29 de julho de 2010

Série Anos 1990 SP: 2 - Aeroanta


O Largo da Batata fica no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Lá dezenas de linhas de ônibus  se cruzam. Linhas que trazem os trabalhadores das periferias para o centro e é no Largo da Batata que esses trabalhadores fazem a baldiação. Lá também é onde tem muito boteco, e lojas que vendem roupas de baciada para a camada menos favorecida. Lojas que vendem camisetas a 4 reais, calça jeans a 20 reais, 12 pares de meia por 5 reais. Tem também diversas lojas de atacado com todos os tipos de guloseimas. Muito camelô nas calçadas vendendo de roupas e eletrônicos até ervas medicinais e celulares. É um ‘anda pra cá e anda pra lá’ que não para, calçadas apertadas, todo mundo com pressa, com sacolas na mão.

Área de shows e pista de dança
Durante o dia era (e ainda é) essa correria, mas a noite tudo fica mais calmo. Na época em que o Aeroanta surgiu, em torno dele eram ruas pequenas, quarteirões desiguais, só casas, sem prédios. Ainda era fácil parar o carro na rua, e por mais que estivesse cheio, você não estacionava mais que um ou dois quarteirões de distância. Nem tinha flanelinha (que logo surgiram, claro).

Bem em frente ao Aeroanta tinha um calçadão e dois botecos, um ao lado do outro. Colado ao Aeroanta também tinha o Bar do Milton, o boteco mais freqüentado. Eles serviam de ‘esquenta’ para o Aeroanta e, antes de pagar para entrar, usávamos todos os contatos possíveis para a entrada ser na faixa.

Bem na frente, onde ficava a bilheteria, tinha um tanque com carpas e sua mureta tinha uma tábua de madeira envernizada que nos permitia sentar. Já nos anos 1990, bem no início, surgiu o tiozinho do cachorro quente (esqueci o nome dele) que tinha uma Brasília vermelha escura.

Flyer com programação
Fato é que se alguém quiser falar pra você sobre as noites dos anos 1990 de São Paulo e não citar o Aeroanta, esqueça, é história furada. É como falar da São Paulo dos 1980 sem mencionar Madame Satã.

Só que pra falar de Aeroanta é necessário voltar para a segunda metade dos 1980, mais precisamente 1987, pra acertar no alvo digo fevereiro de 1987.

Okotô
Eu estava lá na noite de inauguração, fui levado pela minha prima Denise e seu marido na época, Paulo Checoli, mais conhecido como Binga, ex-tecladista da Skowa & A Máfia. Caí de pára-quedas, pois estava literalmente chegando em São Paulo. Não me lembro do que rolou, mas tinha muita gente, e muita gente transada e importante.

Logo de cara o Aeroanta virou referência, e era um período de transição, a chegada de uma nova geração. Ainda tinha Madame Satã, Rose Bom Bom, Ácido Plástico e surgiram Aeroanta, Dama Xoc e Nation, anunciando novos tempos.

Novas bandas tentavam um lugar ao sol, como Nau, Gueto, Violeta de Outono, Musak, Lagoa 66, Fábrica Fagus, Picassos Falsos, Hojerizah, Kongo, Conexão Japeri entre outras.

O dono era o Roberto Pandiani, ou melhor, Beto Pandiani, e para os mais íntimos Betão. Ele teve diversas casas noturnas, foi barman nos anos 1980, e no final dos 1990 abandonou tudo para se dedicar ao esporte. Seu negócio é velejar. Beto é craque, já ganhou prêmios, fez navegações históricas, lançou livros e faz muita palestra. Não, eu não era amigo do Beto, mas sempre nos víamos lá, rolava apenas um cumprimento formal.

A proposta na época era diferente. Pouca gente se lembra, mas bem no começo, o Aeroanta abria cedo, tipo 19h ou 20h para as pessoas irem jantar. A casa era dividida em duas: o bar e restaurante; a pista e o palco. Até certa hora da noite um grande portão de ferro ficava fechado, separando os dois ambientes. A partir de determinada hora (22h talvez), esse portão se abria e se tornava um ambiente único. Nesse início a pista de dança também era um ponto forte, e apesar de rolar, digamos, coisas menos alternativas, o pessoal dançava.

Hoje. Onde está o Aeroanta?
O palco era ótimo e a estrutura oferecida para os artistas era acima da média. O primeiro camarim foi o de cima, que também ficava na parte de trás do palco à direita, subindo uma escada. Era um camarim grande, mas anos depois ele se tornou um mezanino incorporado ao ambiente do restaurante, e que passou a servir de área vip nas festas. Depois disso o novo camarim, também atrás do palco, passou a ser o de baixo, que também era ótimo.

