24 de maio de 2026

Rodox no Estúdio (janeiro 2003)

Faz 10 meses que não publico nada! São outros tempos e, na minha cabeça, as pessoas não querem mais saber de ler. Não sei até onde este blog, outros blogs e sites especializados (falo de música e cultura) fazem a diferença em tempos de redes sociais que priorizam o vídeo. 

De qualquer forma, nos últimos meses escrevi alguns textos, até mesmo revisei outros já publicados, e vou agora aproveitá-los aqui, a começar com o resgate da memória do mês que fiquei junto com Rodox durante a gravação do 2º álbum, lançado em 2003. Já que está todo mundo falando de ROdox, vou aproveitar a onda, certo?

Quero aproveitar também para deixar aqui explícito o que algumas pessoas ainda não compreendem ou mesmo não conhecem. Muitos textos que faço aqui fazem parte do jornalismo gonzo, ou seja, dou a informação fazendo parte dela, estando inserido nela, tento vivido-a na pele. Quando escrevo algo que resgata a memória - como a série a respeito dos anos 1990 - eu junto a vivência, a informação e o contexto. Assim o faço desde meus primeiros textos na internet ainda nos idos de 2001. E vamos ao Rodox no estúdio:

                                             __________________________________________

 

Após o término do programa que eu fazia para o Disney Channel, em novembro de 2002, como freelancer, não tinha nenhum projeto em vista, até por ser fim de ano.

Neste projeto, que envolvia SBT e Disney, conheci a Carolina Telles que, como eu, é uma operária do audiovisual, diretora, roteirista e criadora de conteúdo. Ela tinha acabado de comprar algo absolutamente novo no mercado: a câmera digital profissional PD150. Era uma fortuna, e foi um belíssimo investimento. Pra se ter uma ideia, as pequenas fitas digitais usadas nela nem eram vendidas no Brasil, muito menos a câmera.

Carol era casada com Fernandão, que foi baterista do Korzus, do Treta e que naquela época estava tocando no Rodox. Ao mesmo tempo, eu e Rodolfo éramos velhos amigos de Brasília. Juntamos todo esse contexto com o fato do Rodox ter estúdio marcado em janeiro de 2003 para o 2º álbum, então lá fomos nós dois para o Rio acompanhar todo o processo de gravação que teria exatos um mês para fazê-lo.

A gravação aconteceu no estúdio Toca do Bandido do também velho amigo Tom Capone. Além de Rodolfo e Tom, ainda tinha o Wagner que trabalhava com Capone na Warner e que também era outro velho amigo de Brasília (Wagner foi vocalista do Peter Perfeito).

Tudo combinado, então fomos para o Rio com o carro da Carol e ficamos hospedados no mesmo flat que a banda. Seguimos todos os passos do Rodox, do começo ao fim.

Na chegada do Rio, prestes a entrar na Av. Brasil, eu e Carol tomamos um estranhíssimo baculejo de uma polícia sem identificação alguma. Estávamos em paz na estrada, um carro sem identificação aparelhou com o nosso, um cara de camisa branca aberta e segurando uma metralhadora gritava pra nós “polícia! Encosta! Encosta!” Em um primeiro momento até exitamos, mas diante da brutalidade, encostamos. Nos encheram de perguntas enquanto revistavam o carro e analisavam os documentos. Tudo isso parou imediatamente quando abri minha mala e em cima de toda roupa estava um projeto que eu havia apresentado para o SBT com o logo da emissora enorme. Na hora que o cara viu o projeto encadernado com esse logo, nem olhou a mala, pediu pra fechá-la e nos dispensou.

O repertório não estava 100% pronto. Havia as músicas, os riffs e as ideias, mas elas foram moldadas em estúdio. O produtor foi Álvaro, também de Brasília, que fez diversos trabalhos junto com Tom. Rodolfo, Bob, Marcão, Pedro, Patrick e Fernandão. Essa era a banda que foi formada inicialmente para apenas gravar um clipe do álbum anterior.

Eu já conhecia a Toca do Bandido porque já havia gravado lá pela MTV em duas ocasiões. O Tom eu conheci nos primeiros ensaios do Peter Perfeito, quando ele nem ligava pra música, sequer sabia tocar instrumento algum. Quando resolveu tocar, algo mágico aconteceu, porque em poucos meses ele se tornou um expert na guitarra. Depois, com a gravação das primeiras demos do Peter, se tornou expert em estúdio. O que aconteceu com Tom foi, de fato, algo mágico.

