13 de dezembro de 2015

Série O Resgate da Memória: 45 - Plebe Rude, Capital Inicial e Legião Urbana no Correio Braziliense (1984)

Em um tempo em que o rock não era levado a sério, três bandas de Brasília surgiram com outra postura, outro discurso, outro contexto. Isso assustou todo mundo... no bom e no mau sentido. Quando digo todo mundo, incluo aí não só a mídia e público, mas as próprias bandas de rock da época, que circulavam por Rio-SP.

Se você ver na prática, perceba (sem desmerecer ninguém!!!!): Titãs “Sonifera Ilha”, Paralamas “Vital e Sua Moto”, Kid Abelha “Fixação”, Lulu Santos “Um Certo Alguém”, Barão “”Pro Dia Nascer Feliz”, Magazine “Eu Sou Boy”, Ultraje “Inútil”, Gang 90 “Louco Amor”, Blitz “Weekend”...

Existiam sim bandas com postura mais séria, com discurso diferenciado e não os temas pop que predominavam, como esses que estão acima. “Inútil” tinha sim um forte discurso político social, foda e lindo, mas todo mundo levava na brincadeira.

Os que citei, são ótimos artistas e ótimas músicas, datados de 1983, ano em que as bandas de Brasília começaram a olhar e frequentar o eixo Rio-SP com outros olhos. Capital Inicial participou do histórico Fábrica do Som, programa da TV Cultura. Foi a primeira grande aparição de uma banda da Turma em televisão – não conto aparições nas tvs locais. FdS era um programa de respeito e todas as bandas da época tocavam lá, além de nomes da MPB como Itamar Assumpção...

Aí, no meio de todo esse discurso pop, com muita gente já achando que a coisa iria descambar para um novo discurso datado e inocente à la Jovem Guarda, eis que surge as bandas vindas de Brasília. Mais precisamente Plebe Rude, Capital Inicial e Legião Urbana. Todas elas surgindo de repente, de uma vez, com um som já definido, com discurso e postura semelhantes, repertório para basicamente dois discos, já com dezenas de shows no currículo, com história iniciada em meados dos anos 1970, todo mundo se assustou e se perguntou: "Como assim?!?!?"

Plebe, Capital e Legião deixaram muita gente desnorteada, e quando chegaram na pauta da grande mídia e do mainstream, chamaram a atenção até de dinossauros consagrados da MPB.

As bandas de Brasília quebraram paradigmas, chegaram chutando a porta e não tendo nada a perder. O próprio Hermano Vianna, no livro O Diário da Turma 1976-1986, relata uma vez em que muita gente da Turma estava no Rio para shows no Circo Voador – as bandas, “roadies”, amigos, agregados – e viu aquele bando como uma gang diferenciada. Mas era mais que gang. Era família. É família!

A postura e o discurso das bandas de Brasília fizeram muitos compositores de bandas e solo, de rock ou MPB, rever seu texto e acordes. E você pode ver mudança na sonoridade de muita gente, e no discurso também, a partir de 1986.

Na época em que tocavam as músicas que citei no inicio do texto (em rádios e programas de TV), Capital inicial já tocava “Veraneio Vascaína”, “Autoridades” e “Leve Desespero”; Legião já tocava “Teorema”, “Conexão Amazônica” e “A Dança”; e Plebe “Proteção”, “Voto em Branco” e “Pressão Social”.

Com discurso mais próximo do que era a Turma de Brasília, havia em SP o Ira!, as bandas punks independentes e a cena alternativa, digo Smack, As Mercenárias, Voluntários da Pátria...

Mas foram Legião, Plebe e Capital que chegaram ao mainstream com um discurso de palavras objetivas e bem colocadas. Com um jeito bem particular de tocar, exatamente por falta de técnica e estudo. Todo mundo autodidata, cada instrumentista acabou desenvolvendo um estilo muito particular e de personalidade – é só ouvir Dado, Bonfá, Fê, Loro, Philippe, André e todos os outros que iniciaram essa história de Rock da Capital. Todos ótimos instrumentistas (até o Jander! rsrs). É só lembrar que puta banda era Dentes Kentes. E XXX?!?!

