10 de outubro de 2012

Rock Brasileiro: 3 – A Imprensa e Publicações da Geração 80


Quando eu comecei a me interessar por rock com 11 anos (1981), o que havia de publicação especializada era praticamente a Som Três, que era uma revista sobre equipamentos de áudio e vídeo e que tinha, na parte final da revista, uma seção dedicada a música. Nela escreviam Paulo Ricardo, Ezequiel Neves, Maurício Kubrusly, Júlio Barroso (que escrevia para outras e acho que para ST também), Ana Maria Bahiana e outros conhecidos. Mas o que havia nessa seção era pouco, os principais lançamentos, e algumas poucas matérias. Sempre havia uma pauta com artista brasileiro. Era um período de pouco rock e mais MPB. Sem preconceito falava de tudo. Não era para ser uma revista de opinião.

Ao contrário da Pipoca Moderna que circulou nessa mesma época, mas que infelizmente teve vida curta. Não lembro exatamente, mas durou poucos meses e deixou ótimas matérias. Alguns nomes que escreviam para a Som Três também escreviam para a Pipoca. Esta sim tinha opinião em suas reportagens e nas resenhas de discos e filmes. Era cultura pop mais focada em música. Muitas bandas tiveram suas primeiras matérias feitas pela Pipoca Moderna: Blitz, Eduardo Dusek e João Penca, a cena punk carioca, a Turma da Colina em Brasília, Paralamas (apenas uma nota com foto).

A Pipoca Moderna pegou o início da cena 1980 e conseguiu registrar essas e outras boas matérias. A postura, apesar da formação de opinião, era de jornalista mesmo, um olhar de fora e a intenção era dar uma força para a nova cena que surgia. Aqui mesmo no Sete Doses de Cachaça você acha matérias onde o jornalista  vai ao show, descreve o ambiante, o clima das pessoas e diz até se a cerveja estava gelada ou não. Nas resenhas de discos até apareciam críticas negativas, mas não tinham a intenção de atingir o artista por algo pessoal. Muitas vezes era até um texto, digamos, inocente.

Mas logo que Pipoca Moderna saiu de circulação, apareceu a Roll. Grande revista que dominou o mercado de 1983 até o surgimento da Bizz em 1985. Era a principal e melhor publicação sobre música. Nessa época ainda havia a Som Três, mas como falei, era mais voltada para equipamento (deve ter durado até 1987/88). E não foi pouca coisa não. Só pra se ter ideia, foi a Roll que cobriu o Rock in Rio desde o anúncio oficial até o fim do festival. Fez matérias, entrevistas com os artistas, a chegada deles, toda a montagem, e o que mais podia! E todos eles tiravam fotos com a revista na mão. Muito legal.

A Roll também pegou o filé mignon da cena 1980 o surgimento e a consolidação de toda ela. Era uma revista feita no Rio de Janeiro, mas tinha muita matéria de São Paulo e outros lugares do Brasil. Foi ela que fez as primeiras entrevistas com Legião Urbana, Barão Vermelho, Titãs, Ultraje, Paralamas, Ira! (antes da exclamação). Cobriu a saída de Cazuza do Barão, a morte de Cláudio Killer (João Penca), de Júlio Barroso (Gang 90). A Roll não cobria só o que as gravadoras majors estavam apostando, mas também o underground do eixo Rio-São Paulo e de outros lugares como Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Belo Horizonte e Brasília. Ela mostrou o Camisa de Vênus, Coquetel Molotov, De Falla, Beijo AA Força, TNT, Mercenárias, Voluntários da Pátria, Último Número, Picassos Falsos, Finis Africae...

