16 de dezembro de 2013

Menos 12 Meses

Mais um ano se vai e continua tudo igual. Vou ser chato. Houve alguma evolução? Nenhuma! O que foi feito para melhorar a vida? Nada.

Onde estão as vítimas do Palace 2? O que aconteceu com os responsáveis pela morte do garoto de 14 anos no jogo do Corinthians? Como estão as vítimas da região serrana do Rio que foi gravemente afetada pelas chuvas no início do ano? O que foi feito? Quem ajuda as pessoas que só esse ano já perderam duas vezes, por conta de alagamentos, geladeiras, camas, colchões, roupas, sofás. Enquanto se paga uma prestação de uma coisa que não se tem mais, de repente, paga-se duas prestações de algo que não tem mais. O governo ajuda?

Prender os mensaleiros é pouco. O dinheiro do mensalão é fichinha perto do que realmente se rouba na administração pública. Deputado preso ganhando 20 mil por mês?!? ME PRENDAM!!!!!

Longe de querer ser pessimista. Apenas realista. Pé no chão. Mesmo com a lei seca, quantas mortes aconteceram no trânsito por conta da mistura de álcool e volante? Mês atrás vi na TV dois casos parecidos de garotas que estavam dormindo no carro ligado, na madrugada, no meio da avenida!!! Apagadas de tão bêbadas!

Ninguém está nem aí com nada. Danem-se os avisos, as regras, as leis, as normas, o bom comportamento, a educação, as leis naturais. Danem-se! Não é isso?

Vamos festejar no réveillon o nada que fizemos em 2013. E que 2014 seja mais um ano de absolutamente nada! Estamos acomodados, deixa assim. Estamos acostumados, deixa assim.

Finalmente a população foi pra rua reclamar. Mas de que forma reclamou? Fazendo palhaçada. O que adianta quebrar bens públicos? É coisa de quem tem cabeça de minhoca. Que adianta invadir Assembleia Legislativa e tirar foto pelado lá dentro? Isso é manifestação do quê? Nenhum idiota desses me representa. Quantas das pessoas que saíram na rua leram ao menos dois livros neste ano, ou ao menos estão por dentro do que acontece na política?

Continua tudo igual! Cadê a reforma política? A reforma tributária? A reforma trabalhista? A reavaliação dos gastos públicos?

2014 é ano de eleição. Você ao menos sabe os cargos que estarão em votação nessa eleição? Pois é! É disso que falo. Serão eleições absolutamente importantes para o futuro do país. As eleições serão para Presidente, Governador, Senador, Deputado Estadual e Federal. Ou seja, podemos dar uma rapa geral, e sem dó, em Brasília. Tirar de lá todas essas pessoas que estão lá nessas últimas décadas. É só votar em gente de confiança e não reeleger ninguém! Sem exceções. Renovação geral e de preferência com pessoas que estarão exercendo o cargo político pela primeira vez. Será melhor ainda! Chega dos velhos coronéis. Essa é a verdadeira manifestação. Essa é a grande mudança!!!

Mas também é bom lembrar que as pessoas continuam brigando no trânsito, continuam de mau humor à toa (mesmo tendo saúde pra dar e vender), continuam egoístas e cada vez mais ligadas a um mundo virtual destruidor. E o que fazem pra mudar isso tudo?

A verdadeira mudança é a mudança de comportamento. Você tem coragem de encarar esse tipo de mudança?

Tempos atrás conversando com familiares em um momento delicado, alguém falou que o difícil da morte é ter que responder pelo que se fez em vida (é a hora de pagar a conta). E eu digo que o pior é também ter que responder pelo que não se fez...

Nunca vi muito sentido em réveillon, desde pequeno. É uma coisa relativa. Mas se é pra comemorar, então prefiro brindar por conseguir sobreviver a mais um ano, ainda mais aqui no Brasil.

Parabéns por ter conseguido chegar até aqui. Boas férias de fim de ano.

2013 já pode ser desligado.


PS: Essa pode ser a última postagem de 2013 ou não.


4 de dezembro de 2013

Série Coisa Fina: 20 - Wilko Johnson

Wilko Johnson é um dos pais do punk. O rock moderno muito deve a ele. Um de meus grandes ídolos. E que aqui faço minha homenagem com muito prazer.

Você que gosta de punk rock e do rock que surgiu influenciado por ele, as bandas dos 80, dos 90 e até bandas mais atuais como Strokes e Hives, então você gosta de Wilko Johnson mesmo sem conhecê-lo.

Wilko é fodão e mora longe. Para os ingleses é uma entidade (para os fãs também). É um guitarrista de mão cheia, bom gosto, técnica única e dono de composições que arrepiam até o último fio de cabelo. Ele é desses casos de artistas que são super influentes, mas pouco citado na grande mídia. Wilko Johnson está morrendo. Wilko Johnson já deveria ter morrido.

Johnson tem câncer terminal no pâncreas, diagnosticado em dezembro de 2012. Se recusou a fazer quimioterapia, armou uma turnê de despedida e caiu na estrada. Os shows chegavam a ter entre 2h30 e 3h de duração e era clássico atrás clássico. Ele não quis fazer quimio, não por ser um rebelde sem causa, mas porque o tratamento pouco faria pela sua doença além de esticar em alguns meses sua estada aqui na terra. Os médicos tinham lhe dado 10 meses de vida, e já está no extra bonus. Não é à toa, pois Wilko já afirmou que 2013 foi um dos melhores anos de sua vida e que tem se divertido demais, além do que poderia imaginar.

Ele foi o gênio por trás do Dr. Feelgood (claro que sem tirar os méritos de Lee Brilleaux). As principais composições são dele e o estilo da banda é por conta de seu jeito único de tocar. Wilko não usa palheta. Ele toca com todos os dedos da mão direita ao mesmo tempo, fazendo movimento incessantes de cima pra baixo, sempre batendo em todas as seis cordas. Com a mão esquerda faz o acorde firme ou segura o acorde para abafá-lo e ainda faz pequenas frases, mas sempre com os dedos. Além de fazer os acordes com os quatro dedos da mão esquerda, também usa o polegar para segurar a corda Mi. É incrível, simples e diferente. Além disso, o timbre que ele usa também é perfeito para seu jeito de tocar. É o rock blues mais potente dos anos 1970.

John Peter Wilkinson é inglês e nasceu em 12 de julho de 1942. Comprou sua primeira guitarra nos anos 1960 e no final dessa década já tocava na banda que viria a ser o Dr. Feelgood. Gravou com a banda nos quatro primeiros discos: Down By The Jetty, Malpractice, Stupidity (ao vivo) e Sneakin' Suspicion. Somando as músicas gravadas nos três discos de estúdio, são 33 ao total. Dessas, 20 tem a assinatura de Wilko, incluindo todos os grandes clássicos da banda.

Em 1977 após gravar Sneakin' foi expulso por causa de discussões em torno do repertório desse disco. Formou nova banda, a Solid Senders, e lançou um disco com esse nome em 1978. Nesse mesmo ano se juntou a Ian Dury & The Blockheads, o que foi maravilhoso!!! Ficou com Ian até 1980 e depois foi seguir carreira solo.

O jeitão de Wilko ao vivo inspirou, e muito, as bandas punks inglesas. Não parava no palco indo pra frente e pra trás freneticamente, além de fazer muitas caretas e arregalar os olhos... Johnny Rotten do Sex Pistols roubou todos os trejeitos possíveis de Wilko, principalmente a cara de louco que fazia.

Paul Weller, J.J. Burnell, Joe Strummer e tantos outros grandes nomes do rock sempre trataram Wilko como um grande ídolo, uma referência. Seu disco mais recente é o Red Hot Rocking Blues, um apanhado de clássicos do blues e rock. Tem Fats Domino, Chuck Berry, Bob Dylan... grande trabalho. Seus discos solos são bons e tem discos que são até melhores que alguns do Dr. Feelgood lançados nos 80.

Assim como Oscar Schmidt aqui no Brasil que anunciou seu câncer e passou a ir a diversos programas, ganhar homenagens, dar entrevistas, Wilko Johnson tem feito a mesma coisa. Recebeu algumas homenagens e prêmios, um deles entregue por Jimmy Page.

Sua turnê acabou e atualmente ele prepara um disco de despedida junto com Roger Daltrey. Sim! Um discaço que desde já torço para sair antes de Wilko partir. 





21 de novembro de 2013

Revista Roll

A Roll teve a sorte de surgir em um momento especial. E quando ela apareceu já não havia mais a Pipoca Moderna (antes Mistura Moderna por uns dois números). Nessa época só tinha a Somtrês, mas que era mais voltada para equipamento de som e vídeo, e que tinha ao final da revista algumas matérias de música e o Jornal do Disco com todos os lançamentos do mês: da música clássica ao rock.