Cazuza mudou, Titãs mudou, Caetano mudou, Paralamas e zilhares de outros nomes mudaram ao ter contato com as bandas de Brasília. O rock brasileiro dos 80 deve ser visto como antes e depois das bandas de Brasília. Exagero meu?

Aqui vai a transcrição de uma reportagem de 24 de outubro de 1984, do Correio Braziliense. Essa foi a última grande reportagem local sobre as bandas da Turma, antes delas fazerem sucesso nacional. Logo na sequência a Legião lançou o 1º disco (1º de janeiro 1985), Capital foi para SP e Plebe começou a preparar o terreno para sair de Brasília.

E mesmo com todas as reportagens que saiam na época pré sucesso, brasilienses cagavam e andavam para essas e todas as outras bandas da cidade. Então hoje, tome muito cuidado quando alguém de Brasília te dizer que conhecia Renato Russo e as bandas da Turma da Colina antes do sucesso, porque há chance de ser 99,9% mentira. O desprezo era geral, eram só amigos e agregados que ouviam essas bandas.

Essa reportagem do Correio é histórica, não só pelo espaço dado, mas por colocar as bandas na porta de entrada do mainstream dizendo, grosso modo, “foram lançados ao monstro, agora é com eles, provem que coseguirão sobreviver”, e é muito legal ler isso depois de 31 anos e dezenas de discos e hits lançados. Muito legal ler isso vendo o legado e o que acontece ainda hoje. (além da forma como era escrito os textos dessa época)

O Rock da Turma da Colina é foda, meu irmão!

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Legião, Plebe e Capital no Correio Braziliense
24 de outubro de 1984
Caderno Atualidades

A Utopia de Brasília Para as Massas

Por Celso Araújo (correspondente)

As bandas de rock da cidade incendeiam o aís na mais feroz resposta do vazio cultural da Capital

A utopia de Brasília finalmente é revelada para todo o País nos gritos musicais das novas bandas que tomam o mais polêmico espaço na criação brasileira. Uma cidade de carros oficiais, estados de emergência e desesperos concretos, assustadoramente, apresenta a mais fina nata do rock brasileiro, depois de uma fase de romances açucarados e divulgação massificada de uma nova onda de rebeldia, à Jovem-Guarda, no corpo da juventude brasileira. Os punks brasilienses negam tudo, até mesmo o rótulo, e mostram porque são legítimos, são legião, e odeiam as ilusões.

Rio – Caros camaradas futuros Revolvendo a mediocridade fóssil de agora, lançando clarões nesses dias de palcos escuros, os novos aventureiros do rock entram em cena. Brasília parece sofrer seu primeiro abalo. Algo das profecias de Dom Bosco e Tia Neiva começa a sacudir o tédio e a letargia do Planalto: são os punks, do cerrado, as feras da discórdia na rígida árvore genealógica da MPB e chamam-se Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude.

Os caras acabam de ferver o mais descabelado som na fundamental jornada Festin Rock, em cartaz em todo mês de outubro, no Circo Voador. A Lapa perdeu um pouco sua maquiagem nostálgica e os fantasmas chorões de outrora: os garotos gritam a plenos pulmões, são pequenos e endiabrados Maiakovskis, empunhando guitarras como espadas de raio laser e versos incendiários.

Estão revelando, desde já, e diretamente para todo país, a mais insólita cidade do terceiro mundo, a nave de concreto que se chama Brasília e até hoje ocultou-se sob a máscara do Jornal Nacional, do cartão-postal da Praça dos Três Poderes e dos labirínticos debates parlamentares.