Foi ótimo revê-lo, assim como o Wagner. Em 1983-84 era uma turma enorme que ficava no estacionamento do colégio Objetivo em Brasília, na 913 Sul. Dessa turma também fazia parte Canisso que, na época, mal sabia assobiar. Foi lá que o Peter Perfeito foi formado. Tinha o Babú, Wagner, Canisso, Ricardo (irmão do Tom), Cássio, Sucupira

O primeiro momento da gravação que me lembro foi a bateria. Fernandão montou seu set no estúdio e eu e Carol gravamos desde a montagem da bateria. Ele não sabia como eram as músicas e, em nenhuma delas, houve mais do que 2 takes. Fernandão é monstro! Ficamos no estúdio acompanhando música a música e ouvindo só a bateria, sem fone de ouvido. Uma experiência e tanto. Muito profissionalismo envolvido. Fernandão escutava a música uma vez no fone e depois saía tocando. Na minha vida, acompanhei muitas gravações profissionais, eu mesmo gravei um álbum, e nunca havia visto algo igual.

A Toca do Bandido fica na Barra da Tijuca, em um condomínio no meio do mato e o flat que ficamos também era na Barra. Íamos e voltávamos juntos para o estúdio. Chegávamos ao estúdio no fim da manhã e só saíamos no início da noite. Todo mundo ficou junto durante todo o processo de gravação.

Lá eu conheci a famosa Anna Júlia que inspirou o mega hit do Los Hermanos, porque ela era namorada do Patrick, e esteve na Toca ao menos duas vezes. Eu e Carol gravamos tudo, cada instrumento e cada movimentação na Toca. Teve até um dia, quando Patrick estava colocando os baixos e estava com dificuldade em uma das músicas que eu pedi permissão e sugeri que ele tocasse com palheta. Ele olhou pra mim com fumaça saindo dos ouvidos e disse: “baixo não se toca com palheta”. Um pensamento um tanto radical (o baixo, quando inventado, era tocado com palheta). Me surpreendi ao ver Patrick hoje, nessa volta do Rodox, tocando com palheta. É um baita baixista! Vai falar pro Paul McCartney, pro Dee Dee Ramone e para JJ Burnell (The Stranglers) que não se toca baixo com palheta! (brincadeira!!!)

Tom ia pouco ao estúdio, apesar de ficar nos fundos de sua casa. Mas, certa vez, demos uma volta na parte externa da casa batendo papo e ele levou eu e Carol até a garagem da casa e disse pra pensarmos em gravar ali uma apresentação do Rodox para um DVD. Era uma garagem bem pequena e apertada. Até fizemos imagens dela pra registrar a locação, mas o projeto não vingou. Nem sei se a ideia foi falada pra banda. Tempos depois, vi um DVD do Rappa gravado lá.

Teve um dia que eu e Rodolfo, na volta do estúdio, saímos pra comer algo e depois fomos ao quarto dele pra continuar conversando e fomos até umas 4 da manhã. Rodolfo me contou todo o contexto da saída do Raimundos, algo que, segundo ele, não havia falado pra ninguém. Eu praticamente só o ouvi. Falou tudo que hoje todos sabem: do stress que estava passando, das coisas estranhas que estavam acontecendo com a sua saúde. Não foi um processo fácil pra ele. Talvez ele tenha me contado por eu, apesar de eu ser um velho amigo, não estar tão presente no dia a dia do Raimundos, mas ao mesmo tempo conhecer todo mundo. Também percebi que ele precisava desabafar com alguém.

A gravação foi interrompida por duas vezes para a banda cumprir agenda de shows. Fomos até Belo Horizonte para um show que tinha, além de Rodox, Charlie Brown Jr. e, talvez, Capital Inicial (realmente não me lembro. Foi um bate e volta e foi bem divertido. A segunda saída foi para São Paulo mesmo, um show no Centro Cultural. Nesse show, inclusive, eue Carol pegamos depoimento de fãs que estavam na fila para entrar no auditório. Como este show foi em SP, eu proveitei pra ficar, já que eu ia começar um outro trabalho. Desta forma, Carol continuou a gravação dos bastidores sozinha. Mas, quando eu já nõ estava, só o Bob ainda não tinha feito sua parte, de ainda teve um outro show, mas não me lembro do local.

Mais uma vez me impressionei com o processo de Rodolfo em relação às letras, porque ele não tinha nada escrito até as músicas ficarem prontas. Assim como no Raimundos, ele escrevia tudo depois. Então ficávamos na sala técnica do estúdio ouvindo as bases e, durante a  audição, ele ia rabiscando as ideias no caderno.

O combinado entre eu e Carol era pegar os depoimentos de todo mundo depois da gravação, para dar um distanciamento de todo o processo. Mas, infelizmente, isso não aconteceu, pelo fato da banda ter sido dispensada da Warner depois da divulgação do álbum. Inclusive, após a gravação, continuei conversando com Wagner a respeito do material que tínhamos em mãos, tanto para fazer futuros videoclipes quanto para lançá-lo em DVD, mas, pelas conversas, eu já tive a impressão de que o contrato não ia continuar e que não havia interesse em tudo o que foi captado.