Dedicada e especializada em rock / pop não tinha nada além da Roll. Surgia sim uma revista ou outra, mas que duravam dois ou três números. A Roll, posso estar enganado, foi até 1989, mas o importante da história da Roll se concentra entre 1983 e 1985. Depois a Bizz tomou o espaço. Não havia como brigar com uma revista do Grupo Abril.

No início a qualidade gráfica da Roll era ruim, assim como os textos, mas em relação ao texto era como se escrevia naquela época, ruins mesmo eram os erros de português. Mas era uma revista feita na raça, e ficava no Rio de Janeiro. Nesse tempo o RJ fervia, o Circo Voador fervia, a Fluminense estava ali ao lado, assim como todas as gravadoras.

Apesar disso a revista sempre se preocupou em falar de outros lugares além do eixo RJ-SP, que era o grosso do conteúdo. A Roll abraçou a cena de Brasília desde o primeiro número, e também a cena de SP. Era tudo novo: Titãs, Ira, Paralamas, Legião, Barão, Kid Abelha, João Penca, Camisa, Kid Abelha, Léo Jaime, Blitz, Lobão e o Ronaldos, Mercenárias, Ultraje, entre outras. Estavam todos no underground, apesar de algumas dessas bandas já terem lançado discos. Ainda faziam shows pequenos, com pouca estrutura, cachês baixos, sem equipamento de som próprio. Ralação.

A Roll deu sorte porque pegou tudo isso. Todos esses artistas nascendo e crescendo. Falava com todos, escrevia sobre todos, era uma publicação opinativa e sendo a única durante mais de um ano, era uma relação de morde e assopra. A revista ajudou todo mundo. Era importante aparecer em suas páginas, nem que fosse notinha, exatamente por ser a única e tinha alcance nacional. A Roll era a Rolling Stone, a Billboard, a MTV daquela época. Se você quisesse aparecer além de seu bairro, era preciso aparecer ali. E ela foi certeira, mostrou as coisas boas, e não poupou as ruins de críticas severas.

A medida do possível havia boas matérias sobre artistas internacionais. Uma reportagem do Police aqui, um David Bowie ali, AC/DC, Clash.

Como era a única especializada em rock, a revista sofria para poder agradar a todos. Inclusive chegou um momento que a mesma editora criou a revista Metal, para poder separar os assuntos e se dedicar melhor a cada um deles. Os headbangers não tinham nada até o surgimento da Metal. O fato de ser única gerava uma expectativa para quem comprava, porque você queria saber se tinha reportagens e novidades de suas bandas preferidas.

O negócio era muito sério para quem gostava de música. Você que está ai lendo e não viveu os anos 1980, precisa entender que tudo o que nós jovens amantes da música tínhamos de música era a Roll. Por exemplo, eu que gostava de bandas estranhas pra época como Madness e Specials vi, no máximo, duas fotos do Madness em anos de publicação. E essas fotos eram as únicas imagens que eu tinha da banda e pronto! Não era a toa que o comum era recortar as fotos da revista e fazer colagens com várias dessas fotos. Se você gostava de AC/DC iria ver uma única reportagem da banda durante um ano inteiro porque era pouco espaço pra muito artista. Saíam notas com as novidades internacionais, mas essas novidades, quando chegavam a nós através da Roll, já tinham ao menos um mês. Mesmo que atrasadas demais, essas novidades eram muito degustadas.

Foi a Roll que fez a grande cobertura da 1ª edição do Rock in Rio, em janeiro de 1985. Entrevistou todos os artistas, teve acesso aos bastidores, mostrou o passo a passo do festival desde o primeiro boato até o fim. Comentava os artistas contratados, especulava nomes, ia atrás de furos.

Estava junto com a geração do rock brasileiro dos 80 mesmo antes dela lançar os primeiros discos, cobriu a morte de Cláudio Killer, de Júlio Barroso, a saída de Cazuza do Barão Vermelho, e a de Leoni do Kid Abelha. Na Roll também esta muito bem documentada a relação do RPM com a revista. No começo eram flores, críticas elogiosas falavam de uma super banda que tocava no Madame Satã e outras casas underground de SP. Todo mundo babava na banda, mas após o grande sucesso, que tomou conta inclusive as AMs, as críticas passaram a ser negativas, a banda vista como brega.

Noticiou também as prisões de Lobão, de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto, o fim da Blitz, fez as primeiras entrevistas da carreira de toda essa gente, falava dos shows que aconteciam nas casas noturnas de SP e RJ. Até John do Pato Fu está nas páginas da Roll ainda da época em que era guitarrista do Sexo Explícito.

A Roll é o único documento desse período do rock brasileiro. Havia os jornais, revistas semanais como Veja, mas o espaço era irrisório. Também tinham programas de TV como o Som Pop, Fábrica do Som; os programas de rádio, mas esses programas se restringiam a RJ e SP. Para mim, por exemplo, que morava em Brasília era uma benção ter a Roll nas bancas, assim como para todos de fora do eixo.

A parte internacional também era bem explorada, e na revista tinham reportagens sobre os dinossauros do rock progressivo, os nomes da atualidade, e espaço para novos nomes. Falava de Van Halen, B-52’s, U2, Yes, Smiths, Genesis, Clash, Police, Talking Heads, Cure, AC/DC, Iron Maiden, Madonna. Era tudo ao mesmo tempo agora. Mas nessa parte, claro, quase não havia entrevista, eram reportagens com as novidades que se conseguiam na época, com a história, curiosidades.

Assim como a geração 1990 agradece a MTV, apesar dos outros veículos; a geração 1980 agradece a Roll. Nos dois casos, um precisou do outro, e a sorte da Roll foi ter essa matéria prima rica, que era uma nova cena de rock no Brasil. Isso abasteceu bastante suas páginas e todo mundo saiu ganhando. Por isso que eu disse no início do texto: era uma revista de baixa qualidade, mas isso pouco importava. Hoje é artigo raro e super difícil de encontrar nos sebos. Aos poucos publicarei mais boas reportagens e curiosidades, como já venho fazendo.

15 de novembro de 2013

Série O Resgate da Memória: 33 - Capital Inicial na Revista Roll (1983)

Eis aqui a primeira grande reportagem com Capital Inicial. Ela foi publicada no número 1 da revista Roll, em outubro de 1983. Nessa época as bandas da Turma da Colina começaram a invadir o eixo RJ-SP, e a chamar a atenção do resto do país. A Roll era a principal referência musical do período entre 1983 e 1985 (como escrevi no R64), e não era fácil aparecer em suas páginas, pois era a Rolling Stone, a Billboard, a MTV daquela época, apesar de não ter a qualidade dos nomes que citei (logo postarei um texto sobre a Roll). Raridade absoluta.
PS: Como sempre faço, transcrevi o texto com todos os erros originais.





Qual o lugar mais misterioso do Brasil atualmente? Brasília é claro. Não se sabe ao certo o que está acontecendo naquela cidade. Tudo são rumores, boatos e disse me disse. Declarações e desmentidos oficiais. As pessoas somem de repente e reaparecem em Nova Iorque ou Paris, mas logo vozes e porta vozes oficiais surgem dizendo que não foi bem assim que tudo não passou de uma ilusão de ótica. Mas em meio a todos esses mistérios uma coisa é certa: em Brasília está rolando bom rock and roll.

Se na área política os altos escalões de Brasília tem mostrado uma indecisão galopante na hora de explicar o que está havendo, pelo menos na área do rock que vem sendo feito lá, as pessoas parecem saber exatamente o que querem. Talvez seja porque a maior parte dos grupos que estão atuando lá no momento tem, ou já teve uma relação bem íntima com o movimento punk. Aprendeu a dizer o que pensa sem metáforas ou eufemismos. Mas apesar de objetividade quase jornalística nas letras o público brasileiro quase não tem acesso a elas, ou melhor, não tem acesso nenhum. São metáforas, insinuações e dechavações. Clareza e objetividade nunca.

A maior parte dos brasileiros ficou conhecendo os punks que existem no país através do programa Fantástico da TV Globo. Mas os punks até hoje abominam aquela reportagem que foi ao ar num domingo a meses atrás, via satélite para milhões de brasileiros. Em meio a salada fantástica que o programa costuma apresentar, misturando números circenses com acrobacias de motociclistas malucos e feitos milagrosos de curandeiros paranormais, os punks acabaram por serem mostrados também como uma aberração social. “Um horror” teriam dito as mamães e papais sentados na frente da televisão. “Uma palhaçada” teriam dito seus filhos. Daí por diante todos passaram a saber como é um punk, mas muitos poucos sabem mais além do que o tipo de cabelos e roupas que eles usam. As lojas e butiques abriram as portas para a moda punk mas as rádios e canais de televisão continuaram fechadas para a música que eles tocam.

