Nota: É interessante ler sobre a ideia que Gerson dá às gravadoras quanto ao trabalho com os artistas, coisa que elas adotam só agora, por desespero.
A Luta de Gerson Conrad Para Lançar Seu Disco
Folha de São Paulo
Acervo Digital
17/11/1975
Carlos A. Gouveia
“A vinculação negativa que existe entre a minha pessoa e o Secos e Molhados, visto por muitos, foi a razão da falta de apoio que encontrei por parte dos empresários e firmas de promoções, que até o momento não me deixaram vir a São Paulo.”

“É curioso como aparece que as pessoas têm medo de alguma coisa. Recebi muitas propostas de Moraci Do Val, que eu considero um dos melhores empresários brasileiros, mas não houve acordo, por falta de tempo, talvez. Por mais massacrado que ele foi na época da dissolução do grupo, eu ainda acredito nele como empresário. O pouco que o conheci, trabalhamos muito...”
Zezé Mota fez uma observação quando ao show-business brasileiro: “Eu acho que está havendo uma crise no meio empresarial, um medo geral. Estou vendo muitas pessoas desistirem.”

Zezé Mota: “A gravadora não fez nada pela gente. Eles investem em termos de produção, depois cortam tudo, não dá pra entender; preferem lançar discos de novelas, que é muito mais seguro, mas artisticamente não é nada. Produzem apenas por produzir. Já falaram até que se um dos sete contratados estourar, será o suficiente; os outros ficarão “gelados”...

Gerson lembrou de uma passagem curiosa da época dos Secos e Molhados: “Sabe, naquela época diziam que os Secos e Molhados era um grupo que gravava e tocava apenas para a imprensa. Isso é gozado, não é Gerson”?
“Pois é. Sabe, nós éramos muito unidos no inicio e por isso aconteceu aquele tremendo sucesso. Depois fomos cada um para um lado, simplesmente por desilusão. Os Secos e Molhados, para mim, foi uma faca de dois gumes. Por ter pertencido ao grupo mais famoso do País, sofri muito. Com todas as pessoas que eu ia negociar aparelhagem ou qualquer outra coisa, procuravam me explorar, pensando que eu fiquei milionário, que eu era um Tio Patinhas, com quem não tenho nenhum parentesco. Foi uma época muito difícil. Aos poucos consegui mostrar para as pessoas a verdade. Artisticamente não vou negar que foi muito bom porque me deu nome. Foi uma fase importante dentro de minha carreira.”

Gerson acha que “Trem Noturno” é a música mais infantil do disco e, “por causa dela, alguns críticos cariocas nos chamaram de alienados, porque não possui mensagem. A época não está para mensagens”, frisou Gerson.

Gerson aponta sua união com Zezé Mota como uma das melhores coisas que já aconteceram em sua carreira. Conta o início: “Fui assistir Godspell e fiquei impressionadíssimo com a atuação de Zezé e também com sua voz. No Secos e Molhados eu era o único que ficava atrás. Quando parti para carreira-solo, achei que não tinha “background” suficiente para estar na frente de um palco. E Zezé, além do apoio vocal, me deu essa segurança. É um trabalho em conjunto onde existe um espírito só, e isso é importante, dá mais abertura.”

Sobre a atual situação do rock, no Brasil, Gerson Conrad acha fantástico e sem novidades. Fantástico porque “a batalha dos músicos de rock para sobreviverem e conseguem, é incrível, e sem novidades, porque existem”. Diz que o que mais aborrece é a falta de criatividade da maioria desses músicos. “Admito influencias, mas não cópias. Deixei de incluir em meu LP a música “O Gomo da Laranja” porque, depois de gravada, notei frases de guitarras iguais ao do guitarrista do “Yes”. Um exemplo típico de um trabalho criativo e bem elaborado é o do grupo Barca do Sol.”
Gerson Conrad, Zezé Mota e seu grupo deverão estrear em São Paulo, na “I Semana Nacional do Rock’n’Roll”, dia 3 de dezembro, no Teatro Bandeirantes ao lado de Próspero e Joelho de Porco.
2 comentários:
É um belo disco, uma bela estreia solo de Gerson Conrad, c/ coisas muito interessantes como "Favor dos Ventos", "Um resto de sol" e, inclusive, "Trem Noturno", que, aparentemente, não era uma das prediletas do autor. Os vocais de Zezé, lindos, dando um colorido especial às canções, que, em alguns momentos (não sei se propositadamente) lembram o belo timbre de Ney. Certa vez um crítico da Ilustrada disse que os primeiros discos solos de Gerson e Ney eram tão grandiosos como os que ele chamou de "discos/asas", referindo-se aos 2 Lps dos Secos & Molhados. Não acho exagero. Aliás, o de Ney, "Água do céu-Pássaro", acho até mais vanguardista e instigante que os dois Secos.
Lamento, apenas, que a carreira de um compositor tão talentoso e inteligente como Gerson Conrad não tenha deslanchado. Zezé saiu-se muito bem como atriz, mas é uma bela cantora bissexta, nunca valorizada pela indústria.
Espero que c/ a falência da indústria, Gerson consiga, por vias alternativas, mostrar um pouco mais de sua musicalidade, tenho certeza de que ele teria muito a dizer.
Adorei esse teu post, Paulo, vc sempre publica coisas interessantes, parabéns.
Um abraço.
Assino embaixo de tudo o que você escreveu. Valeu Afonso!
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