22 de julho de 2010

Série Anos 1990 SP: 1 - Geral

Dias atrás comecei a escrever um texto sobre a São Paulo dos anos 1990, sua cena underground, e não conseguia mais parar. Era muita coisa. Tanta coisa que vi a possibilidade de abrir uma nova série. Para começar darei uma geral rápida e aos poucos escreverei sobre as bandas, as principais casas de shows e todo o universo envolvido nessa década, mais precisamente de 1990 a 1995, sua primeira metade.

Era um momento atípico no rock brasileiro, com a maioria das bandas cantando em inglês, renegando o passado, com vergonha da geração 1980 e fazendo pose de gringo. O grunge ajudou a fortalecer tudo isso: as letras em inglês, a vergonha e a pose. Todo mundo era grunge. Apesar disso foram anos bem divertidos.

Tinham casas como Aeroanta, Dama Xoc, Espaço Retrô, Cais, Der Temple, Woodstock, Dynamo, Black Jack, Britânia e Garage. O circuito quente era Aeroanta, Espaço Retrô, Cais, Der Temple e Garage. E de todos esses o Aeroanta era a meta. Sempre.

O Aeroanta e o Dama Xoc ficavam poucos quarteirões de distância entre eles, era comum uma caminhada entre um e outro. O Dama Xoc era mais casa de show e no Aeroanta tinha show, pista de dança, bar e comida. O Aeroanta veio primeiro, no início de 1987, e eu estava na inauguração.

Todos esses bares – com exceção do Garage – tinham ao lado ou muito perto, botecos que serviam para começar a noite. Eles ficavam cheios até perto da hora do show que aconteceria. Além dessas casas de shows também tinham alguns bares que eram freqüentados pelo mesmo pessoal: Jungle, New York, Sampa e o Sushiban (ou Sushibar? Não lembro).

Esse era basicamente o circuito noturno desse período. Era divertido, todo mundo encontrava com todo mundo, dávamos boas risadas, todos viram bons shows, e rolaram momentos antológicos como o show do Yo Ho Delic no Phoenix, casa noturna na Barra Funda que durou pouco e era do mesmo dono do Retrô (esse show eu tenho em vídeo). Também rolou a noite em que Kurt Cobain foi ao Der Temple (eu não estava), o show de Jello Biafra no Aeroanta, Raimundos e Planet Hemp também no Aeroanta, Ramones no Dama Xoc, De Falla no Retrô e Der Temple (na mesma noite).

Rolavam pequenos festivais que não vou lembrar os nomes, mas o Aeroanta e o Garage os faziam de vez em quando. Foi também quando aconteceu o Juntatribo em Campinas. Aliás, o interior tinha ótimas bandas: Concreteness, Linguachula, Killing Chainsaw, Happy Cow, Muzzarellas, No Class.

A MTV Brasil foi de suma importância nessa época, e também veio a Tinitus (de Pena Schmidt), o Banguela (Titãs/Warner), o Chaos (Sony), e a facilidade em produzir o próprio CD. Tudo isso alimentava o underground.

Não era sempre que a noite começava e acabava no mesmo lugar. Se você estivesse perdido era só ir, por exemplo, para o bar do Milton ao lado do Aeroanta, um lugar bom para se obter informações. Estou falando de 15, 20 anos atrás, o trânsito era outro, tinha lugar para estacionar e era fácil ir de um lugar ao outro até achar a melhor opção. Era difícil não ter shows, principalmente 5ª, 6ª, sábado e domingo.

As rádios 89 FM e a Brasil 2000 também davam uma força para as bandas do underground, tocando-as em programas especiais, divulgando shows, produzindo coletâneas e shows especiais.

Era uma turma grande, mas não uma turma unida. Todos eram amigos, algumas bandas tinham mais afinidades com outras e assim surgiam shows em conjunto, a troca de informações era constante, mas no fundo era cada um por si e Deus por todos.
Ao contrário das casas paulistanas dos anos 1980, em que a maioria tinha música ao vivo e também pista de dança, essas dos anos 1990 eram mais focadas na música ao vivo. O Aeroanta tinha uma boa pista no começo, mas aos poucos ela foi perdendo a força. Pra dançar rock, bom mesmo era o Der Temple.

Pior é que dessa época não sobrou nada. De todas as bandas que existiam não sobrou quase nenhuma. As casas de shows todas sumiram. Dos bares nada mais restou. Banguela, Tinitus e Chaos... puf! Nem as revistas e rádios existem mais.

Hoje passo pelo Largo da Batata quase todo dia e não consigo achar o local onde era o Aeroanta (por causa do Metrô e da expansão da Faria Lima todas as referências sumiram). Foram bons tempos e uma pequena parte deles eu tive sorte de registrar com minha velha câmera VHS (que na época era moderna).

PS: A foto do toldo é o Juntratribo

3 comentários:

Pizza disse...

Boooa Paulão, essa época foi boa pacas! Vai aprofundar mais? Fala do Stigmata aí...hehehe, aqueles malas!!
Abração.

Anônimo disse...

Pizza! Já está quse pronto um texto sobre o Aeroanta. Stigmata, o que é isso cara? rsrsrsrs.
Tenho uma foto sua naquele show com o Rip Monsters. Logo envio...
abç
Amanhã ou 5ª posto o próximo!
abç (bj nas meninas!)

Anônimo disse...

esse é o lado triste de São paulo: as referências somem com a mudança da cidade e grandes lugares da noite de SP se perdem na memória coletiva.