21 de outubro de 2026

71 Anos de Rock brasileiro

Agora dia 24 de outubro de 2026 o rock brasileiro completa 71 anos de vida. Este título é provocativo, claro, até porque ninguém comemora uma data quebrada assim, ainda mais logo após uma data redonda que, aqui no caso do Brasil, “ninguém” comemorou. A palavra ninguém entre aspas porque eu comemorei lançando o livro O Calendário do Rock Brasileiro em março de 2025, 7 meses antes da data de 70 anos. Lancei de forma independente e só foram vendidos 50 exemplares de 60 feitos (10 para dar para a família, pra mim e alguns amigos). 

Aqui falo dos 71 anos exatamente para lembrar que ninguém lembrou dos 70 anos do rock brasileiro, nem mesmo a mídia que se diz especializada e que, só por não ter comemorado esta data, já mostra que de especializada essa mídia capenga não tem nada. Já escrevi algumas vezes sobre este assunto, mas é bom reforçar.

Em julho último participei do 1º Seminário Mercosul do Rock, que aconteceu em Brasília, onde fiz a palestra magna sobre o rock brasileiro como patrimônio cultural e quero deixar aqui neste texto parte do que falei nesta palestra.

Já publiquei, aqui mesmo no Sete Doses de Cachaça, em 2012, 2014 e 2025, textos sobre o fim do rock e o fim da música autoral (este abriu discussão nos comentários) e que não tiro uma vírgula do que foi dito.

O Menosprezo pelo Rock Brasileiro 

A Morte do Rock Brasileiro?!?

O Fim da Música Autoral!?!

E vou além… já que o problema do rock brasileiro não é apenas a falta de conhecimento geral da nova geração do rock. Fora do Brasil, digo nos EUA e na Inglaterra, ainda surgem bons nomes e de diferentes estilos, mas aqui o buraco fica cada vez mais fundo.

Como já dito, a falta de leitura e de conhecimento sobre história e tantas outras coisas, faz com que as letras sejam rasas, sem substância, sem profundidade, com vocabulário pobre e sem assunto. Ou seja, já no texto se vê algo pobre.

Na parte musical a mesma coisa, já que muita gente - e não só a nova geração que hoje está aí tocando - sequer conhece a história do próprio rock brasileiro. Ao contrário do que acontece fora, onde os artistas novos são cheios de referências que vão além do trivial. Aqui no Brasil o pessoal fica apenas no trivial e olha lá! Fora, se ouve na música referências de rock, folk, pop, soul, blues, country, soft, pub e tantos outros estilos. Aqui a ideia que os grupos novos (e artistas solos) passam é de que o rock começou com Nirvana, passa por Metallica e Red Hot Chili Peppers, e segue com Arctic Monkeys.

O roqueiro brasileiro não sabe o que aconteceu no rock brasileiro na década de 50, 60 e 70. Apenas algo raso como a Jovem Guarda com Roberto e Erasmo Carlos e os anos 70 com Mutantes e Secos e Molhados.

Ninguém sabe quem é Sérgio Murilo, Ronnie Cord, Demétrius, Albert Pavão, Baby Santiago e Getúlio Côrtes. O roqueiro brasileiro não sabe quais rocks foram gravados nos anos 50. Não sabe quem é Bob Bolão, Betinho e Seu Conjunto ou mesmo Celly e Tony Campello. É uma vergonha! Duvido que já tenha escutado, por exemplo, “Rock’n’Roll em Copacabana”, “Xaxado Rock”, “Rock do Saci”, “A Bruxa”, inclusive, “Rua Augusta”. Tirando o Magazine que gravou "Adivinhão" nos anos 80, nunca nenhuma banda brasileira revisitou esses primeiros rocks brasileiros, algo que, fora do Brasil, é feito.

Desconhece de todas as possibilidades que grupos como A Barca do Sol, Som Imaginário, Novos Baianos, Som Nosso de Cada Dia, O Terço, Sá Rodrix & Guarabyra, Ave Sangria e tantos outros que misturavam, com maestria, os ritmos brasileiros e a MPB com o rock.

Como uma pessoa que tem banda e luta por reconhecimento pode reclamar de não ter espaço, se ele próprio não conhece o que foi feito antes dele, salvo o trivial como Mutantes, Legião Urbana, Planet Hemp e Los Hermanos.