Então, a ideia e o material bruto foram engavetados. De qualquer forma, valeu a experiência. 

 

PS-1: Depois de escrever este texto, me toquei de que vivi dois momentos importantes nessa história da separação Rodolfo-Raiumudos: logo após a separação, por causa da festa de lançamento do meu livro O Diário da Turma 1976-1986, Digão e Canisso voltaram a se falar e demos uns rolés por Brasília; e Rodolfo se abriu comigo falando os seus motivos rais, pela primeira vez, com alguém de fora da história.

PS-2: Na 2º foto, junto com Rodox, estão Tom Capone e Wagner Vianna.




1 de agosto de 2025

Os 70 Anos de Rock Brasileiro em Vídeo!

Nesta virada de julho para agosto de 2025 retomei a gravação e publicação de vídeos para comemorar os 70 anos de Rock Brasileiro. Comecei a gravar em 2020, no auge da pandemia, quando o rock completou 65 anos, mas tive que interromper por conta de trabalho. Agora, para completar a playlist ‘O Rock Brasileiro e Suas Histórias’, tenho feito novos vídeos que, aos poucos vou publicá-los.

Além dessa playlist, tem a ‘MTV 30 Anos (Bastidores)’, onde também falo de música e conto muitas histórias de bastidores.

Playlist ‘O Rock Brasileiro e Suas Histórias’:

https://youtube.com/playlist?list=PLMP9rYxXbEE3UBwBuGctixo76ZvJ-0HS0&si=DA7sdkFZjMaRyTK7

- 65 Anos de Rock Brasileiro: Uma Vida Sem Comemorações 
- 65 Anos de Rock Brasileiro: 1982-83 O Início da Geração 80 
- 65 Anos de Rock Brasileiro: Anos 50, 60 e 70. Os 1º hits e os Clássicos dos anos 70 
- 65 Anos de Rock Brasileiro: 4 – O Triênio 1984-85-86 
- Adorava Gravar Discos! O Valor da Música e o Início dos Anos 80 
- O Contexto de Júlio Barroso e a Revolução Chamada Gang 90 & Absurdettes 
- Rock de Brasília Pré-Sucesso: Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude em Brasília! Como era? 
- Calendário do Rock Brasileiro: Os Lançamentos de setembro 
- Calendário do Rock Brasileiro: Os Anos 70 em agosto!

Novos: 
- 70 Anos de Rock Brasileiro: A Mistura da MPB com o Rock dos Anos 1970 
- 70 Anos de Rock Brasileiro: Cazuza e Renato Russo


Playlist ‘MTV 30 Anos (Bastidores)’:

https://youtube.com/playlist?list=PLMP9rYxXbEE0WyBh66v1QR7oTJMKqM_RV&si=fm8OeNn43BQgM3u4

- MTV Brasil 30 Anos (bastidores) 1: Ambiente de Trabalho - Parte 1 
- MTV Brasil 30 anos (bastidores) 2: Ambiente de Trabalho - Parte 2 
- MTV Brasil 30 anos (bastidores) 3: A morte de Kurt Cobain, Teleguiado e Na Chapa 
- MTV Brasil 30 anos (bastidores) 4: Fúria, Monsters of Rock... e o skank do Tim Maia 
- MTV Brasil 30 anos (bastidores) 5: O dia a dia, a escada de incêndio e a programação de clipes 
- MTV Brasil 30 anos (bastidores) 6: Acústico Legião Urbana e Especial Legião Urbana 
- MTV Brasil 30 anos (bastidores) 7: MTV no Verão 1995 e o Baculejo Épico! 
- MTV Brasil 30 anos (bastidores) 8: MTV Brasil e a Cena Underground 1990 
- MTV Brasil 30 anos (bastidores) 9: Histórias com Artistas e Outras Mais! 
- MTV Brasil 30 anos (bastidores) 10: 1º VMB sem Ensaio Geral, o Camarim Enfumaçado e Outras Histórias 
- MTV Brasil 30 anos (bastidores) 11: O Lado Ruim e O Começo do Fim!



15 de julho de 2025

O Menosprezo Pelo Rock Brasileiro

Não dá pra entender essa urgência do brasileiro em comemorar o tal do Dia Mundial do Rock (13 de julho). O Brasil é, praticamente, o único país que faz isso. O resto do mundo lembra o que foi o Live Aid, as atrações, as músicas, o evento, e só, porque é isso.

Por que será que não existe essa urgência em relação ao rock brasileiro? Muito doido isso!

