2 de junho de 2014

Série O Resgate da Memória: 38 - Júlio Barroso + Gang 90 + Rosas & Tigres


A Gang 90 é uma banda recorrente em meu tocador de mp3. Não me canso de ouvir Essa Tal... e Rosas & Tigres. Sou muito fã de Júlio Barroso e de tudo o que ele fez em tão pouco tempo.

Você pode falar em Raul Seixas, Renato Russo ou Cazuza, mas o lance de Júlio é que ele não teve tempo de fazer tudo o que queria. Foi uma morte prematura e, de fato, muito sentida. Ele acabou não deixando tanto material quanto os três que citei. Mesmo assim, o que deixou marcou profundamente. 

Aí chegou dia 6 de junho de 1984 e todo o universo da cultura pop brasileira parou por conta da morte inesperada de Júlio Barroso. Foi uma desgraceira total. Perda irreparável.

A Gang 90 estava cheia de planos e fazendo shows pelo Brasil por conta do sucesso que fazia com as músicas “Perdidos na Selva”, “Nosso Louco Amor” e “Telefone”. As três tocaram muito nas rádios e a segunda foi tema de abertura da novela 'Louco Amor'.

Apesar disso a Gang 90 não era uma banda comercial. Tem essas três músicas, mas o resto do repertório não é assim. A Gang não era banda pra tocar em rádio. “Românticos a Go-Go”, “Convite ao Prazer”, “Dada Globe Orixás”, “Mayacongo”, “Jack Keruac”; e outras como “Qualquer Gesto”, “Ela”, “Marginal Conservador”, "Vida Animal" deixam claro o perfil anti comercial da Gang. Júlio era um poeta marginal, que gostava dos beatnicks, da poesia concreta, que interpretava a vida urbana intensamente, com ideias livres.

Na época de sua morte Júlio estava compondo como louco, escrevendo, produzindo e, como sempre, cheio de ideias para colocar em prática. Uma delas era de reformular a banda, dar mais atenção a parte musical. Arranjos e ensaios do novo repertório estavam acontecendo e até uma demo com a música "Do Fundo do Coração" foi gravada.

Porém, mesmo com Júlio vivo, a Gang estava com problemas para arrumar gravadora. Criador de confusões, tinha executivo que queria distância dele. Mesmo assim planos eram feitos. Até a Som Livre chegou a desligar o telefone na cara dele – a mesma que um ano depois lançou o disco Rosas & Tigres - que já estava sendo trabalhado por Júlio e a Gang.

Este segundo disco teve a força da ajuda de dois nomes: Cazuza e Ezequiel Neves, que levaram a banda para a Som Livre. Ezequiel também produziu o disco (ele e Júlio eram amigos dos anos 70). Houve problemas durante a produção como, por exemplo, a não participação no processo de mixagem, e o pouco tempo de estúdio para a gravação (apenas duas semanas).

Apesar dos problemas – escutando o disco é nítida a precariedade da produção – a força das canções é indiscutível. Júlio Barroso só não está no disco em estado sólido, porque todas as suas ideias estão ali, claramente. Como disse antes, esse repertório já estava sendo ensaiado na época de sua morte. Das 11 músicas gravadas, 9 tem a assinatura dele.


É difícil apontar uma única música de destaque. Tem "Rosas e Tigres", "Meu Amor, Meu Playboy", "Ela", "Vida Animal", "Marginal Conservador", "Depois Eu Conto"... e ainda a belíssima e estonteante "Do Fundo do Coração" (fragmento de uma poesia maior de Júlio). A mais fraca é "Novamente Aconteceu", a única que não tem a assinatura de Júlio (mas nada contra Firmino, pelo contrário!).

Rosas & Tigres é um clássico perdido dos anos 80. Clássico mesmo! Um disco maravilhoso, com canções incríveis, conteúdo, ideias... foi feito na raça.

Para lembrar dos 30 anos da morte de Júlio Barroso, e também os 30 anos de lançamento de Rosas & Tigres (em junho 1985), publico aqui duas matérias antigas: uma da Roll, de 1984, onde relata a festa que aconteceu em homenagem a Júlio, um mês depois de sua morte. A outra é da Folha de São Paulo a respeito do lançamento do Rosas & Tigres. Essa foi uma das únicas reportagens de divulgação desse grande disco.

Aqui no Sete Doses de Cachaça há publicações sobre os outros dois discos EssaTal de Gang 90 & Absurdettes e Pedra 90.

Semana que vem publicarei texto do próprio Júlio sobre a Gang 90 & Absurdettes.

Viva a Gang! Viva Júlio Barroso!

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Homenagem a Júlio Barroso
Revista Roll, Ano 1, Nº 10, julho-1984

Para alguns a sexta-feira treze é um dia de sorte, para a maioria é um dia de azar, mas pra quem foi ao Noites Cariocas naquele dia treze de julho de 1984 assistir a homenagem a Júlio Barroso feita pela reformulada (e surpreendente) nova Gang 90 a mais os convidados Lobão & Ronaldos, As Absurdettes e A Banda dos Poetas, só teve alegria e boas vibrações, pois pra se homenagear a falta de uma pessoa querida e que só nos dava coisas belas, nada como muita energia e animação. 

E que se dane, se a noite estava fria e fechada, se havia chovido horas antes e se um segurança que não teve infância estivesse proibindo as pessoas de dançarem um pouco mais empolgadas. A festa rolou com todos perdidos na selva, rolando de tudo naquele covil de piratas pirados. Aquela onda de amor não houve quem cortasse (nem mesmo os caretas que marcavam sobre pressão).