O que muita gente ignora no entanto, é que por volta de 1978 quando a maioria dos brasileiros sequer tinha ouvido a palavra punk, já existiam vários deles aqui no Brasil, mais precisamente em Brasília. Uma cidade que não se parece em nada com Londres ou Nova Iorque e onde os jovens não precisam temer uma guerra nuclear, pois segundo as várias seitas místicas estabelecidas por lá, a região será a única, que escapará do holocausto final. 


Os primeiros punks foram surgindo por lá como uma reação a disco music que então dominava o país. Eram os dancin days e todos seguiam os passos de John Travolta ao som dos Bee Gees. Segundo Dinho, o vocalista do grupo Capital inicial, um dos existentes em Brasília, naquela época eles estavam mais sintonizados com o que estava acontecendo em Londres, do que com o que era veiculado pelo eixo Rio – São Paulo. Influenciados por Sex Pistols, The Clash, The Damned, começaram a fazer suas primeiras apresentações em qualquer lugar onde houvesse tomada para ligar as guitarras: bares, lanchonetes ou o campus da Universidade de Brasília.

Hoje, todo mundo sabe o que é punk, Gilberto Gil inclusive, que naquela época cantava Realce, diz agora que é punk da periferia. Enquanto isso, Dinho e seus companheiros de Capital inicial não estão mais interessados em dizer “sou punk”. De lá pra cá, eles, que foram um dos precursores do movimento no Brasil, amadureceram e abandonaram os radicalismos seja na maneira de se vestir ou de fazer música. Loro, o guitarrista do grupo é bem claro quanto a isso: “Os jornalistas têm mania de perguntar se nós somos punks. Isso não interessa. O que interessa é a música que fazemos hoje”.

6 de novembro de 2013

O Diário da Turma 1976-1986 – 2ª Edição



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Foi uma delícia fazer O Diário da Turma. Eu precisava de algo que me ajudasse no combate a minha síndrome do pânico e foi assim que a ideia do livro surgiu.

Só que era algo que eu não pensava em publicar. Não a princípio. Queria mesmo era uma terapia ocupacional pra fazer fora do trabalho (na época eu estava na MTV). Assim, nas minhas horas vagas, além de nadar (adoro piscinas), eu comecei a fazer o livro. Isso foi em 1997, quando fiz a pré-produção da minha viagem de férias para o Rio e Brasília. No início de 98 coloquei em prática o projeto. Quando acabei tudo, 3 anos depois, vi que tinha um livro publicável em mãos. Daí sim fui atrás da editora, sem desespero. O livro estava 100% pronto. Tinha até já feito a árvore genealógica das bandas em diversas cartolinas coladas que ficava na parede de casa e também o desenho do Plano Piloto com os locais abordados no livro. Também já sabia como queria a diagramação, as referências e as imagens em mãos. Estava tudo já “mastigado” pra quem quisesse publicar.

O tempo que fiquei em Brasília por conta do livro, ficava pra lá e pra cá de ônibus ou bicicleta. Como eram minhas férias, fiz tudo tranquilo e calmo. Tudo ao meu tempo. Colocava mochila nas costas com gravador e câmera fotográfica e ia encontrar com os amigos.

Ia à casa de alguém e já aproveitava a piscina, marcava algo no fim de semana e já rolava um churrasco, muitas conversas aconteceram em bares e depois já virava balada. Foi tudo muito bom.

Fiz tudo do meu jeito, como eu queria que fosse. Transcrevi pouco mais de 100 horas de conversas. Ou seja, fiquei meses em um trabalho de paciência. Já havia feito muitas transcrições na vida, mas dessa vez foi um grande aprendizado, até por se tratar de um livro. A adaptação da língua falada para a escrita é delicada, pois pode se perder o sentido de uma frase ou parágrafo inteiro por conta de um terno mal colocado. Juntar as falas e transformá-las em uma grande conversa sem alterar o texto foi outro desafio.

Durante a montagem do texto, na divisão de assuntos, naturalmente foram surgindo os capítulos. Tinha os que eu sabia e queria que tivessem, e outros foram aparecendo. Nas conversas que tive eu não levava pauta. A conversa simplesmente fluía, claro que manipulada por mim, mas eu sabia o que podia tirar de cada pessoa com quem conversei. Pra se ter uma ideia, acredite, eu nem tinha pensado em fazer um capítulo para Renato Russo e nem para Fejão, mas rolou. Meu foco eram as aventuras, o coletivo, a Turma.

Outro desafio foi colocar meu texto sem interferir na história. Em primeiro lugar não quis colocar depoimentos meus, que teriam uma curiosidade ou outra, mas não iriam alterar nada na história (nem mesmo no capítulo do Raimundos – no caso da 1ª edição). As introduções para os capítulos foram necessárias, mas escrevi apenas o essencial.

O livro é da Turma, não meu. Esse é o meu pensamento, então porque ficar colocando meu texto?!? Ego é para os fracos, o diário é da Turma!!!

Minha grande preocupação era deixar o livro atemporal, montar um documento musical, mas que também fosse o retrato fiel de um período ímpar de Brasília e dos jovens da cidade.

Não fiz o livro pensando no agora. Fiz o livro pensando nas pessoas que irão lê-lo daqui a 500 anos.

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Nessa nova edição lançada pelo selo Pedra na Mão, da editora Briquet de Lemos, há pouca alteração no texto. Tem novos depoimentos de Dinho, Fê e Flávio Lemos no capítulo do Aborto Elétrico. Além do texto de Dinho na contra capa, agora há texto de André Mueller (Plebe Rude). As legendas das fotos foram escritas por Philippe Seabra (Plebe Rude).

Há também duas reportagens de arquivo, as duas publicadas em 1983. Uma do Jornal do Brasil que fala sobre “a nova Turma de Brasília e suas bandas” e outra do Correio Braziliense que é a primeira entrevista de Renato Russo.


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28 de outubro de 2013

Em novembro...

Novembro começa com uma coincidência: foi o mês em que Carlos Imperial nasceu e morreu. Grande incentivador do rock no Brasil, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, terra de Roberto Carlos, Sérgio Sampaio, e tantos outros artistas que de lá saíram.

Imperial foi produtor, diretor, compositor, político e ator. Atuou no teatro, no cinema. Ainda no final da década de 1950 apresentou programas de TV Clube do Rock, Festa de Brotos e Os Brotos Comandam. Lançou Roberto Carlos, Eduardo Araújo e Renato e Seus Blue Caps. Entre seus sucessos como compositor estão “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, “Goiabão” e “A Praça”. Em 1984 Imperial foi o vereador mais votado do Rio de Janeiro. Apesar desse extenso currículo, não era de muitos amigos.

É um mês cheio de bons e maus momentos. O Raimundos teve momentos bastante diferentes em novembro. A banda lançou Lavô Tá Novo que é um clássico, lançou o Cesta Básica. Mas foi o mês que aconteceu o fatídico show de Santos, onde morreram 8 pessoas, triste, muito triste. Também foi o mês que Canisso anunciou sua saída, por falta de compromissos profissionais da banda.

O Titãs passou por maus bocados porque foi em novembro que Tony Bellotto e Arnaldo Antunes foram presos por porte de heroína. Sem precedentes na história do rock brasileiro os dois sofreram com a imprensa, até porque Titãs ainda não era a banda que é hoje, nem tinha lançado o Cabeça Dinossauro. Esse episódio inspirou a música “Polícia”. Vários artistas fizeram protestos e homenagens aos dois, principalmente Arnaldo que ficou mais tempo preso. Lobão e Cazuza cantavam “Mal Nenhum” dedicando a música a eles.

Anos mais tarde outro Titãs, Paulo Micklos, foi preso por porte de cocaína. Como a quantidade era irrisória, acabou não acontecendo nada.

Na mesma cidade onde Legião Urbana fez seu primeiro show da carreira, em Patos de Minas (MG), o Capital Inicial passou por uma tragédia que foi o acidente do Dinho, quando caiu do palco de costas e se quebrou inteiro de forma séria, correndo o risco de perder a vida. A recuperação foi lenta, sofrida (teve infecção hospitalar), mas Dinho conseguiu sair inteiro disso tudo.

Essa sorte não teve Marcelo Yuka, então baterista d’O Rappa, que foi surpreendido em um assalto, e levou tiros que tiraram os movimentos de suas pernas. Impossibilitado de voltar a tocar bateria, dois anos depois deixou banda.

