25 de dezembro de 2012

Que Venha o Novo Ano


Mais um ano que passa e vem à pergunta: Eu mudei? Para melhor ou para pior?

O que você fez para se melhorar? O que você prometeu para si mesmo no réveillon passado que você não cumpriu? É aquela velha história: “vou começar o regime na 2ª feira”, “vou parar de fumar quando acabar o maço”, "vou ter mais paciência nesse novo ano". Quando se quer mudar, muda-se. Não há o que esperar.

Não é fácil mudar os hábitos, repensar a rotina, as relações, os defeitos, os medos, enfim, tudo aquilo que é o mais difícil para todos nós. Difícil, mas não impossível. Tem gente que fala que saltou de paraquedas, pulou de bungee jump, viajou a Europa inteira com mochila nas costas, etc. Eu mesmo tenho dois exemplos próximos de pessoas que se dizem “espiritualizadas”, que participam de cultos, que estudam, porém, basta entrar em um carro pra sair xingando todo mundo. Pessoas que agem ao contrário do que pregam.

Então eu pergunto: o que é mudar? O que adianta fazer um monte de aventuras para pensar na vida, se ao voltar você continua a mesma pessoa? Conheço um monte de gente que mal começa o dia 1º de janeiro e já fala: “que saco, amanhã tem que ir trabalhar”. Aos que me dizem isso, falo pra pensar em quem não tem trabalho para ir no dia 2 de janeiro.

Já começar o ano reclamando e ainda jogando energia negativa logo no primeiro dia de trabalho que nem começou? Preste atenção e já tente perceber o que deve ser mudado no trabalho para você parar de reclamar dele.

Já falei aqui: assim como temos o hálito bucal, também temos o hálito mental. Pensar positivo atrairá coisas positivas; pensar negativo atrairá coisas negativas.

Quer mudar? Então mude já, agora! Não precisa esperar o novo ano, até porque isso é relativo.

Saúde, amor e fé. Todos os dias!

3 de dezembro de 2012

Rock Brasileiro: O Videoclipe


Depois que o Beatles, sem querer, criou o videoclipe, tudo mudou na cultura pop. A divulgação das bandas e artistas solos barateou, porque até então era preciso fazer turnê só para divulgar o novo trabalho e havia muito gasto para isso. O mundo inteiro seguiu essa nova linguagem e no Brasil não foi diferente.

Os primeiros clipes pop do Brasil foram rodados nos anos 1960 com a jovem guarda, e até mesmo antes com Tony e Celly Campello e outros nomes da primeira geração do rock. Mas esses clipes eram, na verdade, participações em programas de TV e como no início dos 1960 não havia o recurso de gravação do VT (era tudo ao vivo), quase tudo que havia naquela época, ficou naquela época.

Mas no mundo inteiro, durante os anos 1960 e 70, grande parte dos videoclipes eram resultado de participação em programas de televisão ou apresentações ao vivo que eram gravadas até em Super 8 e depois sonorizadas, como um clipe clássico ao vivo, mas ali, naquele momento, isso não era chamado de videoclipe.

Se você fizer uma busca no You Tube, Vimeo ou outras fontes verá que os clipes brasileiros dessas décadas também eram tirados de apresentações em TV, mas não eram reprisados como em um programa de clipes (e nem havia isso) como temos hoje. Eles passavam uma ou duas vezes, no máximo. Nem tinha onde veicular essas apresentações além do próprio canal onde houve a apresentação. Nesse formato você verá Rita Lee, Mutantes, Secos e Molhados, A Cor do Som, Novos Baianos, Casa das Máquinas, Joelho de Porco, Made in Brazil e, inclusive, artistas da MPB.

Aí tudo mudou nos anos 1980 quando a MTV estreou nos EUA. Mais precisamente em 1983. Nesse momento Michael Jackson foi o cara, não só com o clipe de “Thriller”, mas também com “Beat it”, com a história das gangs, a pose de mal e o solo de Eddie Van Halen. Também chapou todo mundo.

Aqui no Brasil quem importou essa nova linguagem foi o Fantástico da Rede Globo, que começou a produzir seus próprios clipes em acordo com as gravadoras. Esse era o único canal de divulgação para novos trabalhos, e de todos os gêneros. O Fantástico fez clipes da Blitz, Lobão, Kiko Zambianchi, Ultraja a Rigor, Metrô, Magazine e mais uma tonelada de artistas. O videoclipe dessa época era, na verdade, os programas de auditório Chacrinha, Bolinha, Raul Gil, Barros de Alencar. Só assim era possível ver várias vezes a banda que você gostava fazendo playback. Ao vivo mesmo só o Fábrica do Som e o Perdidos na Noite.

O programa de clipes que existia até então, digo do final dos 1970 e início dos 1980, era o Som Pop, e antes teve o Sábado Som com a apresentação de Nelson Motta. Tiveram outros, mas transmitiam basicamente clipes intenacionais, e que eram feitos em televisão com fundo chroma key, como aqueles clássicos que sempre vemos tipo “Smoke on the Water” do Deep Purple, “War Pigs” do Black Sabbath e “America Breakfast” do Supertramp. Aqui no Brasil Raul Seixas foi quem  usou pela primeira vez o chroma key no clipe de "Eu Nasci..." feito para o Fantástico, que tinha acabado de adquirir esse equipamento.

A Rede Manchete, que entrou no ar em junho de 1983, também deu uma chacoalhada no mercado fonográfico, porque ela também investiu em musicais, mesmo não tendo, claro, a mesma força da Globo. Ela não só produziu videoclipes e programas de parada com playback, mas também fez especiais com muitas bandas. Eu mesmo lembro de Titãs, Plebe Rude e João Penca.

Também foi a partir de 1985 que começaram a surgir algumas produtoras independentes em São Paulo, Rio e Porto Alegre, e começaram a fazer clipes de verdade, pois até então, os artistas consideravam essas produções televisivas mais como musicais do que videoclipes propriamente ditos. Lembro dos clipes de Ira!, Mercenárias, Titãs, Replicantes.

Em 1985 a Globo criou o programa Clip Clip que, como outros programas semelhantes, passava basicamente clipes estrangeiros, pela falta de clipes nacionais. Uma boa solução que o programa encontrou foi gravar artistas tocando ao vivo em estúdio. Isso era muito legal.

Até 1990, quando a MTV chegou ao Brasil, o mercado brasileiro de videoclipe praticamente não existia, não era uma questão importante para artistas e gravadoras. A divulgação em rádio era tudo e chegar à trilha de novela era o ápice, até porque automaticamente garantia um clipe no Fantástico.

