6 de janeiro de 2014

Legião Urbana, Caetano Veloso e a Maconha Da Lata

Só pra situar, antes de tudo, e lembrar (mais uma vez) que o contexto era outro: fita cassete, vídeo cassete, disco de vinil, walkman, sem celular, sem internet, sem produtos importados, sem tv a cabo.

1987 foi o ano que me mudei para São Paulo. O Governo Sarney e seus planos econômicos esdrúxulos estavam em franca decadência, o Brasil se afundava em inflação e o futuro era completamente incerto. Era o fim da censura, todo mundo estava feliz da vida com o fim da ditadura, mas tudo na lama. Apesar disso, era o que sempre foi com o brasileiro: tudo era festa.

Alguns discos que foram lançados: Engenheiros do Hawaii A Revolta dos Dandis, Lobão Vida Bandida, U2 The Joshua Tree, Michael Jackson Bad, Guns’n’Roses Appetite for Destruction e Anthrax Among the Living.

Alguns filmes que foram lançados: Barfly, Coração Satânico, O Império do Sol, Atração Fatal, Bom Dia Vietnã, Predador, Robocop, Os Intocáveis e Wall Street.

Pra mim, apesar da mudança brusca de Brasília para São Paulo, e toda a carga emocional e sofrimento que passei por conta disso, não posso reclamar de 1987. Pô comecei o ano assistindo a dois shows do Ramones no Palace (Joey, Johnny, Dee Dee e Ritchie). Nesse ano estagiei em uma agência de publicidade e comecei a trabalhar em uma produtora de filmes publicitários. Fazia bico e ganhava um troco, junto com um grande amigo de Piracicaba, fazendo jingles e cantando em alguns deles, e ainda ganhava mais outro troco sendo roadie desse amigo, que era tecladista. Passei o ano indo muito à Piracicaba. Até mais ou menos 1990 as coisas ainda eram muito intensas por lá, bares, festas, viagens.

Aí chegou dezembro de 1987 e o bicho estava pegando. Em setembro o navio Solana Star jogou as famosas latas de maconha no litoral. Todo mundo tinha uma lata! Uêba! Em outubro Caetano Veloso lançou disco onde regravou "Fera Ferida"; em novembro Marina lançou o disco Virgem, e “Uma Noite e Meia” foi febre nas rádios e acabou sendo a música do verão 1987/88; em dezembro Legião Urbana lançou Que País é Este?

Fui passar o verão em Camburi, litoral norte de SP, quando essa praia ainda ficava no mato (hoje há condomínios e hotéis de luxo). Eu e mais 5 pessoas de Piracicaba alugamos uma casinha humilde de pescador que também ficava no meio do mato. Nessa época o trânsito de São Paulo já era pesadelo, mas não como hoje, claro. Para ir ao litoral norte ou sul levava-se o tempo normal. Chegamos logo após o natal e acredito que ficamos até dia 20 de janeiro. Realmente não me recordo, só sei que ficamos muito tempo. Inclusive muita gente aparecia na casa e acabava dormindo um ou dois dias, fazíamos almoços, som alto, casa isolada. Tudo de bom.

Camburi não tinha opções de bares... Era apenas um... e mais um ou dois botecos. Tudo perto. Não havia asfalto. E o clima era daquele que chegava alguém de violão e o boteco inteiro ficava cantando. Virava uma grande roda. Lembro que eu jogava muito gamão nesses dias de praia. Aquela praia a noite.........................

