14 de janeiro de 2008

Entrevista com Fê Lemos

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Saída de Dinho do Capital Inicial, entrada de Murilo Lima e os discos gravados com ele, ostracismo, Brasília, Renato Russo, Capital sem perspectiva, agenda vazia, falta de grana, Yves na banda em 96, volta de Dinho, saída de Murilo, incerteza de Flávio, a volta por cima, os planos para o Acústico, Bozo Barretti...
Em 2000 (acho eu), encontrei Fê no antigo apê dele e trocamos uma idéia bem legal, bem sincera e cheias de detalhes de uma época em que ninguém sabia onde estava o Capital Inicial. A certa altura Flávio apareceu por lá e participou em algumas perguntas.
Bastante longa, essa entrevista, ao lado da que eu fiz com Scandurra, é uma de minhas preferidas.
Quer ver todas as entrevistas postadas aqui é só clicar no arquivo de janeiro 2008


Paulo Marchetti - Quando o Dinho saiu da banda?
Fê Lemos
- Em fevereiro de 93, depois das férias, voltamos a ensaiar. Nessa época conseguimos um estúdio dentro de uma produtora de comerciais. Montamos nosso equipamento, mas sem o equipamento de voz. Então começamos a ensaiar sem o Dinho, pra sentir o estúdio e fazer algumas bases. Por volta de abril, mudamos de estúdio e fomos pra um que dava pra todos ensaiarem, com equipamento de voz e tudo. Quando mudamos, as coisas começaram a ficar estranhas, porque as músicas que tínhamos feito com Dinho, no final de 92, que ele mesmo tinha apresentado pra gente, ele não mostrou mais. Então começamos a tocar outras coisas, com letras que eu tinha feito e músicas do Flávio e do Loro. Ficamos lá ensaiando até o final de abril, quando o Dinho parou de ir aos ensaios. Nesse mesmo período, saiu uma nota no Jornal do Brasil, com foto do Dinho, dizendo que ele iria gravar um disco solo e nem a gravadora sabia disso. Juntei "A" com "B" e me toquei que aquelas músicas que ele tinha apresentado em 92, iria gravar em seu disco. A gente não queria esperá-lo gravar o disco dele pra depois gravarmos o nosso, então falamos que iríamos gravar sem ele.

Paulo Marchetti - Vocês estavam ensaiando pra que disco?
Fê Lemos
- Era pro segundo disco pela BMG, após o Eletricidade, que foi lançado em 91 e, em 92, saiu o Bozo. Isso nos obrigou a fazermos ensaios para adaptarmos as músicas sem o teclado e, nesses ensaios, surgiram algumas músicas do Dinho e também chegamos a ensaiar coisas que acabaríamos gravando no “Rua 47”.

Paulo Marchetti - Como foi a saída dele?
Fê Lemos
- Foi chata, por causa daquela nota no jornal. Eu, Flávio e Loro conversamos e decidimos falar com ele. Nós queríamos gravar o disco, tínhamos esse objetivo e soubemos que ele não queria grava-lo. Aí o comunicamos que iríamos fazer o disco sem ele.
A decisão final rolou depois de um show, realizado em maio de 93, no Circo Voador. Nesse show ouve uma discussão no camarim por causa de uma música que incluímos no set list e que Dinho não queria cantar. A música era “I Wanna Be Your Dog” e ele não queria cantar porque não lembrava da letra, mas acabamos tocando e, depois do show, rolou um quebra pau no camarim. Isso foi uma coisa chata.
O clima estava ruim e, não sei se foi nesse show ou no outro show, mas fui no quarto do Dinho e perguntei: “E aí Dinho, você vai fazer o disco com a gente ou não?” e ele falou que não ia. Na mesma noite eu informei o Flávio e Loro da decisão do Dinho.
Como havia uma agenda a cumprir até junho, continuamos tocando e já de olho em um novo vocalista. Logo depois tivemos um problema com nossa empresária e resolvemos não trabalhar mais com ela. Avisamos o Dinho de nossa decisão, mas ainda haviam uns 4 shows e ele falou que, se ela não fosse, ele também não iria. Nisso já tínhamos achado o Murilo.
No dia seguinte da saída dele, fomos até a 89 FM para uma entrevista e lá bolamos a promoção “Quer ser o cantor do Capital Inicial”, isso foi coisa do Loro. Choveu cartas e teve gente que mandou fotos vestindo apenas sunga (risos). Os shows com Dinho continuaram, mas já estávamos fazendo audição com algumas pessoas e, nesse processo, o Pipo, que hoje é o empresário do Charlie Brown Jr., nos apresentou o Murilo, que tinha uma banda chamada Rúcula e também já tinha cantado no U2 Cover.
Ele foi a um ensaio, falou que sabia tocar violão e perguntamos se ele sabia alguma música do Capital. Acabamos tocando “Kamikaze” e vimos que daria certo logo no primeiro momento.

