Um dos que me fez parar para assisti-lo foi o MTV Na Chapa. Apesar de ter sido pouco visto e ser nada lembrado, esse é um dos programas que moram no meu coração. E ele fez revolução na Music Television.
Na Chapa estreou na grade de programação de 1996 e ia ao ar das 6h as 8h da manhã. Era o programa que abria a programação do dia. Só conheci um amigo que de fato o assistia, pois acordava muito cedo e, enquanto via o Na Chapa, fazia caminhada na esteira...
Na Chapa exatamente por ser pela manhã. O cenário era um quarto e o apresentador era o Cazé. O figurino era pijama e nesse quarto tinha armário com roupas, cama, mesa com café da manhã (só no início, 1º mês).
Era difícil escrevê-lo. Eram muitas cabeças para gravar! Eu escrevia de tudo: esporte, comida, cinema, atualidades, comportamento, sexo, mundo animal, cultura inútil, efemérides e até música! Chegou a um ponto em que comecei a entrar em paranoia por falta de fontes. Qualquer coisa virava texto para o Na Chapa. Escrevia tarde da noite, nos finais de semana... ele começou a me ocupar por todo tempo. Eu podia estar em casa tranquilo vendo jornal na televisão e se viesse uma reportagem com um assunto legal lá ia eu pegar papel e caneta para escrever um texto. Em 1996 teve as Olimpíadas e o cinema completou 100 anos. Criei séries de textos com esses temas.
Eu não escrevia no computador - só tinha um no departamento inteiro. Nessa época textos de todos os programas eram escritos à mão no próprio espelho do programa. Por serem maiores, os textos do Na Chapa eu escrevia em uma folha sulfite a parte.
Passei um bom perrengue com a criação desses textos e isso foi mais do que uma escola pra mim. Para Cazé também, já que não havia teleprompter, e ele muitas vezes só conseguia o texto pouco antes de gravar (eu fazia de tudo para entregar um dia antes). Esses textos ajudaram a moldar o tipo que Cazé criou.
Claro que não falo por ele. Falo por lembrar de seu esforço, sua concentração e evolução, afinal, gravávamos de 2ª a 6ª.
Fora os textos cabeludos, Cazé ainda era obrigado a chamar o clipe que iria passar na sequência, e isso era péssimo, já que ele tinha que decorar um texto sobre a vida das abelhas e depois ainda falar “e agora vamos ver Sheryl Crow com All I Wanna Do”. Isso atrapalhava. Levei à direção da emissora o pedido para que Cazé não mais anunciasse os clipes. Deu rebu! Pode? Não pode? No fim das contas os nossos argumentos venceram a direção. Não anunciar clipe foi outra revolução e nos ajudou pra caceta! Hoje isso pode parecer banal, mas na época foi motivo de muita conversa e discussão. Inclusive teve gente que não gostou...
Eu fazia especiais sobre grandes nomes da música, da literatura, do cinema. Dediquei programas inteiros a Charlie Parker, Alfred Hitchcock, história do Brasil...
No Teleguiado usávamos, muito pouco, uma micro câmera que já era ligada e balanceada junto com a câmera do Na Chapa. Não deu outra: em menos de um mês estávamos nós no Na Chapa usando a micro muito mais que no próprio Teleguiado (toda a equipe era a mesma nos dois programas). A usávamos tanto que chegou um momento que desisti da betacam e passei a usar apenas a micro câmera. Digo de brincadeira, apesar de ser verdade, que o Na Chapa foi o primeiro programa diário da TV brasileira a ser feito 100% com micro câmera. Coincidência ou não, depois disso o uso de micro câmeras em programas de televisão aumentou consideravelmente.
Da mesma forma que surrupiei a micro do Teleguiado, Cazé também passou a usar os textos do Na Chapa como pauta para o Teleguiado. Ele, na verdade, gostava, antes do programa, de sentar e folear alguns jornais atrás de assuntos bacanas, mas nem sempre ele conseguia fazer isso, então passou a usar os textos que já tinha em mãos. Depois o Teleguiado passou a ser das 20h as 20h30.
No Na Chapa eu inclusive usava recursos da mesa de vídeo para fazer um programa inteiro em preto e branco, colocava sujeiras na tela (como nos filmes velhos de Super 8), duplicava o Cazé no vídeo e todo dia inventávamos algo diferente para fazer.
Esse maravilhoso programa me sugou muito, mas foi um verdadeiro laboratório principalmente pra mim e para o Cazé. Aprendi muito.
Até Zé do Caixão fez o Na Chapa!
PS: Infelizmente não há nada do Na Chapa no You Tube. Dedico o texto ao Ticão que, apesar dos contra tempos da vida, continua piadista. Uma lição!
A trilha sonora era sempre com músicas mais calmas: Frank Sinatra, Carpenters, Durutti Column, Al Green, Chopin, Glenn Miller, entre outros. Na maioria das vezes eram CDs meus, e uma das trilhas recorrentes era Neil Young.
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