Em plenos anos 1990 o Planet Hemp sofreu censura. Por um tempo sentimos todos a volta da ditadura. Depois de um show da banda em Brasília, todos os integrantes foram presos acusados de fazer apologia às drogas. Isso foi uma ação ridícula que mobilizou praticamente toda a comunidade artística, intelectual, jornalística e todos os jovens. A pressão diante da detenção foi grande, apesar disso a banda ficou 4 dias na prisão. Esse fato ajudou a esvaziar a agenda de shows da banda, que chegou a viajar com um advogado por precaução.

27 anos antes da prisão do Planet Hemp, em 1970, um delegado de Nova Friburgo (RJ) invadiu o sítio da Comunidade Quiabo´s, onde moravam 12 hippies e transitavam tantos outros, e prendeu todas as pessoas que lá estavam. O fato aconteceu durante as filmagens do filme Geração Bendita – É Isso aí Bicho, considerado o primeiro filme hippie brasileiro, dirigido por Carlos Bini. Nessa comunidade moravam os integrantes da banda Spectrum, que fez a trilha do filme e lançou seu único disco em 1971, que hoje uma cópia original chega a valer U$ 2.500,00.

Em 1984 a New Wave fez sua vítima. Durante um show em Caxias (RJ), o gel que estava no cabelo de Lulu Santos caiu no olho direito dele deixando-o inflamado. O show teve que ser interrompido para Lulu ir ao hospital. Ele foi obrigado a ficar de repouso durante alguns dias. Acredito que isso possa ter sido algo combinado entre ele e Michael Jackson que também teve problemas com seu gel de cabelo que acabou pegando fogo durante uma filmagem de um comercial de tv hahaha.

Novembro era pra ficar marcado também pela realização de três festivais brasileiros, mas só dois aconteceram. Em 1969 a ditadura militar proibiu a realização do famoso Ibirastock, festival que aconteceria no Parque do Ibirapuera, em SP, mas que em cima da hora proibiram a realização. Iriam tocar Os Mutantes, Tim Maia, Beat Boys, Beatnicks, entre outros. Porém no início dos anos 1970 aconteceu, em Nova Jerusalém (PE), a 1ª Feira Experimental de Música do Nordeste. Conhecido como o “Woodstock cabra da peste”, o festival foi coordenado pelo desenhista e músico Laílson de Holanda Cavalcanti. Foi nesse festival que a banda Tamarineira Village (ainda sem esse nome) estreou. Essa foi a primeira grande banda de rock psicodélico do Recife, que misturava ritmos locais, psicodelismo e rock progressivo.

Já no início dos 80 rolou o histórico festival O Começo do Fim do Mundo, no SESC Pompéia. Tocaram todas as bandas punks e hardcore da grande SP, as que já existiam e as que existiram apenas para o festival hahaha. 

Ele ficou registrado em uma coletânea também histórica e maravilhosa! Esse festival foi de grande importância para o punk rock brasileiro, não só o paulistano. Tenho amigos que ficaram presos no telhado do SESC, de onde assistiam aos shows, pois a escada de dava acesso até lá, foi retirada com a chegada da polícia.

Mesmo que seja em um pequeno parágrafo, é importante deixar registrado que o Replicantes lançou o primeiro home video de uma banda brasileira. Esse home video, em VHS, trazia imagens de shows, ensaios e viagens da banda.

Abri o texto falando de coincidência e fecharei da mesma forma. Três bandas cariocas fizeram suas estreias ao vivo em novembro: Barão Vermelho, Kid Abelha e Paralamas. Kid Abelha e Paralamas não só no mesmo mês, mas também no mesmo ano.

Nesse segmento rock/pop foram mais de 30 lançamentos neste mês. Destaco os seguintes:
Cássia Eller (1990), Som Nosso (Som Nosso de Cada Dia), Refestança (Gilberto Gil e Rita Lee), Atrás dos Olhos (Capital Inicial), Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (Titãs), Exagerado (Cazuza), Caia na Estrada e Perigas Ver (Novos Baianos), Patife Band (Baratos Afins, 1985), Herva Doce (2º), Nadando com os Tubarões (Charlie Brown Jr.), Bing Bang (Paralamas), O Dia em que a Terra Parou (Raul Seixas), Saqueando a Cidade (Joelho de Porco), O Descobrimento do Brasil (Legião Urbana),

São quase 20 aniversarios em novembro, entre eles:
Philippe Seabra (Plebe Rude), Serguei + Antônio Marcos + Edu K no mesmo dia, Maurício Defendi (ex-Ultraje à Rigor), Zé Rodrix, Júlio Barroso (Gang 90 & Absurdettes), João Ricardo (Secos e Molhados), Sônia Delfino e Carlos Imperial.

Mortes: O produtor iugoslavo Mitar Subotic (Suba), Carlos Imperial, Paulo César Padovan (baixo na banda de apoio de Supla de 1989 chamada Os Exibidos), Marcos Vinicius Rodrigues Souza, o Pena, baterista que tocou nas bandas Sangue da Cidade, Herva Doce e Hanoi Hanoi.




18 de outubro de 2013

Relaxa e Goza

Lembro que o que me deixou feliz no Rock in Rio 3 foi a presença de Neil Young. Porém fiquei embasbacado quando vi que, perguntado se iria tocar músicas novas, Neil disse que não tocaria por causa do Napster. Pô, fiquei decepcionado. Como se o fã de Neil Young àquela altura de sua carreira fosse deixar de comprar um trabalho novo por conta de uma ou duas músicas novas ao vivo vazadas na internet. A primeira coisa que fiz, já que trabalhava de editor de música em um site e tinha acesso à tecnologia e queimador de CD, foi abrir o Napster e fazer uma coletânea ao vivo de Neil Young. Dupla! Ficou ótima e a escuto até hoje.

Deixei Metallica de lado depois que Lars Ulrich se posicionou contra a troca de arquivos na rede. Idiota. Hoje se arrepende, mas agora é tarde demais. Aposto que se existisse Napster quando Ulrich estava começando com o Metallica, ele iria baixar um monte de discos.

O que me chama a atenção nesses casos é que não se trata de artistas em início de carreira, mas sim já consagrados, e com o pé na aposentadoria. Quero dizer que eles já deram sua contribuição, e que dificilmente irão lançar algum outro grande clássico, já ajudaram a mudar o rumo da música, influenciaram e influenciam gerações. Já estão com a vida feita.

É sabido que vender disco não dá dinheiro para o artista, a não ser que venda zilhões.

Até tento me colocar no lugar deles. Mas aí penso que hoje eles continuam tocando e gravando porque amam o que fazem e, mais do que qualquer outro tempo, se divertem. Neil Young teve a década de 70 pra se firmar e Metallica a de 80. Depois da conquista de seu espaço dá pra relaxar e se divertir mais na estrada e no estúdio. No começo rola aquela obrigação de fazer bons discos, e os dois ou três primeiros são fundamentais. Vender discos, ganhar confiança da gravadora, conseguir espaço na mídia, vender shows, conquistar fãs, dar boas entrevistas, participar de tudo quanto é programa de rádio e tv. Ralação absoluta!

Depois, conforme o crescimento da carreira conquista-se respeito, escolhas vão sendo feitas, liberdades são conquistadas. O artista já passa, por exemplo, a escolher melhor os programas que participará, terá um orçamento melhor para gravar disco novo, melhor divulgação. Terá um tratamento melhor nos lugares que for, ficará em hotel 5 estrelas, e até mesmo escolher onde e quando tocar.

Aí, depois que conquistou esse respeito todo – e merecido, vem à fase da bonança. Vende-se shows aos montes, novos contratantes surgem, o cachê aumenta cada vez mais, discos são vendidos também aos montes sendo bons ou ruins. Esse é o momento de ganhar grana, e desfrutar tudo o que não pode nos primeiros anos de ralação.

Dependendo de seu talento, aqui estou falando de dois exemplos Neil Young e Metallica, chega o momento de renovar o contrato com a gravadora e aí, ao invés de você chorar, é a gravadora que vai implorar pra você ficar com ela. Então você passa a ter mais dinheiro investido em marketing e porcentagem maior na vendagem. Ou seja, é a fase de colocar o máximo de grana no bolso, investir, comprar imóveis, aplicar, fazer render e garantir o futuro das próximas gerações da família.

