14 de janeiro de 2022

O Rock Brasileiro em 1962, 1972, 1992 e 2002

1982 foi um ano marcante para a cultura pop em geral, tanto no Brasil, quanto no mundo. No texto sobre as efemérides nacionais de 1982 eu contextualizo o ano com outros lançamentos na música internacional, no cinema e na televisão. Por isso mesmo, nesse texto aqui só há uma data de 82.

Como digo lá - e lembro aqui - foi o ano em que colocamos o pé, definitivamente, na década de 1980. Novidades tecnológicas e de comportamento surgiram ao mesmo tempo em que costumes dos anos 1970 que ainda tiveram sobrevida em 1980 e 1981, acabaram de vez em 1982. Na música dá pra ver a mudança sonora e visual de artistas e grupos até então progressivos: Yes, Genesis, King Crimson, Pink Floyd, Lulu Santos, Lobão...

Um som mais dançante e pop foi o que começou invadir as rádios com B-52’s, Devo, Duran Duran, New Order, Soft Cell, The Cars, Police, Culture Club, U2, R.E.M. e até Michael Jackson com Quincy Jones acrescentaram pitadas de rock e pop ao fenomenal Thriller. Depois do pós-punk e do gótico, que eram cenas com menos cores e músicas com tendências mais experimentais, a New Wave e New Romantic vieram com tudo, cheios de batidas dançantes e tudo colorido. Os videoclipes começaram a se modernizar e todo o apelo visual dessas cenas foi incorporado pelos fãs que consumiam os discos, revistas, pôsteres, até que no ano seguinte, em 1983, surgiu a MTV. Aí sim a década de 1980 fincou sua bandeira definitiva!

Mas voltemos aos anos que nos trazem datas redondas: 1962, 1972, 1982, 1992 e 2002. Não achei nada de 2012, e se achei deixei de lado por ser irrelevante. Difícil organizar tanta informação e tantos acontecimento relevantes, então antes de tudo colocarei a lista de nascimentos e óbitos. Em relação aos nascimentos, dessa lista, é impressionante o tanto de gente que nasceu em 1962 e praticamente todos os nomes fazem parte da cena de 80 ("Nasci em 62"). Há ídolos da Jovem Guarda, do progressivo psicodélico 70, da geração 80 e também da década de 1990. Há quem complete 80, 70, 60 ou 50 anos.

Nascimento: Nora Ney, Miguel Gustavo Werneck de Souza Martins*, Rogério Duprat, Demétrius, Celly Campello, Albert Pavão, Eduardo Araújo, Sônia Delfino, Evandro Mesquita, Gustavo Mullen, Gerson Conrad, Ary Dias, Baby do Brasil, Juba**, Dadi, Carlini, Nasi, Edgard Scandurra, Branco Mello, Miranda (Produtor), Fernando Deluqui, Ronaldo Passos, Frejat, Fê Lemos, Jão (Ratos de Porão), João Barone**, Guto Goffi**, Paula Toller, Paulo Ricardo, Carlos Maltz (ex-Engenheiros), Maurício Defendi (ex-Ultraje), Cássia Eller, Rogério Flausino, Dengue (ex-Nação Zumbi), Fred Castro** (ex-Raimundos), Rodolfo Abrantes (ex-Raimundos), Xande (Pato Fú).

Óbitos: Miguel Gustavo Werneck de Sousa Martins*, Sérgio Murilo, MinhoK – Celso Pucci (Jornalista e músico, ex-Voluntários da Pátria, ex-Nº2 e ex-3 Hombres), Carlos Imperial (Compositor, roteirista, produtor, apresentador e diretor), Luiz Moreno (ex-O Terço).

* Compôs “Rock’n’Roll em Copacabana”(1957), o 1º rock autoral cantado em português. O intérprete foi Cauby Peixoto. 

