24 de maio de 2010

Música efêmera e música atemporal

A cada nova geração os artistas, os álbuns e as músicas, tudo têm ficado cada vez mais efêmero, fraco e superficial. Sobre isso penso o seguinte...

Já faz um bom tempo que venho postando textos sobre bandas e artistas um tanto desconhecidos no Brasil. Faço isso não só aqui no Sete Doses, como também no Rock Brasília, onde inclusive já fiz a série pós-punk com The Stranglers, Talking Heads, XTC, entre outros (aliás, penso numa nova leva).

Gosto de escrever sobre essas bandas não por ser nostálgico, longe disso. Faço isso por outros motivos.

Em uma entrevista com Roger, do Ultraje, ele disse o certo, que essa nova geração espera as coisas caírem no colo. É a lei do mínimo esforço. E o pior é que Roger está certo. É também como aquela coisa de você se apaixonar por quem te nega, e não por quem baba por você.

Hoje com a internet, está tudo muito fácil, quase tudo está banalizado (de notícias a sexo). Você vai onde quiser, lê e conhece tudo. É por isso mesmo que ninguém quer saber de pesquisar e conhecer, só quando é obrigado. Hoje você tem as mais completas informações sobre tudo e de quebra diversos pontos de vista. É tudo muito fácil.

Da segunda metade dos anos 1990 para trás era muito difícil ter notícias da banda, artista, disco ou música preferida. As opções eram poucas, mas já teve a Rolling Stone em 1972/73, a Geração Pop, Pipoca Moderna, Som Três, Roll, Bizz, Metal, Rock Brigade. Cada revista teve sua época e nos anos 1970 até início dos 1990 era sofrível obter notícias frescas e verdadeiras sobre seus ídolos. Pior ainda pra quem gostava de gêneros mais segmentados como punk rock, metal e black music.

As revistas priorizavam, claro, o que era mainstream, então eu, por exemplo, quase nunca lia algo a respeito de Clash, Dead Kennedys, Gang of Four ou mesmo Talking Heads e U2 (quando ainda era banda pequena). Aí finalmente quando saia algo sobre Red Hot Chili Peppers (tô falando de 1986 e eu louco por algum texto sobre o Freaky Styley) era uma nota minúscula falando que a banda deu uma festa e a polícia foi chamada por causa da bagunça. Pronto. Mais nada. E o pior é que dava uma nota dessa como se a banda fosse ultra falada por aqui.

Notícia completa do RHCP só após o lançamento do Blood Sugar Sex Magic, e mesmo assim era só com incentivo da gravadora (se é que você me entende). Ah! E lembro também que essas revistas eram mensais. Ou seja, a notícia muitas vezes já estava velha e demorava-se meses para ler ao menos uma notinha estúpida sobre o que você tanto aguardava.

Hoje não é mais assim. Tenho as informações que quiser sobre Red Hot Chili Peppers. Biografias, vídeos, noticias, fotos, músicas, tudo! Por falar em fotos, se não fossem as capas de discos e os livros gringos que eu conhecia, até os anos 1990 eu teria visto, no máximo, 10 fotos do Ramones, umas três do Red Hot Chili Peppers.

Dessa forma éramos obrigados a achar o máximo de informação possível das coisas que gostávamos, por isso, era costume consumirmos qualquer coisa que vinha nos discos, quase comíamos o encarte desde as letras, os compositores, a ficha técnica, o endereço da gravadora e até mesmo as informações que estavam no selo do vinil. Nós, roqueiros convictos, queríamos ‘matar’ a gravadora quando não vinha encarte. Para economizar, algumas edições brasileiras eram só capa e vinil. Ódio mortal.

Era um efeito dominó porque eu lia no disco do Sex Pistols nomes como The Who e Eddie Cochram, no do The Jam lia Kinks e ia atrás de notícias sobre essas bandas, geralmente com os amigos mais velhos. A busca por informações era praticamente uma aventura. Uma banda me levava a outra e assim o conhecimento musical ia aumentando. Até hoje é assim.
Aí veio a internet no final dos anos 1990 (aqui no Brasil) e facilitou tudo. Eu me esbaldei indo atrás de tudo o que eu queria. Gosto de XTC desde os anos 1980, mas só fui ver um clipe da banda em 2006 graças ao You Tube.

Hoje não me conformo em ver a nítida falta de conhecimento desses últimos artistas que surgiram, seja as bandas emo, as novas cantoras ou os sertanejos. Teve uma cantora, que lançou o 1º álbum em 2006, e já está no segundo, que declarou que só foi conhecer Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes após ter gravado o 1º álbum. Pô?!

Conheço gente de hoje, do underground de São Paulo, que faz um rock alternativo e que acha que o rock começou com Nirvana, que só conheceu Gang of Four graças ao Franz Ferdinand. Gente que em 1998 me falou que não gostava de Clash por ser uma banda velha!!! Santa ignorância! Então eu Paulo Marchetti não gosto mais de Chopin, de Salvador Dali ou Jorge Amado porque é tudo velho.
Quem quer fazer música tem que conhecer música e quanto mais se conhece, mais chance você terá para fazer um som original (e de forma natural). Se você só conhece Oasis, Red Hot Chili Peppers e Pearl Jam, então você está perdido, vai fazer uma música limitada, de baixa qualidade e sem personalidade. Exatamente o que eu vejo e ouço hoje por aí e que já ouvia nos anos 1990 quando eu recebia centenas de fitas e CDs demos por mês.

Hoje ouço The Strokes, Mates of State, The Hives, Interpol, Bloc Party, The Zutons, Modest Mouse, The Temper Trap, The Thrills, mas jamais deixarei de lado as coisas dos 1960, 1970, 1980 e 1990. No meu mp3 as gerações estão misturadas. Esses dias mesmo venho escutando bastante Hockey e The Cure.

Veja o quanto John Lennon e Paul McCartney conheciam de rock. Renato Russo, Raul Seixas, Roberto Frejat, Robert Smith, Joey Ramone, James Hetfield, Flea, The Edge, Kurt Cobain. Todos roqueiros convictos. E não só isso. Veja a importância que a literatura tem na vida de todos os que citei. Ela é de suma importância para se fazer uma boa letra, um bom texto e até buscar temas e pontos de vista diferentes.

Talvez seja um pouco por isso que aqui não vemos tantos artistas bons surgindo como vemos em países como Inglaterra, Estados Unidos e Austrália. Veja a lista de bandas recentes acima, se eu quisesse poderia colocar o dobro de nomes tranquilamente. Enquanto que aqui no Brasil, seja no mainstream ou no underground, é sofrível para achar cinco nomes, e não é por falta de vontade.

É por isso que as coisas andam de mal a pior. É pela falta de conhecimento musical e falta de conteúdo, de leitura. Isso, claro, se o artista quiser de fato entrar para história ou ao menos tentar fazer alguma diferença. Analise o quanto esses artistas duradouros têm de conhecimento.

Os que têm sustância duram para sempre. Tornam-se atemporais.

Um comentário:

Bleffe disse...

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