A olho nu, as três bandas brasilienses são a mais feroz resposta ao até agora proclamado vazio cultural da nova capital. O frenesi que toma conta deles nos espetáculos ao vivo corresponde ao rancor, ao cinismo e à santa ironia de hinos pops que falam de alienação pela tv, soldados na Esplanada, prazeres físicos, retratos públicos, negócios capitalistas e paranoias oficiais brasilenses.
“Moramos em Brasília, capital da esperança, cidade destinada à função dos três poderes da República. O quarto poder, a juventude, foi esquecido, pois é o futuro da Nação. A Plebe Rude se enquadra nesse esquecimento”, é como se define uma das bandas azaradas pelo Circo Voador em seu festival legítimo e autóctone.

A Plebe Rude, formada por André (baixo), Jander (guitarra e vocal), Gutje (baixo) e Felipe Seabra (guitarra) é, das três bandas, a que mais segurou a respiração. Agora também deve integrar a primeira trindade de bandas  brasilienses que começam a conquistar o mais precioso espaço do rock brasileiro, o espaço do rock de vibração original, demolidor, político, diversionista.

E a prova definitiva virá no primeiro disco da Legião Urbana (Renato no vocal e baixo, Marcelo na bateria e Dado Villa Lobos na guitarra), a sair no próximo mês de novembro pela gravadora Odeon. O próximo grupo a assinar contrato será o Capital Inicial. Finalmente as gravadoras decidem gastar bem suas horas de estúdio e acetato.

O Capital Inicial composto por Fê, na bateria, Flávio no baixo, Louro na guitarra e Dinho, na voz. Como os outros dois grupos já citados, também nasceu entre superquadras e endereços do Lago residencial. No início de tudo, o Aborto Elétrico, um caldeirão de jogadas punks que desaguaria no chamado “rock de Brasília”, agora o mais respeitado do país, tanto em novidades musicais quanto em mudanças no bloqueado esquema de informações.

Dai, o susto que Brasília deverá provocar, se revelada por esses garotos saídos da UnB ou dos cursinhos pré-universitários, para o mundo turbulento do show e da música industrial. Garotos imberbes que nos finais da surda década de 70, acumularam gritos, distorções, ritmos incisivos e imaginação poética desesperada.

O Circo Voador e algumas casas noturnas de São Paulo foram o front que os consagraram, mas a coisa começou a rolar mesmo por Taguatinga, Cruzeiro, Sobradinho e até Patos de Minas. Renato Russo, da Legião, lembra que, entre 78 e 79, os bem pensantes e articulados da UnB os tratavam com certa distância e frieza. A essa altura, contrariando os ideólogos do PT e os psicanalistas do colégio Frediano, eles gritavam como ratos saídos do esgoto: “nas favelas, no senado, sujeira pra todo lado”.

Mas a viagem vai se iniciar mesmo é agora. Afinal, entra o peso do disco, dos programas de televisão, dos vídeos, dos contratos: “mas nós somos cobras da notícia”, gargalham eles na sala de um hotel em Copacabana, fartos depois da temporada do Festin Rock. Toda diferença está em ser de Brasília e viver bombardeado de informações por todos os lados. “Estamos bem à frente de São Paulo e Rio nas coisas que chegam de Londres ou Nova York”. E confirmo, veem o Brasil por dentro.

Como Brasília é a “melhor cidade do interior do mundo” e o tédio seu clima ambiente, tal mormaço serviu como energia de ativação. Algo musical e poeticamente contrário aos modismos veiculados pela comunicação global e nem tampouco esperado pelos executivos de marketing.

Os próprios rapazes de assustam. Afinal, estão entrando no terreno mais conturbado da indústria cultural, em um país subdesenvolvido, que tem de descontar toda a deficiência técnica com muita garra e suingue. Espantam-se inclusive, por chegarem tão depressa a uma área que até hoje dificulta a vida de um Jorge Ben ou que passou dez anos para dar vez a Lulu Santos e Ritchie.

O pontapé inicial de tudo passou pela conexão Brasília-Londres, por incrível que pareça. Garotos ligados em Sex Pistols, nos legítimos canibais do rock pós-decadência, pra lá do rótulo angelical de new waves.

“Nós fazemos música, fazemos nossas roupas, cartazes e até instrumentos. Não ficamos em festinhas, segurando o dry Martini. Somos do tipo aja já. É uma necessidade física. Porque aos 17 anos voltamos a desenhar guitarras nos cadernos escolares?”

