21 de junho de 2009

Série O Resgate da Memória: 9 - Camisa de Vênus


Essa entrevista é da revista Bizz de outubro de 1986. Não tenho o nome do jornalista que fez a matéria. A tirei do CD-Rom da Bizz, mas como não consigo mais instalar o programa (já entrei em contato com a Abril que nunca me retornou), vou ficar devendo a capa da revista que, se não me engano, é com Morrissey na capa.
Nessa época a banda começava a gravar o 4º disco ‘Correndo o Risco’, que tem “Simca Chambord”, “Deus Me Dê Grana”, “Só o Fim” (a qual o refrão é cópia de “Gimme Shelter” do Stones) e “A Ferro e Fogo” (pra mim a mais bela canção do Camisa).
Exatamente um ano e um disco após essa entrevista o Camisa anuciou seu fim.


Nem panos quentes, nem papas na língua

BIZZ - Que tal começar por um balanço de carreira? Vocês surgiram numa época (1982) em que o cenário estava tomando pela Blitz. Como foi chegar nesse cenário com uma proposta como a do Camisa de Vênus?
Gustavo - Não mudou muita coisa não, viu. Tem muita Blitz e Rádio Taxi por aí.
Karl - Não estamos muito preocupados com o cenário, e sim com o Camisa e com o que a gente faz.
Marcelo - Não foi difícil, foi fácil. Se é que foi realmente difícil. Se a gente observa por esse ângulo de cenário, o que acontecia na Bahia em 82 era uma reciclagem do tropicalismo, e Moraes Moreira. Pepeu Gomes. Baby Consuelo. Caetano, Gil, Bethânia, Gal. E. tanto sonoramente como no texto, o Camisa é diferente de todos estes exemplos. O fato de a gente ter vindo para São Paulo e Rio de Janeiro foi mais uma conseqüência do que a gente já tinha feito em Salvador. Quando a Blitz gravou ´batata frita, eu sei que vou me amar, essas coisas o Camisa já era sucesso em Salvador com “Meu Primo Zé” que tocava em tudo quanto era rádio FM. Só que a veiculação era limitada a uma cidade. Não tinha o poder de penetração que há em São Paulo e Rio de Janeiro.


BIZZ - Façam um balanço do que vocês pretendiam e o que vocês conquistaram.
Marcelo - Gravamos um compacto em Salvador num estúdio pequenininho de oito canais. Aí a música começou a tocar e começamos a nos apresentar para casas cheias, Tocamos para vinte mil pessoas no Farol da Barra. E aí pintou o lance de gravar um LP que a princípio seria pela Fermata. Viemos para São Paulo para isso e quando estávamos no estúdio, uma pessoa entrou, ouviu e propôs para o Toninho (o contato da gravadora) que o disco poderia sair pela Som Livre. Como realmente acabou acontecendo. Só que depois de três meses que o disco saiu houve um problema interno lá deles. Queriam que o nome da banda fosse mudado por razões que sei lá... Era imoral, indecente, ia dificultar a penetração na mídia etc... E se fossem bons cordeiros, bons cabritos, em compensação eles dariam para a gente o sistema de mídia da Globo inteira. Não aceitamos essas pressões e pedimos as contas. Na época foi duro pra caramba. Custou vários almoços de hamhúrgueres. Vários jantares de cheese-salada.
Karl - Morada na Boca do Lixo.
Marcelo - Só que hoje, quatro anos depois, a gente olha para trás e vê que foi a decisão mais acertada que poderíamos ter tornado. Porque durante este tempo aprendemos que nossa decisão é mais importante até que a vontade de qualquer pessoa. Ficamos um ano e meio sem conseguir gravar, e o segundo LP veio pela RGE que, por mais paradoxal que pareça, é do mesmo dono da Som Livre. E quando “Joana D´Arc” virou hit de rádio e invadiu a tal da mídia e a banda vendeu 100 mil LPs fomos convidados para fazer Chacrinha... E com o mesmo nome. Porque aí a falsa moral caiu por terra. O que era indecente passou a ser sarcástico. Sabe, aquela mentalidade: “Esse nome é bom, é sarcástico, vende 100 mil cópias e a gente vai ganhar dinheiro”.
Karl - E a coisa mais engraçada é que quando a RGE resolveu relançar o primeiro LP, que tinha sido encostado pela Som Livre, o disco veio com um selinho dizendo: “Incluindo “Bete Morreu””. E essa música escandalizava todo mundo da gravadora por causa da letra violentaram Bete, espancaram Bete, ela nem se mexeu, Bete morreu.

