8 de maio de 2016

O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília



Lancei a 2ª edição do O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília pelo selo Pedra na Mão, que pertence a editora e livraria Briquet de Lemos, em Brasília.

Nessa nova edição há reprodução de duas reportagens sobre o rock de Brasília, ambas de 1983. Uma do Correio Braziliense, que também é a primeira entrevista de Renato Russo; e a outra é do Jornal do Brasil, assinada pelo grande Jamari França.

A editora faz agora uma mega promoção de diversos títulos, incluindo O Diário que, de R$ 39,00 caiu para R$19,00!!! (valor atual - fev/2017)

O livro só é vendido pelo site da editora, de forma segura e confortável. Para comprar é só clicar aqui.

Segue trechos de alguns capítulos para degustação. 

E para acompanhar a leitura indico:
The Jam - In the City
The Stranglers - Rattus Norvegicus
PIL - First Issue
Buzzcocks - Another Music in a Different Kitchen
The Cure - Japanese Whispers
J


COLINA
Gutje - Rolou um boato de que tinham chegado à cidade duas meninas punks de Nova York. Por isso, ficou todo mundo curioso pra saber quem eram, então eu e Loro descemos na rodoviária e fomos andando até o final da Asa Sul e voltamos, procurando as meninas. Ficamos lá andando entre as quadras. Aí, voltando, passamos embaixo de um bloco e ouvimos um punk rock saindo de uma janela, paramos em baixo e começamos a gritar nome de bandas punks, pois não sabíamos os nomes das meninas.
Ana Rezende - Fui morar no Canadá, passei seis meses lá e voltei para Brasília, a Helena (Rezende) ficou mais tempo fora, em Nova York. Eu voltei em meados de 1979 e a Helena uns seis meses depois. Eu conheci o pessoal da Turma antes. Quando fui viajar, não conhecia ninguém, só a Bebel e o Dado, que eu conheço desde pequena, pois também morei na 104 Sul. Mas nessa época não tinha a Turma, éramos muito pequenos. Quando me mudei para a 106 Sul, conheci a Chris Brenner, ela morava no mesmo bloco que eu. A Helena mandava uns discos e umas roupas de Nova York. Eu e Chris escutávamos esses discos na maior altura. Tem até uma história de alguém que estava passando embaixo do bloco e escutou a música, subiu e conheceu a Chris, deu um toque de uma festa que ia rolar e eu fui. Cheguei à festa e estava tocando o Gutje e o Flávio, era um revezamento, eles deviam estar tocando covers. Foi nessa festa que eu e a Chris conhecemos o pessoal e a partir daí começamos a sair com eles.

PLAYBOYS
André Mueller - O Jarrão era outro cara que queria bater em todos os punks, então nós morríamos de medo dele. Teve um réveillon que o Philippe empurrou o irmão desse cara na piscina, e tinha caco de vidro nela. O cara levou uns pontos. Tinha uma brincadeira da Turma que era chegar a um desconhecido na rua e começar a falar com ele como se fosse um grande conhecido. Por azar, o Philippe foi fazer essa brincadeira justo com o cara que ele tinha empurrado, o cara o reconheceu e falou com o Jarrão que falou pra todo mundo ficar em fila que ele ia bater em todos, aí o Renato falou que ele tinha que brigar com o sistema, na mesma hora o Jarrão falou: "Teu nome é Sistema!" e deu uma bordoada no Renato.

CAUBÓIS
C.C - Essa época skinhead, foi uma época foda, saíamos pra dar porrada mesmo. Éramos muito radicais, tinha umas pessoas que não gostavam de ficar com a gente, foi uma época que nós só ouvíamos Dead Kennedys. Adotamos uma postura meio racista, o próprio Negrete era um cara muito racista, talvez um dos mais racistas. Por várias vezes nós pegávamos o carro de alguém e íamos lá em cima, no Setor Hoteleiro, e descíamos andando, passávamos ao lado de um travesti e dávamos porrada, tipo o filme “Laranja Mecânica”. Escolhíamos bem nossa vítima e, às vezes, até eu ficava impressionado, parava e via que não sobrava nada. Me lembro uma vez que nós demos tanta porrada num travesti que ele ficava no ar tomando as bordoadas e chutes. Alguém veio por trás do cara e deu uma porrada na cabeça, de coturno e ele começou a cair no chão, mas antes de cair outro veio e deu dois chutes no cara que ele subiu e mais alguém meteu-lhe um sopapo com um cinto cheio de prego, aí o travesti caiu no chão, isso estava acontecendo embaixo de um poste. A porrada na cabeça do travesti foi cena de cinema. Na época do Radicaos, em 1984, eu saia pra brigar, essa foi uma época muito radical.