Inclusive no início da MTV houve muita resistência das gravadoras em produzir videoclipes, já que eram caros. Por que a gravadora iria investir muito dinheiro em um videoclipe se não tinha prova alguma dizendo que seria um dinheiro bem investido? Aconteceu então que a própria MTV produziu alguns clipes para mostrar às gravadoras e artistas que era preciso investir nesse tipo de divulgação.

Em 1994, quatro anos depois de sua inauguração, e junto com a estabilidade do Real, estourou uma nova geração de bandas: Planet Hemp, Skank, Raimundos, Chico Science, O Rappa, mundo livre s/a, Pato Fú. Com essa estabilidade da moeda (sendo novidade depois de décadas de inflação e montanha russa econômica) as gravadoras tiveram mais folga para investir em vídeo. Por outro lado a MTV Brasil ajudou na divulgação dessas bandas (já que eram todas do underground) criando o ‘Bandas Sim’ e, em 1995, o Video Music Brasil. A partir daí o videoclipe se tornou obrigação.

Pra mim, o clipe divisor de águas foi “Segue o Seco” de Marisa Monte que, além de ser lindo, instigou outras produtoras e diretores a buscar resultados iguais.

O investimento na produção de clipes passou a ser uma coisa séria, e naquele momento eram realizados por produtoras de filmes publicitários e elas passaram a dar um tratamento de propaganda nos clipes, o que foi deixando-os muito chatos e caretas.

Hoje, com toda tecnologia que temos em mãos, qualquer um faz um videoclipe e também por causa da tecnologia, ele perdeu força de divulgação. São poucas as gravadoras e artistas que investem pesado nisso. A internet mudou tudo.

PS: No momento viajo a trabalho por lugares de pouco acesso à internet, por isso, tenho postado pouco nesses últimos três meses do ano.












23 de novembro de 2012

Mais do Mesmo 7 (Enfim, o Rock Envelheceu)


Mais do Mesmo virou uma série acidental no Sete Doses de Cachaça por se tratar de pura conversa de boteco, daquelas que nunca tem fim, e mesmo sendo sobre a mesma coisa, sempre há um novo ponto de vista, novos exemplos, e a cada gole a conversa come solta.

Impossível dizer com exatidão a idade do rock, mas vou pegar o meio da década de 1940, exatamente 1945, para ter uma base. Mas conto a partir daí, por já existir um rhythm’n’blues com certa cara de rock e ao menos uns dez nomes de destaque como T-Bone Walker, Muddy Waters e Hank Willians. Então podemos falar que o rock chegará aos seus 70 anos em 2015.

Hoje, os artistas das décadas de 1960 e 1970 já não tem o mesmo pique. Nos anos 1990 assistir a um show ou uma reunião de artistas dessas décadas ainda era legal, tinha gás. Hoje já não há gás. Pô, normal!

Vários ídolos antigos nasceram na década de 1940 e muitos já chegaram ou estão chegando aos 70 anos: Paul McCartney, Lou Reed, Andy Summers, Keith Richards, Pete Townshend, Robert Plant, David Bowie e Iggy Pop.

Aí a pessoa vai ao show do Police, do Kiss e do Stones e acha que vai ver a banda como se estivesse em seu auge, como era nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Mesmo ídolos dos anos 1980 estão chegando aos 60 anos de idade. Em 2013 Jello Biafra vai fazer 55, Angus Young e Eddie Van Halen 58 anos!

Agora, lidar com a idade avançada vai de cada um. Tem gente que aguenta, mesmo que, digamos, menos acelerado, fazer 2 horas de um bom show. Tem gente que não, tenta, mas não vai. Ou aceita a idade, muda, se adapta e segue em frente ou pode passar vergonha.

Chega uma hora em que os anos de estrada e o acúmulo de tudo o que foi ingerido e abusado com o corpo e a mente, começa a gritar. Uns, sabe se lá como, ainda aguentam o tranco, outros não. Tentar entender como Lemmy Kilmister, Iggy Pop ou Keith Richards ainda estão de pé, é impossível. Mas fato é que chega uma hora em que o cansaço bate mesmo, não há como ser diferente. Aí, como acabei de falar, cada um vai se adaptando como pode.

O lado bom é que o gás para fazer shows pode acabar, mas para compor, criar e gravar não. É certo que muitos artistas não precisam lançar mais nada. Mas artista é artista e nunca para de criar, então se há chance de lançar, por que não? Ruim ou bom tanto faz. Se mudou o estilo ou não, também tanto faz. A cada fase de nossa vida nos agarramos a coisas novas ao mesmo tempo em que largamos outras. Tudo muda e nada mais natural do que essa mudança ser retratada a cada novo trabalho. 

Nenhum desses grandes ídolos tem mais a obrigação de lançar um grande clássico, de surpreender. Isso já foi feito, e de forma brilhante. Rolling Stones não tem mais a menor obrigação de lançar nada novo, muito menos bom. Isso também serve para Metallica, Red Hot Chili Peppers, e até mesmo Strokes que prestou um grande serviço ao rock quando lançou Is This it em 2001.

Com a idade ninguém ganha à briga. Mas o que me preocupa é que está chegando a hora dos ídolos dos anos 1980 e 1990 serem os velhinhos da vez. Como as gerações seguintes não fizeram nada de significativo, o rock está fadado a morrer de fato. Só irá existir os clássicos, a história e os documentos (vídeos, reportagens, shows, entrevistas). Não haverá mais os velhos ídolos e nem mesmo os velhos fãs. Imagine o jovem em 2070 escutando Beatles, Led Zeppelin e até mesmo Foo Fighters, sem ter ninguém vivo para relatar a ele como era na época, os shows, as entrevistas.... se estiver vivo Dave Grohl terá 101 anos.

Se hoje o rock já está saturado, imagine então daqui uns 30 anos, quando Noel Gallagher estiver com 75 e Damon Albarn com 74 anos. Sem novas ideias e sem novos ídolos para ficarem velhos, o rock morrerá. Shiva: Transformação. Destruir para construir. Quem sabe o rock não precise morrer de fato para que ganhe vida nova. Quem sabe ele não ressurja sem querer, através de um moleque na garagem, em 2102, tentando fazer algum barulho com a velha guitarra do trisavô.


14 de novembro de 2012

Série Coisa Fina: 16 - At the Drive-In

Lembro de um dia em que cheguei em casa, provavelmente 1996, liguei a televisão, e estava passando um documentário do At the Drive In. Peguei no final, literalmente os últimos 5 minutos, tempo suficiente para aparecer à banda tocando em um bar de beira de estrada para poucos gatos pingados, mas no palco todos estavam tomados, mandando ver. Achei incrível o som, o visual dos cabelões black power, e o guitarrista canhoto. A banda naquelas micro turnês roubadas, viajando de van, tocando em lugares pequenos e vazios.

