17 de dezembro de 2014

Série O Resgate da Memória: 42 - Entrevista Camisa de Vênus em 1984

Em 1982 o Camisa de Vênus lançou seu compacto com "Controle Total" e "Meu Primo Zé", versões de Clash e Undertones. Em 1983 lançou o primeiro disco e não demorou para estourar com "Bete Morreu". O disco vendeu bem pra época e os shows passaram a ficar lotados.

Hoje é mais que normal, mas naquela época o nome Camisa de Vênus era um escândalo e a banda até deixou de tocar em rádios e televisão por causa dele. Se não me engano, o programa de Raul Gil foi o primeiro que o Camisa participou e que era transmitido em todo Brasil.

O primeiro disco do Camisa é clássico. Não tem problema ele ter sido mal produzido e gravado, a força das músicas é maior que as falhas, e a banda funcionava muito melhor ao vivo (até 1986 assisti a uns três shows).

Aqui mais uma boa reportagem da Roll, de abril de 1984. Antes disso o Camisa havia aparecido em outra reportagem na edição de dez/83 que fala do show com a Neuzinha Brizola (o primeiro no Rio, abriu para Neuzinha e roubou o show). Essa aqui é a primeira reportagem solo da banda. Infelizmente a matéria não está assinada.




Passamos Por Isso

O show era da Neuzinha Brizola. O sábado a noite era veranesco. Mas quem pôs o estádio de Remo da Lagoa para sacudir, embora estivesse meio vazio e cheio de familiares e socialites, foi o grupo de abertura que faz um punk rock/hard baiano: Camisa de Vênus.

A pequena galera skatepunk que estava presente dançou o que pode e daí pra frente conquistaram um público certo e fiel, que cresce a cada nova apresentação carioca. Naquele show da Brizolinha, o pessoal pediu bis, mas o som foi cortado. Não ficou ninguém pra ver a garota.

Agora eles são uma presença quase constante no cenário carioca. Circulam com seus admiradores, trocando ideias, cedendo cópias de vídeo filmados em Salvador – inclusive filmaram o vídeo-clip “Beth Morreu” por Copacabana. O rock preventivo está a solta e o orgasmo é total.

Num desses encontros nos pepinos da vida, embaixo de um sol causticante, antes de uma entrevista pro Realce, pegamos um abacatinho gelado e levamos um papo com a trupe (mulheres, filho, os cambau) numa das últimas sombras restantes perto da praia (maldita devastação ecológica). 

Perguntamos a Marcelo Nova (voz) o que acha do rock Rio-SP, e ele não hesitou em responder: “No Rio gosto do João Penca que são engraçados sem serem babacas, e não cansam. Tem uns que enchem o saco nessa de querer ser engraçadinho. Gostei muito da noite em que tocamos no Circo Voador com Lobão e Coquetel Molotov. Não houve disparidades. Eles são bons em seus estilos. Já em São Paulo só gosto dos Inocentes, mesmo porque não conheço nenhum outro grupo. Só de disco, mas para eu dizer que conheço e gosto, só vendo ao vivo.”

ROLL: Você vê futuro no rock nacional?
MN: “Como postura, som, atitude, está começando agora. A falta de informação é muito grande entre os grupos e entre os consumidores do rock nacional. A mídia vende tudo como rock e depois da discoteca está se tentando vender rock aqui de qualquer maneira. É o mesmo que tomar Coca Cola como se fosse uísque. Não se pode dizer que o rock daqui é bom ou ruim, pelo menos ainda não. Primeiro as pessoas tem que saber o que estão consumindo. Como está não pode ficar. Um cara como o Lulu Santos, que ficou revoltado porque declarei numa entrevista ao JB que ele não faz rock, respondeu-nos usando um termo colhido debaixo do divã de seu psiquiatra: chamou-nos de DESSUCESSISADOS; quá quá quá. Tudo isso pra tentar justificar uma coisa que ele fez há muito tempo com o Vímana e não conseguiu. Quando ele vê uma coisa direta, inteira e sem frescuras, como o Camisa de Vênus, ele se bate, porque ele sabe que hoje nós temos um público que ele não conseguiu/consegue ter. E como ele pensa que é a Marilyn Monroe do rock, ele coloca essa coisa de sucesso. Se é entregar os pontos, de preocupar de antemão com quantas mil pessoas a música vai atingir, de calculadora na mão e etc, e gravar um Lp onde só se fala de tudo bem, eu te amo, o Camisa de Vênus deixa isso para pessoas como o Lulu. Voltando ao inívio da pergunta, na Bahia nós gostamos muito e apadrinhamos a banda Gonorréia, que inclusive vai ter que mudar de nome por causa da censura. No mais, ainda estamos conhecendo o que tem no rock nacional. O pessoal do Camisa faz questão de dizer que não viemos pro sul maravilha exportar sotaque e frescurinhas, como a maioria dos baianos”.