** São 4 bateristas que fazem no mesmo mês e em dias próximos!

Veja a lista de alguns álbuns que completam 60, 50, 40, 30 e 20 anos de lançamento: Renato e Seus Blue Caps - Twist, Módulo 1000 - Não Fale Com Paredes, Os Mutantes - Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets, Clube da Esquina, Raul Seixas (compacto com “Ouro de Tolo” e “Hora do Trem Passar”), Rita Lee - Hoje é o Primeiro Dia do Resto de Sua Vida, Os Mutantes (compacto) “Mande Um Abraço Pra Velha”, Novos Baianos - Acabou Chorare, Cássia Eller - O Marginal, Legião Urbana - Músicas Para Acampamentos, De Falla – Kingzobullshit Backinfulleffect, Herbert Vianna - Ê Batumaré, 1º do Skank, Rodox - Estreito , Magazine - Na Honestidade, Ultraje à Rigor - Os Invisíveis, Sepultura o ao vivo Under a Pale Grey Sky e Revolusongs, Os Paralamas do Sucesso - Longo Caminho, Nação Zumbi 4º disco (o 1º sem CS), CPM22 - Chegou a Hora de Recomeçar, Charlie Brown Jr. - Bocas Ordinárias, Cássia Eller - 10 de dezembro.

Dessa lista já editada, eu contei 6 clássicos a começar por ‘Twist’ 1º do Renato e Seus Blue Caps. Esse disco, que tem uma belíssima capa, conta com a participação de Cleide Alves nos vocais, tem composições de Carlos Imperial, Erasmo Carlos, Rossini Pinto. RSBC foi de suma importância para o rock dos anos 1960 e lançou alguns clássicos. Uma edição dessa em vinil é diamante raro!

Da década seguinte há 3 grandes discos: Módulo 1000 - Não Fale Com Paredes, Clube da Esquina e Novos Baianos - Acabou Chorare. Só com os mineiros e os baianos por todo 1972 a pick up ficaria ocupada. Esses dois discos, diferente do Módulo 1000, tem a mesma direção conceitual já que os dois fazem uma mistura de rock dos anos 1960 e 70 com a MPB, a Bossa Nova, o Frevo, o Samba. Os dois fazendo essa mistura com maestria. São dois discos atemporais que podem ser chamados de obras primas numa boa. Fora o fato de que tanto um, quanto o outro, são carregados de histórias! 

Digo tudo isso sem desmerecer o ‘Não Fale Com ‘Paredes’, mas ele já é mais segmentado, dentro do universo do rock pesado e, além de ser uma referência pra quem gosta desse rock progressivo, é hoje uma raridade procurada por colecionadores do mundo inteiro. É também um grande disco, um clássico do rock brasileiro. Esse disco tem a história de ter demorado a ser lançado e, quando aconteceu, o grupo já estava ensaiando e tocando um novo repertório bem diferente do que foi gravado. Não era fácil lançar discos nos anos 1970!

Em relação aos anos 1980 é preciso ler o texto O Rock Brasileiro em 1982 porque tem muita coisa boa e mereceu um texto a parte, portanto vou direto para os anos 90 que destaco apenas Cássia Eller. Lembro bem que na época o disco não foi bem comercialmente, mas foi melhor que o 1º e público e mídia começaram a falar mais de Cássia. Logo que saiu o disco um amigo de Piracicaba comprou e o que me chamou a atenção de cara foi ter músicas de Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé/PatifeBand e Jimi Hendrix.

Mas esse não foi o disco que a estourou nacionalmente. Fui a um show dela no Aeroanta, sabia que ela tinha começado a carreira em Brasília, foi do Malas e Bagagens, mas não a conhecia. Tem uma apresentação da Cássia no programa Metrópolis da TV Cultura, acho eu que de 1987. Vale muuuito a pena e é o retrato do que ela fazia nessa época. Depois, nos anos de MTV, nos encontramos e conversamos algumas vezes. Muitos amigos em comum...