Tinha também uma opinião forte e, como a Pipoca Moderna, uma postura amigável, mesmo que algumas vezes surgisse alguma opinião negativa. É bom deixar aqui registrado que nesses primeiros anos de publicação segmentada havia uma torcida para que a cena rock, que estava surgindo junto, desse certo. A turma da MPB já não era novidade, as bandas que haviam, e que misturavam o rock na MPB (e não ao contrário), era o que pegava mais nesse período 1981-1983, mas como surgia uma nova geração de jovens, com ela novas bandas e a esperança de que elas pudessem chegar nas rádios para mudar as coisas, por isso, o jornalismo e a opinião de Pipoca Moderna e Roll era de apoio, de querer mostrar para as gravadoras “escuta isso aqui que é legal”. Até porque essa cena era conteúdo para publicar e se desse certo teria mais conteúdo ainda. Não era uma revista com boa qualidade técnica de impressão e papel, ao contrário de sua maior rival.

Quando a Bizz apareceu na metade de 1985, já chegou chutando a santa. Era feita em São Paulo e formada por um time de jovens jornalistas que também eram músicos, tinham suas bandas e compunham suas músicas. Isso, de certa forma, não foi bom. Esses jornalistas/músicos tocavam no mesmo circuito que tocavam as bandas que apareciam nas revistas. Às vezes faziam shows juntas, se encontravam nas casas noturnas, em festas, mas na medida em que o tempo passava, algumas bandas conseguiam assinar com grandes gravadoras, outras não. Acabou que bandas que eram do underground passaram a ser do mainstream: Ira!, Titãs, Legião, Plebe, Ultraje, Capital, Blitz, Lobão, RPM. Na época da Roll esses e outros artistas eram underground, estavam começando. Quando a Bizz surgiu, alguns desses artistas estavam em seus primeiros discos, salvo algumas poucas exceções. Claro que alguns desses jornalistas/músicos se incomodaram de ver seus amigos se darem bem, gravar, tocar nas rádios, ficarem famosos, shows por todo Brasil, hotel, mulheres, contrato, dinheiro.

Tudo ficou diferente, porque antes era só escrever sobre os pequenos shows do underground e, de repente, virou resenha de disco lançado por multinacional, entrevista, reportagens mais profundas. Aí começou aquele negócio de falar que escreveu mal sobre o disco ou o show, só por inveja da nova condição do amigo. Havia discussões através da seção de cartas, artista que falava que não dava mais entrevista para fulano ou sicrano.

Quando o rock se estabeleceu de vez nos 80, aí virou um festival de jornalistas desprezarem o rock brasileiro, falarem mal dos discos e dos shows. Até hoje há os jornalistas que ignoram o rock brasileiro.

De 1985 até seu fim em 2001 a Bizz teve uma postura bem diferente de suas antecessoras. A Roll foi até 1988, mas já no final de 1986 ela não tinha mais a mesma força. Até porque a Bizz era forte, de uma editora forte, já chegou com bom papel, qualidade técnica igual e de outras grandes publicações brasileiras de respeito, uma equipe pronta que recebia discos e respeito das gravadoras. Por ela já chegar forte, também já chegou arrogante. Não que isso fizesse dela uma revista ruim, mas nela haviam jornalistas ruins, desses que tem mau caráter mesmo. Durante todo o resto dos 80 e durante todo os 90 a Bizz foi a principal referência como publicação musical, mas chegava a irritar até mesmo seus leitores. Havia todo um time de jornalistas/músicos frustrados fazendo parte dela e isso era o lado negro da revista.

Aqui no Brasil, a imprensa especializada e as publicações também fazem parte de uma história esburacada, como a do próprio rock. Hoje há publicações especializadas, mas elas nunca mais irão ter a mesma força de antes. Infelizmente, publicações especializadas aparecem e desaparecem sem deixar rastro.

2 comentários:

MARCELO TADEU disse...

Paulo, lembro bem das publicações... forma pioneiras e especiais por nascer junto com a própria cena do rock nacional, embora os "senões" que vc citou, no que concordo. Lembro de um artigo do Ezequiel Neves na Som Tres, creio que de 1981, falando sobre o início da carreira do Barão... caraca, o tempo passa, abç Paulo

Paulo Marchetti disse...

Oi Marcelo. Em sebos é possível encontrar várias Som Três. Roll e Pipoca são mais difíceis. Uma vez encontrei um site que publicou todas aws capas de Som Três. Grande revista!
Valeu!
abç