Camburi era praticamente uma praia de moçada e surfistas. Nada de família e terceira idade. O réveillon na areia foi tranquilo. Fizemos um belo jantar, preparamos a casa, outros amigos de Pira apareceram e a noite foi longa. Lembro de sentar na areia da praia com uma amiga e ficar observando uma chuva de raios bem longe ao mar. Pouco tempo depois da meia noite, estava eu com um amigo já bêbado perto de uma vela acesa na areia, e ele quis parar para acender seu baseado na vela. Era a maconha da lata e eu ainda não fumava. Quando agachamos para perto da vela, meu amigo acendeu o baseado e começou a colocar um monte de maconha ao lado da vela e oferecendo-a para uma porção de santos. Eu o fiz parar e peguei toda maconha de volta rsrs. Nesse momento ele disse que eu deveria fumar aquela maconha porque era especial e limitada. Peguei o baseado e fumei. Nessa noite fumei maconha o tempo inteiro kkkk.

A maconha da lata era muito mais forte que as outras maconhas. Seu efeito durava muito mais. Era cheirosa e com ótimo sabor. Comprávamos a maconha direto da lata. Íamos à casa do barão, ele abria a geladeira, pegava a lata e uma colher, que usava pra tirar a maconha. Essa maconha era curtida no mel, então no fim da lata ficava um resto de maconha banhada em mel que não dava pra fumar. Por causa do mel ela era mais melada. Peguei a lata fechada, com a maconha até a boca, na metade, no final. Tive esse prazer e privilégio. Era uma lata um tanto grande, bem maior que uma lata de Nescau. A polícia ficou doida e não pode fazer muita coisa.

Para Camburi levei uma porção de fitas com as mais variadas bandas estrangeiras e brasileiras. No fim, o que mais tocava era Caetano Veloso e Legião Urbana. Lembro até de uma noite de violão no boteco em que rolou “Eu Sei” e todo mundo cantou. Isso um mês depois do disco da Legião ter saído. Não deu uma semana na praia e todo mundo já sabia a letra inteira de “Faroeste Caboclo”. Com certeza o disco de Caetano virou um clássico pra nós: “José”, “Eu Sou Neguinha”, “Noite de Hotel”, uma pérola atrás da outra. Mas de fato o que pegou mesmo foi “Faroeste Caboclo”. Lembro, lá na casa, de gente que escutava a música pela primeira vez e pirava na história (o disco foi lançado na 2ª semana de dezembro). Todo mundo fumava o da lata e gritava na hora que Renato cantava “tem bagulho bom aê!!!”. Esse trecho caia muito bem naquele contexto e todo mundo podia estar fazendo o que fosse que parava só pra berrar “tem bagulho bom aê!!!”.

Lembro de uma vez quando fui dormir muito chapado, meu corpo ficou formigando inteiro, entrei numa viagem e acordei otimamente bem no dia seguinte kkkk.

Agora história mesmo eu tenho uma boa, que vou ter que resumir: eu tinha uma amiga que a irmã morava no Rio de Janeiro e nesse verão estava no litoral fluminense. Ela comprou uma lata inteira na cidade onde estava e resolveu enterrá-la para poder usá-la quando não houvesse mais lata alguma. Ela enterrou a lata sozinha, porém semanas depois ela morreu em um acidente de moto. Até hoje há uma lata do Solana Star fechada e cheia de maconha nessa cidade do litoral do RJ.

Certo é que esse verão foi incrível. Dias intensos em Camburi que, pra mim, acabou gerando mudança de comportamento J.

PS: "Faroeste Caboclo" e o fumo da lata ainda duraram por todo ano de 1988.



16 de dezembro de 2013

Menos 12 Meses

Mais um ano se vai e continua tudo igual. Vou ser chato. Houve alguma evolução? Nenhuma! O que foi feito para melhorar a vida? Nada.

Onde estão as vítimas do Palace 2? O que aconteceu com os responsáveis pela morte do garoto de 14 anos no jogo do Corinthians? Como estão as vítimas da região serrana do Rio que foi gravemente afetada pelas chuvas no início do ano? O que foi feito? Quem ajuda as pessoas que só esse ano já perderam duas vezes, por conta de alagamentos, geladeiras, camas, colchões, roupas, sofás. Enquanto se paga uma prestação de uma coisa que não se tem mais, de repente, paga-se duas prestações de algo que não tem mais. O governo ajuda?