Demorei um tempo para descobrir o nome da banda e não tinha nada dela nos arquivos da MTV. Cheguei a encomendar um CD em uma loja que era cliente, mas ele não veio e com o tempo esqueci. Fui lembrar do At the Drive In em 2003. Eu usava um desses programas de troca de arquivo pós-Nasper e consegui tudo: os singles, EPs, slipts, discos, gravações especiais. Em um site especializado em rock alternativo consegui ver, male male, um clipe. Ainda não havia You Tube.

Foi por causa do Mars Volta que lembrei de ATDI. Aí fiquei por meses escutando tudo e indo atrás de informações. Escutei De-Loused in the Comatorium e adorei. Quando fui ver foto da banda me deparei com os dois loucos que tinha visto em 1996 no documentário da TV.

Os três discos + o EP Vaya são absurdamente bons. O segundo disco In Cassino Out, produzido por Alex Newport, foi gravado ao vivo no estúdio e é impressionante ouvir a porrada. Punk rock de primeira qualidade, com o diferencial na influencia do progressivo. Ramones + Bad Brains + Dead Kennedys + Pink Floyd com Sid Barret + King Crimson + Fugazi.

At the Drive-In está no meu hall da super química entre duas guitarras. O canhoto Omar Rodríguez e Jim Ward. O folego de Cedric Bixler é coisa do outro mundo. Ele canta com convicção como era Jello Biafra no Dead Kennedys. Também sou fã de Tony Hajja, o baterista. Desce a porrada, é seguro e consegue se divertir (odeio aqueles músicos que tocam preocupados unicamente com o que estão fazendo no instrumento). Adoro sua execução no In/Cassino/Out. Todo mundo é fera e a química é absurda. De cair o queixo.

A banda é americana de El Paso, no Texas, fronteira com o México e lugar bastante improvável para se fazer um punk rock bastante agressivo. Começou em 1993 e sempre se manteve no circuito underground, tocando frequentemente, mas sempre em lugares pequenos, com público também pequeno.

Em plena era grunge, o At the Drive-In corria por fora, com um som sujo, que sei lá o motivo jornalistas especializados insistem em dizer hardcore até o absurdo de chamar de emo! Nem hardcore, nem emo. Pelamordedeus!!! Punk rock. Só punk rock. Cru e nu, com influencias no psicodélico e progressivo. A banda chegou a tocar com Sonic Youth, Fugazi e outras bandas da cena alternativa, e até mesmo para essa cena o At the Drive-In era underground. O alternativo do alternativo.

Foram 3 discos e 4 EPs lançados entre 1993 e 2001. Somando tudo, incluindo participações em Slipts, coletâneas e outras gravações especiais, não chega a 65 as gravações oficiais. Material de bom tamanho  para deixar significativo legado.

Escutando tudo em ordem cronológica é nítida a evolução. Os dois primeiros foram gravados praticamente ao vivo. Acrobatic Tenement, de 1996, custou 600 dólares e In/Cassino/Out não deve ter sido muito mais que isso. Mesmo assim ouve-se evolução nas composições, na execução e produção. Os EPs anteriores ao Acrobat são sofríveis, vale mais pela porrada, pela energia.

Há um divisor de águas na carreira da banda. Nos dois primeiros discos está retratado de forma fiel o At the Drive em sua essência pura, que é o ao vivo. Banda de palco. Aí em 1999 veio o EP Vaya, com 7 músicas que mostraram um outro At the Drive-In, mais elaborado, com elementos além do guitarra-baixo-bateria-vocal. Efeitos sonoros, teclados, barulhinhos e noises foram incorporado de vez. Vaya é um clássico. É de chorar de bom.

Ao mesmo tempo que essa evolução aconteceu, a banda ia se tornando cada vez mais falada. Tanto que o 3º disco foi lançado pelo selo do Beastie Boys, o Grand Royal. Escutando esses dois últimos lançamentos já dá pra perceber um quê de Mars Volta nas experimentações. São 3 lançamentos oficiais. 3 discos. 3 pérolas. Omar Rodriguez-Lopez é mais um gênio canhoto que tira notas do além. Sonoridade única.

At the Drive-In bem que poderia ter sido influencia para o que veio a partir dos anos 2000, mas passou batida pelo mainstream (mesmo tendo a partir de 2000 Iggy Pop como padrinho) que se ocupou com o grunge e britpop (nada contra, apenas relatando). Acho até bom que ATDI seja uma banda para poucos.

Mas nesse momento em que a banda começava a decolar entre os descolados influentes, a chamar a atenção da mídia especializada, ela acabou. Houve desentendimento com Jim Ward, além de todo mundo já estar estafado e mergulhado em drogas. Os 7 anos até Relacionship of Command foram intensos e cansativos. Quando iniciaram a banda Cedric, Omar e Jim tinham respectivamente 19, 18 e 17 anos. Foi muita ralação. Houve desgaste e a banda acabou quando o melhor estava por vir. Dividiu-se entre The Mars Volta e Sparta. Porém o engraçado é que praticamente todos os principais membros do ATDI chegaram a tocar no Mars Volta, até mesmo Jim Ward.

Agora que o MV anunciou uma pausa nas atividades, o At the Drive-In está de volta, mas só para fazer shows. Já tocou em alguns dos principais festivais europeus e americanos, e deixou claro que não irá gravar nada inédito. Nem precisa.

















6 de novembro de 2012

Baboseiras Sobre Shows Internacionais

A venda de ingressos para os shows de Lady Gaga em países da América do Sul tem sido um fiasco. O motivo? Diversos, mas o que acredito mais é no fato dela não ter vindo quando estava no auge de sua popularidade.

Também tem o fato de Lady Gaga ser produto de marketing, já que sua música não traz nada de novo para o cenário passado, presente e futuro. Usar roupa de bife, pra mim, não significa nada. Ela é novidade efêmera, portanto, deve trabalhar em dobro enquanto ainda está na mídia, para arrancar o máximo de dinheiro possível dos fãs consumidores (os tais Little Monsters, certo?).

Muitos artistas gringos só olham para a América do Sul apenas quando estão em franca decadência, ou sumidos ou reativados. Por que o Stone Temple Pilots só veio ao país agora? Verdade é que muitas delas vem pra cá, acabam gostando e colocando o Brasil e Argentina na rota de shows.