Em meu feed no Instagram (só tenho FB e Instagram), surgem bandas novas por conta do algoritmo e dou atenção a todas elas. Mesmo sem segui-las, vou ao perfil, olho as postagens, procuro trecho de músicas (seja em ensaio, shows ou videoclipe), procuro entender o contexto, mas o que vejo é triste e até vergonhoso. Já vi banda dizer “se você gosta de Legião Urbana e Engenheiros do Hawaii, então escuta isso aqui” e começa a tocar uma composição tosca, de melodia pobre, letra rasa e que nada tem a ver com as referências ditas.

Já vi publicação de banda tocando no ensaio com a legenda fixa no vídeo dizendo “quem disse que o rock atual não tem qualidade?” com uma música ruim de doer, sem qualquer novidade, sem qualquer qualidade. Isso mostra o quanto essas bandas não conhecem nada que veio antes de Oasis ou Raimundos. Uma tristeza. Dá vergonha alheia.

Riffs pobres, batidas pobres, frases de baixo pobres, letras pobres e zero referência. Isso fica claro pra qualquer pessoa que, de fato, conhece o rock brasileiro.

Daí fica difícil qualquer pessoa influente ajudar, seja um produtor, uma gravadora ou um jornalista.

Quer fazer rock? Então comece a ler, adquirir conhecimento sobre o Brasil e o mundo sobre todas as áreas, vai atrás do que foi feito no Brasil, vai conhecer outros gêneros como a Soul Music que é riquíssima em relação a referências, e é a base de tudo.

Só pra finalizar, imagine se Renato Russo, Rita Lee, Raul Seixas, Roberto Carlos, Arnaldo Antunes, Herbert Vianna, Zé Rodrix e tantos outros roqueiros brasileiros não gostassem de ler. O que seria de nós!?!

Se você quer tocar hoje, tem a obrigação de saber o que já foi feito e, se quiser fazer a diferença, precisa achar algo novo ou algo que realmente tenha relevância, até porque, depois de tudo o que já foi feito de bom  nessas décadas todas, é preciso conhecer a fundo  tudo para achar um caminho que traga alguma relevância para o que se faz hoje, caso contrário, largue a música.

1 de outubro de 2026

Artistas Sem Caráter (e sem cérebro)

Eu fico estupefato em ver a classe artística – que com o Governo do PT se transformou em funcionarismo público – defendendo um governo sujo, ladrão, autoritário, censor e corrupto.

Vejo todos aqueles artistas dos anos 1980, que naquela época gritavam contra a corrupção e registravam a indignação em músicas, discos e palavras, hoje defendendo o que antes eram contra. Fica feio, é algo incoerente que mostra, inclusive, falta de caráter.

Fico imaginando se, naquelas décadas de 1970 e 1980, existisse Lei Rouanet. Se existisse, certamente não teríamos 1/5 das músicas e discos que pautaram àquele momento, principalmente a década de 1980, quando os militares deixaram o Poder.

Caso tivesse a Lei Rouanet nessas décadas passadas, não tenho dúvidas de que não teríamos reclamações sobre os militares e reclamações sobre o Governo Sarney. A realidade daquele período seria omitida, assim como os 20 anos de PT no Poder.

Justamente nesses 20 anos em que a corrupção, a desigualdade social, a censura e o modus operandi sujo reinou mais até que em qualquer outro governo pós-Militares, não teremos nada registrado pelos artistas, exatamente porque eles viraram funcionários públicos pagos para se calarem.

Até mesmo quem se diz do movimento punk abraçou a corrupção do PT e não só isso, mas defendeu toda a sujeira que foi feita nessas décadas decadentes. Vou além, ainda hoje pedem votos para essa máfia.

Essa classe artística sem caráter perdeu toda a relevância que um dia teve, exatamente porque se mostrou prostituta. É só pagar que nada será falado.

Não é por acaso que a música desses artistas caiu no conceito do público. Não é por acaso de aquela senhora que vive com o Caetano reclamou com o ex-presidiário que os shows estão vazios.

O público que hoje ainda abraça esses veteranos e também as novas gerações que mamam nas tetas do poder, é o público que vive nessa bolha. São todos cúmplices de toda a barbaridade e atraso que aconteceu no Brasil durante esses 5 mandatos que o PT reinou com sua ladroagem.

O PT foi contra tudo o que ajudou o Brasil a evoluir um pouco mais, como a Constituição de 1988 e o Plano Real. O PT e seu ladrão maior não são a favor da evolução, não são a favor de um país melhor para a população. Aliás, ninguém que abraça o cruel comunismo, é a favor do povo.  

O comunismo é uma ideologia autoritária que só quer o bem de quem está no Poder. Impossível ser a favor de algo que mata milhares de pessoas por ano; impossível ser a favor de quem não admite arte autoral livre; impossível ser a favor de algo que oprime a sua própria população; impossível ser a favor de um regime que serviu de base para o n@zism0 e o f@cism0; impossível ser a favor de uma ideologia que escraviza seu povo.