Tem um momento bonito sobre Cássia Eller no especial qiue fiz com Skank e Nando Reis, durante a entrevista com o Nando quando ele fala de "All Star". Emocionante.

O último dos clássicos listados por mim é o 1º do Skank, lançado primeiramente de forma independente e depois relançado pela gravadora Sony. Tem grandes hits e também dá pra dizer que foi o pioneiro de uma cena que estava pra estourar com Planet Hemp, O Rappa, Pato Fú, Raimundos, Chico Science e Nação Zumbi, mundo livre s/a, etc.

Skank foi o primeiro grupo dessa geração 90 a lançar disco e também teve uma carreira mais linear em comparação a maior parte dela. As composições sempre foram muito bem pensadas, assim como a produção dos discos, a arte gráfica. O Skank tem suas canções pop de amor e de temas leves, mas nunca abandonou temas mais engajados, e a influência rock. Todos os discos têm as "lado b" que são maravilhosas e nunca vão tocar em rádio. Esse 1º disco é o exato espelho do que se seguiu a discografia do grupo. Sou suspeito, porque além de gostar, respeito muito o grupo.

É preciso também citar ‘Kingzobullshit Backinfulleffect’, disco doido do Defalla que é o retrato do que foi os anos 90 com o crossover, a madchester, o grunge e essas cenas que misturavam influencias diversas, de Beatles, Black Sabbath e Ramones a Run D.M.C e Neil Young. Disco lançado de forma independente em uma época em que o Brasil passava por uma turbulência do mal chamada Fernando Collor. Corajoso e, para o Brasil, um disco pioneiro. Foi nessa época que o Defalla se apresentou no Hollywood Rock.

O grupo veio para São Paulo para participar do festival e aproveitou pra fazer dois shows de lançamento do Kingzobullshit. Os dois shows na mesma noite. Um no Retrô e outro no Der Temple, casas de shows alternativas que fizeram história nos 90. Depois do show no Retrô os equipamentos, grupo e amigos se amontoaram nos carros disponíveis, incluindo meu saudoso Fusca 80.

Ainda sobre lançamentos vale o registro sobre Os Mutantes e Rita Lee. 1972 foi intenso para o grupo: Primeiro lançou o ótimo Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets; depois o grupo recebeu convite para estrear o novo estúdio Eldorado, mas como já havia lançado disco, entrou no estúdio e gravou o Hoje é o Primeiro Dia do Resto de Sua Vida, creditado como sendo da Rita Lee. Mais tarde foi lançado o compacto com a música “Mande Um Abraço Pra Velha”. Esse compacto foi o último do Mutantes com Rita Lee, um mês após o lançamento, Rita foi saída do grupo. 1972 mutantemente agitado!

Há 60 anos um evento chocou parte dos pioneiros fãs do rock brasileiro: a “rainha do rock” Celly Campello, que já havia anunciado o fim da carreira de cantora, casou-se com José Chacon, um contador da Petrobrás com quem namorava desde os 14 anos.

Abriu mão do glamour da vida artística para se tornar dona de casa e, antes que as feministas chiem, ela fez isso porque desejava e sua coragem está em sua atitude corajosa e independente em querer ter um tipo de vida contrária da vida de artista. Depois disso, esporadicamente aparecia em programas de TV e eventos. Em 1976 ela até se expôs bastante por conta do sucesso da novela Estúpido Cupido. Grande mulher e pioneira não só no Brasil, mas no mundo!

Para o rock psicodélico, mais precisamente o de Recife, 1972 foi um ano importante porque foi quando o grupo Tamarineira Village estreou. Aliás fez dois shows de “estreia”. O primeiro aconteceu na histórica 1ª Feira Experimental de Música do Nordeste e depois no bar Beco do Barato no Recife. Tudo com poucos dias de diferença. Também logo depois Tamarineira Village se tornou o fabuloso Ave Sangria. E vou dizer aqui pra quem não gosta muito de rock: esse disco tem muita influencia de MPB.