Citei STP, mas são diversos artistas que se aproveitam da baixa na Europa e EUA e começam a olhar outros mercados. Para grande parte desses artistas vir pra cá significa diversão: sexo, drogas & rock’n’roll. Está fora da rota da turnê, por isso muitas vezes a América do Sul fica por último.

Não que isso tudo seja ruim. Pelo contrário, muitas vezes joga a favor. Muitas bandas fizeram grandes shows aqui. Memoráveis para o público e para o artista, exatamente por conta dessa descontração. Eu estava lá no Ibirapuera no memorável show do Metallica, o último da turnê do ...And Justice For All. Na verdade a banda já estava de férias e veio sem cenário e até sem bateria!

Há os artistas corajosos que apostaram no país ainda nos anos 1970 e 1980. Alice Cooper em 1974, Van Halen em 1982, além de Ramones, The Cure, Echo and the Bunnymen, PIL, Big Audio Dynamite e Sting, tudo em 1987.

Mas tem casos, claro, que irritam. Tem artistas que no auge esnobam o Brasil e depois, no aperto, acham ótimo vira pra cá com declarações incríveis como “maravilhoso estar aqui. Os fãs brasileiros são loucos! Faz muito tempo que queria vir pra cá, mas só agora deu certo. Blá blá blá...”

Não engulo também os preços dos ingressos. É um roubo. Última vez que estive em um grande festival foi no Hollywood Rock que rolou Red Hot Chili Peppers (1992?). Morumbi lotado e, no fim, os seguranças foram tirando todos a força. Resultado foi que no túnel de saída com todos esmagados, saí do chão e perdi o controle de mim mesmo por alguns segundos (que pareceram uma eternidade). Foi horrível e prometi nunca mais ir a nenhum show de grande porte. Com ingressos na mão não fui ver Stones no Pacaembú. Depois rolou apenas um Iron Maiden no Palestra Itália e os shows e festivais que fui profissionalmente.

Você paga caro, é difícil comprar, é tratado como gado, estacionamento caro, consumo de tudo é caro, a saída é tumultuada. Ufa! Valorizo meu (suado) dinheiro.

Para apelar agora há promoções para os ingressos de Lady Gaga. Ou seja, é a prova de que os shows poderiam e deveriam ser mais baratos. Uma vez fui convidado para ser o curador de um grande festival de rock brasileiro e vi que a estratégia é estabelecer 100% de lucro já no valor da meia entrada.

O público de Lady Gaga é praticamente formado por adolescentes. Dos 11 para os 13, 12 para os 15 ou dos 13 para os 16 anos, tudo muda. Digo isso porque o primeiro disco de Lady Gaga foi lançado em 2008. 2012 é apenas o 5º ano de carreira dela, porém seu público mudou muito nesses anos. Tenho uma filha pré-adolescente e sei bem o quanto as coisas mudam de um ano para o outro.

Sempre foi assim, mas hoje, por conta da tecnologia, as novidades são cada vez mais instantâneas (que digam os sites de notícias).

Lady Gaga é mais do mesmo. Quanto vale o show?

Que venha a próxima novidade!

24 de outubro de 2012

Série O Resgate da Memória: 30 - Casa das Máquinas e a Morte do Cameraman

Em setembro de 1977 integrantes da banda Casa das Máquinas se envolveram em um episódio lamentável. Mas o pior é que ninguém pagou por isso. Na época esse foi o julgamento mais longo até então realizado em São Paulo.
Foram muitas reviravoltas e diversas reportagens em jornais e revistas publicadas entre 1977 e 1988. Depois de tudo isso passar, o vocalista Simbas ainda foi pego em flagrante com cocaína.
Aqui reproduzo 3 matérias que pontuam bem esse ocorrido.
PS: Adoro Casa das Máquinas, sem dúvida uma das melhores bandas da geração 1970, porém a vida de um trabalhador pai de família se foi de uma forma estúpida...

ATENÇÃO: Ao final do texto não deixe de ler os comentários!




Briga na Record mata o câmera Lucínio de Faria
Folha de SP – 20-set-1977 – Primeiro Caderno

A briga entre dois músicos do conjunto “Casa das Máquinas” e dois funcionários do Canal 7 (TV Record) em São Paulo – que provocou a morte do câmera-man Lucínio de Faria e ferimentos graves no motorista João Luiz da Silva Filho, aconteceu no sábado, mas só foi registrada na Polícia no domingo à noite. E só ontem a tarde o delegado Manoel Levino, da 15ª DP (Itaim Bibi), começou a intimar os envolvidos. Entre eles o Cantor Nivaldo Alves Horas, conhecido como Simba, de 25 anos, seu irmão menor Nelson, de 17 (os outros membros do conjunto souberam do caso mais tarde), o motorista João Ruiz e o funcionário da Record Vady Gragnandini, acusado de ocultar a briga por temer que os envolvidos perdessem o emprego.

Segundo a versão de Simba, ele e seu irmão chegaram cedo na televisão porque costumam se atrasar para os shows do conjunto, devido ao grande volume de instrumentos e roupas especiais. No sábado estava prevista uma apresentação do conjunto no programa Raul Gil, às 15h30min. Por isso, estacionaram um Opala vermelho atrás do canal 7, na Avenida Rubem Berta. Mas logo foram avisados pelo motorista João Luiz que ali não podiam estacionar. Simba avisou que só ia guardar uma sacola no saguão da emissora mas foi tratado “com palavras de baixo calão”. Quando entrou no prédio ouviu um barulho de acidente. Ao voltar, viu que um ônibus da Record dirigido por João Luiz (o câmera-man Lucinio de Faria estava na cabine) tinha batido no Opala. A briga começou às 16 horas, entre os quatro, mas ampliou-se quando envolveram-se outros funcionários da emissora. João Luiz e Lucinio foram para casa, aconselhados por Vady Gragnandini, mas a família de Lucinio assustou-se com o seu estado e o internou num hospital de Santo André, onde faleceu.

Os músicos da “Casa das Máquinas” se apresentaram no programa, apesar da briga. E só depois que o caso foi comunicado à polícia, deram uma entrevista coletiva em seu apartamento na Avenida Diógenes Ribeiro de Lima. O baterista do conjunto, Luis Franco Thomaz, o “Netinho”, que trabalhou com        “Os Incríveis”, explicou que só souberam da morte de Lucinio no domingo por isso cumpriram integralmente o programa no fim de semana, que incluiu ainda apresentação em Santa Bárbara Do Oeste, em Santa Izabel e no Rio de Janeiro.