Paulo Marchetti - E o que aconteceu?
Fê Lemos
- Mesmo sem vocalista, já estávamos ensaiando para o disco “Rua 47”. Foi nessa mesma época que tivemos o problema com a empresária e com Dinho. Isso foi na véspera de pegar um ônibus para fazermos os dois últimos shows e ligamos pro Murilo, em Santos, e ele veio pra São Paulo no mesmo instante. Ele pegou as músicas dentro do ônibus.

Paulo Marchetti - O que você acha dos dois discos gravados com Murilo?
Fê Lemos
- O “Rua 47” é de 94 e o “Ao Vivo” é de 96. O “Rua 47” eu acho fantástico, um disco brilhante. Foi muito esforço, nós quatro que bancamos, pagamos tudo. Eu tinha uma editora em sociedade com a Inês, que hoje é minha ex-mulher, e a transformamos em uma gravadora. Eu e Loro passamos a tomar conta do negócio, mas quem tomava conta mesmo era a Ines e a Fabiana (ex-mulher do Loro).
É um disco pesado. Depois de anos com problemas de guitarras não aparecendo, muito teclado e produtores mandando, finalmente podíamos gravar do jeito que queríamos. Então gravamos um disco pesado, com guitarras pesadas e letras pesadas. Tudo isso retratou o momento que estávamos passando, um momento tenso e um disco tenso. A música “Rua 47” fala de um cara que vai comprar droga na rua e o avião dele some com a grana, aí ele vai atrás e leva um tiro. O Loro mandou muito bem na guitarra e, até hoje, quando o ouvimos, ficamos impressionados.

Paulo Marchetti - Vocês queriam alguém parecido com Dinho?
Fê Lemos
- Não! Queríamos alguém que cantasse e nos convencesse.
Dando um pulo de quatro anos a frente, chegou um momento em que o Loro falou, que se o Capital não voltasse com a formação original, a banda iria acabar e que o principal problema era que os fãs sempre faziam comparações. Falou que na época da entrada do Murilo, tínhamos que ter mudado o nome da banda e começado do zero. Isso poderia ter dado certo, mas não há como saber.

Paulo Marchetti - A banda deu uma bela sumida...
Fê Lemos
- Com a saída do Dinho oficializada, a BMG rompeu o contrato. Aí preferimos gravar um disco primeiro, pra depois procurar gravadora. No final de 93 começaram as gravações e lançamos o disco em 94. Fizemos um acordo com uma distribuidora de discos e, a partir disso, começamos a trabalhar intensamente. Voltamos a tocar pelo Brasil inteiro, fizemos uma festa de lançamento, mandamos todo o material pra imprensa e cumprimos todo o ritual de uma gravadora pequena. A gente achava que teríamos um acesso a mídia, mas as portas se fecharam. Sentimos o poder da grana, íamos as rádios e tinha que ter jabá, mas não tínhamos dinheiro. Fizemos um videoclipe de “Lei da Metralhadora”, mas o clipe passou um mês, não teve muitos pedidos e perdeu sua força. Tem até uma história de uma fã que viu o clipe e começou a chorar, porque não era mais aquela banda que ela gostava. Todos esses anos com o Murilo, tivemos que lidar com isso, pois os fãs queriam o Capital como ele era.

Paulo Marchetti - Como era a agenda da banda? Vocês conseguiram dinheiro?
Fê Lemos
- Sim! Tocávamos todo final de semana, mantivemos a nossa média de shows, que era de dois por semana. Éramos bem recebidos nos lugares, fazíamos entrevistas e divulgação dos shows. O Murilo era uma coisa nova e, apesar da cobrança, as pessoas gostavam dele. Sempre perguntavam do Dinho, mas pra gente aquela era uma situação definitiva.

