8 de abril de 2013

Série Coisa Fina: 19 – The Stranglers

Mal-encarados, sujos, velhos, cínicos e feios. Stranglers me faz sentir-se bem. Muito bem. Não sei ao certo quando e como ouvi The Stranglers pela primeira vez, mas quando minha irmã chegou de viagem com o Rattus Norvegicus e o La Folie debaixo do braço em setembro de 1982 eu fiquei perplexo. Até foi festejada a chegada do La Folie, o “novo” do Stranglers que, na verdade, havia sido lançado em novembro de 1981. Para a época era considerado disco novíssimo em folha, como se tivesse saído um dia antes. Ainda mais se tratando de um disco que jamais seria lançado no Brasil.

Pensando fundo é muito improvável escutar Stranglers na Brasília do final dos 1970 e início dos 1980. Não sei quem “descobriu” a banda, mas certo é que isso foi coisa ou dos irmãos Lemos (Fê e Flávio) ou dos Mueller (André e Bernardo). Muita gente dessa Turma de Brasília é apaixonada por Stranglers, mas o maior fã que conheço entre todos é André Mueller (Plebe Rude) que, inclusive, tem uma maravilhosa edição da caixa The Old Testament.

Em Brasília a banda fazia parte das coletâneas que eram feitas nas fitas cassetes. Todo mundo escutava no carro, nas festas, em casa. Até hoje eu escuto corriqueiramente. Tenho escutado muito os três últimos lançamentos: Norfolk Coast, Suite XVI e Giants. Os três são ótimos, pra se escutar de cabo a rabo.

Giants foi lançado em 2012 e é o último do Stranglers que já anunciou a aposentadoria. Discaço! Saidêra de ouro! Inclusive a capa do disco é uma foto dos quatro enforcados: JJ Burnel (voz e baixo), Jet Black (bateria), Dave Greenfield (teclados) e Baz Warne (voz e guitarra). Um dos motivos da aposentadoria é a saúde de Jet Black. Em 2013 ele completa 75 anos. Sim, 75 anos! Ele tem arritmia cardíaca e deixou de se apresentar com a banda em diversas ocasiões, sempre substituído por seu roadie.

Jet Black é contido, faz o necessário e gosta de jazz. Em 1974, quando já tinha 36 anos, respondeu a um anúncio de procura por baterista na finada Melody Maker. Antes disso já havia tocado em uma banda e acompanhado outras diversas em pequenos shows em pubs. Ele tinha sido baterista amador e quando respondeu ao anúncio, era empresário dono de vans que vendiam sorvete pelas ruas de Londres. Jet também era revendedor de uma famosa marca de equipamentos para fabricação de bebida caseiras, principalmente cerveja. De saco cheio da vida, há um tempo ele tentava formar uma banda, fazendo testes com baixistas e guitarristas que não lhe chamavam a atenção.

O anúncio que respondeu era para entrar em uma banda chamada Johnny Sox, que já tinha Hugh Cornwell, JJ e Dave. Essa banda foi formada na Suécia quando Hugh foi pra lá estudar bioquímica. Conheceu Hans Warmling e começaram a tocar juntos. Quando os estudos acabaram, Hugh voltou para Londres, reformulou a banda e continuou o Johnny Sox junto com Hans, que foi passar uma temporada na Inglaterra. Foi aí que Jet entrou.

Esse Johnny Sox inglês era Hugh, Hans, JJ e Jet. Depois de pouco tempo Hans voltou para Suécia e Dave Greenfield entrou. Isso tudo aconteceu entre final de 1973 e 1974.

A cena punk londrina nem existia na época e o Stranglers fazia o circuito de pubs. Isso trouxe à banda forte influencia do pub rock. O fato de também ter teclado era um diferencial. Mas como naturalmente eles todos se vestiam de forma simples, com roupas sujas e amassadas, falavam de comportamento, muito sexo, guerras, política e religião, não foi nada difícil e estranho para a banda entrar no contexto punk e fazer parte da turma punk londrina dos anos 1970. Inclusive o Stranglers abriu os famosos shows que o Ramones fez em Londres em 1976.

Desde o início o Stranglers se diferenciou de todas as bandas de sua geração. Era diferente dentro da cena pub rock e diferente dentro da cena punk. Stranglers, pra mim, é uma banda de gênios, por ter uma visão muito além de seu tempo. Seus discos são atemporais mesmo tendo teclados. Alias, Stranglers é referência obrigatória pra quem quer ter banda com teclados.