Formado a quase três anos, o conjunto “Casa das Máquinas” já gravou alguns LPs e vêm participando de shows em todo o Brasil. Dele participam também Mário Franco Thomaz, irmão de Netinho, Carlos Roberto Piazolli e João Alberto Martinez. Nenhum deles, por enquanto, foi chamado a depor, mas já estão consultando seu advogado, Ivan Francês. AF.



Falta de prova
Veja 09-03-1983 (edição 757)

Em liberdade músicos que mataram cinegrafistas

Com uma salva de palmas, as 350 pessoas que lotaram a sala do 1º Tribunla do Júri, em São Paulo, saudaram a sentença que livrou da prisão os três músicos do conjunto Casa das Máquinas que assassinaram a socos e pontapés, em setembro de 1977, um cinegrafista da TV Record, Lucínio Faria, 35 anos, pai de cinco filhos. No embalo da festa no tribunal, um grupo de moças invadiu o palco do julgamento para abraçar e beijar os três acusados: Nivaldo Alves Horas, o “Simbas”, Carlos Roberto Piazzoli, o “Pisca”, e Sidney Giraldi. “Em todo julgamento existem torcidas contra e a favor dos réus”, resignou-se  o promotor Paulo Édson Marques, 33 anos. “Neste, como os acusados são músicos conhecidos e jovens, conseguiram lotar o tribunal com a torcida a favor deles.”

A defesa dos réus contava, além da torcida, com três experientes advogados. Comandados por Antônio Carlos de Carvalho Pinto, eles rechaçaram os ataques do jovem promotor Marques, durante a maratona do julgamento, que começou na segunda-feira passada e estendeu-se por precisamente 84 horas e meia, até a madrugada de sexta. Nesse embate, a defesa explorou uma fraqueza decisiva da acusação: a falta de provas. Graças a essa lacuna, ninguém pagará pelo crime ocorrido no final da tarde de 18 de setembro de 1977, um sábado, e presenciado por numerosas testemunhas.

AMEAÇA DE DEMISSÃO – Naquela tarde, defronte ao prédio da TV Record, o motorista João Luís da Silva Filho retirava da garagem um ônibus para gravações externas, auxiliado pelo câmera Lucínio, que fazia sinais para orientar a movimentação do veículo. Na manobra, o ônibus esbarrou levemente num Opala, de onde saltaram os três músicos, reforçados por um irmão de Simbas, Nelson Leandro Horas, então com 17 anos. O grupo começou a agredir João Luís e Lucínio, e o câmera foi o que mais sofreu. Depois de ser espancado no pátio, o franzino Lucínio foi arrastado para um banheiro da emissora, onde continuou o massacre. Ao encerrar-se a surra, ainda recebeu a última ameaça do chefe da segurança da Record, Wadi Gragnani Dini: seria demitido se contasse à polícia sobre a briga na emissora.

Em casa, à noite, Lucínio exibiu os ferimentos ao filho Wilson, então com 12 anos, revelou o que ocorrera e explicou que não podia procurar nem a polícia e nem hospital. Mas no dia seguinte a saúde piorou e ele precisou procurar o hospital Bartira, em Santo André, onde morreu logo depois, com rompimento do fígado e duas costelas fraturadas. As testemunhas de seu martírio, porém, não se apresentaram ao julgamento da semana passada para relatar o que sabiam. O próprio Wilson negou que o pai tivesse contado que a agressão fora praticada pelos músicos. Além de explorar essa falha, a defesa dos réus jogou toda a responsabilidade pelos golpes mortais no irmão de Simbas, Nélson, que era menor na época. Graças a isso, a defesa conseguiu absolver Pisca e Sidney. Simbas, por homicídio culposo, foi condenado a um ano de prisão, mas beneficiado com sursis por ser primário. Os três continuaram em liberdade.



Adiado de novo julgamento do grupo Casa das Máquinas
Folha de SP 25-abr-1985, Primeiro Caderno

O juiz José Roberto Barbosa de Almeida, 45, presidente do 1º Tribunal do júri de São Paulo, adiou para o dia 18 de junho o julgamento dos integrantes do conjunto musical Casa das Máquinas. Os três – Nivaldo Alves Horas, Carlos Alberto Piazzoli e Sidnei Giraldi – são acusados de matar, a socos e pontapés, o cinegrafista Lucínio de Faria, da TV Record, no dia 18 de setembro de 1977, em frente aos estúdios da emissora, na avenida Rubem Berta.

Esse julgamento já foi transferido 42 vezes em sua segunda versão, depois que a primeira – realizada entre 28 de fevereiro e 4 de março de 1983 – absolveu dois dos acusados (só Nivaldo recebeu pena de um ano de prisão, com direito ao sursis) e acabou sendo anulado pelo Tribunal de Justiça por sua sentença “contrariar as provas constantes nos autos”. Já os motivos que geraram esse 43ª mudança na data são controvertidos. Embora o juiz argumentasse inicialmente ter suspendido a sessão por falta de infra-estrutura para o julgamento, é certo que o pedido de adiamento partiu do promotor do 1º Tribunal, doutor Paulo Edson Marques. Ele teria se recusado a participar do julgamento, por causa das denúncias de irregularidades na composição dos Conselhos de Sentença, os jurados que dão veredito nos júris.

Depois de apresentar sua versão oficial – “Não foi providenciada alimentação para os jurados – Almeida acabou admitindo as denúncias, garantindo “que elas serão apuradas”. O defensor dos réus – criminalista Antônio Carlos Carvalho Pinto – no entanto, se enfureceu com  a mudança da data e o tom das denúncias. “O adiamento é uma medida de cautela. Não vou comandar um julgamento de dias para depois o Tribunal dizer que houve irregularidades.”

Irregularidades que nem chegam a ser precisadas. O procedimento para a escolha dos jurados é o mesmo há décadas. Primeiramente, são indicados 2.500 nomes de cidadãos que, segundo o juiz, têm seus antecedentes checados por oficiais de justiça. Desses, 21 são sorteados para serem jurados do Tribunal por certo tempo. Na abertura do julgamento, o próprio magistrado retira sete nomes de uma urna de madeira. “Não acredito que nesse sistema possa atuar uma máfia que favoreça determinados resultados”, afirma Almeida. Mesmo assim, admite, cauteloso: “A corrupção pode existir na escolha dos nomes, como em qualquer outra atividade humana”. Abandonando rapidamente o Tribunal, o promotor Marques não confirmou nem desmentiu ter solicitado a suspensão do julgamento por causa dessas denúncias.

