13 de outubro de 2016

Série O Resgate da Memória: 48 - Anarquia em RJ (Pipoca Moderna, 1983)

Ando em falta com o meu querido Sete Doses de Cachaça, mas ele jamais morrerá! Depois de praticamente 3 meses....


Até o início dos anos 1990 era difícil obter informação sobre nossos ídolos musicais. Já escrevi sobre isso aqui no Sete Doses. Era praticamente impossível ter notícias quentinhas e montes de imagens pra ver. Se o próprio disco era difícil de ter....

Por isso, uma notícia novidade durava muito, durava meses. Informações mais precisas e detalhes eram ainda mais impossíveis, mesmo para jornalistas. Uma banda mudava a formação e só íamos saber meses depois, isso se a banda fosse já um tanto conhecida.

Essa reportagem assinada pelo antropólogo, pesquisador e escritor Hermano Vianna (irmão de Herbert, do Paralamas) e com fotos de Maurício Valladares é uma daquelas históricas do início dos anos 1980, e que marcou a curta vida da revista Pipoca Moderna (contando junto a Mixtura Moderna).

É um texto típico daquele período de ditadura militar, de tédio juvenil, um pouco ranzinza e rebelde; de querer ser do contra. Fala mal do Rio, da própria Globo – onde hoje trabalha (nada contra!), e questiona até mesmo o punk fora da Inglaterra.

Nesse texto bastante emblemático pelas gírias e sua forma (“...fichas telefônicas para transar badges...”, “...o ultrapassado heavy metal”...), Hermano dá detalhes do que foi o início do movimento punk carioca, que nunca teve a mesma força dos movimentos de São Paulo e Brasília, por exemplo.

Há outras reportagens que transcrevi e que fazem parte dessa Série O Resgate da Memória que também mostram textos que são o retrato do período, tanto dos anos 1980, quanto dos anos 1960 e de 1970. A linguagem, as palavras e gírias, as colocações pessoais, isso tudo é muito interessante, que marca um período. Fazendo um paralelo, é como escutar uma gravação dos anos 1960, outra dos anos 1970 e outra dos anos 1980.

Escolhi tirar do baú essa reportagem sobre o (praticamente não falado) punk carioca exatamente para lembrar que Clemente, o Tadeu Nascimento (Inocentes e Plebe Rude) acaba de lançar, juntamente com Marcelo Rubens Paiva, o livro chamado ‘Meninos em Fúria’, que fala da efervescente cena paulistana de 1982.




Pipoca Moderna Nº 3 – Janeiro 1983

Texto: Hermano Jr.
Fotos: Maurício Valladares

Anarquia em RJ
A estranha saga dos punks cariocas

Desculpem-me os cariocas fanáticos, mas o Rio é uma cidade decadente. Para comprovar, basta abrir as páginas “culturais” dos cada vez mais tediosos jornais da cidade. Não faltam novidades, falta vitalidade. Parece que a Rede Globo sugou todas as energias que por aqui um dia circularam. E deu no que deu. Tudo se resume a um certo clima neo-hippie, tipo sol de Ipanema.

E não adianta mudar o ponto de praia, não adianta deixar de ir ao Baixo Leblon. Bairrismos a parte, muito melhor é ir passar o fim de semana em São Paulo. Há muito tempo é na Paulicéia Desvairada que as coisas estão acontecendo. Não quero atiçar a briguinha já tradicional entre as duas megalópoles brasileiras. Para bom entendedor duas palavras bastam. Os fatos (David Byrne que me conteste) estão mais claros do que nunca. Perdemos até nosso status de plateia privilegiada. Antes (que pretensão!) qualquer artista que quisesse ser famoso nacionalmente tinha que passar pelo nosso veredito. Depois daquela famosa noite da vaia ao Arrigo Barnabé no Noites Cariocas, a “legitimidade” de nossos julgamentos corre grandes riscos de não ser mais levada a sério. Que bom! 

Talvez assim possamos perder um pouco daquela acadêmica responsabilidade, aquele ar deja vu, aquela ridícula ironia. Restam-nos poucas esperanças. A decadência (vide Berlim) pode nos anunciar um momento de rara (e perversa) criatividade. Pode gerar uma nova sensibilidade. Para início de conversa, gostaria de fazer uma proposta: recuperamos a capacidade de sermos surpreendidos. Esse seria um bom caminho para redescobrir a cidade. Surpresas, garanto, existem. Basta mudar a estação.

