17 de janeiro de 2012

Série O Resgate da Memória: 25 - As Apostas Para 1987

25 anos a Folha de São Paulo aproveitou o início do ano para fazer uma previsão do que poderia se tornar sucesso entre nomes da nova geração do rock brasileiro e nomes veteranos, principalmente da cena paulistana. Nenhuma das apostas vingou, nenhum desses nomes fez grande sucesso, apenas colocaram hits efêmeros nas paradas. 1987 foi o ano do declínio dos planos econômicos mirabolantes do Governo Sarney. A forma como o texto é escrito também mostra o quanto a mídia especializada precisava amadurecer.


Gravadoras Escolhem Grupos de Sucesso Para 1987

Gueto, Patife Band, Cabine C, Obina Shock e Nau são algumas das bandas que estão sendo preparadas para conquistar o mercado

Folha de São Paulo
Sábado, 17 de janeiro de 1987
Caderno Ilustrada
Por Mário César Carvalho (da reportagem local)

Façam as suas apostas! O mundo da música é um jogo – ainda que muitas vezes os dados sejam viciados em doses maciças de dinheiro e cartas marcadas com golpes de publicidade. 1987 será o ano do funk, aposta da gravadora WEA, que possui em seu cacife um dos grupos com maior carga plutônica do ano, o Gueto. Os moleques são infernais no palco, cruzam a bateria de Padre Miguel com rap do Harlem e toques de heavys na guitarra. Gang 90 e Etiópia, que até o ano passado se classificavam de dark, também atacarão de funk. A WEA colocará ainda na mídia a Patife Band, um mix de punk destilado, atonalismo e deboches. De Brasília deve colar o pop de Finis Africae.

O ano marca também a entrada de um novo selo no mercado que pretende virar a mesa do hit parade. Trata-se do Revoluções, criado por Paulo Ricardo e Luiz Schiavon, ambos do RPM. A primeira cartada do Revoluções chama-se Cabine C e deve chegar em março às lojas. Ciro Pessoa, vocalista e letrista do Cabine, e um dos poucos autores da “new generation” que consegue criar letras que combinam refinamento poético, ironia e cinismo – o que não é pouco.

A RCA preferiu a via lisérgica para conquistar ouvidos jovens. Está apostando no Violeta de Outono. A CBS segue uma trilha semelhante com o grupo Nau. Este ano parece que as gravadoras despertaram de um sono profundo e não incluíram a palavra recesso em seus planos de metas. Sorte do consumidor: deverá haver um espaço para uma série de novas tendências. Mas não se iluda com a bateria de marketing das gravadoras e suas nebulosas cortinas de fumaça. Abaixo um guia para orientar ouvidos nesse turbulento ano que se inicia. Um detalhe: não confie em bola de cristal. A rampa que leva ao sucesso funciona como uma espécie de pau de sebo. A seguir a ficha dos predestinados.

GUETO – De Santana, zona norte de São Paulo, para as paradas de sucessos. Esse parece ser o destino do Gueto, uma banda que saiu direto dos porões de São Paulo para a WEA. Eles tem uma força como He-Man às avessas, e devem estourar “Ensaio Gral”, uma das músicas do grupo, tem a estrutura de uma (sic) samba-enredo, mas o que desfila na passarela é um misto de hip hop, funk e pitadas de Heavy Metal. Um verdadeiro samba do criolo doido para agradar gregos, troianos, assírios e caldeus. Atacam em dose dupla em 1987: um mini LP pela WEA, que deverá chegar em junho às lojas, e participam com duas músicas na coletânea “Não São Paulo 2”, do selo iindependente Baratos Afins, com previsões de desembarcar em março nas lojas se a crise do vinil não continuar.

CABINE C – Transitam das tormentas a delicadeza num piscar de olhos. Sem escalas vão do orientalismo de “Jardins das Gueixas”, que nos shows deverá ser cantada exclusivamente em japonês, às penumbras dos poetas malditos do século passado. Luiz Schiavon, tecladista do RPM, assina a produção do disco, que conta com a participação especial de Fernando Deluque, guitarrista do RPM, e Akira pilotando seu “stick”, um instrumento que combina baixo e guitarra numa única peça. Conquistam pela qualidade poética das letras e elaboração musical. O disco estará nas lojas em março.