Indiretamente, no entanto, o juiz presidente confirma que os pedidos de adiamento e de investigação das denúncias partiram mesmo do promotor: “Toda vez que a acusação ou a defesa acenarem com irregularidades, eu suspenderei o Júri para apurá-las, pois é esse meu dever.” Como a segunda criticou o adiamento, apenas Marques pode tê-lo solicitado. O juiz evita comentar essa hipótese, numa aceitação tácita de sua veracidade. E, logo a seguir, deixa escapar: “Vou pedir ainda hojre ao promotor que me ofereça novos dados sobre as denúncias”. Depois, garante que instaurará um inquérito administrativo no 1º Tribunal do Júri e que suas “conclusões serão levadas ao conhecimento da Corregedoria Geral da Justiça”.

Colisão foi a causa - Na tarde de 17 de setembro de 1977, um sábado, um ônibus de tomada de externas da TV Record se chocava, diante do portão da emissora na avenida Moreira Guimarães, com um Opala dirigido por Nivaldo Alves Horas, o “Simba”, 25 anos na época, membro do conjunto “Casa das Máquinas”. Da troca de insultos, os protagonistas do episódio passaram aos socos e pontapés. De um lado, o motorista do ônibus, João Luís da Silva Filho, e o cinegrafista Lucínio de Faria, 32, cinco filhos; do outro Nivaldo, seu irmão Nélson Leandro Horas (17), Carlos Roberto Piazzoli, o “Pisca”, e Sidnei Giraldi.

Em desvantagem, João Luís e Lucínio foram surrados e pisoteados. O motorista apresentava hematomas no ventre e na perna; Lucínio, que já tivera problemas hepáticos, morreria cerca de 22 horas depois, no Hospital Bartira (Santo André), vítima de ruptura do fígado e lesões pulmonares, devido a costelas quebradas. A ocorrência foi registrada no 15º DP em Indianópolis


10 de outubro de 2012

Rock Brasileiro: 3 – A Imprensa e Publicações da Geração 80


Quando eu comecei a me interessar por rock com 11 anos (1981), o que havia de publicação especializada era praticamente a Som Três, que era uma revista sobre equipamentos de áudio e vídeo e que tinha, na parte final da revista, uma seção dedicada a música. Nela escreviam Paulo Ricardo, Ezequiel Neves, Maurício Kubrusly, Júlio Barroso (que escrevia para outras e acho que para ST também), Ana Maria Bahiana e outros conhecidos. Mas o que havia nessa seção era pouco, os principais lançamentos, e algumas poucas matérias. Sempre havia uma pauta com artista brasileiro. Era um período de pouco rock e mais MPB. Sem preconceito falava de tudo. Não era para ser uma revista de opinião.

Ao contrário da Pipoca Moderna que circulou nessa mesma época, mas que infelizmente teve vida curta. Não lembro exatamente, mas durou poucos meses e deixou ótimas matérias. Alguns nomes que escreviam para a Som Três também escreviam para a Pipoca. Esta sim tinha opinião em suas reportagens e nas resenhas de discos e filmes. Era cultura pop mais focada em música. Muitas bandas tiveram suas primeiras matérias feitas pela Pipoca Moderna: Blitz, Eduardo Dusek e João Penca, a cena punk carioca, a Turma da Colina em Brasília, Paralamas (apenas uma nota com foto).

A Pipoca Moderna pegou o início da cena 1980 e conseguiu registrar essas e outras boas matérias. A postura, apesar da formação de opinião, era de jornalista mesmo, um olhar de fora e a intenção era dar uma força para a nova cena que surgia. Aqui mesmo no Sete Doses de Cachaça você acha matérias onde o jornalista  vai ao show, descreve o ambiante, o clima das pessoas e diz até se a cerveja estava gelada ou não. Nas resenhas de discos até apareciam críticas negativas, mas não tinham a intenção de atingir o artista por algo pessoal. Muitas vezes era até um texto, digamos, inocente.

Mas logo que Pipoca Moderna saiu de circulação, apareceu a Roll. Grande revista que dominou o mercado de 1983 até o surgimento da Bizz em 1985. Era a principal e melhor publicação sobre música. Nessa época ainda havia a Som Três, mas como falei, era mais voltada para equipamento (deve ter durado até 1987/88). E não foi pouca coisa não. Só pra se ter ideia, foi a Roll que cobriu o Rock in Rio desde o anúncio oficial até o fim do festival. Fez matérias, entrevistas com os artistas, a chegada deles, toda a montagem, e o que mais podia! E todos eles tiravam fotos com a revista na mão. Muito legal.

A Roll também pegou o filé mignon da cena 1980 o surgimento e a consolidação de toda ela. Era uma revista feita no Rio de Janeiro, mas tinha muita matéria de São Paulo e outros lugares do Brasil. Foi ela que fez as primeiras entrevistas com Legião Urbana, Barão Vermelho, Titãs, Ultraje, Paralamas, Ira! (antes da exclamação). Cobriu a saída de Cazuza do Barão, a morte de Cláudio Killer (João Penca), de Júlio Barroso (Gang 90). A Roll não cobria só o que as gravadoras majors estavam apostando, mas também o underground do eixo Rio-São Paulo e de outros lugares como Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Belo Horizonte e Brasília. Ela mostrou o Camisa de Vênus, Coquetel Molotov, De Falla, Beijo AA Força, TNT, Mercenárias, Voluntários da Pátria, Último Número, Picassos Falsos, Finis Africae...

Tinha também uma opinião forte e, como a Pipoca Moderna, uma postura amigável, mesmo que algumas vezes surgisse alguma opinião negativa. É bom deixar aqui registrado que nesses primeiros anos de publicação segmentada havia uma torcida para que a cena rock, que estava surgindo junto, desse certo. A turma da MPB já não era novidade, as bandas que haviam, e que misturavam o rock na MPB (e não ao contrário), era o que pegava mais nesse período 1981-1983, mas como surgia uma nova geração de jovens, com ela novas bandas e a esperança de que elas pudessem chegar nas rádios para mudar as coisas, por isso, o jornalismo e a opinião de Pipoca Moderna e Roll era de apoio, de querer mostrar para as gravadoras “escuta isso aqui que é legal”. Até porque essa cena era conteúdo para publicar e se desse certo teria mais conteúdo ainda. Não era uma revista com boa qualidade técnica de impressão e papel, ao contrário de sua maior rival.

