Em 1994 foi criado, pelos integrantes do Titãs, o selo Banguela. A criação aconteceu exatamente em janeiro de 94.
Não sei como isso aconteceu, mas, o estúdio Be Bop que ficava no bairro de Pinheiros/Vila Madalena, em São Paulo, foi escolhido como QG do selo que foi subsidiado pela gravadora Warner.
Também não me lembro de quando as atividades do Banguela se iniciaram, mas eu, assim como outras pessoas ligadas à cena musical daquele momento, passei a frequentar o Be Bop assiduamente até porque, além de Raimundos, o selo contratou outras bandas de Brasília: Little Quail and The Mad Birds, Maskavo Roots e Pravda!
O Be Bop era uma casa que ficava quase na esquina da Av. Pedroso de Morais, onde havia intenso comércio: padarias, lanchonetes, botecos, livrarias, sebos e lojas das mais diversas. Então era comum sair do Be Bop para ir comer ou beber algo durante a tarde ou à noite. Quando Raimundos estava gravando o 1º álbum era comum irmos a algum boteco pra matar a fome.
Eu costumava sair da MTV, onde trabalhava e ficava no Sumaré, bairro ao lado e bem perto do estúdio, e ir para lá pra ver meus amigos. Na verdade, o Be Bop se tornou uma espécie de ponto de encontro de muita gente. Sempre havia movimento por lá, seja à tarde ou à noite, sempre tinha alguém gravando.
E
vou dizer aqui: O Miranda odiava toda aquela movimentação. Falo isso porque ele
mesmo me confessou isso, e não só uma vez. Volta e meia eu percebia certo mau
humor nele exatamente pela intensidade de gente que ficava por lá. Dou total
razão à ele, afinal, era um local de trabalho e não de festa ou esquenta.
No Be Bop tinha dois estúdios: A e B, mas eles nunca funcionavam simultaneamente, ao menos nunca vi isso acontecer. Inclusive porque o Miranda é quem produzia todos os contratados do selo, então não dava pra se dedicar a duas gravações ao mesmo tempo, claro!
O estúdio B, o menor deles, era onde aconteceram a maioria dos álbuns do Banguela, mas também acompanhei gravações no A. Lembro até de uma gravação do Little Quail que aconteceu em uma tarde, quando Miranda e Gabriel (Thomas) colocaram mais de 100 pessoas no A para gravar o backing vocal de “1, 2, 3, 4”. Gabriel me deu sua câmera handycam, peguei uma escada alta que havia no Be Bop, subi até o topo e gravei essa cena que realmente foi engraçada e inusitada. (Cadê a gravação, Gabriel!?!). Claro que virou uma puta zona porque eram todos amigos, músicos e quem estivesse por lá. Nem preciso dizer do cheiro no estúdio. Até o velho amigo e saudoso Fejão estava lá com o pessoal do Dungeon. Era muita gente! Evidente que Miranda ficou doido. Ao mesmo tempo em que ele se divertia, também tinha que coordenar aquele bando de gente. Apesar da bagunça, deu tudo certo.
O Be Bop funcionava de 2ª a 2ª, ou seja, era gravação praticamente todos os dias, inclusive porque Miranda gravava outros projetos que não eram do Banguela. Nas gravações noturnas, o estúdio se tornava um local de esquenta pra galera que se encontrava lá para ir aos shows underground que aconteciam no Aeroanta (ali perto), no Der Temple, Dama Xoc, Espaço Retrô e outros locais. A noite era pizza chegando o tempo todo. Comi algumas vezes com o Miranda na cozinha do Be Bop e ali era o momento em que ele reclamava pra mim da bagunça no local de trabalho.
A casa tinha dois andares e a parte de cima era onde ficava o administrativo do Banguela. A movimentação mesmo acontecia onde eram os estúdios e no corredor que ligava-os. A fumaça rolava solta lá o tempo todo. Quando marcávamos esquenta, geralmente nas quintas e sextas, também tinha muita cerveja.
