24 de junho de 2012

Série O Resgate da Memória: 29 - Titãs & Cabeça Dinossauro


(Folha de São Paulo – 25/jun/1986 – Caderno Ilustrada – Acervo Digital)


Este ano o Titãs fez shows para comemorar os 30 anos de carreira e a badna escolheu o disco Cabeça Dinossauro, de 1986, o mais importante da discografia, e um dos principais discos da geração 1980, para refazê-lo na íntegra e ao vivo. Logo sairá DVD e também uma edição especial em CD, com a demo que originou o disco.
Nessa última semana de junho, Cabeça Dinossauro completa 26 anos, então transcrevi, para publicar aqui no Sete Doses de Cachaça, a primeira reportagem que saiu sobre esse clássico atemporal.
Cabeça de Mamute!!!

PS: Ao final da reportagem, aproveitei o momento para republicar aqui o texto que Sérgio Britto fez, a meu pedido, sobre o Cabeça Dinossauro. Texto que foi publicado na Rolling Stone nº 2 em uma matéria que fiz a respeito dos grandes clássicos de 1986. Aqui no blog republiquei tudo na série Clássicos de 1986.





Dinossauro na Cabeça
Com “Cabeça Dinossauro” os Titãs lançam disco que une e confronta barbárie e civilização

Por Marcos Augusto Gonçanves

A tribo tem oito guerreiros e está em pé de festa e de guerra. Batucam e gritam. Os dinossauros descem dos viadutos e se escondem nos edifícios. Os ex-Titãs do Iê Iê – que circulavam pelos porões e palcos do underground paulistano – os atuais Titãs que ficaram conhecidos nacionalmente por músicas como “Sonífera Ilha” e “Televisão”, lançam esta semana “Cabeça Dinossauro”, terceiro LP do grupo.
Inspirada num canto do Xingu, a pulsação primitiva e tribal da faixa título abre o disco e mostra o pau. Depois de “Cabeça Dinossauro” não haverá trégua. Ao contrário dos dois primeiros LPs, não se ouvirá refrescos do tipo “Insensível” – que tentou puxar o último disco – ou mesmo “Sonífera”, o primeiro sucesso. Prevaleceu a linha de “Massacre” e de “Pavimentação”, músicas de pulso forte que não chegaram as rádios, mas encheram de energia titânia o LP “Televisão”.

Grande Desafio – “Nós não passamos ainda o clima e a força das apresentações ao vivo”, diz Arnaldo Antunes, 25, compositor e um dos vocalistas do grupo. “Mas dessa vez conseguimos um resultado que nos satisfez”, emenda Sérgio Britto, 26, igualmente cantor e compositor. Conseguir unir os oito em torno de um produto final que não ficasse distante do espírito e da força das apresentações em show foi o grande desafio, desde que a insatisfação com o resultado de “Televisão” – que consideram mal mixado e aquém do projeto inicial – colocou em risco a própria permanência dos Titãs.
Não é um acidente, portanto, que “Cabeça Dinossauro” manifeste uma atitude guerreira, tribal, original. Para usar um lugar comum, os Titãs tiveram uma forte preocupação com uma selvagem volta às origens. As músicas são cantadas em volume alto, são gritadas mesmo, um pouco à maneira punk, um pouco a maneira funk. E o próprio repertório reencontrou canções muito antigas, compostas quando os oito amigos ainda não pensavam em gravar um LP.
É o caso, por exemplo, de “Bichos Escrotos”, de Paulo Miklos, Arnaldo e Nando. “Ela foi composta no intervalo de uma gravação de uma fita”, lembra Paulo. Foi um sucesso curtido como um “cult” pelas primeiras miniplateias dos Titãs, há cinco anos atrás. “Nós nos reidentificamos com ela”, diz Nando. “Bichos Escrotos” ficou fora de outros discos porque, segundo Nando, havia um trauma quanto a melhor forma de arranjá-la pra ser apresentada”. O trauma ficou ultrapassado por um arranjo que os oito consideram “perfeito”.