Narro agora um fato surpreendente, que, até alguns meses atrás, me era totalmente desconhecido. Tem até uma estorinha. Tudo começou com o telefonema de uma grande amiga minha, que também anda de saco cheio com a cidade maravilhosa. Sua voz não podia esconder uma certa emoção, algo assim como um grito de “terra a vista” ou, se preferirem, “nem tudo nesta cidade foi dominado pelo padrão de qualidade global”. 

É claro que não acreditei, principalmente porque a estória que vinha a seguir não era das mais confiáveis. Afinal, não é todo dia que você descobre que em Campo Grande tem uma pista de skate e que é neste território que aparecem os primeiros sinais do movimento punk carioca. Numa conversa com o fotógrafo Maurício Valladares, comentei o assunto e ele me disse que já tinha ouvido falar em algo parecido. Acho que nem é preciso dizer que no primeiro sábado que pintou, eu já tinha combinado tudo para fazer minha primeira viagem pelos “perigosos” caminhos do punk nacional. Por que num fim de semana? Mais uma surpresa. O movimento punk carioca, como seu similar paulista, não é, nem poderia ser, um movimento de jovens de classe média. Ele nasce como uma reação dos jovens suburbanos à falta de perspectiva, ou melhor, à violência cotidiana a que estão submetidos. E esses punks são obrigados a bater ponto de segunda à sexta.

Antes de contar o que vi lá, devo tornar explícitos alguns preconceitos que, desejáveis ou não, levava comigo. É claro que eu tinha a maior curiosidade em relação ao punk nacional, mas não entendia direito as razões de seu aparecimento, hoje, no Brasil. O punk, pra mim, tinha sido um movimento importantíssimo. Mas em 76 e na Inglaterra. Eu não conseguia pensar o punk fora daquela terrível crise econômica, específica do Império Inglês, a não ser como uma moda de butique. É até engraçado ver uma publicação como o Interview brasileiro dando a maior força a gente como Nina Hagen ou The Clash, ou ver um badge do Exploited ser vendido a Cr$800,00 (oitocentos cruzeiros) na butique Yes Brazil.

Eu não estou aqui para dar lições de moral. Mas tudo tem seu limite. Que Vivien Westwood possa mostrar, em Paris, a última coleção de roupas da famosa World’s End, de Malcolm Mclaren, tudo bem. Que Salomé (líder do conjunto Os Animais Tarados de Berlim, que era suporte de Nina Hagen na Alemanha) esteja expondo suas pinturas na importantíssima Documenta de Kassel, melhor ainda. Os tempos mudaram. O jogo é este. 

Eu só achava que o punk tinha perdido o gás. O que era contestação tinha se transformado num artigo a mais no totalitário supermercado da cultura de massas. Mas, como já disse, isso era um preconceito. O punk parece se fortalecer com todas essas ambiguidades. Tanto que hoje é um movimento internacional, explodindo em cidades tão diferentes como São Paulo, Varsóvia (a banda TZN Xenna), Paris (Lucrate Milk, Guernica, France Profonde), Los Angeles (Black Flag, Circle Jerks) e uma série de novos grupos em Londres.

Mas também não é pra se ignorar que o período pós-punk, que estamos vivendo, é fértil em criação de modismos que quase se atropelam, devido a sua curtíssima duração. São milhares de bandas e grupos de adolescentes que se intitulam neo-isso, pós-aquilo ou anti-qualquer coisa. Cada um destes movimentos (já que não temos outra palavra para designá-los), cria tanto roupas, penteados, danças; enfim, toda uma postura política diversa. Com toda essa movimentação, o punk seria uma fórmula ultrapassada?

Quando cheguei a Campo Grande, estava tomado pelas mais variadas expectativas. Não sabia como seria recebido, não tinha a mínima ideia sobre o que era o punk para aquelas pessoas. Tudo foi mais fácil do que eu esperava, principalmente por estar acompanhado pela Jô, aquela amiga que me dera o primeiro toque sobre o nascente punk carioca, que já era membro honorário daquele grupelho (desculpem-me a observação mas decodifiquem esta palavra via Felix Guattari).

Não resisti a fazer a primeira pergunta: mas, com mil diabos, o que é que punk tem a ver com skate? Intrometido, comecei a falar que, para mim, skate é coisa de “geração dourada”, uma imagem ligada ao surf, comida natural e “curtição da natureza”; um estilo que entreva em sérias contradições com o punk. 

