De qualquer forma, nos últimos meses escrevi alguns textos, até mesmo revisei outros já publicados, e vou agora aproveitá-los aqui, a começar com o resgate da memória do mês que fiquei junto com Rodox durante a gravação do 2º álbum, lançado em 2003. Já que está todo mundo falando de ROdox, vou aproveitar a onda, certo?
Quero aproveitar também para deixar aqui explícito o que algumas pessoas ainda não compreendem ou mesmo não conhecem. Muitos textos que faço aqui fazem parte do jornalismo gonzo, ou seja, dou a informação fazendo parte dela, estando inserido nela, tento vivido-a na pele. Quando escrevo algo que resgata a memória - como a série a respeito dos anos 1990 - eu junto a vivência, a informação e o contexto. Assim o faço desde meus primeiros textos na internet ainda nos idos de 2001. E vamos ao Rodox no estúdio:
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Após o término do programa que eu fazia para o Disney Channel, em novembro de 2002, como freelancer, não tinha nenhum projeto em vista, até por ser fim de ano.
Neste projeto, que envolvia SBT e Disney, conheci a Carolina Telles que, como eu, é uma operária do audiovisual, diretora, roteirista e criadora de conteúdo. Ela tinha acabado de comprar algo absolutamente novo no mercado: a câmera digital profissional PD150. Era uma fortuna, e foi um belíssimo investimento. Pra se ter uma ideia, as pequenas fitas digitais usadas nela nem eram vendidas no Brasil, muito menos a câmera.
Carol era casada com Fernandão, que foi baterista do Korzus, do Treta e que naquela época estava tocando no Rodox. Ao mesmo tempo, eu e Rodolfo éramos velhos amigos de Brasília. Juntamos todo esse contexto com o fato do Rodox ter estúdio marcado em janeiro de 2003 para o 2º álbum, então lá fomos nós dois para o Rio acompanhar todo o processo de gravação que teria exatos um mês para fazê-lo.
A gravação aconteceu no estúdio Toca do Bandido do também velho amigo Tom Capone. Além de Rodolfo e Tom, ainda tinha o Wagner que trabalhava com Capone na Warner e que também era outro velho amigo de Brasília (Wagner foi vocalista do Peter Perfeito).
Tudo combinado, então fomos para o Rio com o carro da Carol e ficamos hospedados no mesmo flat que a banda. Seguimos todos os passos do Rodox, do começo ao fim.
Na chegada do Rio, prestes a entrar na Av. Brasil, eu e Carol tomamos um estranhíssimo baculejo de uma polícia sem identificação alguma. Estávamos em paz na estrada, um carro sem identificação aparelhou com o nosso, um cara de camisa branca aberta e segurando uma metralhadora gritava pra nós “polícia! Encosta! Encosta!” Em um primeiro momento até exitamos, mas diante da brutalidade, encostamos. Nos encheram de perguntas enquanto revistavam o carro e analisavam os documentos. Tudo isso parou imediatamente quando abri minha mala e em cima de toda roupa estava um projeto que eu havia apresentado para o SBT com o logo da emissora enorme. Na hora que o cara viu o projeto encadernado com esse logo, nem olhou a mala, pediu pra fechá-la e nos dispensou.
O repertório não estava 100% pronto. Havia as músicas, os riffs e as ideias, mas elas foram moldadas em estúdio. O produtor foi Álvaro, também de Brasília, que fez diversos trabalhos junto com Tom. Rodolfo, Bob, Marcão, Pedro, Patrick e Fernandão. Essa era a banda que foi formada inicialmente para apenas gravar um clipe do álbum anterior.Eu já conhecia a Toca do Bandido porque já havia gravado lá pela MTV em duas ocasiões. O Tom eu conheci nos primeiros ensaios do Peter Perfeito, quando ele nem ligava pra música, sequer sabia tocar instrumento algum. Quando resolveu tocar, algo mágico aconteceu, porque em poucos meses ele se tornou um expert na guitarra. Depois, com a gravação das primeiras demos do Peter, se tornou expert em estúdio. O que aconteceu com Tom foi, de fato, algo mágico.
Foi ótimo revê-lo, assim como o Wagner. Em 1983-84 era uma turma enorme que ficava no estacionamento do colégio Objetivo em Brasília, na 913 Sul. Dessa turma também fazia parte Canisso que, na época, mal sabia assobiar. Foi lá que o Peter Perfeito foi formado. Tinha o Babú, Wagner, Canisso, Ricardo (irmão do Tom), Cássio, Sucupira…
O primeiro momento da gravação que me lembro foi a bateria. Fernandão montou seu set no estúdio e eu e Carol gravamos desde a montagem da bateria. Ele não sabia como eram as músicas e, em nenhuma delas, houve mais do que 2 takes. Fernandão é monstro! Ficamos no estúdio acompanhando música a música e ouvindo só a bateria, sem fone de ouvido. Uma experiência e tanto. Muito profissionalismo envolvido. Fernandão escutava a música uma vez no fone e depois saía tocando. Na minha vida, acompanhei muitas gravações profissionais, eu mesmo gravei um álbum, e nunca havia visto algo igual.