Prender os mensaleiros é pouco. O dinheiro do mensalão é fichinha perto do que realmente se rouba na administração pública. Deputado preso ganhando 20 mil por mês?!? ME PRENDAM!!!!!

Longe de querer ser pessimista. Apenas realista. Pé no chão. Mesmo com a lei seca, quantas mortes aconteceram no trânsito por conta da mistura de álcool e volante? Mês atrás vi na TV dois casos parecidos de garotas que estavam dormindo no carro ligado, na madrugada, no meio da avenida!!! Apagadas de tão bêbadas!

Ninguém está nem aí com nada. Danem-se os avisos, as regras, as leis, as normas, o bom comportamento, a educação, as leis naturais. Danem-se! Não é isso?

Vamos festejar no réveillon o nada que fizemos em 2013. E que 2014 seja mais um ano de absolutamente nada! Estamos acomodados, deixa assim. Estamos acostumados, deixa assim.

Finalmente a população foi pra rua reclamar. Mas de que forma reclamou? Fazendo palhaçada. O que adianta quebrar bens públicos? É coisa de quem tem cabeça de minhoca. Que adianta invadir Assembleia Legislativa e tirar foto pelado lá dentro? Isso é manifestação do quê? Nenhum idiota desses me representa. Quantas das pessoas que saíram na rua leram ao menos dois livros neste ano, ou ao menos estão por dentro do que acontece na política?

Continua tudo igual! Cadê a reforma política? A reforma tributária? A reforma trabalhista? A reavaliação dos gastos públicos?

2014 é ano de eleição. Você ao menos sabe os cargos que estarão em votação nessa eleição? Pois é! É disso que falo. Serão eleições absolutamente importantes para o futuro do país. As eleições serão para Presidente, Governador, Senador, Deputado Estadual e Federal. Ou seja, podemos dar uma rapa geral, e sem dó, em Brasília. Tirar de lá todas essas pessoas que estão lá nessas últimas décadas. É só votar em gente de confiança e não reeleger ninguém! Sem exceções. Renovação geral e de preferência com pessoas que estarão exercendo o cargo político pela primeira vez. Será melhor ainda! Chega dos velhos coronéis. Essa é a verdadeira manifestação. Essa é a grande mudança!!!

Mas também é bom lembrar que as pessoas continuam brigando no trânsito, continuam de mau humor à toa (mesmo tendo saúde pra dar e vender), continuam egoístas e cada vez mais ligadas a um mundo virtual destruidor. E o que fazem pra mudar isso tudo?

A verdadeira mudança é a mudança de comportamento. Você tem coragem de encarar esse tipo de mudança?

Tempos atrás conversando com familiares em um momento delicado, alguém falou que o difícil da morte é ter que responder pelo que se fez em vida (é a hora de pagar a conta). E eu digo que o pior é também ter que responder pelo que não se fez...

Nunca vi muito sentido em réveillon, desde pequeno. É uma coisa relativa. Mas se é pra comemorar, então prefiro brindar por conseguir sobreviver a mais um ano, ainda mais aqui no Brasil.

Parabéns por ter conseguido chegar até aqui. Boas férias de fim de ano.

2013 já pode ser desligado.


PS: Essa pode ser a última postagem de 2013 ou não.


4 de dezembro de 2013

Série Coisa Fina: 20 - Wilko Johnson

Wilko Johnson é um dos pais do punk. O rock moderno muito deve a ele. Um de meus grandes ídolos. E que aqui faço minha homenagem com muito prazer.

Você que gosta de punk rock e do rock que surgiu influenciado por ele, as bandas dos 80, dos 90 e até bandas mais atuais como Strokes e Hives, então você gosta de Wilko Johnson mesmo sem conhecê-lo.