Quando se fala de rock e música brasileira dos anos 70 um dos nomes que logo surge à cabeça de qualquer pessoa é Secos e Molhados. Há 50 anos o grupo estreou a formação clássica com João Ricardo, Gerson Conrad e Ney Matogrosso. Aconteceu em SP, na Casa de Badalação e Tédio e foi um show só.

Tem uma data de 1982 que mantive aqui porque ela é curiosa e trata-se de Raul Seixas. Foi nesse ano que, ao entrar no palco para um show, foi acusado de ser sósia dele mesmo. Pois é! O público achou que não era Raul e ele foi preso. Quer saber o resto da história? Assista Rita Lee no papel de Raul Seixas no curta ‘Tanta Estrela Por Aí’ (1992) que está no YouTube.

Pra fechar um grande acontecimento que rolou há 20 anos. Herbert Vianna voltou aos palcos em duas canjas: uma no show de Fito Paez no Canecão e outra no Ballroom durante o show de Reggae B (projeto de Bi Ribeiro). Depois de tudo o que ele passou, incluindo a mudança física, esse fato é incrível e de tirar o chapéu. O mais emocionante de toda recuperação dele foi a força que os amigos deram. Os Paralamas do Sucesso é uma verdadeira família e ela ficou muuuito forte nesse momento. Sensacional! 

1 de janeiro de 2022

O Rock Brasileiro em 1982

Pra iniciar o ano resolvi já soltar um texto sobre o que aconteceu nos anos de 1962, 1972, 1982, 1992, 2002 e 2012 pois terão datas redondas e todo mundo adora datas redondas! Afinal o que aconteceu há 10, 20, 30, 40, 50 e 60 anos? Tem muita coisa pra comemorar em relação ao universo do rock brasileiro.

Apesar de ter as datas, quando resolvo escrever um texto assim, ele requer algumas novas pesquisas e uma organização brutal. Exatamente quando terminei de organizar o conteúdo para começar a escrever, percebi que havia muita efeméride de 1982 – coisa que eu já sabia – então com toda aquela informação, resolvi fazer um texto só sobre esse ano que foi especial e importantíssimo para o que veio a acontecer com o rock brasileiro a partir de então. Após esse texto, na semana que vem, publicarei o texto sobre os acontecimentos gerais desde 1962 (aniversários, lançamentos, curiosidades, etc). É evidente nem nesse ou qualquer outro texto sobre as efemérides do rock brasileiro, não colocarei datas específicas, estou cansado de ser roubado por gente preguiçosa que ama o copy/paste. Aproveite os hiperlinks para mais viagens no tempo. Então vamos ver o que aconteceu há 40 anos:


Ah 1982 foi um ano intenso e delicioso. Eu tinha 12 anos e o ano foi tão legal que me lembro de muita coisa. Inclusive foi o ano em que tomei minha primeira bomba na escola. Estava na 6ª série (7º ano de hoje 2021), Fernanda minha irmã foi para Itália fazer intercambio e no fim dele meus pais foram encontrá-la e ficaram por lá ao menos um mês. Por causa disso, eu e Mila (irmã mais velha) ficamos em Brasília "sozinhos". Ainda morávamos na 111 Sul (bloco D apto 203 – telefone acho que era 243-3044). Pra não ficarmos sozinhos em casa, fomos pro apê da tia Sandra e do tio Ubaldino que ficava no mesmo bloco (no mesmo prédio).

Assim chamávamos (e ainda chamamos) os amigos dos nossos pais. Tio Ubaldino era agrônomo e trabalhava na EMBRAPA com meu pai. Érica, Ricardo e Renato eram os filhos deles e nossos grandes amigos (até hoje). Estudávamos na mesma escola (Colégio Marista, onde tia Sandra era professora) e passávamos os fins de semana juntos, no Iate Clube, em churrascos pelas cachoeiras de Brasília, em casas de amigos no Lago Sul ou Norte também churrascando e boiando na piscina; ou mesmo na quadra com os amigos conversando, jogando bola, escutando um som embaixo do bloco.