Ao chegar-se lá em cima e sair do bondinho, havia uma mostra visual de fotos, textos e matérias que contavam um pouco da vida de Júlio e a gang. Conexão Caribe-New York-São Paulo. Música para o planeta terra. No salão de vídeos, uma coletânea de aparições da Gang nos programas de Tv, algumas cenas solos de Júlio em vídeo-arte performática, e a casa marcou por não exibir naquela noite vídeos de Kid Creole & Coconuts e Blondie, grupos que tinham uma forte ligação inspiradora com a Gang & Absurdettes. 

Mesmo a programação musical da noite poderia ser outra, ao menos uma noite do ano para ficarmos livres daquele listão de rádio que toca lá, se bem que agora eles resolveram tocar uns discos que estavam lá mofando há mais de três anos, como por exemplo os do B-52’s. É a tal new wave.

E o show não é pra se comentar como um show qualquer. Foi uma celebração em que estiveram presentes na plateia e no palco todos aqueles que conviviam ou admiravam a obra de Júlio Barroso, que se fosse um cantor inglês, a essas horas já teria virado culto, com camisetas e discos seus vendendo de montão. 

Por favor, não vamos comercializá-lo. Vamos apenas guardar na lembrança a pessoa que ele foi.


Ave Julius!

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O NOVO ESTILO DA GANG 90

Folha de São Paulo – Ilustrada – 19/julho/1985 – Página 45

Evidencia-se a presença do poeta e compositor Júlio Barroso, falecido em junho do qno passado, em todas as canções de “Rosas e Tigres”, segundo LP da Gang 90, selo Som Livre. Não é à toa. Ao detonador dos últimos modismos brasileiros, como a new-wave e suas variações, é dedicado o disco. Nove, das onze faixas, trazem seu nome e seu estilo em letras e músicas. Como celebração dessa nova fase do grupo no cenário do rock brasileiro, a Gang 90 se apresenta hoje e amanhã no Latitude 3001. Depois aterrorizam o Rio, nos dias 2 e 3, nas Noites Cariocas.

Com nova formação, a banda estava pronta para estrear no dia 8 de junho de 1984. Tudo certo: arranjos concluídos, canções ensaiadas. No dia anterior, porém, Júlio Barroso despencara de seu apartamento, deixando atrás de si muitos sonhos e uma incrível capacidade de agitação cultural. A semelhança de um adágio profético, deixara grafado em “Qualquer Gesto”, que está no disco novo: “No reino da emoção / passa um rio de concreto / em frente a janela do ap / debruçado em você na vidraça / quebrada ao corpo todo iluminado”. Em “Rosas e Flores”, o final de um outro louco amor, que era sua vida: “E na velocidade / que a gente vive na cidade / o nome disso é saudade”.

São histórias lembradas, também, pelos integrantes da Gang 90 – Roberto Firmino, 25, vocal e teclados; Taciana Barros, 20, vocal; Gilvan Gomes, 25, guitarra; Paulo Le Petit, 26, baixo; e Gigante Brazil, 33, bateria. Depois da morte de Júlio, uma parada tática, de reabastecimento musical e de emoções. Em setembro do ano passado, retornaram aos palcos, em várias apresentações, mas com uma ideia na cabeça: gravar um disco e seguir em frente. Estavam sem gravadora e sem recursos, e foi Eduardo Dusek, com quem Júlio Barroso entrou pela última vez em estúdio, que conseguiu uma maneira de o grupo colocar em uma fita as novas canções. Por ela se interessou o garotão Ezequiel Neves, da Som Livre, ao lado de Jorge Guimarães, os produtores de “Rosas e Tigres”.

Agora a next-wave

O LP foi gravado em quinze dias, em São Paulo, “uma verdadeira maratona dentro do estúdio”, dizem os integrantes da banda. Em apenas três dias, conseguiram colocar as bases, um recorde – Rita Lee e Roberto de Carvalho ficam quase três meses para concluir um disco. Mas o grupo saiu satisfeito com o trabalho. “Antes era a new-wave”, diz o baterista sorridente Gigante Brazil. “Agora é a next-wave”. É que as faixas trazem uma variedade de ritmos, de tendências, ao contrário do primeiro LP, com foco apenas na new-wave. “Estamos preocupados agora com o lado musical e não só o estético, como acontecia anteriormente”, diz Roberto Firmino, vocalista e tecladista.

Se o disco anterior marcou – e detonou – a nova onda roqueira do Brasil, os integrantes da Gang 90 esperamque “Rosas e Tigres”, provoque identico efeito. Ou reação. Agora, com uma diferença. “Cada um de nós”, conta Gilvan Gomes, guitarrista, “tem suas preferências musicais, seus caminhos. No disco, então, aconteceu uma mistura. Não uma mistura tipo farinha do Nordeste. Porém, uma mistura que gerou uma síntese”. 

Gigante Brazil emenda: “O trabalho está bem desenvolvido. A Gang 90 está madura. Era o ponto a que queríamos chegar, quando fizemos o primeiro disco. Queríamos essa diversidade de ritmos”. Paulo Le Petit que, como Gigante Brazyl, trabalhou com Itamar Assumpção, prossegue: “se antes havia a 'wavidade', agora existe a diversidade. Aliás, são várias tendências. É só o pessoal escolher e segui-las”, ironiza de quebra.

Nos espetáculos em São Paulo e Rio, a Gang 90 mostrará que a banda fez opção radical pelo lado musical, abandonando o excesso visual da fase anterior. No roteiro, músicas de “Rosas e Tigres”, outras inéditas e dois sucessos engatilhados da formação anterior: “Telefone” e “Perdidos na Selva”.






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