Seus shows sempre tinham confusão. Muita gente acusava a banda de sexista e aproveitava pra fazer protestos. Em determinados shows a banda costumava contratar prostitutas para ficarem dançando peladas no palco. Fora que os próprios integrantes tinham (e tem) cara de poucos amigos. Por conta disso, o Stranglers costumava fazer shows escondidos, usando outros nomes. Era banda que a crítica não gostava, mas que o público adorava. Nunca chegou ao Top 1 (graças a Deus!, mas entrava nas paradas).

Em 1980, depois que Hugh Cornwell foi preso por porte de heroína, o Stranglers organizou um show para ajudar a pagar os custos do processo e chamou diversos amigos/fãs para participar. Foi lançado o ótimo Live in Concert 1980 The Stranglers and Friends e, na lista de participações, tem Robert Smith (The Cure), Robert Fripp (King Crimson), Wilco Johnson (Dr. Feelgood), Ian Dury e outros famosos nomes do rock inglês.

Nos anos 1970 muita gente se referia ao Stranglers como uma banda de velhos. E pra calar a boca dessa gente, a banda acabou sendo uma das poucas de sua geração a permanecer na ativa até hoje. Pra mim, dos 17 discos de estúdio, do Rattus Norvegicus até Giants, apenas 6 considero ruins. 5 deles foram lançados na década mais fraca da banda, que foi 1990. Hugh Cornwell saiu logo depois de lançar o ‘10’, exatamente em 1990. Contando com este último de Hugh, o Stranglers lançou outros ruins com Paul Roberts no vocal (ex-Vibrators). Paul não era o cara certo. A banda passou essa década sem muita inspiração.

Nos anos 1970 o som era cru e com muita energia, raiva. Distorção na guitarra e no baixo, experimentações com timbres de teclados. Os vocais graves de Hugh também são marca do Stranglers. O baixo sempre em destaque junto com os outros instrumentos e em certas músicas ganha até mais destaque, o que era outro diferencial tanto para a cena punk, quanto para o pub rock.

Nos anos 1980 o som mudou, e muito. Entraram violões com cordas de aço, muita melodia, guitarras dedilhadas, os timbres de bateria mudaram e o baixo, apesar das boas frases de JJ, deixou de ter a importância que tinha. A sonoridade punk e o pub rock raivoso saíram de cena. Tudo ficou mais leve e estranho. Perdeu-se o som ogro dos 1970. O Feline e o Dreamtime são bem esquisitos (no mau sentido). Dentro dessa nova sonoridade pós La Folie, o grande disco é Aural Sculpture. Do começo ao fim.

De 1990 até 2006 o Stranglers se tornou um quinteto, mas dois anos depois de Norfolk, Paul Roberts saiu e a banda voltou a ser um quarteto com Baz Warne na guitarra e voz. Baz começou a carreira profissional em 1983 tocando baixo no Toy Dolls. Em 1995 acompanhou Stranglers em uma turnê. O legal dele é que ele é fã, deixa isso na cara. Dá pra ver a felicidade dele no palco, faz bem as partes de Hugh e tem personalidade (próximo do que CJ foi para o Ramones).

Duas coisas diferem o Stranglers das demais bandas (não só de sua geração): os geniais teclados de Dave Greenfield, dono de um ultra bom gosto, tanto nos arranjos, quanto nos timbres; e o baixo de JJ Burnell que foi um dos grandes responsáveis por mudar o rumo desse instrumento dentro do rock/pop.

The Stranglers foi o patinho feio em todas as cenas que a mídia tentou encaixá-lo. Caiu melhor no punk, pela postura, pelo som pesado. Pouca gente aqui no Brasil conhece ou gosta. É banda atemporal, influência para qualquer geração.

Amo demais. É banda companheira de todas as horas. Fiquei muito feliz quando voltou a gravar bons discos a partir do Norfolk Coast. O peso e o baixo marcado voltaram. A sonoridade ficou mais próxima dos anos 1970. 

Já escrevi sobre Stranglers no Rock Brasília 64 mas, pela aposentadoria, faço dessa publicação minha humilde homenagem a essa banda que, quando escuto, me ajuda a pensar e resolver as coisas da vida.

Justa aposentadoria desses caras mal-encarados, sujos, velhos, cínicos e feios.

Meus 5 preferidos (por ordem de preferência): 
1º) Rattus Norvegicus 
2º) La Folie 
3º) Black and White 
4º) No More Heroes 
5º) The Raven














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