Paulo Marchetti - Vocês foram tocar no Acre...
Fê Lemos
- Foi uma loucura! Quando chegamos, vimos o local do show e não tinha a mínima condição de se tocar, o palco era precário, a iluminação eram quatro lâmpadas penduradas e o lugar estava cheio. No meio do show, um engraçadinho falou uma besteira qualquer, eu sai da bateria e fui atrás dele. Estávamos com os nervos a flor da pele. Estávamos sob uma pressão maldita. As pessoas compravam nosso show esperando aquela imagem dos primeiros discos e não era nada daquilo. Apesar disso nos divertimos muito.

Paulo Marchetti - Vocês chegaram a tocar em algum outro país da América do Sul?
Fê Lemos
- Tocamos no Paraguai, numa cidade de fronteira. Tocamos em muitos lugares que nunca tínhamos ido. Aceitávamos shows em lugares distantes, tínhamos que trabalhar. Essa época estava ruim até pras outras bandas. Tocamos muito pelo Sul.

Paulo Marchetti - Em algum momento vocês pensaram em desistir?
Fê Lemos
- Não! Inclusive nosso show estava redondo, tocávamos “Podres Poderes”, do Caetano Veloso. É engraçado, porque o Dinho tem o maior bode de Caetano e, de repente, estávamos tocando Caetano. Isso foi uma coisa que o Murilo trouxe pra banda, pois ele gosta de MPB.
Como o show estava muito bom, decidimos gravar um disco ao vivo com músicas do começo e algumas do “Rua 47”. Também entraram duas músicas de estúdio inéditas. Esse disco foi gravado em uma só noite, num show em Santos.
Nesse dia caiu um temporal em Santos. A água quase invadiu o local do show, faltaram dois dedos pra ela subir. Foi um desespero, porque eram oito da noite e o som não tinha chegado, a mesa de som chegou as nove e passamos o som as onze e meia, com gente esperando na porta. Foi muita correria e foi um grande show. Também gosto muito desse disco. Ele foi lançado em 96 e 97 foi um ano muito ruim pra gente.

Paulo Marchetti - Por quê?
Fê Lemos
- Em 95 a sociedade com Ines se desfaz e meu casamento termina. A Fabiana continua sozinha e mantivemos o escritório funcionando, mas no final de 96, ela e o Loro se separaram. Entramos em 97 com Loro dizendo que seria o empresário do Capital (risos). Fizemos dois shows no primeiro semestre de 97 e ficou todo mundo sem grana. No meio de 97, fizemos um show em Brasília e o Loro resolveu ficar por lá.

Paulo Marchetti - Como vocês sobreviveram com apenas dois shows?
Fê Lemos
- Eu tinha um estúdio, que tinha montado em 96. Nesse estúdio o Capital ensaiava e guardava o equipamento. Eu ganhava uma grana com ele e com o aluguel de um apartamento meu.
O Flávio fez uns bicos, o Loro eu não sei e o Murilo tinha o apoio da família.
Em 97 o Loro começou a falar que só daríamos certo se voltássemos com o Dinho, pois não tínhamos conseguido se firmar do jeito que estávamos. Eu achei um absurdo e o Flávio foi totalmente contra. Porra, não podíamos fazer uma coisa dessas com Murilo, que tinha vestido a camisa e feito muito pelo Capital inicial.

Paulo Marchetti - O Loro chegou a sair da banda?
Fê Lemos
- Não, ele deu um tempo porque queria voltar a tocar com o Dinho e pôs na nossa mão a decisão de continuar o Capital sem ele. Chegamos a fazer uns três shows com outros guitarristas. Foram dois shows com o Yves Passarel (ex-Viper) e um show com o Luís Carlini (ex-Tutti Frutti) e foram ótimos. O Yves fez vários ensaios com a gente e foi muito bom. Com o Carlini, foi uma honra tocar com um monstro sagrado do Rock brasileiro, mas o Carlini não estava com cabeça de aprender 18 músicas e não foi como se ele estivesse na banda.

Paulo Marchetti - Quem chamou o Yves?
Fê Lemos
- Ele já tinha gravado um solo de guitarra no disco “Rua 47” e saíamos à noite. Sempre nos encontrávamos.

Paulo Marchetti - Então o Loro não saiu?
Fê Lemos
- Não, ele estava dando um tempo. Até porque ele estava com o filho, morando na casa de um amigo...

