4 de outubro de 2013

Em outubro...

Outubro é o mês que o rock brasileiro faz aniversário. A data exata é 24 de outubro de 1955. Foi quando a cantora de boleros Nora Ney entrou em estúdio para gravar “Rock Around the Clock”, aqui batizada de “Ronda das Horas”. A música foi gravada por conta da chegada do filme de mesmo título aqui no Brasil. “Rondas das Horas” foi lançada em novembro de 55 em um compacto simples junto com a música “Ciuminho Grande”. Nessa época não havia rock no Brasil, portanto não havia ninguém em especial que pudesse ser chamado para gravar essa versão. A escolha de Nora Ney deveu-se apenas pelo fato dela cantar muito bem em inglês e com pronúncia perfeita, já que tinha uma carreira internacional de respeito. Uma semana após seu lançamento, o compacto chegou ao primeiro lugar na parada da Revista do Rádio. 

A partir dessa gravação a história do rock brasileiro passou a ser escrita. Ainda sem ídolos do rock, em 1956 Caubi Peixoto foi o escolhido para gravar o primeiro rock cantado em português, chamado “Rock'n'Roll em Copacabana”, mas essa é outra história. Coincidências da vida, Nora Ney morreu aos 81 anos em 28 de outubro de 2003 (48 anos e quatro dias após a histórica gravação). O fato dela ter gravado o primeiro rock no Brasil foi ignorado em todos os textos e reportagens feitas em consequência de seu falecimento.

A geração dos anos 1980 perdeu o seu grande nome. Renato Russo morreu no dia 11, e no dia 19 foi anunciado, por Marcelo Bonfá e Dado Villa Lobos, o fim da Legião Urbana – não poderia ser diferente. Lembro que pouca gente sabia de seu estado de saúde. Algumas poucas informações me chegavam não por Brasília, mas no trabalho, na própria MTV. Apesar de saber sobre eu estado de saúde delicado, sei lá por quê, eu tinha esperança de que ele melhorasse para poder viver bem, assim como vive bem até hoje Magic Johnson. O consolo é que a Legião Urbana já tinha deixado uma grande obra atemporal.

Foi em outubro que aconteceu a grande final do 3º Festival da Música Popular Brasileira, na TV Record, grande data que ficou marcada por vários acontecimentos. Sérgio Ricardo, que defendia a música “Beto Bom de Bola”, arrebentou seu violão inteiro no palco. Caetano com “Alegria, Alegria” e Gil com “Domingo no Parque” receberam vaias, mas Gil ficou em 2º lugar e Caetano em 4º. A música vencedora foi “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinan. Caetano e Gil foram acompanhados pelas bandas de rock Beat Boys (Caê) e Os Mutantes (Gil). Nessa época era acalorada a discussão do uso da guitarra na música brasileira. Pura bobagem.

Por falar em Os Mutantes, o programa de Ronnie Von, chamado O Pequeno Mundo de Ronnie Von, estreou. Era um programa que concorria com o famoso Jovem Guarda, porém com uma pegada mais alternativa. Foi Ronnie Von que sugeriu a Rita, Arnaldo e Sérgio o nome Os Mutantes. Até então a banda se apresentava como Os Bruxos. Ronnie Von é um dos pioneiros do rock psicodélico no Brasil, mesmo sem nunca ter tomado drogas.

Pra continuar na jovem guarda, lembro que também foi no mês 10 que Roberto Carlos, no auge da beatlemania, chegou pela primeira vez, ao primeiro lugar da parada do ibope com “O Calhambeque” que desbancou nada mais nada menos que “Twist and Shout” do Beatles. “O Calhambeque” fazia parte de um compacto simples junto com a música “Um Leão Está Solto Nas Ruas”.

O Circo Voador, depois que saiu do Arpoador, reinaugurou nos Arcos da Lapa. O Circo foi fundamental para a geração rock dos anos 1980 e é impossível imaginar essa cena sem ele.

Foi no final do mês que alguns representantes do rock paulistano invadiram a redação do jornal Folha de São Paulo para desautorizar o jornalista Pepe Escobar a escrever sobre as bandas da capital paulista. Republiquei a matéria, que originou essa discussão e suas consequências, aqui no Sete Doses de Cachaça. Procure por Desventuras do Rock Paulistano que está em duas partes (na busca basta colocar a palavras 'desventuras').

