22 de julho de 2017

As Efemérides do Rock Brasileiro

Eu cresci ouvindo música. Em minha família não há músicos, mas meu pai e minha mãe sempre escutaram muita música.

MPB, soft rock, música italiana e francesa... escutava de tudo! Ainda com dez anos e escutando todas essas referências que vinham dos meus pais, fui apresentado ao punk rock.

De ouvir punk rock a querer formar uma banda bastou um milésimo de segundo. Passei a consumir o rock, frequentar os ensaios e shows que tinham em Brasília – quem leu O Diário da Turma 1976-1986 sabe do que falo – e também comecei a comprar revistas especializadas. Na verdade não eram muitas. Nessa época que comecei a ler essas revistas, 1980-1982, existia a SomTrês e a Mixtura Moderna (depois Pipoca Moderna). Aí veio a Roll, em outubro/1983; e em 1985 surgiu a Bizz. Elas não eram apenas fonte de notícias (velhas), mas também nossa fonte de imagens.

Aí meus amigos que tinham banda passaram a frequentar as páginas dessas revistas, eu formei a minha, os amigos lançaram discos e a música foi, naturalmente, permeando a história da minha vida. Cheguei em SP fui trabalhar em publicidade, parei de tocar por um tempo, mas como em Brasília, aqui em SP me enfiei na cena musical underground da cidade. Um ano depois estava com banda, gravando demos, e sempre na noite, nos shows e com amigos também músicos.

Continuava a ler as revistas especializadas, e agora em SP escutava também as rádios especializadas. Frequentava o centro, a galeria, casas noturnas, botecos e tals.

Eis que em 1993 entro para a MTV para fazer um trabalho freela de verão, mas como gostaram do meu trabalho me convidaram a ficar. Fiquei.

Nossas fontes de pesquisa eram revistas gringas, todas que você puder imaginar. Todas! Além das publicações brasileiras, jornais, revistas e muitos livros. Livros gringos e livros brasileiros (pouquíssimos).

Entre os livros gringos tinham dois especializados em datas, e pirei nisso. Um era da revista Rolling Stone e outro chamado Day By Day. Acho até que havia um terceiro, mas esses dois eu usava com frequência.

Assim que os vi disse pra mim: “vou fazer uma pesquisa sobre as efemérides do rock brasileiro”. Essa descoberta dos livros aconteceu logo no início de 1994, quando passei a fazer direção de praticamente todos os programas que eram feitos no Dep. Produção, já que eu a princípio cobri férias de todos os diretores que trabalhavam lá.

Em 1997 fui acometido por uma síndrome do pânico, que me obrigou a fazer algo da vida, além do trabalho. Botei minha cabeça pra funcionar e realizei alguns projetos. Um deles foi meu livro. Outra coisa que fiz foi um projeto grande para a MTV, um programa de 3 horas de duração que seria apresentado por João Gordo e passaria no sábado a noite. Na verdade madrugada de domingo. Da meia noite até 3h.

A direção da MTV até gostou do projeto, mas achou muito ousado, pedindo pra dividi-lo em três programas de uma hora cada. Assim surgiram Ultrassom e Quiz MTV (o terceiro foi descartado e nem lembro o que era). Esses novos programas entraram na grade de 1998, mesmo ano em que pus a produção do livro em prática e viajei para Rio e Brasília.

Do Ultrassom fui diretor e do Quiz ajudei no começo a fazer o roteiro e redação, que incluía a criação de perguntas e respostas musicais. Foi nesse momento que colhi as primeiras datas. Aproveitei a pesquisa que era preciso fazer para elaborar o texto do Quiz e fui juntando em um doc as datas que apareciam na minha frente. Juntei um punhado delas por uns 3 meses e deixei o doc de lado.

Passei a me dedicar a elaboração do Diário da Turma, que durou 4 anos para ser feito. Com ele pronto fui atrás de editora e tive um vácuo entre a assinatura do contrato e a produção do livro para lançá-lo. Foi nesse vácuo que comecei a pesquisar firme as datas do rock brasileiro.

Em 2000 estava morando no Rio pela MTV e insatisfeito. Na primeira oportunidade sai e voltei pra SP. Fui trabalhar como editor de música de um site adolescente que existia no mundo todo chamado tantofaz.net e lá fiquei por um ano.