Censura – Mas a censura não achou muita graça na escatologia e proibiu a divulgação em rádio e TV.
Outra letra que ficou ameaçada, mas acabou sendo liberada foi a de “Igreja”, do próprio Nando. Afinada com o clima forte do disco, a letra fala de uma profunda recusa às mitologias do catolicismo: “Eu não gosto de padre / eu não gosto de madre / eu não gosto de frei / eu não gosto de bispo / eu não gosto de Cristo / eu não digo amém”.
Mas os Titãs não ficaram por aí. Além da vetusta Igreja, outras instituições da Ordem são bombardeadas pela cabeça do dinossauro: a família e a polícia, título de duas músicas. Em “Família”, de Arnaldo Antunes e Toni Bellotto, a paranóia da vida caseira é ironizada: “A mãe morre de medo de barata / o pai vive com medo de ladrão / jogaram inseticida pela casa / botaram um cadeado no portão”. Em “Polícia”, de Bellotto, a mesma intenção demolidora.
As letras, como se vê, são fortes. E muito valorizadas pelo grupo como parte orgânica da composição: “O português continua tendo uma grande importância para o nosso som, a letra é fundamental”, diz Branco Mello.
As músicas e os arranjos não ficam muito atrás. Auxiliados por Liminha, produtor de nove entre dez LPs bem sucedidos na área de rock, os Titãs conseguiram produzir uma convincente massa sonora, que passeia pelo rock, pelo funk e pelo reggae sem, no entanto, perder o vigor. “Ao contrário de muitos grupos, não fazemos caricatura de reggae ou caricatura de funk. Há uma originalidade, uma veracidade”, diz Arnaldo.
Mais ainda, os Titãs acreditam que estão levando para o público um trabalho original, ao contrário da média das bandas brasileiras, que não conseguem dissimular suas relações com as matizes europeias e norte-americanas. O próprio fato de apresentarem um canto gritado é valorizado: “Isso é uma coisa que não é forte na tradição das bandas de rock e da própria música popular brasileira”, diz Britto.
Aparentemente fazem um canto anti-João Gilberto. Para usar uma expressão do crítico e professor de literatura Paulo Miguel Wisnick, rasgam a retícula da voz. Mas Arnaldo e Britto embora reconheçam a radical diferença com o clima “cool” de João, descobrem uma afinidade: o cantar gritado dos Titãs – que não tem nada a ver com o canto “expressionista” – estabelece com as canções e com as letras uma intimidade semelhante com a que João obtém em seu banquinho e violão. “João Gilberto usa a fala, nós usamos o grito, mas nos dois casos há uma relação forte com o coloquial”, diz Britto.

Selvageria – Mas indiscutivelmente, a marca do disco é a tentativa de trabalhar com a barbárie contemporânea, sugerindo relações com a selvageria ancestral. Além de “Cabeça Dinossauro”, “AA UU” – que já toca no rádio – é faixa mais que o grupo considera mais tamente afinada com a idéia do disco. (NOTA: o erro de edição e digitação está na matéria original).
“As duas são dois comentários sobre a animalização do homem civilizado, mas aliadas a uma certa sofisticação”, diz Britto. A própria capa do disco – duas gravuras de Leonardo da Vinci – expressa os pólos em jogo: barbárie e civilização, cabeça e dinossauro. “É uma dualidade que degrada e redime”, resume Britto.




Texto escrito por Sérgio Britto a respeito de Cabeça Dinossauro:

"Embora possa parecer, Cabeça Dinossauro não foi propriamente uma mudança de rumo, uma “guinada radical” na nossa maneira de pensar e fazer música.