Som Três, Revista Roll, Revista Bizz, MTV Brasil , 89 FM e Revista 89, Brasil 2000, Rock Press, Kiss FM e mais um monte de mídias segmentadas nunca fizeram nada em relação aos fatos marcantes do rock brasileiro, mas quando chega a hora de comemorar algo que foi elaborado por ingleses e americanos (o Live Aid) e que, em algum momento desse evento alguém comentou muito por cima que aquele dia 13 de julho poderia ser o dia mundial do rock, essa mídia nacional baba e não vê a hora de publicar algo a respeito.

Essa mídia – que me recuso a dizer “especializada” – nunca fala, mostra ou escreve nada sobre os primeiros anos do rock brasileiro, as primeiras décadas, os discos lançados, os primeiros nomes importantes (Bob Bolão, Betinho, Ronnie Cord etc.), as primeiras gravações, as cenas dos anos 1950, 1960, 1970, os principais lançamentos dessas cenas, os principais nomes.

Mas sabe o motivo disso? Eu sei: ninguém tem a mínima noção dos acontecimentos do rock brasileiro. Por isso que me recuso a escrever “imprensa especializada”, exatamente porque ela não sabe nada. Sabe apenas o básico, sabe apenas o que está na mão. Por isso que só comemora efemérides clichês como o nascimento e morte de Raul Seixas, Renato Russo, Chico Science, Chorão...

Isso acontece, também, com os próprios artistas que não tem ideia de nada. Eles só sabem o valor do cachê deles e dos discos que lançaram na carreira, mas sem saber o dia e sequer o mês de lançamento.

É um desprezo gigantesco pela nossa história. Quem faz rock – seja artistas, mídia ou gravadoras – não sabe sequer de 1/5 da história. Nem sabem a data que se comemora o início do rock brasileiro e nem o motivo de existir essa data.

Por volta de 2003 ou 2004, eu cheguei a ser contratado por um empresário para fazer a curadoria de um grande festival que iria acontecer em 2005 exatamente para comemorar os 50 anos de rock brasileiro e que só teria artistas nacionais. O festival iria ter o porte do Rock in Rio e o empresário me procurou porque leu uma reportagem sobre o rock brasileiro que eu havia feito para uma dessas revistas que se achavam especializadas e que nela eu falava sobre a importância do dia 24 de outubro de 1955.

Até hoje, ele foi a única pessoa que vi ter essa visão. Ele investiu mesmo! Me pagou um bom cachê, fez reuniões com empresários de artistas, fez brindes para os possíveis parceiros comerciais para levá-los nas reuniões e investiu firme na ideia até, infelizmente, perceber que ninguém estava nem aí com os 50 anos de rock brasileiro.

Seria um festival 100% nacional e que foi completamente menosprezado por quem poderia ter ajudado a concretizar essa ótima ideia. Tinha até local, planta baixa, desenho e maquete do palco (seria um só) e todos os detalhes necessários. Só faltava o apoio das gravadoras (que ajudariam no contato com os artistas) e do apoio financeiro.

O rock brasileiropassou pelos seus 10, 20, 30, 40, 50 e 60 anos e nunca ninguém comemorou nada em relação a essas datas. Sequer um showzinho na esquina.

Aqui no Brasil se comemora efemérides relacionadas a Beatles, Stones, U2, Nirvana ou qualquer outro artista gringo, mas não se comemora nada a respeito de Celly Campello, Renato e Seus Blue Caps, Módulo 1000, Ave Sangria, Gang 90 & Absurdettes, Paralamas...

Lancei O Calendário do Rock Brasileiro em março deste ano exatamente por causa dessa data redonda. Trata-se do único livro que traz praticamente toda a história desses 70 anos e o livro, até agora, foi menosprezado não só pelos artistas, mas por essa mídia preguiçosa, perdida e sem conhecimento.

Trata-se do primeiro e único livro desse gênero na literatura brasileira e quem deveria tê-lo, não quer saber dele. Agora, ir na minha conta do Instagram roubar as informações que eu publicava em relação as datas, todo mundo ia. Porém, publicavam sem os devidos créditos – inclusive artistas que são meus amigos. Foi por esse motivo que parei de publicar datas.

Muito estranho esse desprezo pela nossa história. Por outro lado, esse desprezo é natural, já que desprezamos tudo o que tem relação com nossa história, independente da área.

Em 2025 comemoramos 70 anos de rock brasileiro em 24 de outubro e até agora, nenhuma dessas mídias segmentadas falou sobre isso e, pelo jeito, nem vai falar.

Brasileiro é um povo preguiçoso e acomodado.

                                                       --------------------------------

 


Tenho apenas mais 10 exemplares da pequena tiragem que fiz do O Calendário do Rock Brasileiro. Quem tiver interesse em adquiri-lo, deve enviar e-mail para:

calendariodorockbr@gmail.com

O valor é R$100,00 + R$15,00 (envio)

Faço pacote com O Calendário do Rock Brasileiro + O Diário da Turma 1976-1986 que sai por:

R$100,00 + R$50,00 + R$15,00 (envio)