Quando a Bizz apareceu na metade de 1985, já chegou chutando a santa. Era feita em São Paulo e formada por um time de jovens jornalistas que também eram músicos, tinham suas bandas e compunham suas músicas. Isso, de certa forma, não foi bom. Esses jornalistas/músicos tocavam no mesmo circuito que tocavam as bandas que apareciam nas revistas. Às vezes faziam shows juntas, se encontravam nas casas noturnas, em festas, mas na medida em que o tempo passava, algumas bandas conseguiam assinar com grandes gravadoras, outras não. Acabou que bandas que eram do underground passaram a ser do mainstream: Ira!, Titãs, Legião, Plebe, Ultraje, Capital, Blitz, Lobão, RPM. Na época da Roll esses e outros artistas eram underground, estavam começando. Quando a Bizz surgiu, alguns desses artistas estavam em seus primeiros discos, salvo algumas poucas exceções. Claro que alguns desses jornalistas/músicos se incomodaram de ver seus amigos se darem bem, gravar, tocar nas rádios, ficarem famosos, shows por todo Brasil, hotel, mulheres, contrato, dinheiro.

Tudo ficou diferente, porque antes era só escrever sobre os pequenos shows do underground e, de repente, virou resenha de disco lançado por multinacional, entrevista, reportagens mais profundas. Aí começou aquele negócio de falar que escreveu mal sobre o disco ou o show, só por inveja da nova condição do amigo. Havia discussões através da seção de cartas, artista que falava que não dava mais entrevista para fulano ou sicrano.

Quando o rock se estabeleceu de vez nos 80, aí virou um festival de jornalistas desprezarem o rock brasileiro, falarem mal dos discos e dos shows. Até hoje há os jornalistas que ignoram o rock brasileiro.

De 1985 até seu fim em 2001 a Bizz teve uma postura bem diferente de suas antecessoras. A Roll foi até 1988, mas já no final de 1986 ela não tinha mais a mesma força. Até porque a Bizz era forte, de uma editora forte, já chegou com bom papel, qualidade técnica igual e de outras grandes publicações brasileiras de respeito, uma equipe pronta que recebia discos e respeito das gravadoras. Por ela já chegar forte, também já chegou arrogante. Não que isso fizesse dela uma revista ruim, mas nela haviam jornalistas ruins, desses que tem mau caráter mesmo. Durante todo o resto dos 80 e durante todo os 90 a Bizz foi a principal referência como publicação musical, mas chegava a irritar até mesmo seus leitores. Havia todo um time de jornalistas/músicos frustrados fazendo parte dela e isso era o lado negro da revista.

Aqui no Brasil, a imprensa especializada e as publicações também fazem parte de uma história esburacada, como a do próprio rock. Hoje há publicações especializadas, mas elas nunca mais irão ter a mesma força de antes. Infelizmente, publicações especializadas aparecem e desaparecem sem deixar rastro.

2 de outubro de 2012

A História Esburacada Do Rock Brasileiro


Outro dia, conversando com amigos sobre Planet Hemp e Raimundos, perguntei pra mim mesmo: qual o legado que a geração 90 deixou para a geração seguinte? Voltemos décadas...

A jovem guarda não foi influencia para a geração 70 e pouco (bem pouco) influenciou a geração 80 (a urgência era outra). A própria JG era 100% influenciada pelo rock inglês e americano. Pela dificuldade de se chegar discos importados, muitas das bandas faziam versões nacionais de grandes sucessos estrangeiros. Dos anos 60 só mesmo a Tropicália foi influencia certa tanto para a década de 70, quanto à de 90.

A geração 80 se debruçou na new wave e no punk rock. Mesmo nomes que vieram dos 70 como Lobão, Lulu Santos, o pessoal do Herva Doce, Rádio Taxi entre outros, todos eles acabaram por incorporar a música pop de curta duração e refrão chiclete. Só depois, mais tarde, em seus 3º, 4º discos é que as bandas dos 80 foram colocar elementos nacionais em sua música. Mas mesmo assim esses elementos não tinham ligação alguma com qualquer geração anterior do rock brasileiro. 

Veio à geração 90 e, com ela, a mistura do rock e ritmos brasileiros acabou por se tornar um norte. Isso já nos primeiros trabalhos do Skank, Raimundos, Chico Science e Nação Zumbi, mundo livre s/a, O Rappa, Planet Hemp e Pato Fú. Todos eles citavam artistas brasileiros, de Os Mutantes e Roberto Carlos a Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Mas além dessa assumida influência da música brasileira, essa turma também citava as bandas dos 80: Legião, Titãs, Barão Vermelho, Ira!, Cazuza e Lobão. CSNZ até gravou Fellini! Ainda não consegui entender o motivo, mas a influência da jovem guarda sempre foi muito mais forte no Sul. (já vi Lulu santos e Frejat falar de jovem guarda)

Passada a geração 90, não veio mais nada. Artistas surgiram, mas não mais como uma cena que cresceu e estourou como nos 80 e 90. A partir de 2000 acabou essa coisa de cena, de surgir várias bandas boas de uma só vez, e conseguir um espaço considerável na mídia. O que aconteceu foi um CPM22 aqui, uma Pitty ali e um Los Hermanos acolá.

Hoje não existe uma nova cena que possa falar de suas influências e acredito que não terá mais esse tipo de coisa. Pelo que vejo, hoje está mais para “cada um por si”. Há sim uma cena nova, mas é da MPB e, de todo mundo que se fala, destaco apenas Tulipa Ruiz, que é fera mesmo! Outros nomes, mesmo que bem falados no meio, ainda não mostraram nada que tenha personalidade. Vejo em alguns veículos algumas tentativas de se lançar um ou outro nome novo, mas se não tem força, personalidade e carisma, não há marketing que resolva.

Da geração 90 as únicas bandas que vejo pessoas mais novas citarem são Raimundos, Chico Science e, de vez em quando, Planet Hemp

Só quero mesmo é filosofar sem conclusões, jogar palavras no ar para provocar o raciocínio. O que acontece com o rock brasileiro é que aqui não há uma continuidade. Digo das gravadoras investirem sempre em artistas novos de qualidade, de não existir publicações especializadas de longa vida (como há lá fora a Rolling Stone, NME, Billboard e outras). Ficou buracos na história por essa falta de investimento. É culpa de alguém? Acho que não. É ruim e é por isso que você bate o olho nas paradas das rádios e não vê nenhum novo nome. E pensar que já tivemos rock brasileiro até em abertura de novela em horário nobre. 

Mas também tem o seguinte: está difícil de achar alguma coisa com ao menos 10% de qualidade e assim fica beeeem difícil. Até já citei um ou outro nome que acho legal, mas acaba que não acontece nada.

Agora é só aguardar a chegada de uma nova não geração.







