24 de outubro de 2010

O Pós-Punk Brasileiro

Mercenárias
Em 23/10/2010 o 'Cadê as Armas?', primeiro disco das Mercenárias, completa 24 anos. Um clássico. Usarei essa data para postar hoje este texto que já esta pronto há um mês.

Dias atrás, estava eu no ônibus voltando pra casa quando vi ao meu lado Sandra Coutinho. Comecei a suar frio. Já encontrei Sandra em outras ocasiões, mas não daquele jeito. Não resisti e agradeci por ‘Cadê as Armas?’ e ‘Ao Vivo no Mosh’. Conversamos rapidamente, disse a ela que eu tinha uma fita das Mercenárias ao vivo ainda com Scandurra na bateria e ela me falou que também tem material ao vivo, que está reunindo tudo para lançar oficialmente. Vixi Maria!
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Último Número
O pós-punk brasileiro teve seus bons representantes e, apesar de Belo Horizonte, Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre, as bandas mais conhecidas foram as de Brasília e São Paulo.

Em BH o pós-punk foi basicamente calcado em um forte texto inspirado em poesia concreta, beatniks e na estética de Joy Division e Ian Curtis, Bauhaus e esse início do movimento gótico musical. Sexo Explícito, Último Número, O Grande Ah!, Divergência Socialista e outras, umas mais e outras menos, mas todas tinham influência pós-punk. Mas elas estavam também inseridas em um contexto em que havia também artes plásticas, instalações, além de artistas e fotógrafos que cuidavam da parte visual dos shows, das capas, das fotos, dos flyers. Festas, casas noturnas, bares, shows. Tinha a efervecência parecida com São Paulo, mas uma relação pessoal bem parecida com Brasília (essa é a leitura que tenho vendo de fora).

Ira!
O pós-punk de São Paulo foi muito bem registrado: Smack, Voluntários da Pátria, Akira S & As Garotas que Erraram, Musak, Ira!, Nau, Agentss, Gang 90, Cabine C, Fellini, Mercenárias, Patife Band, 3 Hombres, Nº 2 (que não gravou), Violeta de Outono e mais uma porção delas. Umas bem diferentes de outras, mas tendo uma unidade em estética e influências. Um monte de casas noturnas faziam parte do circuito alternativo: Napalm, Carbono 14, Madame Satã e Rose Bom Bom eram algumas. Em SP as letras não tinha essa característica de poesia marginal que havia mais em Minas, mas havia sim a representação paulistana, como Fellini e Akira S. Se você quiser achar parte desses nomes paulistanos o alvo certo é a Baratos Afins. Todo esse pessoal também se conhecia, as bandas faziam shows juntas, dividiam equipamento, se encontravam nas casas noturnas e festas, e eram rodeadas de outros artistas e fotógrafos que ajudavam na parte visual.

Plebe Rude
Em Brasília, toda essa cena conhecida da mídia que surgiu no início dos 1980 é influenciada pelo pós-punk. Plebe Rude, Capital Inicial, Legião Urbana, Escola de Escândalo, Elite Sofisticada, Finis Africae, todas elas gostavam de PIL, Gang of Four, XTC, Stranglers, Talking Heads, Television, Adam Ant, e todo o movimento gótico de Joy Division, Cure e Bauhaus (como em BH). A característica de Brasília é mais próxima a de SP, onde se dava a mesma importância para letra e música. Só que ao contrário de BH e SP, as bandas brasilienses não abandonaram as influências punks. Dá pra ver fortes semelhanças, entre Ira!, Mercenárias, Smack e todas as brasilienses, principalmente no período em que as candangas ainda estavam em Brasília, entre 1982 e 1984. Mas de todas da capital a que mais manteve as características iniciais foi a Plebe Rude.

Smack
Curitiba e Porto Alegre também tinham suas representantes, mas não eram tão numerosos como nas outras capitais. De Curitiba eu mesmo só ouvi Beijo AA Força, e de Porto Alegre, De Falla. Inclusive Edu K eu fui conhecer inusitadamente no Guarujá, numa casa noturna que se chamava QG. Em 1984 vi um show da banda lá, quando Edu tinha o cabelo de Billy Idol...

No Rio de Janeiro não havia uma cena específica, mas sim uma ou outra banda como o próprio Paralamas do Sucesso, Black Future e Picassos Falsos, mas longe de ser como nos outros lugares, mesmo Curitiba e PoA, que também tinham suas turmas.

Voluntários da Pátria
Pra mim, de todas essas cenas a mais radical (no bom sentido) é a de Minas, apesar de eu só ter ouvido de fato Sexo Explícito e Último Número. De São Paulo tenho tudo o que foi gravado, além de tapes ao vivo não oficiais. De Brasília, nem preciso falar muito, mas registro a saudade que tenho do que era a Legião e o Capital antes de gravarem seus primeiros discos.