ROLL: Aproveitamos pra perguntar qual é a proposta que eles trazem para o rock:
MN: Existe intenção de nossa parte de fazer uma coisa, mas aliado a isso existe a posição da gravadora que vai querer colocar a coisa da melhor maneira possível para ela. E aí é que se situa o conflito entre o artista e a gravadora, tem muita gente que não quer segurar esse pepino. Nosso disco, por exemplo, demorou bastante pra sair e já estava até ficando defasado da proposta inicial. Não considero nosso primeiro disco uma coisa certinha. Na verdade estamos pouco nos lixando pra o que isso possa parecer perante a crítica ou ao apoio do público. A gente respeita muito a plateia da gente. Já no segundo disco pretendemos por xilofone e piano, mas quando você ouvir o disco ainda não vai poder afirmar que quem está tocando é o Camisa de Vênus, que continua firme na estrada.

ROLL: No rock internacional ficam com o inglês ou com o americano?
Todos respondem unânimes: “inglês”.
Marcelo prossegue: “Não há dúvidas que na Inglaterra se faz rock muito melhor que nos Estados Unidos. Os americanos não fazem rock, fazem ‘dólar’, todas as revoluções dentro do rock aconteceram na Inglaterra, Rolling Stones, Beatles, Punk e outro. Os EUA são apenas o berço que os pariu e os lançam ao mundo.”

ROLL: Quais os grupos ingleses que apreciam? Citaram Echo and the Bunnymen, U2, Siouxsie and the Banshees, e muita coisa que continua brotando todo dia. E o que dizem sobre o punk rock no Brasil?
MN: “O aspecto que acho negativo nessa coisa do punk rock é a similaridade entre as bandas e a própria temática: guerra, fome, desemprego, etc. Mas eu gosto muito é da energia deles. É muito melhor ouvir qualquer banda punk do Rio ou São Paulo do que essas ‘coisas’ que rolam por aí (os leitores sabem a quem se referem)”.

ROLL: O Camisa está criando algum novo estilo? A princípio vocês parecem muito com os grupos punks da primeira leva como Buzzcocks, Vibrators, etc.
MN: “Se eu disser que criamos, fica um negócio pretencioso, mas a verdade é que nós já criamos essa cena de rock. E aí você começa a ter que enfrentar os problemas do que já está estabelecido pra não cair na rotina e fazer o segundo Lp igualzinho ao primeiro. Se o primeiro deu certo, fazer o segundo igual é um risco. É fácil, as tentações são muitas, inclusive financeiras (se o Lp estiver dado certo), mas nós não vamos cair nessa. O lance da semelhança dos grupos que você citou são pura homenagem. Veja que no Lp fizemos uma versão do Buzzcocks, uma do Jam e uma do Undertones. Fica aí”.

Súbito o papo é interrompido pois tá na hora do papo com Bocão e Antonio, pro Realce. A conversa segue mais ou menos a linha desta, com muita descontração, pois é o lema do programa. Nos veremos em outra oportunidade. Como o sol ainda tá muito bom e estamos de short, vamos dar um mergulho. Depois ficamos zarando, vendo os asa-deltas e o lindo pôr do sol, só pra passar tempo.


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