Bem, daí eu e Mila fomos pro apê dos Máximo Machado e lá foi uma zona! Tio Ubaldino e tia Sandra também tiraram férias e foram viajar. Todo mundo deu um foda-se para os filhos (no bom sentido), nós adoramos e foi uma maravilha. Não à toa tomei pau na escola!

Foi o ano da inesquecível Copa de 1982 com aquele timaço com Zico, Sócrates, Éder, Toninho Cerezo, Falcão, Serginho, Júnior, Leandro, Oscar, Luizinho e Valdir Perez.

Assistimos o fatídico jogo com a Itália no meu apartamento já vazio porque estávamos indo para a 203 Norte (bloco K apto 402(?) nº do telefone começava com 256). Aquela sala gigante do apê da 111 com uma galera lá, gente em pé, gene sentada no chão, cerveja no isopor e televisão pequena (não me lembro de quem era). Foi uma tristeza só. Nunca mais vi nada sobre esse jogo e essa Copa. Se passa algo na TV eu mudo. Na 1º foto desse texto sou eu e Fernanda em 1982 já no apé da 203 Norte.

Era início de 1982 e tudo estava mudando. Não acho exagero dizer que 1982 foi o ano da ruptura com os anos 1970. Digo isso em relação a cultura pop e universo jovem, mas essa ruptura aparece também em outras áreas. Comportamento, roupas, cinema, música – com os equipamentos e tecnologia que envolviam essas duas áreas do entretenimento em franca evolução.

Foi o ano de ótimos filmes de ficção como Tron, Blade Runner e E.T. – O Extraterrestre. Ainda teve Cat People – A Marca da Pantera, Conan – O Bárbaro, Rambo, Poltergeist, Tootsie, Pink Floyd – The Wall, Liquid Sky e Rio Babilônia. Depois de assistir Tron eu saí do cinema de queixo caído e com mil perguntas. Cat People e Liquid Sky (o qual já escrevi aqui) são obras primas!

Na TV também tinham bons programas como o Som Pop, Quem Sabe, Sabe! e a boa e velha Sala Especial (ainda se produzia pornochanchada). Em 1982 estrearam na TV as novelas Final Feliz, Sétimo Sentido e Sol de Verão; a ótima minissérie Quem Ama Não Mata; e os icônicos programas Viva Noite (do Gugu) e o excelente e inovador Comando da Madrugada do saudoso Goulart de Andrade. Todos esses programas e novelas também fazem parte da mudança de comportamento que estava acontecendo, seja pelo texto, temática, figurino, dinâmica, trilha sonora, etc.

Faziam grande sucesso os programas de humor de Chico Anysio e Jô Soares; e ainda tinha Os Trapalhões.

Pra terminar essa importante contextualização é bom registrar também que 1982 foi um bom ano para a música internacional. Foi o ano que surgiram nomes como Metallica, Public Enemy, Run D.M.C. e The Smiths. Em relação aos lançamentos há grandes clássicos: Thriller (Michael Jackson), The Number of The Beast (Iron Maiden), Rio (Duran Duran), Pornography (The Cure), Tug of War (Paul McCartney), Creatures of The Night (Kiss), Iron Fist (Motorhead), Plastic Surgery Disasters (Dead Kennedys), 1999 (Prince), Combat Rock (The Clash) e The Gift (The Jam). Há muito mais, mas esses já dão uma ideia do que foi aquele ano.

Vindo para o Brasil, dá pra dizer tranquilamente que 1982 foi o ano inicial do rock da geração 80 e foi graças ao que aconteceu nesse ano que o nosso rock fez a história que fez e do jeito que fez. Um ótimo exemplo da intensidade dos acontecimentos é o Barão Vermelho: entre janeiro e dezembro o Barão fez seu 1º show, estreou no Circo Voador, gravou e lançou o 1º disco.