Pra minha alegria (e de muitos outros brasilienses) o Escola de Escândalo prepara uma reunião especial, com direito a DVD, CD e shows pelo Brasil. Geruza, Marielle, Totoni e Parente estão reunidos já gravando o álbum. Ninguém melhor que Parente para reproduzir o que só Fejão fazia na guitarra. Estou aqui torcendo para que dê tudo certo.

Apesar dos lugares serem distintos, essas cenas tinham suas semelhanças. Em Brasília, em Minas e em São Paulo era comum encontrar pessoas que tocavam em mais de uma banda, as vezes em até três ou quatro ao mesmo tempo (como era o caso de Scandurra em SP, Fejão em BsB). Mesmo cada banda tendo sua sonoridade, todas elas tinham preocupação com a estética, influência da cena gótica, davam mais atenção ao baixo, faziam experimentações.

O pós-punk inglês e americano não ficou marcado por sucessos de rádios, ou por atingir um grande público (tirando as poucas exceções), mas tinha seus seguidores e influenciou bastante a new wave, o tecnopop, o alternativo das college radios, o grunge, o britpop, o electro rock. Ou seja...

Das bandas pós-punks citadas aqui as que mais fizeram sucesso foram Plebe Rude e Ira!, mas isso não significa que só elas eram boas. Pelo contrário, muitas delas são maravilhosas.



















10 comentários:

Rái Mein disse...

faltou comentar sobre a mais estranha e original de toda cena pós-punk 80's Brasil: Vzyadoq Moe

Paulo Marchetti disse...

Oi Rái Mein. Valeu a visita, mas devo lhe dizer que não considero Vzyadoq Moe uma banda pós punk, apesar do estilo ser bem abrangente.
De qualquer forma ótima lembrança. Tenho os discos e assisti a shows.
abraço

André Milagres disse...

No Rio de Janeiro tambem existia uma cena pós punk forte, apesar de ser ofuscada pelas bandas de características mais pop que foram marcas da cidade. O Crepúsculo de Cubatão era referência, e havia as festas do programa Novas Tendências na danceteria Metropolis. O pessoal também se conhecia e se encontrava nos lugares alternativos. Faltou citar várias bandas daqui, como Hojerizah, Kongo, Ethyopia. O próprio Finis Africae, de Brasília, era um grupo que teve o Rio como moradia por um tempo.

Paulo Marchetti disse...

Oi André. Não vejo tantas bandas de pós punk no Rio como você diz. Kongo estava mais para ska, Hojerizah era mais pop, Ethiopia mais gótica, por isso que citei apenas o Black Future.

Da mesma forma não citei Vzyadoq Moe que era muito mais experimental que qualquer outra coisa.

De qualquer forma vale o registro dessas bandas aqui.

abç! Valeu!

Eduardo Cabral disse...

Ótimo texto... Muitas excelentes bandas lembradas...é sempre bom ler e reler sobre elas!!

Não conheço algumas das bandas mineiras comentadas...pesquisarei com calma os nomes mencionados... Duas bandas do Rio que realmente fizeram falta no review foram Hojerizah e Ethiopia. Essa última na minha opinião é uma das mais coerentes representações do pós punk da cidade... mas é a minha opinião :P...
De fato algumas bandas dentro do pós punk oitentista alternavam entre gêneros... diferir o gótico quando ele está muito próximo do pós punk eu acho mto dificil... por isso considero Ethiopia uma banda de pós punk...

Apesar das exêntricas referências musicais dos sorocabanos do Vzyadoq Moe acho q a presença deles em qualquer lista de referência da cena post punk paulista é quase que obrigatória!!! srsrsrrss...afinal o próprio Fellini e Black Future alternaram entre gêneros...
De qualquer modo nota 10 para o texto e iniciativa!!!



Davidson Bernardes disse...

Gostaria que falasse um pouco do Varsóvia... Pra mim, a banda que mais se assemelha ao Joy Division no território nacional, tendo inclusive o nome em referência a banda de Ian Curtis... Parabéns pelo blog amigo!

Davidson Bernardes disse...

VARSÓVIA!

Armando Louder disse...

Olá amigos e principalmente Paulo, estamos divulgando nosso trabalho que tem como origem o Post-Punk Nacional (RJ), esperamos seu FeedBack:
http://balcma.blogspot.com.br/

Jurassik Dark disse...

Olá, estou terminando meu TCC que também é um documentário sobre postpunk. Gostaria de usar esse texto seu e se vc tiver mais eu agradeceria pois há muito pouco material sobre o assunto, principalmente sobre a cena brasileira. Grato. Meu Facebook: jadsonjr@live.com

Alguém disse...

Não esqueça também de Arte no Escuro, Muzak, banda Kafka, Varsóvia e banda 365 (esta última um verdadeiro patrimônio paulistano) :)