Desde o início sempre estive envolvido nos bastidores de shows do Aeroanta, sempre acompanhando amigos ou por causa de Binga, a quem eu acompanhava e também trabalhava como roadie (em 1987 eu não conhecia ninguém em São Paulo). Quem cuidava dessa parte artística era Geraldo D’arbily, Biba Fonseca e Deyse (que depois se tornou empresária do Raimundos). O camarim (de cima) tinha banheiro, um ambiente com espelho, sofá, cadeiras e outro que ficava a geladeira, pia e mesa com comes e bebes. Era costume de Geraldo receber as bandas com a geladeira repleta de água, refrigerante e cerveja, uma garrafa fechada de Red Label, além de uma mesa com pães, frios, patês e frutas. Isso era para qualquer artista, independente de sua fama. Frequentei aquele camarim muito. Até arrisco em dizer que um dos últimos artistas a usar o camarim de cima foi Os Mulheres Negras.

Ratos de Porão
Quando Geraldo saiu do Aeroanta, 95% dessas regalias acabou. Também com o tempo, um maior número de bandas passou a tocar lá, e não havia condições de mimar todas elas. No show de lançamento do 1ª CD do Raimundos, em 1994, não havia nada no camarim, que eu me lembre, apenas água.

Mas esse começo era assim, você automaticamente ganhava respeito de todos ao tocar no Aeroanta. Não era para qualquer um. O palco era espaçoso, porém, não muito grande; o equipamento de som era de primeira, inclusive a monitoração de palco. Era um ambiente intimista.

Também aconteciam festas fechadas, e elas eram boas. Numa dessas eu vi show do Paralamas. Também lembro de uma festa a fantasia, onde estava Caetano Veloso. Eu estava com amigos e ele ficou interessado em uma das garotas que estavam junto comigo. Por coincidência saímos para ir embora ao mesmo tempo e Caetano foi conversando com ela até chegarmos aos carros, que estavam estacionados na mesma direção. Dei boa noite e apertei a mão dele. Nada aconteceu entre ele e minha amiga. Só ficou na paquera rsrs.

Público no show do Rip Monsters. 1993.
Pra entrar sem pagar era preciso chegar mais cedo, procurar os contatos, ficar no Bar do Milton tomando uma e de olho na movimentação. Sempre aparecia alguém com ingressos na mão, ou chamando dois ou três pra colocar pra dentro. No show do Jello Biafra foi assim. Só me arrependo de não estar com minha câmera naquele dia. Daria pra filmar numa boa, apesar do lugar parecer uma verdadeira lata de sardinha. Foi o bicho.

O show do Live também estava abarrotado, mas eu fiquei no Milton tomando cerveja, quando resolveram abrir os portões para o ar circular (a saída de emergência que ficava de frente para o palco). Todo mundo que estava na rua pôde ver o show. A banda estava em plena evidência.

Sempre rolavam pequenos festivais que o Aeroanta fazia. Neles tocavam quatro ou cinco bandas, cada uma cinco músicas, e o lugar ficava abarrotado. Houve época em que os domingos eram reservados às bandas que estavam começando. A programação sempre mudava, mas era assim; ao mesmo tempo que tinha Cazuza ou Cássia Eller, tinha o festival A Barulheira com Pin Ups, Killing Chainsaw e Garage Fuzz.

Filhos de Mengele. Último show do Aeroanta. abril/1996
Nas festas fechadas também aconteciam apresentações e jams antológicas - as famosas Aerojams. Nem dá pra listar tudo o que vi naquele palco. De 1987 até 1995 vi ao menos 70% dos shows que aconteceram lá. Naquele palco tocou de tudo. Cada festa tinha seus artistas convidados. Acredito inclusive que estava na noite de lançamento da coletânea Não São Paulo 2. No final acabava tudo em Jam. Inclusive o Aeroanta foi pioneiro em fazer shows temáticos, que depois se espalharam com as bandas covers. As noites de black music, Black Night, marcaram época e eram bem disputadas. Também tinha a Reggae Night. O 1º show do Skank em SP foi lá para um Aeroanta vazio.

Aos poucos a separação de ambientes deixou de existir. A pista de dança foi perdendo sua força. Havia o som ambiente, as luzes, o clima, e quem quisesse podia dançar, mas o interesse maior era o bar e os shows.