De início, já dava pra sacar as grandes diferenças que separavam os dois estilos. As pessoas chegavam lá vestidas na mais séria tradição punk: casaco de couro, mil badges, camisetas estampadas com logotipos dos mais arrasadores grupos punks da atualidade (tipo Discharge, Uk-Subs e Cólera), calças no meio da canela, alfinetes, pulseiras com rebites, tênis furadíssimo e o tradicional cabelo espetado. Mas logo, para entrar na pista, sofriam a mais completa transformação. Apareciam metidos em capacetes, braceleiras, joelheiras, luvas e calções especiais. A única coisa que lembrava a anterior imagem punk eram alguns símbolos do movimento anarquista, e de grupos hard core, espelhados pelas camisetas. 

A pista também está completamente pichada com nomes de grupos de rock, dos estilos mais variados. Você pode encontrar desde os inevitáveis Sex Pistols, passar pelo ultrapassado heavy metal de um AC/DC, até chegar a uma discografia de Bob Marley. As respostas foram aparecendo aos poucos. O punk pintou através do skate e só por causa dele. Me perguntaram logo se eu não sabia que alguns membros do Black Flag, e vários outros punks de Los Angeles, também andam de skate. Não sabia, mas comecei a ficar impressionado e curioso em saber como eles obtêm essas informações.

A pista de skate de Campo Grande já tem 4 anos. Muita coisa já aconteceu, neste tempo todo. Vou fazer um resumo do que consegui escutar sobre estes acontecimentos. No início, a pista era dominada pelo pessoal da ZS (o nome dado pelos skatistas ao pessoal que mora na Zona Sul do Rio, em oposição aos pessoal da ZN, Zona Norte). Mas logo os iniciantes da ZN adquiriram habilidade suficiente para disputar os primeiros lugares nos campeonatos de skate locais. A partir daí a história fica confusa. Só consegui o testemunho do pessoal da ZN e mil outras versões devem ser possíveis. O lance é que começaram a pintar ciúmes e disputas acirradas entre as facções ZS e ZN.

Contaram-me que era completamente impossível andar um ZN e um ZS na mesma pista e, o mais interessante, começaram até a aparecer camisetas com logotipos tanto da ZS quanto da ZN. Os grupos foram ficando cada vez mais fechados e é nesse momento de disputa que aparece o punk no grupo da Zona Norte. Na mesma época, o punk também aparece entre os skatistas em São Paulo, mas os dois processos se desenvolveram de forma independente. O contato entre os punks skatistas do Rio com os paulistas só vai se dar num segundo momento.

Diz a lenda que foi o Tatu**, hoje vocalista do grupo Coquetel Molotov e o mais provável candidato ao título de intelectual orgânico dos punks cariocas, quem começou a trazer as primeiras ideias punk para a pista. Todos já tinham uma formação roqueira, muito heavy-metal na cabeça – e até já curtiam o Sex Pistols, mas ninguém se aventurava a “virar punk”. Tudo começou com alguns discos, hoje renegados, de grupos como Devo ou B-52.

Como as primeiras viagens a São Paulo e o contato com o pessoal da Punk Rock Discos, a barra começa a ficar pesada. New Wave passa a ser palavrão; o Clash, traidor do movimento: virou funk (claro que não contei para eles que, atualmente, um dos meus músicos preferidos é o Grand Master Flash). Agora só dá Anti-Pasti, Exploited, Cockney Rejects, Crass, Uk-Subs e companhia. O punk acirra ainda mais a disputa entre ZS e ZN. 

Os primeiros punks foram tachados de palhaços pelo pessoal da Zona Sul. Mas logo os punks conseguiram a hegemonia na turma da ZN e a ZS vai, pouco a pouco, deixando de frequentar a pista de Campo Grande. Ainda existem skatistas nesta pista que não são punks, mas todos estão acostumados tanto ao visual quanto à violência das músicas punks. Sempre alguém leva um gravador para a pista e mostra as últimas novidades punks, conseguidas através de São Paulo.

A dependência em relação ao punk paulista é total. Todos sabem de cor as letras do Grito Suburbano e do disco do Lixomania. Um número do SP Punk ou do Fator Zero é sempre disputado por todos e sempre acaba rolando de mão em mão para ser xerocado. Mas esta dependência já começa a ser criticada. Afinal, além de ninguém ter dinheiro para ir sempre a São Paulo, eles tão a fim de criar seus próprios jornais, roupas e som.

