13 de janeiro de 2008

Entrevista com André Mueller

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Em 2000 após sete de MTV Brasil, saí da emissora e fui ser editor de música de um site chamado TantoFaz.net que hoje não existe mais. Naquele ano inclusive ganhamos o prêmio IBest de Melhor Site Para Adolescentes. Bom, o fato é que entrevistei muita gente legal. Muitas dessas entrevistas perdi, mas outras acabei encontrando em disquetes que julgava perdidos. Aqui a conversa é com André Mueller, baixista e fundador da Plebe Rude e também um dos fundadores da famosa Turma da Colina, de Brasília. Aproveitei a passagem da banda pelo SESC Belenzinho e trocamos essa idéia durante a passagem de som. Ela data do primeiro semestre de 2000...

Paulo Marchetti - Quando começou essa história da Plebe voltar?
André
: Na verdade começou em quatro pontos diferentes, porque os quatro tiveram essa idéia. Cada vez que um encontrava o outro, sempre falávamos “pô, a gente podia voltar, vamos fazer mais shows” . Eu lembro que uma vez encontrei o Jander numa festa da UNB (Universidade de Brasília), aí ele falou naquele jeito dele fechado, mas aberto também “a gente podia voltar, encontrar com o Gutje no Rio”.

Paulo Marchetti - Isso foi quando?
André: Foi entre 95 e 96. Daí começou a comunicação em internet. Tirando o Jander que não tem, eu o Philippe e o Gutje mantínhamos contato por e-mail e daí veio a idéia de tocar no festival Porão do Rock. Então o pessoal que organizou o festival queria a volta da Plebe e falaram que iriam patrocinar, só não poderiam pagar cachê, mas toda a estrutura eles ofereceram. Foi uma volta complicada porque o Jander tava trabalhando e não queria voltar. Aí rolou aquele mágoa porque os três se reuniram primeiro, antes dele… ele exigiu umas coisas e tudo o que ele queria, a gente fez, porque sabíamos que ele tinha sido o mais prejudicado com o fim da banda.


Paulo Marchetti - Como foi esse Porão do Rock?
André
: A gente ensaiou duas horas antes do show, depois de dez anos sem tocar os quatro juntos. O legal é que tinha umas vinte mil pessoas e foi o show mais emocionante da minha vida.

Paulo Marchetti - É mesmo? Por quê?
André: Porque quando a Plebe terminou…, o último show foi em 94, na praia de Ipanema… a gente fechou um show do IRA! lá pra rádio Mundo Mix. Eu me senti frustrado. Maior clima aquilo, porque eu olhava em volta e só tinha o Philippe tocando, entendeu? Tinha um primo dele tocando guitarra que não tinha a ver com a Plebe, nepotismo na Plebe…(risos). Tinha também um roadie nosso que era muito bom, mas também que não entendia…acho que não basta ser bom músico, você tem que interagir. Então eu saí frustrado, cara. Daí estudei, estudei e, no começo do ano, eu voltei pro Banco Central e pra Brasília. Pra mim aquilo tinha sido o pior fim que poderia ter tido. Esse show que teve no Porão do Rock, pra mim, foi a verdadeira despedida da Plebe. Eu estava satisfeito. Tanto que no dia seguinte a gente fez uma reunião pra decidir se a banda ia continuar ou não, porque a Abril Music estava interessada.


Paulo Marchetti - E uma nova turnê?
André
: O Haroldo era pra ser o empresário, que trabalha com o Capital Inicial. Mas acho que o que ele queria era fazer dobradinha com o Capital e vender shows pra caralho. E não era bem isso que a gente tava conversando esse tempo todo. Era pra ser uma volta pra gente tocar uns quatro, cinco meses. A gente não queria mostrar material novo ainda, sabe? Só que o Haroldo nunca entendeu isso. Daí teve uma reunião só com os quatro. O engraçado é que tava todo mundo querendo, mas meio com pé atrás, e eu deixei claro que, se não fosse como a gente queria, eles podiam voltar que eu não ia querer não, na boa. Daí veio o Rafael que sacou tudo. Ele interveio e ofereceu um contrato da EMI, de um disco só, um ao vivo… com a Abril era um contrato de três anos, cinco discos. O Rafael disse: “vamos fazer esse disco e vamos fazer uma turnê”. A gente quer fazer uma grande turnê e passar por todo o Brasil.


Paulo Marchetti - Quanto vai durar essa turnê?
André
: Ela deve começar em meados de julho e deve ir até fim de setembro e, se der tudo certo, até dezembro.


Paulo Marchetti - E esses shows que vocês estão fazendo?
André
: São shows esporádicos que a gente faz quando achamos que vale a pena. A gente fez o Abril Pro Rock, fez um festival em Brasília. Coisas grandes e pontuias só. E a partir disso uma turnê mesmo e pronto. Isso por enquanto, né? Agora o legal disso é que a gente não tem nenhuma obrigação com o futuro, que nem eu vejo várias bandas da nossa época que voltaram…eles ficam ressentidos que só o passado faz sucesso e eles querem alguma coisa nova. E é essa a pressão da gravadora, que quer que o grupo lance músicas novas. A gente não tem disso. Tocamos por diversão, fazemos um retrô, no bom sentido, do jeito que era feito nos anos 80, como éramos.