Wilko é fodão e mora longe. Para os ingleses é uma entidade (para os fãs também). É um guitarrista de mão cheia, bom gosto, técnica única e dono de composições que arrepiam até o último fio de cabelo. Ele é desses casos de artistas que são super influentes, mas pouco citado na grande mídia. Wilko Johnson está morrendo. Wilko Johnson já deveria ter morrido.

Johnson tem câncer terminal no pâncreas, diagnosticado em dezembro de 2012. Se recusou a fazer quimioterapia, armou uma turnê de despedida e caiu na estrada. Os shows chegavam a ter entre 2h30 e 3h de duração e era clássico atrás clássico. Ele não quis fazer quimio, não por ser um rebelde sem causa, mas porque o tratamento pouco faria pela sua doença além de esticar em alguns meses sua estada aqui na terra. Os médicos tinham lhe dado 10 meses de vida, e já está no extra bonus. Não é à toa, pois Wilko já afirmou que 2013 foi um dos melhores anos de sua vida e que tem se divertido demais, além do que poderia imaginar.

Ele foi o gênio por trás do Dr. Feelgood (claro que sem tirar os méritos de Lee Brilleaux). As principais composições são dele e o estilo da banda é por conta de seu jeito único de tocar. Wilko não usa palheta. Ele toca com todos os dedos da mão direita ao mesmo tempo, fazendo movimento incessantes de cima pra baixo, sempre batendo em todas as seis cordas. Com a mão esquerda faz o acorde firme ou segura o acorde para abafá-lo e ainda faz pequenas frases, mas sempre com os dedos. Além de fazer os acordes com os quatro dedos da mão esquerda, também usa o polegar para segurar a corda Mi. É incrível, simples e diferente. Além disso, o timbre que ele usa também é perfeito para seu jeito de tocar. É o rock blues mais potente dos anos 1970.

John Peter Wilkinson é inglês e nasceu em 12 de julho de 1942. Comprou sua primeira guitarra nos anos 1960 e no final dessa década já tocava na banda que viria a ser o Dr. Feelgood. Gravou com a banda nos quatro primeiros discos: Down By The Jetty, Malpractice, Stupidity (ao vivo) e Sneakin' Suspicion. Somando as músicas gravadas nos três discos de estúdio, são 33 ao total. Dessas, 20 tem a assinatura de Wilko, incluindo todos os grandes clássicos da banda.

Em 1977 após gravar Sneakin' foi expulso por causa de discussões em torno do repertório desse disco. Formou nova banda, a Solid Senders, e lançou um disco com esse nome em 1978. Nesse mesmo ano se juntou a Ian Dury & The Blockheads, o que foi maravilhoso!!! Ficou com Ian até 1980 e depois foi seguir carreira solo.

O jeitão de Wilko ao vivo inspirou, e muito, as bandas punks inglesas. Não parava no palco indo pra frente e pra trás freneticamente, além de fazer muitas caretas e arregalar os olhos... Johnny Rotten do Sex Pistols roubou todos os trejeitos possíveis de Wilko, principalmente a cara de louco que fazia.

Paul Weller, J.J. Burnell, Joe Strummer e tantos outros grandes nomes do rock sempre trataram Wilko como um grande ídolo, uma referência. Seu disco mais recente é o Red Hot Rocking Blues, um apanhado de clássicos do blues e rock. Tem Fats Domino, Chuck Berry, Bob Dylan... grande trabalho. Seus discos solos são bons e tem discos que são até melhores que alguns do Dr. Feelgood lançados nos 80.

Assim como Oscar Schmidt aqui no Brasil que anunciou seu câncer e passou a ir a diversos programas, ganhar homenagens, dar entrevistas, Wilko Johnson tem feito a mesma coisa. Recebeu algumas homenagens e prêmios, um deles entregue por Jimmy Page.

Sua turnê acabou e atualmente ele prepara um disco de despedida junto com Roger Daltrey. Sim! Um discaço que desde já torço para sair antes de Wilko partir.