APARTAMENTO
Pedro Ribeiro - Moramos eu, Dinho, Dado e Tavo na 213 Sul, aí quando acabou o contrato, não quiseram renová-lo porque éramos muito bagunceiros. Lá rolava de tudo. Moravam quatro caras e tinham três quartos e outro nós fizemos na sala, para o Dado, e o chamávamos de Inferno Azul, porque era feito com divisória de madeira, pintada de azul. Tinha de tudo, qualquer pessoa que quisesse cheirar ia pra casa, Renato virou várias noites lá, muita gente virou noite lá. Virou uma espécie de point. Íamos dormir e ficavam os caras lá, era tipo uma reunião permanente. Voltava da escola tinha gente, ia pra escola encontrava gente na sala ou na cozinha, virado. Nunca tiveram festas, mas era essa zona sempre. O pessoal não tinha o que fazer então ia pra lá. Depois disso, nos mudamos para a 410 Norte. Aí morava eu e Dinho num prédio e no prédio ao lado, Dado e Tavo. No final de 1984 eu saí de lá e fui para o Rio para trabalhar com o Paralamas e o Dinho foi para São Paulo com o Capital Inicial.
Dinho - Meu pai é casado com a mãe do Dado e, em 1983, eles foram embora de Brasília e eu, Dado, Tavo e Pedro fomos morar juntos na 213 Sul. Nessa época eu ensaiava de manhã, trabalhava a tarde e estudava a noite. Nossos pais davam pouca grana pra nos ajudar, então tínhamos que nos virar pra pagar o aluguel.
     Ficamos morando lá durante um ano. Foi nessa época que começamos a cheirar cocaína, muita cocaína. Isso não era legal, pois éramos moleques e ficávamos muito loucos. A quantidade era muita. Nunca mais vi tanta cocaína como naquela época.
     Depois disso fomos morar em outra quadra e em apartamentos diferentes. Esse não foi um período muito bom pra nós, ali eu não era muito feliz. Éramos moleques, não sabíamos o que queríamos de nossas vidas e estávamos sozinhos na cidade, foi barra!

ROCKONHA
Loro Jones - A primeira Rockonha foi legal, mas a segunda foi aquela roubada. Antes da festa, a polícia já estava pronta para invadi-la. Quando fomos, passamos por uma blitz, logo no início da estrada. Estava todo mundo, eu, Helena, Gutje, Fê, Geruza, o carro estava lotado, tinha gente até no porta malas. Estávamos todos bebendo dentro do carro, a maioria era menor de idade, mas mesmo assim passamos pela barreira policial e nem desconfiamos de armação, algumas pessoas acharam esquisito o fato deles não nos pararem, mas fomos em frente. Chegando perto, já não dava pra fugir porque a polícia estava na porta mandando entrar e estacionar. Já saímos do carro com a mão na cabeça. O sinal para a invasão policial eram aqueles fogos sinalizadores, o pessoal da festa viu aquilo e achou legal pensando que fazia parte, de repente, tinha guarda gritando: "Mão na cabeça" e foi aquele negócio de liberar as coisas ali mesmo no chão. Foi todo mundo de ônibus para o batalhão de choque de Sobradinho, no caminho ainda tinha gente dispensando coisa pela janela. Chegando lá, ficou todo mundo em fileira no pátio do batalhão e os menores foram para um auditório. Eu saí porque sou filho de militar. Teve um cara que voltou ao local da festa, no dia seguinte, e achou até narguilé (uma espécie de cachimbo) no chão.

FESTAS
Fê Lemos - Depois da festa que dei na minha casa, acordei de manhã, na beira do lago, com o sol nascendo. Foi uma festa estranha porque estava todo mundo disperso, tinha fogueira, rolava Joy Division. Quando olho pra piscina, vejo a mesa da sala e as cadeiras, montadas lá dentro. Eu não fiquei puto, mas tive que tirá-las de lá e eram pesadas, nem lembro como fiz.
      Eu cheguei a fazer uma cópia da chave do carro do meu pai, uma Variant, pra roubá-la e ir procurar festas. Ia eu, Gutje, Loro, Renato, Flávio e empurrávamos o carro pra fora da Colina, pra não fazer barulho e só depois eu dava partida. Quando me mudei pro Lago Norte, era obrigado a passar por quase toda a cidade pra poder chegar em casa e, por isso, eu dava carona pra todo mundo. Meu carro sempre tinha, no mínimo, dez pessoas.
      Durante um tempo, todas as fitas que levávamos pras festas, eram gravadas dos meus discos.

RENATO RUSSO
Adriane - O Renato tinha uma mania esquisita de gravar as conversas com as pessoas que iam à casa dele. Uma vez eu fui lá com o Eduardo e mais alguém e o Renato começou a fazer algumas perguntas filosóficas, parecia que ele estava manipulando a conversa. Eram poucas pessoas que sabiam disso e, pra elas, ele mostrava algumas das gravações. O dia em que eu o flagrei gravando nossa conversa, ele se explicou, pediu desculpas e desgravou à fita na minha frente. Eu fiquei sem reação porque estávamos conversando sobre coisas íntimas, infância, problemas e outras coisas desse tipo. Foi aí que percebi que ele manipulava as conversas.

Babú - Tente perceber uma coisa nas letras do Renato: ele fala o que as pessoas querem escutar e, pra ter essa percepção, tem que ter informação de outras pessoas em sua volta, então eu acho, que ele fazia uma espécie de laboratório com essas gravações.



Capa da 1ª edição lançada em 2001 (fora de catálogo)

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