobre algumas bandas que podem se destacar. Usar seus contatos. Levar esses profissionais até lá. Criar um bom material de divulgação e enviar para as principais mídias. Há como fazer tudo isso.

A organização desses festivais alternativos tem que fazer algo menor, com menos nomes, pra se ter mais controle da qualidade, da organização e da logística. É preciso trabalhar melhor o pré e o pós. Com menos nomes e todos se ajudando é capaz até de surgir uma nova cena.

Aí sim é fazer a diferença! Aí sim é chutar a porta de saída do gueto!

Resumindo: festivais alternativos existem para ajudar a divulgar novos nomes e a criar uma cena. Mas eles, há tempos, não fazem isso. Então....

PS: Até o Rock in Rio 1985 fez seu papel nesse contexto que escrevo. Veja o que aconteceu com o rock brasileiro depois dele!