BIZZ - Quais foram os indicadores que fizeram vocês sentir que a coisa ia acontecer, que vocês iam ser uma banda de sucesso?
Marcelo - Acho que foi quando “Joana D´Arc” se tomou um hit. Este foi o ponto, porque veiculou o Camisa nacionalmente.

BIZZ - E depois de “Joana D´Arc”?
Karl
- Depois disso a gente resolveu adotar São Paulo.
Marcelo - Inclusive porque a gente sentiu que a linguagem do Camisa tinha muito mais a ver com uma cidade urbana. O drive de São Paulo contribuiu e o público também.

BIZZ - E por que São Paulo?
Karl
- A gente saía de madrugada na Av. São João, via aqueles anúncios de neon, aquela fumaça. Já estava todo mundo de saco cheio de menina com cabelo de Elba Ramalho, biquíni fio-dental de Ipanema, entende"? Uma coisa vulgar pra caramba. Chega a se tomar desagradável de tão vulgar que é. E hoje, um ano depois que estamos morando aqui, ninguém está pensando em sair para canto algum.
Marcelo - Somos baialistas agora.

BIZZ - Como?
Marcelo
- Baianos que moram em São Paulo.

BIZZ - Falem um pouco do novo disco.
Marcelo - Viva ainda é o novo disco. Viva foi uma decisão da gente de gravar um disco para os fãs, talvez até como uma maneira de reconhecimento por eles terem colocado a gente onde estamos hoje. E ele é a cara do Camisa no palco, que é o nosso habitat natural, é onde o Camisa é. Adoramos estúdios, procuramos esmerilhar aqui dentro. Mas o Camisa é, indiscutivelmente, uma banda de palco, até pela participação do público, que é tão importante quanto a nossa. E isso está registrado nesse LP.


BIZZ - Mas tinha o fato de vocês estarem devendo, por contrato, um LP para a RGE.
Karl - Mas poderia ter sido um disco de estúdio!
Marcelo - E tinha chegado o momento de fazer um disco ao vivo Aliás, parece que depois que a gente fez um disco ao vivo estão saindo outros discos ao vivo também (risos).

BIZZ - Como por exemplo?
Marcelo - Eu tenho ouvido... Saiu RPM, Caetano...

BIZZ - E do novo, novo disco, este que vocês estão gravando aqui.
Marcelo - Estamos começando ainda. Inaugurando este estúdio.

BIZZ - Então falem das diferenças entre este e os outros LPs.
Karl
- Está ligado à própria evolução dentro do nosso trabalho. Somos cinco, seis com o Petê (empresário). Trabalhos há quase cinco anos juntos. E a integração da banda, a sonoridade das guitarras, as idéias... está tudo melhor. Não moramos mais na Boca do Lixo, não dividimos apartamento. Acho que as mudanças têm a ver muito com nossa mudança de vida.
Marcelo - Se você observar o primeiro LP, ele é um pau só do começo ao fim.
Karl - O segundo já vem com um melhor tratamento de estúdio.
Marcelo - Além da diversificação rítmica. Tem reggae, rap, balada... O terceiro já é ao vivo. E esse novo disco é como eu falei: estamos começando agora e só temos as bases prontas.


BIZZ - Na época em que formaram a banda, vocês fizeram uma versão de "Negue", além de outras músicas que têm elementos da MPB. Como a MPB entrou no trabalho de vocês?
Karl - O objetivo de ´Negue" era dilacerar... O Marcelo queria conseguir ser mais dramático que Maria Bethânia cantando. E acho que ele conseguiu.
Marcelo - Se o Camisa tem um texto, vamos dizer, sério, como é o caso de "Metástase", ele também tem um lado super sacana, que é o lado de "Silvia", "Negue"... do deboche... Não somos cinco intelectuais tentando fazer som dos Smiths, Cure, U2, enfim, que tenha similar lá fora. O Camisa pode ser uma banda ótima ou uma porcaria de banda, mas ela tem características próprias. Não parece com absolutamente ninguém. Tem identidade. E, também, o Camisa sempre foi misturado. Aldo, por exemplo, gosta do U2. Gustavo de heavy metal, do Rush. -. Karl gosta de Pete Townshend, Lou Reed. Quer dizer, essa coisa de mesclar sonoridade sempre acompanhou a gente. E o fato de a MPB ter vindo misturado também está incluído nisso. E da admiração que todos nós temos por Raul Seixas. Tanto que nesse LP vamos fazer uma regravação de uma música dele.

