Aqui falo dos 71 anos exatamente para lembrar que ninguém lembrou dos 70 anos do rock brasileiro, nem mesmo a mídia que se diz especializada e que, só por não ter comemorado esta data, já mostra que de especializada essa mídia capenga não tem nada. Já escrevi algumas vezes sobre este assunto, mas é bom reforçar.
Em julho último participei do 1º Seminário Mercosul do Rock, que aconteceu em Brasília, onde fiz a palestra magna sobre o rock brasileiro como patrimônio cultural e quero deixar aqui neste texto parte do que falei nesta palestra.
Já publiquei, aqui mesmo no Sete Doses de Cachaça, em 2012, 2014 e 2025, textos sobre o fim do rock e o fim da música autoral (este abriu discussão nos comentários) e que não tiro uma vírgula do que foi dito.
O Menosprezo pelo Rock Brasileiro
E vou além… já que o problema do rock brasileiro não é apenas a falta de conhecimento geral da nova geração do rock. Fora do Brasil, digo nos EUA e na Inglaterra, ainda surgem bons nomes e de diferentes estilos, mas aqui o buraco fica cada vez mais fundo.
Como já dito, a falta de leitura e de conhecimento sobre história e tantas outras coisas, faz com que as letras sejam rasas, sem substância, sem profundidade, com vocabulário pobre e sem assunto. Ou seja, já no texto se vê algo pobre.Na parte musical a mesma coisa, já que muita gente - e não só a nova geração que hoje está aí tocando - sequer conhece a história do próprio rock brasileiro. Ao contrário do que acontece fora, onde os artistas novos são cheios de referências que vão além do trivial. Aqui no Brasil o pessoal fica apenas no trivial e olha lá! Fora, se ouve na música referências de rock, folk, pop, soul, blues, country, soft, pub e tantos outros estilos. Aqui a ideia que os grupos novos (e artistas solos) passam é de que o rock começou com Nirvana, passa por Metallica e Red Hot Chili Peppers, e segue com Arctic Monkeys.
O roqueiro brasileiro não sabe o que aconteceu no rock brasileiro na década de 50, 60 e 70. Apenas algo raso como a Jovem Guarda com Roberto e Erasmo Carlos e os anos 70 com Mutantes e Secos e Molhados.
Ninguém sabe quem é Sérgio Murilo, Ronnie Cord, Demétrius, Albert Pavão, Baby Santiago e Getúlio Côrtes. O roqueiro brasileiro não sabe quais rocks foram gravados nos anos 50. Não sabe quem é Bob Bolão, Betinho e Seu Conjunto ou mesmo Celly e Tony Campello. É uma vergonha! Duvido que já tenha escutado, por exemplo, “Rock’n’Roll em Copacabana”, “Xaxado Rock”, “Rock do Saci”, “A Bruxa”, inclusive, “Rua Augusta”. Tirando o Magazine que gravou "Adivinhão" nos anos 80, nunca nenhuma banda brasileira revisitou esses primeiros rocks brasileiros, algo que, fora do Brasil, é feito.
Desconhece de todas as possibilidades que grupos como A Barca do Sol, Som Imaginário, Novos Baianos, Som Nosso de Cada Dia, O Terço, Sá Rodrix & Guarabyra, Ave Sangria e tantos outros que misturavam, com maestria, os ritmos brasileiros e a MPB com o rock.
Como uma pessoa que tem banda e luta por reconhecimento pode reclamar de não ter espaço, se ele próprio não conhece o que foi feito antes dele, salvo o trivial como Mutantes, Legião Urbana, Planet Hemp e Los Hermanos.Em meu feed no Instagram (só tenho FB e Instagram), surgem bandas novas por conta do algoritmo e dou atenção a todas elas. Mesmo sem segui-las, vou ao perfil, olho as postagens, procuro trecho de músicas (seja em ensaio, shows ou videoclipe), procuro entender o contexto, mas o que vejo é triste e até vergonhoso. Já vi banda dizer “se você gosta de Legião Urbana e Engenheiros do Hawaii, então escuta isso aqui” e começa a tocar uma composição tosca, de melodia pobre, letra rasa e que nada tem a ver com as referências ditas.
Já vi publicação de banda tocando no ensaio com a legenda fixa no vídeo dizendo “quem disse que o rock atual não tem qualidade?” com uma música ruim de doer, sem qualquer novidade, sem qualquer qualidade. Isso mostra o quanto essas bandas não conhecem nada que veio antes de Oasis ou Raimundos. Uma tristeza. Dá vergonha alheia.
Riffs pobres, batidas pobres, frases de baixo pobres, letras pobres e zero referência. Isso fica claro pra qualquer pessoa que, de fato, conhece o rock brasileiro.
Daí fica difícil qualquer pessoa influente ajudar, seja um produtor, uma gravadora ou um jornalista.
Quer fazer rock? Então comece a ler, adquirir conhecimento sobre o Brasil e o mundo sobre todas as áreas, vai atrás do que foi feito no Brasil, vai conhecer outros gêneros como a Soul Music que é riquíssima em relação a referências, e é a base de tudo.Só pra finalizar, imagine se Renato Russo, Rita Lee, Raul Seixas, Roberto Carlos, Arnaldo Antunes, Herbert Vianna, Zé Rodrix e tantos outros roqueiros brasileiros não gostassem de ler. O que seria de nós!?!
Se você quer tocar hoje, tem a obrigação de saber o que já foi feito e, se quiser fazer a diferença, precisa achar algo novo ou algo que realmente tenha relevância, até porque, depois de tudo o que já foi feito de bom nessas décadas todas, é preciso conhecer a fundo tudo para achar um caminho que traga alguma relevância para o que se faz hoje, caso contrário, largue a música.