Depois vem outra fase da carreira, que é a de se divertir sem obrigações. É quase como os avós com os netos. Já criaram os filhos, ralaram para dar uma vida digna a eles, e agora é só festa com os netos. É ter um novo neném sem ter que cuidar dele. Que maravilha! Com artista consagrado é assim. Afinal o que ainda querem Rolling Stones, Bob Dylan, Paul McCartney, Chuck Berry, U2? Apenas diversão. O que vai mudar para eles mais um disco baixado de graça ou mais uma biografia não autorizada lançada? A história já está escrita!

10 de outubro de 2013

O Fim da História

A vida de um artista fica muito mais interessante quando há em sua história ao menos uma biografia não autorizada. Veja só os grandes artistas internacionais. Quantas bios não autorizadas têm Beatles, Rolling Stones, Michael Jackson, Madonna, David Bowie e zilhões de outros músicos, atores, políticos, pintores... Assim a história deles irá se perpetuar. Com erros e acertos, mas sempre com mais acertos, a história do biografado ficará documentada pra sempre. Gerações irão se passar, um milhão de anos irão se passar e a história estará aí registrada. Não haverá mais qualquer herdeiro, a obra já estará sob domínio público, mas o tetraneto do tetraneto do tetraneto do tetraneto de qualquer pessoa no mundo terá acesso a essas biografias que serão verdadeiros documentos. Ricos documentos.

O que pensam as grandes personalidades brasileiras que não querem sua biografia escrita? Pensam que as gerações futuras irão ficar acessando os arquivos digitais de jornais e revistas? Haverá Wikipédia? Google? Onde essas personalidades pensam que as pessoas irão procurar por sua história? Haverá blog do fã clube daqui a 200 mil anos?

É muita burrice.

E no fim das contas o que fica? Pensemos em alguns nomes: Paul McCatney, Mick Jagger, Iggy Pop, Aerosmith. Todos eles têm suas biografias não autorizadas, várias até. E o que aconteceu com eles? Mudou alguma coisa? Isso só ajuda, traz o biografado para a mídia pra desmentir ou afirmar as histórias escritas. Briga daqui, briga de lá, advogados rangem os dentes (ou nada disso), e no fim é tudo história. Algumas coisas até viram lendas e enriquecem mais ainda a biografia da pessoa, os fãs comentam, a imprensa quer saber. Verdade ou mentira? 

Político e grandes empresários da comunicação que deveriam temer biografias não autorizadas. Aí sim teria sujeira da pesada, suficiente para manchar o nome da família por mil gerações. Agora por que músicos? Fico me perguntando se é pela história mais recente deles, que eram perseguidos nos 60 e 70, mas que hoje são amiguinhos dos antigos inimigos e se aproveitam, e mamam nas tetas do poder com leis de incentivo e com patrocínio de empresas públicas. Quantos desses artistas escreveram em seus projetos que seus shows seriam com preços populares (leia-se 5 / 10 reais), mas que no fim cobravam 60, 100 ou mais, alegando que era culpa da casa de shows ou algo assim.

Será que é por isso que não querem que suas histórias sejam contadas? Tem muito mais por trás. Os bastidores da música são podres. Afinal, é sabido que pela frente todo mundo é amiguinho. Ligou a câmera e todo mundo fica sorrindo na simpatia.

Um biógrafo sério vai a fundo, chega nas pessoas mais inesperadas e isso assusta a quem tem o que esconder. Esses grandes nomes da MPB que surgiram nos anos 60, contra cultura, coisa e tal, tem muito o que esconder. Não sou eu quem está dizendo!!!! É a atitude deles em relação a biografias é quem diz.

Ney Matogrosso tem uma biografia linda!

No fim das contas o que se percebeu é que toda a reclamação girou em torno do dinheiro. Como se esses artistas consagrados precisassem de mais dinheiro. Mas a verdade é que ninguém que escreve livros no Brasil ganha dinheiro. Pode haver um ou outro caso, mas não é nada comum. Lançar um livro traz mais prestígio que dinheiro.

Fiz O Diário da Turma com meu dinheiro, o projeto levou 4 anos, montei um quebra cabeça com mais de 100 horas de conversa, gastei com passagens, xerox, pesquisa em arquivo, fotografia, ônibus, refeições, ligações, impressora, papel, computador... dinheiro que não acabava mais!!!

Se muito o livro se pagou. Fazendo as contas por alto, se eu quisesse ao menos comprar um apartamento de 150 mil reais eu teria que vender acredito que algo em torno de 500 ou 600 mil livros hahaha. Ri Djavan! Dá risada, cara!

Não à toa desisti de fazer mais pesquisas das efemérides do rock brasileiro que criei. Porque no fim, nem os artistas e nem os meios de comunicação se interessam. Então porque raios eu vou atrás de algo que seria até para ajudar a todos eles? Mas, ok. Valeu a brincadeira. Ótima experiência. Aprendi muito, e na unha, sobre pesquisa. Há muita história por trás dessas efemérides. Há livros. Poderia pegar toda essa enorme pesquisa que fiz e criar ao menos dois livros. Mas vou fazê-los por quê? Vou enaltecer a quem cospe no meu trabalho?

O mercado de biografias de artistas musicais brasileiros até aumentou, mas há tanta coisa ruim que é como se não existisse. Há livros que foram lançados, mas que não tiveram publicidade, pouca gente sabe da existência de certas biografias. Muitas são tão ruins que até dá vontade de chorar. Já escrevi essas biografias escritas que há em alguns DVDs musicais, que você clica no menu e vem o texto. Em dois casos elas foram ultra editadas pelos artistas. Textos cheios de curiosidades e histórias bacanas se tornaram textos banais, comuns, superficiais. Paciência.


Bem, no fim, o azar não é nosso. Tenho uma filha de 12 anos que não conhece Caetano, Chico ou Gil. Pelo jeito nunca irá conhecer. Talvez, no máximo, escutar suas músicas.

4 de outubro de 2013

Em outubro...

Outubro é o mês que o rock brasileiro faz aniversário. A data exata é 24 de outubro de 1955. Foi quando a cantora de boleros Nora Ney entrou em estúdio para gravar “Rock Around the Clock”, aqui batizada de “Ronda das Horas”. A música foi gravada por conta da chegada do filme de mesmo título aqui no Brasil. “Rondas das Horas” foi lançada em novembro de 55 em um compacto simples junto com a música “Ciuminho Grande”. Nessa época não havia rock no Brasil, portanto não havia ninguém em especial que pudesse ser chamado para gravar essa versão. A escolha de Nora Ney deveu-se apenas pelo fato dela cantar muito bem em inglês e com pronúncia perfeita, já que tinha uma carreira internacional de respeito. Uma semana após seu lançamento, o compacto chegou ao primeiro lugar na parada da Revista do Rádio. 

A partir dessa gravação a história do rock brasileiro passou a ser escrita. Ainda sem ídolos do rock, em 1956 Caubi Peixoto foi o escolhido para gravar o primeiro rock cantado em português, chamado “Rock'n'Roll em Copacabana”, mas essa é outra história. Coincidências da vida, Nora Ney morreu aos 81 anos em 28 de outubro de 2003 (48 anos e quatro dias após a histórica gravação). O fato dela ter gravado o primeiro rock no Brasil foi ignorado em todos os textos e reportagens feitas em consequência de seu falecimento.

A geração dos anos 1980 perdeu o seu grande nome. Renato Russo morreu no dia 11, e no dia 19 foi anunciado, por Marcelo Bonfá e Dado Villa Lobos, o fim da Legião Urbana – não poderia ser diferente. Lembro que pouca gente sabia de seu estado de saúde. Algumas poucas informações me chegavam não por Brasília, mas no trabalho, na própria MTV. Apesar de saber sobre eu estado de saúde delicado, sei lá por quê, eu tinha esperança de que ele melhorasse para poder viver bem, assim como vive bem até hoje Magic Johnson. O consolo é que a Legião Urbana já tinha deixado uma grande obra atemporal.

Foi em outubro que aconteceu a grande final do 3º Festival da Música Popular Brasileira, na TV Record, grande data que ficou marcada por vários acontecimentos. Sérgio Ricardo, que defendia a música “Beto Bom de Bola”, arrebentou seu violão inteiro no palco. Caetano com “Alegria, Alegria” e Gil com “Domingo no Parque” receberam vaias, mas Gil ficou em 2º lugar e Caetano em 4º. A música vencedora foi “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinan. Caetano e Gil foram acompanhados pelas bandas de rock Beat Boys (Caê) e Os Mutantes (Gil). Nessa época era acalorada a discussão do uso da guitarra na música brasileira. Pura bobagem.