É completamente cabível um livro sobre o Aeroanta. Foram muitos shows, muitas baladas. Ora inicio de noite, ora fim de noite. A estréia do Angra aqui no Brasil, com uma fila que virava o quarteirão, a muvuca constante nos botecos, o trânsito que ficava na frente, os pais deixando as filhas. O movimento era constante, até porque o Aeroanta fazia parte do rolé noturno, todo mundo passava de carro por ali, diminuía a velocidade, observava a movimentação, as vezes parava, as vezes não. Tinham dias caídos, e dias maravilhosos.

Beto Pandiani
Aos poucos, o Aeroanta foi tomando um ar de abandono. Lembro do show do Buzzcocks, não por estar completamente vazio, mas percebi que o bar não era o mesmo, o tratamento não era igual. Isso foi em 1995. No show do Exploited o clima já era esse. Não era a mesma casa e eu tenho PhD para afirmar isso.

Desde que consegui formar minha primeira banda em São Paulo, passei de 1988 até 1991 tentando tocar no Aeroanta e nunca consegui. Mas, por ironia, em 1996 fiz um show lá com o Filhos de Mengele (por enquanto no Youtube). Era uma reunião decidida de última hora para comemorar 10 anos da formação clássica. Aconteceu em 23 de abril de 1996. Esse foi o último show do Aeroanta, que no dia seguinte literalmente fechou as portas. O corpo de bombeiros foi lá e lacrou tudo.

Eu estava lá no começo e eu estava lá no fim.














20 comentários:

Carlos Nishimiya disse...

poxa, que relato maravilhoso sobre uma casa antológica e recheado de histórias incríveis!
parabéns pelo texto, foi uma volta ao tempo...
e obrigado por colocar o video que eu postei no YouTube do Arnaldo com o Maria Angélica. Eu era um dos guitarristas do Maria...
abraços!

Paulo Marchetti disse...

Valeu Carlos! Obrigado....

Familia disse...

CARLOS BOA TARDE,VALEU MESMO,ME FEZ LEMBRAR DE UMA EPOCA,QUE COM CERTEZA NÃO TEREMOS MAIS...UMA EPOCA QUE HAVIA RESPEITO E ACIMA DE TUDO MUITO ROCK AND ROLL E NÃO ESSA... DEIXA PRÁ LA. UM FORTE ABRAÇO!!!!

NELITO.

Maria lucia disse...

Oi Carlos, adorei ler essas informações todas sobre o Aeroanta, muitas lembranças bacanas me surgiram, passei algumas vezes pela casa nas décadas de 80 e 90. Lembro de um detalhe que me chamava muito a atenção, o palco da casa ficava no meio da plateia, parecia um picadeiro de circo. Tempos maravilhosos aqueles.
Abraço a vc e a galera que curtiu esses anos incriveis.
Lucineide.

Anônimo disse...

Poxa, que época excelente aquela minha do Aeroanta. Só sinto falta de esta matéria não ter Kiko Zambianqui, presença marcante naquele lugar. Era o point mesmo, e de frequência super boa. Beijos em todos Cibele

Anônimo disse...

Eu gostumava frequentar a casa no final dos anos 80 e inicio dos 90, ia junto com meu atual marido, na época namorado. Lembro do show do Kid Abelha e outros. Adorava dançar naquele ambiente delicioso que era o Aeroanta. Quanta saudade. Puxa bem que poderiam lançar uma casa como aquela, nos mesmos termos, seria ótimo. Abraços e parabéns pela reportagem.

Ana Paula Saito disse...

Vc falou do banquinho e das carpas!Eu perguntei pra muitos frequentadores: "Lembra do aquário, na entrada, de pedrinhas?" e ninguém lembrava. Cheguei a pensar que eu frequentava um aeroanta paralelo.

Gostei muito do post.

Beijos e sorrisos,
Ana

leo rj disse...

muito bommmm!
estava lá na inauguração e virei freguês. as festas fechadas eram as melhores, os shows do LUNI waaaaal....caetano, regina casé, malu mader, os titãs todos, era tudo uma festa, quero mais tudo isso....cadê????cadê????? até embarga a voz......
leo rj

Anônimo disse...