Nesse biênio 2000-2001 passei a frequentar os arquivos dos jornais Folha de SP e Estadão. Também frequentei todos os sebos possíveis atrás de livros (eram pouquíssimos), revistas, jornais, publicações alternativas e discos de vinil.

As datas que eu tinha até então, a maioria era referente aos anos 1980. Juntei todas elas e apresentei para a editora. A primeira pergunta que me fizeram foi: porque só os anos 80?

Então arregacei as mangas e fui fazer uma pesquisa séria que abordasse TODA A HISTÓRIA DO ROCK BRASILEIRO, a começar em outubro de 1955. Não que o que eu tinha não fosse sério, mas realmente era incompleto. Era pop, mas incompleto. Aceitei o desafio.

POR CONTA PRÓPRIA investi nessa pesquisa (que dura até hoje). Pra frequentar o banco de dados desses jornais eu tinha que pagar por hora. Comprei revistas antigas como Pipoca Moderna, Roll, Bizz, Som Três, Revista do Rádio, Fatos & Fotos, Veja, Isto É, Manchete... Não eram só as especializadas. A pesquisa era completa. Eu pesquisava em tudo.

Eu também comprava discos de vinil, apesar de não mais ter vitrola, apenas para pesquisar a ficha técnica, porque quando não achava data nenhuma, era possível ver ali a data de início e fim de gravação do disco... ao menos o mês.

Mesmo assim, quando não encontrava nada de nada, eu ia atrás do próprio artista. Conseguia o telefone e ligava. Falei com artistas da jovem guarda, dos anos 70 e que gravaram grandes clássicos, artistas dos anos 80 e 90 também. Certa vez parei o ensaio da Nação Zumbi e um por um foi me dizendo seu nome completo, local e data de nascimento kkkkk. Liguei para o Pupilo e fui anotando tudo por telefone. Telefonei também para alguns ex-integrantes do João Penca, porque eu não havia achado  nada da banda.

A pesquisa foi SÉRIA e não foi nada fácil porque era uma época que a internet engatinhava aqui no Brasil, havia pouquíssimo conteúdo do que me interessava e era cara por ser discada.

Em certos momentos a pesquisa empacava em algum assunto, como no caso do pessoal do Casa das Máquinas que matou um operador de câmera da tv record. O caso aconteceu em 1977, mas achei matérias sobre esse assunto ainda em 1988.

Tiveram também as várias prisões de Lobão, o caso de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto pegos com heroína, Barão Vermelho preso por porte de maconha, entre tantos outros casos. As mortes complicadas que aconteceram, mesmo de artistas desconhecidos como o ex-baixista da banda de Supla, de Joe Euthanázia e Cláudio Killer (João Penca). Fora as confusões da jovem guarda, porque naquela época rolava muita briga, muita porrada.

No meio do caminho achei muita coisa boa, TCCs que viraram livros não comercializados, e que estavam em sebos, como o livro sobre Madame Satã, casa noturna de SP; e também outro com a história do rock psicodélico brasileiro, mais focado nos anos 70.

Datas que eu não esperava ter foram aparecendo e enriquecendo cada vez mais a pesquisa. Não sei o número certo, mas já são mais de 800 efemérides sobre lançamentos, nascimentos e mortes e curiosidades das mais variadas.

Ao contrário de quando comecei, hoje a internet é fonte rica e segura de pesquisa. Os acontecimentos não param, por isso minha pesquisa não para nunca. Meu calendário musical só aumenta cada vez mais.

Já tentei publicar as efemérides de várias formas e cheguei a negociar o conteúdo com uma grande empresa de material escolar, porém não foi pra frente. A rádio Globo chegou a usá-las em uma parceria que durou pouco, por não cumprirem o acordo, que era verbal. Alteravam o texto de forma errada, não davam a fonte, entre outras coisas erradas que fizeram. Cortei a parceria rapidamente. Tive um blog só das efemérides, mas anos depois descobri que pessoas também davam copy/pasty e, além de alterar o texto não davam a fonte. Triste. Como já escrevi aqui, é gente que só sabe gozar com o pau dos outros. Não tem esforço próprio.