Por falar em Os Mutantes, o programa de Ronnie Von, chamado O Pequeno Mundo de Ronnie Von, estreou. Era um programa que concorria com o famoso Jovem Guarda, porém com uma pegada mais alternativa. Foi Ronnie Von que sugeriu a Rita, Arnaldo e Sérgio o nome Os Mutantes. Até então a banda se apresentava como Os Bruxos. Ronnie Von é um dos pioneiros do rock psicodélico no Brasil, mesmo sem nunca ter tomado drogas.

Pra continuar na jovem guarda, lembro que também foi no mês 10 que Roberto Carlos, no auge da beatlemania, chegou pela primeira vez, ao primeiro lugar da parada do ibope com “O Calhambeque” que desbancou nada mais nada menos que “Twist and Shout” do Beatles. “O Calhambeque” fazia parte de um compacto simples junto com a música “Um Leão Está Solto Nas Ruas”.

O Circo Voador, depois que saiu do Arpoador, reinaugurou nos Arcos da Lapa. O Circo foi fundamental para a geração rock dos anos 1980 e é impossível imaginar essa cena sem ele.

Foi no final do mês que alguns representantes do rock paulistano invadiram a redação do jornal Folha de São Paulo para desautorizar o jornalista Pepe Escobar a escrever sobre as bandas da capital paulista. Republiquei a matéria, que originou essa discussão e suas consequências, aqui no Sete Doses de Cachaça. Procure por Desventuras do Rock Paulistano que está em duas partes (na busca basta colocar a palavras 'desventuras').

Uma coisa que percebi de cara foi o número de bandas que surgiram em outubro. Cada uma em um ano diferente, a maioria no início dos anos 80: Ira (ainda sem exclamação), Ratos de Porão, Inocentes, Titãs, Cólera, Nenhum de Nós e Veludo. Das seis bandas, cinco são paulistanas; das cinco paulistanas, quatro tem influencia direta do punk rock, sendo que três delas participaram das duas primeiras coletâneas punk do Brasil: Grito Suburbano e SUB. Titãs também tinha influencias punks, mas não só punks. Das seis bandas surgidas, quatro ainda estão na ativa. Tudo bem, o Ira! não, mas seus ex-integrantes sim, e o Cólera estaria na ativa não fosse o falecimento de Redson. E lá se vão mais de trinta anos de carreira e algo em torno de 53 discos lançados somando as cinco bandas paulistanas (sem contar compactos, splits, coletâneas). Fico pensando se somássemos todos os shows, qual seria o número?

Percebi quatro fatos interessantes do Barão Vermelho, todos dentro dos anos 80. Em outubro Barão ensaiou, pela primeira vez, com a formação original completa: Guto, Maurício, Dé, Frejat e Cazuza. E foi também em outubro que o Barão apareceu, pela primeira vez, sem Cazuza. Isso foi no programa A Era do Halley, musical feito pela Globo, e o Barão tocou “Torre de Babel”. Lembro bem disso, e havia uma grande expectativa em ver a banda sem Cazuza. “Será que a banda vai ter força pra continuar?”... ficava essa pergunta no ar. Todos eles eram (e são) muito legais, então havia a força dos amigos e de quem gostava da banda. O Declare Guerra tem parcerias com Júlio Barroso, Arnaldo Antunes, Humberto F, Antônio Cícero, música de Renato Russo, enfim. Um no antes desse especial, a banda estava em SP fazendo show de lançamento do Maior Abandonado. No hotel tomaram flagrante da polícia e todos foram para a delegacia por porte de maconha. Curiosamente Cazuza se safou porque não estava no hotel. O Barão chegou ao fim dos 80 muito bem na fita, lançando o Barão Ao Vivo (1º ao vivo da banda), gravado no Dama Xoc, e novamente no auge por conta do sucesso do Carnaval (discaço!). “Pense e Dance” fez parte da novela Vale Tudo.

Bem, o Nenhum de Nós surgiu em Porto Alegre. Teve seu ponto alto em 1987 com “Camila, Camila” e seu ponto baixíssimo em 1989 com “Astronauta de Mármore”, que estragou “Starman” de David Bowie.

O Veludo foi uma banda carioca de rock progressivo que surgiu em 1974 e acabou 1978 e que começou como Veludo Elétrico. Lulu Santos chegou a tocar na banda, mas saiu pra formar o Vímana. O Veludo não lançou disco, no entanto, alguém tinha uma gravação da apresentação da banda do festival Banana Progressiva de 1975 e acabou fazendo 2 mil cópias em vinil dessa gravação que não tem uma super qualidade. Vale pelo registro.

Este mês várias bandas surgiram, porém foi em outubro de 1987 que o Camisa de Vênus anunciou seu fim. Nunca fui grande fã da banda, mas vi alguns shows. Gosto do 1º disco e de algumas outras músicas. Foi em 1987 que o Camisa lançou Duplo Sentido, o primeiro disco duplo de uma banda de rock brasileira. Depois desse fim, que separou de vez a formação clássica, a banda foi e voltou zilhões de vezes e isso acontece até hoje. Também foi em outubro de 1983 que o Camisa tocou no Circo Relâmpago, em Salvador, para lançar seu primeiro disco. Coincidência?


Alguns lançamentos: O Papa é Pop (Engenheiros do Hawaii), Frutificar (A Cor do Som), Plebe Rude (Plebe Rude), Magazine (Magazine), Pedra 90 (Gang 90), Voluntários da Pátria (Voluntários da Pátria), Sunnyside Up (Analfabitles), Supercarioca (Picassos Falsos), Adeus Carne (Inocentes), Descanse em Paz (Ratos de Porão), Cadê as Armas (Mercenárias), Samba Esquema Noise (mundo livre s/a), Benzina (Edgard Scandurra), As Quatro Estações (Legião Urbana), 18 Anos Sem Sucesso (Joelho de Porco)


Alguns nascimentos: Carlos Coelho (Biquíni Cavadão), Lobão, Kiko Zambianchi, Luciano Garcia (CPM22), Pedro Luís (Pedro Luís e a Parede), Baby Santiago, Loro Jones (Capital Inicial), Leospa (Ultraje a Rigor), Flávio Lemos (Capital Inicial), Carlos Maltz (ex-Engenheiros do Hawaii), Sérgio Magrão (14 Bis), Franklin Paulillo (ex-Tutti Frutti), PJ (Jota Quest), Nelson Motta, Selvagem Big Abreu (João Penca)

29 de setembro de 2013

MTV 90 Pra Sempre - No Olho do Furação (2)

Esse mês vou atrasar em uma semana o texto sobre as efemérides de outubro, pois não podia deixar passar essa data triste pra mim e tantos outros amigos...

Na 5ª feira, dia 26/09, aconteceu a festa de despedida da MTV Brasil Abril. Foi muito bom rever um monte de gente que só tenho tido contato através do Facebook. Foi uma festa da nostalgia, claro. Não poderia ser diferente. Quem fez a MTV de 1990 a 1999 fez história.

Agora sim a MTV Brasil se foi. A que virá não fará nada do que foi feito nos anos 1990, nem terá produção própria, tudo terceirizado. Não virá para causar, mudar ou movimentar o mercado da cultura pop. Espero estar errado. Mas de tudo que li na imprensa e ouvi de pessoas tudo indica um início estranho.

O contexto também é outro. Certo é que a Abril devolve a marca MTV para a Viacom com ela em baixa, principalmente entre os jovens, seu público alvo.

Na televisão é péssimo que você tenha um programa que comece na sequência de um programa de fracasso, sem ibope. Além de dar ibope, o programa tem que recuperar o ibope. É essa a situação da MTV Brasil Viacom. MTV é sinônimo de vanguardismo e de cultura pop. A nova direção vai devolver isso à marca?

Fenômeno igual ao da MTV nos anos 1990 só mesmo o Pânico! quando estreou na Rede TV!, também quebrando paradigmas, reinventando linguagem e mudando o comportamento. Hoje, o que o Pânico! fez se vê até mesmo na poderosa Globo.

Acabei recentemente de ler “Como a Geração Sexo-Drogas-E-Rock’n’Roll Salvou Hollywood” e, tomada às devidas proporções, há semelhanças com a MTV dos 90. Eram duas turmas que faziam o que faziam por tesão, que trabalhavam com o que gostavam. A turma da MTV, da mesma forma como era feito com os filmes, botava o coração em cada programa, matéria, vinheta ou festa feita.

Estávamos no centro dos acontecimentos. Em termos de linguagem jovem e cultura pop não havia nada mais importante que a MTV, tudo chegava a nós. Todos os shows, todas as cenas, todas as bandas e artistas solo, todos os lançamentos de todas as gravadoras majors e independentes, todas as novidades. A MTV formava opinião. Todo mundo que tinha algo a mostrar ou a dizer queria a MTV, dos menores aos maiores nomes. Em São Paulo só quem tinha força parecida era a 89 FM, mas mesmo assim não como a MTV.