Paulo Marchetti - Você acha que a morte do Fejão* mexeu com a cabeça dele?
Fê Lemos
- Mexeu, pois Fejão era como um irmão para o Loro. A morte dele foi uma porrada pra todos nós. Ele trabalhou um ano de roadie com a gente, ele era uma figura maravilhosa. Tudo isso bagunçou a cabeça do Loro.
* Fejão foi guitarrista da banda Escola de Escândalo, vizinho do Loro e era amigo do Capital desde o início da década de 80. Tinha um grande talento para guitarra e morreu em 96.

Paulo Marchetti - Vocês percebiam essa queda do Capital?
Fê Lemos
- Sim! Apesar de em 94, 95 e 96 estarmos fora da mídia, os shows continuaram, então tínhamos a perspectiva de crescer novamente. Mas não foi isso que aconteceu, pois nossas cabeças não estavam boas. Só o fato do empresário ser minha mulher... tipo o dono do hotel liga pro escritório pra falar que a banda fez muita farra...

Paulo Marchetti - E essas farras realmente aconteciam?
Fê Lemos
- Não era uma regra, mas acontecia. Chegou uma hora que tudo explodiu.
Na verdade, parecia que estava tudo meio planejado...

Paulo Marchetti - Você acompanhou a carreira do Dinho? Ouviu os discos dele?
Fê Lemos
- Não acompanhei e não ouvi os discos. Eu parei de falar com Dinho...

Paulo Marchetti - Pois é, vocês ficaram cinco anos sem se falar...
Fê Lemos
- O Dinho saiu em 93 e acabou. Não troquei uma palavra com ele em 93, 94, 95 e 96. Em 97 o Loro começou a dizer... ele é perspicaz, vê as coisas antes dos outros, embora pareça maluco. Ele sentia a pressão dos fãs e começou um buchicho de que gravadoras estariam interessadas na volta do Capital e o Loro foi o primeiro a falar dessa idéia. A princípio eu e Flávio ficamos chocados, mas com o tempo comecei a refletir essa idéia. Muita coisa passou pela minha cabeça, até mesmo mudar o nome da banda e começar de novo. Mas eu pensei que, se fosse pra isso acontecer, tínhamos que ter feito na entrada do Murilo. Pensei no Loro e no Dinho tocando juntos e eu e Flávio tocando no Capital. Não faria sentido fazer isso. E o nosso legado? Todos esses anos jogados pela janela, ainda mais num país que faz um desserviço a memória do Rock nacional.
Nesses anos todos o Loro e o Dinho não perderam o contato. Eu percebi que esse negócio de não falar com o Dinho era pura besteira e quem deu um empurrão pra eu falar com o Dinho, foi o Robério (ex-Camisa de Vênus). Estávamos numa festa no BASE, ele chegou e me perguntou se era verdade que eu não falava com Dinho. Eu disse que era e ele me perguntou se eu não achava isso uma bobagem? Eu disse que achava. Aí eu fui até o Dinho, o cutuquei, ele me olhou e falei pra ele que não havia nenhuma mágoa e isso quebrou o gelo entre nós mas, pra mim, a idéia dele voltar pra banda ainda era absurda. Passei a ligar pra ele e um dia perguntei sobre os boatos da volta e ele me falou que realmente haviam algumas pessoas interessadas. Ao mesmo tempo em que esses boatos cresciam, víamos que o Capital, do jeito que estava, não iria chegar a lugar algum. Estávamos sentindo, cada vez mais, a pressão pra uma volta.
No fim de 97, já começamos a pensar nessa possibilidade até porque, em 98 o Capital faria 15 anos, pois contamos desde quando Dinho entrou, em 83. Também em 98, o Punk Rock brasiliense completaria 20 anos, pois em 78 surgiu o Aborto Elétrico, e esses ganchos todos nos animaram pra uma volta, pra uma turnê comemorativa.
O Flávio foi o último a topar e, a partir disso, tínhamos que comunicar o Murilo de nossa decisão. O Flávio ficou incumbido de falar com ele e foi uma coisa super chata. É claro que o Murilo ficou tristíssimo.

Paulo Marchetti - O Murilo sabia dessas conversas e negociações?
Fê Lemos
- Sabia. Teve uma vez que eu liguei pro Dinho na frente do Murilo, lá no meu estúdio. Quando desliguei, expliquei tudo que estava acontecendo, mas que não havia nada de concreto. O fator decisivo foi o dia em nós quatro resolvemos nos encontrar.