Paulo Marchetti - Qual está sendo o público de vocês? É adolescente ou é o pessoal daquela geração?
André
: É uma mistura muito grande. Tem gente que é daquela geração e tem gente que conheceu através do tio, do irmão. E é muito gozado porque, apesar de a gente não fazer comparações, sempre tem a comparação com as bandas de hoje em dia como Raimundos, Charlie Brown… que têm aquele refrãozinho que pega e finge ser rebelde, com pose de moderno e posar pra capa da revista Jovem Pan, ou remixar uma música pra Jovem Pan, porque a rádio não aceitou a guitarra mais em cima, então se coloca a voz mais em cima. Isso eu acho ridículo, cara. Eu tenho ouvido muitas críticas do pessoal mais novo, porque os velhos nem dão muita atenção assim pras essas bandas. Por exemplo, o Raimundos só a 89 e a Brasil 2000 tocaram. De repente, a Jovem Pan começa a tocar e eles levam todo o arsenal Raimundos pra lá, e esquecem quem deu apoio desde o começo. Quer dizer, quando a Joven Pan resolver que Rock já não é mais a sensação, e que essa sensação vai ser o axé, será que os caras vão voltar pra 89 dizendo, “ah, aqui é nossa casa”? Vai ficar feio.

Paulo Marchetti - Nesses shows esporádicos, tem saído músicas novas?
André: A gente tá falando muito né…cada um foi pra um lado musical diferente. Eu ficaria muito feliz em ter um novo disco da Plebe, acho que a gente teria que sentar e ficar um ano trazendo material. Eu acho, em primeiro lugar, que um novo disco da Plebe seria decepcionante para aqueles fãs dos anos 80, que iam querer um segmento mais antigo e não é isso. Eu, por exemplo, traria muita influência do drum’n’bass e eletrônico. O Jander tá escutando muita música regional, ele me mostrou um material dele que seria excelente trabalhar em cima. O Philippe é o que mais continua nos anos 80 e o Gutje também, ele tá ouvindo o que sempre ouviu: Clash, etc. Eu adoraria fazer uma mistura, já tenho na minha cabeça uma versão drum’n’bass de “A dança do semáforo” (antiga composição da Plebe, nunca gravada) que eu acho que seria maravilhoso, tirar aquele baixo Cure e fazer uma coisa mais grave. Estaria muito curioso pra ver, acho que a gente ia decepcionar e surpreender muita gente por aí.

Paulo Marchetti - E aquele instrumento que o Jander toca?
André: É de um cara do Rio Grande do Sul, chamado Charuti. O Jander trabalhou com a equipe do Engenheiros do Hawai, que faz instrumentos. Daí o Jander pediu pra ele construir essa viola de dez cordas e o som ficou melhor do que a outra viola que o Lulu Santos deu pra ele. E ficou muito legal. No disco dá pra reparar músicas como “Este ano”, “O outro lugar”, “Roda Brasil”. Pra mim a grande novidade do disco é a viola. E o Jander tá tocando pra caralho, é com quem eu mais me identifico musicalmente, porque ele me mostra muito as coisas dele e, por ele estar tocando muita coisa regional, e eu ouvindo eletrônico, a gente fica trocando informações e letras.


Paulo Marchetti - Tem algum motivo específico para o nome do último CD “Enquanto a Trégua não vem – Ao Vivo”?
André
: É uma frase da música “Johnny Vai à Guerra” e é justamente isso aí. Estamos com vários conflitos dentro da banda e mesmo assim a gente consegue fazer música nova. Acho que esse antagonismo que existe dentro da Plebe gera isso.


Paulo Marchetti - Ficou algum ressentimento entre você e o Gutje, ou entre você, Philippe e o Jander?
André
: As duas brigas que aconteceram foram basicamente Philippe e Jander e eu e o Gutje. Foi coisa da época, como briga de irmão que rola e depois passa. O Philippe e o Jander são muito de evitar confronto… se eles se confrontassem uma vez e tivessem aquela briga, resolveria tudo. Mas, ficam os dois pisando em ovos e os dois ficam putos e reclamam com outras pessoas. Então, esse ressentimento existe e não existe. Essa coisa do humor da Plebe que, na verdade, é o humor da turma de Brasília, cara, quando esse espírito desce…, são os quatro irmãos… que nem naquela época.

Paulo Marchetti - Vocês estão ensaiando?
André: A gente ensaiou pra caralho. Pra gravar o disco a gente ensaiou exatamente vinte e nove dias sem parar, seis horas por dia. Nunca ensaiamos tanto. E, antes de cada show, a gente dá uma ensaiada. As músicas que não entraram no disco, a gente vai fazer uma seleção.

Paulo Marchetti - De quem foi a idéia de gravar “Luzes”?
André: Na verdade, “Luzes” é do Bernardo, que eu acho, não por ser meu irmão, suas letras muito existenciais e tal, muito legal. Eu nunca entendi porque a EMI recusou aquela fita Demo do Escola de Escândalo, que foi gravada lá. Até foi gozado porque, no mesmo que dia que eles recusaram Escola, também recusaram Voluntários da Pátria, essa porque o cara era muito velho…hoje tem Lenine com quarenta e poucos anos aí estourando…pô, rídiculo recusar uma banda por causa da idade, cara.


Paulo Marchetti - Você abandonou o Banco Central?
André
: Não. Tô no Banco Central ainda, conciliando. Eu fiz um acordo com meu chefe, eu tirei férias e trabalhei as férias inteiras; como os shows são de fim de semana, eu saio mais cedo na sexta..

Paulo Marchetti - Você tem planos de fazer algo paralelo a Plebe?
André: Tenho. Eu e o Balé(ex-baterista do Escola de Escândalo) estamos fazendo algumas coisas.

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