Uma coisa que percebi de cara foi o número de bandas que surgiram em outubro. Cada uma em um ano diferente, a maioria no início dos anos 80: Ira (ainda sem exclamação), Ratos de Porão, Inocentes, Titãs, Cólera, Nenhum de Nós e Veludo. Das seis bandas, cinco são paulistanas; das cinco paulistanas, quatro tem influencia direta do punk rock, sendo que três delas participaram das duas primeiras coletâneas punk do Brasil: Grito Suburbano e SUB. Titãs também tinha influencias punks, mas não só punks. Das seis bandas surgidas, quatro ainda estão na ativa. Tudo bem, o Ira! não, mas seus ex-integrantes sim, e o Cólera estaria na ativa não fosse o falecimento de Redson. E lá se vão mais de trinta anos de carreira e algo em torno de 53 discos lançados somando as cinco bandas paulistanas (sem contar compactos, splits, coletâneas). Fico pensando se somássemos todos os shows, qual seria o número?

Percebi quatro fatos interessantes do Barão Vermelho, todos dentro dos anos 80. Em outubro Barão ensaiou, pela primeira vez, com a formação original completa: Guto, Maurício, Dé, Frejat e Cazuza. E foi também em outubro que o Barão apareceu, pela primeira vez, sem Cazuza. Isso foi no programa A Era do Halley, musical feito pela Globo, e o Barão tocou “Torre de Babel”. Lembro bem disso, e havia uma grande expectativa em ver a banda sem Cazuza. “Será que a banda vai ter força pra continuar?”... ficava essa pergunta no ar. Todos eles eram (e são) muito legais, então havia a força dos amigos e de quem gostava da banda. O Declare Guerra tem parcerias com Júlio Barroso, Arnaldo Antunes, Humberto F, Antônio Cícero, música de Renato Russo, enfim. Um no antes desse especial, a banda estava em SP fazendo show de lançamento do Maior Abandonado. No hotel tomaram flagrante da polícia e todos foram para a delegacia por porte de maconha. Curiosamente Cazuza se safou porque não estava no hotel. O Barão chegou ao fim dos 80 muito bem na fita, lançando o Barão Ao Vivo (1º ao vivo da banda), gravado no Dama Xoc, e novamente no auge por conta do sucesso do Carnaval (discaço!). “Pense e Dance” fez parte da novela Vale Tudo.

Bem, o Nenhum de Nós surgiu em Porto Alegre. Teve seu ponto alto em 1987 com “Camila, Camila” e seu ponto baixíssimo em 1989 com “Astronauta de Mármore”, que estragou “Starman” de David Bowie.

O Veludo foi uma banda carioca de rock progressivo que surgiu em 1974 e acabou 1978 e que começou como Veludo Elétrico. Lulu Santos chegou a tocar na banda, mas saiu pra formar o Vímana. O Veludo não lançou disco, no entanto, alguém tinha uma gravação da apresentação da banda do festival Banana Progressiva de 1975 e acabou fazendo 2 mil cópias em vinil dessa gravação que não tem uma super qualidade. Vale pelo registro.

Este mês várias bandas surgiram, porém foi em outubro de 1987 que o Camisa de Vênus anunciou seu fim. Nunca fui grande fã da banda, mas vi alguns shows. Gosto do 1º disco e de algumas outras músicas. Foi em 1987 que o Camisa lançou Duplo Sentido, o primeiro disco duplo de uma banda de rock brasileira. Depois desse fim, que separou de vez a formação clássica, a banda foi e voltou zilhões de vezes e isso acontece até hoje. Também foi em outubro de 1983 que o Camisa tocou no Circo Relâmpago, em Salvador, para lançar seu primeiro disco. Coincidência?


Alguns lançamentos: O Papa é Pop (Engenheiros do Hawaii), Frutificar (A Cor do Som), Plebe Rude (Plebe Rude), Magazine (Magazine), Pedra 90 (Gang 90), Voluntários da Pátria (Voluntários da Pátria), Sunnyside Up (Analfabitles), Supercarioca (Picassos Falsos), Adeus Carne (Inocentes), Descanse em Paz (Ratos de Porão), Cadê as Armas (Mercenárias), Samba Esquema Noise (mundo livre s/a), Benzina (Edgard Scandurra), As Quatro Estações (Legião Urbana), 18 Anos Sem Sucesso (Joelho de Porco)


Alguns nascimentos: Carlos Coelho (Biquíni Cavadão), Lobão, Kiko Zambianchi, Luciano Garcia (CPM22), Pedro Luís (Pedro Luís e a Parede), Baby Santiago, Loro Jones (Capital Inicial), Leospa (Ultraje a Rigor), Flávio Lemos (Capital Inicial), Carlos Maltz (ex-Engenheiros do Hawaii), Sérgio Magrão (14 Bis), Franklin Paulillo (ex-Tutti Frutti), PJ (Jota Quest), Nelson Motta, Selvagem Big Abreu (João Penca)

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