VIOLETA DE OUTONO – Extraíram o lirismo de Pink Floyd, guitarras psicodélicas e alucinação dos anos 60 e conseguiram uma alquimia ímpar. A delicadeza às vezes remete aos acordes do grupo inglês Durutti Column. Outras vezes são monocórdios. Mas já se transformaram em “cult band” em São Paulo. O disco da banda, que saiu do selo independente Wop Bop e entrou na RCA, deve sair em março.

OBINA SHOCK – Fazem parte da linha de frente da ofensiva negra. O disco da banda, editado pela RCA, saiu no final do ano passado, mas só deve bater na mídia no baixo verão. Pura estupidez. Obina Shock é uma usina dançante vinda direto da África, pelo menos em disco. Dois padrinhos pesos-pesados devem puxar as vendas do grupo – Gilberto Gil e Gal Costa. Ambos cantam no disco.

NAU – O vocal valquírico de Vanji (sic) é a principal força do grupo. Também vem em dose dupla – um LP pela CBS, batizado de Nau, e participação com duas músicas na coletânea “Não São Paulo 2”. O Nau investe na delicadeza e possui músicos que sabem tocar.

FINIS AFRICAE – Autor de pops facilmente degrutíveis – a música “Armadilha” já está emplacando no rádio –, o grupo deve dar o pulo do gato neste ano. Também trocaram um selo independente (Sebo de Discos) (sic), por uma gravadora multinaconal, a EMI-Odeon. É mais um representante do rock candango que deverá chegar às paradas.

PATIFE BAND – A cabeça musical da banda é Paulo Barnabé, irmão de Arrigo. São dublês de punk no palco. Mas não se limitam a vomitar palavras de ordem, costuradas a guitarras a 120 por hora. Adoram brincar de atonalismo, funk, samba e humor barra pesada. Pode agradar adolescentes pelo simulacro de violência.


‘Azarões’ que podem ganhar o público
Como nas mesas de pôquer ou nas corridas de cavalos, a trilha que leva ao sucesso é repleta de acasos. Sorte dos azarões. Correndo ao lado da mídia, como aconteceu com o Camisa de Vênus, eles podem conquistar o público e chegar ao disco de ouro. Abaixo, os possíveis azarões de 1987.

INOCENTES – Trata-se do primeiro grupo que freqüentou as fileiras do punk rock a ser contratado por uma multinacional, a WEA. Pode agradar adolescentes rebeldes. Sinceridade e letras ácidas são as principais armas da banda.

365 – Conseguiram emplacar uma canção tola na 89 FM, batizada de “São Paulo”. Caso se aproximem das origens da banda (o punk), e cruzem artilharia hardcore com novas influencias, podem correr na mesma faixa que os Inocentes e ganhar a simpatia dos jovens enfurecidos. Esta gravado pela Continental.

HAI KAI MUSIC – É o primeiro torpedo da ofensiva amarela a se transformar em disco. Akira, do ??? Akira S e As Garotas que Erraram está transformando em pulsos eletrônicos cerca de 20 clássicos do hai kai, todos serão cantados em japonês por Mineike. Do outro lado do disco atacam com popaços, também em japonês. A colônia deverá adorar e o resto do público poderá ir no rastro – afinal o Japão está na moda. As músicas são refinadíssimas.

GANG 90 – Já freqüentou as paradas quando Júlio Barroso era vocalista do grupo. Totalmente reformulado, pode encontrar um público disposta a ouvir funk. A qualidade de produção do próximo disco está praticamente garantida – está nas mãos de Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!

GRIND’S (sic) – Grupo de skate punk do ABC, poderá atingir as paradas carregada pelos skatistas, uma moda que deverá atravessar ???. Fazem a linha protesto tipo Dead Kennedys. O disco da banda sai no meio do ano pelo selo independente Ataque Frontal.

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