Foi, isso sim, fruto de algo que já vinha acontecendo há algum tempo. Por exemplo : “Bichos Escrotos” é anterior à gravação do nosso primeiro disco (Titãs, 1984), que só não gravamos naquela ocasião por que a censura não permitiu. No disco que antecede o “Cabeça” (Televisão, 1985) a faixa título, “Massacre”, “Pavimentação” e “Autonomia” já apontavam também para essa direção. “Babi índio” e “Pule “, do primeiro disco, se tivessem sido gravadas com um pouco mais de qualidade, também poderiam ser vistas desse modo.
Fazer um disco com uma sonoridade e um repertório mais pesado era um desejo antigo de alguns de nós que aos poucos contaminou todo mundo. A prisão do Arnaldo e do Tony (NR: por porte de heroína) e, conseqüentemente, o relativo fracasso de Televisão são fatores extra-musical que naquele momento talvez também tenham contribuído para essa virada.

Fizemos o disco num tempo relativamente curto: um mês para gravar e mixar. Em duas semanas já estava quase tudo pronto. As canções, os arranjos e até mesmo o formato das músicas já estavam definidos muito antes de entrarmos em estúdio. A primeira faixa a ser gravada foi “AAUU”: já tocávamos a música em shows e o arranjo estava muito bem resolvido. A última foi “O Que” e foi também a que mais deu trabalho. O arranjo mudou totalmente e o Liminha teve participação decisiva: programou a bateria eletrônica, sugeriu a linha de baixo, tocou guitarra e deixou a gente fazendo uma “Jam” interminavel durante dois dias até a chegarmos ao resultado final. Aquilo abriu um novo horizonte para nós e nos colocou em contato com elementos que iríamos explorar bastante nos anos seguintes.

Este disco, com certeza, se não é o melhor, é um dos melhores que fizemos. Só comparável a Õ Blésq Blom e Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas.

Apesar disso não me atrevo a apontar nenhuma banda que pareça ter sido diretamente influenciada por ele. Em contrapartida, Õ Blésq Blom, se não influenciou, ao menos antecipou toda a onda do Mangue Beat e a mistura de MPB e música nordestina com elemetos de rock e programações eletrônicas.

Algumas curiosidades
- Os acetatos com os esboços do Leonardo da Vinci que estão na capa e na contra capa do disco vieram diretamente do museu Louvre, trazidos por um amigo de meu pai. Antes disso, o que tínhamos eram reproduções pequenas e sem qualidade suficiente para viabilizar o projeto gráfico. As primeiras 30 mil cópias do disco foram feitas em um papel fosco e poroso muito mais caro que o normal. Generosidade doAndré Midani, então presidente da Warner, que nos deu total apoio antes, durante e depois da gravação atendendo a tudo o que pedíamos.

- A percussão na faixa “Cabeça Dinossauro” foi Liminha que tocou. Depois de várias tentativas mais elaboradas, ele começou a improvisar - tocando nas paredes, no chão e nas colunas do estúdio - numa espécie de transe. Assim que ele acabou, todo mundo disse imediatamente: “é isso aí, do caralho!!”.

- Gravei a voz solo de “Polícia” no primeiro take, enquanto Liminha conversava sobre pesca submarina com Evandro Mesquita (talvez isso tenha me ajudado a ficar mais puto ainda). Quando fomos ouvir o resultado, eu queria regravar a voz a qualquer custo (tinha sido muito fácil), mas todos acabaram me convencendo de queestava bom.

- A voz de “A Face do Destruidor” foi gravada em cima da base tocada de trás pra frente. Quando gravamos tínhamos que pensar que aquilo ia ser ouvido dessa maneira.

- O Tony fez todos os solos importantes do disco usando uma técnica no mínimo curiosa: revezava um anel grande que ele tinha na mão direita com a palheta para tocar e, ao mesmo tempo, tirar efeitos percussivos da guitarra. Isso funcionava também como uma espécie de ‘bottle neck’ e acabou dando uma cara diferentepara os solos que ele fez."


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