Acompanhei as gravações de Raimundos, parte do Maskavo Roots e algumas outras. Por causa das reclamações de Miranda, eu costumava ficar quieto nos cantos dos estúdios ou das salas técnicas exatamente pra não atrapalhar, até porque era um entra e sai da sala para o estúdio, tanto do Miranda quanto do graaande Beto Machado, engenheiro de som da maioria desses álbuns do Banguela.
A energia no ambiente era sempre boa, mas a concentração e seriedade para preparar os sets de bateria, de guitarras e baixos eram intensas: arruma microfone, muda o amplificador, muda de lugar isso ou aquilo, troca a pele, muda as cordas, afinação… Era divertido, mas era trabalho sério. Muito parecido com o ambienteda MTV (só que lá não tinha um bando de maconheiros andando pra lá e pra cá kkkk). Bem, tem muita história que não dá pra contar aqui, mas o importante é que fica esse registro de como foi àquele tempo, que durou pouco, mas foi bem intenso!
Feito este contexto, deixo aqui, como homenagem, um texto que meu velho chapa e cumpádi Canisso fez pra mim no início da década de 2010 pra alguma outra ocasião que não me lembro e que resgatei pra usar aqui. Diga lá meu amigo:
“Pois é, e a gente dá uma piscada e lá se vão 15 anos... nós quatro chegamos de Brasília de ônibus e nos hospedamos no Arthur's hotel, um hotelzinho meia bomba que ficava em Pinheiros, que diziam as más línguas já ter sido um hospital e tinha fama de mal-assombrado... iríamos gravar no Be-Bop, que acabou se transformando na sede do Banguela, duas mesas e uma linha de telefone gentilmente emprestados pelo Marcelo e pela Ana, donos do estúdio...
Lá, entre caixas e caixas de pizza pra viagem e no meio da névoa espessa de cigarros feitos à mão, foi traduzido pra uma gravação decente toda a tosqueira e espontaneidade de um som visceral e urgente, resultado da união de influências e vivências de quatro malucos de Brasília que de certa forma conseguiram juntar no seu som elementos pesados e ao mesmo tempo populares, música pra headbanger e porteiro de prédio, forró e hardcore...
Encontramos no Be-Bop uma estrutura fenomenal, um quartel-general com todo o apoio dos Titãs, sócios do Miranda na empreitada de fazer um selo pra dar lugar às novas tendências que já começavam a pipocar... gravamos com instrumentos emprestados, virando madrugadas sem sentir, e a coisa foi ganhando vida própria, até hoje não canso de ouvir e me surpreender...
Com o disco pronto começaram os shows, e aí pintou o desafio de transportar aquela sonoridade obtida arduamente no estúdio pras apresentações ao vivo, e isso foi norteando o trabalho desde então, com humildade pra aprender nas oportunidades que tivemos de tocar com bandas mais experientes, e investindo em equipo e instrumentos... mas no começo foi pauleira, viajamos muito de ônibus de linha e van, empilhados junto com os cases e disputando espaço com os caminhoneiros nas churrascarias de beira de estrada...mas bastava uma horinha de show com a mulekada começando a conhecer e cantar junto nossas músicas pra dar uma sensação estranha, um misto de orgulho e dever cumprido...
Existia um clima de solidariedade, de pessoas em diferentes posições dentro da cena que se formava com um mesmo espírito de "fazer acontecer", de dar sua contribuição ao "movimento" espírito esse muito bem traduzido pelo Miranda na definição perfeita: BRODAGEM!!!
Eram jornalistas, radialistas, bandas, produtores, empresários... o barulho feito por essa corrente que queria dar voz a uma nova forma de fazer música pesada BRASILEIRA, começou a incomodar a mesmice reinante, e sem abaixar a crista pra nada que viesse de fora e tocando de igual pra igual com os "medalhões" a parada vinha como um caminhão sem freio numa ladeira, atropelando tudo no seu caminho, e começou a invadir os salões chiques com seu sotaque de peão, lavando a alma com orgulho de ser brasileiro e cantando em português chulo...”








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