23 de setembro de 2012

Série Coisa Fina: 15 - Boys & Girls (Alabama Shakes)

Como já afirmei aqui no blog, não sou daquelas pessoas desesperadas que buscam novidades a cada segundo. Em junho fui apresentado ao Alabama Shakes por Anne Minvielle da Groupie Cultural, que falou bem da banda e disse que eu poderia gostar. Em uma madrugada cheguei em casa, liguei o computador e baixei o disco Boys & Girls, o primeiro da banda, lançado em abril.


Ao mesmo tempo em que baixava, abri o You Tube e assisti ao vídeo de “Hold On”. Chapei! Meu Deus, o que era aquilo? O que era aquela garota cantando muito e mandando ver uma guitarra base nervosa em uma SG? O que eram aqueles caras tocando com ela?

Coloquei o disco pra ouvir e chapei mais ainda. Rock, soul e blues. Na hora me veio pub rock na cabeça. Puro pub rock feito nos EUA e em 2012! A simplicidade, a sonoridade crua, limpa, vi ali o tesão deles (principalmente da ultra mega power talentosa Brittany Howard, que em outubro completará 25 anos) em fazer o que se estão fazendo.

Não há nada de diferente no som do Alabama e por ser simples assim, e direto, é que faz ele ser diferente de tudo que escutei nesses últimos anos.

O Alabama Shakes tem personalidade exatamente por fazer um som simples e sincero, ainda mais hoje quando todo mundo quer fazer caras e bocas, bandas com 9 pessoas, 2 vocais, 3 guitarras, DJ; ou artistas que gravam um disco com 4 produtores diferentes, figurino, maquiagem, postura ensaiada, o culto a celebridade. São caipiras vindos de uma cidade pequena, sem o desespero de tocar para milhões de pessoas. Brittany cita Elvis e Bon Scott... só coisa fina...

Até no visual a banda é simples. Ninguém tem cabelo ou penteado diferentes, ou usa roupa descolada, nada disso. Nesse aspecto não chamam atenção alguma, pelo contrário, nem parece que fazem o som fazem, e nem que são músicos. São caipiras típicos. Athens é uma cidade que tem média de 22 mil habitantes (mais ou menos a população de Palmital – SP), com pouco mais de 7 mil famílias, ou seja, uma cidade minúscula. A própria banda diz que nem há lugares para se tocar por lá.

O impacto que Boys & Girls causou em mim, foi o mesmo ao escutar Let Love Rule, de Lenny Kravitz, em 1989, lançado em um momento em que o cenário rock estava em baixa, enquanto grupos de música eletrônica invadiam as pistas. Em um momento meio confuso surgiu algo simples e sincero. Da mesma forma acontece agora com Alabama Shakes.

Alguns amigos escutaram e não acharam nada de mais, e pode não ser mesmo, mas eu vi sim algo a mais no grupo. Acho difícil ele não fazer outros bons trabalhos, mas se não fizer, não tem problema. Boys & Girls já é um grande disco!













13 de setembro de 2012

Série Coisa Fina: 14 – Shooting Rubberbands At The Stars (Edie Brickell & New Bohemians)




Em dois períodos de minha vida fiquei muito sozinho. Isso aconteceu entre 1989 e 1992. No início de 1989 perdi meu pai e minha vida mudou bastante, tive que me preocupar comigo mesmo. Tinha minhas amigas, mas não estava bem para ter um relacionamento. Sabendo disso fiquei só. Viajava sozinho, saia sozinho, ia ao cinema sozinho, passava final de semana sozinho. Entre 1990 e 1991, tive um namoro de uns 10 meses com uma paixão de infância, intenso.

Depois desse namoro (que não estava nos planos e nem nos sonhos) passei por um novo processo de solidão e, mais uma vez, optei por ficar só, na minha, 100% introspectivo. Esses quase quatro anos ficaram marcados também pela trilha sonora, pelo que eu escutava. Quando o namoro acabou, resolvi fazer uma faculdade e entrei em um cursinho. Fiz um ano de história na PUC, no prédio velho, curso noturno, pouca gente, salas antigas. Além de estudar história também li alguns livros de Sócrates e Platão. Foi uma fase de solidão, mas muito bem aproveitada. Usava isso a meu favor e realmente era bom demais fazer as coisas sem precisar dar satisfação a ninguém. Valorizava esses momentos. É você e você.

Nesse período trabalhava com fotografia e publicidade, então ficava sabendo de festas e eventos ligadas ao trabalho e que nada tinham com meus amigos. Eu ia sozinho mesmo conhecendo uma ou duas pessoas e mais ninguém. Eram as melhores noites, porque eu não fazia a menor ideia de como iria acabar. No carro, no ônibus ou a pé, eu sempre estava ouvindo música.

Em 1989, com a vida tumultuada, minha irmã  mais velha voltou de uma viagem que fez para Londres com alguns bons discos, e recém lançados. Entre eles estavam Doolittle do Pixies, The Stone Roses do próprio e Shooting Rubberbands At The Stars de Edie Brickell & New Bohemians. Além deles eu também escutava muito Desintegration do The Cure,  Mother’s Milk e Blood Sugar... do Red Hot Chili Peppers, e toda a discografia do Black Sabbath com Ozzy.

Um melhor que o outro. Era tudo vinil, então eu tinha as fitas cassetes com eles gravados e escutava no walkman e no carro.

Deles todos, o disco mais calmo e romântico, sem guitarras distorcidas e porrada nos instrumentos, era o Shooting Rubberbands at the Stars, de Edie Brickell and New Bohemians.

Considero um disco genial. Daqueles que são únicos. Gosto de tudo nele e, é difícil dar apenas um ou outro destaque. É a química entre as belas linhas de baixo, os violões, guitarra, bateria, percussão e voz. Tudo muito iluminado. Não há virtuosismo, pelo contrário, cada integrante soube tirar o necessário de seu instrumento. Há unidade sonora, boa direção e produção. Os timbres são ótimos. O disco até foi lançado aqui no Brasil, mas só “What I Am” fez um relativo sucesso. Nos EUA vendeu dois milhões e cópias (duplo platina). Os integrantes são feios, se vestem mal, não têm cara de descolados, mas fazem uma sonzêra de respeito.

Edie Brickell tem personalidade, era (e é) bonita e tem uma voz doce e suave. A raiz do som é folk, mas o pop e o rock estão ali presentes, às vezes mais, às vezes menos. De referência dá pra citar Willie Nelson, Neil Young, Talking Heads e Blondie.

Shooting Rubberbands At The Stars é um disco belo, sutil e de letras filosóficas, sobre relacionamentos, erros e acertos.

O resgatei nesses últimos tempos... por que será?