Paulo Marchetti - Quando foi isso?
Fê Lemos
- Foi em 98, logo após o carnaval. O Murilo ficou super sentido e ficamos uns seis meses sem se falar, mas depois tudo passou e voltamos a ter contato. O Murilo percebeu que essa era a única saída, viu que era o caminho natural e, finalmente, ele encontrou o caminho dele. Hoje em dia está com uma banda e um show muito bom. Ele está atrás de uma gravadora e talvez lance um CD que será vendido em bancas, como o do Lobão. Somos amigos novamente, já vi show dele e ele viu nossos shows, inclusive o Acústico.

Paulo Marchetti - Ele conhece o Dinho?
Fê Lemos
- Conhece, mas o Dinho ainda tem uma resistência...
Quando falamos sobre convidados pro Acústico, o Murilo foi a primeira pessoa que eu quis chamar. Se o Capital está aí até hoje, é graças a ele. Eu ainda penso em convida-lo pra alguma coisa e tocar algumas músicas do “Rua 47”, que é um disco maravilhoso e que não pode ficar esquecido.

Paulo Marchetti - Desde que Dinho voltou vocês não tocaram nada desse disco?
Fê Lemos
- Não.

Paulo Marchetti - O Dinho não quis?
Fê Lemos
- Logo na primeira reunião da volta, a gente pensou: se fossemos mexer no passado, cada um ia querer cobrar o que o outro tinha feito de errado, todos os podres. Cada um tem sua culpa, seus erros... então se fossemos ficar lavando roupa suja, não iríamos andar pra frente. Resolvemos olhar só pra frente.

Paulo Marchetti - E como está sendo?
Fê Lemos
- Estão todos calmos e felizes. Estamos tendo uma segunda chance e não podemos desperdiça-la. Estamos tratando esse momento com o máximo de respeito e consideração. Ninguém mais tenta impor nada pra ninguém, o que importa é a direção coletiva. O Dinho deixou claro que quer nos ver falando e que não seja só ele e, embora ele seja um tagarela (muitos risos), isso está acontecendo.

Paulo Marchetti - Qual está sendo o papel de cada um?
Fê Lemos
- Eu cuido da parte de internet. O Dinho encontrou uma parceria com o Alvin L. (ex-Sex Beatles). O Flávio teve problemas pessoais e também se separou da mulher e agora está morando comigo...
O engraçado é que, em 98, tivemos que fazer um disco relâmpago. Pegamos as idéias que todos tinham na gaveta, fizemos o disco e caímos na estrada. Na verdade ninguém tem um papel definido, somos realmente uma banda. Houve um amadurecimento.

Paulo Marchetti - Há uma característica nas bandas de Brasília dos anos 80, que é a preocupação com as letras. Vocês já falaram sobre tudo?
Fê Lemos - Não, ainda temos muito o que falar. É claro que não iremos mais fazer músicas como “Autoridades” e “Veraneio Vascaína”, já demos nosso recado.

Paulo Marchetti - Porque vocês optaram por gravar o Acústico?
Fê Lemos
- Era a hora certa para fazermos isso. Nunca tínhamos gravado, ao vivo, essas músicas com o Dinho. Temos um ao vivo com Murilo, mas é um retrato daquela época.
No início não pensávamos em fazer o Acústico, mas começamos a pensar na razão de um disco ao vivo. A idéia do Acústico veio pelo fato de parecer um desafio e o Capital sempre teve um lado canção, pois já tocávamos músicas românticas ainda na época de Brasília, no início dos anos 80, sempre tivemos as baladas com violão como “Belos e Malditos”...

