10 de junho de 2014

Série O Resgate da Memória: 39 - Gang 90 & Absurdettes por Júlio Barroso

Júlio
morreu em junho
logo
junho é mês de Júlio!

Aqui vai mais uma homenagem ao marginal conservador...

(Texto extraído do livro A Vida Sexual do Selvagem, Edições Siciliano, 1991, página 140)


Gang 90 & Absurdettes, criação espontânea de uma noite de inverno de 1980 em Nova York, no quarto 818 do Hotel Earle, chamado o hotel das baratinas, “cokroach motel”, apelido aferido pela rapaziada do B-52’s, que no começo de carreira se hospedava nesse pequeno new wave do Village.

Bebendo Bourbon, o delicioso Jack Daniels do Kentucky, ouvindo o som da fúria do rock na rádio de Manhattan, eu e Okky criamos a Gang.

De volta ao Brasil (eu residia há um ano em Nova York, após uma temporada no Caribe) continuamos a incrementar a ideia. De noite em São Paulo, junto a minha irmã Denise, com May, Gigante, David Barroso, Tavinho Paes, Reinaldo Cotia, uma época de conversas, ideias, simplicidade criativa, futurismo e nevascas: “É melhor morrer de vodca do que de tédio”, já dizia Maiakovski.

Uma tarde, boiando nas águas de Ipanema, com Tavinho e Guilherme Arantes, consegui passar o entusiasmo da ideia para nosso grande baladista e tecladista super. De volta a Paulicéia, começamos a ensinar no estúdio de Guilherme, já com Lee Marcucci e Wanderley Taffo, da banda da Rita, e o Celsão do Made. Rolaram os primeiros ensaios e entraram as duas Absurdettes que faltavam, a Luiza Maria, minha colega de noite, e Alice Pink Pank, que acabava de chegar da Europa, onde havia gravado vocais para o disco de estreia da banda irlandesa U2, o LP Boy.

Nossa primeira apresentação foi no Paulicéia Desvairada, já cantando com Nelsinho Motta e Leonardo Netto que começavam a formar seu novo label.

A gravação do primeiro compacto aconteceu imediatamente após os primeiros encontros. De um lado Perdidos na Selva, um rock na tradição da jovem guarda, com uma narrativa de estórias em quadrinhos, uma “heavy iê iê iê”: um desastre aéreo com um “happy end” “na veia”. Zen-comix, composto em 1979 em homenagem a Rita Lee. Dois personagens perdidos na selva luxuriante, aves revoam, um pôr-de-sol apenas entrevisto, para na estrada da noite urros de animais selvagens se mixarem a sussurros de prazer, em contraponto ao brilho maroto da lua e ao sururu da luz de galáxias estelares. Enfim um cenário de produção chanchadesca, citando/homenageando ainda nosso teatro de revista. Paródia da paródia, uma nova estética do deboche.

O lado dois, Lili Lamê, é uma versão da canção Cristine de Siouxie Sioux e John Severin, do grupo Banshees, um dos primeiros da onda de modernidade que assolou saudavelmente a Inglaterra em 1976. A letra de Lili Lamê foi escrita por mim em parceria com Antônio Carlos Miguel e Katy. É a história de Cristine, a garota deslumbrada com o brilho da noite (blábláblá), enfim um “thriller” em ritmo “noir” sobre a garota desfrutável, linda, que como um delicioso sorvete se derrete em meio ao saboroso e cruel turbilhão de emoções da juventude. Mais uma história de sexo, drogas e rock’n’roll. Lili era o nome de uma divina musa do poeta Maiakovski.

O primeiro compacto da Gang foi gravado no nosso estúdio, com direção de estúdio de Marcos Vinicius; direção musical, arranjos e teclados de Guilherme Arantes; Lee Marcucci, baixo; Wanderley Taffo, guitarras; Gigante Brazil, bateria.

O vocal solo de Perdidos na Selva é meu; backing vocals: Guilherme, Nicolor Fornoglia e Mielsen Notte; supervocals das Absurdettes.

O solo vocal de Lili Lamê é de Lolita Renaux; as harmonias de Alice Pink Pank e back vocals das Absurdettes.

O desenho da capa foi idealizado por May East e eu, e a caligrafia por Alice. A realização da arte foi de Fernando Casal.

A serigrafia de Gang 90 é um design meu com arte de Lygia Lara, letras de Alice.

Todos os designs envolvidos na Gang são criações e produções ilimitadas.

Júlio Barroso
São Paulo, julho de 1981




Um comentário:

Márcio disse...

Cara, nunca tinha ouvido a versão para "Christine". Em 1981, ninguém deve ter entendido absolutamente nada. Excelente!

Uma curiosidade: em qual faixa do "Boy" a Alice fez backing vocals para o U2?

E uma sugestão de pauta: fazer um "por onde anda" para algumas pessoas dessa geração. A Taciana Barros é diretora de arte, a Mae East é ligada a questões de sustentabilidade e por aí vai.

Abração!