11 de março de 2014

Série Anos 1990 SP: 12 – Importância Exagerada

Depois de 3 anos volto a postar algo da Série Anos 1990. Antes de tudo, preciso avisar a dezenas de amigos que tinham banda nos anos 90 (assim como eu), que o que quero registrar nesse texto não diz respeito à qualidade das composições ou dos integrantes como instrumentistas.

Quem me conhece sabe que não sou chegado a bandas brasileiras que cantam em inglês. A única que é exceção, claro, é Sepultura, que almejou o mercado estrangeiro desde o início e tudo que fez aqui no começo foi pensando na gringa. Na primeira oportunidade, Max foi para os EUA. Na 2ª oportunidade a banda toda já estava lá ralando.

A maioria esmagadora das bandas que cantavam em inglês, ao contrário do Sepultura, se acomodou por aqui mesmo. Algumas ainda tiveram o vergonhoso sonho de que algum produtor gringo fosse olhar para o Brasil por conta do Sepultura. Ridículo.

A virada dos 1980 para os 1990 foi o pior momento para as artes no Brasil. Se já estava ultra difícil para artistas consagrados que cantavam em português, imagine então para bandas que cantavam em inglês!?!

Vejo dois os motivos principais pela opção do inglês: a má qualidade de produção e gravação da geração 1980, que dava certa vergonha em escutar, e o período sócio-político-econômico que estávamos passando, quando não havia futuro para artista nenhum.

Era um paradoxo, porque tinham muitas casas noturnas com espaço para música ao vivo, mas não havia uma nova cena musical para ocupá-las. Tinham as bandas covers, que foram as grandes beneficiadas nesse período de vacas magras.

Nesses dois últimos meses eu resgatei alguns livros que tenho sobre rock brasileiro (alguns são tcc, edições limitadas), revistas especiais, matérias, etc. Percebi que há muita gente que gosta de enaltecer essa cena de bandas brasileiras que cantavam em inglês, dando uma importância exagerada, falando de legado, do pioneirismo, do quão essas bandas foram importantes, etc.

Pô, não tem nada disso! Eu posso listar trocentas dessas bandas, os nomes já estão documentados nesta série, entre eles há grandes bandas e ótimas composições, mas essa cena não teve importância para a história do rock brasileiro. De forma alguma. Nenhuma banda lançou um grande clássico por uma grande gravadora, fez grande sucesso, deixou ao menos um grande hit. Nada disso. Foi uma cena que ficou no underground. Foi uma brincadeira bastante divertida e de qualidade. Ponto.

Eu mesmo, quem acompanha o blog sabe, adoro tudo do Killing Chainsaw, acho os discos clássicos, e os shows todos incríveis e carregados de histórias. Também gosto demais de Garage Fuzz e OKotô, que deixavam muitas bandas gringas no chulé. Mas daí a achar que elas mudaram alguma coisa na história do rock brasileiro, é realmente exagero.

Tinham bandas dessa cena que estavam apenas se divertindo, o que era bem legal, mas tinha banda que levava muito a sério, não só sua música, mas a pose. Era de doer. Vergonha alheia hahaha. Se para as bandas americanas e inglesas o mercado era cruel, imagine então para as bandas brasileiras cantando em inglês... 

Imagine você o quanto eu e outros, que trabalhavam na MTV, aguentávamos de puxa saquismo e poses de certas bandas. Elas achavam que o fato de passar o videoclipe delas na programação iria levá-las ao estrelato mundial. Triste acomodação.

Posso até citar Wry e Holly Tree, que tiveram coragem de tentar alguma coisa lá fora, mas aí vou esbarrar no fator qualidade.

Muitas dessas bandas resolveram abandonar o inglês e passaram a cantar em português. Mas isso pelo desespero de querer fazer sucesso a qualquer preço. Essa transformação não acontecia de forma natural, ela veio só depois do sucesso das bandas que cantavam em português. 

Foi um momento lamentável, porque tinham bandas que já estavam batalhando há anos, aí na chegada do Real, e com o novo aquecimento do mercado, as gravadoras passaram a contratar, e acabaram contratando bandas que nem faziam parte dessa forte cena underground de São Paulo (que tinha bandas do Brasil inteiro).

Skank, Raimundos, Planet Hemp, Pato Fú, Chico Science & NZ, O Rappa já estavam tocando na virada da década, mas estavam fora da casinha, porque cantavam em português. Aí elas foram contratadas e estouraram. Então muitas bandas que cantavam em inglês se desesperaram e passaram a procurar influencias brasileiras. Parecia uma corrida de cegos, como se mudar para o português fosse levar, automaticamente, a banda à um contrato com uma major. Vou ter que repetir porque não há outra palavra: ridículo.

Essas bandas brasileiras que cantavam em inglês, mesmo algumas sendo bem legais, não deixaram legado e nem foram influência para outras mais novas. Fizeram, sim, shows divertidíssimos e históricos. Foram, sim, ultra importantes. Mas para quem viveu esse período. Para quem frequentava as casas noturnas, assistia aos shows, e estava nos botecos.

Os anos 1990 foram intensos e não se deve transformá-los em história de pescador!







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