Em 2014 adquiri um smartphone e, em 2015, com sugestão de meu amigo Chuck (ex-MTV e hoje Vespas Mandarinas) abri uma conta no instagram: efemérides_do_rock_brasileiro

Junto com Chuck, reelaborei o conteúdo para adaptá-lo para rádio e You Tube. Fomos na 89FM, Kiss FM e nada. Não houve interesse. Apresentamos para produtoras o vídeo que fizemos com bonecos para o You Tube e não houve interesse. Ok. Sem problema rsrs.

Já fiz alguns orçamentos para fazer agendas permanentes com essas datas, mas o custo é muito alto e não tenho mais paciência de ir atrás de parceiros para essas datas.

Isso é conteúdo meu, exclusivo, único e inédito. Fiz por amor e nunca ganhei um tostão por isso. O que mais me dói no coração é saber essas efemérides do rock brasileiro, um conteúdo riquíssimo, vão se perder quando eu morrer.

Não são apenas datas, mas é a história do rock brasileiro contada em detalhes. Mesmo sendo esse conteúdo um segmento da cultura brasileira, é um documento rico.

As mais importantes dessas datas eu publico na conta do Instagram (enquanto existir e eu tiver saco de publicar rsrs):

efemérides_do_rock_brasileiro

PS: Além de tudo isso, essa pesquisa me deu mais experiência profissional em relação a texto, muita leitura, organização, produção, edição de texto e, claro, pesquisa propriamente dita.







15 de junho de 2017

TV Mix, O Embrião da MTV Brasil

Gosto de escrever e registrar as coisas que lembro da São Paulo da segunda metade da década de 1980, do período de quando cheguei aqui. Por isso, não poderia deixar de homenagear a TV Mix, um dos programas mais legais da televisão brasileira dos anos 1980. Há tempos vinha querendo escrever esse texto e deixo aqui um abraço aos amigos que participaram dessa história...
(Este texto está completamente ligado ao texto sobre a falta do Foda-se nos meios de comunicação hoje)

Ainda em 1987, mudar de Brasília para São Paulo, era quase que a mesma coisa que mudar de São Paulo para Nova York.

E cai em SP ainda em uma época muito boa em vários sentidos. Na televisão (que amo de paixão, não à toa trabalho com vídeo), fiquei maravilhado com a programação das TVs locais Cultura e Gazeta.. Na Cultura tinha um monte de coisas legais, entre elas Boca Livre (com Kid Vinil) e Bambalalão. 

Apesar da idade avançada, pirava no Bambalalão, programa infantil feito por uma turma da pesada, todo mundo começando a carreira. Hoje tenho certo orgulho de ser amigo de Álvaro Petersen, caipira como eu, e que era um dos manipuladores dos bonecos, além de outros papeis. Outro sujeito nota 10 que conheci do elenco do Bambalalão, foi Chiquinho Brandão, que fazia o incrível Bambaleão. 

O conheci quando ele interpretava ‘O Amigo da Onça’ no teatro. Eu conhecia algumas pessoas do elenco e saímos juntos algumas vezes. Baita talento!

Como já disse aqui em texto recente, outras figuras que conheci graças a esses programas da Cultura foram Kid Vinil e Redson, quando acompanhei um amigo que tocou no Boca Livre, e fiquei nos bastidores.

Ainda tinha o Som Pop e outros programas maravilhosos. Alguns até existem ainda hoje, mas completamente remodelados. 

Em Brasília há a TV Nacional, que é a retransmissora da Cultura na região, mas nem tudo que passava em SP, passava em BsB. Eu gostava até dos programas de documentários sobre animais que passavam. Tudo era bom.

Completamente novo pra mim foi ver a TV Gazeta, essa só conheci quando cheguei em SP. E foi bem no período de implementação da TV Mix, série de 4 programas divididos por horários e pautas. De manhã até o início da noite tinha a TV Mix 1, 2, 3 e 4. E é aí que quero chegar. Esse foi o embrião da MTV. Dá pra dizer numa boa que foi o “piloto” do que se tornou a MTV nos anos 90.