Nesse momento, Flávio apareceu e aproveitei para fazer algumas perguntas:Paulo Marchetti - O Fê me falou que em 97 foi um ano ruim pro Capital e que tiveram poucos shows. O que você fazia pra arrumar dinheiro?
Flávio - Em 97 eu comecei...
Fê Lemos - Em 97 foi quando fizemos dois shows no primeiro semestre e que o Loro voltou pra Brasília... lembrou de sua profissão alternativa?
Flávio - Mas isso foi em 98...
Fê Lemos - 97, Flávio...
Flávio - Não, 98...
Fê Lemos - 98 a gente voltou a tocar com o Dinho...
Flávio - Mas eu arrumei emprego... Bom, 97 foi complicado, não tinha dinheiro, não tinha nada. Eu comecei a investir em fotografia, porque era uma coisa que eu sabia fazer, mas isso era um investimento a longo prazo e, ainda hoje ainda não consegui dinheiro com isso. Já fiz uma exposição, ainda faço alguma coisa. Em 98 eu precisei arrumar um emprego e acabei sendo motorista bilíngue. Eu trabalhava para algumas multinacionais, pegava os gringos no aeroporto e os levava pro hotel ou outro lugar...
Fê Lemos - Isso não foi em 97?
Flávio - Não, em 98. Comecei em janeiro e... quando começamos a ensaiar com o Dinho?
Fê Lemos - Começamos em abril...
Flávio - Pois é... trabalhei esses meses, mas quando voltamos a ensaiar, eu tive que parar com isso, senão não pararia. Começamos a ensaiar todos os dias e eu tive que ligar e dizer que não dava mais. O ritmo era pesado, trabalhava até 16 horas por dia, porque eu ganhava de acordo com que eu rodasse, então eu não recusava nada. Ao mesmo tempo, eu fazia traduções e cheguei a virar duas noites.

Paulo Marchetti - Você foi o último a topar a volta do Dinho. Por quê?
Flávio - Primeiro porque eu não acreditava que pudesse acontecer alguma coisa a mais, o Murilo era muito meu amigo e continua sendo, apesar de toda a chateação de sua saída. Ele foi o último a saber de tudo, eu que liguei pra ele...
Fê Lemos - Você não se lembra daquele telefone no estúdio? Que eu falei com Dinho e estavam você e o Murilo... ele já sabia de alguma coisa.
Flávio - Ele sabia e até falou que se fosse pra voltar com Dinho, por ele tudo bem. O problema é que a coisa toda foi armada sem que ele soubesse, enfim, não foi claro pra ele.
Eu liguei pra ele e falei que faríamos uma reunião com Dinho e que, talvez, pudesse rolar alguma coisa. Até aquele momento, vejo hoje que eu estava enganado, achava que se fosse ter algum interesse pelo Capital, porque não seria com o Murilo? Ele tinha qualidade... hoje eu consigo ver como as pessoas enxergavam o Capital sem o Dinho, que não era Capital. Talvez se tivéssemos outro nome, poderia até acontecer alguma coisa. O Capital é aquilo, é a voz do Dinho.

Paulo Marchetti - Você ficou em contato com ele?
Flávio
- Não. Eu acho que o lado bom é que voltamos na hora certa. Talvez se tivéssemos voltado antes, teríamos diminuído esse tempo de sofrimento que passamos... ou não, porque também não basta voltar.

Paulo Marchetti - Então você viu que estava errado?
Flávio - Sim, eu vi que a banda era essa que está aí. Eu tinha uma amizade muito grande com o Murilo e ele também tinha batalhado muito pela banda e acho que a gente, simplesmente, não podia fazer isso... mas agora que passou, o Murilo está com a carreira dele, que é a cara dele e que tem uma qualidade absurda, o som dele eu acho impressionante e acho que ele vai se dar bem. Foi melhor assim. Acho que a banda é uma entidade...
Fê Lemos - É maior que a soma dos quatro...
Flávio - Todos são importantes. O mercado estava querendo isso. Nós ficamos anos sem empresário, porque ninguém via potencial em nós. As pessoas não se davam o trabalho de nos ouvir, porque achavam que o Capital sem o Dinho não era. Rolava um preconceito e o fato é que, quando voltamos com Dinho, surgiram propostas de todos os lados e todos os tipos.
Acho que é isso.

Paulo Marchetti - Voltando a nossa conversa, estávamos falando sobre a opção pelo Acústico...
Fê Lemos
- Nossos quatro primeiros discos estão fora de catálogo e isso foi um dos principais motivos. A Polygram, atual Universal, nos faz o desserviço de não lança-los. Então, pras pessoas que estão descobrindo o Capital agora, não tem como ouvirem as músicas ou comprarem nossos discos. Essa era a oportunidade, o momento de regravar algumas coisas daquela época e mostrar que temos uma história. Porque a gravadora não lança os discos, pois ela é dona das matrizes. Teríamos que ter uma batalha judicial e não é isso que queremos. Pudemos gravar coisas que ninguém mais tinha e que não estavam mais disponíveis.