Por tudo isso, como admirar uma classe artística que é a favor de um regime que odeia a arte livre? Como admirar uma classe artística que é a favor de corrupção contanto que a pague pra isso?

Gente suja, vendida, sem caráter e, principalmente, sem capacidade de se manter em pé sem a ajuda do Estado.

Que morram de fome por falta de shows e de plays nos streamings. Já que abraçam o lixo do comunismo, nada mais coerente do que morrerem de fome mesmo.

18 de setembro de 2026

Estúdio Be Bop: O QG do Banguela

Em 1994 foi criado, pelos integrantes do Titãs, o selo Banguela. A criação aconteceu exatamente em janeiro de 94.

Não sei como isso aconteceu, mas, o estúdio Be Bop que ficava no bairro de Pinheiros/Vila Madalena, em São Paulo, foi escolhido como QG do selo que foi subsidiado pela gravadora Warner.

Também não me lembro de quando as atividades do Banguela se iniciaram, mas eu, assim como outras pessoas ligadas à cena musical daquele momento, passei a frequentar o Be Bop assiduamente até porque, além de Raimundos, o selo contratou outras bandas de Brasília: Little Quail and The Mad Birds, Maskavo Roots e Pravda!

O Be Bop era uma casa que ficava quase na esquina da Av. Pedroso de Morais, onde havia intenso comércio: padarias, lanchonetes, botecos, livrarias, sebos e lojas das mais diversas. Então era comum sair do Be Bop para ir comer ou beber algo durante a tarde ou à noite. Quando Raimundos estava gravando o 1º álbum era comum irmos a algum boteco pra matar a fome.

Eu costumava sair da MTV, onde trabalhava e ficava no Sumaré, bairro ao lado e bem perto do estúdio, e ir para lá pra ver meus amigos. Na verdade, o Be Bop se tornou uma espécie de ponto de encontro de muita gente. Sempre havia movimento por lá, seja à tarde ou à noite, sempre tinha alguém gravando.


E vou dizer aqui: O Miranda odiava toda aquela movimentação. Falo isso porque ele mesmo me confessou isso, e não só uma vez. Volta e meia eu percebia certo mau humor nele exatamente pela intensidade de gente que ficava por lá. Dou total razão à ele, afinal, era um local de trabalho e não de festa ou esquenta.

Nessa época, eu costumava sair com minha câmera VHS em uma mochila pra gravar shows e outros conteúdos, inclusive no Be Bop. Mas antes que você me pergunte, digo que, infelizmente, perdi praticamente todas as fitas, sobrando um ou outro showzinho. Fui roubado de uma empresa de guarda móveis que sumiu com diversas caixas minhas e as fitas e DVDs estavam lá.

No Be Bop tinha dois estúdios: A e B, mas eles nunca funcionavam simultaneamente, ao menos nunca vi isso acontecer. Inclusive porque o Miranda é quem produzia todos os contratados do selo, então não dava pra se dedicar a duas gravações ao mesmo tempo, claro!

O estúdio B, o menor deles, era onde aconteceram a maioria dos álbuns do Banguela, mas também acompanhei gravações no A. Lembro até de uma gravação do Little Quail que aconteceu em uma tarde, quando Miranda e Gabriel (Thomas) colocaram mais de 100 pessoas no A para gravar o backing vocal de “1, 2, 3, 4”. Gabriel me deu sua câmera handycam, peguei uma escada alta que havia no Be Bop, subi até o topo e gravei essa cena que realmente foi engraçada e inusitada. (Cadê a gravação, Gabriel!?!). Claro que virou uma puta zona porque eram todos amigos, músicos e quem estivesse por lá. Nem preciso dizer do cheiro no estúdio. Até o velho amigo e saudoso Fejão estava lá com o pessoal do Dungeon. Era muita gente! Evidente que Miranda ficou doido. Ao mesmo tempo em que ele se divertia, também tinha que coordenar aquele bando de gente. Apesar da bagunça, deu tudo certo.

O Be Bop funcionava de 2ª a 2ª, ou seja, era gravação praticamente todos os dias, inclusive porque Miranda gravava outros projetos que não eram do Banguela. Nas gravações noturnas, o estúdio se tornava um local de esquenta pra galera que se encontrava lá para ir aos shows underground que aconteciam no Aeroanta (ali perto), no Der Temple, Dama Xoc, Espaço Retrô e outros locais. A noite era pizza chegando o tempo todo. Comi algumas vezes com o Miranda na cozinha do Be Bop e ali era o momento em que ele reclamava pra mim da bagunça no local de trabalho.

