2 de abril de 2009

Série O Resgate da Memória: 5 - Cazuza


Neste dia 04 de abril, se estivesse vivo, Cazuza faria 51 anos e certamente não estaria satisfeito com tudo o que tem acontecido no Brasil e no mundo. Em homenagem a essa data posto aqui uma matéria feita com ele na revista Bizz de maio de 1986.

EXAGERADO

O Rio de Janeiro continua lindo... se você olhar para cima, ou de cima. Muita fumaça, muito trânsito que entram em ebulição com o cheiro de maresia, já meio acre. Mas Cazuza mora lá, e preferiu a visão de cima para baixo - uma pequena cobertura na zona sul. Do lado esquerdo, a pedra da Gávea e as montanhas, "que lembram seios de mulheres", como ele gosta de vê-las. Em frente, o Jockey Club, onde às quintas-feiras, Cazuza e seus convidados têm um espetáculo pronto -luzes, binóculos e cavalos em ação. "Veja", confidencia ele, "a primeira entrada, menos pomposa, é a da gentalha. Bem em frente. Ótimo! Os bookmakers da esquina, o pessoal da favela, todos descem, na maior função, para apostar cinco ou dez cruzados. Ali, mais para a direita, é onde entra a burguesia."

Não é à toa que ele foi morar lá. Nestas duas entradas podemos resumir a pessoa de Cazuza; aquele que entra pelo portão nobre e, depois do décimo copo, sai saltitando pelo da gentalha. É o exagerado, muito mais até do que diz a própria música. E faz disso sua arte. A preferência pelos temas agonizadamente românticos está no sangue: "Estas letras têm a ver com o pessoal que conheço, noturno, complicado que nem eu. Gosto do lado marginal da vida. Adoro ir para as biroscas, bater papo com malandros, prostitutas, pessoas que são felizes, fazem festa, mas no fundo são muito solitárias. Estou do lado dos derrotados e isso é poesia" E Cazuza vai mais fundo: "Elas não estão em conexão com nada do que está rolando e, por isso, estão mais próximas de Deus. E, também, faço meio um deboche disso tudo."

É o caso de "Exagerado", um deboche do trabalho anterior e da pretensão de Cazuza fazer uma letra meio beat. Mas aí o Zeca (Ezequiel Neves) chegou e disse: "Ora, você não passa de uma Dolores Duran". Ah! Mas você tem musas, ou não? "Muito difícil eu fazer uma letra inspirado num fato real. Tem duas: ´Mal Nenhum´ é bem minha mesmo, de uma fase que nem eu me agüentava, andava meio agressivo. E o Lobão estava parecido comigo. Compusemos a música no apartamento, jogando ovos por todos os lados, até as quatro da manhã. Chamaram até a polícia." Parênteses: todas as parcerias são mais ou menos assim. Começam numa conversa de bar e acabam de madrugada, em louca composição. "Também ´Boa Vida´ eu fiz quando estava apaixonado, ótimo mesmo. O resto é historinha que eu invento."

Outro caso real é a letra que Waly Salomão fez especialmente para Cazuza, cujos versos "Eu sou a boca do lixo na boca do luxo na boca do lixo" resumem bem seu pique. "Eu e Waly nos hospedamos num hotel na Bahia, o Méridien, que só recebe bem turista francês. Um dia, naquela displicência bem característica dos baianos, fazia quarenta minutos que eu tentava falar com um amigo e não conseguia linha. Fiquei puto, arranquei o telefone da parede e saí nu pelo corredor, gritando." O que horrorizou os hóspedes. A história continua: "Waly saiu do quarto e disse: ´Que coisa mais Antonioni. Uma pessoa nua, com o telefone na mão e ninguém ouvindo´. Daí ele fez a letra. Adorei!"

Além disso, se diz um egocêntrico, o que, aliás, motivou sua saída do Barão Vermelho. "Eles queriam ocupar um espaço maior, eu era muito pesado. Então eu disse: ´Vou à luta, fiquem com todo espaço´. Somos muito amigos. Não é uma traição. Metade do meu disco é de parceria com o Frejat e eles abrem o deles com uma letra minha. E estão a mil, como eu. O problema é que eu sempre quero ter a palavra final." Aí você foi procurar outros parceiros, não é? "Na época que nos separamos recorri ao Nico Rezende porque me senti meio sem pai nem mãe. Não toco instrumentos, componho na base da caixa de fósforos. Agora tenho um trabalho de grupo, também, mas sou o patrão. Uma coisa que eu achava horrível, mas não é. Tanto que eu e meu novo parceiro, o Rogério Meanda, estamos fazendo muita coisa boa juntos." Estão na nova banda: Rogério (guitarra), Nilo Romero (baixo), João Rebouças (teclados) e Fernando Moraes (bateria).

Da pioneira safra de grupos cariocas - Blitz, Barão, Kid Abelha - houve muitas mudanças, separações, e o pessoal procurou novas parcerias. A dúvida é se isso significaria falta de criatividade ou vontade de variar. Cazuza dá sua opinião: "São os dois. Somos uma turma. Todos os movimentos importantes na música brasileira vêm de turma. A gente pintou no começo em reação ao sucesso FM e do pessoal da MPB, virando a cara. Uma coisa meio de nos proteger. Mas não tem a ver continuar junto só porque se está fazendo sucesso. Nós, no auge dele, nos separamos. Foi por puro tesão de fazer mais. Todo projeto de arte tem que sair com tesão".

Cazuza acha ótimo cobrarem, criticarem, agulharem seu trabalho. "Que nem a gente, eu, que criticava a Rita Lee por fazer bolero, de repente. É estimulante. Gosto muito do pessoal novo do ABC, os Garotos Podres, e os de São Paulo. É uma revolta verdadeira. Até agora o protesto era meio paternalista. Eu não consigo fazer porque não vivo isso. Ia achar demagogo até." E, neste rol de preferências, ele cita o Legião Urbana como a melhor coisa que pintou nos últimos tempos e, também, o Akira S e as Garotas que Erraram, de quem adora "Sobre as Pernas". "Bom ouvir porque vai motivando a criação."

Cair na estrada e promover uma total contravenção no palco é uma de suas maiores festas. "Adoro a energia do púbico, importantíssima para mim. Nunca tive problemas em São Paulo. Lá, eles não têm vergonha de ser tiete. Aqui não, o pessoal é meio estrela. Gosto de quem vai no camarim, opina e tal. E dos que sobem no palco. Como uma vez, uma mulher, tipo lá da Mooca, que subiu com uma Xereta (aquela maquininha fotográfica). Eu cantava e fazia pose para ela."

No novo disco, que sai em setembro, Cazuza aparece mais preocupado com a própria posição e a das pessoas no mundo. Da impossibilidade do homem viver num grupo social sem brigar. É o que expressa a letra "Só Se For a Dois", que, já no título, apresenta a solução. "Só resta a convivência a dois. ´Paz na terra aos homens de boa vontade´ não existe. Este é o ponto de partida do novo LP", explica.

Agenor de Miranda Araujo Neto, vulgo Cazuza, é isso e mais. Peço uma pausa para ir ao banheiro. Lá, encontro uma boca marcada a batom na parede, com a frase "eu te amo". Logo depois chega o "avô", que solta o verbo: "Cazuza é irritante. Um prolixo que joga toda sua arte para o mundo e não regateia (risos)". Ezequiel, o "avô", diz ter renascido com Cazuza e o Barão, que também produziu. E completa: "Tenho cinqüenta anos e quero viver quinhentos para ver tudo". O "neto" rebate: "Não quero viver nem oitenta, se disso depender abdicar de todas as minhas loucuras".

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