Num tempo de Travolta e discotecas enlatadas, a amizade instantânea entre os garotos começou a disseminar o sentido panfletário do rock e as últimas novidades dos pubs londrinos. Fê, baterista do Capital, diz que três elementos contribuíram para o impulso final: a transa punk e todos os seus estilos correndo nas veias do mundo. A necessidade de falar e fazer a catarse do sufoco e, ainda, a revolta, o manifesto de desacordo. “Como diz o Russo ‘cuspir o lixo em cima de vocês’, na música “Geração Coca-Cola”.

Eles se amam, se adoram, ao contrário do que andaram publicando. O sensacionalismo jovem-guarda não funciona mais, “Apesar da repressão”, os rapazes não se intimidam com discursos e combates sensacionalistas da imprensa. Fê(lipe) Seabra (sic), o guitarrista alucinado da Plebe, um cara que se agita até nas ondas alfa, pula da cadeira, dança no ar gritando: “o único rock vivo no Brasil somos nós, cara. Os outros são uns vendidos”.

A mistura agora é para ser adjetivada com escândalo. No próprio Festim Voador, eles se entusiasmaram com a presença dos Golden Boys, os crioulos dançantes da década de 60. Há um número excessivo de bandas e a proliferação vai continuar, até que haja uma saturação e uma definição maior do programa geral.

A inocência, portanto, deve acabar e começa por Brasília e é dessa vez que se rompe o círculo vicioso de considerar apenas o eixo Rio-São Paulo no momento de computar as novidades e pesar os contrastes. Colocação histórica e punk de Renato Russo, que não gosta de rótulos:
_ É algo como a garotada da Vila Rica, os inconfidentes. Eles eram artistas e o que eles podiam fazer era escrever poemas. Na década de 20, isso ficou com os pintores. Agora é o vídeo-clip e o rock.
Palavras como movimento, radical, profundo e processo, mesmo que despidas do sentido corriqueiro, não agrada a eles. Preferem falar do lance individual e da possibilidade que tem cada filho da mídia de se orientar nesse mar de sensações e provocações eletrônicas.

Há, porém, senhas de comando: não aceitar tudo o que está aí, não deixar se manipular, não ceder, não facilitar-se, até mesmo da manipulação amorosa, reconhecem. Com os Paralamas, e agora a Legião, Capital e Plebe, forma-se o primeiro regimento de rebeldes brasilienses, uma geração espontânea que ainda anuncia outras hordas como Finis Africae, Diamante Cor-de-Rosa, Banda 69, Escola de Escândalo.

Brasília foi ingrata, isso reconhecem. Agora, quando forem devolvidos e lançados via-satélite, a coisa deve mudar. Não é preciso ficar copiando os modelos e as expressões de Ipanema, via televisão, na sala de jantar. “Somos soldados pedindo esmolas, e a gente não queria lutar”, diz a letra de uma das músicas da Legião Urbana.

Nos quintais do Poder não haverá mais sossego. A zorra sonora, pacífica e vibrante dos rapazes servirá como antídoto às normas, à repressão e aos códigos de uma cidade controlada, de funcionários públicos e distâncias infinitas do resto do País.

Os versos valem mais que um semestre da UnB buscando entender as coisas.. Os versos, cantados em velocidade mirage, articulados guturalmente, do fundo do estômago, falam do código penal, da solidão na superquadra, da prova idiota do vestibular, das unidades repressoras oficiais, dos tambores da selva de cimento e vidro, das mitologias como o sexo, as drogas e o próprio rock’n’roll.


Pronto: Brasília, uma cidade sem história, mas antiga, no dizer de um dos hinos inflamados, devolveu ao País o suor de seus filhos. Pode vir ser novamente a capital da esperança. O concreto já rachou, a velha nave naufragou e a sua banda de descontentes pulou fora. Quem quiser manter-se anestesiado, é só colocar ceras nos ouvidos. 

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