A casa tinha dois andares e a parte de cima era onde ficava o administrativo do Banguela. A movimentação mesmo acontecia onde eram os estúdios e no corredor que ligava-os. A fumaça rolava solta lá o tempo todo. Quando marcávamos esquenta, geralmente nas quintas e sextas, também tinha muita cerveja.

Acompanhei as gravações de Raimundos, parte do Maskavo Roots e algumas outras. Por causa das reclamações de Miranda, eu costumava ficar quieto nos cantos dos estúdios ou das salas técnicas exatamente pra não atrapalhar, até porque era um entra e sai da sala para o estúdio, tanto do Miranda quanto do graaande Beto Machado, engenheiro de som da maioria desses álbuns do Banguela.

A energia no ambiente era sempre boa, mas a concentração e seriedade para preparar os sets de bateria, de guitarras e baixos eram intensas: arruma microfone, muda o amplificador, muda de lugar isso ou aquilo, troca a pele, muda as cordas, afinação… Era divertido, mas era trabalho sério. Muito parecido com o ambienteda MTV (só que lá não tinha um bando de maconheiros andando pra lá e pra cá kkkk). Bem, tem muita história que não dá pra contar aqui, mas o importante é que fica esse registro de como foi àquele tempo, que durou pouco, mas foi bem intenso!

Feito este contexto, deixo aqui, como homenagem, um texto que meu velho chapa e cumpádi Canisso fez pra mim no início da década de 2010 pra alguma outra ocasião que não me lembro e que resgatei pra usar aqui. Diga lá meu amigo:

 


“Pois é, e a gente dá uma piscada e lá se vão 15 anos... nós quatro chegamos de Brasília de ônibus e nos hospedamos no Arthur's hotel, um hotelzinho meia bomba que ficava em Pinheiros, que diziam as más línguas já ter sido um hospital e tinha fama de mal-assombrado... iríamos gravar no Be-Bop, que acabou se transformando na sede do Banguela, duas mesas e uma linha de telefone gentilmente emprestados pelo Marcelo e pela Ana, donos do estúdio...

Lá, entre caixas e caixas de pizza pra viagem e no meio da névoa espessa de cigarros feitos à mão, foi traduzido pra uma gravação decente toda a tosqueira e espontaneidade de um som visceral e urgente, resultado da união de influências e vivências de quatro malucos de Brasília que de certa forma conseguiram juntar no seu som elementos pesados e ao mesmo tempo populares, música pra headbanger e porteiro de prédio, forró e hardcore...

Encontramos no Be-Bop uma estrutura fenomenal, um quartel-general com  todo o apoio dos Titãs, sócios do Miranda na empreitada de fazer um selo pra dar lugar às novas tendências que já começavam a pipocar... gravamos com instrumentos emprestados, virando madrugadas sem sentir, e a coisa foi ganhando vida própria, até hoje não canso de ouvir e me surpreender...

Com o disco pronto começaram os shows, e aí pintou o desafio de transportar aquela sonoridade obtida arduamente no estúdio pras apresentações ao vivo, e isso foi norteando o trabalho desde então, com humildade pra aprender nas oportunidades que tivemos de tocar com bandas mais experientes, e investindo em equipo e instrumentos... mas no começo foi pauleira, viajamos muito de ônibus de linha e van, empilhados junto com os cases e disputando espaço com os caminhoneiros nas churrascarias de beira de estrada...mas bastava uma horinha de show com a mulekada começando a conhecer e cantar junto nossas músicas pra dar uma sensação estranha, um misto de orgulho e dever cumprido...

Existia um clima de solidariedade, de pessoas em diferentes posições dentro da cena que se formava com um mesmo espírito de "fazer acontecer", de dar sua contribuição ao "movimento" espírito esse muito bem traduzido pelo Miranda na definição perfeita: BRODAGEM!!!

Eram jornalistas, radialistas, bandas, produtores, empresários... o barulho feito por essa corrente que queria dar voz a uma nova forma de fazer música pesada BRASILEIRA, começou a incomodar a mesmice reinante, e sem abaixar a crista pra nada que viesse de fora e tocando de igual pra igual com os "medalhões" a parada vinha como um caminhão sem freio numa ladeira, atropelando tudo no seu caminho, e começou a invadir os salões chiques com seu sotaque de peão, lavando a alma com orgulho de ser brasileiro e cantando em português chulo...”