Experimentávamos pra valer, caíamos de cabeça em cada produção. Cada viagem internacional, seja para cobrir o VMA ou para qualquer outra produção, muitas vezes era uma grande aventura. Era inusitado para o artista internacional dar entrevista para a MTV Brasil. Nesse último mês de MTV Abril pudemos ver muita coisa de arquivo graças aos programas My MTV apresentados pelos antigos VJs. Não era nada normal assistir a uma entrevista com o Rolling Stones, David Bowie, U2, Metallica e Frank Zappa. Antes da MTV chegar ao Brasil onde poderíamos assistir a entrevistas como estas? No programa Fantástico da Globo??? O jeito de falar, de apresentar, as gírias, o texto, a forma de editar, captar, em tudo se experimentava.

Isso mostra que tudo (tudo!), até coisas que hoje parecem simples como uma entrevista, era novidade para quem via e fazia. Não tínhamos as preocupações da TV aberta, do ibope, dos compromissos comerciais. Tínhamos autonomia absoluta nos nossos programas. Eu experimentava tudo que podia, tanto na captação, quanto na edição. O pessoal que trabalhava no dep. de Promo, onde eram feitas todas as vinhetas gráficas, as aberturas, todo o visual da MTV, também experimentava ao extremo, usando desde as ferramentas mais modernas até o Super 8.

Muitos programas nem eram vistos pela chefia. Você simplesmente fazia, entregava e ia ao ar. Era prazeroso ir trabalhar. Como já disse aqui no Sete Doses de Cachaça, nada melhor do que ter que fazer um programa especial sobre Ramones, Metallica ou Nirvana, escrever textos sobre seus artistas favoritos, fazer pauta para entrevistar nomes que você admira desde o início da adolescência, isso era bom demais. As notícias que vinham de fora duravam mais, a velocidade das novidades era outra, mais lenta.

As transmissões ao vivo que aconteceram antes da MTV começar a fazer os programas ao vivo, eram grandes aventuras. Flashs ao vivo no Monsters of Rock, shows internacionais, Free Jazz, Dia Mundial de Combate à aids. Era muito bom fazer tudo isso.

O Thunder fazia o CEP MTV (a cada dia uma aventura), Gastão fez o “Gastão Redescobre o Brasil”, com viagens intermináveis pelo país, com estrutura mínima; Massari cobriu grandes festivais internacionais e nacionais; a Casa da Praia em 1993/94 e o MTV no Verão gravado no Rio em 1994/95; o primeiro VMB bancado pela coragem de André Vaisman (que, como chefe, na verdade bancou um monte de ideias loucas); os Acústicos; o Suor MTV. Era tudo feito na raça, com baixo orçamento e muita vontade. Éramos uma família. Criávamos juntos, no início ideias eram compartilhadas e discutidas por todos, nomes de programas, a logística.

A partir de 1999/2000 a MTV tomou uma nova direção, mudou o editorial e aconteceu o que aconteceu. Infelizmente, tudo o que aconteceu na Avenida Professor Alfonso Bovero 52 de 1990 até ao menos 1997, e que é muito difícil tentar expressar em palavras, não vai acontecer novamente.

Agora, pra essa turma que fez a MTV dos primeiros anos, que ajudou a fortificar a marca, fica a ressaca da nostalgia. Mas no bom sentido. Todo aquele pessoal se espalhou por todos os cantos, em jornais, produtoras, emissoras, agências de conteúdo, mas pela saudade, pelas boas histórias, enfim, pelas boas lembranças que todos carregam, fica claro que nenhum outro ambiente de trabalho foi ou será tão bom como na MTV dos 90.

Muitos livros poderiam ser escritos sobre essa MTV pioneira. Muitas histórias boas, muitas experiências que deram certo e muitas que deram errado. Mas fato é que a MTV Brasil Abril conquistou o público e deu certo em sua primeira década por conta da ousadia, das experimentações, da coragem e do vanguardismo.

Tenho muito orgulho de fazer parte dessa história.

23 de setembro de 2013

Especial Discos Históricos 5: Secos & Molhados (1973)


Pode perceber que todas as pessoas que viveram os anos 70, a maioria tem uma história com o primeiro disco do Secos & Molhados. Eu mesmo ficava horrorizado com a capa. Adorava o disco, escutava as flautas, os violões e me imaginava no mato, num gramadão, numa fazenda kkkk. Escutávamos sempre. Porém não pegava na capa, olhava pra ela com receio, tentando entender porque um disco tão bonito tinha uma capa tão macabra kkkk

Foi um tsunami o que aconteceu com o Secos & Molhados entre 1973 e 1974. Literalmente abalou o Brasil, pelas composições, pelo visual e pelas apresentações. Aquilo sim era diferente. O estranho bonito.


Infelizmente a fama e o ego fizeram acabar rápido o que talvez poderia ter durado ao menos 3 discos. Poucos dias antes do lançamento oficial do 2º disco, praticamente um ano depois do primeiro, em agosto de 1974, Ney Matogrosso e Gerson Conrad anunciaram a saída da banda, cancelando o lançamento, apesar de algumas cópias terem ido para as lojas. Esse segundo trabalho só saiu em CD nos anos 1990, muito pelo trabalho de Charles Gavin. Apesar de tudo, qualquer outro trabalho da banda mesmo feito com os três, não iria superar o que é esse primeiro trabalho. Até hoje não conheci ninguém que não goste desse disco. Pra mim, é o disco mais atemporal da música brasileira.


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Secos e Molhados
Folha SP – 10-ago-1973; Ilustrada, pág 8



Secos e Molhados, o som pop de poemas famosos
Por LCA

Seis meses atrás, os quatro rapazes estreavam na Casa de extinta Casa de Badalação e Tédio, aquele café-concerto na Rua dos Ingleses que conseguiu alegrar algumas noites do verão paulista.

Não pode se dizer que a estréia tenha sido tímida: desde sua primeira apresentação, o Conjunto Secos e Molhados (Ney Matogrosso cantando, João Ricardo no violão de 12 cordas e na harmonica de boca, Gerson Conrad em outro violão, e Marcelo Frias na bateria e percussão) insistiu em fazer de si mesmo uma imagem condizente com a sua condição de músicos pop: maquiagem de cores berrantes e purpurinas brilhantes. Camisetas terminando antes da cintura, coreografia e iluminação reforçando os detalhes da encenação.

Mas o pop desse conjunto é um tanto quanto diferente. As letras das músicas, por exemplo, vêm de poemas assinados por poetas famosos: Cassiano Ricardo (“As Andorinhas”), Vinícius de Moraes (“Rosa de Hiroshima”), Manuel Bandeira (“Rondó do Capitão”). Ou então, foram escritas pelo próprio João Ricardo, a partir de notícias de jornais (“Assim Assado”). Duas delas (“Fala” e “Vira”) têm músicas de João Ricardo e letra de Luli, uma das cantoras da nova dupla Luli e Lucinha.

Agora surge na praça o primeiro LP dos Secos e Molhados. Na capa, os quatro rapazes posam sobre uma mesa cheia de comilanças. Dentro, nos créditos, alguns nomes conhecidos. Entre eles, o de Antônio Carlos Rodrigues (o fotógrafo da capa) e o de Zé Rodrix (do extinto conjunto Sá, Rodrix e Guarabira, que fez o acompanhamento no piano, ocarina e sintetizador).




Fadas e Bruxas
Por Geraldo Mayrink

Revista Veja, 12-dez-1973, páginas 106, 107 e 108
Secos e Molhados, com o grupo Secos & Molhados; Teatro 13 de maio; São Paulo.

Não se via nada parecido desde que John Lennon decretou o fim do sonho. Todas as noites, com uma assiduidade maníaca, pequenas multidões de seiscentas ou mais pessoas espremem-se sob o calor do Teatro 13 de Maio para ouvir os primeiros acordes de verão que começa, cantados e dançados pelos Secos & Molhados, um conjunto que seis meses atrás poderia provocar o mais atualizado espectador a pergunta: “Secos o quê?” Mas o próprio ambiente do teatro sugere que a massa de beautiful people não foi ali em vão. Recém saído do glorioso e coruscante trottoir dos “Dzi Croquettes” o lugar sugere logo alguma coisa de mágico e excitante, com seus trapos pensdurados no palco e sua iluminação – digamos – psicodélica. E o espetáculo curto (uma hora) e denso (de vez em quando algum músico precisa trocar a roupa encharcada de suor), tem um efeito fulminante sobre a platéia.