O punk carioca é um movimento que mal começa a nascer. Eu até fiquei grilado quando a Ana Maria Bahiana me chamou para escrever esta matéria, de fazer alarde em cima de uma coisa que mal existe. Os próprios punks, quando eu contei que estava escrevendo um artigo sobre eles, fizeram questão de deixar claras as deficiências de seu movimento. O número 00 do Manifesto Punk, o primeiro fanzine lançado pelos punks do Rio (o mesmo formato do SP Punk), logo no recado da primeira página, lá vai: “todos sabemos que o movimento punk não vai nada bem aqui no Rio”.

A comparação com o movimento paulista é inevitável. Mas isso não impede que eles estejam nas ruas, tentando, de qualquer forma, fortalecer o movimento. Às vezes conseguem ser bastante criativos. Um deles, o Airton Cavalo, que mora em Niterói, faz jaquetas e pulseiras com rebites. A improvisação é o que não falta, servem até fichas de telefone para transar os badges

Já aconteceram três festas punks, aqui no Rio. A primeira foi na Tijuca, na casa do Lucio Punk Flávio (quem foi ao Circo Voador na noite em que tocaram. The Way e o Sangue da Cidade, teve o prazer de conhecê-lo, anunciando os futuros shows da banda Coquetel Molotov, da qual é disrítmico baterista). A segunda foi em Santa Teresa, mas foi prejudicada “pela presença de uns hippies”. A terceira foi em Rocha Miranda. Dizem que essa foi legal, pois apareceram vários punks novos. Cheguei a ir a Rocha Miranda, mas ninguém conhecia o tal endereço. Se eu tivesse a fim de ir a um pagode, era o que não faltava, mas festa punk?!! A resposta era sempre a mesma. Não sei o que é isso não.

A reação da população à visão dos punks é das mais curiosas. Não faltam estórias pitorescas. Os adjetivos a eles endereçados não são muito carinhosos. Os punks estão cansados de serem chamados de anormais, palhaços e até mesmo de bichas. Ninguém suporta um cabelo verde ou um corte moicano. Parece que o traje também afasta as namoradas.

Vampiro, o primeiro punk carioca a raspar a cabeça como um moicano e também vocalista, dono de uma voz alucinada, dervixe possuído, anda assustando o subúrbio carioca. A agressão visual é procurada conscientemente, é uma postura política. O famoso estereótipo do punk violento, que quer dar porrada em todo mundo, cai por terra no primeiro contato com estes orgulhosos suburbanos. 

A agressão para eles só está na música e no visual. A agressão física parte sempre dos outros e, para um punk, é uma questão de honra se defender. Eu inclusive presenciei, no trem voltando de Campo Grande, um tapa que alguém deu em um deles, pela janela, ao parar numa estação. As letras de suas músicas, muitas das quais nunca foram sequer tocadas, são respostas diretas a este estado das coisas. Numa música do Coquetel Molotov, por enquanto o único grupo com uma formação estável (além de Tatu e Lucio Flávio, tem o Omar no baixo e o César, na guitarra), nos diz que “o fascismo só existe/onde há capitalismo/de maneira mais nojenta sufocante e fraudulenta.

Por detrás desta gravata/existe muita treta”. Mas ao mesmo que cantam estas músicas, lêem Bakunin ou fazem campanha pro PT, eles se negam a marcar a próxima festa para o dia de Natal, dizendo “sou punk, mas ainda gosto da minha família”. Dou palavra ao Manifesto Punk: “Para agredir a sociedade, você não precisa ficar sem tomar banho. Ser punk é politizar-se, entender o seu próprio sofrimento, lutar por uma sociedade sem explorados e exploradores, não ficar submisso a ninguém e principalmente, ser você mesmo”.

** Tatu (Jorge Luiz de Souza) faleceu em dezembro de 2005. Ele era jornalista e skatista, foi o 1º campeão brasileiro de skate vertical. Na época ganhou homenagem dos amigos na pista de Campo Grande e, em 2012, um skatepark carioca recebeu seu nome. Assim como o Coquetel Molotov foi a 1ª banda de punk skate, Tatu foi o 1º punk skatista do Brasil.





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