E pra despirocar de vez, ainda tinha o núcleo de humor da TV Gazeta com Grace Gianoukas, Ricardo Corte Real, Ângela Dip, Marcelo Mansfield, entre outros feras, e todos também em início de carreira. Minha memória sobre exatamente o programa que eles faziam é falha, mas eram esquetes feitas no fundo chroma, de uma forma bem tosca, assim como os cenários (quando havia) que eram igualmente toscos, mas tudo isso no bom sentido, porque fazia parte do contexto e era absurdamente inovador

Eu tinha algumas fitas VHS com essas esquetes, mas perdi com tantas mudanças na vida. Eles tinham um programa próprio, semanal, diário... enfim... Era ótimo e ria-se demais! Muito dessa porralouquice foi resgatada por Hermes & Renato na MTV (mesmo sem eles saberem) quando ainda era captado em VHS.

Nesse período entre 1987 e início dos anos 1990 era TV Cultura e TV Gazeta. Não tinha pra mais ninguém. Para a vida cultural da cidade em geral, eram essas as TVs. As bandas contavam com elas na ajuda para a divulgação de shows e lançamentos de discos. Fora o Boca Livre, havia outros programas que contavam com a participação de música ao vivo. O TV Mix 4, apresentado por Serginho Groisman, era um desses espaços.

A TV Mix inovou na linguagem de câmera, em pauta e na abordagem. A própria redação servia de cenário, câmera no ombro solta caminhando, com cabos e luzes aparecendo. Tudo dinâmico. Tudo ao mesmo tempo agora. O ‘Camera Aberta’ com Ale Primo na calçada da Paulista, poderia ser muito bem o Thunder, que anos depois seguiu a mesma linha na MTV, com muito improviso e boas sacadas (quem lembra do CEP MTV?).

Inclusive, mais de uma década depois da TV Mix, a MTV usou a mesma ideia de se fazer um mesmo programa dividido em horários e pautas, falo do Supernova, de 2000. TV Mix foi vanguarda, ainda mais misturada com a turma do humor. Impagável! 

A ligação entre TV Mix e MTV também se faz por pessoas que trabalharam nas duas produções, um desses nomes é da Astrid, além de outros profissionais por trás das câmeras que saíram da Gazeta para trabalhar na MTV. Fernando Meirelles, Tadeu Jungle e a produtora Olhar Eletrônico estão por trás da criação da TV Mix.

O teatro, a música, artes plásticas e tudo quanto é expressão artística estavam presentes no editorial da TV Mix. Todas as bandas que estavam na ativa nesse período, passaram pela TV Gazeta, ou para tocar ao vivo ou só para dar entrevista. Era um período legal, principalmente da cultura underground local, que estava surgindo junto com essa nova turma da TV.

Não havia muita verba, não havia muita externa, tudo feito ali na Av. Paulista. Como espectador posso falar que o que passava para nós era descontração e liberdade, justamente o que tínhamos na MTV, principalmente no início, de 1990 a 1996.

O legado da TV Mix dura até hoje!


PS: Videoclipe era coisa rara, mas na TV Cultura tinha o Som Pop e na TV Gazeta tinha o Realce (depois Clip Trip).

























29 de maio de 2017

Entrevista Com Joey Ramone - Por Kid Vinil (1987)



Lembro-me dessa entrevista como se fosse ontem. Hoje ao lê-la, você até pode achá-la bobinha, porém para aquela época foi valiosíssima.

Não tínhamos notícias sobre nossos ídolos, não tínhamos imagens de nossos ídolos, não tínhamos nada além de alguns discos, fitas e informações de fichas técnicas dos LPs.

As revistas especializadas daquele período – leia-se Bizz e Roll – mal falavam do que não era comercial. Ramones então, nem pensar!

Nessa época o único show internacional recente tinha sido Siouxsie and The Banshees, em 1986. A vinda de Ramones foi uma coisa bastante inusitada, uma vez que quase ninguém conhecia Ramones – uma banda restrita ao gueto punk.

Algumas vezes, ao voltar pra casa a pé após os ensaios do Filhos de Mengele, junto com Danilo (guitarrista), costumávamos sonhar em assistir a um show do Ramones. Dessa primeira passagem da banda aqui assisti a 3 shows. E constatei ‘in loco’ que na plateia praticamente ninguém conhecia a banda, a não ser “Surfin Bird” tocada exaustivamente na 89 FM para promover o show.