Para que esse efeito fosse inteiramente alcançado, porém, foi preciso que os sacis e as fadas pontilhassem o ano de 1973 de bons augúrios para os três rapazes do conjunto. Com uma rapidez que atordoou tanto o público quanto os protagonistas, os Secos & Molhados voaram do limbo do anonimato para as nuvens das paradas de sucessos. Cem mil cópias de seu LP de estréia foram vendidas desde setembro.

Duas das músicas do disco - “O Vira” e “Sangue Latino” - ganharam nas rádios a obrigatoriedade de hinos. Populações inteiras, abaixo do Rio Grande, vão ouvir a partir de janeiro a versão castelhana “Sangue Latino”. A maratona que empreenderam em várias cidades do interior paulista rendeu os juros de uma audição em Porto Alegre, na semana passada, num estádio para 15 000 pessoas, o Gigantinho. E – sonhos dos sonhos, para um grupo que vive sonhando acordado! - a varinha de condão vai provocar a aparição de um LP todinho gravado em Londres e um espetáculos nos Estados Unidos em 1974. Lindo demais para ser verdade? “Nós tínhamos certeza absoluta de que isso ia acontecer”, afirmam, em uníssono, as três vozes de ouro do momento do show business brasileiro.

Vira o quê? – Milagres assim insistentes, em todo o caso, só costumam acontecer no país da maravilha do rock – que não é o Brasil. O que levou o Secos & Molhados, portanto, a essa auto-confiança desafiadora? Eles oferecem músicas simples e ritmadas, fáceis senão de cantar pelo menos de acompanhar batendo com os pés. Embora nada no disco ou no show seja extremamente bom, nada também pode ser chamado de ruim. Exibem um encanto próprio de artistas imaturos, capazes de ocasionalmente esquentar esta temperatura morna, como na patética e comovente canção acrescentada ao poema “Rosa de Hiroshima”, de Vinícius de Morais: “Pensem nas crianças mudas telepáticas / Pensem nas meninas cegas inexatas / Pensem nas mulheres rotas alteradas”. Mais ainda do que nesta canção, o apuro técnico do grupo tranparece em “As Andorinhas”, de um poema de Cassiano Ricardo: “Nos fios tensos da pauta de metal / As andorinhas gritam / Por falta de uma clave do sol”.

Certamente não foi só por este cuidado na seleção das fontes literárias que toda noite é de casa cheia para o conjunto. “O Vira”, uma graciosa musiquinha que lembra uma dança típica da região do Minho, em Portugal, tem um gosto de canção infantil e ao mesmo tempo de transmutação dos sexos. Os presságios das frases “O gato preto cruzou a estrada / Passou por debaixo da escada”, que abrem a música, tem como inquietante e surpreendente resultado o “vira, vira, vira homem / Vira lobisomem”, alusão imprópria para menores. Tomando-a ao pé da letra, o “Vira” virou porta estandarte de algumas correntes do Gay Power nacional, assim como o Secos e Molhados começa a ser visto como um conjunto situado na terra de ninguém que vai do infantil ao pretensioso, do teatral ao rebolado, da seriedade à curtição pura. Tudo sob a proteção de um nome que nem sequer alude ao consumo maciço de ingressos e discos que o abençoou: “É um nome que não determina coisa alguma, mas que se abre para todos os gêneros”, explica João Ricardo, seu líder.

Sem medo da língua – Tantas interpretações para um grupo tão jovem trazem uma certa inquietação para os Secos e Molhados – que ream quatro, na época do lançamento do disco, e agora são três (Marcelo, a quarta cabeça decepada na capa do LP, agora limita-se a acompanhar os outros tocando bateria). Embora exista desde 1971, com outros componentes, o atual Secos & Molhados só nasceu no começo de 1973 e seu despreparo é flagrante no detalhe dos saltos que dois dos três dão no palco, causando a impressão de que acabarão caindo em cima do pianista ou talvez da platéia.

Esses dois, o líder João Ricardo, 24 anos, e Gerson Conrad, 21 anos, cantores, violonistas e compositores, são amigos de adolescência e vizinhos de casa, na Bela Vista, em São Paulo. João, filho do jornalista e crítico de teatro Apolinário, chegou ao Brasil com os pais e a irmã em 1964.

Mesmo tocando violão desde os 17 anos, sua formação é antes de tudo literária, e que ele transmite ao repertório do grupo. João descreve o futuro de seu grupo citando Nietzsche (“É preciso tomar cuidado com as pessoas que sonham acordado, porque elas chegam lá”) e com a mesma confiança que tinha na sua aceitação. “É preciso não ter medo da língua portuguesa”, diz ele. “O português não é mais um código secreto”.

Saltos certeiros – Gerson, seu antigo vizinho, e Ney Matogrosso, o cantor do conjunto, tiveram apenas que esperar o convite de João. Enquanto o primeiro seguia seu curso de arquitetura (está no terceiro ano, sem saber como encontrar tempo para continuar) e tomava aulas de violão clássico com um professor espanhol, Ney andava de cidade em cidade e de profissão em profissão antes de se tornar a figura central do conjunto.

Nascido há 32 anos em Bela Vista, no Mato Grosso, terceiro filho de uma família de cinco irmãos e pai militar, Ney de Souza Pereira trabalhou cinco anos num hospital em Brasília, cantou em corais, fez teatro infantil e vivia de artesanato de couro e barbante até o aparecimento do conjunto. Sobre sua figura esguia e provocante pesam as acusações de ser mulher (para quem o conhece só de discos) e usar pseudônimo. “Ambas falsas”, acrescenta ele. Embora não o tenha no registro, Matogrosso é o nome de seu avô, refugiado naquele Estado por motivos políticos durante o governo de Washington Luís, deu a todos os filhos. E sua “voz de mulher” é na verdade um raro registro de contratenor, sem nenhum falsete. No palco, porém, a atuação de Ney não permite dúvidas ou mal-entendidos: ele é o artista do grupo que salta sem dar a impressão que vai esbarrar no colega.

A fada má – Assim, a pessoa de Ney, que recentemente encerrou um período de sua vida pedindo demissão do funcionalismo público de Brasília (para desgosto dos colegas, que o alertaram para as incertezas da velhice), ameaça ser cada vez mais confundida com os Secos & Molhados como grupo. Paradoxalmente, este ex-artesão que não conseguia vender seus artigos (“Umas coisas meio marroquinas, quem é que ia usar aquilo além de mim?”) também não pensava em ser cantor, apesar de sua participação em corais. “Eu pretendo ser mais do que isso”, explica ele, “sou uma ideia viva” (João Ricardo, por sua vez, antes mesmo de conhecer Ney, queria um cantor que fosse também um outdoor). Dos três, a sua maquilagem é a mais elaborada e a mais agressiva. Sua arrogância no palco é provocativa e proposital: “É preciso que o público saiba de uma vez do que se trata”. Como o público sempre sabe, ou pensa saber, ele foi contemplado ao longo da peregrinação pelo interior paulista com os adjetivos de praxe. “Eu sempre respondo”, diz ele, divertido. “Mas qual é a dessa gente de insultar quem está no palco?”.

Por causa de sua atuação em cena, Ney ao vivo é uma surpresa que se renova dia a dia. A maquilagem muda “conforme o estado de espírito” e uma longa sessão de contorcionismo no palco pode significar tanto uma forma nova de expressão corporal como um artifício para fugir ao calor e descansar deitado: “Eu quero jogar tudo o que sou em cima do público”. Mas o que “é” Ney matogrosso? Uma espectadora, após um, espetáculo, pensou ter achado a resposta e lhe disse: “Não tenha medo. Você não é nada daquilo que está no palco”. E ouviu: “Mas, senhorita, é claro que eu sou aquilo!”.

Mesmo as fadas e os sacis não poderiam, realmente, acabar com essas coisas. Nem impedir que uma certa desordem e ansiedade surgisse entre o trio. Ney quer “ser o que é”. João Ricardo pretende estudar música numa universidade americana. Gerson deseja, no mínimo, ser também arquiteto. No entanto, a fada má – ou a bruxa – do comércio os espreita a cada espetáculo e a cada disco vendido. “Eu não vou ser um superstar”, ameaça João Ricardo: “Não vou ser e tenho raiva de quem é”. Ney, o mais ameaçado pelo estrelismo, sabe o risco que corre: “Olha, eu gosto mesmo é de bater perna na rua, o dia inteiro, entrar em loja e comprar bugigangas”. E João decidido: “Quero fazer o que gosto, sem conceder nada. O dia que precisar conceder, acabo com o sonho dos Secos & Molhados.”