A Toca do Bandido fica na Barra da Tijuca, em um condomínio no meio do mato e o flat que ficamos também era na Barra. Íamos e voltávamos juntos para o estúdio. Chegávamos ao estúdio no fim da manhã e só saíamos no início da noite. Todo mundo ficou junto durante todo o processo de gravação.
Lá eu conheci a famosa Anna Júlia que inspirou o mega hit do Los Hermanos, porque ela era namorada do Patrick, e esteve na Toca ao menos duas vezes. Eu e Carol gravamos tudo, cada instrumento e cada movimentação na Toca. Teve até um dia, quando Patrick estava colocando os baixos e estava com dificuldade em uma das músicas que eu pedi permissão e sugeri que ele tocasse com palheta. Ele olhou pra mim com fumaça saindo dos ouvidos e disse: “baixo não se toca com palheta”. Um pensamento um tanto radical (o baixo, quando inventado, era tocado com palheta). Me surpreendi ao ver Patrick hoje, nessa volta do Rodox, tocando com palheta. É um baita baixista! Vai falar pro Paul McCartney, pro Dee Dee Ramone e para JJ Burnell (The Stranglers) que não se toca baixo com palheta! (brincadeira!!!)Tom ia pouco ao estúdio, apesar de ficar nos fundos de sua casa. Mas, certa vez, demos uma volta na parte externa da casa batendo papo e ele levou eu e Carol até a garagem da casa e disse pra pensarmos em gravar ali uma apresentação do Rodox para um DVD. Era uma garagem bem pequena e apertada. Até fizemos imagens dela pra registrar a locação, mas o projeto não vingou. Nem sei se a ideia foi falada pra banda. Tempos depois, vi um DVD do Rappa gravado lá.
Teve um dia que eu e Rodolfo, na volta do estúdio, saímos pra comer algo e depois fomos ao quarto dele pra continuar conversando e fomos até umas 4 da manhã. Rodolfo me contou todo o contexto da saída do Raimundos, algo que, segundo ele, não havia falado pra ninguém. Eu praticamente só o ouvi. Falou tudo que hoje todos sabem: do stress que estava passando, das coisas estranhas que estavam acontecendo com a sua saúde. Não foi um processo fácil pra ele. Talvez ele tenha me contado por eu, apesar de eu ser um velho amigo, não estar tão presente no dia a dia do Raimundos, mas ao mesmo tempo conhecer todo mundo. Também percebi que ele precisava desabafar com alguém.
A gravação foi interrompida por duas vezes para a banda cumprir agenda de shows. Fomos até Belo Horizonte para um show que tinha, além de Rodox, Charlie Brown Jr. e, talvez, Capital Inicial (realmente não me lembro. Foi um bate e volta e foi bem divertido. A segunda saída foi para São Paulo mesmo, um show no Centro Cultural. Nesse show, inclusive, eue Carol pegamos depoimento de fãs que estavam na fila para entrar no auditório. Como este show foi em SP, eu proveitei pra ficar, já que eu ia começar um outro trabalho. Desta forma, Carol continuou a gravação dos bastidores sozinha. Mas, quando eu já nõ estava, só o Bob ainda não tinha feito sua parte, de ainda teve um outro show, mas não me lembro do local.
Mais uma vez me impressionei com o processo de Rodolfo em relação às letras, porque ele não tinha nada escrito até as músicas ficarem prontas. Assim como no Raimundos, ele escrevia tudo depois. Então ficávamos na sala técnica do estúdio ouvindo as bases e, durante a audição, ele ia rabiscando as ideias no caderno.
O combinado entre eu e Carol era pegar os depoimentos de todo mundo depois da gravação, para dar um distanciamento de todo o processo. Mas, infelizmente, isso não aconteceu, pelo fato da banda ter sido dispensada da Warner depois da divulgação do álbum. Inclusive, após a gravação, continuei conversando com Wagner a respeito do material que tínhamos em mãos, tanto para fazer futuros videoclipes quanto para lançá-lo em DVD, mas, pelas conversas, eu já tive a impressão de que o contrato não ia continuar e que não havia interesse em tudo o que foi captado.
Então, a ideia e o material bruto foram engavetados. De qualquer forma, valeu a experiência.
PS-1: Depois de escrever este texto, me toquei de que vivi dois momentos importantes nessa história da separação Rodolfo-Raiumudos: logo após a separação, por causa da festa de lançamento do meu livro O Diário da Turma 1976-1986, Digão e Canisso voltaram a se falar e demos uns rolés por Brasília; e Rodolfo se abriu comigo falando os seus motivos rais, pela primeira vez, com alguém de fora da história.
PS-2: Na 2º foto, junto com Rodox, estão Tom Capone e Wagner Vianna.



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