Essa entrevista que Kid Vinil fez é histórica – não á toa na foto da matéria ele está com o telefone de cabeça pra baixo, sem acreditar que havia conversado com Joey Ramone.

Antes de me mudar para SP, toda vez que vinha para a capital paulista, costumava gravar a programação de rádio (não lembro a emissora), porque Kid vivia tocando músicas e artistas que não se ouvia em rádio. Levava as fitas para Brasília e acabava fazendo cópias para todo mundo.

Poucos dias após chegar a SP, tive a felicidade de acompanhar um amigo que ia tocar no programa Boca Livre, da TV Cultura, apresentado por Kid Vinil. Esse dia pra mim também foi histórico, pois além de conhecer Kid, também conheci Redson, um de meus ídolos no movimento punk de SP.

No 1º show do Ramones no Palace, por essas coincidências da vida, acabei ficando logo abaixo de Kid Vinil, que estava sentado no mezanino do Palace. Ao final do show pude agradece-lo por essa entrevista.

Ao longo dos anos acabei o encontrando em diversas situações e também trabalhamos juntos na MTV. Inclusive certa vez fui à casa dele, quando eu era diretor do programa Urbano do Multishow, e tive a sorte de ver de perto sua coleção de discos. Cara de coração bom, gente boa, energia boa. Foi Kid que me falou dos dois discos maravilhosos que o Doors lançou após a morte de Jim Morrison – e até hoje os escuto agradecendo a Kid.

Fica aqui minha singela homenagem a essa figura que amava rock e que era uma verdadeira enciclopédia. Valeu Kid!!!



Folha de São Paulo
Edição de 30 de janeiro de 1987, página 26, Ilustrada


O Ramones chega e faz shows em SP

O grupo norte americano, precursor do punk-rock, desembarca hoje e se apresenta amanhã e domingo no Palace; o líder Joey foi entrevistado de Nova York, com exclusividade, por Kid Vinil

Uma das lendas vivas do rock’n’roll da última década aparecerá hoje, às 10h20 entre as brumas e má visibilidade do aeroporto Cumbica, em Guarulhos, 7 km ao norte de São Paulo: o Ramones, grupo precursor do movimento punk norte-americano, aterrissa com quilos e quilos de equipamento para se apresentar no Palace, amanhã e domingo, em dois horários 21h e 23h30. Os shows, anteriormente programados para o Rio de Janeiro e Buenos Aires foram cancelados. Na verdade, toda a excursão havia sido desmarcada devido as chuvas que inundaram completamente o Palácio das Convenções do Anhembi.

Na zona norte paulistana, onde era esperada a maior plateia da turnê. A WTR, produtora do show, acabou transferindo o local e confirmando a apresentação do Ramones unicamente em São Paulo.

Serão dois dias para conhecer (?) dois mais importantes grupos que surgiram na primeira metade dos anos 70. O Ramones, em início de carreira, acompanhou diversos nomes ligados ao “rock (?)”, que viria a desaguar, em uma de suas vertentes, no movimento punk, como oMC5, The Stooges (de Iggy Pop, que também deve vir ao Brasil) e Lou Reed (pós-Velvet Underground). Do quarteto original restam três nomes: Joey (vocais), Dee Dee (baixo) e Johnny (guitarra; o novato chama-se Ritchie (bateria). Todos usam o nome Ramones, mas não são irmãos. O “sobrenome” Ramones é um apelido, que membros da banda assumem e incorporam as suas vidas.

Por isso Joey não quis dizer seu verdadeiro nome (Jeffrey Hyman) na entrevista exclusiva que ele concedeu por telefone a Kid Vinil, músico e colaborador da Folha, do escritório de seu produtor, Andy Darow, em Nova York. Falou por meia hora de suas preferências musicais, das (?) do seu trabalho, dos instrumentistas que mais admira e mostrou um surpreendente gosto pelo heavy metal. Joey contou que os shows do Ramones não costumam ultrapassar trinta minutos, no tempo oficial. Mas, dependendo do público, o grupo é capaz de retornar inúmeras vezes ao palco e até tocar a noite inteira. É só uma questão de clima (possivelmente prejudicado pela burocratização do horário com dois shows por noite), que pode ser mais facilmente alcançado conhecendo-se as opiniões de Joey, o mais atuante porta-voz do grupo. A seguir a conversa de Kid com Joey. As observações entre colchetes são de Kid.

