7 de fevereiro de 2013

O Tosco e O Virtuoso

Logo que cheguei a SP trabalhei como roadie de uma banda recém contratada da finada gravadora Continental. O guitarrista dessa banda era daqueles virtuoses, que estudava, sabia todas as escalas intergalácticas, as técnicas, enfim. Uma vez conversando com ele sobre o rock de Brasília, ele comentou o quanto achava ruim o Dado Villa Lobos tocando. Lembro-me bem disso porque eu disse a ele que, mesmo sem saber tocar, Dado fazia parte de uma das principais bandas de sua geração e que sua sonoridade, e seu jeito de tocar, já eram uma marca (a banda ainda não havia lançado o 3º disco). Posso não ter convencido meu amigo, mas vi que o fiz pensar.

É como escutar, por exemplo, Ramones ou U2 que logo de cara se reconhece o jeito de tocar, os acordes, timbres. Conheço muita gente que faz parte dessa cena chamada de rock virtuoso, onde os músicos estudam as técnicas mais loucas, escalas, contra ponto e o diabo a quatro. Não vou ficar nominando aqui, mas esses caras que também são chamados de musichians circulam, claro, muito mais pelo universo do metal. É aquela adoração pelo Steve Vai, Billy Sheehan e músicos de jazz. Quanto mais nota por segundo você conseguir tirar de seu instrumento, mais incrível você será. Fazer a escala pentatônica atonal em falsete no contra ponto dissonante em B#. Pelamordedeus!!!!

Conheço um baixista que, para ele, tocar baixo de palheta é uma afronta, um desrespeito. Acha que é se diminuir tocar baixo com palheta, porque não foi feito para isso, blá blá blá. Depois de todo esse discurso que ouvi, só pedi para ele escutar tudo do The Cure.

Lá fora, essa turma de virtuosos conseguiu espaço na mídia graças a ultra mega brega cena Poser. Aqui no Brasil há quem até hoje tente imitar os posers americanos de Los Angeles. Essa turma toda adorava e ainda adora falar de quem toca mal. Vi e li muitos desses posers falando mal de, por exemplo, Nirvana. Jesuiiiiiz!!! Não dá nem pra comparar a postura de um Nirvana  ou Morphine no palco, com a postura desses virtuosos que adoram dar chiliques, usar blush, fazer pose, correr e jogar os cabelos. Saber tocar é uma coisa. Ter talento para tocar é outra.

Se você observar direito verá que o universo musical da cultura pop é pontuado por cenas e artistas que nada sabiam sobre música. Nem na teoria e nem na prática. Foram aprendendo a tocar sozinhos, por amor. Beatles, Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin, Ramones, Talking Heads, The Clash, Sex Pistols, U2, REM, Red Hot Chili Peppers, Oasis. O punk, grunge, sixties, madchester, new wave, electro rock, new romantic, gótico, glam. Tudo veio do acaso, do talento, da criatividade, da vontade de mudar, de quebrar paradigmas.

Nisso tudo aí que citei não se pode colocar o rock progressivo, exatamente por ser uma coisa chata, longa, estudada, burocrática. Parecia que havia uma briga velada entre essas bandas progressivas para ver quem tocava melhor. Misturava-se a teoria com o clássico, o erudito, mil partituras, músicas de 25 minutos com 200 partes diferentes. Por quanto tempo esse tipo de música sobreviveu? Quanto tempo à cena Poser durou?

Há algumas poucas exceções nesse meio. Uma delas é King Crimson, que depois de sobreviver aos anos 1970 fazendo rock progressivo, no início dos anos 1980 se reformulou e trouxe uma nova sonoridade. Na banda só fera: Robert Fripp, Adrian Belew, Bill Bruford e Tony Levin. Esse é um grande exemplo de como usar bem o conhecimento e o virtuosismo. Andy Summers do Police é outro exemplo de bom gosto, de gente que sabe tocar, tem a teoria, mas sabe equilibrar as coisas. 

Quem não sabe tocar e quer tocar, se vira para aprender. Qualquer um que escutar um disco do Ramones ou Sex Pistols poderá ver que é possível fazer um som sem precisar dominar o instrumento. O lance é ter criatividade. Olha o monstro de baixista que é Flea do Red Hot Chili Peppers, e ele só foi estudar baixo há menos de 5 anos atrás. Quem se deu melhor na carreira: o vistuosismo do Angra ou a tosqueira do Sepultura?

Enquanto os que não sabem tocar fazem música para o mundo, os virtuosos e estudiosos fazem música para o umbigo, eles vivem em uma bolha.

Quando eu dirigia o Fúria Metal, cansava de ouvir as brincadeiras que essas bandas de metal brasileiras faziam sobre outras conhecidas que estavam na mídia e tocavam no rádio. Eu tinha pena. Os estudantes dedicados nunca chegaram a lugar algum, enquanto muitos dos artistas que eles tiravam sarro hoje estão ricos por conta de sua própria arte, mesmo sem saber ler partitura.



Um comentário:

Andrew disse...

Olá! Encontrei seu blog por acaso e achei bem interessante.

Em muitos pontos eu concordei, pois no 'mundo poser' vale mais a quantidade de notas que se executa do que a musicalidade... vale mais as acrobacias e pirotecnia que um bom envolvimento com o público. Só não gosto de atribuir esse comportamento ao virtuosismo. Há músicos virtuosos que tem uma visão muito humana e profunda sobre a música. Bach e Betthoven são exemplos disso. Mais próximos de nós temos Baden Powel, Herbbie Hancock, Amaral vieira, Helena Grimaud etc... A questão não é se o músico é virtuoso ou não, mas se seu virtuosismo é motivado por um desejo nobre, seja oferecer o melhor às pessoas ou quebrar paradigmas, ou se é apenas para saciar a vaidade.

Espero ter contribuido para uma boa discussão. Abraço!