BIZZ - Qual?

Karl - Não sabemos ainda. Tem duas ou três. Não decidimos.
Marcelo - Inclusive quando a gente leu na BIZZ, onde Raul dizia que ele não gostava de ninguém. só do Camisa de Vênus, porque era a única banda que não se permitia fazer esse joguinho das Globos da vida, ficamos super orgulhosos. O velho ídolo dizendo que nós somos os melhores.

BIZZ - Vocês disseram uma vez que o único brasileiro que prestava era o que vinha de Brasília e da Bahia.
Marcelo
- Na verdade o lance era chamar atenção para o fato de que não só no Rio e São Paulo as coisas aconteciam. Essa linguagem que parece estar concentrada especificamente no Rio - linguagem para criança de 10 anos de idade. E uma brincadeira. Grupo de faixa etária entre 20 e 30 anos, às vezes, até mais de 30 cantando musiquinha com letra de Menudo para garotinho de 10, 12 anos curtir. Mas, por outro lado, como o Camisa está sozinho, não estamos integrados a nenhum movimento de rock. Nosso lance sempre foi à parte, cada um faça o que quiser. Já rasgamos nosso contracheque faz tempo! Raríssimas bandas eu paro para ouvir e dizer: gostei. Gosto de Replicantes. Acho que eles têm uma coisa de desenho animado do rock que eles passam e acho isso super legal. E do Capital Inicial. Os textos do Renato Russo eu gosto muito. Acho que o Legião não encontrou ainda a sonoridade deles. Mas acho que têm competência para encontrar. No primeiro disco a coisa ficou meio U2 agora está meio Smiths...
Gustavo - Gosto também do Clemente, dos Inocentes.
Marcelo - E do Lobão. Se o Raul é um gênio, Lobão é febril – 42º de febre o tempo todo. Nesse ponto acho até que a gente se identifica um pouco - no lance de não ser sócio de clube nenhum. Outro dia uma revista veio me convidar para fazer uma entrevista. Chamava HV. Éramos eu, Arnaldo, Renato Russo, Paulo Ricardo, Herbert Vianna... Liguei para lá, agradeci a lembrança do meu nome e disse: Primeiro, querida, eu não tenho saco para discutir constituinte do rock com ninguém!". Sim, porque juntar esse pessoal você acha que é para o quê? "E. segundo", disse ainda. "eu já passei dos 30. Não faço parte da jovem-guarda!"


BIZZ - Em que ponto vocês acham que o público se identifica com vocês para que fizesse o Camisa estourar?
Marcelo - Acho que a honestidade que a gente passa na expressão, na postura. Acho que isso foi importante no Camisa e as pessoas ouviram, assimilaram e acreditaram. E pensaram: "Não importa que eles não apareçam toda semana no Chacrinha. Não importa que eles não apareçam no Fantástico toda hora. A gente acredita". E por aí.

BIZZ - Mas há bandas que têm essas características de honestidade e não conseguiram tanto sucesso como vocês?
Marcelo - É talento!

BIZZ - Mas vocês atingem uma faixa que ainda está contaminada por deficiência educacional típica de um país subdesenvolvido, expressa, principalmente, em letras como "Silvia " e “Bete Morreu” - estupro, homem que pega no pau para bater na mulher e coisas do tipo?
Marcelo - Durante o show, que dura em média duas horas, rola praticamente o repertório inteiro do Camisa, sem distinção do sério, sacana. Mas existe um outro aspecto: as músicas do Camisa que atingiram maior execução de rádio não são as que têm unia conotação política, social etc... Agora, isso cabe aos programadores de rádio. Existe essa tendência da mídia em tocar o que parece ser mais engraçado ou o que tenha uma assimilação maior. Ninguém quer tocar no rádio, por exemplo. "Batalhões de Estranhos", que diz: "Observe e informe aos homens de uniforme. Eles chegam por via aérea, sentinelas de nossa miséria". Porque essa música fizemos na época da ditadura militar. Era muito mais interessante para a rádio, para não correr o risco de ficar visada por sei lá quem eles imaginam que possa estar observando... Então tocavam “Joana D´Arc”. Essa distinção é feita pela mídia. Para a gente tem os dois lados da coisa. E nunca nos preocupamos em dar ênfase àquele lado ou não.

