11 de março de 2011

Série O Resgate da Memória: 18 - Debate Bizz Rock Brasileiro (3 de 6)

Revista Bizz - fevereiro/1988
Debate Rock Brasileiro - Parte 3
Que barulho é esse?


Lemos - Parece que não há nenhuma instituição confiável. Por que é que não existe nem uma parada de discos confiável?
Jean-Yves - O Ira! teve um hit, "Flores em Você" que abriu uma novela (O Outro) durante meses e meses. Vocês receberam o retorno do disco?
Nasi - Quem recebe o retomo é o Edgard, é o autor da música. O que a gente recebe é insignificante...
Paulo Ricardo - Mas a Globo não te paga todo dia uma carinha?
Nasi - Não, a gente recebe o referente ao que foi vendido do disco da Som Livre, com a trilha... (começam várias discussões paralelas sobre direitos autorais).
Herbert - Eu vejo que nem todo mundo é bem informado. Vamos segurar a barra dessa discussão para não descambar em problema genérico...
Renato - Vamos falar mais de música...
Paulo Ricardo - Vamos fazer um som, porra! (balbúrdia, Alguém comenta que há bateria na sala ao lado. Depois de alguns minutos o debate reinicia).
Nasi - Eu quero dizer o seguinte: a juventude tem muito poucos canais de contato o artista. E o grande canal ainda é o que na minha opinião é um programa extremamente fascista. É um programa que os jovens que vêem, mesmo bodeando do programa, só pra ver certos artistas, no final acabam embaçando tudo na cabeça. O Chacrinha não vaí te dar espaço para você falar, quando muito é um beijinho nele ou coisa assim. E você saiu, acabou de tocar uma música, aparece uma placa: "Sarney, valeu, mais cinco anos", ou "Brizola, quero que você se f*"...
Jean-Yves - Eu vi os Titãs no Chacrinha sábado, e o Chacrinha no final da música começou a cantar exatamente o contrário da letra, um desrespeito.
Nasi - Eu não falo só em Chacrinha porque eu não acho esse o único ponto. Tem o lance das rádios livres... Acho que as rádios estão muito caretas e, queira ou não, a gente toca nessas rádios...
Herbert - Acho que é necessário compreender essa coisa das rádios, de que tanto se fala hoje. É que com o acesso à tecnologia, o cara que escutava AM lá na puta-que-o-pariu, agora tem um rádio FM. Então não é que tenha mudado. É que simplesmente entrou para a faixa de ouvinte de FM um público que não ouvia quando a rádio Cidade começou no Rio de Janeiro, e tinha um formato superlegal, ou quando a Fluminense chegou a estar em segundo lugar de audiência...
Nasi - A 97, aqui em São Paulo, também chegou a ,ficar em segundo.
Herbert - Pois é. Mas é uma coisa recente - esse público teve acesso a esse material, e é um público que participa mais da rádio do que a garotada classe média que era o Nosso público, que fez das bandas que estão aqui os manda-chuva da música brasileira... Hoje em dia não é assim, porque aquele cara que ouve o José Augusto se emociona com aquela música do sábado, ele liga pra rádio, ele chora... Então não é que tenha se transformado, simplesmente diluiu. A gente tem que entender que nosso público não desapareceu. Pô, outro. dia a gente tocou no Ibirapuera (parque em São Paulo), e tinha treze mil pessoaS lá. Aí o Tutinha (diretor da rádio Joven Pan) estava lá, e falou: "Pô, eu me sinto super culpado, essas pessoas não ouvem a minha rádio, eu estou desprezando esse público..."


Renato - No nosso caso eu sinto falta, por mais qUe tenha público, de uma outra coisa totalmente diferente de ter um canal para conversar com a garotada. Pô, de que adianta a gente falar das coisas em que acredita, Titãs falarem, Ira! falar, se não tem resposta? Parece que é uma coisa de verniz, de consumo brabo mesmo..O público não está agilizando, nem um pouco. Eles ficam cantando, cantando, cantando mas depois vão lá, sabe, bater em preto... A gente está cantando certas coisas, entra por um ouvido e saí pelo outro. Teve aquele incidente de São João Del Rey, com os músicos do Lobão, e de repente você fica se perguntando: "Pô, esse é que é o nosso público?". E de repente é um descrédito, uma falta de esperança.
Paulo Ricardo - Pô, a gente não pode anular, em dois anos de hit parade, vinte anos de...
Renato - Não (gritando), mas pera aí, poxa, o pessoal tá ouvindo as coisas que você fala, ou eles acreditam ou não! Eu acho que talvez seja esse o problema do rock no Brasil: estão ouvindo rock como quem ouve pop! Porque a garotada que foi ver o Cure lá no Maracanãzinho foi, acabou, não ficou nada.
Paulo Ricardo - Eu acho que você está cobrando muito do público, esse pessoal é muito novo.
Gutje - Não, cara, o pessoal que tem 13 anos hoje em dia não é a mesma cabeça do pessoal que tinha 13 anos há dez anos atrás... O pessoal já vai para a cama.
Paulo Ricardo - Mas, pô, você tem que demonstrar, não adianta ficar falando faça isso, faça aquilo. Aí já política.
Nasi - Eu acho que existe a comunicação não só através das palavras, mas da tua atitude; teu comprometimento. Eu acho que essa onda de música romântica de que vocês falaram é um puta papo furado, não existe momento menos romântico no pais, no Terceiro Mundo, do que agora. Nesse momento é que o rock, que a música jovem tem uma importância maior, e tem de servir como porta voz de uma geração que está completamente... não digo desenganada, porque eu acho que o jovem sempre tem uma esperança, mas que está completamente confusa quanto à sua expressão.
Alex - Eu acho que aí há um ponto de contato entre as duas discussões que aparentemente rolaram separadas, a do problema de mercado, de tratamento de gravadora e mídia, e essa segunda, que é a do acesso da juventude a uma música própria. No período pelo qual gente passou, as bandas que estouraram foram simplesmente vampirizadas pela mídia e pela indústria, deixando o Russo, por exemplo, um dia, em cima de um palco, se perguntando: "O que eu estou fazendo aqui?" Eu acho que a reversão dessa situação, encontrar esses canais, esta muito menos na mensagem da sua música, mas nas formas de aprocimação com o publico. E aí eu acho que a gente tem, forçosamente, que tocar nessas questões numéricas e burocráticas, de quem vende, de quem faz, como é que você chega nos caras. Em princípio eu tinha achado importante quando o RPM, usando todo o cacife adquirido dentro do mercado, aplicou essas fichas em um selo independente.

Um comentário:

Anônimo disse...

A Legião Urbana sempre foi uma bosta, os caras eram muito pregos e não sabiam tocar. E o Renato Russo foi o maior idiota que já passou pelo planeta terra. Obrigado! #PAZ