Descobri o blog agora, pesquisando sobre o Aeroanta.Eu era moleque, começa a sair à noite e às vezes em que estive lá foram ótimas. Vi uma jam maravilhosa com o Charles Gavin (Titãs), Sandra (Mercenárias), Zique (Nau)... não lembro ser era a Vange Leonel que estava na voz, tocando Siouxie & Banshees. Na fase início da decadência toquei lá, com minha banda. E foi a realização de um sonho tocar naquele local. Muito bom! BTNS

Soninha Darbilly disse...

Olá Boa tarde! Sou Soninha Darbilly esposa do Geraldo Darbilly que coordenava as "Aerojams" das terças - feiras no Aeroanta nos anos 90.Gostamos da matéria sobre o Aeroanta e queria sua permissão para pubicá-la no meu site a matéria q fala sobre o Darbilly com o link direcionando a sua página. o meu site:
http://soninhafdarbilly.webnode.com.br/
Abraço

Rodolfo Morais disse...

Otima materia !! So que o video do RDP que está ai nao é no aeroanta, mas sim um fragmento do home video gravado ao vivo no DAMA XOC.

Aluisio Martinez disse...

Estive no Aeroanta em meados dos anos 80, e assisti ao show de uma banda que não me recordo onome, más me lembro que a vocalista era a Marisa Ortiz. Alguém sabe o nome desta banda?

Anônimo disse...

a banda era Luni. Tem um disco lançado.

brasfoot a px disse...

Meu Pai no fim do aeroanta foi administrador com um amigo dele que pegou a bucha depois da farsa no litoral com a coca

Anônimo disse...

Carlos, obrigado por trazer tantas lembranças duma época que produziu tanta música boa no Brasil.Eu não moro mais no Brasil e procurava como entrar em contato com o Geraldo D'Arbilly para ver se ele lembrava de mim (atuei como "co-produtor" das Jam sessions da Terça feira. Pus isso entre aspas, porque oficialmente era apenas um bicão que tinha começado o contato como fotógrafo "oficial" das Jam, para postar as fotos na entrada ou quando os jornalecos queriam publicar alguma matéria sobre as bandas que íam se apresentar) Eu na época era o empresário de uma banda chamada The Free Electric Band, uma Beatles-cover que era formada por médicos do HC. Tivemos muito sucesso, até o surgimento do Comitatus que acabou com nossa alegria (eles eram waaayyyy better than us). Mas "coming back to the cold cow" como disse uma vez nossa Xuxinha na tevê americana, dizia eu que procurava um contato com o Geraldo, e eis que um dos comentários à tua matéria é justamente da Soninha. Essa realmente foi demais! E já que ela postou seu email, vou aproveitar a opor para escrever pra eles.
Um grande abraço.
Ivan (ou "Brivan" como me chamavam para gozar do meu papel de Brian Epstein na FEB)
PS Eu ainda devo ter carradas de negativos das fotos desses shows das jams, se alguém tiver interesse. É claro que com a fotografia digital, um negativo é uma espécie de ovo de pteranodom, mas, tão aí...

Anônimo disse...

Boa tarde!
Gostaria de saber se alguém em São Paulo tem alguma foto do show do Buzzcoks no Aeroanta... com certeza um dos melhores de nossa história em Sampa!

tete disse...

Em 2012 anônimo escreveu: No cover da Siouxie and Banshees não sei se era a Vange Leonel que cantava! Pois eu afirmo: ERA ela, voz maravilhosa, eu estava lá, nesse e em muitos outros dias! Esse cover com o Charles Gavin, meu amigo na época, foi maravilhoso!! Aliás, tive o prazer de ir no show ao vivo da Siouxie em São Paulo!! Bons tempos do Madame Satã também!! Ai, época boa!! Saudades!! Eu com os meus 20 anos curti muito!!!

Fábio Doniseti França disse...

Bom dia Carlos, realmente seu relato foi de arrepiar, eu não era um frequentador assíduo do Aeroanta,mas me lembro de muitas bandas que você citou nas quais eu estava nos dias, citando em especial um dia que teve show Punk coma GAROTOS PODRES, PUPILAS DILATADAS, NEURONIOS ALUCINADOS E KBILLYS, foi muito louco !!!

Marcos Sergio Sousa disse...

AEROANTA quando fui pela primeira vez não parei mais , varios shows,EDGAR SCANDURRA,MARCELO NOVA ,GRAVAÇÃO DO PLUGADO DO CAMISA DE VENUS EM 95,IRA!MUITO BOM MESMO SE REABRIR MESMO PRETENDO ESTAR LÁ .

Cláudio Goreti Prando disse...

Alguém se lembra de quando foi o show do Exploited no Aeroanta? Acho que foi em 1993.