BIZZ - O que vem a mente quando vocês ouvem a palavra política?
Gustavo -Cachorrada! Troca de interesses! Qual o político sério neste país? Não conheço nenhum. Vai nascer ainda.
Marcelo - O problema é que a face política do país é a mesma há décadas! Hoje o nosso presidente José Sarney se diz porta-voz de uma Nova República. Se nós não tivermos a memória muito curta, a gente vai ver que há dois anos este mesmo personagem era presidente do partido do governo, dos militares! E está muito engraçado. Um outdoor de Paulo Maluf metendo paranóia na cabeça da população: que precisa de segurança, que assassino tem de ir para campo de concentração. Quer dizer: isso é o quê? É a paranóia de um povo subdesenvolvido culturalmente também. Então parece que a solução é a repressão, é a paranóia, é a porrada. Vai ter Rota rodando 24 horas por dia, todo mundo de metralhadora na mão. E essa é a base de uma campanha eleitoral para governador do maior Estado do país. E isso é tenebroso! Todo mundo sabe. O que aconteceu com o Abi-Ackel, pelo amor de Deus? Contrabandista, provado. Ele está em cana, está na detenção?
Gustavo - E o próprio Figueiredo! Ele foi exilado?
Marcelo - A saída de Figueiredo do poder foi dando uma banana para o povo. Esse é o nível político que se vê no país. E eu acho até que Maluf vai ganhar! Então, de repente, a gente tem de parar e dizer: "Cada povo tem o presidente. governo que merece". Mas, também, acho que a gente (povo) é muito ingênuo. Ingênuo demais.



Cabra cega

"Bad Life", PiL
Robério - É Madonna.
Marcelo - Banda do Exército... (depois que entra o vocal) Esse é bom pra caramba. Mr, John Lydon. E PiL é uma das melhores coisas que rolam por aí. Trocou a coroa de rei dos punks para se tornar um artista sem compromisso com ninguém a não ser com si próprio. E um karma da porra ser rei dos punks. E o melhor! Faço coleção de camisetas do PiL.

"Malandragem Dá um Tempo", Bezerra da Silva
Aldo
- Bezerra da Silva.
Marcelo - Matou, porque era batuqueiro de afoxé. E aquela história da coerência - ele é coerente com o que faz. Se existissem dois Bezerra da Silva não existiria Lulu Santos. Mora no morro e faz o que é de lá.
Gustavo - Seja o que for, nem pagando eu ouço. Não suporto.
Marcelo - Não vou comprar para levar para casa e ouvir. Saco é ter 30 anos e dizer que "lá em casa continua o mesmo problema", como fazem muitas bandas por ai... "Vou apertar, mas não vou acender" é genial. Se só tivesse rock ia ser tão chato! A gente ia fazer samba, pagode.

"Windswept", Bryan Ferry
Marcelo - Isso é profundo (irônico).
Gustavo - Aí eu gosto. Não sei nem quem está cantando, mas gosto da música.
Karl - Não gosto disso.
Aldo - Lembra Bryan Ferry.
Marcelo - É Bryan Ferry mesmo. Não é um cara que me bata. Manolo Otero demais. Nota 1,5 para ele.
Karl - Topete era com Elvis Presley.
Marcelo - Ele deveria trabalhar na Fiorucci em vez de ficar empatando o tempo com a gente.
Robério - Parece musiquinha erótica do La Licorne.
Marcelo - Pelo menos ele tem uma certa história do Roxy Music.

"Flores Astrais", RPM
Marcelo
- E ao vivo, mas não é o Camisa.
Karl - Para mim é de estúdio, com palmas.
Robério - Isso é uma gravação.
Marcelo - O RPM é uma boa banda tecno-pop. E a única no gênero no Brasil que tem um texto decente. Essa música era dos Secos e Molhados, se não me engano.
Karl - Era do João Ricardo.
Marcelo - Eles fazem bem o que se propõem a fazer. Esse disco não parece ao vivo.
Karl - Disco ao vivo gravado em Los Angeles!

"The Antichrist", Slayer
Gustavo - Gosto de rock progressivo
Marcelo - Pode ser Black Sabbath, Metallica, Quiet Riot... E heavy. Não tem muito o que falar disso - é heavy.

Um comentário:

adolpho disse...

bota pra fuder