2 de junho de 2011

Série O Resgate da Memória: 21 - Desventuras do Rock Paulistano (Parte 2 de 2)

Após a confusão causada pela reportagem de Pepe Escobar (com "ajuda" de Guilherme Isnard), o jornal Folha de São Paulo achou por bem procurar uma solução amigável para tamanho desentendimento. Dois dias depois da matéria "Desventuras do Rock Paulistano", a Folha voltou a dar destaque aos acontecimentos gerados pelo texto do jornalista. No fim das contas todo mundo sabe quem ficou para história e quem sumiu dela.



Rock Paulista Gera Polêmica e Futuro Debate na Folha

Folha de São Paulo
30 – outubro – 1884 (terça-feira)
Ilustrada

Reportagem local

Representantes de doze bandas de rock – entre elas “Garotas do Centro”, “Voluntários da Pátria”, “Ira”, “Inocentes” e “Metrópolis” – estiveram na redação da “FOLHA”, no final da tarde de ontem (29/10/1984), com o objetivo de manifestar seu desagrado aos artigos do jornalista Pepe Escobar na “Ilustrada”. Motivados pelo texto “Desventuras do rock paulistano” (Ilustrada, 28.10.84), solicitaram uma discussão mais ampla da questão, com a presença do jornalista, suspensa (sic), entretanto, devido a momentânea exaltação dos queixosos. Ânimo exaltado, o vocalista do “Ira”, Marcos Valadão (o ‘Nazi’), tentou partir para a agressão física, contida pelos seus companheiros. Assim que começou o tumulto, agentes de segurança do jornal se aproximaram mas não foi necessária sua intervenção.

Os artistas sentem-se atingidos em sua profissão, considerando que Pepe Escobar “não se interessa em entrevistar e ver de perto o trabalho das bandas, escrevendo de ‘orelhada’ e incitando fofocas no meio, conforme disse Miguel Barella, da “Voluntários da Pátria”. Por isso, enquanto profissionais, “viemos em conjunto desautorizar o Pepe Escobar a escrever sobre elas. Não estamos contra a Folha e sim contra um crítico incompetente”, sintetizou Marcos Mocef, produtor da Mundo Moderno, responsável pelo projeto (em andamento) de apresentação dos grupos no bar “Val Improviso”.

Convidados a colocarem suas reclamações com tranqüilidade, um grupo de sete pessoas (das bandas “Mercenárias”, “25 Segundos Depois”, “Smack” e “Voluntários da Pátria”, e do Mundo Moderno) esclareceu que o descontentamento, quanto às críticas, vem da postura do jornalista: “Ele louva as bandas estrangeiras, independentes como nós, e impede que a semente brasileira cresça. Se Pepe é crítico de rock estrangeiro deve se limitar a isso; ou então que vá conhecer o trabalho desenvolvido aqui para depois falar”, disse Miguel. Segundo Neusa Vidolini, da “25 Segundos Depois”, o jornal pode falar o que quiser, bem ou mal, “desde que se tenha conhecimento de causa. Senão o conjunto das pessoas  focadas desautorizam o trabalho, mesmo que a Folha continue apoiando essa pessoa”.

Ainda segundo esses representantes, Pepe agiu mal quando utilizou trechos da carta do vocalista do “Zero”, Guilherme Isnard (onde discutia a mecânica de programação do rock na cidade) no texto publicado no domingo último. “Ele quis incitar polêmica e fofoca no meio”, disse Miguel. O crítico afirmou que simplesmente tomou parte do texto enviado à Folha para denunciar “um estados de coisas”. Quanto às denúncias afirmou já ter ouvido a maioria das bandas ao vivo, constatando que a maioria, musicalmente, é muito ruim.

“Já citei uma série de grupos, que inclusive não vieram aqui Magazine, Ultraje à Rigor, Voluntários da Pátria, Zero, RPM, todos paulistas, em vários textos. Quando a produção é boa, sai publicado. O critério é óbvio. Mas se o trabalho é primitivo, isso tem que ser levado a público. Esse episódio é lamentável: fruto da posição fechada de um grupo que não aceita crítica e parte para agressão, ao invés de argumentar. Nos países civilizados, a imprensa não precisa andar armada para se defender dos criticados. Aqui pelo visto ainda impera a dialética do ??? (palavra apagada no texto original). Quanto a sugestão de que “escrevesse apenas sobre rock inglês”, disse que não exerce na “Ilustrada” a função de crítico de rock brasileiro e sim escreve sobre vários assuntos.

Atendendo a ansiedade dos músicos, a Folha se dispôs a organizar (em data  a ser marcada nos próximos dias) um debate em seu auditório, ao qual compareceriam tanto representantes das bandas, quanto críticos e especialistas convidados, público, e também o jornalista Pepe Escobar. O assunto deverá ser a produção musical do gênero, suas dificuldades e o papel da crítica. Pepe acha essa decisão algo positiva. “Quero discutir a competência artística, e não a paranóia de membros dos grupos”.

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