*

Kid Vinil – Seu nome real e sua idade.
Joey Ramone – Joey Ramone e idade não publicável. [Joey já havia mostrado desinteresse em atender o telefone, talvez pela expectativa de encontrar pela frente mais um repórter chato, que não conhece nada e só irá fazer perguntas pastosas. Não deveria, portanto, ter mandado essa como primeira pergunta, mas como pediram... Ele realmente não gostou e insistiu em manter o seu nome de guerra, não revelando o de batismo, se é que foi batizado. Então foi preciso “pegar fundo” e esperar a reação].

Kid – Recentemente foi editado o 10º LP do Ramones, “Animal Boy”. E quanto ao novo trabalho, como anda?
Joey – Depois de “Animal Boy” entramos novamente em estúdio e já terminamos oito faixas para o próximo disco, a ser lançado brevemente, com produção nossa e co-produção de Denny Ray.

Kid – Falando ainda dos dois últimos LPs, “Too Tough To Die” e “Animal Boy”, a banda incluiu alguns sons “hardcore”. O que você acha dos grupos que fazem “hardcore” atualmente?
Joey – Gosto demais do estilo “hardcore”, tem muita energia, principalmente ao vivo. Muitas bandas em Nova York fazem esse som e muitas delas abrem nossos concertos como a Crow Mags e Wild Kingdos, que entre as novas são duas das minhas prediletas.

Kid – Qual dos dez LPs do Ramones é seu favorito?
Joey – (Nota do blog: Joey lista os dez discos rsrs)

Kid – Sobre o concerto aqui no Brasil, você pode nos falar sobre a sua duração, já que normalmente vocês conseguem tocar quase trinta músicas em meia hora. Cite também algumas das músicas a serem incluídas.
Joey – Quanto a duração do show tudo depende do entusiasmo do público. Podemos tocar um grande número de músicas em meia hora, mas se voltarmos para um bis tocaremos outro punhado de canções. Se pedirem mais, tocaremos a noite toda, tudo depende da participação do público que encontrarmos pela frente. Quanto as músicas a serem tocadas, nunca temos um roteiro. Mas posso adiantar que tocaremos muita coisa dos nossos primeiros LPs, como do “Rocket To Russia”, do “Leave Home”, do “Road To Ruin”, enfim, um apanhado geral de todo nosso trabalho até chegarmos aos dois mais recentes álbuns.

Kid – Você sabia que “Surfin Bird” é um grande hit aqui em São Paulo?
Joey – Fico entusiasmado e surpreso, adoro cantar “Surfin Bird”.

Kid – Recentemente você andou produzindo alguns trabalhos de outras bandas, como foi isso?
Joey – Realmente. E uma delas foi Chesterfield Kings. Tenho planos futuros também para um LP solo, com a participação de alguns amigos.

Kid – Com a saída de Marky Ramone (bateria), logo vocês recrutaram Ritchie Ramone, mas os dois últimos LPs tem outras participações na bateria, quem são?
Joey – Além de Ritchie, tivemos a colaboração de um grande amigo, que por muito tempo tocou no New York Dolls e no Heartbreakers, Walter Lure, mas por fim acabamos efetivando o Ritchie Ramone.

Kid – Voltando ao concerto aqui em SP, gostaria de saber se vocês pretendem incluir teclados, como tem feitos em seus discos mais recentes.
Joey – Não, teclados de espécie alguma. Ao vivo é outra história. É muito mais ‘speed’, um negócio mais visceral, excitante. Faremos tudo em quarteto, com nossos amplificadores Marshall ao máximo volume [o Ramones trará uma aparelhagem de três a quatro vezes maior do que a de Siouxsie e seus Banshees]. É muito diferente aquilo que a gente faz em estúdio, do que executando ao vivo. Num estúdio você tem inúmeros recursos, a gente pode errar, experimentar. É um processo, como disse, muito mais criativo, onde posso me preocupar com um arranjo diferente, um teclado em uma ou outra música. Ao vivo é o momento, contar um, dois, três, quatro e atacar.