Paulo Marchetti - O que você acha da cena atual de Brasília?
Fê Lemos
- É engraçado porque já tem uma tradição de bandas que já existe a 3 décadas e a cidade ainda é nova. Ela não tem um lado histórico como Rio, São Paulo e Salvador. Brasília não tinha tradição, era um quadro branco e as bandas brasilienses estão criando uma tradição de música jovem e moderna. Eu não tenho ouvido nada de novo pra poder indicar, mas só o fato de ter o Festival Porão do Rock, mostra que existe uma efervescência.

Paulo Marchetti - O que você acha do fato de as gravadoras não lançarem em CD as bandas que elas deixam fora de catálogo?
Fê Lemos - É uma tremenda sacanagem! Elas mostram o pouco caso com a cultura brasileira e fica claro que elas só pensam no marketing, na grana, na venda de discos e não algo em nome da cultura, da informação e da memória. As gravadoras estão aqui pra fazer dinheiro e manda-lo para suas matrizes. Se não vão lançar, então libera, né? Mas eles não lançam e não liberam! Nós temos que relançar nossos discos, mas não queremos brigar, queremos um acordo.
Tem muitas bandas que também sofrem com isso, tem muita coisa fora de catálogo. Eu não consigo entender... é um desserviço ao Rock nacional.
Na época em que lançamos o “Rua 47”, a Polygram foi e lançou “O Melhor de Capital Inicial”, então foi assim: estávamos com disco novo, mas era a coletânea da Polygram que vendia. Quando fomos lançar o “Atrás dos Olhos”, a Polygram lançou a série “Milenium”. É coincidência ou é sacanagem?
Eu gostaria de ter, em todos os shows, uma banquinha que vendesse todo nosso catálogo. Como reflexo disso, o que acontece? Os sites que tem mp3, estão crescendo e os fãs estão pondo todo o catálogo do Capital disponível. Tem uma fã que me falou de um cara que terá tudo do Capital, inclusive o Acústico. Tem até Aborto Elétrico!

Paulo Marchetti - Você tem tido contato com Bozo Barretti (ex-tecladista do Capital Inicial)?
Fê Lemos
- Nenhum contato.

Paulo Marchetti - Como foi a saída dele?
Fê Lemos - A saída do Bozo foi brigada. É engraçada a história do Bozo, porque... o Bozo e o Dinho formaram um time. Pra mim, eles formaram uma entidade dentro do Capital Inicial. Todo mundo falava que tínhamos que tirar o Bozo da banda e eu achava loucura. Só que estávamos naquela trajetória descendente... a entrada do Bozo deu aquele desequilíbrio de quatro Punks de Brasília tendo que lidar com um cara que é maestro e isso trouxe um conflito. A história interessante é que ele entrou no segundo disco, que foi uma mistura de coisas novas e velhas; aí o terceiro é um mergulho fundo no Technopop e até ocorre uma divisão na banda. O Dinho se trancou na casa do Bozo e depois eles chegaram com umas músicas pra tocarmos. Ouvimos aquilo e falamos que não sabíamos tocar e eles falaram: “mas é isso aí, a Dance Music está vindo e agora tem que ter ‘beat’”.
O quarto disco já vem com um pouco mais de guitarra pesada. No quinto os teclados já saem bastante de cena e o Bozo passa a tocar violão também. Nesse momento já havia um pouco mais de equilíbrio na banda, só que, pessoalmente, as coisas não iam bem. A pressão pelo fato de estarmos vendendo menos discos, da mudança de gravadora e ainda a BMG mandou uma música de encomenda que nós não aceitamos. Daí ela retirou todo o apoio de daria pra gente, tanto que os clipes que a gente faz, “Kamikaze” e “Passageiro”, são clipes que saíram dos nossos bolsos. Nos shows já havia insatisfação e eu não via isso! O Dinho já estava insatisfeito. Pra minha surpresa, ele queria voltar a ser Rock’n’Roll.
Em 92 teve um show em São Paulo, no Vale do Anhangabaú, pra 50 mil pessoas, era uma série de shows que estavam acontecendo por lá. Ficamos no camarim, bebendo e o show começou com Dinho e Loro bêbados. Eu estava irritado e toquei o show inteiro de cabeça baixa e, quando olhava o Bozo, via fumaça saindo da cabeça dele. Saímos do show e tudo explodiu, o Bozo falou que tinha vergonha de nós, porque chamava seus amigos pra verem o show e nós o deixávamos envergonhado e encerrou falando que estava fora “dessa porra”. Falou isso na frente dos quatro e foi embora. No dia seguinte nós quatro nos reunimos e decidimos pela saída dele. Ficamos espantados porque até o Dinho, que defendia aquela coisa toda, não aguentava mais tocar com ele. Mas tudo que sei de música eletrônica, eu devo ao Bozo.
Diz a lenda que, nessa volta do Capital, o Bozo chegou a ligar para o Dinho, mas ele falou que era uma coisa entre os quatro ex-Punks de Brasília. Tem muita gente que conheceu a banda só a partir dos primeiros discos, imaginava que o Capital sempre tivesse sido um quinteto.
Eu até cogitei chamar o Bozo, mas o Dinho e o Loro falaram que tinha que ser só os quatro, pra recuperar toda nossa história.