O ano começou com o mega hit “Garota Dourada” do Rádio Taxi, que nessa época também era grupo de apoio da Rita Lee. Lee Marcucci e Wander Taffo, só tinha feras e veteranos no grupo. Não era um grupo dos 80 propriamente dito, mas foi muito importante nesse período, pra abrir as portas ao que viria logo a seguir. Nesse ano, além do compacto, o Rádio Taxi também lançou seu 1º disco. Nesse biênio 1982-83 o grupo fez enorme sucesso, tocava em todas as rádios, estava sempre na TV e nas trilhas sonoras de filmes e novelas, e com agenda cheia (ainda mais quando estourou “Eva”).

1982 também ficou marcado por uma parceria que foi vista de forma errada pelo público e pela mídia, mas que apesar disso ajudou imensamente na divulgação do rock brasileiro: Eduardo Dusek e João Penca & Seus Miquinhos Amestrados. O disco ‘Barrados no Baile’ lançado em 1983 foi o estopim do que começou a ser construído um ano antes. Dusek viu show do João Penca, propôs a parceria e a apresentou ao público no festival MPB-Shell 1982. No mesmo ano estrearam no Rio o show “Barrados no Baile”. Aqui no blog transcrevi uma matéria sobre essa parceria publicada na Pipoca Moderna. “Cantando no Banheiro”, “Rock da Cachorra” e a própria “Barrados no Baile” se tornaram hits eternos.

Esse humor era algo bastante característico de alguns artistas no Rio e a irreverência dessa parceria estava muito próxima ao que a Blitz fazia.

Que fique claro: nesse período tudo era novidade pra nós brasileiros!

É preciso lembrar também que nessa época o rock brasileiro era underground. Único grupo a chegar ao mega estrelato nesse início foi Blitz mas, como o próprio Lobão havia previsto, estava fadado a ser algo efêmero.

De fato, o humor que marcou esse início de rock brasileiro não durou muito, mas foi de suma importância por abrir o caminho nas mídias. Por falar nisso 82 foi quando A Maldita Fluminense FM estreou. Também foi o ano de inauguração do Circo Voador que iniciou as atividades no Arpoador e depois se transferiu para a Lapa, e foi na Lapa que ele fez história.

O Circo era mídia também porque todo mundo que tocava lá aparecia, de alguma forma, nas revistas especializadas da época, tocava na Fluminense e ganhava certo respeito de toda comunidade rock. Eu não preciso listar os artistas que tocaram tanto na Fluminense, quanto no Circo Voador, porque praticamente todos passaram pelos dois.

Ter essa visão macro de tudo o que aconteceu por conta das efemérides é muito legal porque você consegue ver algo surgindo até o momento em que ela explode! Quem estava imerso nesse universo musical, em 82, já sabia que algo iria acontecer. Era questão de tempo.

Digo isso porque o que vou mostrar a seguir dá a exata dimensão do que foi 1982 para o rock brasileiro. Olha alguns dos nomes que surgiram: Camisa de Vênus, Legião Urbana, Capital Inicial, Titãs, Os Paralamas do Sucesso, Voluntários da Pátria, Inocentes (1º show), Kid Abelha e Ultraje à Rigor.

Lançaram o 1º disco: ‘Grito Suburbano’ (coletânea punk com Inocentes, Olho Seco e Cólera), o clássico EP ‘Violência e Sobrevivência’ do Lixomania, ‘Tempos Modernos’ do Lulu Santos, Barão Vermelho, 1º compacto do Agentss, Herva Doce (“Erva Venenosa”), Blitz com ‘As Aventuras da Blitz’ e Lobão com ‘Cena de Cinema’.

Você pega 12 nomes dessas duas listas e acrescenta apenas mais uns 4 e pronto: terá o primeiro time do rock da geração 80. 2/3 dos principais nomes do nosso rock começou a traçar seus planos de dominar o mundo em 1982.