Kid – Quanto a essa inclusão de teclados em algumas faixas de seus discos, como você explica?
Joey – Apesar de detestar grupos que usam sintentizadores, gosto eventualmente de incluir um teclado ou outro, bem sutilmente em nossos trabalhos, mas sem levar a coisa para o lado “tecno”, apesar de já termos trabalhado com Dave Stewart, do Eurythmics, no LP “Too Tough To Die”.

Kid – E quanto aquele pessoal que trabalhou com vocês no início de carreira, por volta de 76 ou 77 no CBGB, em Nova York, como Blondie e Talking Heads. O que você acha do trabalho deles hoje?
Joey – Gosto demais do trabalho feito por Debbie Harry no Blondia e curto demais seus trabalhos solo, principalmente o mais recente. Quanto ao Talking Heads, igualmente admiro bastante. Aliás, o Jerry Harrison também fez teclados em uma das faixas do LP “Too Tough To Die”.

Kid – E as bandas inglesas. O que você acha desses novos grupos, tipo Smiths, etc?
Joey – Smiths??? Ah! Não sei, não gosto muito dessas coisas novas que têm aparecido, as vezes uma ou outra coisa aproveitável. Bom mesmo foram os grupos de 77, a época mais criativa do movimento punk-rock, desde Pistols, Buzzcocks e Sham 69. Essa sim foi uma grande época para o punk-rock.

Kid – E hoje Joey?
Joey – Tem coisas que eu gosto que não têm a ver com punk, por exemplo, heavy metal do tipo Motorhead, AC/DC, Metallica e até The Cult.

Kid – E quanto a Van Halen e a banda de Dave Lee Roth, quem você considera o melhor guitarrista, Steve Vai ou Eddie Van Halen?
Joey – Sem dúvida que Eddie Van Halen é o melhor guitarrista.

Kid – Agora, partindo para suas influencias nos anos 60, que estão bem na música do Ramones, o que você pode dizer?
Joey – Basicamente é Califórnia 1964, “surfing music”, Beach Boys principalmente. Tem coisas dos anos 50, como Buddy Holly, Eddie Cochran, mais anos 60 como Kinks, e anos 70, T. Rex, MC5 e Stooges.

Kid – O LP “End of The Century” teve a produção de Phil Spector, o tão legendário produtor dos anos 60. Como surgiu a ideia?
Joey – Achamos interessante convidar Phil para a produção desse disco, mas acabou mudando bastante o nosso estilo. Chegamos até a gravar “Baby I Love You”, com arranjo para orquestra e tudo, imagine. Mas na época gostamos bastante do resultado.

Kid – E hoje vocês tocariam “Baby I Love You” ao vivo, ou qualquer outra balada, que vocês sabem fazer tão bem?
Joey – É muito difícil executar “Baby I Love You” ao vivo principalmente porque tem um arranjo sofisticado para piano e orquestra. Foi apenas para o disco e para aquela época, hoje nem pensar. Quanto às baladas prefiro muito mais cantá-las em disco, num trabalho de estúdio. Ao vivo, como falei, é garra. Não há espaço para baladas.

Kid – Vocês pretendem executar músicas do novo trabalho ainda não lançado?
Joey – Não, somente, como disse, faremos uma retrospectiva de todo nosso trabalho até os mais recentes LPs.

Kid – E quanto a esse novo trabalho que vocês estão terminando em estúdio, fale mais sobre ele.
Joey – Esse novo material segue a linha dos dois últimos discos, com vários estilos – às vezes hardcore, às vezes punk, uma ou outra balada – enfim, um trabalho bem variado, pois nos demos muito bem nessa linha de trabalho adotada nos mais recentes LPs, agradando a todos os gostos. [Passada meia hora de conversa desliguei o telefone, pois já tinha falado demais. Mas poderia ficar a tarde toda papeando com Joey, que se mostrou agradabilíssimo. Por fim, insisti na pergunta inicial, pra ver se tinha, pelo menos, ganhado sua confiança depois de toda entrevista. O nome ele não quis revelar, mas acabei descobrindo numa enciclopédia da vida, que é Jeffrey Hyman. A idade, afinal, ele contou: 34 anos. Disse a ele que é ótimo, tenho 31. E respondeu: “É, realmente, pegamos uma grande época no rock que foi os anos sessenta”]