Paulo Marchetti - A morte do Renato Russo ajudou, de alguma forma, para essa volta?
Fê Lemos
- Ela ajudou a pensarmos em tudo que tinha acontecido, o que tínhamos feito e no que estávamos fazendo. Ela mexeu com nossa cabeça. Mas o que mais me marcou foi que não tive oportunidade de conversar com ele, de vê-lo novamente. Eu nem sabia que ele estava doente! Quando me falaram que tinha uma enfermeira na casa dele, pensei que fosse por causa de suas crises de depressão, que eram fortes.

Paulo Marchetti - Teve aquela discussão entre Renato e Capital...
Fê Lemos - O Renato foi meu padrinho de casamento, não tinha motivo pra brigar com ele. Fomos muitos amigos nos primeiros anos de Brasília, mas quando houve nossa “profissionalização”, a Legião foi pro Rio e nós pra São Paulo. A partir daí nos vimos muito pouco, uma vez por ano e, as vezes, nem isso. Eu cheguei a telefonar pra ele algumas vezes, mas sempre caía na secretária eletrônica. Ele nunca atendia telefone, ouvia o recado e atendia se quisesse. Nos encontramos uma vez em Brasília e uma no Rio.
Em 91, a BMG queria que gravássemos, de qualquer jeito, uma música do Renato, então eu e Loro fomos pedir `a ele e acabou rolando essa história de que Renato falou que não éramos mais uma banda... mas não ficou nenhum clima.
Ele detestava São Paulo e ficava aqui o mínimo possível.

Paulo Marchetti - Onde você estava quando ele morreu?
Fê Lemos
- Eu estava em Porto Alegre e, na madrugada de sexta pra sábado, quando ele morreu, peguei um ônibus para Blumenau. No dia seguinte, no hotel, eu estava lá deitado e a Ines me ligou e disse que Renato havia morrido. Eu fiquei chocado. Uma semana antes eu tinha ligado pra ele e deixado recado, dizendo que precisávamos nos ver, pois queria entregar o caderno dele (com letras do Aborto), pois sabia que ele o queria. Esse caderno ficou comigo porque o Renato esqueceu de pega-lo, pois quando ele foi embora de Brasília, pegou de volta todas as coisas que tinha emprestado para os amigos: posters, discos, fitas, mas o caderno ele não pegou e ficou comigo. Quando me mudei pra São Paulo, pus o caderno no fundo de um baú e me esqueci dele.
Quando soube que ele estava atrás desse caderno, o botei a disposição, mas queria ter entregado em mãos. Aí, uma semana antes dele morrer, liguei pra ele e disse na secretária, que gostaria de vê-lo novamente, voltar a ter contato...

Paulo Marchetti - Quais os planos, a longo prazo, do Capital Inicial?
Fê Lemos - Bom, acabamos de gravar o Acústico e eu fiquei muito feliz com ele. Agora sairemos em turnê e posso dizer, seguramente, que esse é um dos melhores discos que fiz em minha carreira. Eu ouço algumas coisas e fico emocionado, ele é um disco simples, é a nossa cara. Até hoje somos Punks e até hoje estamos aprendendo a tocar (risos) e gostamos de tocar o que sabemos. Outro disco só em 2002.

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