15 de julho de 2010

1980: American Pop, Urgh! A Music War e Liquid Sky

A partir do punk, todo mundo percebeu que poderia tocar, pintar, escrever, fotografar e criar, independente de ser um estudioso. Bastava criatividade. Do it yourself. O punk mexeu com todas as formas de arte.

A partir de 1975 começaram a surgir novidades atrás de novidades e assim foi até 1990. Foram 15 anos que mais pareceram 200. Dois terços deles se passaram nos anos 1980 com uma intensidade absurda de acontecimentos, principalmente na primeira metade da década.
São zilhares de coisas que marcaram os 80s, mas pra mim dá pra resumir tudo em dois filmes e um documentário: o filme animação American Pop de 1981, o documentário musical Urgh! A Music War também de 1981 e o filme Liquid Sky lançado em 1982.

Todos eles eu assisti entre 1983 e 1984 – esse atraso era comum na época – e todos eles me deixaram de boca aberta. O American Pop não só pela história maravilhosa, mas pelo traço da animação, bastante incomum para a época. Foi ali, ainda moleque, que aprendi mais sobre a história da música e soube que o punk rock que eu gostava estava ligado ao blues. Foi uma luz. Era 1983 e eu tinha 13 anos.

Quando eu vi o filme, foi uma única vez, numa apresentação especial e era uma sala pequena, acho que na Cultura Inglesa de Brasília. Depois só fui achar esse filme novamente nos anos 1990 em uma locadora. Depois de assisti-lo 400 mil vezes ainda continuo babando no traço, no roteiro, na estética. American Pop é atemporal.

Era uma porrada atrás da outra e assim foi com Liquid Sky, o filme mais doido que eu já vi na minha vida. Sim, sem a menor dúvida ele foi o mais estranho de todos (e olha que ano passado eu vi um filme sueco de vampiro!). Esse filme eu vi duas vezes em 1984, um dia seguido do outro. Nas duas vezes fiquei de boca aberta. Nunca mais o vi, mas para escrever esse texto pesquisei e descobri que ele foi lançado em DVD em 2008, inclusive no Brasil. É uma história doida que se passa em Manhattan nos anos 1980. A protagonista é uma modelo bissexual que tem amigos uns mais estranhos que os outros. Vive na balada. É uma ficção científica com muita droga pesada (liquid sky é apelido para heroína). A modelo transa com seus parceiros e na hora que gozam evaporam, pois há um alienígena escondido na casa da moça doida, e ele precisa de uma substância que é liberada só no momento do orgasmo. Ela transa, a pessoa goza e some. Que maravilha!

A estética é uma mistura de Joy Division, gótico, pós-punk, psicodélico e new wave. Uma mistura doida que, na verdade, também era um retrato da época. Nem sei qual seria minha reação ao vê-lo novamente agora, mas Liquid Sky foi também importante na minha formação. É inspirador. E muito.

Outra boa porrada na boca do estômago é o Urgh! A Music War, um documentário musical produzido por Miles Copeland, irmão de Stewart Copeland, baterista do Police. Esse documentário, não só pra mim, foi um guia. É o fiel retrato musical do que foi o período 1979-1983 (período que até hoje gera consequências). É uma salada musical. Foi dirigido por Derek Burbidge, que já trabalhou com Joe Jackson, AC/DC, Devo, Stray Cats, Queen, Bruce Springsteen, Police e mais um monte de gente.

Urgh! nada mais é do que uma coletânea de apresentações ao vivo que ocorreram em 1980 entre Los Angeles e New York (USA); Londres e Portsmouth (Inglaterra) e Fréjus, na França. O que eu assisti foi exatamente o que saiu no DVD de novembro de 2009. São 34 apresentações, uma música para cada artista, com exceção de Police que tem duas. Devo, Go Go’s, Dead Kennedys, Pere Ubu, 999, XTC, Cramps, Gary Numan, Gang of Four, X, Steel Pulse, Echo and the Bunnymen e Klaus Nomi são alguns dos nomes que estão no Urgh! Além das músicas, há algumas poucas imagens das fachadas dos locais onde ocorreram os shows onde mostram algumas pessoas do público, o lado descolado dos anos 1980.

Assim como o American Pop e o Liquid Sky, o Urgh! A Music War também assisti umas três vezes para só revê-lo no final dos anos 1990. Só que agora dá para vê-lo no You Tube.
Urgh! A Music War é legal por também ser o retrato de uma época altamente politizada por conta da guerra fria, do governo Reagan e de Margareth Thatcher. Era uma sensação de que o botão da bomba atômica poderia ser apertado a qualquer momento (e poderia mesmo!), e era quando todos ainda acreditavam que os comunistas comiam criancinhas. A cortina de ferro, o muro de Berlim. Tudo isso deu uma aura especial ao Urgh!, que apesar de não ter ido bem nos cinemas americanos, se tornou uma referência obrigatória.

Aqui no Brasil nunca houve uma exibição oficial seja no cinema ou na televisão. Nos EUA chegou a passar algumas vezes na VH1. Seu lançamento só aconteceu agora em 2009 por problemas nos direitos autorais. Como são muitos artistas e cada um sendo de uma gravadora e editoras diferentes, a burocracia foi muito grande e penosamente demorada. Resultado disso é, por exemplo, o lançamento do DVD sem remasterização de som ou de imagem. Há também um CD, mas alguns artistas que estão no DVD não estão no CD (a tal da burocracia).

Dizem que para cada artista o diretor gravou três músicas, e ainda há muitos nomes que não saíram no documentário, somando algo em torno de 100 músicas registradas. Tudo isso ainda poderá ser lançado dependendo da burocracia que ainda há em torno desse material.

A verdade é que além de ser um retrato de uma geração, é também uma aula de performances ao vivo. Não era em qualquer lugar que você podia ver tranquilamente Go Go’s ao lado de Dead Kennedys. Urgh! A Music War consegue isso.

Liquid Sky (FULL)


Gang of Four


XTC (tocando “Respectable Street” anunciando-a como música nova)


Devo


Dead Kennedys


Police


Echo and The Bunnymen


The Cramps

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