A maioria desses nomes já vinha tocando desde 1978-80, mas foram se moldar em 1982. É o caso de Titãs, Kid Abelha, Lulu Santos, Legião Urbana, Capital Inicial e alguns grupos punks de SP.

Ao mesmo tempo, em relação ao comportamento do jovem, os patins eram moda, mas as discotecas estavam no fim. Casas noturnas alternativas e danceterias começavam a dominar a noite e foi nelas que essa nova geração do rock começou a tocar.

Perceba que neste ano grandes grupos começaram a compor seus repertórios iniciais, que depois viriam a ser recheados de clássicos que tocam nas rádios até hoje. Esse é o caso de Ultraje à Rigor, Paralamas, Legião Urbana, Capital Inicial, Titãs, Camisa de Vênus, Gang 90 & Absurdettes, entre outros.

Por toda sua importância pode haver quem diga que 1982 ainda não acabou, mas ele teve um fim sim. Em 1983 muitos desses grupos, ainda no underground, lançaram seus 1º compactos e discos, mas isso é história para 2023.



7 de dezembro de 2021

Dezembro e Eu

É bom lembrar que sendo um texto baseado em minhas memórias relacionadas a algumas datas do rock, então os lançamentos e acontecimentos do mês são radicalmente editados e essas memórias giram em torno das décadas de 1980 e 90. Ou seja, não cito tudo o que foi lançado:

A década de 1980 foi uma década de novelas memoráveis. O nível continuou igual ao da década anterior. Autores de primeira, textos de primeira e elenco de primeira. As novelas eram diferentes, mais cadenciadas por ter menos núcleos e menos personagens do que hoje em dia (quando tudo parece um videoclipe).

1982 foi ano de novelas como Brilhante, Jogo da Vida, Sétimo Sentido, Sol de Verão e Final Feliz. Essa última começou no final de novembro, mês seguinte A Cor do Som lançou o clássico ‘Magia Tropical’. O grupo fez parte da trilha sonora dessa novela com a música “Menino Deus”, do Caetano, e marcou bastante já que o personagem Rafael (de Irving São Paulo) fez mega sucesso.

Nesse início dos 80, ainda sem uma cena rock definida, A Cor do Som fazia parte do casting de rock de Warner que começava a apostar nesse gênero. O grupo fez enorme sucesso nesses primeiros anos, vendeu muito, tocou muito e fez parte de diversas outras trilhas da Globo. Fato é que “Menino Deus” marcou. Não há uma única pessoa da minha geração que não escute essa música e faça ligação com o personagem Rafael.

Ainda em 1982 estava eu assistindo ao Fantástico quando passou o clipe de “Cena de Cinema” do Lobão. Já o conhecia por causa das revistas da época (Som Três e Pipoca Moderna), por causa da Blitz e do Vímana, mas nunca havia escutado o trabalho solo. Mesmo assim lembro bem do impacto que tive ao ver o clipe, até porque a postura era muito mais alternativa do que o lance pop da Blitz. Dava pra perceber que as coisas começavam a mudar. Isso deve ter sido novembro ou dezembro de 1982, porque foi em dezembro que Lobão fez show de lançamento no Circo Voador.

Nessa época não tinha muita alternativa de entretenimento (em Brasília então, nem se fale!), todo mundo, o Brasil inteiro, pessoas de todas as idades e classes sociais, assistiam as novelas da Globo, assistiam ao Fantástico e antes dele o Silvio Santos. O domingo à tarde na televisão era do SS, que começava logo cedo com Domingo no Parque (acho que era isso) e terminava com o maravilhoso Show de Calouros, já no começo da noite, estrategicamente antes do Fantástico que começava as 20h.

Em 1982 já tinham rolado alguns lançamentos tímidos de rock com Barão Vermelho, Blitz, Herva Doce, Rádio Taxi e o próprio Lobão. Daí a tendência era só aumentar. Pelo comportamento da época dava pra perceber que a tendência era o rock e o pop, até porque isso já estava acontecendo na Europa e Estados Unidos. Bom lembrar que a MTV surgiu em 1983 e mudou tudo!

Em novembro de 1983 Capital Inicial gravou sua primeira demo visando rádios e, com sorte, gravadoras. A músicas escolhidas foram “Descendo o Rio Nilo” e “Leve Desespero”. Confesso que “Leve Desespero” não conhecia e pirei quando escutei a demo. Era o retrato do que eu vivia em Brasília na época com 14 pra 15 anos, hiperativo, cabeça a mil, já querendo formar um grupo e ser baterista ou guitarrista ou vocalista ou tocador de buzina ou qualquer outra coisa. 

Com vontade de fazer milhões de coisas, mas de mãos atadas, entediado, querendo ter 18 anos... essas coisas que a letra da música diz. Escutei muito essa demo e até hoje, volta e meia, ouço essa versão que é, sem sombra de dúvidas, melhor versão que no compacto e no disco.

No texto de novembro falei sobre a estratégia das gravadoras guardarem alguns lançamentos para o fim de ano para aproveitar as vendagens de Natal. Legião Urbana é um ótimo exemplo disso. Foram vários lançamentos entre novembro e dezembro. O 1º solo do Renato também é de dezembro.

Legião lançou ‘Que Pais é Este?’ (1987), ‘V’ (1991) e ‘Músicas Para Acampamentos’ (1992).

‘Que País é Este?’ marcou bastante e eu lembro bem disso em um texto sobre esse verão 1987-88, o verão “da lata”. Foi quando fumei pela 1ª vez (hoje já não fumo mais), e quando o Raimundos fez seu 1º show, que aconteceu em uma festa de réveillon na casa de Gabriel Thomaz, que hoje comanda o Autoramas. Entre os hits da estação tinha “Uma Noite de Meia” da Marina (‘vem chegando o  verão...”). Essa temporada foi marcante!

Por falar em Raimundos, dezembro é o mês de aniversário do Canisso, cumpadre velho de Brasília. Acredito que nos conhecemos desde 1981-82 porque ele estudava com minhas irmãs. Muita, mas muuuita água rolou antes de Raimundos.

Ainda nos 80 rolou o lançamento do disco ‘Fanzine’, o segundo do Hanoi Hanoi que não fez sucesso algum apesar de ser um discaço. Entre as músicas tem o mega hit “O Tempo Não Para”, composição de Arnaldo e Cazuza, numa excelente versão obscura. Eu fui nas duas noites de lançamento no Aeroanta. Em uma eu paguei pra entrar e na outra eu ganhei ingressos da rádio Brasil 2000. Em um dos shows o Arnaldo Brandão (que também faz aniversário em dezembro) arrebentou a corda mi do baixo de tanta porrada que dava no instrumento. Já era sabido que essas coisas aconteciam com ele e foi legal ter visto ao vivo. Os shows foram ótimos.

Hanoi Hanoi não fez sucesso, mas a música “Totalmente Demais” virou eterno mega ultra hit. Eu sempre fui fã desses dois primeiros discos do Hanoi e, principalmente, do trabalho do Arnaldo e de toda história dele. Sempre que o cito lembro que ele sim merecia uma senhora biografia! Tem história pra ao menos 2 volumes!

Pra fechar, esse mês tem o lançamento de ‘Monstro’, segundo disco do Okotô, grupo alternativo independente de SP que nessa época fez sucesso com “Give Me Your Money”. Isso foi em 1992, quando na cena underground ainda reinavam grupos que cantavam em inglês. É um clássico do underground dos anos 90 e eu tenho em VHS esse show de lançamento que rolou no Aeroanta. Era Okotô e RDP. Foi um período efervescente em SP que relatei em uma série bem detalhada sobre o underground paulistano dessa década.

Feliz ano novo com saúde, amor e boas energias pra você, seus familiares e amigos!